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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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           Manoel Hygino    manoelhygino@santacasabh.org.br

82616
Por Manoel Hygino - 23/8/2017 07:12:27
A ameaça que não para

Manoel Hygino

A troca de ameaças e a guerra de palavras entre os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte foram inseridas na pauta diária da mídia. Até onde o conflito verbal se ampara na realidade, eis a questão. Há uma diferença – Trump diz e desdiz, o coreano fica mudo e é irredutível. “Mas, o jornal de sua capital – o “Rodong Sinnum” – informou: “O caminho do grupo de Trump em continuar deste atoleiro só terá como consequência motivar mais nosso Exército e dar mais razões à República Popular Democrática da Coreia para possuir armas nucleares”. Confirma-se, portanto: o país ainda não tem domínio atômico.
Enquanto isso, ansiosamente se admite uma tragédia de dimensões insabidas (?). O ministro de Defesa do Japão informou que seu país poderia derrubar mísseis da Coreia do Norte, se o regime de Kim-Jong-Un disparar contra Guam, território americano no Pacífico. Mas seria uma emergência nacional, porque ameaçaria a própria existência do Japão como nação. No ano passado, lei estabeleceu que o país pode disparar armas em defesa dos EUA e de outros aliados sob ataque inimigo. As circunstâncias mudaram.
Os fatos não estão distantes. O governo militarista japonês, durante a II Grande Guerra, aliou-se à Alemanha e Itália em 1940 e ocupou a Indochina francesa no ano seguinte. Em dezembro de 1941, a esquadra norte-americana em Pearl Harbour, no Havaí, foi destruída pelo Japão, sem declaração de guerra, que tomou o Sudeste da Ásia e a maior parte do Pacífico Ocidental. Logo, seria derrotado pelos aliados. Houve a reconquista de Guam pelos EUA, após permanecer sob domínio nipônico, desde alguns dias antes do ataque a Pearl Harbour. O Japão perdeu, então, mais de dez mil soldados.
Em 9 de agosto de 1945, Nagasaki foi alvo do ataque nuclear de Tio Sam, com muitos milhares de mortes. O poeta Emanuel Medeiros Vieira lembrou que, em 6 de agosto, segunda-feira, 8h15 da manhã, a bomba já explodira em Hiroshima: a bomba, tão clara, exata, cirúrgica, bomba geométrica, certeira. A bomba vem do céu, mas não é ave. “A bomba vem de cima, mas não é Deus”. Em 2017, o prefeito de Nagasaki, Taue, em pedido emocionado, implorou a Tóquio que assine o tratado da ONU que proíbe as armas nucleares.
Para Taue, a posição do governo japonês: “é algo difícil de entender para os que vivem nas regiões afetadas pelos bombardeios nucleares, há 72 anos”. Tem razão. Em princípio de julho, foi celebrado o acordo e assinado o compromisso por 122 estados-membros da Organização das Nações Unidas. No momento, as potências nucleares – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China, França, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel – boicotaram as discussões, assim como o próprio Japão e a maioria dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. O que se há de pensar?
O sociólogo Paulo Delgado comentou: “O completo despreparo, a imprudência e os impulsos bélicos do ditador norte-coreano são bem espionados e documentados. Deixa à parte a triste sina dos que se encontram sob seu jugo; o realismo do xadrez internacional encontrou na dívida existencial que Pyongyang tem com Pequim o meio para impor limites aos devaneios que movem a espalhafatosa ditadura”. E as demais nações? E o mundo fica, mais uma vez, em suspense.


82613
Por Manoel Hygino - 22/8/2017 07:08:28

Um eclipse sem Alkmim

Manoel Hygino

Construída a partir de 1927, a mando do então presidente da República Washington Luís, a primeira penitenciária de Minas, na zona rural de Contagem, na Fazenda das Neves, com 925 hectares, só foi inaugurada em 1938, porque o sucessor, Getúlio Vargas, não conseguira antes agendar o ato.
No governo de Benedito Valadares em Minas, o autor da façanha e primeiro diretor da Penitenciária Agrícola de Neves foi José Maria Alkmim, nascido em Bocaiúva, provedor da Santa Casa de Belo Horizonte por 37 anos, secretário de Estado, deputado federal (ousou debater com Lacerda na tribuna da Câmara na antiga capital), ministro da Fazenda de Juscelino (seu antigo colega de trabalho na Imprensa Oficial), e um dos mais hábeis políticos da velha escola mineira.
Murilo Badaró, deputado, membro da Academia Mineira de Letras, que a presidiu, advertiu para os casos pitorescos e o anedotário, objeto de crônicas e publicações envolvendo Alkmim, homem de espírito aberto e de inteligência privilegiada. No Rio, capital da República, Tenório Cavalcanti, da antiga UDN, criticou em aparte o bocaiuvense, do PSD: “A política mineira está com urticária, quanto, mais se mexe, mais coça”. O orador, de imediato, respondeu. “Ainda bem que temos o bom antialérgico do civismo de nossa causa”.
Quando se anunciou um eclipse total do sol, em 20 de maio de 1947, a ser visto, especialmente, em Bocaiúva, correligionários e opositores disseram que se tratava certamente de alguma artimanha de Alkmim, que procurava dar evidência a seu próprio nome e de sua cidade natal.
Foi, indiscutivelmente, um acontecimento. Diversas expedições científicas se dirigiram para lá, para coleta de dados e estudos posteriores sobre o fenômeno, que poderia fornecer elementos ligados à desintegração atômica. Mais ganhava expressão, porque se vivia o vazio imediato ao pós-Segunda Guerra Mundial. A imprensa internacional se deslocou para a cidade norte-mineira e Bocaiúva passou à mídia, recebendo a maioria das delegações científicas. Os russos preferiram Araxá, mas o mau tempo não permitiu estudos.
Anunciara-se que o próprio Albert Einstein viria para analisar o fenômeno, mas o cientista desistiu da viagem no último momento. No entanto, o engenheiro e físico dos EUA, Lyman James Briggs, diretor do Nactional Geographic Society, e o astrônomo belgo-americano George Van Brisbroeck, estiveram em Bocaiúva e confirmaram a Teoria da Relatividade, em 1952.
Este último declarou: “Viajamos 10 mil quilômetros por ar, dos Estados Unidos da América e, em seguida, ocupadíssimos com os preparativos para observação do eclipse. Tivemos pouca oportunidade de sentir a vida em vosso grande país! Podeis ser testemunhas oculares do grande espetáculo que nos trouxe aqui”.
Neste agosto de tanto desgosto para os cidadãos brasileiros, houve outro eclipse, o do dia 21, desta vez sem Alkmim. A Nasa foi peremptória no comunicado: “O céu escurecerá por completo, a temperatura irá cair e será possível contemplar tanto as estrelas quanto a atmosfera do Sul...”
Tudo foi documentado com a máxima tecnologia. A lua ficou entre a Terra e o Sol, tapando-o por completo, acompanhado o fenômeno por onze satélites e cinquenta balões meteorológicos. Recolocou-se uma nave espacial que orbita a Lua, enquanto um Boeing 747 se
deslocava com cientistas a bordo. Na América do Sul, o eclipse foi parcial. Mesmo em Bocaiúva. Se Alkmim vivesse, talvez fosse total e visível.


82607
Por Manoel Hygino - 19/8/2017 07:06:43
O aniversário de Fidel

Manoel Hygino

Percorri todos os meios de comunicação disponíveis. Não encontrei a mínima referência a que, no dia 13 de agosto de 2017, Fidel Castro completaria 91 anos. O líder da Revolução Cubana confessara, em 2011, que nunca pensara “viver tanto”. Na ocasião, também disse: “Em breve, serei como os outros. A vez chega para todos”. E chegou.

Daqui dois anos, completam-se seis décadas de sua entrada triunfal em Havana, barbudo e à frente de doze mil outros barbudos, que tinham derrotado um exército de 80 mil homens. Em meio ao silêncio de agora, não se negará seu impressionante papel no século passado. Vitorioso em sua pátria, apoiou guerrilhas na Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Uruguai e Venezuela, além da África. Exerceu influência no Brasil e não poucos seguiram seu catecismo.

A revolução de Fidel “provocou (...) vontade de lutar, de ir para a montanha, empunhar um fuzil para tentar mudar as coisas”, disse Iván Marquez, outrora o número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farcs. Mas também no vizinho país, os rebeldes depuseram, bem recentemente, as armas após décadas de luta.

Li, não sei onde, que – em um país no qual o cristianismo se mistura aos cultos africanos – os cubanos atribuíam a Fidel a proteção do orixá/Obalalá, o deus todo poderoso. Tudo mudou, contudo. Muitos planos do período mais aceso da revolução falharam, como a criação de búfalos e a produção de queijos de qualidade, quando faltavam vacas na Ilha. Guantánamo segue território de Tio Sam, embora a prisão, quase vazia, lá permanece. ‘O que virá depois?’, mantém-se a pergunta, principalmente por se saber que Raúl, que sucedeu ao irmão no comando nacional, também deixará o governo em 2018. Esta a promessa.

Alina Fernández, a filha rebelde de Fidel, contou em livro que ele nasceu pela madrugada, sob o signo de Leão. Após consulta às estrelas, a mãe se ajoelhou, beijou a terra e disse: “Este é o único dos filhos que vai ser alguma coisa na vida”. Não foi batizado porque “era filho natural e nasceu bastardo”. O menino Fidel, junto com os irmãos mais velhos, viveu suas primeiras noites no barraco de palha ao Norte da fazenda em que sua avó Dominga e a mãe invocavam os espíritos protetores com uma vela em uma mão e um copo de água na outra, entoando ladainhas intermináveis.

Ao terminar, em 1998, o prefácio de seu livro, Alina registrou: “O que será de Cuba? Esta é a pergunta que me faço diariamente e para a qual ainda não há resposta”. Tanto tempo decorrido, morto Fidel, com novo e duvidoso presidente nos Estados Unidos, alonga-se a dúvida, mais cruel talvez porque Raúl deixará a liderança proximamente. O historiador inglês Richard Gott, mais tranquilo, opina: “Quando (Fidel) morrer, haverá pouca mudança em Cuba. Enquanto pouca gente via, a mudança já ocorreu”. Aqui, Stefan Salej observou: “Fidel fez história e não há como não se reconhecer isso. O que não quer dizer que ela é tão bonita e charmosa ou tão boa para o povo cubano, como foram os sonhos, o charme e esperança de tempos melhores que emanavam em 1959, quando tudo começou em Sierra Maestra”.


82605
Por Manoel Hygino - 18/8/2017 07:35:02
Acidente na São Paulo-Rio

Manoel Hygino

Serafim Jardim, incondicional amigo de Juscelino, guarda consigo depoimentos sobre o trágico dia 22 de agosto de 1976, em que o ex-presidente perdeu a vida ao voltar de São Paulo para o Rio de Janeiro, pela Fernão Dias.
As várias folhas com depoimentos foram passadas ao ex-deputado federal, filho do governador Ozanan Coelho e hoje provedor da Santa Casa de Belo Horizonte, Saulo Levindo Coelho. Os mais minuciosos processos sobre a morte de grandes líderes até hoje não são definitivos em resultados. Assim como o fuzilamento de John Kennedy, em Kansas, como a morte de Stalin; sequer o que envolve os últimos dias de Napoleão, em Santa Helena, com JK não é diferente.
O que se propalara era que o carro em que viajava Juscelino, dirigido pelo seu motorista Geraldo Ribeiro, teria colidido com um ônibus da Viação Cometa que fazia o percurso Rio-São Paulo. Na época, determinou-se: “Fica estabelecido o mais completo sigilo sobre o que destes autos conste ou vier a constar, a fim de que não venham a ser prejudicadas as investigações”.
O depoimento do guarda rodoviário Lafaiete Costa Bacelar nada afirma. Pelo contrário, diz: “Não notou a presença de nenhum coletivo, não tendo avistado nenhum deles quando lá chegou”, mas identificou o motorista do ônibus, Ladislau Sales. Segundo o declarante, “o auto de passeio havia atravessado o canteiro divisório da pista, indo colidir com o auto de carga”.
Leia-se o parágrafo: “Ouviram-se nestes autos nada menos de nove pessoas que se encontravam no ônibus como passageiros, sendo quatro (4) arrolados como testemunhas de acusação. Para eles, sem exceção, de forma uníssona e uniforme ao que há de essencial, afastam inteiramente a possibilidade de qualquer choque entre o ônibus e o Opala, fato que teriam fatalmente ouvido ou percebido, se na verdade tivesse acontecido”.
Depoimentos de passageiros do coletivo são contraditórios e contam que o veículo trafegava em velocidade normal de estrada. Mas Carlos Koehle declarou que “o motorista do coletivo não se conduzia como a maneira dos demais daquela empresa, eis que imprimia excessiva velocidade e seu modo de dirigir era “terrível”, fazendo ultrapassagens com incrível imprudência”.
Outro passageiro, Danilo Martins de Lima, afirmou não ter sentido nenhuma batida e nem ouviu de qualquer passageiro comentários a respeito. A perícia trabalhou longamente no caso, mas não conseguiu elucidar, ao que se informa, plenamente o acidente e suas causas.
O jornal “Estado de São Paulo”, em 24 de agosto de 1976, publicou: “Dois fatores aparecem como os mais prováveis entre a causa do acidente em que morreu o ex-presidente Juscelino Kubitschek e seu motorista. O seu motorista teria sofrido um mal súbito ou o veículo teria sido abalroado por um ônibus da Viação Cometa. Esta segunda hipótese é negada enfaticamente pelo chefe do tráfego da Cometa”.
A tradicional folha da capital paulista diz o suficiente em sua manchete: “Causa do acidente ainda é um mistério”. Pelo visto, permanece o enigma, 41 anos após.


82603
Por Manoel Hygino - 17/8/2017 08:13:32
Maradona, soldado em Caracas

Manoel Hygino

Os noticiários são amplos: a Venezuela ferve, o cidadão passa necessidade até na alimentação, milhares escapam pelas fronteiras. Pelas imagens da televisão, parece sentirmos cheiro de pólvora, ardem os olhos com os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.
De longe, não sei exatamente de onde, Maradona envia mensagem de apoio ao presidente Nicolás Maduro. Oferece-se como “soldado” da revolução bolivariana e “para combater o imperialismo. Nós somos chavistas até a morte. E quando Maduro ordenar, estarei vestido de soldado para libertar a Venezuela, para lutar contra aqueles que querem apoderar-se de nossas bandeiras, que é o mais sagrado que temos”, afirmou em página pessoal no Facebook. Maradona repete as bravatas de seu feitio e natureza. Apoiou a candidatura presidencial de Maduro em 2013, na Venezuela, ostenta no braço direito uma tatuagem com o rosto de Che Guevara. Para ele, Fidel era “como um pai”.
Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960, no modesto bairro de Villa Fiorito, em Lenús, na Grande Buenos Aires. Começou no futebol aos 9 anos no infantil de Los Cebollitos, com 15 foi contratado pelo Argentinos Juniors, da primeira divisão e, um ano após, estava na seleção nacional. Já começava a ser chamado de “El pibe de oro”, “o garoto de ouro”. Aos 17 anos, incluía-se entre os 25 melhores jogadores da Argentina e, em 1979, foi capitão da equipe que ganhou o Mundial Sub-20 no Japão. Em 1980, ingressou no Boca Juniors, um dos maiores clubes do país. Em 1984, no Nápoli, da Itália, brilhou ao conquistar dois campeonatos Italianos, uma Copa Itália, uma Copa UEFA e uma Supercopa, em 1990.
O seu auge como jogador foi na Copa do Mundo: conduziu à vitória da seleção argentina contra a Alemanha (3 a 2). No mesmo mundial, marcou contra a Inglaterra, nas quartas de final, dois de seus tentos mais memoráveis: o gol de mão que passou à posteridade como “a mão de deus”, e a jogada eleita como “o gol do século”: partindo do círculo central, driblou cinco rivais e também o goleiro antes de meter a bola na rede. O placar de 2 a 1 garantiu a eliminação da Inglaterra e representou, no plano simbólico, uma espécie de redenção para os argentinos, que tinham sido derrotados na Guerra das Malvinas quatro anos antes.
A relação de Maradona com as drogas se tornou pública em 1991, quando expulso do Nápoli após um teste antidoping por uso de cocaína. Voltou então à Espanha, jogando pelo Sevilla, e logo à Argentina para jogar pelo Newell’s Old Boys. O problema com as drogas voltaria a ser pesadelo na Copa de 1994 nos Estados Unidos; o antidoping detectou que ele havia utilizado efedrina e a FIFA o proibiu de jogar por um ano. A seleção argentina, que dependia muito de seu capitão, acabou sendo eliminada precocemente nas oitavas de final.
Para tratar-se contra as drogas foi recebido em Havana, daí a afeição por Fidel. De volta à pátria, desempenhou-se por poucos meses como técnico do pequeno Desportivo Mandiyú e, depois, do tradicional Racing Club. Em 1995, voltou ao Boca Juniors como jogador e esteve no clube até se aposentar definitivamente em outubro de 1997, dia do seu 37º aniversário. Em 2003, terminou seu casamento com Claudia Villafane, mãe de suas filhas Dalma e Giannina, embora ele tenha outros três filhos, hoje reconhecidos: Diego Júnior (1986), Jana (1996) e Diego Fernando (2013).
A esta altura do campeonato da vida, resta saber se o controverso Dom Diego vai deixar de ser treinador do Al Fujairah SC, dos
Emirados Árabes, onde evidentemente tem alto salário, para ser “soldado” ao lado de Nicolás Maduro, que não consegue alimentar sequer seus cidadãos. Além do mais, está com 57 anos e, com essa díade, meu pai faleceu.


82596
Por Manoel Hygino - 14/8/2017 07:08:34

Os alfarrábios de Lola

Manoel Hygino

O convite está à mão. Para lançamento do livro “Meus Alfarrábios”, de Lola Chaves, em 18 de agosto. Quem expediu: o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que, em parceria com a Secretaria de Municipal de Cultura, organizou o ato. Não poderiam faltar o Grupo de Serestas Amo-te Muito e o Grupo de Choro do Cerrado do Conservatório Lorenzo Fernandez, e direção musical de Luciano e Rachel Uchôa.
As informações possivelmente se prestassem mais à editoria de arte. Perfeitamente. Até porque o local da festiva reunião será o Centro Cultural Hermes de Paula, na Praça Dr. Chaves, em Montes Claros. A propósito, o desembargador Hélio Costa, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Estado, homem culto, poeta parnasiano, sentado ao meu lado, gostava de enfatizar a significação da cidade no âmbito da modinha e da seresta. Nem só Diamantina é seresteira. E o dr. Hélio, nascido em Sabará, excelente autor de discursos solenes, sabia das coisas.
Lola Chaves é filha de João Chaves, nascido em 1885, também poeta e compositor, que só não recebeu diploma na Escola Normal Oficial, porque o estabelecimento foi suprimido. Fundou um semanário “A Palavra”, onde publicou elogiados artigos e crônicas e seus primeiros versos. Tomou novos rumos no mapa, mas atuando como advogado e jornalista. Ao regressar, lançou “O Sol”, no mês de agosto, em 1914. Abriu um curso de música digno e dirigiu a primeira orquestra da cidade- não era banda. Isso há quase um século, época em que se elegeu vereador à Câmara Municipal.
Poesia e música impregnavam a individualidade do advogado-jornalista, que transmitiu como herança à descendência. Suas criações são ouvidas nas noites de serestas ou incluídas no repertório de grandes corais, como o Madrigal Renascentista. A modinha “Amo-te Muito”, um clássico no gênero, foi cantado no filme “Revolução em Vila Rica” e ele é autor de um livro de poesias, que não sei se editado. O grupo de serestas que ganhou seu nome tem percorrido terras daqui e do velho continente, apresentando-se com encantamento a exigentes plateias.
Lola Chaves é uma das filhas do querido bardo e exerce a curadoria de sua produção musical e literária, verdadeiras relíquias. Em junho, transferiu-se de vez a outro plano Lígia Chaves, a irmã, grande letrista e intérprete, autora de “Senhora de Guadalupe”, primorosa criação de fé. Foi uma tarde triste, mas serviu para receber demonstrações de carinho e amor. Junto à lousa simples que já abrigava o poeta, a esposa e três filhos, ouviu-se “Amo-te Muito” e “Tão longe, de mim distante”, esta de Bitencourt Sampaio. Em gravação, a própria Lígia se despediu com a música de sua autoria, diante de dezenas de pessoas consternadas.
João Chaves, o cidadão a que me refiro, pai de Lola, pertence à família que exerceu enorme influência intelectual, política e cultural na região. O patriarca Antônio Gonçalves Chaves foi governador de Santa Catarina, Espírito Santo e Minas, redator do capítulo do Direito de Família no Código Civil, elaborado por Clovis Bevilacqua. O próprio autor o classificava como “meu mestre”.
O que estará revelando a escritora Lola em seus “Alfarrábios?”


82592
Por Manoel Hygino - 12/8/2017 06:47:27
O segredo das Esmeraldas

Manoel Hygino

Até hoje paramos para pensar sobre este tempo que a nação atravessa como um grande barco num mar sob tempestade. Os mais variados adjetivos são arrolados para classificá-lo. Estarrecedor, foi a palavra encontrada nem sei mais por quem.
Luis Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal, opina que há grupos que não querem ser honestos “nem daqui para a frente” e defende mudanças para conter a corrupção. Há, assim, ainda quem entenda achar caminhos que evitem o caos total, do qual nos temos aproximado, à medida que se toma conhecimento de fatos novos extraídos do “imbróglio” cotidiano.
Grande parte da população do país não se interessa pelo que acontece, supondo que nada mais o cidadão comum pode fazer para conjurar o perigo. Nesta hora grave, é o que leio, o Congresso Nacional por nossos representantes discute, até com certa veemência, se a lei que criminaliza o funk merece aprovação.
Em Minas, o modo de se fazer pijama em Borda da Mata, no Sul de Minas, pode ser declarado Patrimônio Cultural do Estado, nos termos de projeto em tramitação na Assembleia. Embora se reconheça o município como capital nacional desta peça do vestuário, com ampla produção e venda, seria extemporânea a preocupação, com a devida vênia da boa gente da cidade. Como se julgará talvez inconveniente a providência adotada por Cajuri, na Zona da Mata, ao fazer empenho de verba para contratar uma banda de forró e duas duplas sertanejas para festejar nem sei o quê.
É inacreditável o que ocorre. Durante a votação da denúncia contra o presidente da República, um deputado, do SD-PA, foi flagrado escrevendo a uma mulher e pedindo que lhe enviasse fotos íntimas.
Os jornais publicaram o texto: “Mostra tua bunda, mostra, afinal não são suas profissões que a destacam como mulher”. O parlamentar tentou justificar-se, dizendo que uma pessoa lhe solicitara mais de 20 vezes para que tirasse a camisa e mostrasse a tatuagem no ombro direito. Sua Excelência explicou: “Como é que vou tirar a camisa? Tenho que respeitar as famílias brasileiras. Nós temos decoro parlamentar”.
Enquanto o Planalto se prepara para enfrentar a nova denúncia a ser apresentada pelo procurador-geral, a ex-presidente da República considera que Renan tem razão quando afirma que “Eduardo Cunha governa desde a prisão em Curitiba”. Como se toda troca de opiniões fosse exígua, Joesley Batista, da JBS, a que assistira à sessão da Câmara em São Paulo, julgava o episódio “trágico” para ao país.
O personagem, nascido em Goiás e um dos homens mais ricos do Brasil presentemente, acha que “2 de agosto ficou marcado como dia da vergonha”, embora sem se manifestar sobre sua própria situação nos fatos. Mas o Brasil já sabe quem ele é e o que seu grupo representa.
O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se surpreende com nova ação da Lava Jato, que investiga propina na Secretaria de Obras durante sua gestão. “A notícia me incomoda, decepciona e envergonha”, disse o ex-alcaide. No escritório da advogada Vanuza Sampaio, que forjava contratos fictícios, ela foi presa. Encontrara-se – dentre outros bens de valor e dinheiro – uma porção de esmeraldas. Tem, assim, mais sorte que o bandeirante Fernão Dias, que terminou morrendo sem localizar as pedras preciosas.
Sorte é sorte e a Sena não dá para todos.


82590
Por Manoel Hygino - 11/8/2017 07:40:06
Depois do petróleo

Manoel Hygino

Como será o Brasil depois do petróleo? Porque, em verdade, chegará o dia em que ele será dispensável. A época heroica do “petróleo é nosso”, que empolgou a juventude brasileira há poucas décadas, já virou pretérito. Lembra-se do tempo de Monteiro Lobato, buscando recursos para explorar o ouro negro fosse na Bahia ou em São Paulo. Escreveu um livro que se tornou famoso e passou uma temporada detrás das grades.
Chegará um tempo em que ter petróleo não é o que hoje ainda representa. A população da Venezuela vive em drama, mesmo com o potencial fantástico de petróleo de que dispõe. A Arábia Saudita e a Rússia não são felizes porque o têm. O Reino Unido continua às turras com a Argentina por se supor ali existirem reservas petrolíferas fantásticas.
Mas o carro elétrico para os táxis já está em teste em Belo Horizonte e, em vários países da Europa, já constitui uma realidade. Enquanto eclodia o maior escândalo do Brasil nos negócios públicos, envolvendo a Petrobras, cuidavam os países desenvolvidos de produzir sucedâneos para os derivados de petróleo. Há um longo caminho ainda a transpor, mas há perspectivas seguras de outras fontes energéticas disponíveis.
Há a teoria de que, a partir de 2013, a capacidade produtiva de petróleo não mais conseguiria acompanhar a demanda, pois – com a extração em declínio – se causariam sérios transtornos à civilização. Esta perspectiva foi defendida por Kuell Alekle, sueco, professor de física, astronomia e sistemas globais na Universidade de Uppsala.
Mas esse horizonte não foi considerado pelos países produtores e consumidores, que não podiam – nem podem – parar.
Os presidentes americanos George Bush e Barack Obama admitiram o momento em que a economia do mundo teria de ajustar-se à escassez de energia extraída das entranhas da Terra. O escritor Célio Pezza tratou do assunto e concluiu: “Nenhum governante quer ser chamado de profeta da desgraça por divulgar situação tão grave, de forma clara. Ela é uma sentença de morte para um estilo de vida comunista e capitalista, totalmente dependente do petróleo”. Daí, iniciativas múltiplas para dar solução ao problema, não tão distante quanto se imagina.
O Brasil está metido no “imbróglio” e não tem como escapar. Tanto é verdade que energia amplia o espectro de atenção das autoridades. A produção de hidráulica não estagnou os estudos para a fonte eólica ou térmica. As frotas de veículos não deixam de aumentar, seja de caminhões ou de automóveis.
E brasileiro não abre mão de celular, praia, futebol e um carro.
Na Arábia já se ensina aos mais jovens: “O meu pai andava de camelo, eu ando de carro. O meu filho anda de avião, o filho dele andará de camelo”. É o que não se quer na terra descoberta por Pedro Álvares, muito maior em extensão que a dos sauditas.
Quanto a escândalos, chega o da Petrobras, que tanto arruinou o nosso prestígio em níveis interno e internacional.


82577
Por Manoel Hygino - 9/8/2017 07:10:34
Brasil: problemas e atrações

Manoel Hygino

A União, nas vozes de Temer e do ministro Raul Jungmann, da Defesa, garantiu que as Forças Armadas manterão seus dispositivos no Rio de Janeiro para enfrentar a insegurança pública. São 8.500 homens da Marinha, Aeronáutica e Exército, além de 600 homens da Força Nacional, 380 da Polícia Rodoviária e outros. Decreto autoriza expressamente ações em todo o Estado do Rio, embora o foco seja a região metropolitana.
Estamos plenamente de acordo. A cidade e o Estado do Rio de Janeiro precisam oferecer segurança aos que lá residem, trabalham ou visitam. A cidade, para ser efetivamente maravilhosa, exige tranquilidade. Nos tempos mais recentes, os brasileiros têm até receio de ir ao Rio de Janeiro, e o amplo e minucioso noticiário da mídia o justifica suficientemente.
Ouvi pela televisão: A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio deflagraram ‘Operação Calabar’, que investiga o envolvimento de PMs com traficantes em São Gonçalo, a segunda maior cidade do Estado. O objetivo foi cumprir mandados de prisão contra 96 PMs e 70 acusados de envolvimento com o tráfico de drogas, “inclusive sequestrando bandidos para receber resgate”. Os militares eram lotados no Batalhão de São Gonçalo entre 2014 e 2016 e suspeitos de receberem propina, chamada de “meta”, além da venda de armas para 41 comunidades.
A propina seria paga semanalmente. O inquérito começou com a prisão de um traficante que delatou o esquema. Gravações telefônicas e imagens de vídeos com os policiais recebendo dinheiro
foram incluídos no processo. O nome da operação faz referência a Calabar, considerado traidor na história brasileira.
A esta altura, como deve sentir-se o vencedor da Mega-Sena de R$ 107 milhões, no último sábado de julho? O sortudo investiu R$ 3,50 num jogo em uma lotérica de favela e foi o vencedor sozinho do prêmio. Seria um padeiro que tem prazo certo para receber a bolada: 90 dias.
É triste constatar, como o advogado Petrônio Braz, que “a violência deixou de ser um fato localizado nos grandes centros. Não existe mais cidade ou campo, vida urbana ou rural imune às suas consequências. A falta de segurança transformou a população ordeira e laboriosa em refém dos criminosos, em todo o território nacional...”.
O Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde informa, a propósito divulgou, que os atentados terroristas registrados nos cinco primeiros meses de 2017 não superam a quantidade de homicídios registrados no Brasil em três semanas de 2015. Os cálculos mostraram que, em 498 ataques, 3.314 pessoas morreram. A comparação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, após divulgar o Atlas da Violência 2017.
Mesmo assim, ainda há quem queira visitar o país.
Nossa população foi considerada “a mais legal” do mundo pela CNN Travel. Sem os brasileiros, o planeta não teria oportunidade de conhecer o samba e o Carnaval do Rio, e nas praias os corpos malhados, desfilando com pequenos trajes de banho.
Outro motivo é o futebol, mas o tempo de Pelé, Garrincha e Ronaldo, ficou para trás.


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Por Manoel Hygino - 8/8/2017 07:12:50
Venezuela: o perigo está perto

Manoel Hygino

O ininterrupto noticiário dos meios de comunicação em todo o mundo leva a uma indesviável pergunta: a Venezuela está em pé de guerra? As sucessivas manifestações, de que informa em cores e até ao vivo a televisão, oferece um panorama do drama que se vive mais ao Norte.
Detentor da quinta maior reserva petrolífera do planeta, nos últimos tempos a Venezuela vive sob ameaça de ruptura institucional, embora se possa afirmar que é já neste clima que se passaram os anos mais recentes. O ápice está em 2017, quando militares e grupos paramilitares tentam conter pela força a população.
Apesar de tudo, a oposição é forte e ousa enfrentar o governo de Nicolás Maduro, que sucedeu a Hugo Chávez, depois de sua morte por câncer, em Cuba, em que fora tratar-se. Com as garantias constitucionais interrompidas, com multidões nas ruas em protesto por tudo que lhe foi subtraído, desde a liberdade de imprensa ao papel higiênico, o presidente em exercício procurou uma saída com convocação de uma Assembleia Constituinte. Caberia a esta elaborar uma nova Carta Magna, mas o cidadão quer algo mais prático, viável e urgente, a começar pela alimentação que já falta. Pesquisas demonstram que cada homem e mulher do país perdeu oito quilos de peso pelas dificuldades ora experimentadas.
Sem respaldo da maioria dos países democráticos, com imensas dívidas acumuladas, sem apoio agora do Mercosul, cujos membros exigem anulação da Constituinte aprovada há poucos dias, Caracas verdadeiramente está em um beco sem saída. Domingo, dia 6, houve uma tentativa sem sucesso, de levante militar no Forte de Paramacay, no estado de Carabobo.
O chanceler uruguaio, Rodolfo Novoa, enfatiza que o Mercosul quer pressionar o governo venezuelano a que mude os seus rumos, considerados não democráticos. O Palácio de Miraflores, pois, não conta mais com apoio continental, restrito apenas a Cuba e Guatemala, a que oferece petróleo em condições especialíssimas.
Sem apoio Legislativo, contando com um arsenal poderosíssimo comprado à Rússia, em época de vacas gordas, e com a disposição governamental de contrapor-se às oposições e aos reclamos de um povo, Caracas reconhece que milhares de cidadãos escaparam pelas fronteiras para sobreviver. As perspectivas são sombrias.
Sem embargo, Maduro, buscando consolidação no poder e o socialismo do século 21, insiste em seu projeto. Novas eleições para governador foram convocadas para 10 de dezembro, enquanto o pleito presidencial está agendado para o fim de 2018, embora a futura Constituição possa mudar o calendário.
Não haverá, sabe-se, tranquilidade. Maduro garante que “irá pôr ordem” no país, mas 500 opositores estão presos. A procuradora Luísa Ortega foi destituída do cargo e substituída, enquanto os mortos nos enfrentamentos populares contra a polícia e paramilitares chegam a além de uma centena.
Mais de mil são os feridos, alguns ainda internados.
Nós estamos na proximidade do fogo. O brasileiro Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, dá um conselho: “O Brasil precisa se preparar para a chegada de um número cada vez maior de refugiados”, embora também tenhamos nossos problemas.



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Por Manoel Hygino - 5/8/2017 07:35:11
Por um mundo mais justo

Manoel Hygino

Enquanto no Brasil se engalfinha na complicada refrega para sair do pântano em que se afundou, volto os olhos para tempos antigos. Há cerca de dois mil anos, viveu um judeu, cujo nascimento e vida até hoje são motivos de dúvidas e discussões, mas também de fé e de esperança para milhões.
Socorro-me com Allen Secher, conselheiro de um grupo de diálogo judeu-cristão, em Chicago, que trabalha em apoio e educação a 550 casais inter-religiosos. Aliás, ele é produtor de televisão e já ganhou sete Emmys, o mais recente um especial sobre a resistência em Auschwitz, apresentado por Ellen Burstyn, ganhadora do Oscar.
Comparo o Brasil de hoje às primeiras décadas do século I. Assim como nosso país não é o que nossos dirigentes prometeram, o mundo dos judeus não era o que Deus tinha prometido; estava ainda mais longe de ser o “reino” perfeito, objeto de tantos anúncios e anseios. Em ensaio, Secher alinha argumentos: os judeus sofriam sob severa dominação romana, seu mundo estava marcado por uma amarga desolação. “Um por cento da população – os dirigentes e a aristocracia – controlava a maioria das propriedades. Parte da terra estava nas mãos da pequena classe alta, dos sacerdotes e dos mercadores”.
Havia mais: “... o pouco que restava era submetido a pesados impostos por Roma e por déspotas locais, em sobreposição aos dízimos tradicionais necessários à manutenção do templo.” Não há alguma semelhança? “As pessoas viam suas terras ancestrais passar às mãos de estrangeiros devido às dívidas que contraíram para pagar tributos. Seu mundo se caracterizava pela pobreza, pela opressão e pela injustiça”.
Daí, as perguntas que se faziam: “Onde estava Deus? Por que ele não aparecia para resgatá-los?” O ensaísta comenta: “Não admira que Jesus tenha sido inspirado a compor uma oração que pedia pão e o cancelamento das dívidas!’.’
Mas Jesus, nascido num local distante e em meio a gente comum da região, tinha ideias próprias e avançadas sobre o momento crítico, nesse cenário de devastação e de desespero. Ele ouvira os sonhos dos profetas por um mundo melhor.
Secher escreve: “Nos ensinamentos de seus precursores naTorá, ele vê as instruções para criar tal mundo. De pé no alto da montanha, ele exclama que o reino de Deus está próximo, que chegou o tempo da redenção: que os deprimidos conhecerão dias melhores; que os enlutados serão consolados; que os famintos podem esperar ter a barriga cheia; que os ricos terão seu merecido castigo; e que os pacificadores terão a primazia. Em consequência, ele conclama: não percais as esperanças, porque todos haveremos de participar do mundo mais justo que Deus prometeu. Mas diz ele, há coisas a fazer para que isso aconteça, e ele começa a esboçar essas ações”.
Não se pode apenas criticar ou omitir-se. Cada um terá de dar a sua parte, a sua contribuição, por menor que seja para a construção geral. A injustiça flagrante não é apenas individual ou pessoal, mas sistêmica e estrutural.
O Dalai Lana completaria por mim o raciocínio:
“Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro se chama amanhã.
Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”.


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Por Manoel Hygino - 4/8/2017 07:05:27
Em favor da cultura

Manoel Hygino

A despeito da crise, que serve de argumento a mazelas causadas pela omissão de determinadas áreas do poder público, é dever registrar a permanência do Suplemento, criado por Murilo Rubião e cujos números 1.370 e 1.371 (vou escrever a respeito em outro comentário) acabam de sair pela Imprensa Oficial (IO) de Minas Gerais. Podem deles se orgulhar o secretário de Estado da Cultura, Angelo Oswaldo, seu ex-diretor, o subsecretário da IO, Tancredo Antônio Naves. É uma publicação que honra nossos foros de cultura e de letras, cujo prestígio se aferirá pelo rol de colaboradores de outros estados.
Mas não me omito com relação a Memória Cult, revista que circula graças à dedicação de Eugênio Ferraz, diretor-executivo e editor-geral, que lançou recentemente seu número 21, também acessado eletronicamente. Responsável pela publicação, membro do IHGB e do IHGMG, ele foi superintendente em Minas da Receita Federal e diretor-geral da Imprensa Oficial, prestando expressivos serviços nas áreas de cultura, história e artes.
Confirma-se, deste modo, que nem tudo se perdeu e que mais de útil está a caminho. No novo número da Revista, comparece o desembargador Herbert Carneiro, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ex-presidente da Amagis, que tanto colaborou para a consecução de importantes projetos culturais. Entre eles, a própria Memória do Judiciário e a bela revista da entidade.
Anuncia-se o lançamento de “Ortografia Amorosa”, de Bruno Terra Dias, juiz de direito, que percorreu Minas Gerais como promotor, delegado de polícia e bancário. Tem muito o que contar, portanto.
O jornalista Mauro Werkema presta homenagem a Roque Camello, ex-prefeito de Mariana, advogado, idealizador do Dia de Minas, presidente da Academia Marianense de Letras. A morte prematura de Roque surpreendeu e entristeceu. Silvestre Gorgulho evoca Lúcio Costa, autor do projeto de construção de Brasília, e José Aparecido é lembrado mais uma vez por sua presença e atuação nos círculos culturais brasileiros.
Zenoni Neves escreve sobre a paixão de sua vida, o rio São Francisco, para enfatizar que hoje há em Belo Horizonte o Museu Antropológico, com um projeto pedagógico de relevo, que precisa ser conhecido pelos mineiros e por quantos nos visitam. José Renato de Castro César publica artigo sobre o Museu do Índio, que dispõe de equipe do mais alto nível visando preservar um belo acervo para a cultura brasileira.
Geraldo Veloso inclui bela matéria sobre “A Memória Telegráfica”, que focaliza Abelardo Carvalho, garoto de Iguatama que fez um filme. E Veloso, escritor, produtor e diretor de cinema, coordenador do Consórcio Mineiro de Audiovisual, fala de cátedra.
Finalmente, mais dois preciosos textos: de Yvone de Souza Grossi, sobre escravos libertos das Minas Gerais do século XIX, e Marcos Paulo de Souza Miranda, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande, sobre pedras e símbolos em Minas Gerais. São, de fato, documentos que merecem leitura e rigorosa guarda.


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Por Manoel Hygino - 2/8/2017 07:41:37
O sonho com Portugal

Manoel Hygino

Assim como Pedro, o Álvares Cabral, descobriu o Brasil há mais de cinco séculos, os brasileiros estão descobrindo Portugal desde a virada do centênio passado. Sonha-se e planeja-se ir a Portugal, para passeio, para estudos, para congressos, para viver. Não sem razão o ex-presidente Sarney tem mansão lá, e outros aqui nascidos e os chineses estão investindo no mercado imobiliário luso.
Quanto a mim, sonhei com o “The Literary Man” – que pretensão! – um hotel literário localizado em Óbidos, cidade medieval do interior de Portugal, que tem livros em vários ambientes. Um castelo no alto de um morro abriga 30 quartos, restaurantes, biblioterapia e relax, com uma coleção de 45 mil obras e livrarias.
Ao que ouvi dizer, há ainda um cardápio com comida tradicional portuguesa, Tapas da Terra e do Mar, menus literários, pratos vegetarianos e carta de vinhos raros. Há, também, um Gin bar, que oferece coquetéis literários, uma coleção de gins priores com tônica e cubos de gelo originais, feitos com aromas bios da horta. Vê-se que se trata de um lugar para cultor das letras de país algum botar defeito.
Mas, o escritor Ronaldo Cagiano, nascido em Cataguases, após dez anos em São Paulo e 28 em Brasília, aposentado na Caixa Federal, em 2016, após 35 anos de trabalho e 37 de contribuição previdenciária, decidiu mudar-se com Eltânia, também escritora, para buscar a tranquilidade que por aqui se tornou rara. Confessa-se, agora, em porto seguro.
O primeiro mês foi em Lisboa, até conseguir um imóvel em São Pedro do Estoril, a dez quilômetros do centro da capital. “O apartamento fica a 50 metros da estação e a natureza em redor tem sido nossa aliada nessa busca de qualidade de vida e tudo que contribui para nosso processo de leitura e criação”.
A mudança foi resultado de longa meditação. Nos últimos três anos em São Paulo, o casal foi vítima de dois assaltos à mão armada, além de, em julho de 2016, um sequestro relâmpago.
A descrição diz muito.
“Nosso carro foi tomado por três bandidos armados na saída da loja Leroy Merlin, na marginal Pinheiros. Eles nos levaram a um cativeiro numa favela e por quase três horas, sob mira de armas, fomos obrigados a entregar todos os nossos 4 cartões bancários (conta corrente, poupança e cartões de crédito e respectivas senhas) e, enquanto nos mantinham sob pavor, sacaram de nossas contas, além de roubarem o que tínhamos no carro e nos bolsos...”
“Essa experiência derradeira (fomos soltos e com vida por milagre, porque os bandidos conseguiram o intento) foi a pá de cal de nossa permanência no país”... Não só: a derrocada do sistema político-administrativo-social também influenciou a transferência. “Por isso vai alargando mais o fosso entre classes, gerador da miséria e da violência crescente”. Mas há uma deixa: “que a literatura continue a ser a ponte para saltarmos por cima desses escombros e realizar o verdadeiro salto dialético, porque é o único território, como dizia Hortrop Frye”.
Muitos pensarão como Ronaldo e Eltane. Já estão inventando meios para percurso de volta de Cabral (falo de Pedro Álvares) há quinhentos anos. Só posso, contudo, lamentar que a viagem do nosso conspício e apreciado Artur Almeida, da TV Globo Minas, não tenha colhido os objetivos da alma. Ele encantou, e volta agora ao seu torrão para último abrigo.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2017 07:31:13
Os caminhos de José Américo

Manoel Hygino

O desembargador Rogério Medeiros lembrou, há dias, José Américo de Almeida, que poucos saberão exatamente, hoje, quem seja ou o que representou. Nascido em Umbuzeiro, na Paraíba, há 130 anos, foi um dos maiores vultos da história brasileira no século que ficou para trás.
Segundo o magistrado, José Américo era padrinho de casamento de seus avós maternos, João Maurício e Neusa. Pelos anos 1970, a vovó o levava, ainda menino, durante as férias em João Pessoa, a visitar o já velho político. Conta: “Viúvo, solitário, reflexivo, modesto e aposentado, morava na famosa casa da Praia de Tambaú. Ele achava aquilo enfadonho”.
Depois de viver no Rio de Janeiro, José Américo, que em 1937, concorreria à presidência da República, apoiado por Getúlio Vargas, candidatou-se, em 1950, ao governo do Estado. E se elegeu. Os adversários e inimigos políticos não perderam oportunidade de alfinetá-lo: “Depois de ficar no Rio de Janeiro, no bem-bom, José Américo quer voltar por cima!”. Política é assim, principalmente no Nordeste em que as rivalidades são intensas, de longa duração e, até, transmitidas geração a geração.
José Américo, escritor, pioneiro da literatura regional nordestina, com a “A Bagaceira”, não esquecia seus desafetos e decepções, quando se sentia melindrado. No caso específico de suas ligações com Vargas, achava que este o fizera candidato à sucessão presidencial, mas já urdira o golpe que instituiu o Estado Novo. Em resumo, o paraibano fora passado para trás.
Mesmo assim, ambos venceram à sua maneira os “curtos quinze anos”, que antecederam ao fim da Segunda Grande Guerra e a restauração aqui do regime democrático. Deste modo, viu-se nomeado ministro de Viação e Obras Públicas e ministro do Tribunal de Contas da União.
Sobre o primeiro cargo, fez publicar dois trabalhos: “O Ministério da Viação no Governo Provisório”, 1933, e “O Ciclo Revolucionário no Ministério da Viação”, no ano seguinte.
Nas cidades brasileiras, no final dos anos 30, quando se anunciou a candidatura de José Américo, foguetes espocaram nas praças públicas, mas o projeto de chegar ao Catete gorou.
Deu uma longa entrevista à imprensa escrita do Rio de Janeiro (naquela época, não existia televisão) no ocaso da ditadura, em 1945. Ela soou como o “fim de uma época”. Somadas suas declarações à repercussão do Manifesto dos Mineiros, em 1943, ampliavam-se as ideias de um tempo novo para a nação, até porque José Américo defendia a liberdade de imprensa, o que era impossível de se admitir até então. Os dois documentos causaram comoção nos arraiais políticos.
O paraibano se revelava um homem corajoso, defendendo pontos de vista e posições.
Em 1954, diante da crise pós-Toneleros, foi favorável à renúncia de Getúlio, mas não esperava o suicídio em 24 de agosto. Ouvido sobre a reforma agrária, até hoje um projeto aparentemente quimérico, José Américo foi peremptório. Era contra, assim como com referência à distribuição das terras junto aos açudes, sustentando que essas construções só beneficiavam os grandes proprietários nordestinos.
De José Américo, Medeiros guardou dois conceitos básicos: “O mau juiz é o pior dos homens” e “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde no caminho de volta”.


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Por Manoel Hygino - 29/7/2017 08:27:43
Em termos de prioridade

Manoel Hygino

Recebo a mensagem com a lição de Pitágoras: “Educai as crianças para evitardes punir os adultos”. O ensinamento atravessou séculos, muitos, mas chefes de Estado e de governos não aprenderam. Não lhes era conveniente.
Não tão longe no tempo, o antropólogo Darcy Ribeiro advertiu, em 1982, quando visitou nossa terra natal, Montes Claros, após exílio: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.
Assim, é; assim tem sido; assim será, se não houver mudança na definição de rumos na administração pública. O premier Ben Gurion, de Israel, há décadas, ensinava: “Governar é definir prioridades”. No caso do Brasil, em todas as camadas da população, há um consenso: educação, saúde e segurança pública, primeiramente. Sem elas, não se conseguirá uma sociedade tranquila, saudável e produtiva.
Sem embargo, o dinheiro é curto como o cobertor dos pobres. É incapaz de proteger os pés e a cabeça, a um só tempo. Tudo leva ao sofrimento, sobretudo nas noites de frio, como as de julho deste ano, em que, mais uma vez, moradores de rua perderam a vida por força da hipotermia.
Mas unidades escolares, em cidades brasileiras, estão sendo depredadas por vândalos, que no fundo são criminosos. Faltam recursos para proteção dos prédios, seus móveis, seus equipamentos, os próprios professores e funcionários são agredidos. Um quadro doloroso sob todos os aspectos, mas a que não se dá a imprescindível atenção, dadas a extensão e complexidade dos problemas, e à falta de recursos, pelos menos para estes itens.
No Rio de Janeiro, em que a população enfrenta a criminalidade permanente, os problemas serão resolvidos. Não arrefece o interesse do turista diante da sucessão de assaltos nas matas da Tijuca ou nas belas praias de Copacabana. Se o estrangeiro perde a vida, como o argentino assassinado por um grupo de rapazes, são percalços da sorte. Ou de sua falta.
Escolas não faltarão. Tanto é verdade que prefeito do Rio assinou acordo com a Liga Independente das Escolas... de Samba. Graças a isso, assegurou-se, desde já repasse de R$ 13 milhões para as agremiações cariocas. Cada uma das treze escolas receberá R$ 1 milhão em cinco parcelas até novembro. É metade do que receberam neste ano, mas enfim... escola não pode parar. Agora se apela ao governo federal e ao patrocínio do empresariado, que patrioticamente darão sua contribuição, espera-se.
Diante da inabalável convicção, o presidente da Liga mencionada, Jorge Luiz, foi ao presidente Temer, para apresentar-lhe a solicitação de mais R$ 13 milhões, necessários às escolas no ano que vem. Conforme disse, o chefe do Executivo nacional teria garantido a participação, o que indignou aqueles que se contrapuseram ao aumento dos impostos sobre combustíveis para fechamento das contas públicas. Sá Leitão, novo ministro da Cultura, confirmou que o presidente lhe pediu deferir a demanda. Educação em primeiro lugar. E ela começa na escola.


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Por Manoel Hygino - 28/7/2017 07:32:58
A sofrida América do Sul

Manoel Hygino

Custa imensamente em suor, lágrimas, e talvez sangue, manter uma nação igualitária, democrática. É assim mesmo. Os jornais têm divulgado com frequência o preço de manutenção dos três poderes, sem que os objetivos do Estado sejam alcançados. Mas, o povão inclusive é lembrado indesviavelmente no momento das eleições e já se pensa em 2018. Como será? Como seria? Como se desejaria que fosse?
Mas, estamos em momento especialmente difícil na América do Sul e, por extensão, à América Central, porque se assiste ao desenrolar perigoso de uma situação que pode resultar em guerra civil na Venezuela. Evidentemente esta não interessa àquele povo vizinho, tampouco às demais nações latino-americanas. Enquanto isso, o jornalista Clovis Rossi, da Folha de S. Paulo, comenta que a “diplomacia brasileira já se prepara para um cenário de guerra”. Não é o que parece.
Diz Rossi: “Toca, ele (Maduro, o presidente) os tambores de guerra”. É profundamente lastimável que não se consiga viver em paz e se evolua para um conflito, que ceifará inúmeras vidas e levará a nação ao Norte a piores dias. Cerca de uma centena de venezuelanos já perderam a vida e milhares se refugiaram do lado de cá da fronteira, na Colômbia e na Guiana, suponho. Já temos problemas demais, e sérios, no Brasil.
O panorama atual é sintomático e altamente preocupante, não apenas para os responsáveis pela gestão dos negócios públicos. O cidadão está incomodado, inquieto. Carlos Alberto Sardenberg, examinando a outra face da moeda, adverte: cada deputado federal custa R$ 6,5 milhões por ano à nação. Um senador, sobe para R$ 33 milhões, e são 81 membros na Câmara Alta do Parlamento.
Para tudo, há solução. A propósito, revista de circulação nacional informa que “as 60 camas, do tipo box, que a Câmara está comprando para a Câmara dos Deputados, custarão R$ 80 mil, 48 no modelo queen size e 12 king size”. Explica-se: “a aquisição é necessária para se assegurar a habitabilidade das residências funcionais dos deputados”.
Ora, o número de camas é muito inferior ao de parlamentares. Só alguns terão o benefício? Há falta de igualdade no fornecimento do móvel a suas excelências? Ou gozam de preferências os laboriosos, os diligentes e os atentos ao seu papel na sociedade?
Indispensável propiciar condições adequadas aos nobres parlamentares. No último dia 25, aliás, o site da mesma revista Época destacou que o Senado “fechou contrato para alugar 85 carros zero-quilômetro” para os senadores, secretário-geral da Mesa, diretor-geral e segurança do presidente Eunício Oliveira.
O contrato durará 30 meses e os custos com manutenção, combustível e seguro dos automóveis se incluem no preço. Dois veículos são especiais, com 250 cavalos de potência, ar-condicionado com duas poltronas, película antivandalismo, central multimídia com tela touch e rádio integrado, leitor de CD, MP3, GPS, DVD, Bluetooth e USB. Há também câmera de ré e comando no volante. O aluguel é de R$ 9.300,00 por mês. Enfim, eles nos representam, devem merecer! Quanto à Venezuela, é outro problema.


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Por Manoel Hygino - 26/7/2017 07:23:14
O futuro em jogo

Manoel Hygino

Os altos salários em escalões superiores dos três poderes no país chamam a atenção do contribuinte, alertado na imprensa pelo pouco que sobra para os funcionários de nível inferior. Não só os salários, mas os privilégios que se acumulam na folha de rendimentos mediante vantagens e benesses.
A desigualdade é flagrante e grave, não podendo servir, contudo, de estímulo àqueles que só pretendem as bondades da viúva, isto é, da nação, que já anda mal das pernas. Basta conferir o furo já elevadíssimo no orçamento do presente exercício. Não sem motivo, a União elevou os tributos sobre combustíveis e outros mais poderão vir.
Estamos num beco com pouca iluminação, enquanto todos procuram luz. Tempo para a violência, que termina por ferir os bons e os maus, os certos e os errados. Nesta hora difícil são indispensáveis bom senso, discernimento e espírito público sem os quais não encontramos o melhor caminho. Quem acompanha os tempos de agora sabe que não há exagero nestas considerações. Matamo-nos, uns aos outros, em todas as horas, por motivos de somenos importância ou sem qualquer razão. As estatísticas não mais surpreendem, porque assustam. Estamos em guerra, que abre vias ao hediondo e ao horrendo, estampados interminavelmente pela mídia.
Marcelo Eduardo Freitas, delegado da Polícia Federal e professor da Academia Nacional de Polícia, citou números de arrepiar. Nos cinco anos da gestão anterior a Temer, foram assassinados quase 300 mil brasileiros, metade deles jovens e pobres. Outros 250 mil foram esmagados na impunidade do trânsito.
Mencionada autoridade reitera o aconselhamento: “Uma sociedade se corrige com educação, gênero do qual a instrução é espécie (educação religiosa, educação escolar, educação familiar, etc.) e, precipuamente, com a eliminação da desigualdade entre as pessoas. Não sem razão, assim, sociedades prósperas, quando desiguais, também são extremamente violentas. O remédio, por conseguinte, não virá a curto prazo. É preciso persistência”.
Percebe-se a complexidade e gravidade do período em que há notória e compreensível instabilidade na gestão dos negócios de Estado. Não é alentador o faz de conta de que tudo vai bem, que ora enfrentamos.
Como me referi a uma autoridade, concluo o raciocínio com ideias suas: “portanto, nos aprece que, enquanto não corrigidos os rumos de nossa república, alternativa não nos resta senão o encarceramento de criminosos contumazes, incluídos, por óbvio, aqueles que desviam recursos públicos, lesam o erário, ocasionando, por consequência, um estridente genocídio à brasileira, não perceptível aos olhos dos menos atentos”.
Não sem razão, desta maneira, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, afirmou em recente entrevista: “Os assaltantes do erário são os meliantes mais prejudiciais à ideia de vida civilizada. O dinheiro que desce pelo ralo da corrupção – sistemicamente, enquadrilhadamente –, é o que falta para o Estado desempenhar bem o seu papel no plano da infraestrutura econômica, social, prestação de serviços públicos, educação de qualidade, saúde. O assaltante do erário, no fundo, é um genocida. É o bandido número um”.
Mas há inúmeros outros por todo o território. São mais de 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados.


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Por Manoel Hygino - 25/7/2017 07:02:53
O Brasil em dois tempos

Manoel Hygino

Um poeta amigo escreveu, há dias: “Em meus 72 anos de vida – mesmo sofrendo na carne a crueldade de uma ditadura de 21 anos – poucas vezes enxerguei um mundo tão violento, cruel, cínico e sem esperança”.
Outro amigo, lembrando época passada, observou em mensagem: “nada melhor do que achar que a felicidade era poder cantar uma canção censurada de Geraldo Vandré, comprar um disco do burguês Chico Buarque, ou Caetano Veloso – pelado na capa, fatos que me pesaram na contestação do regime militar”.
De nada valia a vida tranquila, que nos permitia atravessar a cidade a qualquer hora da noite, em bandos adolescentes, sem nenhum perigo, a não ser de algum cachorro bravo solto na rua, sem riscos de assalto ou de perda da vida por alguma bala perdida.
Ninguém, em nosso grupo de adolescentes, usava drogas ou mesmo conhecia algo estupefaciente além de Bacardi com Coca-Cola, limão e gelo, ou o danoso “rabo-de-galo”, mistura de cachaça, Cortezano e licor de pequi. Outros jovens eram mais liberais, afinal vínhamos da contracultura, que teve seu auge nos anos 60, mas eles se limitavam a um visual diferente, cabeludos, de roupas coloridas, à espera da Era de Aquarius, na base da “paz e amor” e “faça amor, não faça a guerra”.
O tempo não parou e surgiu um outro quadro. “Não há mais censura, usar drogas não dá mais cadeia, bolsas diversas sustentam mais de 36 milhões de famílias e as faculdades formam milhares de doutores,
especialmente advogados. A gente pode cantar qualquer canção, acabou-se a indústria da música de protesto e ficar pelado não escandaliza mais. Gays se beijam em público e até se casam; virgindade é só na oração Mariana; existe a Lei da Palmada, as leis de cotas, e outras tantas em defesa da igualdade formal, que um desavisado acharia que esta nação caminha para ser o melhor dos mundos.
Há mais: “da casa murada, com alarmes, concertinas e cercas elétricas, ouvem-se as sirenes do Corpo de Bombeiros e do SAMU, em socorro às vítimas de uma guerra civil não declarada, nas cidades e campos, que mata mais de 60.000 brasileiros por ano, oficialmente. Mais que isso, só no trânsito. Antes, temíamos o guarda da esquina. Hoje, o medo está em toda parte”.
Ele, o medo, é “dos encapuzados que depredam lojas e o patrimônio público, de índios que interrompem as estradas e cobram pedágios, dos sem-terra que não respeitam a propriedade privada, do grampeamento sem controle por agentes do Estado, da bandidagem que nada teme e se organiza em facções, formando seus exércitos”.
E conclui o missivista em questão: “Há certo desalento, um desgosto com o rumo das coisas. Todos queremos democracia, que não se confunde com baderna. Queremos segurança e saúde. Melhorias na educação. Bandidos na cadeia. O império da lei e governantes honestos. Não é muito, mas o suficiente para garantia da liberdade, banindo para sempre os fantasmas totalitários, da esquerda ou direita”.
Leio e medito com os dois brasileiros que me escreveram.


82552
Por Manoel Hygino - 24/7/2017 08:15:57

Mais um Vargas que cai

Manoel Hygino

Os jornais do país divulgaram que, no dia 17 de julho último, encontrou-se em Porto Alegre, no apartamento em que residia, o corpo de Getúlio Dornelles Vargas Neto, 61 anos. Matou-se com um tiro na cabeça, quase 63 anos após o suicídio do avô, no Palácio do Catete, naquela manhã jamais esquecida de 24 de agosto, em 1954. O ato final e trágico poderia, talvez, ter produzido uma revolução, consideradas as motivações. A nação estremeceu.
O Neto, um dos fundadores do PDT, deixou um bilhete, de texto ainda não revelado. Ele administrava os negócios da família e lhe sobreviveu a mulher, servidora pública aposentada, Denise Carneiro, além de quatro filhos de dois casamentos anteriores, um dos quais morava com ele, mas estava em viagem.
Juntam-se os pormenores. O presidente Getúlio se matou aos 72 anos (no dia do aniversário de outro filho – Getulinho), com um tiro no peito, versão contestada por Virgínia Lane. Manoel Vargas, Maneco, filho do ex-presidente e pai do novo Getúlio, deu um tiro também no peito, aos 79 anos, em 15 de janeiro de 1997, em Itaqui, RS.
O personagem que sai de cena neste sétimo mês de 2017 é lembrado por Juremir Machado da Silva, historiador e romancista, nascido em Santana do Livramento, do outro lado da praça está, Rivera, já Uruguai.
O autor gaúcho lembra que Getúlio era o primeiro neto do líder da Revolução de 1930. Admirador loquaz do pai e do avô, na medida em que um Vargas possa ser loquaz, era fazendeiro em Itaqui, palmilhando a cada dia as terras dos Vargas. Namorou a política, mas desistiu: sonhava com uma plataforma comum aos partidos sem donos, a ser exercida por quem, graças ao prestígio ou ao carisma, vencesse as eleições”. Carregava consigo no rosto, na testa, no corpo inteiro, o jeito dos Vargas.
Há muito mistério em toda a saga dos Vargas, que se ampliou pela descendência. Maneco, o suicida 2, deixou um texto sobre as mulheres fortes da família, a começar por Dona Candoca, a esposa do general Manuel do Nascimento Vargas, a mãe de Gegê, a matriarca.
“Tudo se bifurca, novas gerações espalham seus ramos e recomeça o que nunca cessou, a forja da vida, a arte do esquecimento pelo trabalho da reconstrução, com suas lembranças, distorções e novas velhas histórias. Getúlio permanece como um velho urubu a dar sombra e guarida a umas e outras, conciliando o inconciliável e tramando os pontos de um laço cada vez mais esgarçado e comprido”.
Por detrás ou sob tudo, talvez “os rastros discretos ou não de algumas mulheres, unidas aos Vargas por sangue, amor, paixão ou ódio”, como registrou Juremir, referindo-se a um antigo texto de Maneco. A mensagem final do mais novo da família que tão tragicamente deixou a vida pode trazer – ou não – alguma revelação nesse emaranhado de autoextermínios nunca suficientemente esclarecidos, até por motivos compreensíveis.
Virgínia Lane (eu escrevo a respeito em livro sobre o tema) é peremptória no caso de Getúlio Dornelles Vargas, o que foi presidente do Brasil: “Vou levar para o túmulo o que sei. Eu estava no Catete no dia da morte. Eu sei tudo. Não teve suicídio nenhum. Eu ouvi o primeiro tiro. Entrei no quarto. Getúlio estava de bruços. Morreu com
um tiro na nuca. Ninguém se mata com um tiro na nuca. Sei quem foi e não posso dizer”.


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Por Manoel Hygino - 22/7/2017 07:34:38
O Rio que não virou pesadelo

Manoel Hygino

O Rio de Janeiro se vai transformando, se já não se transformou, em um grande pesadelo para seus administradores e sua própria população. A gente do Estado e a Cidade Maravilhosa, além dos visitantes desejosos de conhecer a beleza do patrimônio que a Natureza esculpiu em montanhas e mar, sentem a falta de segurança nos bairros elegantes ou na Baixada Fluminense.
Os guias turísticos impressos ou os roteiros divulgados pelos meios eletrônicos de comunicação são valiosos. Mas haja cuidado para não se tomar caminho errado e entrar em terreno dominado pelo crime organizado, com ênfase pela traficância.
Rio não é só praia, não só Copacabana, os badalos das exibições artísticas, sequer o Carnaval e o Baile dos Enxutos, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, o desfile do Cordão do Bola Preta, as óperas no Municipal, a vista ao Hipódromo da Gávea, o Porto das Barcas, a Lagoa Rodrigo de Freitas...
Tudo depende de cada um, de seus gostos, de sua formação, projetos e inclinações. O jornalista Paulo Narciso, mineiro de Montes Claros, duas vezes Prêmio Esso, descreveu dias na Cidade Maravilhosa, de Vinícius de Morais e Noel Rosa.
“Fui ao Rio cumprir alguns deveres: fazer preces no Mosteiro de São Bento, conhecer, ainda que de fora, os estúdios gloriosos da Rádio Nacional, que atingiu, em 2016, a cumeeira dos 80 anos. E, rever, o Forte de Copacabana, agora museu, o Paço Imperial (com nenhuma lembrança do que lá se passou), a Quinta da Boa Vista, que abrigou a única Coroa europeia nas Américas, o Jardim Botânico e, de novo, meditar nos aposentos do autocídio de Getúlio. Tudo muito abandonado, do ponto de vista da história”.
“Os aposentos de Getúlio, onde se imolou, estão a poucos metros de uma pipoqueira fixa, na entrada de um cinema térreo. Creio que Getúlio a custo se esquiva dos piruás que descuidadosamente miram a sua, e nossa, memória, num dos lances mais pungentes. O paroxismo, afrontado por pipocas e piruás. No Paço Imperial, diminuta placa recorda, aos procuradores mais diligentes, a Janela do Fico e a Janela da Lei Áurea, na antessala do Trono, também esquecida. Sugere que nada aconteceu ali, que somos não um povo, mas um acampamento descuidado”.
Há muito, pois, a ver no Rio de Janeiro, não simplesmente no que tange à pauta alegre, aos jogos no Maracanã, às promoções de toda natureza, exposições, apresentações de cantores e grupos artísticos de renome internacional. A história do Brasil habita o Rio de Janeiro.
Nas proximidades da Praça Paris e da qual lhe é próxima a que recebeu o nome de Gandhi ou na rua do Ouvidor, ou junto ao Hotel Serrador, outrora ponto de referência de hóspedes ilustres, há um mundo que merece respeito e revela belezas de uma época que não morreu; por ali, nas vizinhanças, havia o antigo prédio do Senado Federal, casa parlamentar em que Machado de Assis assistia às reuniões e fazia a notícia para as folhas. Mudou o cenário imponente.
O tempo, sim, não parou, mas o que ficou do passado não é pretérito, a não ser para os que não querem conhecer a história. Est mestra da vida, permanece. Os discípulos, todos nós, deveríamos extrair lições que nos guiarão no decorrer da existência, embora se lhe dê tão pouco significado presentemente.


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Por Manoel Hygino - 21/7/2017 07:15:12
O esperado Brasil Grande

Manoel Hygino

Três nomes: Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens. Com eles, Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Associação Nacional de Escritores, dentre outras entidades de prestígio nos círculos literários do Brasil, nos brinda com as quase cem páginas de seu novo livro.
Sim: três nomes, uma centena de páginas, através das quais o escritor e jornalista mineiro, nascido em Mariana e ex-redator da Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República desde o tempo do Catete, evoca três personalidades da história brasileira no século passado. Um carioca – Augusto, dois mineiros – Juscelino e Odilon –, respectivamente de Diamantina e Muriaé, são lembrados com afeição e admiração quando o menino da primeira capital das Minas Gerais, estudava no Ginásio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto.
Não se trata de um mero volume laudatório sobre três brasileiros, dos quais se guardam amáveis e até belas reminiscências, mas também restrições com que era recebido o escritor da Cidade Maravilhosa.
Danilo Gomes, com a verve peculiar e com a facilidade verbal dos bons cronistas, os evoca, em um volume que oferece “a olho nu, a força e a beleza da escrita como arte de poucos para muitos”.
Danilo também nos traz episódios que o emocionaram, personagens inimitáveis, como o poeta Alphonsus de Guimaraens, nascido em Ouro Preto, em 1870, e falecido em Mariana, em 1921, onde foi sepultado, inicialmente no modesto cemitério da igreja de Nossa Senhora do Rosário. Juscelino, governador, tomou a iniciativa de erguer-lhe um mausoléu de mármore no Cemitério de Santana, para o qual foram transferidos os restos mortais do excelente Alphonsus. Na inauguração, presidente JK, o orador oficial foi Schmidt. Uma peça inesquecível, de um poeta, até hoje não compreendido como devia.
As cem páginas do novo livro de Danilo (a quem se devem trabalhos como “Mineiridade que sobrevive ao tempo”, exatamente pelos 80 anos de Alphonsus Filho, em 1998), são prova da missão que ele cumpre na crônica, com linguagem coloquial, refinamentos e sutilezas. Um pormenor deve ser ressaltado. O cuidado do autor no que tange a Schmidt, alvo em sua época de críticas e constrangimentos no ambiente político, pelo contingente que formava a “esquerda tupiniquim”. Uma bela publicação que há de ser lida com sentimento de gratidão ao trio focalizado.
Danilo não perde o ensejo para também homenagear os escritores brasileiros que, no passado, se dedicaram à crônica, e aqueles outros que, presentemente, ocupam preciosos espaços nos jornais. Entre eles, Anderson Braga Horta, de pai e mãe também poetas, nascido em Carangola, que teve a sorte de conhecer Schmidt em um programa da Universidade de Cultura Popular, de Gilson Amado, na TV Continental, no Rio de Janeiro. Anderson registrou a promessa do vate carioca, homem também de empreendimentos: “Vamos criar o Brasil Grande. Grande mesmo”.


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Por Manoel Hygino - 19/7/2017 07:06:05
A hora da Justiça concisa

Manoel Hygino

Há algum tempo, o professor Antônio Álvares da Silva comentou a lentidão com que se fazem as investigações sobre homicídios no Brasil. Quem tem tempo de assistir aos programas de televisão, ouvirá as severas críticas dos apresentadores ao que acontece entre nós. Sem estabelecimentos penitenciários suficientes e para recuperação de menores infratores, trata-se de liberar rapidamente o preso, ou suspeito, que retorna à rua para delinquência.
São fatos verdadeiros, que não alcançam apenas os criminosos comuns. Estamos assistindo, em âmbito político a semelhante ou igual espetáculo, a que a mídia dá especial atenção por motivos óbvios. Faltam até as tornozeleiras. O professor Álvares lembrou que, até 2007, foram abertas 20 mil investigações sobre homicídios, embora mais da metade não se concluísse.
Em Minas e Rio, 52% dos casos estavam sem autoria apurada. Evidentemente, o número terá crescido expressivamente, porque a onda de violência ampliou-se no país do Norte a Sul. Não há exceção. A penetração dos bandos de criminosos, procedentes de São Paulo principalmente, nos ataques a postos bancários, se tornou notícia permanente em todas as folhas, nos vídeos e nas rádios.
Para Antônio Álvares, “não é hora de buscar culpados. A omissão provém de uma sequência de governos, que não souberam, na hora certa, enfrentar o problema, que se acumulou. Agora, o resultado aí está. Mata-se como se estivéssemos numa guerra civil”.
Creio que jamais os brasileiros se ligaram à comunicação quanto agora. As pessoas saem apressadamente de suas repartições e escritórios para assistir aos debates nas casas do Congresso ou nas sessões dos tribunais. O cidadão quer pelo menos saber o que ocorre e como se julga, já que não pode influir nas sentenças.
De uma hora para outra, os juízes de um modo geral, os magistrados, se tornaram singularmente importantes para o cidadão comum. Eles são julgados por suas sentenças ou pelas declarações à imprensa de um modo geral.
Sem embargo, chama atenção a extensão das audiências e dos votos dos juízes. No TSE, no processo da chapa Dilma-Temer, somava 8 mil as páginas com o voto do relator. Segundo o jornalista Ruy Castro, da Folha de S. Paulo, isto representava mais que... “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, do “Ulisses”, de James Joyce, e do “Grande Serão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e sem o prazer de leitura que estas obras-primas propiciam.
Quem perde é a Justiça, em termos de reconhecimento público, e a nação, que acompanha a morosidade na aplicação da lei. As tentativas de mudar o quadro não evoluem. O desembargador Rogério Medeiros, lembrou Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu, ministro do Supremo e seu presidente. Ele defendeu um Poder Judiciário, “sem firulas”, sem floreios, sem rapapés”. Mas há julgadores, que se inclinam à “cultura da prolixidade”.
Ruy insinuou: “A ciência das leis nos ensina a resolver problemas de Direito, não a decifrar charada. Esta é para os ladinos. Ou antes, é das tais que só os autores deslindam”. Para êxito da Justiça, o magistrado há de ser claro, preciso, direto, objetivo e conciso. Nada de enrolação, diria o cidadão comum.


82536
Por Manoel Hygino - 17/7/2017 07:40:15
A Coreia e a dupla sertaneja

Manoel Hygino

Na reunião do G-20, na Alemanha, os presidentes Putin e Trump, da Rússia e dos Estados Unidos, mantiveram um encontro à parte com duração de mais de duas horas. Embora tratassem da suposta interferência de hackers russos nas eleições de Tio Sam, é evidente que outros temas relevantes foram discutidos. Deve ter sido um diálogo muito interessante, sobre o qual não sabemos, o que desejaríamos.
Entre os assuntos, evidentemente, as atitudes e posicionamento bélico da Coreia do Norte, cujo maluquete presidente insiste em produzir um supermíssil capaz de atingir a Califórnia. São dois líderes mundiais, e segundo Wittgenstein, “o mundo é a totalidade dos fatos”. E nele estamos todos incluídos.
Não se pode, contudo, falar sobre Coreia do Norte, sem nos lembrarmos da vizinha do Sul, inimiga daquela há longos anos. É que, entre outros aspectos, aquela cuja capital é Seul, vive horas difíceis e semelhantes às nossas. Lá, como cá, altas autoridades se viram envolvidas em problemas de corrupção, que enormemente têm dado assunto pesado para os jornais.
No dia 30 de março, a presidente sul-coreana, Park Geun-hye, foi presa após impeachment no dia 10. Ela era suspeita de atuar com uma amiga, uma espécie de Rasputin feminino, para subornar grandes conglomerados industriais. Transformou-se em um Deus nos acuda no país, como não poderia deixar de ser, com multidões percorrendo as ruas exigindo seu afastamento.
Aconteceu

A Corte Distrital Central de Seul, em comunicado, usou linguagem muito semelhante às imagens que emanam de Brasília: “É reconhecido que existe uma razão e necessidade para prisão, já que as principais acusações foram constatadas, e há risco de que evidências sejam destruídas”.
Na Coreia do Sul, altas autoridades vão a julgamento com menos entraves ou dificuldades jurídicas do que aqui. A sessão da Corte, que analisou o pedido de prisão formalizado pelo Ministério Público, durou oito horas e 40 minutos, a mais longa na história do país. Como era de se esperar, a presidente negou atuar para suborno de empresas, e que ela não representava risco à investigação, pois não tentaria fugir ou destruir provas.
Pelo sim, pelo não, Park foi levada para penitenciária de Gyeonggi, a 24 quilômetros da capital. Por sinal, já ali se encontrava Choi Soon sil, a amiga acusada de extorquir doações de grandes conglomerados empresariais como Samsung e LG, além de interferir em decisões do governo, em que jamais ocupou cargos.
A investigação concluiu que Park obtivera quase US$70 milhões de empresas para duas fundações controladas por Choi em troca de favores políticos. Ali e lá, más pessoas há, nas altas esferas da administração pública.
Temos de convir com o escritor Emanuel Medeiros Vieira, de Santa Catarina, que presentemente habita Salvador, BA: “Por aqui, já não basta a dupla sertaneja Joesley e Wesley, patrocinada pelo BNDES, Caixa Econômica e outras instituições dominadas pelo gangstarismo e pelo banditismo, que estão ou estavam no topo da República” Emanuel não mede palavras, pelo que se observa. E tem razões suficientes.


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Por Manoel Hygino - 15/7/2017 13:31:18
O novo ano da fumaça

Manoel Hygino

Os dias excessivamente frígidos de julho não foram os primeiros na crônica mineira. As noites se estenderam pelas horas das manhãs seguintes. Apanharam-se os agasalhos nos guarda-roupas e os cobertores nos armários para mitigar o desconforto das baixas temperaturas e o vento às vezes uivantes das longas madrugadas.

O espetáculo do dia assaz preguiçoso em luz e calor solares lembraria o Ano da Fumaça, cuja notícia nem sempre é encontrada em compêndios escolares. A espessa neblina que, então, tomou conta de grandes regiões e atingiu o sertão além das veredas, adoeceu muitos e assustou os supersticiosos. A ameaça vinha da natureza, esse tempo escuro, até de tremura, prenúncio de amarguras.

Na capital federal, impenitentes debates, agressividade às vezes, igualmente lembrariam o Ano da Fumaça, que desceu sobre as Minas e as Gerais em 1833, a partir de março. Naquele dia, mês e ano, um grupo político da província, alcunhado de caramuru ou restaurador, tomou o poder em Ouro Preto, a capital, destituindo o presidente Melo e Sousa, e seu vice Bernardo Pereira de Vasconcelos e baixando medidas drásticas.

A revolta do Ano da Fumaça se alongou até 23 de maio, com o governo intruso instalado em Vila Rica. Admitia-se que o grupo pretendesse a volta de Pedro I à Coroa, após a abdicação de 7 de abril de 1831. Podia... São João del-Rei se tornou a capital de Minas, por dois meses, sob Vasconcelos e Melo e Sousa.

Naquela primeira metade do século XIX, diz Marcos Ferreira de Andrade, “o império brasileiro atravessava um período de instabilidade política, de mudanças e aprovações de novas leis e códigos que interferiam na relação das províncias com o poder central, além das disputas entre os grupamentos políticos com seus respectivos projetos de nação, ainda em debate e construção”.

Mutatis mutandis, os fatos se repetem 184 anos após. Não mais o “império brasileiro”, sim a república proclamada em 1889, mas também o Brasil de 2017, que atravessa “um período de instabilidade política, de mudanças e aprovação de novas leis e códigos...”.

Eis aí apenas minguada parte do problema que a nação atravessa, com o cidadão não entendendo exatamente o que acontece e o pior – o que tem pela frente. Não há dúvida de que se trata do “maior escândalo de corrupção de todos os tempos”, como divulgou, em junho passado, o “The Guardian”, em Londres.

Perdemos o senso crítico, a ética anda rasteira, lá no pântano, confundindo os brasileiros, que sonham com dias honestos e mais felizes, amando com fé e orgulho a terra em que nascemos. Por agora, vivemos o novo ano da fumaça até no caráter. Para o periódico da capital britânica, quer-se “políticos mais limpos e respeitadores da lei”, mas não só os políticos, evidentemente.

Dos dias atuais no Brasil, poder-se-ia dizer que se assemelham à Síria, atormentada pela guerra que soma anos e já deixou cerca de 500 mil mortos. Aqui, não há perspectiva de paz, sequer de trégua, tamanho o caos no qual desembarcamos. Os grandes culpados se dizem inocentes, nos muitos partidos ou fora deles. Não há pessimismo, mas o futuro, a pequeno e médio prazos é incerto e desfavorável. Quem viver, confirmará.


82528
Por Manoel Hygino - 14/7/2017 07:39:59
Em um dia, três presidentes

Manoel Hygino

Os fatos são vertiginosos. A imprensa escrita, isto é, os jornais, sai em desvantagem com os meios de comunicação eletrônicos, cujos repórteres fazem o que podem para não falharem e levarem furo. Brasília se tornou o centro dos acontecimentos políticos mais do que nunca e para lá se volta a atenção do país. Não poderia deixar de ser assim.
O presidente da República, com cabelos mais brancos do que quando assumiu o governo, segura o andor – de um lado e de outro – porque o santo é de barro. Como, aliás, a própria chefia do Executivo nacional, com um ministério extremamente vulnerável a delações, acusações, suspeições.
Durante dias, o pêndulo que segura o tempo no Planalto pendia para um lado ou outro: sai Temer, não sai Temer; assume Maia, não assume Maia; qual o parecer do relator sobre a denúncia a ser investigada a pedido de Janot? Qual o escore? Difícil país, o nosso, cuja governabilidade se põe em dúvida, a cada dia. Como será o Brasil das próximas horas? O que nos está reservado?
O “Financial Times” previa, no sexto mês deste ano, que – “após apresentar uma leve recuperação em seus indicadores econômicos, indicando uma saída da maior crise da história do país, o Brasil deve voltar à recessão”.
Lamentável expectativa, quando não incômoda ou inquietante. “O Brasil é o problema (do continente), diz Ed Jones, autor do referido estudo no “Financial”. “Até março, o país se recuperava um pouco, mas nos últimos meses voltamos a vê-lo se afundando novamente”. Para outro analista, o que acontece “está associado ao aprofundamento da crise política”.
Que pode o cidadão fazer diante da dúvida e do infortúnio? Não nos incluímos, por exemplo, entre os países mais felizes do mundo, pois perdemos cinco posições. “Venturosos, pela ordem, são Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça e Finlândia”.
A nação mais poderosa do mundo – EUA – está em 14ª posição. Curiosamente, não há referência à China, mas na América Latina o primeiro lugar em felicidade coube a Costa Rica (11ª em todo o ranking natal), seguida por Chile (20º), Brasil (22º), Argentina (24º) e México (25º). Paraguai ficou na lanterninha.
De todo modo, não falta quem possa exercer a chefia do Executivo nacional. Em julho, sábado, tivemos 3 presidentes da República, lembrando os três de novembro de 1955: Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos. Em 2017, até o fim da manhã, Eunício Oliveira, presidente do Senado, era também o da República, porque o titular – Temer – estava na Alemanha, para a reunião do G20.
De volta da Argentina, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, primeiro na linha sucessória, regressou da Argentina, cerca de 11 horas. Temer, às duas da tarde, volta da Europa e entra no espaço aéreo brasileiro, passando automaticamente ao exercício do cargo.
O mais engraçado, porém, me é enviado pelo acadêmico Danilo Gomes, que encontrou a frase não sei onde: “O Brasil é feito por nós. Só falta agora, desatá-los”. A outra poderia ser de Guimarães Rosa: “Junto dos bãos é que a gente fica mió”. É uma questão de escolha e a hora é chegada. E tenho certeza de que o cidadão honesto deste país que ficar quer ficar ao lado dos bons.


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Por Manoel Hygino - 12/7/2017 07:23:24
O frio de nossa época... no Brasil

Manoel Hygino

Frio como não se sentia há décadas, não só em Belo Horizonte como em toda Minas, incluindo o nosso sertão. Os dados fornecidos pela meteorologia e transmitidos pela mídia, com ênfase pela montesclaros.com, causam espanto no Norte do Estado, quase assombro.
Frio até abaixo de zero no Sul do Estado, como em Monte Verde e Maria da Fé, temperatura própria às geadas, embora a capital alterosa não ficasse muito distante: no dia 4, terça-feira, a massa polar fez registrar 6.1 graus, a menor temperatura desde 1975. Com sensação térmica de 9 graus negativos, Belo Horizonte foi a mais gelada do Brasil, fazendo-nos lembrar Montevidéu em que vivi anos atrás, na praça em que se instalou o mausoléu de homenagem a Artigas, o herói nacional.
Em meio à frigidez, uma pesquisa mostrava que a expectativa de vida do brasileiro pode chegar a 83 anos, levando-se em conta as estatísticas de óbito entre 2014 e 2016. Evidentemente, se não se contarem as vítimas de balas perdidas no Estado do Rio e os que falecerem subitamente com as incessantes e patéticas novidades no ambiente político. Os sobreviventes brasileiros, se aposentados, talvez recebam a primeira metade do abono de Natal na folha de agosto, como prometeu o presidente Temer.
Quanto a mim, temo pelo oitavo mês, em que se matou Vargas no Catete, em 24, ou renunciou ao cargo Jânio Quadros, no 25º dia de agosto de 1961, Dia do Soldado, oito meses após a posse e a condecoração a Che Guevara. Muitas pedras, pois, no meio do caminho do Brasil, enquanto o presidente da República fazia de conta que tudo ia bem, durante a reunião do G20, na Alemanha.
O frígido tempo que atravessamos na primeira quinzena de julho nos evoca a saudade do sol, como tão bem manifestou Ibsen, em sua obra. Em “Espectros”, que João Cheschiatti apresentou aos belo-horizontinos em época de grande interesse pelo teatro do dramaturgo norueguês, o personagem Oswaldo morre, como Goethe, “pedindo luz”.
Minha única irmã, que sentia grande inclinação pela construção teatral do autor norueguês, impressionava-se com os personagens de Ibsen, apelando ao sol, à luz, e ao calor ,que nos faltaram com força tropical nos dias recentes.
Do notável autor nórdico – e em sua pátria, esteve, há pouco, o presidente Michel Temer – o conjunto de claro e escuro é como um espetáculo mágico dos mundos escandinavos: um paradoxo de sol, nas trevas da meia-noite. É algo que nos encanta, mesmo quando se assiste pela televisão.
Há um pouco de Brasil no pensamento de Ibsen, em sua obra, tão pouco conhecida entre nós, pois sequer “Casa de Bonecas” vem sendo reapresentada por aqui. De todo modo, como escreveu Raul Machado, há tempos atrás, o autor, nos domínios da arte, acredita na possibilidade de melhoria da sociedade, pela simples redenção intelectual e moral do indivíduo. A melhoria parece, falecendo no Brasil, porque se crê que a redenção do indivíduo só se faz mediante uma reforma da organização social. No entanto, a finalidade é a mesma; só a fórmula diverge.


82521
Por Manoel Hygino - 11/7/2017 07:17:43
O impeachment de Getúlio

Manoel Hygino

No dia 29 de junho, a Academia Mineira de Letras recebeu o jornalista, professor e escritor Edmilson Caminha. Ele veio para a conferência “O mergulho de Pedro Nava na condição humana”. Nascido em Fortaleza, CE, membro do PEN Club do Brasil, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil, diretor de Cursos da ANE – Associação Nacional de Escritores sabe a respeito dos escritores e políticos mineiros mais do que muitos de nós, que temos berço nas alterosas.
Pelo próprio tema da conferência, isto é, Pedro Nava, se perceberá seu interesse pelos autores das montanhas, dos quais se aproximou e muito conhece, dedicando-lhes muitas de suas crônicas e livros. Aliás, como redator do Congresso Nacional, onde se aposentou, Edmilson muito aprendeu sobre a gente mineira.
Em seu mais recente livro, “O poeta Carlos & outros Drummonds”, ele mergulha sobre e na vida do vale e cronista itabirano, com a leveza de texto que é uma das virtudes de seu sempre agradável texto. Revela, por exemplo, que, na certidão de nascimento do poeta, faltou o sobrenome “Drummond”, com que se perenizou.
No volume, que acaba de ser editado pela Thesaurus, de Brasília, Edmilson lembra que, em 16 de junho de 1954, encerrou-se na Câmara dos Deputados, o processo de impeachment de Vargas, por sinal o primeiro no Brasil a que se submeteu um chefe de Estado.
Curiosamente, o autor da iniciativa não foi um parlamentar, mas Wilson Leite Passos, jovem jornalista de 28 anos, um dos fundadores da UDN-União Democrática Nacional. Na apuração, 136 votos contra 35 a favor e abstenções. Motivo: Getúlio fora acusado de favorecer a empresa jornalística “Última Hora”, atuando, no Palácio do catete, por uma “república sindicalista”.
Drummond, cronista do “Correio da Manhã”, comentou o fato político com o cuidado típico de sua personalidade, não simplesmente por ter servido ao governo como chefe de gabinete do Gustavo Capanema, ministro da Educação.
Para o itabirano, o impeachment era uma “admirável arma do cidadão”, por alertar aos que, no exercício do alto cargo público, incorresse em erro grave. Mas, o redator, que escrevera numerosas crônicas para o “Minas Gerais”, não perde o ensejo para advertir que a palavra não significa impedimento, como até hoje se traduz.
De fato, o vocábulo quer dizer “denúncia, acusação levada ao corpo legislativo, ou, segundo a Enciclopédia Britânica, forma judicial do processo parlamentar contra criminosos”. Faz a defesa das democracias, da liberdade de pensamento e da opinião, sem o que se cai no “parlamento unânime, este sim, perfeitamente inútil por não ser mis parlamento”.
Em seu comentário, formula a pergunta: por que não se traduz impeachment, inclusive para que o povo participe mais ativamente do seu desenvolvimento? Com esse termo pedante, será difícil explicar o instituto ao homem simples que apenas lê jornal ou ouve rádio, e que dirá com seus botões: “isso é coisa de americano”.
Para Drummond, o processo “intimida a autoridade em seus maus desígnios ou na sua tendência ao abuso”. Em todo caso, ficou também a lição: o termo impeachment, segundo a Constituição, é acusação e julgamento, como aliás disposto na Lei 1.079, que regula a matéria.
Para finalizar, sugestão: a leitura do novo livro de Edmilson, que ensina muito sobre o poeta maior, nosso conterrâneo de, na cidade que não pode ser um retrato na parede.


82518
Por Manoel Hygino - 10/7/2017 07:17:58
As lições de um grande ditador

Manoel Hygino

Já é julho, começamos a segunda metade de 2017. Pelo visto e admitido, será um semestre novamente de grandes turbulências, como preconizam os ares do viver humano. Os graves problemas não foram resolvidos, por motivos vários, inclusive os de natureza moral e ética. Jornalista amigo meu me enviou algumas linhas que muito dizem: “Não só na esfera política que o Brasil se pôs de cócoras; no setor privado, naquilo que é cotidiano e privado, como dizia o Manifesto dos mineiros, a nação também está agachada, corrompida: já não há palavra sendo cumprida, nem gente que trabalhe com a consciência de que servir, honradamente, é elevado privilégio, estágio superior da consciência moral. Vamos ter de recomeçar do zero. Porém, nossa fé – como na música,- não deve se cansar... Deus... tenha pena de nós, nesse tempo de políticos tão ilimitadamente desonestos, em todos os sentidos”.
O pensamento nos obriga meditar e extrair lições – para o segundo semestre e para o futuro, a curto e médio prazos nada encantadores. A geração de hoje tem grave responsabilidade e há de assumi-la, se quiser que não seja execrada pelas que virão.
Não me sai da memória a mensagem de Charles Chaplin, a mensagem do genial vulto do cinema, nascido em Londres no ano da proclamação da República no Brasil. Filho de artistas de vaudeville, tinha cinco anos quando estreou no palco. Em turnê pelos Estados Unidos em 1913, um ano antes do início da 1ª Guerra Mundial, foi controlado por Mack Sennett. Só em 1914 fez 35 filmes, dirigindo a maior parte deles. Plateias de todo o mundo consagraram-no a partir de então. De regresso à Europa, depois de tornar-se difícil sua permanência nos EUA por suas posições políticas, dirigiu grandes filmes, entre os quais “O Grande Ditador”.
Para se ter uma ideia mais precisa do ali contido, seria interessante uma releitura dos textos com o posicionamento do personagem central da história narrada. Ali, diz:
“O caminho da vida pode ser de liberdade e de beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.
É uma peça, pois, do mais alto sentido social e humano, de abrangência universal. Mais adiante, nossa linha de raciocínio, faz uma pelo à tropa preparada par aos embates bélicos:
“Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem –não de um só homem ou de um grupo de homem, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice”.



82514
Por Manoel Hygino - 8/7/2017 08:11:57
Um ditador a menos

Manoel Hygino

A notícia, em duas colunas, saiu em jornais do Brasil (nem todos): Noriega morreu. O nome não significa nada para a maioria dos seres humanos do mundo. No entanto, o indivíduo foi presidente da República do Panamá, país situado no ponto mais estreito da parte continental da América Central, dividida exatamente pelo canal que liga o Atlântico ao Pacífico.
Cerca de 14 mil embarcações, correspondendo a 5% do comércio marítimo mundial, cruzam os 82 quilômetros do canal, que passou do controle dos Estados Unidos para o Panamá em 2000. O país tem 75.040 quilômetros quadrados e 3,5 milhões de habitantes, uma espécie de Grande BH, cuja economia se baseia nas atividades financeiras e nas rendas obtidas com a zona do livre comércio de Colón, a exploração do canal e o registro de navios mercantes.
A região foi alcançada pelo espanhol Rodrigo de Bastidos em 1.501 e, no ano seguinte, lá aparece Colombo, iniciando-se o povoamento em 1503 por Nunes de Balboa. Mas não é isso que me traz ao comentário de hoje. Quero falar de Noriega, que entrou em cena quando o Panamá e a Colômbia deixavam de ser uma unidade administrativa e já se concluiu a ferrovia transcontinental Panamá Railway, financiada e inaugurada pelos EUA em 1885.
Cinco anos antes, Ferdinand Lesseps, que construíra o canal de Suez, iniciara as obras do canal, mas o empreendimento foi à falência. Inaugurado somente em 1914, os Estados Unidos ficaram com o controle perpétuo da Zona do Canal, mediante pagamento de uma anuidade.
Com a presença norte-americana ali, nada se fazia sem seu conhecimento, mas a turbulência era notória. Um golpe contra o civil Arnulfo Arias, em 1968, elimina garantias constitucionais e fecha a Assembleia Nacional, subindo ao poder o general Omar Torrijos, falecido em um acidente aéreo muito suspeito. O ex-chefe do serviço secreto e colaborador da CIA, general Manuel Antonio Noriega assume o comando militar do país, enquanto o presidente eleito Burletta, denunciado por fraude, renuncia em 1985.
Noriega é acusado de envolvimento no assassinato do oposicionista Hugo Spadalafora, um médico de prestígio, torturado até o último suspiro. Torrijos, que nunca se declarou presidente, mas Líder Máximo da Revolução panamenha, assumiu a direção do país de 1968 a 1981. Após Torrijos chefia o governo Florêncio Flores Aguilar, logo substituído por Rubén Dario Paredes, mas quem mandava mesmo era Noriega, que se promoveu a general, e controlou o país até 1989.
Em 1984, permitiu a realização das primeiras eleições presidenciais em 16 anos. Quando os primeiros resultados nas urnas indicavam a vitória do ex-presidente Arnulfo Árias por grande vantagem, Noriega mandou parar a contagem de votos. Quando reiniciada, Nicolas Barletta, o preferido do governo, estava à frente e venceu por 1.700 votos. Tiranetes”.
Noriega se enriqueceu com o tráfico de drogas para os Estados Unidos, que mandaram capturá-lo em 1989, mas ele se asilou na Nunciatura Apostólica.
Os marines de Tio Sam fizeram uma balbúrdia mas o asilado não se rendia. Por intervenção do Vaticano, ele decidiu entregar-se aos fuzileiros e foi levado para Miami. Foi julgado e condenado, em 1992, a 40 anos de prisão por tráfico de cocaína, chantagem e lavagem de dinheiro. A França entrou no problema, porque ele depositara cerca de 5,2 milhões de dólares em 2010, fruto de tráfico de drogas, e bancos franceses. Este o Noriega, resumidíssimo, que deixou de existir este ano.


82509
Por Manoel Hygino - 5/7/2017 07:23:04
João e outros Batistas

Manoel Hygino

No mês sexto, das passadas festas juninas, alguém perguntou: o São João reverenciado é o Batista ou o Evangelista? Muitos não souberam responder, porque não se tinham preocupado em identificar o fato na história ou nos livros sagrados do cristianismo. O mais indicado era comemorar o 24 de junho, e assim se fazia no Brasil por tradição, desde a colonização.
Dúvida, contudo, não há. João, que recebera o apelido de Batista, foi quem preparou o caminho de Jesus e o batizou no rio Jordão e seu nome significa “Deus é propício”. Naquele dia, há dois milênios, João disse: “eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo”, e sobre o autor do batismo, Jesus declarou: “jamais surgiu entre os nascidos de mulher alguém maior do que João Batista”.
O nascimento de João, aliás, foi saudado com uma fogueira em família, como combinado entre Maria, mãe de Jesus, e Isabel, sua prima e mãe de João Batista, ampliado o costume a todo o mundo cristão e a nossa época. Batista é, assim, quem prega e batiza, mas no Brasil atual o nome serve também a pessoas não santas. Basta conferir- se na mídia.
Entre os novos Batistas está, por exemplo, Eike, que no dizer de Élio Gaspari, “exercitava a superioridade dos poderosos”. Emprestou o seu jatinho Legacy a Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de janeiro, para que ele chegasse a tempo a um resort na Bahia para a festa de aniversário de seu amigo Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, explicando: “sou livre para selecionar minhas amizades... contribuir para campanhas políticas...”.
Eike Batista se entregou à Polícia Federal, esteve preso e declarou: “é hora de passar as coisas a limpo”. Quanto a Joesley, esteve ou está internado em hospital de São Paulo. Problema de coluna?
O surgimento em cena do personagem Joesley Batista – outro com o sobrenome – e Wesley, irmão e igualmente Batista, foi uma surpresa para os brasileiros que não sabiam das fabulosas façanhas do grupo, formado a partir de Goiás.
O assunto ganhou dimensão nacional quando se publicou que o presidente Temer usara um avião da JBS, presidida por Joesley, para levar a família para alguns dias de férias na Bahia. Revelou-se que as ligações das empresas do grupo dos Batistas com figurões da República eram de arrepiar.
Até o Aécio solicitou empréstimo e deu no bolo que aí está... e queimou no forno de Brasília. O Joesley relatou que pagou propina para beneficiar-se de operações e operação junto ao BNDES nos governos dos antecessores de Temer. Os três presidentes declaram que as acusações não têm provas e tudo negam, como não poderia deixar de ser.
No meio do imbróglio, surge um coronel em São Paulo, pertencente ao grupo mais ligado a Temer, que receberia, segundo denúncia, dinheiro para obras em propriedades de familiares do ex-vice-presidente. É um Cel. Batista, sobre o qual também pouco se conhece, por enquanto.
Aí, voltamos ao Imersor, o João Batista, dos primórdios do cristianismo. Ele considerava de especial valia perante Deus se tornar público o arrependimento e a mudança de atitudes das pessoas.
No Brasil, contudo, parece prevalecer fenômeno registrado por Stanislaw Ponte Preta: “a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do subdesenvolvimento”.


82502
Por Manoel Hygino - 1/7/2017 08:17:26
Pela rota mortal do Norte

Manoel Hygino

Propus na Revista Cult, de Eugênio Ferraz, focalizar municípios de Minas Gerais não tão frequentemente lembrados e homenageados pelos meios de comunicação, como o são Ouro Preto, Mariana e Tiradentes, por exemplo, que muito merecem. O objetivo era mostrar o que há de interessante e precioso em outros numerosos burgos. Comecei por Grão Mogol e continuei com Salinas, numa região histórica da velha província.
Este ano, Grão Mogol foi alvo de bandidos, que assaltaram a agência do Banco do Brasil, como aqui também relatei. Mas, obedecendo à sina das localidades mineiras, qualquer a sua dimensão, Salinas igualmente entrou no rol da violência que marca esta época sertão afora. No dia 21 do mês, que deveria ser de festas religiosas e populares, Salinas, a 218 quilômetros de Montes Claros, a maior cidade da região, viveu madrugada de medo. Cerca de dez homens, armados de fuzis (as velhas garruchas não existem mais ou estão fora de moda) atacaram prédios da Caixa Econômica e do Banco do Nordeste, fugindo pela Rio–Bahia.
Fecharam-se estrategicamente, com carros, as principais ruas das proximidades da Caixa e explodiram os respectivos depósitos eletrônicos. Hoje, o Brasil todo sabe como funciona o esquema.
Em seguida, os bandoleiros tentaram destruir os vidros da agência do Banco do Nordeste, que eram blindados. Houve troca de tiros com a polícia, o prédio foi danificado, cédulas de dinheiro voaram pelos ares. Os passos seguintes foram os mesmos da primeira quadrilha. Os marginais fugiram pela Rio-Bahia usando três veículos, e nada mais se sabe.
Toda a região se tornou alvo e vítima dos criminosos. Em uma terceira cidade, que por sinal tem nome de santo, São João do Paraíso, outro registro triste, ou repugnante, exatamente em junho da devoção de milhares de brasileiros.
No dia 20, em torno das 20h20, a PM foi chamada. Na fazenda Santa Maria (a mãe de Jesus), na zona rural, uma senhora de 63 anos, em sua residência, ouviu o latido de cachorro e, em seguida, alguém bater à porta. Ao abri-la para ver de quem se tratava, ingressaram na humilde habitação dois indivíduos, encapuzados e armados de revólveres, que se diziam policiais. Perguntaram onde estavam as armas e um dos marginais prendeu a moradora, de 81 anos, na sala.
Não só isso: uma terceira personagem do drama, de 79 anos, acamada, implorava para não ser incomodada. Entrou em cena um ancião, 70 anos, que repetiu o apelo, mas foi atingido por um tiro. Aconteceu como sempre: os invasores simplesmente sumiram, não sendo localizados. A vítima, baleada, foi socorrida no hospital da cidade pelo plantão.
No dia 20 ainda, um ônibus não habilitado, que fazia o itinerário São Paulo-Bahia, após usar rotas alternativas para escapar às barreiras policiais, capotou perto de Salinas, matando onze pessoas e ferindo vinte ou mais. O motorista fugiu.
O Norte de Minas, de gente trabalhadora e humilde, torna-se roteiro da criminalidade. Se faltam meios para ação mais enérgica da autoridade, inexiste qualquer senso de humanidade entre os que fazem da violência e do crime seu meio de vida.


82501
Por Manoel Hygino - 1/7/2017 08:13:53
EI quer atacar a Europa

Manoel Hygino

Abre-se o jornal e liga-se a televisão, o rádio, a Internet para as informações mais recentes. Entre as manchetes internacionais, as ações do Estado Islâmico no front asiático ou de seus adeptos mundo afora, principalmente a Europa. Os extremistas destruíram o minarete inclinado da parte velha de Mossul, com mais de 800 anos. A importante cidade do Iraque, sofre, e assim seguirá, pois não há previsão do final do conflito.
No aeroporto de Michigan, Estados Unidos é claro, um policial foi esfaqueado. Autoridades americanas admitem a autoria do crime a um terrorista que gritou “Allahu Akbar”, Deus é grande. Em Bruxelas, continuam investigações da penúltima semana de junho sobre um homem com uma mala de pregos e cilindros de gás, que seria explodida e causaria a morte de um sem número de pessoas na Estação Central da capital belga, pela qual circulam 60 mil pessoas por dia. Em Fátima, Portugal, terrorista foi preso, como um dos possíveis envolvidos no atentado em Brescia, Itália, em 1974, que deixou 102 feridos e 8 mortos.
O site do Exército da Argentina foi invadido, no dia 19 de junho, por hackers. Veiculou-se a ameaça: “O Estado Islâmico está na Argelina e muito em breve vocês vão saber de nós”. “Allahu Akbar”. Em seguida, fotos de membros do grupo terrorista. O mundo não tem pausa para beneficiar-se de sua vulnerável e incompleta paz, simplesmente porque os “soldados” do Estado Islâmico também não o permitem. Onde e como adquirem meios para sua pertinaz e selvagem matança na Ásia e, há tempo, em outros países do mundo? Como conter o fluxo de recursos e armamentos?
A grande maioria dos povos das Américas não quer tomar conhecimento, mas há ameaça no ar. Jeffrey Felman, da ONU, comenta que – apesar da pressão militar - o EI continua resistindo particularmente em Mossul e Raqa, no Iraque, do que se vêem diariamente cenas alarmantes pelas televisões. Uma fábrica, em plena operação, de mortos, mutilados e refugiados. As cenas perversas estão também no cinema e nas fotos dos jornais, para alegria dos criminosos.
Um alto funcionário da ONU observa que, apesar de seus fracassos parciais, o grupo está mais focado do que nunca “em atacar a Europa e/outras áreas fora dessa zona de conflito”. Os atos aqui relacionados foram referidos pelo alto funcionário da ONU. Felman citou ataques na Bélgica, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Suécia e Turquia e já mereceram comentários nossos.
Adiante, revelou a autoridade da ONU: “A ameaça persiste.” Conforme militantes fora da Síria e do Iraque, os chefes se reúnem e distribuem propaganda de seus planos e ações. A França propôs ao Conselho de Segurança da ONU a implantação de uma força militar africana de oito países para lutar contra os extremistas violentos e traficantes de drogas (veja bem). Entretanto apenas um plano. Enquanto se esperam medidas concretas e práticas, o Estado Islâmico segue seu macabro itinerário de ódio, sangue e morte. Em pleno século XXI!


82498
Por Manoel Hygino - 30/6/2017 08:40:26
Uma lição permanente

Manoel Hygino

Esperei até o Corpus Christi, bem a propósito, para registrar o livro de Nelson Hoffmann, “Companheira”. Uma única palavra de título, para menos de cem páginas e um imenso conteúdo. O autor, lá da fronteira com a Argentina, residindo a 150 metros do caudaloso rio Uruguai, na jovem cidade de Roque Gonzales, produz boa literatura, com apoio da família: Inês R. Hoffmann, zela pela revisão, e Tony cuida das fotos e da arte da capa, em edição da Cultuarte.
Sabemos pouquíssimo do que existe da região missioneira, a não ser pelos cartões postais e pela infrequente divulgação das televisões. Terra de embates, do empreendimento colonizador jesuíta, de sangue derramado nas contendas entre portugueses, espanhóis e índios, muito heroísmo. Disso se gabam, com justa razão, os que lá se instalaram e continuam a missão que lhes incumbiram as gerações anteriores.
Hoffmann, advogado, contabilista e professor, ocupante de altos cargos públicos, foi o primeiro executivo do município, integra academias e entidades culturais, correspondente de jornais e revistas, conselheiro editorial, verbete de dicionários e enciclopédias. Autor de numerosos livros, deveria pelo menos ser mais divulgado no Brasil imenso que fica ao Norte.
A partir de uma experiência pessoal, dolorosa, inquietadora, comovente, elaborou seu novo livro. Confessa: “foram poucos dias, horas, minutos, segundos, em termos físicos, carnais, de mundo. Em termos materiais, espirituais, transcendentais, são o início de uma jornada de busca que não sossega”.
O tema me leva à recente e belíssima crônica de Ronaldo Werneck, ensaísta, tradutor e crítico de literatura, cinema e artes plásticas, mineiro de Cataguases. Ele pergunta: “meu Deus, o que é a morte? Subir, subir e, esplendidamente, ganhar o azul, pratear-me da lua e chegar lá, de onde vim e para onde devo voltar?”
Nélson Hoffmann relata belamente, fortemente, a experiência de sentir-se morrendo, pelos corredores de hospital, pelas enfermarias, sob cuidados médicos, sabendo-se nos últimos momentos, consegue descrever as angústias com emoção, com a grandeza de quem conhece o que lhe passa e o que o espera.
É algo raro. Sem lamúrias, afirma: “a morte define a vida. A vida é o caminho da morte. Ambas incorporaram em mim quando eu fui gerado. Juntas, são faces de minha unidade. Vêm de antes, seguirão depois. Surgi passageiro, estou em viagem. Quando surgi, a festiva recepção fez-me berrar de alegria. Acolhido e paparicado, quedei-me pela vida, ignorei a morte. Fui-me às conquistas. Que a vida proporciona e o mundo oferece. Estudei, trabalhei, passei pela infância, superei a adolescência, concluí a juventude. Adulto, assim classificado pelas etapas do tempo, eu estava preparado e pronto para o grande desafio: vencer na vida”. Mas, “a morte é minha companheira, ensina-me a viver”.
Eis sem embargo, a grande pergunta: “vitória na vida é o sucesso, a glória? Sucesso, glória de quê?”. “Meta: dinheiro, poder, fama. É a glória do mundo”?


82492
Por Manoel Hygino - 28/6/2017 07:37:48
O papagaio de Cajazeiras

Manoel Hygino

Negar que há algo de errado por aqui é pretender tapar o sol com peneira, ocultar o que todos sentem e veem, em nível interno e externo – para tristeza e vergonha. O Brasil, como nação, vive uma crise notória, e que se procura classificar como econômica ou política, esta mais grave porque influi naquela.
Pior é que se ampliou tanto o problema que sequer se sabe mais sua real natureza. Em âmbito estritamente político, tenta-se explicar, argumentando que a corrupção sempre existiu, embora não se evidenciem novas e eficazes formas e métodos adotados para combatê-la com sucesso. Acompanhar o noticiário cotidiano, e o que resta ao cidadão.
Encontrar saída, eis a questão. Como? Quando? Com quem? A verdade indiscutível é que, a esta altura do drama ou da tragédia, não são envolvidos apenas políticos ou a classe política, os gestores da economia, os membros dos três poderes, porque toda a sociedade está sendo julgada. Mesmo o Judiciário, com alguns de seus representantes se expondo ostensivamente, inclusive pela discussão, divulgada pela mídia, de temas doridos da vida brasileira. Não deveria ser assim: não somos apenas um país, mas uma nação.
Os casos não são simples. Mesmo os corriqueiros vão aos tribunais, como o de uma senhora de Cajazeiras, no sertão paraibano, que – há 17 anos – acionou a Justiça para ficar com seu papagaio de estimação. O Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão do TRF da 5ª Região, assegurando à idosa, de 77 anos, o direito de posse da ave. O Tribunal, em segunda instância, considerou que o papagaio está acostumado ao ambiente doméstico e não há indícios de maus-tratos.
Logo... Do papagaio ao bípede implume, que somos todos nós, há uma longa distância, mas não tanto. Não nos podemos acomodar. Se a prisão do psitacídeo demorou tanto, há de admitir-se muitos anos para encerrar a desastrada novela dos erros e vícios mais recentes, já que os mais antigos não cabe levar a julgamento.
Precisamos de punir os culpados e responsáveis, levá-los às sanções pertinentes, garantidos evidentemente, os direitos de cada um e de todos. O jurista e professor Sacha Calmon resumiu a missão em três palavras: “Refundar a República”. Não basta conformar-se com a ideia de que todo governo sangra, como declarou o ministro Moreira Franco. Não se trata apenas de um governo, mas de toda a nação, seu passado e seu futuro, comprometida com o presente.
No dificílimo jogo de xadrez desta hora, as peças estão na mesa. Cabe à geração atual a dificílima tarefa de movê-las e levar a pátria ao melhor destino. Punir seja quem for, em que ambiente estiver, em que cargo encontrar-se; não somente os que se dedicam às atividades oficiais, mas também a possíveis delinquentes que operam nas empresas.
A Lava Jato é simplesmente um capítulo de uma história longe de terminar, mas imprescindível à restauração da dignidade nacional. “Numa crise que joga o país às cordas e ameaça não só a ordem econômica, pois dilacera vidas e expõe cenas recorrentes de selvageria social; mais importante que denunciar a política que apodreceu é corrigir o que a fez apodrecer”, como escreveu há dias, Antônio Machado.


82489
Por Manoel Hygino - 27/6/2017 08:10:59
Nem tudo se perdeu: a poesia sobrevive

Manoel Hygino

Ângela Vaz Leão publicou, este ano, “Relendo a poesia de Yeda Prates Bernis”. O simples fato de merecer um estudo da professora vale como atestado da importância da criação da poetisa, que acaba de ingressar numa idade – 90 anos – que muitos desejariam alcançar, principalmente em plena capacidade de produção.

Mineira de Belo Horizonte, diplomada em Letras Neolatinas pela PUC-MG, cursou canto e piano no Conservatório Mineiro de Música da UFMG (foi, aliás, uma das integrantes do Madrigal Renascentista em suas primícias). Distinguida numerosas vezes com condecorações e prêmios, inclusive da AML, da Ordem do Cedro, do Líbano, e mais recentemente com o Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, Yeda é membro da Academia Mineira de Letas, infatigável e presente a todos os atos a que é convidada, dentre outras entidades na União Brasileira de Escritores.

Merecer 60 páginas de análise e crítica de sua criação poética da professora Ângela Vaz Leão, emérita da UFMG e titular aposentada do Programa de Pós-Graduação em Letras pela PUC-Minas, vale como premiação adicional. A querida mestra permanece atuante e brilhante, inclusive coordenando na Católica uma pesquisa sobre “Cantigas de Santa Maria, de Afonso X”, na pós-graduação em Letras.

De 1967, quando Yeda publicou sua primeira coletânea até agora, foi uma dúzia de livros. A leitura dos doze “despertou em mim – diz a professora –, além da admiração pela beleza de seus versos, o desejo de escrever um trabalho que desse aos possíveis leitores não familiarizados com a poesia de Yeda uma ideia, ainda que superficial, do conjunto de sua obra”.

Ângela faz uma excelente exposição do que é a produção de Yeda “sua bela voz poética”, nas 60 páginas do volume recém-editado. E é altamente precioso medir a relevância da obra da poetisa através de cuidadoso e competente trabalho de análise e comentário.

Segundo declara a professora Ângela, o “propósito seria despertar naqueles possíveis leitores amantes de poesia um certo gosto, ou pelo menos uma certa curiosidade em torno da obra dessa grande poetisa mineira”. Verifique-se o adjetivo: “grande”, juízo que resulta da leitura e releitura de toda a obra poética, até o mais recente, “Cercanias”, de 2016.

A mestra acompanha a poetisa em sua vida através de sua criação, sendo oportuno lembrar seus versos em francês, numa prova de amor pela língua de Racine e Baudelaire, e em homenagem a Jean Sablon. É uma volta à infância e a Paris, o Rio Sena e ao ar da capital francesa.

Um encontro feliz entre a poetisa e a crítica, um regalo de bom gosto ao leitor a quem apraz o belo. Mas há ainda lições como em Sabedoria, em “Entresomobras”: “O sol a lua as estrelas/as montanhas as colinas/ a orquídea a rosa a camélia/o jardim a gota d’água/ – quietude zen – /aprenderam desde sempre/ e mais que os homens/ a eloquência do silêncio”. E eu me calo.


82483
Por Manoel Hygino - 23/6/2017 08:28:03
Trump e os latinos

Manoel Hygino

As controvertidas ou polêmicas posições assumidas – e prometidas em campanha eleitoral – pelo presidente Trump suscitam naturais discussões em todo o mundo, especialmente nas Américas, porque, afinal, os Estados Unidos nelas se localizam. Ademais, o chamado Colosso do Norte tem passado por transformações expressivas com relação aos países do Sul – não é o mesmo de décadas atrás.

Sônia Torres, estudiosa do tema, autora de “America Ibrida”, publicada na Itália, dentre outros trabalhos de interesse no gênero, foi aqui comentada, há poucos anos. “Qual o significado e as implicações da crescente “hispanização” de um país tradicionalmente associado à cultura branca, anglo- saxônica e protestante, e à língua inglesa? Pergunta Liana Strozenberg?

Evidentemente, a “hispanização” não se cingirá aos aspectos culturais e a realidade já o prova, de maneira inequívoca. No entanto, o presidente republicano não se intimidou ou se intimida, mantendo posições inabaláveis, a despeito da oposição que já enfrenta internamente.

Torres lembra que, pela primeira vez na história dos EUA, um ocupante da Casa Branca deveu, em grande medida, sua vitória, no século XX, ao voto hispânico, quando 3,5 milhões de latinos ou hispânicos, votaram na chapa Bill Clinton/Al Gore, em novembro de 1996. Essa presença deverá ser maior no século XXI, quer queria ou não Trump, com toda sua jactância ou arrogância.

Verdadeiramente muito se esquece. Raciocino com Sônia Torres em uma dissertação, quando registra que vasta parte do território hoje norte-americano foi povoada por hispânicos, muito antes de ocupada pelos colonizadores franceses e ingleses.

O que hoje se denomina Sudoeste dos EUA foi, originalmente, território colonizado pelos espanhóis, tornando-se México depois da independência, em 1821. Em 1846, os EUA, com sua ideologia expansionista, “inventaram” uma guerra com o México, que se encontrava bastante enfraquecido depois de sua independência, ainda em fase de reconstrução nacional. Em 1848, com o controverso Tratado de Guadalupe-Hidalgo, esse grande quinhão passou a ser “americano”, correspondente presentemente ao Novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah, metade do Colorado e parte do Texas.

O hispanismo é forte no Sudeste dos Estados Unidos. Prova é que um “anglo” dificilmente sobreviverá ali, se não souber falar ao menos o espanhol básico, nem que seja para comunicar-se com as classes “subalternas”.

Contrariamente à ideia de fronteira, como limite entre dois países. Admite-se, uma possível parcela de americanos e mexicanos, que ela é um local de intersecção de realidades múltiplas, um espaço de solo comum compartilhado pela América do Norte e América Latina.

Não só. Em inúmeras cidades não fronteiriças, como Los Angeles, Phoenix, Albuquerque, Santa Fé, Pueblo, Santo Antonio, Austin e Houston, a presença mexicana é notória. Em San Antonio, décima cidade mais populosa dos Estados Unidos, há mais tejanos do que anglos, como se autodenominam. Mexer nisso é como mexer em caixa de marimbondos.


82478
Por Manoel Hygino - 20/6/2017 08:20:29
Juscelino fala aos estudantes

Manoel Hygino

Dando continuidade a um projeto de 118 anos, a Santa Casa de Belo Horizonte irá implantar a sua faculdade de medicina, depois de inspirar a criação das duas outras da capital, a começar pela hoje integrada à UFMG, antes à Universidade de Minas Gerais, ao tempo do presidente Antônio Carlos, em 1927. É iniciativa digna de atenção e respeito pela fidelidade às origens e à evolução da primeira instituição de assistência à saúde em nossa metrópole.
A propósito, recordo Juscelino Kubitschek, universitário e médico na Santa Casa, a que dedicou alguns dos melhores anos de sua profícua existência. O registro aqui me parece importante num momento de desventura para a história política do país, mas quando os bons e antigos exemplos merecem reverência.
O escritor Edmilson Caminha, tão apreciado pelo Brasil que lê, lembrou um fato envolvendo JK, da década de 1970. Em 13 de setembro de 1974, ele respondeu ao convite do jovem Amadeu Guimarães, que o convidava a paraninfar a turma que se formaria em medicina na Federal de Juiz de fora. JK explicou, em carta, que – em virtude de compromisso fora do Brasil – não poderia comparecer. Não se deu, contudo, por satisfeito. No dia 30, redige nova mensagem aos formandos:
“Uma festa de estudantes sempre me cala ao coração, e em se tratando de doutorandos de medicina, o meu interesse se redobra, porque equivaleria a debruçar-me numa janela e rever o passado: viver com meus amigos os momentos imorredouros de emoção que também eu, há tanto tempo, experimentei”.
Repito trecho do artigo de Edmilson, referindo-se à perspectiva de que a carta seria lida pelos que colariam grau: “Gostaria, mais, de manifestar de público e de viva voz, na calorosa atmosfera juiz-de-forana, a minha gratidão àqueles que vieram buscar (-me) no refúgio de minhas atividades para participar dessa gala coletiva, que é o momento culminante em que sonhos e visões de tantos anos se concretizam, numa cerimônia permanente e inolvidável. Nesse momento, porém, defiram-me um conselho: sejam bons, e que suas atitudes se inspirem na grandeza dos corações e na pureza dos gestos”.
O filho de D. Júlia, professora de Diamantina, não considerou ainda suficiente a justificativa aos futuros colegas e evoca sua própria formatura, transcorrida 47 anos antes: “Imagino a majestade do espetáculo – além da pompa e alegria, jorrando de semblantes que se extasiam na significação desse ato: a colação do grau de médico”.
“Tão logo, no entanto, regresse do exterior, vou visitar a Escola de Medicina de Juiz de Fora, rever a cidade – e estou certo de que, na faculdade que ora deixam, encontrarei a marca dos que a cursaram com amor e proveito, tão alto a souberam elevar”. “Deus os cubra a todos de bênção”.
De Juscelino se poderia dizer o que Oscar Versiani Caldeira dissera em louvor de Alfredo Balena. Era 1950: “Como médico, nunca lhe assomou aos lábios um palavra que não fosse de conforto, que não inspirasse confiança. Sob a cúpula agasalhadora de sua excelsa bondade, deslizava uma legião de clientes”.
E mais: “Servido por um caráter adamantino e inspirado por uma bondade sem limites soube caminhar, através da senda enobrecedora do trabalho “até o sereno domínio da floria, subindo como estrelas para a altura e elas destinada” e encaminhado por este triunfo, há de permanecer como nome tutelar desta Casa, (a Faculdade), certo estamos de que “os mortos ainda e cada vez mais governam os vivos”.
São palavras válidas agora e sempre.


82468
Por Manoel Hygino - 16/6/2017 12:57:25

A grandeza de pequenas coisas

Manoel Hygino

Vivemos em meio a tantas trapalhadas, que perdemos a noção da virtude e do mérito. Compram-se e vendem-se títulos no mercado sujo da ilegalidade e das conquistas n ao preço de dinheiro de facilidades. Perdemos o verdadeiro senso da grandeza dos homens e de sua atuação na sociedade.
Lembro disso, em mês tão rato aos brasílios do interior, quando sinto a obrigação de render homenagem, sem suas localidades para fazê-la maior e mais igual, somando a fatos com os quais construíram sua identidade e sua própria biografia. Felizmente este ser humano não é raro e, no anonimato ou quase, ajudam a manter confiança no futuro da pátria e de mais afortunados dias para o homem deste país.
Ao completar cem anos em 27 de junho, Luiz de Paula Ferreira pode ser festejado com a alegria pela família e pelos conterrâneos, que lhe acompanharam a longa jornada. É um cidadão que ama seu povo e escreveu: “Conheci pessoas e situações. Vivenciei costumes. Escutei e contei histórias. Nada, porém, de grande monta, que o lugar não ostentava coisas de assombrar. Mas havia algo que me seduzia e me impôs, mais tarde, este registro. Eram as pessoas em seu cotidiano. Gente simples, no pelejar da vida, com as singularidades do viver de cada um. Sem eu trabalho, no seu lazer, em suas alegrias e decepções. Tudo acontecendo em parceria com a natureza, pois ali se vivia rente à terra. Era a grandeza das pequenas coisas. Presente todo dia, em todas as horas”.
Sobre o centenário, escrevi recentemente: Tudo o que se construiu por aquela região contou com sua presença, atuação e colaboração. Autêntico sertanejo, antes de tudo um forte, como b classificou essa gente Euclides da Cunha, fez tudo, modestamente para vencer na vida. Empresário, líder empresarial, escritor, apreciado contador de causos, amante da música e trovador, foi apaixonado pela região. Começou a descrevê-la muito antes de Guimarães Rosa, que produziu uma epopeia sobre o Grande Sertão e Veredas.
Autor de “Na venda de meu pai”, rega-se com uma série excelente de narrações do melhor agrado, em que às vezes é o próprio personagem. Wanderlino Arruda, da Academia Montes-clarense de Letras, acha que a leitura do livro é como “sugar o sumo doce de uma jabuticaba bem madurinha”, enquanto o jornalista César Vanucci, da Academia do Triângulo Mineiro, aconselha como Santo Agostinho: Tolle, lege, “Pega e lê”.
É conhecido seu interesse pela literatura de um modo geral especialmente por seus excelentes poemas. No seu caderno de escritos, encontram-se páginas em versos, às quais, ultimamente, com extrema relutância, acedeu em dar publicação.
É notório seu amor às letras, mas evitava mostrar os originais aos interessados, principalmente quando a noite da idade começou a crescer: “Com o cair do crepúsculo, vãos e calando, pouco a pouco, todos os rumores; um quase silêncio envolve a natureza quando sobre o horizonte longínquo o papa-ceia anuncia que vai nascer a noite estival”.


82466
Por Manoel Hygino - 16/6/2017 07:48:11
Perguntas sem respostas

Manoel Hygino

O que pretendem determinadas personagens que têm os destinos de um país em suas mãos? Afinal, o poder é essencial à tranquilidade de um povo, para assegurar a cada cidadão seus direitos mínimos. Medito sobre o que iria pela cabeça do presidente da Coreia do Norte, ao lançar todo o planeta em ansiosa expectativa.
A Coreia do Norte, parte da antiga nação dividida após a II Guerra Mundial, é um dos regimes mais fechados do planeta, todo mundo sabe. Permanece tecnicamente em guerra com a vizinha do Sul desde 1950. O desenvolvimento de seu programa nuclear provoca tensão incessante, não apenas para as duas nações, mas para toda a região.
Localizada em área montanhosa, grande parte de seu território não é habitável. Seguidas safras, pequenas e de má qualidade, tornam crônica a escassez de alimentos. Originalmente, apoiada pela União Soviética, com o fim do apoio do grande império, a sua economia, alicerçada na indústria pesada e na mecanização da agricultura, parou de crescer. Não há algo que parece com a atual Venezuela?
No entanto, a Coreia não cessa de preparar-se para um grande conflito. Mísseis cortam ares e mares. Lançamento de mísseis antinavio, na primeira semana de junho, mostrou que o presidente Kim Jon-un não está disposto a dar atenção à advertência do Conselho de Segurança da ONU, que aprovou novas sanções contra a atitude extremada de Pyongyang. O ditador fez mais do que ouvido de mercador: respondeu que continuaria o programa nuclear e de armas.
O lançamento de mísseis no princípio do mês, a partir da cidade coreana de Wonsan, foi o décimo do tipo realizado pelo regime em 2017. Trata-se de testes visando um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os Estados Unidos.
O que ganha o mundo com a postura norte-coreana? No torvelinho em que já se debatem as nações deste princípio de século, nada de bom se aguardará. O que pode esperar a comunidade internacional com essa insistente ideia de submissão – ou de destruição – da maior e mais poderosa nação do Ocidente pelos coreanos do Norte?
Pelos desfiles assistidos pela televisão, tem-se ideia de quanto a Coreia do Norte investe com seu belicismo. E o povo? E a alimentação? Como vive o povo norte-coreano? Quais as suas perspectivas? É isso exatamente o que quer?
Estamos em momento dificílimo, naquele remoto pedaço da Ásia, mas as vítimas poderemos ser todos nós. Não basta o Estado Islâmico, que segue agitando cruelmente o Oriente Médio e, por atentados, qualquer país de outro continente.
Muito perigoso tomar decisões no emaranhado de perversos interesses do EI, agora interferindo em países antes inatacados no contexto árabe. O que tem o mundo ocidental a ver com a histórica disputa entre sunitas e xiitas e de outros grupos religiosos da região? Pela primeira vez, o Estado Islâmico, de inspiração sunita, reivindica um ataque no Irã, que é de maioria xiita.
Estamos caminhando para onde e para o quê?


82460
Por Manoel Hygino - 14/6/2017 07:20:06

Grão Mogol enfrenta a violência

Manoel Hygino

Impressiona e traumatiza, às vezes. Os bandoleiros estão soltos e agindo em todo o território. Não há exatamente maior risco aqui e ali, porque a violência se disseminou por todos os estados e regiões. A criminalidade atua, poderosa, nas grandes cidades e nas pequenas, nas áreas rurais.

Em tempo passado, um pequeno grupo de marginais agia em algum lugar para eventuais furtos e assaltos. Tudo ganhou dimensão atemorizadora. O poder público não tem condições de manter uma força armada pronta em todos os recantos, todos os dias e horas, para enfrentar a marginalidade. Esta evoluiu, aprimorou-se, adquiriu novos conhecimentos, dispõe de armas modernas e eficientes e meios de comunicação adequados a suas ações.

A polícia fica em delegacias, desprovidas de maiores e mais eficazes recursos, esperando que os criminosos apareçam. Os resultados são os já sabidos. Em Grão Mogol, como pude ler, logo que os ponteiros dos relógios passaram das 12 da noite, no dia 6, indivíduos encapuzados e com armas longas atacaram um comércio. A PM, ao aproximar-se do local, ouviu explosões e disparos. O telefone 190, muito útil, sem dúvida, recebeu notícia de que explosivos eram utilizados para abrir cofres de uma agência bancária. Os delinquentes destruíram parte das instalações e fizeram reféns.

Cerca de dez malotes foram levados por dez autores, enquanto alguns intimidavam moradores das vizinhanças. Em seguida, percorreram as ruas fazendo disparos, usando munição calibre 556, ou seja, de fuzil. A polícia agiu, ouviu populares e recorreu a câmeras de segurança.

O jornalista Alberto Sena, que deixou a capital para residir na aprazível cidade, bela e histórica, acha que a população precisaria ser mais enfática em sua autodefesa. Diz ele: “Grão Mogol já não pode ser mais considerada um lugar onde a tranquilidade era marcante”. As portas e as janelas das casas antigamente ficavam abertas, as chaves dos carros na ignição.

“Adeus, criminalidade zero na sede do município, porque, na zona rural, fazendeiros e sitiantes estão vindo para os centros urbanos acalentados pela ilusão de ‘mais segurança’. Ali, também a violência campeia”.

Curioso, mas convém destacar: a agência dos Correios em Grão Mogol só tem um funcionário e atende também à demanda do Banco do Brasil, cujas instalações foram pelo espaço. A cidade, pela qual tantos se apaixonam, entre os quais o empresário Lúcio Bemquerer e o escritor Haroldo Lívio, não merece o deus dará.

Foi a primeira cidadela da civilização mineira em ampla zona geopolítica, quando do apogeu da mineração diamantífera, como ponderou o próprio Haroldo. Lá, se encontra o maior presépio do mundo, magnífica atração turística ainda não suficientemente explorada. Todo esse patrimônio requer, precisa de proteção.

O sertão está sendo invadido como nunca. O fato mencionado se deu exatamente dois dias depois de um assalto a banco em Buritizeiro, do outro lado de Pirapora, às margens do São Francisco. Ninguém está mais imune. Em Santa Maria do Suaçuí, no Leste mineiro, a única agência dos Correios foi assaltada cinco vezes nos últimos tempos. Na semana passada, aconteceu mais um assalto e a população ficou sem os serviços temporariamente.

É um quadro sucinto do Brasil, hoje.


82457
Por Manoel Hygino - 13/6/2017 07:16:01
O julgamento da decisão do TSE

Manoel Hygino

Milhões de brasileiros terão permanecido diante das câmeras por muitas horas para acompanhar, em vivo e em cores, como dizem os irmãos lusos, o extenso, acalorado e, às vezes, até cansativo julgamento no Tribunal Superior Eleitoral sobre a anulação da chapa Dilma-Temer.

Enfim, tratava-se de problema de dimensões nacionais e os motoristas de táxis e carros particulares mantiveram-se ligados no que chegava de Brasília pelo rádio.

O brasileiro, de todas as condições sociais, que sabe ler, ouvir e julgar, sentiu-se no dever de conhecer os detalhes. Investiu-se realmente no papel de cidadão, aquele que assume grave responsabilidade na fiscalização do exercício da função pública.

O ventilador poderoso atirou detritos por todos os lados no país, anos, teve trabalho, mas cumpriu o que dele se esperava. O cidadão perfeitamente percebeu que havia muito mais de podre no Brasil do que no reino da Dinamarca, como se referiu Shakespeare, no “Hamlet”.

O brasileiro queria, e quer, desvendar o que havia, e há, no âmbito dos males causados à nação por organizações criminosas, até mesmo partidos (se o caso), que resultaram na calamidade que chegou às contas e bens públicos e a todos os lares. Se muito já se esclarecera, se muitos fatos se revelaram, – mesmo que não sobrevindo a indispensável sanção – é imprescindível que dúvidas não pairem.

Ao cidadão, que mantém a nação, pouco ou nada interessa distinguir se o problema fora de natureza econômica, jurídica ou política; o importante é punir a gatunagem, condenando seus autores com provas materiais ou testemunhais.

O julgamento do TSE foi válido, não se discute, mas não correspondeu integralmente ao esperado. As lições de ciência jurídica, fartas e profundas, serviram para argumentar. O voto de desempate do ministro Gilmar Mendes encontrou claras motivações, alegada a necessidade de estabilidade política em hora ainda lúgubre da vida nacional.

Melhor seria deixar como estava? O ministro-presidente do TSE admitiu como o Américo Pisca- Pisca “: deixemo-nos de reforma. Fique tudo como está, que está muito bem”, da fábula de Monteiro Lobato, autor que possivelmente não referendasse o voto.

O presidente do Tribunal foi peremptório, em sua declaração final: “Não me venham dar lição de moral. Combate à corrupção eu também quero”.

A decisão do Tribunal pode não ser a que prevalecerá, em última análise. Há dentre outros fatos, contundentes suspeitas sobre a conduta de auxiliares do presidente da República. Esta é uma semana de ansiedade.

Cabe, todavia, continuar a luta, sabedor o país da posição de Gilmar: a corte eleitoral não é espaço para solucionar crise política. Tanto que as quase 30 horas de reunião do TSE apenas cumpriram o rito. Era como dizia o professor Afonso Lamounier, que trabalhou a CEMIG: “tudo combinado, nada resolvido”.

No entanto, as águas, com toda sua sujeira, continuarão rolando. O mau cheiro se sente até pelo rádio, jornais e televisão. O Brasil seguirá acompanhando a sujeira, maior que a do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, tão dolorosamente marcando ainda a vida do país.


82453
Por Manoel Hygino - 10/6/2017 08:16:26
Um dia para não esquecer

Manoel Hygino

Esta segunda-feira é muito especial no Brasil, porque é Dia dos Namorados, véspera de festejos religiosos de Santo Antônio e de muitos fatos mais que interessam a cada um em especial e a todos em geral. Neste ano, temos, em Belo Horizonte, um registro a fazer: a Academia Mineira de Letras, por sua Universidade Livre, coordenada por Rogério Faria Tavares, recebe o escritor Fábio de Sousa Coutinho, para lançamento, às 19h30, do seu livro ”Lúcia – uma biografia de Lúcia Miguel Pereira”.
Escrevi especial e explico: Fábio, presidente da Associação Nacional dos Escritores, é sobrinho da biografada, nascida em Barbacena, em 12 de dezembro, em 1901, quatro anos depois da inauguração oficial da capital. Crítica literária renomada, ensaísta e tradutora brasileira da primeira metade do século 20, era casada com o também escritor Octávio Tarquinio de Sousa.
Biógrafa de Machado de Assis, referência no ensaísmo feminino de 1920/1930, teve um fim trágico: recomendava à família que, em caso de morte, todos os seus escritos inéditos só poderiam ser publicados com autorização do marido, e, na falta deste, deveriam ser incinerados. Como morreram juntos em desastre aéreo, em 1959, a família seguiu à risca as instruções e queimou todos os textos ainda não publicados e cartas pessoais encontradas. Que material precioso perdemos!
Seus textos de crítica literária – reveladores de sua erudição e aguda capacidade de percepção da arte e da vida, que circularam em jornais e publicações avulsas, foram reunidos na década de 1990, em dois volumes: “A Leitora e seus Personagens” e “Escritos da Maturidade”, que resgatam suas colaborações, entre 1931 e 1959, para o Boletim de Ariel, Revista do Brasil, Gazeta de Notícias, Correio da Manhã e O Estado de São Paulo, entre outros periódicos.
Muitos motivos, portanto, para marcar este dia e quem desejar conhecer mais sobre Lúcia Miguel Pereira poderá ir ao Auditório Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras na Rua da Bahia, para a conferência do autor. Fábio, aliás, não estará sozinho, pois virá com os aplaudidos colegas de atividades literárias, Napoleão Valadares, José Anchieta Oliveira e Danilo Gomes, este nosso companheiro da Academia Mineira.
Fábio distribuirá seu livro aos presentes. Danilo Gomes, a seu turno, regalará os demais acadêmicos e pessoas com o seu novo trabalho “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens”, que saiu da impressora exatamente na última sexta-feira.
Pelo que se depreende, há de despertar curiosidade e interesse o conteúdo da nova obra de Fábio, sempre tão bem recebido pela crítica. Não só por sua exposição sobre a vida dedicada às letras pela querida tia e apreciada autora, numa época em que as mulheres não tinham muito acesso à publicação de sua produção, mas fundamentalmente por representar a opção um novo caminho ao futuro.
Vê-se, ademais, que se trata de uma família com liames no campo das artes. Estes vínculos evidentemente serão identificados e poderão ser avaliados na leitura que se aguarda com pessoal desejo.


82451
Por Manoel Hygino - 9/6/2017 08:40:44
O sexo dos anjos

Manoel Hygino

As expressões “quem pensa não casa” ou “quem casa não pensa”, encontradiças por todo o território deste país, não seriam antagônicas, nem sinônimas, como inicialmente se julgaria. Mas a análise das duas curtas frases pode ser considerada sob um espectro mais amplo.
É o que se concluirá possivelmente de fatos, coisas e personagens que existem entre nós. Se o leitor se der ao trabalho de ler o ensaio “Yeshua, o Hasid”, de Daniel Matt, ficará encabulado com situações históricas enfrentadas pelo cristianismo e o judaísmo.
Matt começa por perguntar: “Por que desejariam os judeus ter alguma coisa a ver com Jesus? Em seu nome, os judeus foram perseguidos e assassinados. O cristianismo afirmou ter suplantado o judaísmo”. Daí, a pergunta resultante: Séculos de antissemitismo cristão assentaram as bases para o extermínio que Hitler perpetrou contra um terço do povo judeu, logo, por que deveria algum judeu se interessar pela vida de Jesus e por aquilo que ele ensinou?
Verdade que a história do relacionamento judaico-cristão maculou e tornou impura a imagem de Jesus. Mas ambos têm de reavaliar a tradição uns dos outros, não bastando a absolvição dos judeus pelo Vaticano diante da culpa coletiva pela morte do filho de Maria. E os judeus deveriam reivindicar Jesus: por ter ele adquirido por sua visão do judaísmo, por ter-se tornado apaixonado por Deus, pelo divino, anticonvencional e extremo em sua devoção a Deus e seu semelhante”.
Interessante a posição de Jesus com relação aos judeus, sua própria gente. Ele reafirmava que fora enviado para os judeus, estando os doze apóstolos proibidos de proclamar o Evangelho a gentios e samaritanos. Mais tarde, os seguidores de Paulo (que sequer conheceu Jesus em carne e osso), desconfiaram do próprio líder. Este sustentava que o nazareno tinha como fulcro Israel, enquanto o seu discípulo teria ensinado o comprometimento com a Torá.
De acordo com Mateus, Jesus declarou: “Não penseis que vim abolir a Torá e os profetas, não vim para aboli-los, mas para dar-lhes cumprimento. Pois em verdade, em verdade vos digo que, antes que o céu e a terra deixem de existir, nenhuma letra nem uma vírgula haverão de ser tiradas deles até que tudo se cumpra”.
Ora, o assunto é inesgotável. Em Mateus, 7.12, Jesus ensina o essencial: “Ama o teu próximo”. “Tudo o que desejais que os outros façam a ti, fazei também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas”.
No entanto, na geração anterior à de Jesus, Hillel disse algo semelhante, mas não igual, pois usou a negativa: “O que é odioso para ti, não o façais ao próximo”.
Para Matt, Hillel era um típico rabino de seu tempo: mais terra a terra; mais prático. Jesus era mais exigente, mais extremo, mais hassídico.
Estas dúvidas e interpretações parecem repetir-se nas intermináveis e já cansativas discussões sobre detalhes políticos e jurídicos em discussão na capital federal.
Tribunais e comissões do Parlamento debatem em minudências problemas tipo sexo dos anjos, para justificarem interesses e argumentos os mais diversos, inclusive o cargo de presidente da República, enquanto o povo, pobre povo! Somente pensa em arranjar algum dinheirinho para alimentação e outras despesas. O que se quer é simplesmente sobreviver, e isso não está nada fácil.


82447
Por Manoel Hygino - 7/6/2017 08:36:58
A voz do São Francisco

Manoel Hygino

As obras foram orçadas em R$ 4,5 bilhões, o que se admitia em termos de custo de um empreendimento do vulto da transposição do São Francisco. O valor fora previsto em 2007, quando iniciada a obra, para terminar em 2012. Passados anos, contudo, não foi integralmente concluída.
O presidente Temer esteve em cidades de Pernambuco e da Paraíba, há dois meses, para inaugurar a primeira transmissão das águas beneficiando uma pequena população, quando se estipulara o atendimento a 390 municípios. Realmente um plano ousado, mas de elevado sentido social e humano. Só que no Brasil os planos não se cumprem, mesmo quando cuidadosamente elaborados.
É preciso confiança e esperança e, lamentavelmente, estas o povo perde à medida que falham ou atrasam os empreendimentos. Nem com a bênção do milagroso São Francisco efetivamente aconteceu a duplicação do orçamento. A estimativa era de R$ 4,5 bilhões. Já foram empregados mais de R$ 9 bilhões e muito mais terá de sair das burras do Tesouro.
Enquanto flui o tempo, ele mesmo nos decepciona. Falta água no Brasil, na bacia do Velho Chico, as populações se inquietam com a possibilidade de longas estiagens e, o pior, com a firme certeza de que não se fez o dever de casa com mister.
A água não alcançou inteiramente o Nordeste esperado, mas já inquieta a falta de chuvas na medida necessária. E, consequentemente, com o provável racionamento de energia. Num país que se pretende maior produção, eletricidade é essencial, não é só para as torneiras.
A Cemig pensou em fazer testes para suprir o Jaíba, mas por enquanto resta aguardar. Atender o Jaíba e região exige águas, e estas viriam do São Francisco, sempre ele.
Em obra pública, de engenharia, não bastam fé e esperança. Daí a preocupação. No tempo de Israel Pinheiro governador, elaborou-se o Planoroeste, um corajoso projeto para irrigar o vale do rio Jaíba. Com financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) fez-se a obra, que produz bastante e hoje representa 27 mil hectares de área plantada em região de seca. A Imprensa diz: é uma potência nacional na produção de frutas, inclusive para exportação. Mas irrigar exige água. E esta já falta no volume imprescindível para a barragem do rio Juramento, que atende a região de Montes Claros.
O frei Luiz Flávio Cappio, que tem no São Francisco sua área de atuação e foi até perseguido, faz – neste 2017- seu diagnóstico:
“A cada ano o rio se apresenta mais fraco, raso, com coroas imensas de areia em seu leito. Além disso, os peixes estão desaparecendo. Esse quadro só poderá se reverter quando um projeto sério de revitalização for levado a contento. “Anêmico não doa sangue”. Se quisermos que o rio gere vida, é preciso que ele possua vida”.


82446
Por Manoel Hygino - 6/6/2017 07:31:29
O calor asfixiante de Brasília

Manoel Hygino

Houve antes crime da mala, inclusive levado ao cinema brasileiro. O excelente repórter Edmar Morel, que trabalhou na imprensa carioca por muitos anos, quando morava em Fortaleza, ainda criança viu dois filmes sobre o tema que o impressionaram. Um deles, ‘O crime da mala’, mostrando como Maria Fea foi esquartejada pelo marido José Pistone, em São Paulo. No caso, o assassino andou carregando a mala, de que gotejava sangue, ao andar de coletivo.
Outro homicídio envolveu Maria da Conceição, em São Luís (MA), 16 anos, filha de Luzia, mulher de pobres condições. Pela jovem se apaixonou o desembargador Pontes Visgueiro, que – sabedor de que a moça mantinha amante – matou-a, colocou-a num baú, enterrou no fundo da casa, mas finalmente foi encontrado o corpo. O réu foi transferido do Maranhão ao Rio de Janeiro para evitar reações populares. Em 16 de maio de 1874, a sentença: prisão perpétua com trabalho. Durou pouco a prisão, pois o magistrado faleceu em meados do ano seguinte.
Mas eis que surge, em pleno século XXI, uma outra mala e um outro crime que ora incomoda o país, evidentemente, pela natureza e origem do conteúdo, altos escalões políticos do Brasil. Não precisaria dizer, mas se trata de mala, que continha (ou deveria conter) R$ 500 mil, carregada por um suplente de deputado federal pelo Paraná, Rodrigo Rocha Loures. O simples transporte da mala virou acontecimento de repercussão nacional.
Explica-se: a fortuna em questão teria origem espúria, pois resultaria de propina doada por um poderoso conglomerado agropecuário brasileiro, o maior do mundo no gênero. A situação se tornou dramática, quando se soube que o presidente da República tivera uma reunião na calada da noite, no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, ora chefe do governo, com o responsável maior pelo grandioso empreendimento industrial.
Simultaneamente, todos os brasileiros interessados tomaram conhecimento das relações de amizade entre o presidente e o deputado, que intermediara, a bom preço, a reunião noturna no Jaburu, cujo teor foi inteiramente gravado pelo esperto empresário Joesley Batista.
O dinheiro foi entregue a menos, mas a diferença faltante foi coberta pelo parlamentar paranaense, tudo já necessariamente acertado com Temer, e filmado pela Polícia Federal, que não está dando folga. Sabido, Joesley precisou de uma segunda entrevista com Temer, recorrendo mais uma vez aos bons préstimos do parlamentar, “político com influência no cenário nacional, até pouco tempo assessor do presidente Michel Temer, pessoa de sua mais estrita confiança”, segundo palavras do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal e relator ali da Operação Lava Jato.
Diante dos fatos, Fachin, afiado facão em suas medidas, determinou a prisão do deputado Loures, atendendo a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Aliás, a dupla Fachin-Janot está bem sintonizada. O ministro considera que Loures usa de “métodos nefastos” para seus propósitos e que, em liberdade, constitui “um risco para a investigação”.
Para Janot, o deputado é “homem de total confiança, verdadeiro longa manus do presidente, expressão explorada pelos jornais, significando “executor de crime premeditado por outro”.
Loures está preso desde o último sábado e a capital trepida.


82440
Por Manoel Hygino - 3/6/2017 09:31:37
As duas faces da moeda

Manoel Hygino

Médica de minha amizade me declarou: Desde que informada pela televisão do desvio de R$ 1 bilhão na reforma do Estádio Mário Filho, a Arena Maracanã, entendo porque, de cada R$ 100 brutos que recebo, entrego R$ 27,50 ao governo. Faz todo sentido. Caso não fosse feita essa extorsão de quem trabalha, como seriam as rapinas maiores? A lógica é cristalina e inequívoca.
A moça observa:
“Lamúria surrada esta de reclamar para pagar o imposto de renda. Caso não ganhasse, não pagaria. A garganta profunda do governo é mais poderosa do que um buraco negro, insaciável, que puxa luz, tempo e vida. O que entra ali não são apenas numerários, são dores, suores, força, lutas pela sobrevivência. Todos pagam para a máquina girar. É lúcido, válido e inserido no contexto” (Paulo Diniz).
Prevê: “Entrego o meu sangue ao governo que aí está, e caio morta. Como médica, estou assim. E as demais profissões? Vitimização, a palavra anda na moda. Que seja! Quem custeará meu funeral? Pelos menos não verei nada”.
Agora, o outro lado da moeda através de um release:
A Operação Bullish pela Polícia Federal, seis dias antes de estourar o escândalo provocado pelas acusações dos empresários Wesley e Joesley Batista envolvendo políticos de praticamente todos os partidos, expôs a relação do Grupo JBS com o BNDES. Entre 2012 e 2003, o banco teria liberado um total de R$ 2, 8 bilhões para as empresas controladas pela J&F Participações.
As empresas favorecidas com os recursos foram a JBS S/A (R$ 6,6 bilhões), Bertin S/A (R$ 27 bilhões), Bracal Holding Ltda (R$ 425,9 milhões), Vigor (R$ 250,2 milhões) e Eldorado (R$ 2,8 bilhões). No período consultado, não foram encontradas operações para outras empresas do grupo.
Com crédito fácil do BNDES, o grupo elevou seu faturamento de R$ 4 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões no ano passado, um crescimento de mais de 4.000%. A multiplicação de riqueza levou Joesley a entrar na lista dos dez brasileiros mais ricos da revista Forbes. Com atuação em mais de 150 países, 300 unidades industriais e mais de 200 mil empregados, o grupo é o maior processador de proteína animal do mundo. Das fábricas, 56 estão nos Estados Unidos, controladas pela JBS USA Holding, que detém cerca de 70% dos negócios dos irmãos Batista, que atuam na área de carnes, alimentos, laticínios, calçados, celulose e higiene pessoal, entre outros. O grupo tem ainda um banco, o Banco Original.
Em sua delação premiada, o empresário Joesley Batista, controlador do grupo, admitiu ter pago R$ 200 milhões em propinas ao ex-ministro Guido Mantega e a outras lideranças do Partido do s Trabalhadores (PT) para facilitar a liberação de recursos do BNDES para suas empresas. “Minha relação sempre foi com o Guido (Mantega). Primeiro, até 2009 ela passava pelo Vic (Victor Sandri) – amigo de Mantega). Até lá, toda vez que eu precisava falar com o Mantega, acionava o Vic. Não sei como funcionava com o Guido e o banco. Acho que ele (Guido) pressionava o Luciano Coutinho, presidente do BNDES, que sempre foi muito formal comigo”.


82436
Por Manoel Hygino - 2/6/2017 08:51:10
A hora do pronto socorro

Manoel Hygino

No meio do caminho ou ao longo do itinerário, há pedras que o poeta de Itabira, farmacêutico por diploma, amanuense por ofício e poeta por vocação, não percebeu. Ele seria altamente beneficiado pelo poder público, pelos próprios meios e solidariedade dos companheiros de jornada, caso houvesse necessidade de algum tipo de amparo.
Há caminhantes nesta jornada doída todas as horas; eles, os infelizes e todavia, até sem esperanças, aqueles que carecem de assistência médica e hospitalar, de família e social.
Mas antes de Drummond, já existiam as Santas Casas, fundadas a partir da rainha portuguesa, que cuidou de zelar pelos viajores de muitos lugares do mundo, desde o século XV. D. Leonor, após mortos o soberano e o único filho, ainda jovem, avocou a missão de amparar esses deserdados da sorte. O projeto cristão, social e humano desembarcou no Brasil, em 1538, e humildemente ganhou terreno, contando com a nobreza dos que têm bondade no coração.
Transcorridos séculos, viu-se que os governos se mostravam incapazes de, sozinhos, oferecer assistência à saúde, principalmente nos países pobres ou em desenvolvimento. As beneméritas Santas Casas continuaram o labor, extraindo recursos de lugares em que supostamente sequer existissem. O Brasil, do tamanho que é, inclusive de problemas, constitui mostra límpida de como extrair água no deserto para saciar os sequiosos de calor humano, de atendimento à saúde, de alimentação adequada, apoio espiritual e psíquica.
Fazer o bem, trabalhar com integridade, seriedade e responsabilidade são atributos indispensáveis aos que se dedicam às Santas Casas no Brasil. Encarregaram-se voluntariamente, de ponderável parcela da assistência à população. Os números, valores e estatísticas são divulgados amplamente pela mídia.
Não é preciso ir longe. A Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, com 118 anos completados no mês passado, passa por perversos momentos.
Há espertos e experts que levantam rapidamente recursos para projetos, frequentemente perversos. Contudo, os de interesse social demandam longo tempo, discussões intermináveis, lentidão na tramitação. Agravam-se os casos das enfermidades, que parecem inúmeros.
As Santas Casas pedem socorro – às vezes pronto-socorro – para sobreviver. Emendas parlamentares ajudam-nas a funcionar, mas exigem celeridade. O projeto de número 7.606 aguarda na Câmara dos Deputados a criação do Programa de Financiamento Preferencial para a área complementar do Sistema Único de Saúde. Aguardar mais quanto tempo? Eis a questão.
Há vidas em jogo, que exigem atenção e carinho. Casos assim precisam de tratamento especial. Não podemos deixar que as Santas Casas, como a de Belo Horizonte, faltem à assistência necessária. Seria crime. Os deputados Laudívio Carvalho e Domingos Sávio requereram urgência na apreciação da matéria. É assunto essencial para muitos seres humanos. Os demais parlamentares têm agora de cumprir seu dever.


82421
Por Manoel Hygino - 26/5/2017 08:19:30
Observatório do Caos

Manoel Hygino

O beco sem saída em que se encontra o Brasil, o maior país do mundo de língua portuguesa, os aqui nascidos se perguntam, parafraseando Drummond: ”E agora, José?” Resposta extremamente difícil, se se considerar a confusão a que fomos jogados no embrulho sem destinação em que nos achamos enrolados e amarrados, sem perspectivas de nos desenrolarmos e nos libertarmos no curto prazo.
Renúncia do presidente Temer? Eleição indireta via Congresso Nacional? Diretas por vacância no cargo, após dois anos do início do mandato? Anulação do resultado da chapa Dilma-Temer, de 2014. No caso de sair Temer, o presidente do Congresso tem 30 dias no cargo para realizar a eleição indireta. Quem seria o candidato?
O quadro é extremamente preocupante, fazendo-nos retroagir a anos atrás. Todos os que sabem um mínimo de história, conhecem o que aconteceu. Derrubado Getúlio Vargas no ápice de uma grande turbulência político-militar, em 29 de outubro de 1945, José Linhares foi convocado pelas Forças Armadas a assumir a Presidência da República, cargo somado à presidência do Supremo Tribunal Federal, que já ocupava, e do Tribunal Superior Eleitoral.
Aliás, é bom que se diga que Linhares, cearense nascido na fazenda Sinimbu, distrito de Guaramiranga, município de Baturité, foi o primeiro brasileiro daquele estado a alcançar a chefia do Executivo Nacional. No bojo da revolução de 1964, outro presidente da terra de José de Alencar, seria o general Humberto Castelo Branco – parente da escritora Raquel de Queiroz, e casado com mineira da ilustre família dos Viana.

Linhares, nascido em 28 de janeiro de 1886, subiu a escada do Palácio do Catete, em 29 de outubro de 1945, aos 59 anos. Nomeado para o Supremo em 16 de dezembro de 1937, pelo próprio Vargas, na vaga do ministro Ataulfo de Paiva, só assumiu o cargo em 24 de dezembro e a presidência do Superior Tribunal Federal em 26 de maio de 1946. Foram, assim, apenas três meses e cinco dias, no cargo.
Em tão pouco tempo não pôde, nem podia fazer muito. Em todo caso, notabilizou-se pela defesa da autonomia do Judiciário, embora muito ainda se exija até hoje. Em sua gestão, fortaleceu o Poder, corrigiu medidas autoritárias do Estado Novo e reformou órgãos da administração pública, defendendo a Justiça e o cidadão.
Apesar da restrita gestão, conta-se que fez nomeações polêmicas de parentes para cargos públicos, ganhando o apelido de José Milhares. Não ficou apenas nisso. Em seu trimestre governamental, criou o Fundo Rodoviário Nacional, que existiu até 1948, financiando a implantação de rodovias estaduais.
O mais importante: assegurou a realização de eleições, as mais livres até então, disputadas pelo general Dutra e pelo brigadeiro Eduardo Gomes, consagrando-se vencedor o primeiro. E houve ainda um candidato apoiado pelo Partido Comunista. Pois, no conturbado momento que atravessamos, recebo a notícia de Ronaldo Cagiano, o excelente escritor de Cataguases, informando que está arrumando as malas para mudar-se para Portugal. Antes da transferência, sem a tradicional noite de autógrafos, lança seu livro de poemas “Observatório do caos”. Um título bastante sintomático.


82418
Por Manoel Hygino - 24/5/2017 07:24:49
Os dólares maduros da Venezuela

Manoel Hygino

Pode parecer que uso muito esse espaço com a Venezuela e seus desmantelos. Não se trata de um país extenso, privilegiado por Deus, sem algumas belezas do Brasil, mas com riquezas imensas, a começar pelo petróleo, encontrado na região do lago Maracaíbo e transformado na principal atividade econômica do país.
Habitada pelos índios anaruaques e caraíbas, a região foi visitada por Cristovão Colombo, em 1498. A América estava, assim, descoberta. Como sabido, no ano seguinte, os espanhóis a batizaram como Venezuela – Pequena Veneza, porque as casinhas existentes eram lacustres.
Mas os europeus não lhe deram maior importância desde que se tornou Capitania Geral do Vice-Reino de Nova Granada. Alguma valia só apareceu quando, a partir do século XIII, se iniciaram as plantações de café e cacau, utilizando a mão de obra africana. Parecia destinada a um grande futuro, sob comando de Simón Bolívar, no século XVIII.Obeve a independência em 1819, com ajuda – de quem? – do Haiti. A ideia da Grã-Colôbia apareceu também com Bolívar, com a adesão da Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador, sob liderança de Bolívar, mas que não deu certo.
De lá pra cá, bastante se sabe. A indústria automobilística, o poder do petróleo, os tiranos e tiranetes, como em grande parte da América Latina. De Chávez para cá se sabe o suficiente, mas não tudo. Depois da eclosão dos terríveis escândalos recentes no Brasil e ampla divulgação dos acontecimentos, novos fatos vieram à tona. Em declaração à PF brasileira, a marqueteira Mônica Moura afirmou que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pagou “por fora” US$ 11 milhões pela campanha do então presidente Hugo Chávez à reeleição, em 2012. Ela apresentou provas e detalhes sobre os repasses, revelando que Maduro ainda teria de pagar a ela outros US$ 15 milhões pela campanha, valor nunca quitado.
A marqueteira afirmou que, além desse valor, recebeu outros US$ 9 milhões de empreiteiras para realizar a campanha de Chávez. Além do pagamento em espécie, Maduro, que à época era chanceler, exigiu que a empresa dela recebesse “quase todo os valores” pagos via caixa 2.
Em um dos trechos, a mulher de Santana informou que “parte desse valor não contabilizado foi pago em espécie, entregue em Caracas diretamente a ela, pelo então chanceler Maduro, na própria sede da chancelaria”. “Maduro recebia Mônica em seu próprio gabinete, entregava-lhe pastas com dinheiro e providenciava escolta para lhe dar segurança no percurso da chancelaria à produtora”. A marqueteira afirmou ainda que a maior parte dos pagamentos foi paga pelas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez.
A verdade verdadeira é a situação extremamente tênue e perigosa que atravessamos. Não podemos adivinhar sequer para onde estamos indo, porque falta confiança agora em tudo e todos.
Disse Luis Cláudio Chaves, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)– MG e hoje vice-presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, que raciocina como nós dias atrás: “Esperávamos que, após o impeachment e a Lava Jato, os políticos repensassem seu papel na sociedade. Mas vemos que os atos de corrupção continuam acontecendo mesmo diante de tantas denúncias e processos movidos”.
E irão continuar, pelo visto.


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Por Manoel Hygino - 23/5/2017 09:06:40
Pesadelo de um país em crise

Manoel Hygino

Conservei a notícia para ulterior aproveitamento. Mártires brasileiros serão canonizados em 15 de outubro na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Eles foram mortos por calvinistas holandeses no século XVIII. Sequer se necessitou de provas para o parecer positivo junto à Consagração de Causas dos Santos.
São os primeiros santos e mártires brasileiros reconhecidos pela Igreja. Os prováveis seguintes, que habitam hoje o Brasil, serão reverenciados oportunamente em tempo e lugar ainda não sabidos. Pelo decorrer dos acontecimentos serão inúmeros, mas não demorará a canonização, se considerados os sofrimentos por que ora passam os cidadãos deste país, a começar pela inquietação causada pela incerteza política e ameaça às instituições.
O que nos espera nas próximas 24 horas? Quem estará à frente dos destinos nacionais? Que resultará da situação a que foi levado o presidente da República com as delações de um grande empresário? Como será a repercussão dos fatos mais recentes, envolvendo nomes expressivos da vida política brasileira?
Tudo ainda é extremamente confuso, principalmente pela velocidade com que se deu sua divulgação. Há mais do que surpresa, porque estupefação. Será que no âmago das conversações houve um mínimo, ao menos, de espírito patriótico? Ou tudo faz parte de um doloroso e perigoso conluio de interesses perniciosos à nação?
O empresário Joesley Batista divulgou carta aberta com uma confissão: ”Erramos e pedimos desculpas. Não honramos nossos valores quando tivemos que interagir, em diversos momentos, com o poder público brasileiro. E não nos orgulhamos disso”.
Evidentemente, o mea culpa é incompleto e o empresário mesmo o diz: “Não temos justificativas”. Repetiu: “pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos”. Não é suficiente a declaração.
Disse mais: “Em outros países fora do Brasil, fomos capazes de expandir nossos negócios sem transgredir valores éticos. O Brasil mudou, e nós mudamos com ele. Por isso, estamos indo além do pedido de desculpas. Assumimos aqui um compromisso público de sermos intolerantes e intransigentes com a corrupção. Assinamos acordo com o Ministério Público. Concordamos em participar de alguns dos mais incisivos mecanismos de investigação existentes e nos colocamos à disposição da Justiça para expor, com clareza, a corrupção das estruturas do Estado brasileiro. Pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos, que acreditam e torcem por nós. Enfrentaremos esse difícil momento com humildade e o superaremos acordando cedo e trabalhando muito”.
O Brasil acompanhará rigorosamente, o que virá. Não agrada o conceito de mártires, mesmo em meio à celeuma da nossa vida agora. As nações civilizadas com razão não podem confiar. O quadro é sintomático e as possíveis melhoras, fugazes. Dependem dos homens que têm o poder nas mãos. Tudo se afigura frágil e sem consistência. Esse quadro tem de mudar urgentemente. Permanecemos no pesadelo de um país em crise.


82404
Por Manoel Hygino - 19/5/2017 08:26:28
Fachin evoca Ibsen

Manoel Hygino

Os acontecimetos mais recentes no âmago do governo brasileiro causaram estupefação a um povo já desencantado com seus dirigentes. Por tanto tempo, estávamos à beira do precipício, mas caímos no vácuo. Nunca, jamais em tempo algum, pensar-se-ia que chegássemos a este ponto.

Aconselha-se meditar olhando em redor. A sugestão resulta da posição do ministro Edson Fachin, após participar de reunião no Supremo Tribunal Federal sobre o “volta ou não volta” de José Dirceu na prisão em Curitiba.

Naquela ocasião, Fachin, relator e voto vencido na matéria, lembrou um escritor que já foi mais conhecido no Brasil: o dramaturgo Henrik Ibsen, cuja peça “Casa de Bonecas” se tornou, tempos atrás, até popular entre nós.

Fachin disse: “Saí daqui, ontem, com vontade de reler o Ibsen, em Um inimigo do povo e A história do doutor Stockmann”. O magistrado parece bom em literatura europeia. Evoque-se o autor norueguês, o tema, o personagem, segundo o resumo de Hélio Gurovitz: “Na peça de 1882, Thomas Stockmann é médico numa aldeia cuja economia impulsiona uma estação balneária. Descobre que as águas são contaminadas pelo esgoto de um curtume e tenta levar a notícia à imprensa, com base num laudo técnico. Seu irmão, prefeito, consegue evitar a publicação e lança um desmentido, para evitar que a cidade fosse prejudicada pela fuga dos turistas.

Stockmann convoca, então, uma reunião para apresentar os fatos, mas é impedido de falar por uma aliança entre o prefeito, jornalistas e representantes dos pequenos empresários. Passa a vituperar contra a “massa amorfa” de cidadãos. “A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse!”, protesta aos brados.

“Quem constitui a maioria dosa habitantes de um país? Pessoas inteligentes ou imbecis? (...) Os imbecis formam maioria esmagadora. É motivo suficiente para que mandem nos demais”.

A revolta popular é tão grande que Stockmann é declarado “inimigo do povo”. Perde o emprego, sua casa é apedrejada, é despejado, seus filhos são expulsos da aula, sua filha mais velha é também demitida da escola onde lecionava. Nem sair do país consegue, pois o capitão que lhe garantira lugar num navio também é demitido.

Hélio Gurovitz prossegue: Ao longo dos anos, Stockmann se tornou um símbolo. Contra tudo e contra todos, mantém suas convicções na defesa da verdade. É um herói que alerta sozinho para o desastre iminente e, embora certo desde o início, é rejeitado e enxovalhado, como a Cassandra da mitologia grega. Quem será nos dias presentes, o nosso dr. Stockmann?

A Noruega, como o Brasil, é plena de paradoxos geográficos, de contrastes telúricos, de asperezas e de encantos físicos. A alma do povo é bela e forte, mas vulnerável aos mais sabidos, oportunistas e desonestos. Estes devem ser identificados e descartados, e sobretudo no momento das dificuldades mais impressivas e das crises.

Então se permite revelar e debater preconceitos e ideias errôneas e as realidades dramáticas do país, pondo em foco, simultaneamente, os graves problemas da sociedade contemporânea.


82396
Por Manoel Hygino - 17/5/2017 07:35:17
Os líderes, segundo Gamaliel

Manoel Hygino

Enquanto acompanhávamos com todo o Brasil as audiências em Curitiba, vinculadas à Lava Jato, mantivemo-nos ligados ao julgamento de Jesus, em Jerusalém, como lembrou a Semana Santa. Assim, lemos a extensa carta do rabino Gamaliel ben Gamaliel a Filo de Alexandria. É um documento valioso, mas pouco conhecido, necessário para se ter uma ideia do clima na Judeia, em torno de 2000 anos atrás.
Gamaliel ben Gamaliel é tido como filho mais novo do rabino Gamaliel, o Antigo ou o Ancião, citado por várias fontes rabínicas. No documento aqui referido, o Gamaliel Júnior abre-se a Filon, ou Filo de Alexandria, filósofo judeu helenista. Sente-se pelas suas palavras a preocupação com o aparecimento de Joshua, isto é, Jesus, em meio àquele território de difícil governo, em que espocavam, aqui e ali, ontem e hoje, disputas de natureza material e religiosa.
Joshua procedia do Norte e, assim, não merecia muita confiança dos habitantes de outras regiões. Embora a crucifixão tivesse transcorrido há alguns anos, Gamaliel temia repercussões entre o povo. Mas admite: “Esse Joshua era, como João, um pregador do reino de Deus que muitos agora desejam. Não ter Joshua ambições políticas pode, porém, ter sido seu erro”.
Continua o raciocínio: Ele tinha discípulos entre os zelotas, que devem ter atribuído segundas intenções ao seu dito “Não vos trago a paz, mas a espada (Mt 10,34)”. Todos iludidos! Joshua aconselhava não resistir ao mal, porém a “dar” a outra face (Mt 5.39). Conselho bem prudente, eu diria. “Há rumores de que um dos seguidores zelotas o traiu perante os romanos, irritado porque Joshua não convocava para um levante popular, sequer a esperança de que sua morte provocasse um”.
Gamaliel lamenta que os romanos não faziam distinção entre movimentos religiosos e políticos, nem sabiam a diferença entre judeus, samaritanos e galileus. De todo modo, “com tantos judeus esperando um ungido, o messias que nos liberte, o atual temor dos romanos, não me parece de todo infundado”. Na crucificação de Joshua, porém, zombaram dele, mas ele contestava para dizer que “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17.21), significava o versículo que diz “a Lei não está no Céu; mas ao nosso alcance para que a coloquemos em prática”.
Gamaliel observa que “um líder martirizado tem vantagens sobre um líder vivo: não se pode matá-lo outra vez. A questão é: pode um líder martirizado continuar a liderar?” A pergunta se me afigura adequada ao agora. Jerusalém virou Curitiba? O texto lembra ainda que, “em nossos dias, a maioria sustenta, com Ezequiel (Ez 18), que ninguém morre pelo pecado de outrem, mas pelos que comete”.
Aqui se pergunta ainda: Por que Pôncio Pilatos entrou no Credo? O personagem não foi querido entre os judeus, como se sabe e, de volta a Roma, morreu envenenado. Gamaliel se confessava feliz por assistir ao fim do potentado romano. “Velhaco assassino não merecia destino melhor que o que ele reservou com tanta presteza para os outros. Pelo que se sabe, apoiou um candidato para apossar-se do Império, mas perdeu”.


82391
Por Manoel Hygino - 16/5/2017 06:10:48
Os honorários advocatícios

Manoel Hygino

Os recentes acontecimentos no Brasil nos lançam de volta aos anos finais do século XVIII. A comparação dos fatos se torna mais fácil se examinarmos o texto recentemente lançado de “Pela Liberdade ainda que Tardia”, de Agildo Monteiro Cavalcanti, pela Editora Café, de Belém (PA). O subtítulo “O trágico e o humor se unem nas páginas da Inconfidência Mineira”, até certo ponto, confirmado pela leitura.
Agildo propõe, corajosamente, responder alguns quesitos-chaves: “Tiradentes e o poeta Tomás Antônio Gonzaga tiveram advogados? Qual era o nome? Quem pagou os honorários ao causídico que fez a defesa dos conjurados? Qual o valor que o advogado recebeu para fazer a defesa dos conjurados? O que dava para comprar,à época, como os referidos honorários? Quantos padres foram presos e processados? A Inconfidência Mineira aconteceu pelo ouro do Brasil. Em que data o ouro brasileiro, pela primeira vez, foi para Portugal? Qual a participação dos paraenses e dos cariocas na Inconfidência Mineira?”.
O autor acredita que, com essas e outras perguntas e respectivas respostas, o leitor se surpreenderá ao concluir a leitura do livro, com menos de trezentas páginas, editado na Coleção Conhecer, da casa editora mencionada. A publicação é dedicada ao causídico José de Oliveira Fagundes, advogado de Tiradentes e do poeta Gonzaga.
O livro tem prefácio do professor e jurista Zeno Veloso, que ressalta o fato de Agildo chamar de Conjuração Nacional, a Inconfidência, nutrindo-se em fontes reveladoras de que “o movimento revolucionário não ficou limitado às comarcas mineiras”. Para Agildo, “é entendimento lamentável dizer que a Conjuração Nacional é inexpressiva, porque não houve efetiva revolução libertária. Se de um lado não houve derramamento de sangue, primeiro com Tiradentes, enforcado e esquartejado, figuras eminentes foram presas e desterradas de suas bases, enquanto outros morreram dentro do cárcere”.
“O prefaciador ressalta que Joaquim José (que acaba, mais uma vez, de chegar ao cinema) por sua trajetória heróica, honesta, idealista e corajosa”, fez sua figura humana invulgar em toda a dimensão”. Enforcado em 21 de abril de 1792, aos 44 anos de idade, faltavam poucos dias para completar três anos de prisão, sem tomar sol, em ambiente úmido, ignorando se era dia ou noite.
Caberia ainda especular quanto receberão, no século atual, os defensores dos denunciados ou acusados nos processos da ‘Lava Jato’. São profissionais da mais alta expressão no campo jurídico e no fórum.
E os réus de 1792? Tiradentes e demais conjurados poderiam pagar os honorários. Mas seus bens estavam confiscados, e eles tinham perdido ganhos e empregados. Então, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro assumiu o encargo e contratou Fagundes por 200 mil réis. Bom preço, justo? A vida em Vila Rica era muito cara. Uma galinha que custava 100 réis em São Paulo, chegava a 4 mil na antiga capital de Minas. Com o dinheiro dos honorários, o defensor dos conjurados poderia comprar cinquenta galinhas ou, se carne vermelha, adquiriria apena um boi de corte e metade de um outro.
Advirta-se: a Santa Casa do Rio de Janeiro só pagou o advogado um ano depois do enforcamento de Tiradentes: em 21 de abril de 1793, portanto.


82390
Por Manoel Hygino - 15/5/2017 07:50:28
Por quem os sinos dobram

Manoel Hygino

A frase se celebrizou e Hemingway a transformou em título para um dos seus mais belos – e densos – romances. “Por quem os sinos dobram”, levado ao cinema com sucesso. Mas, o escritor Emanuel Medeiros Vieira, nascido em Santa Catarina e residente em Salvador, explica: a frase teve berço em versos de John Donne.
Ouvindo sempre “Hallelujah”, de Leonardo Cohen, ele dedica os três versos às crianças da Síria: “nenhum homem é uma ilha isolada(...)/ por isso não perguntes por quem os /sinos dobram: eles dobram por ti”.
A afirmação não se perdeu no tempo, como uma infinidade de outras. Antigório, John Donne nasceu em1572 e faleceu em 1631, séculos decorreram, mas os homens continuam matando homens, não bastam aves e pássaros.
Para o autor catarinense, “é a lógica da guerra, é a essência do poder: é justo matar os inimigos. É injusto matar os nossos. É claro: não há mais tempo pra ingenuidades. A estrutura que domina o mundo é poder, dinheiro, tráfico de armas etc. E com a ascensão de grupos fundamentalistas, da extrema-direita, do terrorismo em todo o mundo, essa perversa lógica mercadológica vai prevalecer”.
Emanuel pergunta e nós fazemos coro: “Como continuar? Apenas palavras. Eu sei somente palavras. Ma é o que me resta”. E elas não são senão o que o dicionário registra. “O velho Shakespeare, que faleceu há quatrocentos anos e quase mais um, reclamava da sua desimportância no meio de uma sociedade que quer apenas e quase sempre o poder: palavras, palavras, palavras, repetia Hamlet”.
No raciocínio de Medeiros Viana, a barbárie e a crueldade extrema, que são o uso de armas químicas, não são fatos novos na história do mundo. Eu sei, é a institucionalização da barbárie.
Sem concordar inteiramente com o escritor, que julga “a ONU um fantoche dos interesses imperialistas – de que lado for”, inclino-me à evidência: a organização não consegue vencer a crueldade que existe. Esta parece intrínseca ao homem, que não aprendeu a sentir os males horríveis que dissemina em torno de si e para sempre.
É profundamente triste tecer estas considerações em maio, mês das noivas, do Dia das Mães, das celebrações cristãs nas igrejas e capelinhas do interior brasileiro, em que as meninas, vestidas de belos trajes brancos, cantam à Virgem que gerou Jesus.
Enquanto acontecem aqui cerimônias tão simples e belas, o mundo se engalfinha em graves embates que deixam milhões de mortos, estigmatizados, órfãos, deserdados, multidões que buscavam salvar-se em outros pedaços do planeta, perdendo a vida nas fronteiras oceânicas, ou cercadas de arame farpado ou muros.
Não se permite que o homem procure o caminho do bem-viver, da felicidade. As nações que detêm poder não medem a sua própria indiferença em causas de males irremediáveis. Os americanos foram perversos em muitas partes do mundo, inclusive com uso do napalm no Vietnã para destruir aldeias, eliminado civis inocentes, embora outros povos o fizeram antes e ainda fazem.
Repito Emanuel: “Por quem os sinos dobram?” Dobram pelos refugiados – que a extrema-direita mundial coloca como o primeiro inimigo. Só falta os fascistas proclamarem: “mate os seus vizinhos”.
Por quem os sinos dobram? Dobram por todas as crianças do mundo, abandonadas, órfãs, perdidas nos oceanos, ignoradas pelo mundo. Dobram pelos humanistas “o uso de armas químicas é proibido pela
Convenção de Genebra desde 1925. Mas qual nação liga para dar convenções?”.


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Por Manoel Hygino - 13/5/2017 07:47:20
Logo, em nível internacional

Manoel Hygino

Estamos no fundo do poço, se é que alguém mediu sua profundidade? Eis a questão. Quem toma conhecimento dos fatos divulgados pelos meios de comunicação se assusta – não mais se surpreende – com o que aconteceu nos tempos mais recentes de nossa pobre/rica República. Ninguém, em sã consciência, admitiria que chegássemos ao ponto da vulnerabilidade que atingimos, acompanhados com preocupação pelas nações de todo o mundo, com as quais convivemos.
O que perdemos em credibilidade é inimaginável, embora haja muito a percorrer nesta quase incrível descida pelo plano inclinado em que nos achamos. Não se permitirá mais ignorar que se trata de fatos reais, não de um pesadelo em inquietante noite. A partir de agora serão investigadas as denúncias já formalizadas judicialmente, ou que venham a sê-lo, sendo imprescindível que elas se façam de maneira clara e lúcida, com espírito público e patriotismo.
Não se trata apenas do que aconteceu em âmbito estritamente interno, se é que, no conserto das nações globalizadas, há algo que foge à atenção do mundo civilizado. Dentro em pouco, e já há prenúncios, as manchetes alcançarão o âmago dos noticiários internacionais, de maneira crua e cristalina.
Estamos ingressando rapidamente no rol dos acontecimentos em escala extra-nacional. Lembro que houve numerosas negociações, como não poderia deixar de ser, com outros países, ainda não de inteiro conhecimento do cidadão. Há dúvidas e inquirições. Em Angola, por exemplo, o presidente José Eduardo dos Santos, é acusado de banditismo, com ajuda de grandes empresas, inclusive a brasileira Odebrecht. O chefe do Executivo do país africano, há 37 anos no poder, é criticado reiteradamente. Ponderável parcela das obras de infraestrutura ali executadas ou em execução poderá ser investigada.
Angola é apenas um no extenso rol das nações que exigem apuração de negociações, executadas por Luanda com apoio de Brasília.
Um blog angolano, um dos principais críticos às práticas políticas do presidente daquele país, considera que devem ser investigadas nossas construtoras. Rafael Marques, fundador do blog, é peremptório: “O Brasil sempre foi visto entre nós como um poder legitimador da corrupção em Angola, isto é, do regime totalitário de José Eduardo dos Santos”.
Disse mais: “O comportamento da diplomacia brasileira sempre foi o mesmo nos diferentes governos no Brasil, da ditadura até agora. Houve certamente um crescimento das linhas de crédito desde o governo Lula, mas foi o período de maior crescimento econômico no Brasil e do aumento da riqueza em Angola por causa do petróleo”.
A ONG se achou no dever de justificar-se: “Temos que criar uma relação melhor, que não seja monopólio da Odebrecht e de um poder ditatorial. Há muito que o Brasil pode contribuir com Angola e vice-versa. Esses laços devem ser reforçados com benefícios mútuos, deixando de ser apenas uma relação de saque dos recursos angolanos por parte das empresas brasileiras que servem apenas para legitimar os crimes de um governo autoritário”.


82381
Por Manoel Hygino - 11/5/2017 18:41:38
Uma tragédia centenária

Manoel Hygino

Na sessão da última quinta-feira de abril da Academia Mineira de Letras, o secretário de Estado da Cultura, Ângelo Oswaldo, de privilegiada e invejável memória, comentou comigo aproximar-se o centenário da morte da família real russa. Pouco, aliás, se tem ouvido sobre a própria Revolução de 1917, mas falta menos de um ano para o fim dos Românov. Transportada através do imenso país até os Urais, ela se instalou na cidade de Ekatarinburgo, na casa Ipatiev, de dois andares, confortável e ampla.

A revolução durou de 1917 a 1920, encerrando a monarquia absoluta de Nicolau II e deixando 6 milhões de mortos, vítimas de massacres, fome e epidemia. Entre as vítimas, aliás, a própria família real – o soberano, a czarina Alexandra e os cinco filhos (quatro mulheres e o caçula, herdeiro do trono), assassinados na madrugada de 17 de julho de 1918, após confinados 78 dias.

Robert K. Massie, que estudou a fundo o tema, descreve os derradeiros momentos: “era meia-noite quando Yakov Yurovsky, líder dos executores, subiu as escadas para acordar a família. Justificou a invasão, afirmando que era preciso remover todos para o porão, por causa do risco de serem atingidos por tiros disparados da rua. Em 40 minutos, Nicolau, 50 anos; Alexandra, 46; o filho Alex, 13 e as filhas – Olga, 22; Tatiana, 21; Marie, 19; e Anastasia, 17; arrumaram-se. Aléxis, que era hemofílico, estava debilitado e precisou ser carregado pelo pai. Um médico, amigo do czar, que estava retido na casa, e mais dois empregados, também foram obrigados a acompanhá-los”.

O grupo desce ao porão. O líder determina que todos fiquem lado a lado para uma foto. Com isso, provaria em Moscou que os reféns não tinham fugido. Em vez de um fotógrafo, onze homens armados entram no local. Faz-se a sentença de morte e o pelotão começa a atirar.

Depois do fuzilamento, só fumaça, o cheiro de pólvora e um rio de sangue. Um pequeno gemido e um movimento. O rapazola, herdeiro do trono, ainda nos braços do pai, moveu fracamente a mão para segurar-lhe o casaco. Um dos atiradores deu um pontapé na cabeça de czarevevith. Yurovsky avança e dispara dois tiros no ouvido do menino. Anastasia,que apenas desmaiara, recupera a consciência e grita. Todo o grupo se volta para ela com baionetas e coronhas de espingardas. Estava terminado.

Nicolau levara um tiro de revólver na cabeça e morrera instantaneamente. Alexandra só teve tempo de erguer a mão e benzer-se. O médico Botkin cai, morto. A criada Demidova resistiu à primeira descarga, mas foi trespassada por baionetas. O corpo de Trupp, empregado da família, estava também lá. Não havia dó ou piedade. O cãozinho Jimmy, um spaniel levou uma coronhada, que lhe esmigalhou o crânio.

Os corpos foram embrulhados em lençóis e colocados num caminhão. Antes da madrugada, o veículo chegou ao local previamente escolhido, o bosque “Quatro Irmãos”. Começa o desmembramento dos corpos. O que restava era dissolvido em ácido sulfúrico, alguns ossos queimados.

O Inquérito Judiciário sobre o assassinato foi realizado por Nicolas Sokoloff, juiz de Instrução do Tribunal de Omsk, publicado em Paris, em 1924 documento sobre a tragédia de Ekaterinburgo, com plantas e 83 fotografias inéditas. Tenho um exemplar da época. Em menos de um ano, será o primeiro centenário da tragédia.


82375
Por Manoel Hygino - 9/5/2017 07:34:19
Esta semana de maio

Manoel Hygino

A semana é uma das mais delicadas deste ano. Transcorrido um quadrimestre, somente sinais muito tênues de recuperação econômica tingem os horizontes. Verdadeiramente, o Brasil terá de enfrentar dias ainda dificultosos para sair da tremenda enrascada em se meteu e que, para dela sair, terá de submeter o cidadão a grande sacrifício.
No decorrer destes textos se pensou que o autor fosse um pessimista, incrédulo talvez por motivos pessoais, após o período de singulares bondades concedidas pelo poder público. Lembro que já o velho Ruy escrevera sobre o tema, referindo-se ao desenvolvimento do bem, pois funesto é o otimismo com as suas miragens falaciosas.
Ainda não foi aberto e examinado todo o espólio recebido pela atual geração de brasileiros, que transmitirá pesados encargos às próximas. Não se trata, como se pensaria, simplesmente dos escândalos envolvendo a maior empresa do país. O caso Petrobrás foi apenas um espectro na série de imensuráveis desvios que pareciam conduzir à perda da própria democracia tão duramente reconquistada.
De escândalo em escândalo, atingimos esta hora dramática. O caos se aproximou em passos rápidos, de que o povo se foi conscientizando, à medida que os fatos eram, como têm sido, divulgados em nível amplo.
O descrédito chegou ao ápice. Os bandidos comuns, os que fazem de sua atividade meio de enriquecimento ilícito, até violento, desafiam os agentes da lei, ganharam foros para expandir ordens de dentro dos presídios, mesmo mediante ações em nível internacional.
Os antigos donos da terra, os índios, se insurgem contra o Estado (e razões devem ter). Os que não possuem habitação, sequer de um quinhão de terra para ali erguê-la, incentivados por grupos e pessoas identificáveis, põem-se em campo contra a população, ordeira e trabalhadora, impedindo- a de locomover-se nas ruas e outras vias de trânsito. Por trás, a má fé, a desonestidade, às vezes a insensatez.
Esta semana de maio é extremamente delicada. Forças políticas – e não políticas – antagônicas terão talvez oportunidade de assistir a um espetáculo raro na história dos povos. Ao cidadão caberá conhecer novos fatos e a versão de pessoas investigadas. Deve-se admitir que há interesses subalternos e antipatrióticos para mobilização dos incautos e ingênuos contra medidas legais imprescindíveis e não adiáveis. Mas, não é um julgamento.
Por mais que se queira esquecer, não se ignorará a lição de Ruy, mais uma vez: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
O jurista, que a Bahia legou ao Brasil, advertiu ademais: “As catástrofes mais atrozes, mais sinistras, mais desesperadas são as que entorpecem o caráter das nações e, depois de afundi-las no coma da indiferença, as sepultam no sono do aniquilamento”.
Não é o caso. A sociedade brasileira, a nação, está atenta, e usa do direito dos indivíduos que a formam, para vê-la extirpada dos deslizes e crimes que a aviltam e a comprometem em nível internacional. Se a hora é grave, cabe enfrentá-la conscientemente.


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Por Manoel Hygino - 8/5/2017 07:21:43
Desfile ameaçador na Coreia

Manoel Hygino

Diz a lenda que a atual península coreana foi dividida em três reinos no século anterior à Era Cristã. Vê-se que se teria de ocupar muito espaço para chegar a nosso tempo. O território, nos séculos seguintes, foi disputado por chineses, mongóis, japoneses e russos. Em 1910, o Japão anexou a região e tentou eliminar a língua e cultura coreanas. Durante a II Grande Guerra, milhares de cidadãos foram obrigados a trabalhos forçados.
A partir da rendição japonesa, após a explosão das bombas atômicas de Tio Sam, a península coreana foi dividida em duas zonas: a de ocupação norte-americana e a soviética. Criaram-se a Coreia do Sul e a do Norte, ambas reivindicando direito sobre todo o território. Oficializa-se o comunismo na Coreia do Norte, sob Kim II-Sung.
Em 1950, norte-americanos invadem o lado não comunista. A ONU envia tropas, com predominância de contingentes dos EUA e ocupa a Coreia do Norte. A China adere à luta e conquista Seul, capital sul-coreana. Tio Sam enfrenta a situação e expulsa os chineses, de volta ao Paralelo 38, que separa as Coreias. Mais de 5 milhões de pessoas morrem em três anos de conflito, dos quais 2 milhões de civis. Em 1953, há uma trégua com definição de uma zona desmilitarizada entre os litigantes.
Paz? Muito longe. A Coreia do Norte é reerguida com apoio da União Soviética e da China, caracterizando-se o regime pelo culto ao ditador Kim-II-Sung. Em 1990, a Agência Internacional de Energia Atômica vigia a situação: os norte-coreanos estariam desenvolvendo um programa nuclear militar.
Assim tem sido, desde então. E já somam quase 30 anos de beligerância entre as Coreias e de intranquilidade para o mundo, que não deseja mais um país no ameaçador clube nuclear. Com a permanente demonstração de forças em Pyongyang, capital do país do Norte, o atual líder, Kim Jong-Un, neto do fundador da dinastia, o mencionado Kim-II-Sung, deu uma altíssima demonstração de poder militar, neste abril, em resposta ao presidente Trump.
Quem vê as fotos e as reportagens televisivas, em que aparece II- Sung, desconfia de sua saúde mental. Não parece um cidadão em pleno uso de suas faculdades. Assim apareceu nos desfiles pelas ruas de Pyongyang, no Dia do Sol, o de nascimento do criador da dinastia.
Após salva de tiros de 21 canhões, dezenas de milhares de soldados de Infantaria, Marinha e Aviação, desfilaram com o passo de ganso, virando a cabeça na direção do balcão onde o líder se achava, em terno preto. Destacamentos carregavam rifles ou lança-granadas, alguns com óculos de visão noturna e rosto pintado. Em seguida, vieram tanques e armas muito especiais: 56 mísseis de 10 tipos distintos, transportados por reboques e caminhões. Para o ditador e seu regime, um dia de festas. Para o resto do mundo, de preocupação.
O país asiático já realizou cinco testes nucelares recentemente e pretende desenvolver um míssil internacional, capaz de atingir e destruir os Estados Unidos. O presidente dos EUA, Donald Trump, pela primeira vez, manifesta sua disposição de conversar com o líder norte-vietnamita, num encontro inédito. A iniciativa se resume a palavras – e não mais que palavras.


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Por Manoel Hygino - 6/5/2017 09:19:34
O espectro bolivariano

Manoel Hygino

Há sempre renovado esforço de determinadas pessoas e grupos para piorar a situação do Brasil e dos brasileiros, embora o propósito se mantenha difícil, dado o quadro em que já nos encontramos. A despeito disso, dos protestos dos que querem a baderna por todos os meios, os heróis dessa empreitada antipatriótica insistem. Foi o que se viu, no último dia 28, quando se quis paralisar o que funciona.
Suponho, todavia, que não conseguiam fazer com que atinjamos o caos a que chegou a Venezuela, de onde procedem diariamente dramáticas notícias (não evidentemente comparáveis as do Oriente Médio, como as da terrível tragédia síria).
Há anos, a Venezuela vive à beira da ruptura institucional. Assumiu o novo nome de República Bolivariana da Venezuela e mexeu com as instituições do Estado, após aprovação da nova Constituição, promulgada em dezembro de 1999. Eliminou-se o Senado Nacional e se instituiu o Parlamento unicameral, ampliaram-se os poderes do presidente, admitiu-se a reeleição, consagrou-se o monopólio do petróleo e reduziu-se a jornada de trabalho. Nada melhorou. Antes pelo contrário.
Ao invés de beneficiar o povo, apertou-se o cerco e o cinto. Com a venda externa de petróleo, montou-se um arsenal de guerra contra o inimigo do Norte, os Estados Unidos, seu maior consumidor. De 2005 a 2010, adquiriram-se da Rússia 4 bilhões de dólares em armamento, enquanto se dava ênfase ao envio do seu principal produto para a China.
Paulatinamente, o perfil de Chávez se foi deteriorando, aproximando de outros caudilhos venezuelanos. A situação econômica se agravava, silenciava a imprensa, crescia a inflação, diminuía a popularidade, começava a faltar tudo: medicamentos, alimentos, produtos de necessidade, até papel higiênico. Os protestos nas ruas foram, e são, combatidos pela força (29 pessoas já morreram), com os militares protegidos por altos salários e cargos.
A morte de Chávez, vítima de câncer que não quis ter sido tratado no Brasil, correspondeu à ascensão de Nicolás Maduro, sem competência para dirigir o país.
No ano passado, a Semana Santa foi considerada feriado, a fim de se economizar água e energia elétrica. A população foi “chamada” a seguir o amável convite. Ao sexo feminino, sugeriu-se redução no uso de secador de cabelo ou sua utilização apenas em casos especiais. O racionamento elétrico em hotéis e shoppings subiu para nove horas diárias.
Na semana passada, Maduro anunciou aumento de 60% no salário mínimo do trabalhador, que também recebe um bônus de alimentação. O salário se elevou a 65.021 bolívares, o adicional a 135 mil bolívares, não influindo nas férias ou gratificação natalina.
Observe-se: é o terceiro aumento salarial em 2017, este último no Dia do Trabalho ou do Trabalhador. O que parece bondade não o é tanto, se se considerar a inflação prevista de 720%, a mais alta do mundo.
Não adianta reajuste, pois não existem produtos básicos. Maduro assegura: “Vamos ganhar esta guerra contra a oligarquia”. E milhares de hermanos escapam à fome e ao desemprego pela fronteira em Roraima.


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Por Manoel Hygino - 3/5/2017 08:31:41
As causas da rebelião

Manoel Hygino

Período de descanso para inúmeros. Assim foi o feriadão da Inconfidência Mineira, que assinalou mais um ano da execução de Tiradentes em 1792, no Rio de Janeiro. Pareceu-me que, em data tão solene para as gerações deste princípio de século XXI, os brasileiros não perceberam exatamente quem foi Joaquim José, nem o que há de grandioso e simbólico no movimento de que participou.
Bem verdade que, este ano, foi lançado o filme “Joaquim” para contar a história do herói que a República consagrou e que a monarquia portuguesa, por motivos óbvios, execrou. De todo modo, ele nutria ideais e enxergou na colônia, cujas terras foram descobertas por Cabral, uma grande e pujante nação.
“Joaquim”, o filme que comentarei oportunamente, espelha uma época e o domínio português. Manoel e Joaquim são denominações típicas em um povo que, percebendo as reduzidas dimensões de seu território, decidiu ampliá-lo. Venceu os mistérios de mares nunca antes navegados e chegou à África, à Índia e vizinhança e, finalmente, à terra de Santa Cruz.
Minas Gerais, longe da península ibérica e da Coroa portuguesa, sabia que algo acontecia. Um velho conselheiro régio, Antônio Rodrigues da Costa, lembrado pelo historiador Jaime Cortezão, advertia, em 1732, sobre o perigo que representava o Brasil para os desígnios do rei e sugeria medidas mais humanas, capazes de diminuir as tensões entre a nação dominadora e o país dominado.
Exatamente sessenta anos antes do sacrifício de Joaquim José numa praça carioca, o sábio conselheiro alertava que o enriquecimento produzido pelo ouro conduziria inevitavelmente à rebelião. Defendia mudança de postura do colonizador, um governo justo e ponderado. Advertia de modo enfático: “riquezas extraordinárias e excessivas fazem muito duvidosa e arriscada a conservação daquele Estado”, isto é, do Brasil.
Rodrigues da Costa tinha razões de sobra e não era um indivíduo qualquer. Tratava-se, como lembra João Camillo, de homem culto, viajado, conhecedor da história e das cortes europeias, antigo aluno do celebrado Colégio Santo Antão, bom latinista, possivelmente adepto da teoria jesuítica do consensus. Rodrigues da Costa não expunha um pensamento relativo apenas ao Brasil. Partia do princípio de que maus governos levam seus súditos à rebelião. No caso específico de Minas Gerais, sua enorme produção de riquezas fazia crescer a vexação.
O ilustre português é peremptório: “o perigo interno, que tem os Estados e nasce dos mesmos vassalos, consiste na desafeição e ódio que concebem contra os dominantes, o qual ordinariamente procede das injúrias e violências com que são tratados pelos governadores, da iniquidade com que são julgadas as suas causas pelos ministros da Justiça e da dificuldade de trabalho, despesa e demora de que necessitam recorrer à corte...”.
E, ainda, “também nasce muito principalmente do encargo dos tributos quando sentem que são exorbitantes e se lhes fazem intoleráveis”.


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Por Manoel Hygino - 2/5/2017 08:18:44
Além da esfera financeira

Manoel Hygino / 02/05/2017 - 06h00

Incontestavelmente, nosso país atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. Os responsáveis pelos destinos nacionais, pela condução do barco no mar encapelado, não encontram os imprescindíveis meios para levá-lo ao bom porto. A situação econômica não é grave, porque já se fez gravíssima, e Meireles faz propostas, defendidas pelo presidente, para amenizar a situação.
Encontra, porém, uma oposição severa. O brasileiro não gosta de aperturas, não é capaz de suportar a adversidade, como a enfrentam povos de outras nações. Continua vendo só bondade na afirmação de Pero Vaz de Caminha, de que aqui, em se plantando, tudo se dará. Mas não apreciamos muito o difícil plantar para colher frutos lá à frente. Talvez influência do clima, que convida à preguiça.
A ninguém escapa a dura hora que vivemos, em que faltam alimentos à mesa e remédios nos hospitais públicos. Reclama-se, procura-se culpados e protesta-se contra os altos níveis dos impostos, só pagos porque são impostos. Não se abre mão das coisas que nos deleitam, ignorando-se que o consumido no prazer nos faltará em casa.
O mundo inteirinho conhece nossas deficiências e enormes dificuldades, embora a colheita de grãos atenue drama em nossa balança comercial e responde a Saint-Hilaire, ao afirmar que ou o Brasil acabava com a saúva, poderosa, ou a saúva com o Brasil. A nossa agricultura demonstra pujança, a despeito da inclemência do tempo e da penosa empreitada em que se transformou o transporte de safras por estradas horríveis. Aliás, a televisão tem mostrado a odisseia das carretas e caminhões para levar a bela produção aos portos, mesmo ao consumidor interno.
Não escapa ao escriba a notícia, requentada, da manifestação de Francisco, o pontífice romano, sobre o convite que lhe foi feito pelo presidente Michel Temer para voltar ao país para conhecer de perto a situação da população carente. A correspondência respondia à mensagem que lhe enviaria para as celebrações aqui dos 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, neste 2017.
Argentino, torcedor do San Lorenzo, o papa, como de costume, não enrolou, nem tergiversou. Foi logo avisando:
“Sei bem que a crise que o país enfrenta não é de simples solução, uma vez que tem raízes sócio-político-econômicas, e não corresponde à Igreja nem ao papa dar uma receita concreta para resolver algo tão complexo”.
Tem plena razão o sucessor de Pedro. Nós é que temos de dar solução aos nossos problemas, em sua maioria criados ou praticados por nossos administradores nestes oito milhões e 500 mil quilômetros quadrados de território.
Não significa dizer que o papa ignorou ou vai ignorar o nosso grande desafio, justamente ele que tanto se preocupa com a situação que se atravessa. Mas, não se vê em condições de propor caminhos:
“Não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis, as superficiais, para uma crise que vai muito além da esfera meramente financeira”.
Da Praça de São Pedro, Francisco define: “crise que vai muito além da esfera meramente financeira”.


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Por Manoel Hygino - 28/4/2017 08:09:49
Francisco vai aos coptas

Manoel Hygino

Novos atentados contra cristãos coptas no Egito em abril, o mês da Páscoa. Enquanto a comunidade orava a Jesus por sua paixão e morte, em Jerusalém, dois séculos antes, o país norte – africano sentia os efeitos da intolerância e fanatismo.
Até o século V, a Igreja de Alexandria, a que pertencem os coptas, representou no mundo cristão um papel pouco inferior à de Roma, o que se pode medir pela importância de nomes como Orígenes, Anastácio e Cirilo.
A história copta é um belo campo para estudo, até porque sua língua, falada pelos antigos egípcios, é utilizada até hoje na sua Igreja, nos cantos religiosos e nas orações.
Sedentários, econômicos e muito prolíficos, monogâmicos, os coptas habitam aldeias inteiras do baixo Egito e sobretudo no Alto Egito. Recusando submeter-se ao concílio de Calcedônia, em 451, sobre o problema da união da natureza divina e humana em Cristo, separou-se da Igreja de Roma, mas continuou de mãos dadas.
No primeiro atentado, neste abril, em uma igreja em Tawta, a 120 quilômetros do Cairo, 27 pessoas morreram e 78 ficaram feridas. A explosão foi nas primeiras filas, perto dos altares, durante a missa. Imagens divulgadas por rede privada de televisão mostraram o chão e as paredes brancas do templo cobertas de sangue, assim como os bancos de madeira destruídos.
O ato criminoso do grupo terrorista Estado Islâmico se dá meses após seu braço sírio convocar o ataque aos “infiéis, ou apóstatas, no Egito e em toda parte”, forma de referir-se à comunidade copta.
Antes, outro atentado na igreja de Alexandria, deixou o saldo de 17 mortes e 49 feridos. Um indivíduo com um cinturão de explosivos detonou a carga, ao ser impedido de permanecer no templo de São Marcos. O líder copta, Papa Teodoro II, que participara das celebrações de Domingo de Ramos, abandonara a Igreja pouco antes da detonação.
O duplo crime adverte para o que poderia acontecer, considerando que Francisco prometeu visitar os coptas do Egito, hoje e amanhã. Ao conhecer a tragédia, o pontífice enviou ao líder religioso do outro lado do Mediterrâneo, uma mensagem: “Ao meu querido irmão, sua Santidade, o Papa Teodoro II, à Igreja copta e a toda a nação egípcia, expresso meu profundo pesar”.
Enquanto o Oriente Médio crepita diante da troca de ameaças, desencadeada principalmente a partir do ataque dos mísseis de Trump à Síria, Francisco não se intimida. Da sacada do Palácio Pontifical na Praça São Pedro, manteve a decisão de, no final deste mês, visitar Teodoro, no Egito. Participará certamente das mais antigas cerimônias e ritos primitivos do cristianismo.
O velho idioma copta não é mais falado como nos velhos tempos, desaparecido há mais de duzentos anos, suplantado pelo árabe. Que mundo novo aparecerá naquele pedaço do planeta, se eclodirem novas guerras no conturbado território? O EI não perdoa, nem admite derrota. Enquanto isso, os cristãos são simplesmente liquidados.


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Por Manoel Hygino - 22/4/2017 14:30:36
Um passeio por Belterra

Manoel Hygino

Há muito, buscava inteirar-me, ou pelo menos me aproximar, da história da aventura amazônica de Henry Ford, na América do Sul, mais exatamente no Brasil. Antes da Segunda Grande Guerra, ele decidiu estabelecer por aqui um grande centro de produção de borracha, para atender à demanda prevista fundamental aos Estados Unidos caso houvesse, como houve, o grande conflito que convulsionou o mundo.

A Clevelândia, território e iniciativa de Ford no norte do país, tem sido pouco focalizada pelos estudiosos do tema Segunda Grande Guerra. E, ainda, por quantos se dedicaram até agora a focalizar o império de um dos mais poderosos empreendedores da indústria automobilística.

Sabia-se que, no Pará, se realizou a experiência do magnata norte-americano, que completaria 70 anos de falecimento em 2017. Não se dedicou ainda, todavia, mais longa e profundamente ao tema, até porque a Fordlândia, que inspirou um estudo publicado por Alexandre Samis (que não localizei em livrarias), perdeu-se no vendaval do tempo.

“Choro por ti, Belterra”, de Nicodemos Sena, autor que já considero referência por esplêndidos livros, vem preencher esse vazio. Nascido em Santarém, do Pará, ele resgata a história de Clevelândia, ou Belterra, cidadezinha daquele estado, que guarda resquícios do que Ford construiu no norte brasileiro.

Lançado neste princípio de ano, pela Letra Selvagem, que o próprio Nicodemos criou e dirige em Taubaté, SP, “Choro por ti, Belterra”, não é romance, livro de memórias, nem reportagem. Em todo caso, pode situar-se nas três divisões. Para Adelto Gonçalves, é “um texto híbrido que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das vicissitudes vivida pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que ainda assolam seus pensamentos”.

A narrativa sintetiza a viagem que o autor fez a Belterra, o que sobrou de Fordlândia. Descreve os sentimentos do pai, ao rever a época e o local da infância e da adolescência; algo muito especial para quem se interessa pelo singular experimento no Brasil e com brasileiros.

A viagem de reencontro com a terra que Ford sonhara é sentimental, podendo ser contada em cada seringueira remanescente, em cada casinha que resistiu ao tempo e às circunstâncias. Pai e filho se perdem naquelas remotas regiões, procurando localizar o passado, marcas e marcos de um tempo pouquissimamente reconhecível. Bernardino Sena, pai do escritor e peça importante na descrição, observou: “Os norte-americanos não eram bonzinhos, como querem se mostrar, mas trouxeram cosias boas que o nosso povo não soube aproveitar como educação e disciplina no trabalho”.

Os locais e personagens da curta peregrinação por Belterra tocaram os dois Senas e tocam aos leitores, que aprendem sobre aquele Brasil mais do que em livros didáticos. Um dos humildes residentes da terra observa: “Faz anos que Belterra virou cidade, mas esgoto e água encanada ainda não chegaram para estas bandas. Os senhores me perdoem, mas não estou reclamando e até sou feliz aqui. Ninguém se importa com a gente, mas também ninguém tem coragem de nos arrancar daqui, se bem que quisessem”.


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Por Manoel Hygino - 19/4/2017 08:53:43
As lições da hora presente

Manoel Hygino

Parece assim nos cassinos: o jogo está feito. Acontece agora o desenrolar das medidas judiciais da Operação Lava Jato, de que o capítulo Odebrecht é o mais grave e calamitoso, se me permitem o adjetivo. Evidentemente, os seguintes serão fundamentais ao desenlace de um drama que se abateu sobre o Brasil e alcançou dimensões internacionais.
Os veículos eletrônicos de comunicação, que exploram o tema à suficiência, mesmo à exaustão, se incumbirão de divulgar o que virá pela frente, antecipando as minúcias que os jornais publicarão. Não há como fugir às normas, mesmo com as sôfregas tentativas da defesa dos indiciados nos delitos.
Em verdade, os acusados insistirão na tese de que nada fizeram de errado, de que as informações e delações são falsas, de que há uma imensurável rede de mentiras para incriminá-los. Faz parte. Enquanto isso, advogados prestigiosos e bem pagos procurarão honrar o compromisso de defendê-los até o último argumento. Também faz parte.
Ao redator e ao respeitável e desrespeitado público – composto pelos cidadãos deste país – cumpre simplesmente acompanhar o andor, de barro e frágil. O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, ao aprovar 76 inquéritos para investigar políticos e autoridades com base nas delações de ex-executivos da Odebrecht, abriu o jogo, para ser disputado nas sisudas câmaras da Justiça.
É algo que vai demorar, sendo oportuno lembrar que, até aqui, foram apenas de setenta inquéritos e mais meia dúzia. Falta muito mais e a nação poderá estarrecer-se, mais uma vez, do que com ela fizeram e do muito mais que pode vir à frente para comprometê-la e degradá-la.
O Brasil não parou, nem vai parar, e não simplesmente porque o presidente Temer o quer. Uma nação como a nossa não se desmonta pela ação delituosa de centenas de pessoas, numerosas já denunciadas, e outras das vindouras listas.
Estamos apenas no começo de um grande esforço para lançar luzes sobre uma fase muito obscura na existência deste país, que quer e precisa conhecer melhor quem está na liderança de seus desígnios, pessoas, grupos. Partidos?
Ruy já dizia que “os fatos de grandeza histórica, que enchem uma época, e imprimem expressão típica a um tempo, não pertencem ao cabedal doméstico dos partidos, que à sombra deles se formam, e lhes encarnam as ideias”.
Vivemos um período dolorosamente dramático e não podemos perder o ensejo de extrair lições para o futuro. Este o momento da decisão sobre quantos estigmatizaram a honra nacional. Deveriam sabê-lo antes de perpetrarem o que perpetraram.
Em todo lugar e tempo, há maus e malévolos, porque em toda parte existem as sementes da maldade, que precisam ser eliminadas antes que germinem ou que sejam afastadas de vez quando identificadas.
Temos, novamente, de citar o grande jurista: “As catástrofes mais atrozes, mais sinistras, mais desesperadas são as que entorpecem o caráter das nações e, depois de as difundir no coma da indiferença, as sepultam no sono do aniquilamento”. Ao coma da indiferença, acrescentaria eu, o da impunidade.


82323
Por Manoel Hygino - 14/4/2017 08:17:01
Os reveses de uma nobre missão

Manoel Hygino

É uma história muito antiga que precisaria ser melhor conhecida. Teve princípio no final do século XV, em Portugal, quando a rainha D. Leonor de Lancastre iniciou uma grande obra pia que se estendeu ao longo do tempo e dos continentes.
À época, peregrinos e flagelados, açoitados pela fome, peste e guerras, se viram na contingência de buscar assistência nos seus deslocamentos por ínvias estradas da península ibérica. Pessoas sentiram-se, contudo, na obrigação de amparar quantos percorriam os velhos caminhos dos romanos e careciam de abrigo material e ajuda espiritual.
Para assistir os errantes cristãos, construíram-se toscos hospitais, mantidos por confrarias. Ao perder o marido e, em seguida, o único filho, ainda muito jovem, Leonor decidiu dar proteção a gente com tantas carências.
Em 15 de agosto de 1498, criou a primeira irmandade da Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia, numa capela anexa à Sé de Lisboa, onde desenvolveu um generoso trabalho. Quando faleceu, em 1524, encontravam-se já instaladas e funcionando 61 Casas de Misericórdia pelo país afora, regidas pelo fraterno compromisso de Lisboa.
Por mares nunca navegados, como diria Camões, a missão preconizada pela rainha chegou às terras descobertas pelos navegadores portugueses. Em 1539, quinze após sua morte, plantou-se a primeira dessas instituições no hemisfério sul das Américas- a Santa Casa da Vila de Olinda. Em 1540, já existia a igreja de Nossa Senhora da Luz, ou da Misericórdia, e o respectivo Hospital. Em 1630, ambos foram destruídos pelos holandeses e, no ano seguinte, por um pavoroso incêndio que devastou a região. Em 1654, com a expulsão dos invasores, restaurou-se a Capitania enquanto a benemérita obra se estendia às demais regiões do território.
A humanitária causa chegou aqui no ocaso do século XIX. Em Belo Horizonte, a Santa Casa nasceu logo após a inauguração da capital e um grupo de pioneiros sentiu a inadiável obrigação de oferecer assistência à saúde da população. Em 21 de maio de 1899, fundou-se uma entidade civil, que permanece até hoje, prestando os mais relevantes serviços à cidade e à sua gente. E a Minas Gerais também.
Pois, faltando pouco para completar 120 anos de idade, a Santa Casa de Belo Horizonte, segundo maior hospital em número de leitos SUS no Brasil (há placa informando que são 1.000 leitos SUS, mas são disponibilizados 1.086) está sofrendo os males de ter-se inclinado aos que padecem os males do corpo e da doença.
Líder e referência em diversos campos das ciências médicas, com 170 leitos de UTI em um único edifício exclusivamente para o SUS, segundo maior hospital em transplante em Minas, líder nas cirurgias do sistema nervoso de aparelhos circulatório e digestivo e nas cirurgias de mama, maior prestador de serviço de urgência oftalmológica, atendendo a 570 municípios mineiros, realiza 12.207 procedimentos/média por mês.
Situa-se entre os quinze maiores prestadores de cirurgia oncológica pediátrica e adulto no Brasil e 1º e 2º lugares respectivamente, em Minas, embora a Santa Casa esteja operando aquém de suas possibilidades. Padece de dramática falta de recursos públicos para manter sua cristã atividade. Há leitos parados. Nem se pergunte a quem cabe a responsabilidade ou a culpa. A falta de solidariedade e soluções se sobrepõe à misericórdia de seu nome.


82318
Por Manoel Hygino - 12/4/2017 09:35:58
A Veneza do Norte

Manoel Hygino

Os últimos acontecimentos na Europa e no Oriente Médio atraem a atenção para a Rússia, país de maior extensão do mundo. Mais de 10 mil quilômetros separam São Petersburgo, no Oeste, de Petropavlosk, no extremo Leste. Soma acima de 17 milhões de quilômetros quadrados, em dois continentes – Europa e Ásia.
Mas ali, além de cenário da maior experiência política do planeta no século passado, o é também de obras literárias de grandes escritores dos séculos XVIII e XIX. Bastaria lembrar Dostoievski, Tolstoi e Gogol. Em criações geniais, seus personagens aparecem em antigas ruas e casas de Moscou e São Petersburgo, cujo metrô foi palco de atentado terrorista, com mortos e muitos feridos, há poucos dias.
Meu pensamento casa com o do historiador Morehead. Ele afirma, em um de seus livros, que talvez tenha sido o brilho dos romancistas russos do século XIX que fixou a Rússia czarista tão vivamente em nosso espírito. Pode ser também pela maneira repentina e completa com que aquele mundo desapareceu, fazendo desabar toda a vasta e complexa superestrutura de vida feudal criada pela monarquia russa durante mil anos. E desapareceu para sempre, há exatamente um século, num colapso até agora pouco rememorado e analisado.
Muito mudou. Até agosto de 1014, quando a Rússia entrou em guerra com a Alemanha, a cidade era São Petersburgo. Passou a Petrogrado, menos germânico.
Em 1924, os bolchevistas transformaram–na em Leningrado. Recentemente, voltou ao original. Mas a cidade se mantém como um dos pontos de maior interesse para turistas e pesquisadores do planeta. A cidade de Pedro merece por tudo que é e contém: o Teatro Mariinski, no qual bailarinas famosas dançavam – e dançam, o Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Chaliapin se apresentava no Narodny Dom. Em Semenovski, sucediam as corridas de cavalos no campo de desfiles. Sem falar nas pinturas do Hermitage, além das lojas e restaurantes chiques. Frequentemente comparava-se São Petersburgo a Veneza.
Pedro, o Grande, realizou a metamorfose, antecipando-se a JK, entre nós. Decidiu remover a nação da herança eslava e lançá-la para a cultura da Europa Ocidental, construindo uma nova cidade nos pântanos do rio Neva. O soberano queria que São Petersburgo fosse uma janela para a Europa Ocidental. Milhões de toneladas de granito vermelho foram transportadas para a região. Duzentos mil trabalhadores pereceram de febre e desnutrição, mas Pedro já governou a partir daquela cidade artificial no cimo do Mar Báltico.
Robert K. Massie recorda-a erguida sobre água. Estendia-se através de nove ilhas, ligadas por pontes arqueadas, rodeadas por canais sinuosos. O rio Neva enfeitava e enfeita. Do lado Norte, a Fortaleza de Pedro e Paulo, encimada por um agudo pináculo dourado, 150 metros acima da catedral fortificada.
Por quatro quilômetros e meio, na margem Sul, estavam o palácio de Inverno, o Almirantado, as embaixadas estrangeiras e os palacetes da nobreza. No tempo de Pedro, ali estava tudo o que era elegante. A sociedade falava francês, não em russo, e os melhores vestuários e mobílias eram encomendadas de Paris.
Chamada a Veneza do Norte, São Petersburgo revelava-se europeia. E guarda muito da velha tradição.


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Por Manoel Hygino - 10/4/2017 08:37:49
Nuvens negras nos céus

Manoel Hygino

A foto que circulou pelo mundo na última terça-feira, 4 de abril, comoveu e consternou. Nela, o comerciante Abdel Hameed al-Youssef, de 29 anos, apareceu, abraçado aos filhos gêmeos, de nove meses, a mulher e outros parentes. Todos foram vítimas do ataque químico que resultou na morte de 86 pessoas inicialmente, e ferindo mais de 550, no noroeste da Síria.
As crianças, do sexo masculino, são mostradas com cabelos penteados, como se dormissem. Na frente dos presentes, o pai repetia: “Diga tchau, bebê, diga tchau”. Ele se achava com os filhos quando ocorreu o ataque das forças governamentais. Para obter socorro, procurou os demais parentes – dois irmãos, sobrinhos, amigos e vizinhos. Ao voltar, encontrou os gêmeos mortos, em consequência da brutalidade da guerra e da desumanidade das autoridades.
O ataque utilizou gás sarin, como confirmado por especialistas. Autoridades turcas acusam o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, pelo bombardeio com a substância tóxica, o que mais revoltou o mundo tido por civilizado ou como tal classificado. A crueldade da ação bélica foi ignomínia, que – como suficientemente sabido – é apenas uma das marcas das ações do ditador Assad.
Seis anos de guerra e muitos milhares de vítimas, inclusive civis, crianças, mulheres e idosos, e de componentes de equipes médicas e de assistência aos feridos, demonstram que o regime sírio, apoiado por Moscou, é uma insânia, configurada como verdadeiro genocídio.
A tirania de Assad lança mais lenha à fogueira interminável do Oriente Médio, em que o apoio da Rússia a Bagdá até certo ponto assusta o Ocidente. Ainda mais quando Moscou se vê em apuros para conter movimentos internos contra Putin e para tentar explicar o atentado em São Petersburgo, há poucos dias.
O homem-bomba, acusado do ataque à velha capital que Pedro, o Grande, construiu sobre os lagos nórdicos, seria um russo nascido no Quirguistão, fronteiriço ao Cazaquistão. De seu ato, restaram inicialmente 14 mortos e 49 feridos, numa estação do metrô da histórica cidade. Simplesmente um atentado terrorista ou parte de um movimento de sublevação contra Wladimir Putin?
Simultaneamente, a inesperada decisão do presidente Donald Trump de bombardear território sírio com mísseis disparados de navios americanos no Mediterrâneo provoca interrogações. O que significa efetivamente? De Washington, sob Trump, nada pode surpreender. Mudanças de posição do sucessor de Barack Obama podem acontecer inopinadamente e assim tem sido nos escassos meses de gestão.
Uma nuvem negra e ameaçadora cobre extensas regiões do mundo, principalmente naquelas nações que mais precisariam de paz para cumprir seus projetos de progresso. Uma das primeiras consequências foi a elevação vertiginosa dos preços de petróleo. Beneficiará a quem? Quais as consequências que sobrevirão para o mundo globalizado? Mais uma vez, os pobres pagarão pelos pecadores?


82307
Por Manoel Hygino - 7/4/2017 08:40:45
Ficando para as calendas

Manoel Hygino

O Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, desde 1822. Na República, o período é dos mais delicados, se não grave, e os esforços ora desenvolvidos para resolver os problemas que enfrenta não demonstram ainda força suficiente para vencê-los.
O panorama político, administrativo, jurídico, econômico e social já deve deixar insones os que têm a responsabilidade de gerir os destinos nacionais, depois dos desacertos, desvios, desmandos e falcatruas que resultaram na hora presente. Não há pressão, em termo de tempo, para a correção de rumos e atitudes.
O pior é que não se trata de soluções para questões rigorosamente da nação, porque todos elas se encontram e formam uma bola de fios, unidos uns aos outros, que precisam ser desenovelados a partir de um ponto único. Em resumo e linguagem comum, estamos todos enrolados em torno de temas, que envolvem e acolhem personalidades, gente de realce e poder de mando e decisão nos altos negócios.
Em última análise, os problemas só serão resolvidos de fato quando forem dadas soluções adequadas a cada caso de per si. No caso dos processos em andamento, abrangem extenso elenco de nomes prestigiosos da cena política e ocultam interesses múltiplos, enormes, que precisam ser identificados e investigados, para que culpa não pesem sobre inocentes e incautos.
Os acusados de agora simplesmente negam participação nos delitos, o que constitui uma maneira fácil de safar-se. Em outra fase
apontam-se pessoas que poderiam esclarecer os fatos e aí começa uma nova, longa e demorada inquirição, por testemunhas dos acontecimentos ou efetivo conhecimento e cuja conclusão se perde nas calendas.
Ora, são inúmeros os brasileiros que poderão ser convocados a depor na série imensa de escândalos que têm tumultuado a vida deste país em anos recentes. Se cada réu ou futuro réu indicar dois, três ou mais nomes de pessoas para serem ouvidas como testemunhas ou suspeitos, cairemos indesviavelmente no âmbito da conclusão impossível.
Há de levar-se em consideração também que poderão ser convidados a manifestar-se todos os cidadãos-eleitores, responsáveis originais e maiores pela escolha dos que nos representam, de um modo ou outro, nos três poderes.
Está-se ganhando tempo, procrastinando, para enfim os crimes serem prescritos e os criminosos ficarem imunes à ação da lei, um péssimo exemplo que ficará para as futuras gerações. Ficaremos, assim, sob o risco de pecar por omissão e, em consequência, por conivência. Será o peso que desabará, irreversivelmente, sobre todos nós, desta geração sofrida que pena, passa dificuldades, mata e morre nas ruas, sob o olhar desinteressado dos potentados. Eis a triste realidade que não podemos ignorar.
Não podemos perder de vista, enfim, que somos os autores do futuro. Não seremos perdoados em nossa falha.



82303
Por Manoel Hygino - 5/4/2017 08:03:06
O país em que estamos

Manoel Hygino

A bandidagem está solta país afora. O tema ficou frequente nos noticiários de televisão. No último dia 29, a montesclaros.com informou que dois homens assaltaram uma fazenda, no povoado de Laginha, zona rural de Montes Claros, perto da casa onde nasceu e viveu na infância a primeira mulher do ex-presidente Lula. Era meio da tarde. Os indivíduos pediram informações e água aos dois moradores – ele, com 72 anos, ela com 69. Armados de revólveres, renderam o casal. Prenderam os moradores, roubaram o possível e fugiram em moto. Com ajuda, até de helicóptero, a PM localizou a moto, que no cangaço moderno – faz o papel de cavalo.
Na capital e no interior, as tropelias continuam. A despeito da ação policial, os meliantes não cessam sua atividade. Invadem-se propriedades nas regiões rurais, agridem-se os trabalhadores rurais e seus familiares, furtam ou roubam (atente-se para a diferença). Assalta-se nas vias públicas das capitais, mata-se covardemente brasileiro ou estrangeiro, que ainda tem a coragem de aventurar-se por aqui, mesmo com GPS.
Os atentados contra as burras do tesouro se repetem, por todos os meios e condições, o Judiciário e o Ministério Público, a Polícia Federal e outros organismos de defesa do cidadão e dos bens do patrimônio comum, são incapazes de conter a ação delituosa. Chegamos à dura convicção de que os criminosos são mais poderosos que os honestos trabalhadores.
As cidades foram tomadas por delinquentes de toda idade e procedência. A periferia, ocupada por gente que veio de longe sonhando uma casinha para morar, estudo para os filhos e assistência à saúde, se tornou um lastimável depósito de famílias enganadas, desenganadas e revoltadas, em que se formam (?) as próximas gerações. Que gerações são estas, pode-se adivinhar.
As campanhas para amenizar a tragédia não resultam proveitosas. Até porque faltam estrutura e dinheiro, eis que dilapidadores do erário entraram em ação, há muito tempo. O Brasil acordou tarde na busca de soluções adequadas, efetivas e rápidas.
Minas, por suas dimensões nacionais, por sua privilegiada situação no mapa, por sua enorme malha viária (a maior do Brasil), sofre os efeitos. Há poucos dias, a Operação Alfin, deflagrada pela Polícia Federal de Mato Grosso do Sul, mostrou a delicada e grave participação do estado no tráfico internacional de drogas. Revelou o que, de antemão e até certo ponto, se sabia.
Agentes da lei prendem automóveis, caminhonetes, até aviões, com cargas de entorpecentes, vindos de nações próximas, mesmo não limitando o estado com outros países. O coordenador da operação e chefe da Delegacia da PF naquele estado explica que Minas Gerais tem sido constantemente rota do tráfico internacional em virtude de sua posição geográfica.
O mal não é apenas para estrangeiro sentir. Cidades grandes e pequenas se transformaram em pontos de consumo de drogas. Nossas crianças e adolescentes começam cedo no vício. Não diria que se ignora para onde estamos indo porque, em verdade, já estamos no reino deletério a que fomos atirados por incompetência, ignorância e interesses malsãos. Sair dele, eis o problema.


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Por Manoel Hygino - 4/4/2017 09:29:52
A sobrevivência da democracia

Manoel Hygino

Quando terminará a crise em que nos encontramos imersos? A pergunta não tem resposta, e aí está um dos pontos dramáticos da hora que nos aflige. Poder-se-ia perguntar como o fez Cícero da tribuna: “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”.
Resultado de décadas, mais do que isso, de inclemência com o povo deste país, pela insânia e despudorado uso do poder para manter privilégios criminosos mediante corrupção, atingimos um ponto crucial. Estão em debate e julgamento crimes hediondos cometidos contra a nação. O chamado mensalão é apenas uma referência, embora fizesse crer que os desmandos e desrespeito ao cidadão e a honra pátria estivessem a termo. Puro engano.
O crime se enraizou terrivelmente na máquina administrativa e vencê-lo não seria apenas questão de tempo. Tornara-se imprescindível transformar a mentalidade, a cultura, que se estabelecera. Dura e demorada missão.
O prestigioso advogado e professor de direito Antônio Álvares, em artigo de bem tempo atrás, comentou o tema, ao manifestar-se sobre as lições do mensalão. “Qual a utilidade desse processo para o país e para o povo?”, perguntava e ele mesmo respondia: “O lado mais positivo foi que um processo penal de importância chegou ao final e pessoas importantes foram condenadas, fato raro no país. O princípio de que todos são iguais perante a lei, em direitos e deveres, deixou de ser um mandamento no papel para ser uma realidade na prática”.
Incomoda, contudo, e muito, o problema dos recursos no Judiciário. O próprio advogado advertiu: “Outro aspecto positivo: no Brasil, endeusam-se recursos. Quanto mais, melhor. Os juízes de cima corrigem os juízes de baixo. No entanto, o mensalão só chegou ao fim exatamente porque a instância de julgamento era única, ou seja, começou e acabou no STF. Caso contrário, estaria se arrastando até hoje na primeira instância, com milhares de requerimentos, pedidos, provas, perícias e tudo mais que se pode fazer para amarrar os processos”.
Eis o momento que vivemos, quando o cidadão honesto, sofrido com as injustiças praticadas enquanto não se concluem os processos, começa a acreditar que os envolvidos nos crimes não pagarão por eles. Esta a maior desdita que poderia recair sobre o homem e as empresas dignas, que ainda insistem no caminho da lei, da ordem jurídica, da validade moral para vencer as circunstâncias. O Brasil não pode perder a confiança em si mesmo, mas esta é a hora da decisão.
Rubens Ricúpero observou, há exatamente sete anos, que “a cumplicidade interna com a corrupção sob pretexto de governabilidade (além da complacência externa com tiranos e violadores de direitos humanos em nome do realismo) são as manchas principais da situação que se vive no Brasil”.
A observação de sete anos é válida mais do nunca. Ricúpero acrescentou que os valores morais e o aperfeiçoamento da democracia são sacrificados a ganhos imediatistas. É a miopia moral que se concentra nos lucros perto e não enxerga os prejuízos a maior distância.
A possibilidade da democracia, como ensinava Bobbio, advém da confiança recíproca entre os cidadãos e destes nas instituições. A corrupção generalizada aniquila a confiança e provoca a degeneração, nelas, incapazes de funcionar bem.


82291
Por Manoel Hygino - 1/4/2017 07:57:35
O futuro ameaçado

Manoel Hygino

Em face dos ingentes, delicados e complexos problemas que afligem o mundo e, especificamente, o Brasil, neste quase fim de segundo decênio, do século XXI, medito. E há muito a meditar, diante do nível de insensibilidade humana, da degradação de costumes de modo geral, entre os quais os vigentes nos anais políticos.
O Brasil se tornou nação-problema, embora sempre ostentasse adequadas condições para fazer o seu povo feliz e próspero. No entanto, o que se vê, acompanha-se e se sente é uma débâcle que corrói grande parte do que ainda há de honesto e digno.
Era comum a nossas lideranças falar em pátria, honestidade e futuro, o que se transforma em lembrança cada vez mais distante. As palavras aparentemente foram riscadas dos discursos, até parecem ter perdido muito de seu sentido na atual fase de corrupção.
Faço o raciocínio, ao lembrar Francisco, o papa, ao apresentar à comunidade cristã a sua encíclica Laudato si: que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? A indagação é grave: “para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos?”.
Mais adiante, o pontífice propõe empreender em todos os níveis da vida social, econômica e política, um diálogo honesto, que estruture processos de decisão transparentes, enfatizando que nenhum projeto pode ser eficaz se não for animado por uma consciência formada e responsável.
Sublinha o moderno excesso de antropocentrismo: o ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder.
Daí a lógica do descartável, tratando o homem como um simples objeto de dominação. É a lógica que leva a explorar meninos e meninas, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em extinção e de “diamantes ensanguentados”. É a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos e de drogas, do descarte de crianças por não corresponderem ao desejo dos pais.
Neste começo do segundo trimestre de 2017, o quadro é dramático no Brasil, mas não somente aqui. Evidentemente têm os brasileiros de cuidar-se, em meio à tempestade e ao desvario de uma sociedade vergastada pela degradação.
As previsões são terríveis. A Organização Mundial do Trabalho advertiu, há poucos dias, que o mundo necessita de 40 bilhões de novos postos de trabalho. Isso tem consequências funestas, porque trabalhando é que se dá sentido à experiência humana.
Mas deve doer à consciência deste país notícias como a do menino de 6 anos, na Grande São Paulo, que ofereceu aos bandidos armados seu cofrinho de moedas para tentar salvar a vida do pai. Os criminosos queriam saber onde estava o cofre.
O marceneiro levou um tiro fatal no peito, diante da criança e de sua mãe após a humilde habitação ser invadida. Os malfeitores não sabem perdoar.


82288
Por Manoel Hygino - 30/3/2017 08:43:08
Com a alma engarranchada

Manoel Hygino

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), esteve mais uma vez em Belo Horizonte, a mais recente para pronunciar conferência na aula inaugural da Faculdade de Direito da PUC-MG. Lá estudou e se formou, lecionou, ganhando caminho para a carreira que o Brasil acompanha de perto.
De perto: primeiro, porque é mulher, e contra elas ainda há, por mais que se negue, certo preconceito pelo acesso do sexo feminino aos mais altos cargos dos três poderes. Mas também era um convite que não poderia deixar de atender, pois a PUC é a sua casa. E, como se diz em nossa terra, Montes Claros, seu e meu berço, não podia fazer feio.
Ademais, há uma tradição naquele rincão. É o respeito pela mulher, simbolizada entre outras por Dona Tiburtina, que teria influenciado fortemente a política local. No ano 30, deu-se o grave incidente de 6 de fevereiro, que resultou na morte e ferimentos graves de muitas pessoas, até altas autoridades no país. O jornalista Assis Chateaubriand denominou o episódio de “Emboscada de Bugres”, título de livro indispensável ao conhecimento dos fatos, de autoria de Milene Coutinho Maurício. Em verdade, mulher do sertão é séria, joga duro por suas convicções e exige respeito.
Ao chegar à PUC, dias atrás, a ministra recebeu apupo de duas dúzias de pessoas. Ela não se ofendeu, argumentou: “vaia é da democracia, faz parte do jogo”. Na manhã seguinte, aparecia sorridente em foto de jornal de Belo Horizonte, e ela não é de fácil sorriso.
A presidente da Suprema Corte afirmou o que o povo deste país precisava ouvir: “Nós, do Poder Judiciário, temos plena consciência de que o tempo da Justiça não pode levar décadas, porque o cidadão não pode morrer, sem saber o resultado. Mas o juiz é o menos interessado nessa demora”.
A crítica mais acerba (?) que se faz ao sistema é que a Justiça falha, ao delongar o andamento dos processos, acoimada de responsável maior pela impunidade. Carmen Lúcia foi clara: “Tenho que dizer que é chato você dar uma primeira decisão”... .
Continuou: “... recorrem, depois se dá uma segunda decisão, depois se leva para a turma do STF, aparecem os embargos declaratórios e os agravos. Semanas atrás, tivemos uma ação com decisão só no Supremo pela oitava vez. Há uma hora em que o processo não acaba nunca”.
A ministra enfatizou que o Brasil tem hoje 16 mil juízes para 80 milhões de processos. O volume excessivo impossibilita uma análise rápida sobre temas complexos que exigem ouvir todos os lados e assegurar o direito das defesas.
Declarou ainda: “sabemos que as demandas não satisfazem às exigências que a sociedade quer. Nós, do Poder Judiciário, temos plena consciência de nosso papel”, reconhecendo modificações e transformações que o próprio Judiciário quer e exige.
Carmen Lúcia esclareceu à suficiência: “O que vem para o Judiciário são os pedidos de autorização para investigar. É isso o que o procurador-geral da República vem fazendo nesta fase. As denúncias oferecidas são pouquíssimas”.
Carmen Lúcia pensa em voltar às montanhas, à cátedra, após aposentar-se no STF, no princípio de 2018. Planeja retomar às aulas na PUC-BH: “Estou com saudades dos meus meninos”, declarou.
E concluiu: “Acho que tenho a alma engarranchada em alguma árvore do norte de Minas”.


82262
Por Manoel Hygino - 20/3/2017 08:12:02
A Enchente das Goiabas

Manoel Hygino

No final de março, a grande expectativa e esperança residiam em chuvas. Aguardava-se ansiosamente as águas de março, que tradicionalmente caem no Dia de São José, 19, na interlândia identificada como Enchente das Goiabas. Para Belo Horizonte, o dia 18 seria de muito calor, quando os termômetros marcariam 31 graus. De modo geral, as previsões da Meteorologia não eram muito animadoras: sol com algumas nuvens, não chove. Ventos brandos nas serras.
Tempo de camisas molhadas pelo suor, de paletós apenas para aqueles que se acostumaram aos gabinetes, que contam com ar refrigerado. O ambiente político tampouco ajudava, extremamente candente. O brasileiro comum tentava entender o que acontece, com os veículos de comunicação divulgando o que é caixa 2, no palavrório dos ases do campo jurídico.
Ficara registrada a afirmação clara e peremptória da ministra Carmen Lúcia: “Caixa Dois é crime”. Mas como no Brasil, a lei é dura, mas estica, surgem emendas de várias fontes- explicações e argumentos que fundem cucas dos que querem saber exatamente o que ocorrerá.
Um pormenor foi observado: 15 de março é Dia do Circo e os cidadãos mais malévolos se julgam palhaços em meio ao tumulto político e às discussões jurídicas. Até o fantasma das febres, chikungunya, causada por vírus do mosquito, arrefeceu e, a febre amarela perdeu ressonância, porque estávamos em concentração na busca de respostas para nossas mais íntimas indagações. E desditas.
Para onde estamos indo?
A avalanche,parece, apenas começa a descer da montanha, e ganhou força com a lista de Janot, (e tivemos em Minas um Janot, que, em épocas passadas, fazia chover.Faz falta a esta altura). Se falhasse a Enchente de São José, outras poderiam sobreviver proximamente. Quem acompanha a mídia, sabe do que se trata.

O ministro da Fazenda, que fala grosso e forte, assegura decisão no dia 22. Será anunciado se haverá necessidade de aumento de impostos, bem como a possibilidade de correção do Imposto de Renda.
Não só: Henrique Meirelles irá dizer se haverá necessidade de cortar gastos para cumprimento da meta de resultado primário.
Na data, vai-se divulgar o relatório de receitas e despesas do primeiro bimestre, ocasião em que também se atualizarão as projeções para os dados econômicos. Não só: podemos preparar-nos, a talvez, para o contingenciamento, que nos obrigará a apertar mais o cinto.
No mais, a Lista de Janot, segundo Meirelles, não influenciará nem prejudicará a reforma da Previdência, cuja votação na Câmara dos Deputados está programada para abril. Não é primeiro de abril, mas fato.
Fiquemos de olho: está na mira do Planalto a elevação do PIS e do Confins sobre a gasolina e o diesel, que constitui a alternativa de alta de tributo mais viável para cumprimento da meta fiscal deste ano. Com a providência, conseguir-se-á arrecadação extra de R$ 3 bilhões em 2017.
Verdade que, com isso, o presidente descumpre a promessa de aumentar a carga tributária no seu governo. Mas, a esta altura dos acontecimentos e diante das circunstâncias, isso é apenas um detalhe.


82255
Por Manoel Hygino - 18/3/2017 08:38:52
Tudo combinado, nada resolvido

Manoel Hygino

Enfim, pensar no futuro. No ano vindouro, o Carnaval será entre 9 a 11 de fevereiro no Brasil. Terminará como sempre, quarenta dias antes do Domingo de Ramos, dia da semana que antecede à Páscoa, um período de 46 dias. É a Quaresma – que a gente da roça pronunciava “coresma” –, um momento espiritual e de reflexão em que também se faz algum tipo de jejum. O Domingo de Páscoa acontece sempre entre 22 de março e 25 de abril, quando se celebra a Ressurreição de Cristo.
O ano, no entanto, flui inquietantemente entre nós. Acompanhemos as manchetes de um destes dias do mês: Brasília ferve com delações e inquéritos; Lista de Janot aumenta tensão no Planalto; ‘Lava Jato’ pode afastar Lula no mês da eleição; Brasília em apreensão; Promotores ameaçados.
Nem se dirá da interminável sucessão de crimes de toda natureza que pululam pelas colunas dos jornais, pelas telinhas de televisões e pelo rádio do carro. Se mais precisasse, surgiu a ameaça de paralisação do metrô em 15 de março, que precipitou a preocupação com o dia seguinte, enquanto se programavam marchas e concentrações que tumultuariam o trânsito nas áreas centrais e nos acessos das grandes cidades. Parece que, realmente, “há todo um rio invisível a correr nos subterrâneos do corpo social brasileiro”, como disse, há tempos, Fábio Lucas, em outras circunstâncias.

A pergunta apropriada ao momento seria não mais “que país é este?”, mas “para onde vai este país?”. E na avalanche, os brasileiros são levados impiedosamente montanha abaixo.
Se as instituições ainda funcionam, é bom reconhecer-se que não há satisfação do povo, ameaçado por todos os lados e em todas as horas, ou pela ação das organizações criminosas ou pela ostensiva divergência entre os partidos ou facções políticas no Congresso Nacional.
Todos os dias e noites, fica-se em atenção permanente e angustiante aos meios de comunicação para saber das últimas notícias sobre decisões do Judiciário ou das sucessivas substituições nos altos cargos do Executivo, mercê das sérias acusações que pesam sobre os nomes anunciados ou os cidadãos nomeados.
O Brasil perde confiança nos homens públicos e nas lideranças, enquanto o próprio Supremo Tribunal Federal entra no ritmo perigoso de dúvidas sobre declarações de ministros, condutas e decisões. No Brasil, entrou-se no difícil período do “tudo combinado, nada resolvido”. O que se sabe hoje não vale amanhã.
Estamos fazendo de conta em torno de problemas graves nesta hora da vida nacional. O pior é que apenas “vamos levando”, quando o peso da responsabilidade paira muito acima das discussões pela mídia, que somente atiram mais lenha à fogueira, como se não estivesse em jogo a própria dignidade nacional. Não se brinca com fogo. Temos exemplos amargos ao longo da história. Há de reconhecer-e que se vive um instante de quase aflição, que pelo menos exige patriotismo.


82247
Por Manoel Hygino - 14/3/2017 08:33:02
Os maus caminhos do país

Manoel Hygino

Não bastou o vexame assistido por milhões de pessoas em todas as partes do mundo, quando a equipe de futebol do Brasil foi esmigalhada pelos alemães por 7 a 1. Jamais, em tempo algum, alguém poderia imaginar tão fragorosa derrota. Mas aconteceu e não admite dúvida.
Não só isso. Neste março, o popular jornal francês “Le Monde” noticiou a respeito da suspeita de corrupção na escolha do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016. Disse que três dias antes da definição como cidade-sede, em 2 de outubro de 2009, uma companhia ligada ao empresário Arthur César Mendes Soares Filho, apelidado de Rei Arthur, teria entregue U$ 1,5 milhão a Papa Diack, filho de Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo e membro influente do Comitê Olímpico Internacional, para influenciar os votos na eleição da sede das Olimpíadas.
“Trata-se de uma triste novela que começou com o escândalo da construção de estádios e acabou com o episódio de obras olímpicas em deterioração, entre elas o Maracanã”. “O Rio teria trapaceado”, concluiu o diário francês.
No dia 6, aliás, o jornal publicou outra reportagem sob título de “Favela Olímpica”, criticando o estado das instalações erguidas para os Jogos Olímpicos. Afirmou que, seis meses após as disputas, a população sentia revolta e indignação com o estado do Parque Olímpico, a cerca de 20 quilômetros de um dos bairros mais seletos da cidade, considerado a “Miami do Rio”, agora com piscinas cheias de lixo e larvas.
No momento em que a imprensa inteira mostra o estado horrível das rodovias federais, seria apropriado perguntar-se se não teria sido menos clamoroso que se utilizassem os recursos empregados na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos para recuperá-las. Não se trata de pequenas estradas entre municípios (que são os que dão votos). Como as televisões presentemente mostram à suficiência, constituem rodovias sumamente importantes para a economia nacional, inclusive para escoamento de safras valiosíssimas à nossa receita internacional.
O que as telas nos revelam constitui um atestado insofismável de que andamos por maus caminhos... Resultado de desvios de recursos públicos, uso de propinas, além de tantos outros métodos praticados pela corrupção, que nos agride eticamente e nos envergonha.
Perdemos milhões pela impossibilidade de exportar nossa safra atual e os estrangeiros que veem as péssimas condições das estradas devem fazer a pergunta que o Brasil aprendeu, há anos: “Que país é este?”.
Enquanto as carretas afundam na lama e derrapam, sentimos os efeitos dolorosos da demagogia e da desonestidade no uso das reservas do erário, até pela degradação das instalações esportivas, que sequer conseguimos pagar integralmente até hoje.
O cidadão deste país, a cada dia, constata para onde vai o seu dinheiro. E a receita tributária nacional já superou em 2017 a do ano passado no mesmo período. É algo para se meditar e extrair lições.


82240
Por Manoel Hygino - 13/3/2017 07:43:39
A vulnerabilidade na fronteira

Manoel Hygino

O Brasil está quente, quase fervendo, em termos de notícias sobre corrupção e com a sucessão de crimes contra a vida, numerosos deles ignominiosos, que envergonham a nação e ferem nossa tradição de cordialidade, generosidade e solidariedade. No entanto, pouca atenção se dá a determinadas causas dos desafios que vivemos ou com os quais vivemos.
Fala-se em drogas, organizações criminosas, seu poder, os meios com que contam para enfrentar a ordem e o sistema. Comenta-se que os bandidos dispõem de mais instrumentos de ação e de armamentos mais modernos e eficientes dos que os agentes da lei, o que não está inteiramente fora da realidade.
No caso de contrabando furando as fronteiras, a primeira ideia que se tem é de Foz do Iguaçu, importante encontro do Brasil, Paraguai e Argentina. Pessoas de várias partes do mundo lá residem e exercem atividades, nem sempre muito claras. A possibilidade de atuação de terroristas levou os Estados Unidos a instalar ali um centro de acompanhamento.
Mas nem tudo é Foz, para onde fluem brasileiros, principalmente do Sudeste para compras de produtos de procedência diversa. Os sacoleiros não param e, vez por outra, são assaltados pelos bandoleiros rodoviários ou os coletivos se acidentam, carregando consigo muitas vítimas.
Isso, todavia, não é tudo, nem o mais importante, como informou, há dias, um militar do alto escalão das Forças Armadas. O general de Exército Teophilo Gaspar de Oliveira, responsável pelo comando logístico da Força de Fronteira, em Brasília, foi suficientemente claro: “O maior problema está no Norte do país, na região da Amazônia. Drogas e armas entram principalmente na fronteira entre Colômbia, Venezuela e Peru. Todo esse material ilegal entra por terra e por pequenos aviões, que seguem para o Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa região não existe monitoramento. A fronteira está aberta hoje para quem quiser. Pela Região Norte entram imigrantes ilegais, criminosos e pessoas que exploram recursos naturais. Mas o maior problema é a entrada de armas e drogas, que abastecem o crime organizado no Brasil”.
O mais peremptório: “Não adianta tomar medidas paliativas. É necessário fazer a fonte secar para as organizações criminosas. Os recursos do crime vêm de drogas e armas. É preciso acabar com a entrada ilegal desses produtos”.
Observa que os integrantes (ex-?) das Forças Armadas de Libertação da Colômbia agem maquiavelicamente diante do acerto de paz firmado recentemente: “Eles mantêm um acordo com o governo (de Bogotá) que prevê a entrega de seu equipamento. Mas eles só entregam armas mais velhas. O que têm de novo, que vale mais no mercado negro, é enviado para o Brasil através do tráfico”.
Especifica: “São armas pesadas como o fuzil AK 47, de fabricação russa. Atualmente, essa é a melhor arma para o crime organizado. Estas armas vão para os grandes centros urbanos e criam maior dificuldade para se combater o crime organizado”.
No caso da Venezuela, há de cuidar-se especialmente, porque a dupla Chávez- Maduro criou milícias populares e as armou. São mais de 1300 homens com fuzis. Perigos à vista. São “hermanos” mas nem sempre “muy amigos”.


82231
Por Manoel Hygino - 9/3/2017 10:51:23
Filantrópicas: Dando mais que recebendo

Manoel Hygino

Surpreendi-me, com recente publicação de artigo assinado em jornal da capital, em que a autora afirmou, em subtítulo: “Filantrópicos não prestam serviços caritativos a ninguém”. Trata-se de uma acusação grave, embora antecipadamente contestada pelo artigo de Jacyra Octaviano na revista “Agitação”,novembro/dezembro de 2016.
A articulista da publicação do Centro de Integração Empresa Escola em resumo esclarece: “Entidades de assistência social geram o excepcional retorno de 600% sobre as isenções que recebem, atendendo milhões de pessoas, geralmente em áreas onde o Estado está ausente” .
É bom que se esclareça, para que não pairem dúvidas sobre as atividades de entidades beneméritas, entre as quais as Santas Casas, pioneiras no Brasil, em Olinda e Santos, quando respectivamente se instalaram as primeiras unidades de assistência a enfermos, em 1538 e 1543.
Jacyra explica que a “Dom Stratergy Partners”’ realizou um amplo e aprofundado estudo, em 2014, sobre o problema, com o título “A contrapartida do setor filantrópico para o Brasil”, reunindo dados coletados em uma varredura no universo de mais de 8,5 mil instituições privadas sem fins filantrópicos que contavam com o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, o Cebas, cuja elaboração tanto trabalho dá às secretarias que servem a esse setor. As informações são de 2012/2014 e as fontes emanam, entre outras, dados oficiais, de principalmente dos ministérios que concedem o Certificado, isto é, Desenvolvimento Social, Educação e Saúde, além da Receita Federal, é claro.
Feita um análise comparativa de isenção concedida para vários setores e finalidades, concluiu-se que, naquele período, a filantropia se beneficiou com 26,7 bilhões de reais ao ano, equivalendo a 20,3% do total das isenções, que somaram 131,7 bilhões de reais.
Resumindo o dito no parágrafo anterior: “A desoneração da folha de pagamento de empresas de 56 setores atingiu 47,4 bilhões de reais (36%) e o Simples Nacional, 43,8 bilhões de reais (33,3%)”.
Aqui vai a curiosidade e é bom que a sociedade saiba: A Olimpíada do Rio de Janeiro e a Copa do Mundo foram agraciadas com 19 milhões de reais de isenção. E em que resultaram de positivo em termos gerais?
Qual a contrapartida que as instituições filantrópicas entregam à sociedade pela concessão do Cebas? Essa é a pergunta mais relevante entre os aspectos que a pesquisa mensurou e a resposta vale por um irretorquível argumento em favor dessa desoneração para as entidades que formam o universo certificado. Dessas, o maior retorno vem das instituições filantrópicas de assistência social que, a cada real isento, devolvem 5,73 reais. Em outras palavras, a isenção de 0,9 bilhão de reais possibilita a realização de serviços gratuitos, continuados e planejados a segmentos carentes da população avaliados em 5,1 bilhões de reais.
Para terminar, recorro ao depoimento de Daniel Domeneghetti, um dos coordenadores da pesquisa: “Vale imaginar o que seria do país caso essas organizações interrompessem abruptamente suas atividades, seja pelo volume, seja pela qualidade dos serviços prestados”.


82217
Por Manoel Hygino - 4/3/2017 08:21:44
No delírio das invasões

Manoel Hygino

Nossa vulnerabilidade vem de longe no tempo. Durante os séculos XVI e XVII, o Brasil sofreu vários ataques, saques e ocupações por europeus. Tinham como objetivo apossar-se de recursos naturais ou mesmo o domínio de determinadas regiões. Ingleses, franceses e holandeses foram os que mais participaram destas operações nos primeiros tempos do Brasil Colonial.
Comandados por Villegaignon, os franceses fundaram a França Antártica, no Rio de Janeiro, em 1555. Os portugueses os puseram para fora, com ajuda de tribos indígenas em 1567. Em 1612, Daniel de La Touche, da marinha francesa, fundou São Luiz (MA), criando a França Equinocial, mas se viu expulso três anos após. Em 1710 e 1711, gente da mesma procedência fracassou ao ocupar o Rio de Janeiro.
Os holandeses, em 1599, atacaram o Rio, Salvador e Santos. Tentaram novamente fazê-lo na Bahia, em 1603, e lá ficaram até 1625. Em 1630, invadiram o litoral de Pernambuco e, dez anos depois, o litoral do Maranhão, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte. Em 1637, Maurício de Nassau chegou a Pernambuco para organizar e administrar aquelas áreas. Em 1644, porém, começou forte reação, que alcançou seu ápice na sangrenta batalha dos Guararapes, em 1648, só definitivamente vitoriosos os colonizadores em 1854.
O que é hoje o estado de São Paulo não ficou fora. Em 1591, o corsário inglês Thomas Cavendish saqueou, invadiu e ocupou, por praticamente três meses, São Vicente e Santos.
Séculos depois, pode-se afirmar que o Brasil permanece vulnerável, e não só às aventuras europeias. Ninguém se sente dono de algo. As habitações, que custaram muito suor a quem as comprou, são alvo da sanha de bandidos de todas as origens. Para as locomoções, contam eles com motos e carros confortáveis e velozes, furtados ou roubados em outros estados.
A morte violenta campeia nas áreas rurais e nas urbanas. Os jornais se mostram sem espaço suficiente para os registros. Em Janaúba (MG), para lá de Montes Claros, um agente penitenciário encarregado da escolta de um detento doente foi assassinado com vários tiros, à porta do hospital. A população está horrorizada com tantos assassinatos. Toda semana, há mortes violentas.
No século XXI, o Brasil foi tomado por maus brasileiros. Ai daquele cidadão que errar o caminho nos elegantes bairros do Morumbi ou Santa Tereza, em São Paulo e Rio de Janeiro. Os ali nascidos, ou o turistas, correm risco de perder a vida. Não há agentes da lei para proteger, eficientemente, todos os lugares, o tempo todo.
Não está distante a notícia de um casal gravemente ferido em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro – ela atingida por 39 tiros de fuzil. Buscava por um parente em ponto de ônibus, quando ficou frente a um grupo de criminosos, fortemente armados. A passageira, levada a hospital, não resistiu. Ninguém fica incólume diante de uma saraivada de balas.
Não ficou nisso: em pleno carnaval, uma argentina também foi baleada por bandidos da periferia, embora usasse GPS. Uma boa propaganda da Cidade Maravilhosa!


82213
Por Manoel Hygino - 2/3/2017 06:43:00
Em tempo de folia

Manoel Hygino

Não que seja contra Carnaval, pois até percebo que o período momesco parece contribuir para arrefecer as dificuldades de que reclama boa parte da população. A julgar pela motivação de brasileiros em todas as direções para vibrar com as alegrias desse tempo mágico, não há crise, esta fruto do pessimismo, do catastrofismo, absolutamente distantes da realidade.

Não há, portanto, o que lastimar diante de câmeras e microfones. Estamos no melhor dos mundos, tudo é bom e saudável, dança-se, ginga-se, canta-se, só alegria e cores. Não é hora de falar em números e tristeza, mesmo com os índices de desemprego altíssimos. O Brasil chegou ao fim de 2016, conforme o relatório do IBRE, com o PIB de R$ 6, 209 trilhões, isto é inferior, em moeda corrente, ao de 2011. A renda per capita – R$ 30.128 – voltou ao patamar de 2010.

Significa que a riqueza média da sociedade retrocedeu ao nível de seis anos atrás. Mas quem sabe o que é IBRE (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas)? Ele não oferece um panorama caótico: é o “terceiro ano da mais grave e duradoura recessão jamais experimentada pelo Brasil nos últimos cem anos”.

Dá para entender? E quem se interessa por isso? É Carnaval, e ele alimenta uma população feliz – ou alienada dos graves desafios da hora, quando a Organização Internacional do Trabalho prevê, neste ano, o maior aumento no desemprego entre as economias do G-20. A OIT estima que em 2016 e 2017 o número dos sem trabalho no planeta aumentará em 3,4 milhões. O epicentro será o Brasil, responsável por 35% dessa estatística. Isto quer dizer: a cada três novos desempregados no planeta, um será brasileiro.

Só na construção civil, o país perdeu 414 mil postos, segundo o Sindicato da Construção Civil de São Paulo. É a 27ª baixa seguida. Neste ano, a retração projetada é de 5% no setor, dada a paralisação dos novos projetos de infraestrutura e o estoque elevado de imóveis novos não vendidos.
O pior cego é o que não quer ver.

O país faz de conta que é feliz e o poder público faz o que pode, se é que pode, para minorar o sofrimento da população. Essa parece só senti-lo ao ir a uma unidade básica de saúde ou, mesmo, a uma repartição policial. Uma cantora, de que eu não ouvira falar, Kaoma, foi encontrada morta na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Levada ao IML de Araruama, permanece não identificada. O atestado de óbito não pode ser liberado sem exame de DNA, porque o órgão não dispõe de material para exame.

Sob outro aspecto, continuam os atentados a ônibus por bandidos, prejudicando o transporte coletivo nas cidades: as grandes, as médias e as que levam crianças às escolas no interior. Os Bombeiros fazem o que podem para debelar as chamas, mas o fogo criminoso destrói veículos e a prejudica o povo trabalhador.

Mas é Carnaval e cumpre aproveitá-lo intensamente, como nos melhores tempos. Não se dará atenção ao Banco Mundial, que não prevê crise econômica que poderá levar até 3,6 milhões abaixo da linha da pobreza até o fim deste ano. Predominam, os “novos pobres” das áreas urbanas.

Por que falar nisso, se há Carnaval?



82206
Por Manoel Hygino - 28/2/2017 08:25:31
Velloso não aceita pasta

Manoel Hygino

Carlos Mário da Silva Velloso não aceitou convite para o Ministério da Justiça. Tem razões suficientes, como explicou ao presidente da República e à nação. Não foi por o Brasil atravessar hora difícil, que sequer os folguedos (?) de Momo arrefeceram.

Há verdadeiros desafios e incivilidades correntes no país, como os arrolados por desembargador amigo: xingamentos em série pelas redes sociais, corrupção, invasões de propriedades, desobediência às leis e ordens judiciais etc.

Minas já ocupa posições relevantes nos três poderes, com representantes à altura de suas melhores tradições. No Supremo Tribunal Federal, a ministra Carmen Lúcia Antunes Rocha, nascida em Montes Claros, de família de Espinosa; Grace Mendonça, advogada-geral da União, de Januária; o advogado Janot Pacheco, como procurador-geral da União. Eles retratam a importância do Estado nos altos escalões da República, em grave momento.

Carlos Vellloso se somaria a eles e não lhe faltam condições para desempenho do espinhoso cargo. Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, professor emérito da Universidade de Brasília e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas, também da Academia Mineira de Letras.

Discreto, cuidadoso nas palavras, sua maneira de ser e expressar-se pode aferir-se por entrevistas na televisão e pela imprensa escrita. Lembro sua posição quando do polêmico decreto de “participação popular”. Afirmou que não se pode, nem se deve, “inventar moda”, através de decreto:

"O decreto nº 8.243, que institui a Política e o Sistema Nacionais de Participação Social, tem sido debatido por juristas, economistas, jornalistas e sociólogos, o que demonstra que a sociedade brasileira, pelo menos no que diz respeito aos que pensam, está atenta às ações do governo. Isso é salutar”. No caso específico, contudo, pondera: o Planalto podia tomar iniciativa “ao largo da lei?” Responde: “Não há, de regra, na ordem constitucional brasileira, o regulamento autônomo. Em termos de delegação legislativa (casos em que o Executivo edita ato e a lei delegada), o que convenhamos, não é pouco”.

“Em duas hipóteses, a Constituição autoriza, excepcionalmente, o decreto autônomo, com força de lei, em: A – organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesas nem criação ou extinção de órgãos públicos (mero aperfeiçoamento, pois, da burocracia); e B – extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos (art. 84, VI, A e B)”.

Outro aspecto: “Democracia direta? Bom seria se ela fosse possível, tal como praticada em Atenas. Devemos instituir, é certo, na democracia possível, a representativa, mecanismos de participação do povo. Já temos alguns, como, por exemplo, a ação popular, o exame das contas municipais pelos contribuintes (art. 31, §3º), a possibilidade de o cidadão denunciar irregularidades perante o Tribunal de Contas da União (art. 74 § 2º). Afinal, temos Estado democrático de Direito, onde governo e povo somente agem com base na lei e na Constituição, submetendo-se, todos, à jurisdição. Fora daí, tem-se o famigerado constitucionalismo denominado bolivariano, no qual vale a vontade do príncipe, e não a da lei.”


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Por Manoel Hygino - 16/2/2017 08:20:27
O mundo pós-Chaplin

Manoel Hygino

O mundo mudou desde o nascimento do cinema e mudou imensamente com ele. A sétima arte é uma espécie de fronteira cronológica: antes e depois. Mas, nesta era tormentosa que enfrentamos, não podemos esquecer personalidades que se tornaram glória na sétima arte.
Entre elas, certamente Charles Chaplin, um inglês nascido em abri (meses antes de o Brasil em 1889 transformar-se em República), para falecer 88 anos após, em dezembro de 1977. Quarenta anos decorridos e jamais esquecidos! Quanto aconteceu nestas décadas, vividas intensamente pelo ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico, que superou os limites do século XXI.
Notabilizado pelo uso da mímica e da comédia-palestão, inspirou e incentivou cineastas posteriores, sendo mais do que grande por ter-se consagrado gigantesco, como escreveu Martin Sieff, em prefácio de livro. Viveu a tragédia das duas primeiras grandes guerras e sensibilizou um mundo dilacerado pelos conflitos, trazendo o dom da comédia, de risos e alívio, enquanto ele próprio se multiplicava como homem e como artista.
Durante mais de cinco décadas, através da Grande Depressão e da ascensão de Hitler, permaneceu inabalável no ofício. Foi maior do que qualquer um. Não se acredita que algum outro indivíduo tenha propiciado mais entretenimento e prazer a tantos seres humanos, exatamente quando eles mais precisavam.
Na Primeira Grande Guerra, na Segunda Grande Guerra, no início da Guerra Fria, e prevaleceu a forte personalidade de um homem que sofreu com os problemas dos pais: mãe internada em um manicômio, pai alcoólatra. Dividiu pesadamente as alegrias e as dores do mundo e pairou sobre eles. Transmitiu imagens e sentimentos de solidariedade, de amor ao próximo, de oposição aos que se opunham às expressões de liberdade.
No mundo dilacerado deste segundo decênio do século vinte e um, somos atraídos a buscar em seus textos alguns momentos para meditação, colhidos em seu belo filme “O Grande Ditador”, supostamente longínquo do precursor “Em busca do Ouro” e de “Luzes da Cidade”.
Na película do cinema falado, explica-se: “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros?
Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... Levantou no mundo as muralhas do ódio... E tem-se feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.


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Por Manoel Hygino - 11/2/2017 09:11:37
A trágica profecia

Manoel Hygino

A humanidade, data vênia, encontra-se novamente diante de um desafio terrível. Os crimes se transformaram em rotina, que engolimos diariamente como se comprimidos para dores físicas.
Sobretudo no Oriente Médio, com ênfase na Síria, matam-se seres humanos como se ratos fossem. Eleva-se a mais de 250 mil o número de pessoas executadas na guerra fratricida, enquanto 130 mil outras estão presas pelas forças de segurança – Segurança? Pergunto. Milhões dessas pessoas buscam refúgio no exterior, inclusive no Brasil, onde aliás, uma expressiva colônia sírio-libanesa se encontra radicada.
Em nosso país, contudo, há 564 mil mandados de prisão em aberto, sendo praticamente 50 mil em Minas, o segundo Estado nesse rol, conforme balanço do Departamento Penitenciário Nacional, publicado em 2014. Agora é maior a cifra, certamente.
Não estamos brincando com malfeitores quaisquer. Deste modo, quando houve a rebelião em Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, colheram-se números e fatos espantosos. Laudo das mortes então ocorridas, divulgado pelo Instituto Técnico-Científico de Perícia (ITEP), revelou um quadro aterrorizador: quinze decapitados e mais mortos por degola, perfurações ou sangramento até o óbito; três queimados vivos, segundo os peritos.
A Polícia Civil daquele Estado identificou 109 presos, autuados em flagrante por crimes de associação criminosa, resistência, motim, apologia ao crime e dano qualificado, tráfico de drogas e posse irregular de arma de fogo. As cenas, por tão medonhas, sequer foram transmitidas por televisão.
Aqui, esta semana, o Conselho de Criminologia e Política Criminal de Minas e o Conselho Penitenciário de Minas Gerais propuseram medidas para tentar reduzir a superlotação carcerária, inclusive amainar a mentalidade encarceradora que não produziu resultados efetivos para garantia da segurança pública. “Pelo contrário, o que vemos é um aumento do número de presos em todo o país e uma escalada da violência”, disse o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, presidente do primeiro colegiado e integrante da 6ª Câmara Criminal do TJMG. Para o magistrado, a diminuição do número de presos provisórios, que muitas vezes cumprem penas superiores à condenação imposta ao final do julgamento, é fundamental para reduzir o “funil do sistema penitenciário, cuja construção de presídios não segue o ritmo do encarceramento”.
No Espírito Santo, a situação é dramática, um quadro de guerra civil não declarada, a despeito de esforços conjugados, contando agora com presença efetiva das Forças Armadas e da Força Nacional. Parece que, pela primeira vez em nossa crônica, as mulheres de policiais militares os impedem de cumprir os deveres pelos quais são pagos pelos cidadãos, que não recebem a contrapartida de serviços a que têm direito. Seguem?
De modo geral, no entanto, o que ora acontece no país não constitui surpresa e a responsabilidade ou culpa vem de longe. Não faltaram avisos sobre a tragédia a que se vai assistindo. Em 1982, um montes-clarense pronunciou uma frase de única linha, que se tornou uma espécie de profecia que se cumpre neste ano de 2017, após 35 anos proferida. Disse Darcy Ribeiro: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.


82179
Por Manoel Hygino - 10/2/2017 09:29:10
O cidadão deve ajudar

Manoel Hygino

Há, juntando as peças, uma rebelião dispersa no país. De um lado, causada pelos irreversíveis resultados, sempre crescentes, da má utilização dos recursos públicos, objeto de três anos de incessantes operações desenvolvidas no âmago da administração. Muito já se descobriu, algo já se revelou, mas imensamente falta apurar e divulgar para que não mais se aventure por caminhos desonestos. Constitui uma quimera, mas na qual se terá de insistir para salvar a nação, próspera e feliz, que gerações sonharam e pela qual lutaram.
Há, também, o super caso do sistema penitenciário, que recentemente eclodiu em vários estados. É um verdadeiro desafio à autoridade e problema até então restrito aos que verdadeiramente se interessam no sistema pela ordem no país. Há muitos milhares de pessoas presas em infectas prisões, mas existem cerca de seiscentas mil outras aguardando julgamento.
Grande parte dos que protestam diante de elevados impostos diante das câmaras e microfones, entretanto, não contribuem efetivamente para o erário. Vivemos uma época de recessão, de desemprego lastimável, de falta de oportunidades de trabalho e, como sempre, de baixos salários. Enquanto isso, evoluem rapidamente as demandas, principalmente no campo da saúde e da educação, s em nos referirmos à habitação, ao saneamento básico e à segurança pública.
Não citamos, de propósito, o transporte. Se nas regiões interioranas faltam coletivos para levar as crianças e adolescentes até as escolas, onde elas existam, nas grandes cidades se repete a destruição sistemática e criminosa de coletivos.
Com pistas de rolamento degradadas nos bairros e vilas mais distantes, o deslocamento é lento e os veículos mais padecem, e, em consequência, seus usuários. Se os seus concessionários ganham fortunas com se apregoa, que se cuide de manter as tarifas dentro dos limites adequados à bolsa popular, fazendo-se conferência ou investigação nas contas dos empresários. É perfeitamente compreensível e democrático.
Mas não se admitirá que as frotas sejam alvo da sanha de irresponsáveis que, por múltiplos motivos, ateiam fogo aos veículos, em detrimento do cidadão e do sistema. Trata-se, como repetidamente se demonstra, de atentados perpetrados por vândalos que atuam à guisa de vingança por ações de agentes da lei contras criminosos.
Esse tipo de comportamento, em alguns casos, se dá por ordem de chefões confinados nas penitenciárias, como prova de seu poder e força, mesmo trancafiados. Foi assim em Manaus, em Mauá, em Natal, obrigando a Polícia Militar a restabelecer o trânsito e a paz em torno das grandes cidades, em Belo Horizonte, por exemplo.
Os números de veículos atingidos pela fúria de malfeitores, alguns “de menor”, impressionam e exigem atenção, embora se convenha ser dificultoso localizar onde se registrará o próximo ato delituoso. A população terá de denunciar, o que souber, porque afinal é a beneficiária e a sofrida vítima da delinquência.


82172
Por Manoel Hygino - 7/2/2017 08:29:18
Anchieta vê Afonso Pena

Manoel Hygino

Conhecem-se cidades, percorrem-se ruas e avenidas, passeia-se por praças que receberam nomes de pessoas ilustres, mas não se cuida de saber quem foram elas. É típico do brasileiro, que mais se interessa por descobrir quem foram os homenageados com a denominação, com a toponímia viária, quando se encontra em Paris, Roma, Londres ou Washington.
Atenho-me ao fato, ao transpor a principal avenida de Belo Horizonte, a Afonso Pena, nome de monarquista convicto, amigo do imperador, solidário com Ouro Preto, conselheiro de Pedro II e preso na proclamação da República. Afonso Pena não abdicou de ideias, foi solidário com o detido, mas teve o bom senso de aceitar o novo regime ao constatar que nada mais podia fazer. Como afirmou João Camilo, o historiador, “trouxe a sua experiência do Império, a sua capacidade de trabalho, seus conhecimentos de problemas econômicos e administrativos para a vida republicana”. Tornou-se um grande líder e os jovens republicanos o aceitaram. Minas conseguiu tirar partido da nova situação, em lugar de cair no caos e na anarquia”. Foi o primeiro mineiro a governar a República.
O prestigioso advogado José Anchieta da Silva, que tem escritório em elegante mansão da avenida Afonso Pena, cita – como motivo de orgulho – o fato de Afonso Pena ter sido duas vezes criador da primeira Faculdade de Direito em Minas Gerais.
Lembra o grande mineiro (cuja assinatura é com dois ffs e dois nns, como consta de registro), nasceu também em Santa Bárbara do Mato Dentro, em 30 de novembro de 1847. Aos dez anos, foi levado ao Caraça. Aos treze, recebeu um certificado da direção do estabelecimento, registrando que frequentara as aulas de francês, inglês, geografia, história, matemática, aritmética, álgebra e geometria, retórica e filosofia, “com aplicação constante e tão notável proveito, que nos exames de todas as ditas faculdades foi aprovado plenamente com louvor”.
Desde criança, defendera os escravos. Naquelas paragens, por sugestão sua, ficou estabelecido que as escravas grávidas, a partir do sexto mês, não faziam senão cozinhar e lavar roupa. Transferindo-se a São Paulo, estudou na já famosa Faculdade de Direito, sendo seus colegas Crispim Jacques Bias Fortes, Francisco de Assis Tavares, Tomé Pires de Ávila e Rui Barbosa.
Convidado a lecionar na faculdade, recusou e voltou para Minas, iniciando carreira em Santa Bárbara e Barbacena. Eleito deputado provincial, depois deputado geral ou federal, por vários mandatos. Aos 35 anos, foi nomeado ministro da Guerra, ainda na monarquia. Em seguida esteve à frente do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, passou pelo Ministério do Interior e Justiça e assinou a “Lei dos Sexagenários”. Em 1888, com Rui Barbosa, compôs comissão para elaborar o Código Civil.
Com a República, voltou a Minas, pensando abandonar a política, o que não ocorreu. Eleito para a presidência do Estado, em chapa única, governou acima dos partidos, como salienta José de Anchieta, conduziu o processo de transferência da capital para Belo Horizonte. Alçou à chefia da Nação, contando com a colaboração de uma plêiade de grandes brasileiros. Agora denomina a principal avenida da capital que ajudou a criar.


82161
Por Manoel Hygino - 5/2/2017 09:44:00
Como as francesas na guerra

Manoel Hygino

Chama a atenção dos cidadãos o uso de algemas em detenções durante operações policiais que se sucedem em todo o país, causando-lhes repulsa quando não veem necessidade. Cada caso é um caso; houve prisão coercitiva? O detido poderia esboçar ou tentar evadir-se ou agredir o agente da lei? Há muitos aspectos a serem considerados, e pode-se observar pelas imagens de televisão como os marqueteiros João Santana e Mônica Moura voltam as mãos para trás do corpo quando escoltados, simulando a coação que não sofriam.

Reinaldo Azevedo comentou, também, o caso das cabeças raspadas. “Não vibro ao ver Eike Batista de cabeça raspada. Ele não está condenado. A prisão dele é preventiva”. “Noto – entendo as alegações sanitárias para cortar cabelo e barba. Mas todo mundo sabe que não se trata disso. O que se busca mesmo é o ritual da humilhação, de sujeição”. “Essa exposição de cabeças raspadas de Eike, de Sérgio Cabral, de qualquer outro tem objetivo característico. Busca satisfazer a sede de vingança – porque ainda não é justiça – do povaréu”. “Aí, filho da mãe, agora tá careca, né?”.

Muitos podem ter opinião diversa ou contrária. O dr. Isaías Caldeira, juiz de direito da Comarca de Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, pensa: “Trata-se de humilhação e aniquilamento do indivíduo, sinalizando a perda de poder sobre o próprio corpo, não se contentando os agentes públicos com a mera constrição de sua liberdade”.

Temos de pensar bem, medir ações, antes de tudo. A justiça virá, em algum tempo. Mas parece existir alguém a precipitar os acontecimentos. “Não se admitindo mais a tortura física, resta a alternativa da humilhação, que é a tortura psicológica, de modo que um prisioneiro, que sequer tem denúncia formal contra sua pessoa, já sofra esta pena antecipada, na forma de supressão de suas melenas, à força, como a dizer que sua individualidade ali já não conta e que ele não tem o mínimo arbítrio sobre si, enquanto sujeito à prisão”.

Trata-se de uma prática antiga, dependendo do país e da época. Nos Estados Unidos, raspava-se a cabeça do condenado para ir à cadeira elétrica, em determinadas circunstâncias. Aliás, o magistrado de minha terra também registra o fato, e eu cedo as linhas seguintes para repeti-lo: “A prática de raspar a cabeça do acusado ou suspeito não é nenhuma novidade, mas no Brasil é copiado do resto do mundo com atraso, até o que não presta. Quem não se lembra das mulheres francesas acusadas de terem mantido relações sexuais com os alemães, durante a ocupação nazista, e que tiveram suas cabeças raspadas em praça pública, enquanto o povo as hostilizava, no ano de 1944, com a França já libertada? A maioria apenas tivera simples contatos com os invasores, mas foi o suficiente para a execração pública, como se elas fossem colaboracionistas dos invasores”.

Por que?

Esse desejo de destruição do outro, física e moralmente, é descrito pela psicanálise como produto do inconsciente coletivo, assemelhando na prática a uma forma de punição e alívio às nossas culpas, sempre recaindo o castigo sobre o outro, imolado na fogueira pública, sob aplauso e esses desatinos.


82152
Por Manoel Hygino - 2/2/2017 08:16:07
Ouro Preto, às ordens

Manoel Hygino

Eis o que está em livro do excelente Eduardo Frieiro: “Nos primeiros tempos das descobertas, o ouro brotava em fabulosa abundância, primeiro à flor dos córregos, em lavras de aluvião, fáceis de explorar, e depois em filões e assentadas minerais, que pediam trabalhos mais penosos. O morro do Ouro Preto e o Ribeirão do Carmo, onde se encontravam as mais dadivosas lavras, povoaram-se rapidamente com os milhares de aventureiros que acorriam de todas as partes do Brasil e do Reino”.
O escritor também diz: “A simples evocação do nome de Vila Rica tem para muitos fulguração duma legenda esplendorosa...”. Não poderia ser de outro jeito e maneira. Para demonstrar que a velha cidade não morreu, que permanece viva e forte, a Eletrobrás patrocinou a publicação de livro “Ouro Preto – Igrejas e Capelas”, contendo no texto a palestra de apresentação pelo jornalista e escritor Mauro Werkema e pelo historiador Alex Bohrer, hoje, no Memorial Minas Gerais, da Vale, na Praça da Liberdade.
É um trabalho monumental de concepção sob os mais diversos ângulos e aspectos. O editor Paulo Lemos adverte que este é um daqueles livros especiais, começando por registrar a imagem e a descrição de verdadeiros monumentos erguidos em nome da fé cristã nos últimos 300 anos, dos quais 130 de Vila Rica–Ouro Preto.
Trata-se de obra elaborada para servir de referência a quantos se dispõem a pesquisar o patrimônio histórico da cidade, que se tornou palco de importantíssimos acontecimentos na história brasileira.
O interessado vai aproveitar-se das versões para o inglês e francês, com o cuidado muito elogiável de registrar os nomes mencionados de forma a facilitar o acesso do turista e do estudioso estrangeiro a cada um dos monumentos, em termos de uso do vocábulo antigo ou do atual.
Com o mérito principal de reunir numa só publicação todas as edificações religiosas – permitindo leitura de interesse histórico, cultural e turístico – desde as mais ricas e famosas igrejas de Ouro Preto até as pequenas capelas de distritos e povoados, o livro traz descrições, origens e datas, devoções religiosas, partidos e estilos arquitetônicos. Traz ainda interpretação dos fenômenos que explicam o surto artístico do Século XVIII mineiro, geradores de um acervo patrimonial que, por sua excepcionalidade e exemplaridade, está inscrito como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, desde 1980.
O livro, produzido na livraria Editora Ouro Preto, é uma síntese riquíssima do fenômeno cultural do século XVIII mineiro, o “Ciclo do Ouro”, que tem sua expressão maior nas igrejas de Ouro Preto, que abrigam um acervo patrimonial e artístico reconhecido universalmente. Suas origens e história, as técnicas construtivas, os elementos sociológicos que permitiram a formação de uma singular sociedade colonial. O barroco como estilo de arte e de vida, a religiosidade popular e a ação das irmandades e suas devoções, estão neste livro.


82143
Por Manoel Hygino - 30/1/2017 16:39:53
Dois presídios, muitas histórias

Manoel Hygino

No princípio, é o verbo, isto é, a palavra. Assim procuro conduzir-me. Quando ocorreu o levante em Alcaçuz, investiguei. Trata-se de uma planta medicinal da família das leguminosas. O vocábulo vem do árabe – ark as sus. Outro vocábulo é alkatraz, também do árabe, alkadruz, o vaso de barro com que se tira água de algum depósito, poço ou cisterna.

De qualquer modo, Alcaçuz e Alcatraz são duas prisões, existentes na América, uma nos Estados Unidos, na região de São Francisco, e a outra no Rio Grande do Norte, em que se registram violências neste agitado janeiro. Tio Sam se sente realizado com Alcatraz, situada na estratégica e minguada ilha do Pacífico, sede de uma das prisões mais seguras do planeta e que inspirou seriados para a tevê, e teve a honra de abrigar nada menos que Al Capone.

Quem se der ao cuidado de pesquisar a história, descobrirá muita coisa interessante naquele monte de terra que brota das águas, a ilha de Alcatraz, permitindo visualizar a bela cidade da costa Oeste. Arsenal dos confederados na sangrenta Guerra de Secessão e prisão militar, Alcatraz é uma fonte imensa de lendas, inclusive da existência de um espaço subterrâneo onde os presos sofriam terríveis torturas. Depois, submetiam-se a um programa de regeneração com uso de trabalho. Mas havia uma séria rotina de restrições, não se lhes permitindo cantar, ouvir rádio e só tomando banho duas vezes por semana.

Desativada em 1963 como presídio, transformou-se em Distrito do Registro Nacional de Lugares Históricos e Marco Histórico Nacional em 1965, um enigmático ponto turístico que conta sobre crimes e repressões de um período da história norte-americana.

No Brasil, mais exatamente em Alcaçuz, em Nísia Floresta, na capital do RN, os atos de violência contra o sistema e entre organizações criminosas se estenderam por onze dias. Vários túneis foram localizados e apreendidos muitos instrumentos usados nos conflitos.
Perspectivas de destinação da área para atividades turísticas, se a prisão for desativada, inexistem. Nas ruas da capital potiguar, a frota de coletivos, reduzida numericamente por incendiários, refletia horas de angústia e perturbava a população trabalhadora.

Alcatraz (Antenor Nascentes identifica o vocábulo no Brasil como identificador de joão grande (Rio de Janeiro), guapirá, ou tesoura, ave da família Fregatidae (fragata aquila), transformou-se em fábula, com ajuda de Hollywood. Durante 29 anos de existência, a prisão federal jamais registrou oficialmente fugas bem sucedidas. Nas tentativas, os presos foram mortos ou se afogaram nas águas da baía de São Francisco.

Nem tudo foi assim. Três fugitivos, Frank Morris e os irmãos John e Clarence Anglin desapareceram de suas celas, em 1962, não se descobrindo o paradeiro. Listados como desaparecidos e possivelmente afogados, inspiraram o filme com Clint Eastwood, Escape from Alcatraz.

Terminando: documentário de canal de televisão, em 2015, revelou novas evidências indicando que os irmãos Anglin sobreviveram e mantiveram contato com a família. E teriam fugido, sabe para onde? Para o Brasil.


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Por Manoel Hygino - 28/1/2017 08:22:42
Só mesmo São Pedro

Manoel Hygino

Napoleão Valadares, nascido em Arinos, Noroeste de Minas, é autor de ensaios, romances, poemas, haicais, contos, crônicas, registros de lembranças, criações teatrais e a história de sua cidade, itinerário percorrido desde 1982, quando lançou “Os grandes personagens do Grande Sertão-Veredas”, que facilita o acesso ao livro de Guimarães Rosa.
Formado em Direito pela UnB, exerceu importantes cargos como diretor de Secretaria de Justiça Federal, advogado e assistente jurídico da União e assessor do Tribunal Regional Federal na 1ª Região. Em literatura, foi premiado no Concurso Petrobrás de Literatura e de Contos de Cataguases, dentre outros. Exerceu a presidência da ANE - Associação Nacional de Escritores e integra as Academias de Letras, Ciências e Artes de São Francisco e Brasiliense de Letras.
O mais recente livro de Napoleão é “Do Sertão”, com belíssima capa em foto de autor não identificado, uma edição da André Quicé, de Brasília. O volume homenageia Danilo Gomes, bom na poesia e na prosa (inclusive pela conversa amena e envolvente), nascido em Mariana, membro da Academia Mineira de Letras e jornalista com vínculos na imprensa do Palácio do Catete desde a era Vargas.

São cento e poucas páginas, que dão muito prazer à leitura, porque Napoleão não é usuário de vocabulário empolado, usando a linguagem fácil do cotidiano brasileiro, a não ser algum vocábulo típico da região natal. São contos que valem contos, ajudam a permear as durezas da vida neste indigesto começo de ano. Assim, o caso de Eurico, criança que não recebeu mimos paternos, criado pela avó, que não alisava cabelo de ninguém. O neto tinha de ser criado na linha dura, para ser homem instruído. Para uns, ele se revelou correto até demais, crescendo sistemático, histérico ou doido. Gostava de tudo certo, desentendia-se com vizinhos e afastados, mandava recados ásperos e cartas atrevidas aos distantes.
Encanecido, impaciente, chegadas as rugas e dores, enviava mensagens, uma atrás da outra, para gente importante. O funcionário dos Correios, discretamente, separou uma carta, abriu e leu.
“Santíssimo São Pedro: leva-me a escrever a Vossa Santidade o fato de estarem acontecendo aqui diversas e gravíssimas irregularidades, as quais devem ser enxergadas, o que não tem sido feito”. Não podia alongar-se, porque o destinatário, São Pedro, “é muito ocupado, abrindo a Sagrada Porta do Céu a uns, explicando a impossibilidade de abri-la a outros.
Constava da carta: “o nosso país (o senhor sabe o nome), está numa situação de fazer vergonha. Depois que foi instituída a tal de reeleição, todo os presidentes se reelegeram. Exercem dois mandatos, ficam no poder por oito anos para consumação da rapina. E a reeleição se dá em razão de diversos fatores, como uso da máquina governamental sem o menor escrúpulo; compra indireta de votos para benefícios diversos; voto do analfabeto, que não sabe sequer o bem da nação ou a puxada do cabresto. E por aí vai”.

Terminando: “encareço a Vossa Santidade que ouça as autoridades celestiais competentes e tome as providências cabíveis”. Assinado, Eurico Retilínio dos Santos.


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Por Manoel Hygino - 27/1/2017 09:08:53
Nossa gente e a febre amarela

Manoel Hygino

“Velho como a serra”, expressão comum em tempos pretéritos, algo muito antigo, antigório, como dizia meu avô. Ambos correspondem aproximadamente à febre amarela, que ora começa a aterrorizar o país mal informado. O fenômeno já fora registrado pelo facultativo mineiro Pedro Salles, em sua “História da Medicina no Brasil’, cuja segunda edição é de 2004.
“Pedroca”, como o chamava Juscelino, era seu colega de turma e de colação de grau em 1927. Formaram-se na primeira escola médica instalada da nova capital (hoje UFMG) e que resultara do esforço coletivo dos profissionais belo-horizontinos, com ênfase os da Santa Casa.
Se alguém recorrer a um Guia do Centro Nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde, edição de 1998, ficará sabendo mais. A febre amarela é uma infecção viral, de gravidade variável, cujo quadro típico tem evolução bifásica, ou seja, com períodos de infecção e de localização. O início da doença é repentino, com febre, calafrios, cefaleia, mialgias, prostração, náuseas e vômitos. Não vou entrar em detalhes. Só acrescento que o diagnóstico é clínico, epidemiológico e laboratorial.
Há a febre amarela urbana, FAU, e a silvestre, FAS, tendo como reservatório o homem no primeiro caso e os macacos no segundo. Na FAU, a transmissão se processa através da picada do superconhecido Aedes aegypti e, na FAS, pelos mosquitos silvestres do gênero Haemagogus.
Em 5 de agosto de 1872, nasceu no interior de São Paulo o bebê que recebeu o nome de Oswaldo Gonçalves Cruz na pia batismal. Formado em medicina no Rio de Janeiro, estagiou por três anos no Instituto Pasteur, em Paris, discípulo de Émile Roux. De volta, combateu um surto de peste bubônica em Santos e outras cidades portuárias, instalando um instituto para produção de soro adequado, cuja importação era demorada e cara.
Quando Rodrigues Alves foi presidente da República, Oswaldo Cruz começou uma campanha de erradicação de varíola e de febre amarela, no Rio. Organizou batalhões de “mata-mosquitos” para vacinar obrigatoriamente a população. Esta se revoltou, o mesmo acontecendo com a Escolta Militar. Constituía um absurdo a invasão das casas e imunização forçada e o movimento recebeu o nome de Revolta da Vacina.
Como se sabe, o Rio de Janeiro, depois cognominada Cidade Maravilhosa, era uma das mais sujas do mundo, mas o jovem Oswaldo não se intimidou. Foram vistoriados milhares de prédios, extintos focos de larvas, limpas calhas e telhados, ralos e tinas. Removeram-se toneladas de lixo dos quintais, habitações e terrenos, e carroças de lixo.
Não custou ser apontado como “inimigo do povo” pelos jornais e nos discursos na Câmara e no Senado, nas caricaturas e modinhas de Carnaval. Houve quebra de lampiões de iluminação pública, enquanto a capital federal se prestava a criadouros de transmissores de males, que se tornaram endêmicos: problemas de ontem se repetem hoje, para inquietação e dor dos brasileiros.
Oswaldo Cruz dirigiu em sua época a campanha contra de febre amarela em Belém, cidade em que houve muitas mortes no último fim de semana. Mortes desta vez, a tiros.


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Por Manoel Hygino - 25/1/2017 08:13:24
Quem são os vencidos

Manoel Hygino

Estamos em guerra em várias frentes, e sendo vencidos, o que é pior. Os fatos lastimáveis a que se assiste diariamente, principalmente através da mídia, não permitem dúvida. Senão vejamos. Não se trata apenas da instalação do quarto poder no Brasil. Antes se dizia que ele seria a imprensa por sua penetração em todos os quadrantes e por seus diversos meios de transmissão. Atualmente, é o poder carcerário.
Presentemente, temos a ampliação de enfermidades comuns por todos os estados e quase todos os municípios. Somente em 2016, de triste e permanente memória, foram 19 mil os pedidos da população de Minas Gerais para combate e eliminação de criadouros do Aedes aegypti. Os resultados não são os melhores, porque as pessoas não despertaram ainda para sua responsabilidade na prevenção. Ademais, não contando com coleta regular de lixo domiciliar, por exemplo, (por as habitações não serem regulares), acha-se mais fácil atirar os resíduos nas vias públicas e à margem das ruas e rodovias. Com essa mentalidade e nestas circunstâncias, não podem ser outras as consequências, que batem à porta dos postos de saúde, UPAs e hospitais. Finalmente, dos cemitérios.
Educação é imprescindível, e ela não se resume às aulas nas unidades escolares. A saúde começa no lar, mas aparentemente este senso não chegou aos lugares apropriados. No caso específico, a vitória sobre as doenças como tantas de outros males que afligem o país tem de ser enfrentada a partir do lar.
Não só a dengue: mas ainda chikungunya, a zika, as ocorrências de tuberculose e febre amarela, que sopitam aqui e ali, quando os profissionais mais jovens da assistência já as julgavam perdidas nos registros na literatura médica. Novas patologias apareceram, mas as antigas não foram extirpadas.

No campo político-administrativo-jurídico, herdamos a ‘Lava Jato’, que desvelou o maior escândalo da história do Brasil em termos de negócios públicos. A inesperada morte do ministro Teori Zavascki aumentou a preocupação com o que sobreviria na apuração de fatos danosos à economia nacional e à imagem do Brasil. A sociedade não permitirá o engavetamento de tão rumoroso “affair”.
Dentre os procedimentos inseridos na inquietação generalizada, destacam-se as rebeliões no sistema penitenciário, que ampliou o número de mortos a cada dia. Eis um desafio dos mais perigosos, porque não se admitirá que as Forças Armadas, desobedecendo a Constituição, passem a operar como protetoras de meliantes em choque.
O desvio de função de soldados das Forças resultaria em sua não utilização para misteres próprios, inclusive na proteção de fronteiras, quando, os “hermanos” de língua espanhola nos transferem drogas e armas em grande quantidade.
Vias públicas no Nordeste estão policiadas pelos soldados do Exército, em caráter preventivo. Não se trata de solução definitiva, que será discutida por quem possa fazê-lo. A verdade é que não nos podemos tornar-nos reféns de bandidos.
Antes de terminar, lembro um pensamento do advogado Aristóteles Atheniense, evocando a lição de Mário Soares, ex-presidente de Portugal, recentemente falecido: “Só é vencido quem desiste de lutar”.


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Por Manoel Hygino - 24/1/2017 08:19:14
Sobre um cartão de visita

Manoel Hygino

Há poucos dias, perguntava aqui como será o Rio de Janeiro em 2065, quando completa cinco séculos. Certamente é extremamente difícil adivinhar o futuro de nossas cidades maiores, diante da vertiginosa transformação pelas quais passam. A vida da e nas megalópoles sofrem mudanças rapidíssimas, e elas nem sempre são para melhor.
Os que se transferiram para as capitais sofrem hoje as decepções, quando não o horror pelos tempos tenebrosos de agora. Lamentavelmente, os governos pouco se preocuparam com a evolução das suas sedes. Nelas, aliás, concentram-se, sobretudo em sua periferia, áreas de degradação, porque reiteradamente não é dada a seus habitantes a oportunidade de sobreviver com dignidade. O que as famílias pensaram usufruir ao deixarem suas casas ou casebres no interior falhou.
Uma habitação aprazível, o sonho de encaminhar os filhos a mais promissores tipos e patamares de progresso social e pessoal, tudo rui quando se aporta e se instala na urbe. Tem-se de esperar o benefício de programas da casa própria: que demoram porque milhões enfrentam o mesmo problema, a administração cuida de outros planos e projetos, os recursos financeiros são insuficientes. Uma saúde efetiva e segurança eficaz condizentes com as necessidades da população faltem: eis a dura realidade enfim.
No caso específico da Cidade Maravilhosa, que aniversariou no último dia 20, mais sentem os brasileiros que se acostumaram a vê-la bela, fulgurante, com o fascínio de épocas idas e vividas. Para lá, inúmeros se transportaram e lá permaneceram, porque lá era o centro da cultura, das letras e das artes, da política e da vida social. A cidade se revelara um cartão de visitas. Digo-o com satisfação, eu que lá também atuei nas velhas máquinas datilográficas das redações. Nas oficinas, a grande novidade era o linotipo.
Edmar Morel, um dos grandes repórteres dos diários cariocas de maior prestígio, recorda os anos 1940–1950: “O Rio era uma cidade admirável, com aspectos típicos de uma capital europeia. Os cafés tinham mesas nas calçadas, e ônibus de dois andares, chamados ‘chope-duplo’, faziam ponto no Clube Naval. Os cassinos da Urca e Atlântico estavam em pleno funcionamento. Os quiosques nas praças vendiam flores. Havia o footing aos sábados na avenida Rio Branco, as casas de chá sempre cheias, intensa era a vida cultural e social. Enfim, dava gosto viver no Rio. Ruas arborizadas eram viveiros naturais de pardais com suas sinfonias ao cair da noite”.
O Rio de Janeiro se alegrava com revistas musicais na Praça Tiradentes, que atraíam as mais importantes figuras da política. Vargas ia lá e se encantou com a vedete Virgínia Lane.
Na Cinelândia, os numerosos bares seduziam os intelectuais e jornalistas para apreciar o chope, na tarde cálida, no Amarelinho ou no Vermelhinho, junto à ABI, que conclamava a esquerda a suas mesas, para discutir a salvação do mundo.


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Por Manoel Hygino - 23/1/2017 10:05:15
Como era o presídio de Neves

Manoel Hygino


É história com muitas histórias. Sendo presidente da República Washington Luís e presidente de Minas Antônio Carlos, em 1927 se começou a construção de uma penitenciária em área do município de Contagem, na antiga fazenda das Neves. A obra demorou para ser inaugurada, o que só aconteceu em 18 de julho de 1938, quando o chefe da nação era Vargas e o governador de Estado, Benedito Valadares.
José Maria Alkmim, até então secretário do Interior e Justiça de Minas, nomeado primeiro diretor, disse na cerimônia de inauguração: “o mundo penitenciário há de construir uma miniatura do ordinário, de forma que os egressos dele encontrem um universo habitável, onde não se sintam estranhos ou não sejam repelidos. Habituar os detentos ao exercício regular de trabalho agrícola ou industrial, treiná-los para uma carreira ou função na sociedade, eis uma das tarefas primordiais das instituições reformatórias. Num país como o nosso, elas podem chegar a definirem-se como elementos ponderáveis na organização e distribuição das atividades, transformando energias inaproveitadas, ou porque ignorassem ou porque se tivessem encaminhado a rumos perigosos, em efetivos valores de trabalho”.
Wanda Figueiredo, num volume rico em informações preciosas, evoca o jornalista espanhol José Casal, em 1940, após visitar Neves. Ele confessa que guardou de sua viagem à penitenciária a mais inesquecível lembrança. Na própria instituição, entre os recolhidos nenhum sentimento de tristeza e desconsolo como experimentara em outros presídios. Dentro do estabelecimento, nem uniforme, nem armas, nem guardas. Quinhentos homens, trabalhando em ordem absoluta, como nas organizações industriais mais perfeitas. “Não existe no mundo (não esqueço estabelecimentos da Suíça e América do Norte) nada superior, tanto na construção como no aparelhamento”.
A jornalista Glória Tupinambás, há dois anos, quando a penitenciária completou os 75 anos inaugurais, registrou que a vocação agrícola e industrial fez da Penitenciária José Maria Alkmim, pioneira no Brasil no que concerne a incentivo do trabalho e recuperação de detentos. Havia grande produtividade e o presídio chegou a manter uma loja em Belo Horizonte para comercializar frutos do trabalho dos presos. Fazia ainda questão de manter traços da época: cerca de 80% dos 1.250 presos suavam a camisa diariamente.
O então diretor-geral Igor Tavares declarou: “mantemos a vocação para o trabalho e incentivamos a profissionalização dos presos. Os que cumprem pena em regime mais flexível vão para a rua diariamente, sem vigilância direta, atuar na construção civil e em obras importantes, como a reforma do Mineirão. Dentro da unidade, outra turma cultiva horta, tira leite, faz a limpeza e manutenção dos pavilhões e trabalha em fábricas instaladas dentro do presídio. Temos empresas de beneficiamento de alho, de fabricação de tijolos e blocos de cimento e todo o pão consumido na Secretaria de Estado da Defesa Social é feito pelos detentos. Além disso, 315 deles estudam, sendo que quatro fazem faculdade à distância”.


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Por Manoel Hygino - 21/1/2017 08:58:29
Antes e depois de Zavascki

Manoel Hygino

A trágica morte do ministro Teori Zavascki na última quinta-feira, 19 de janeiro, causou mais do que perplexidade a todos os que acompanham o cotidiano brasileiro. Os estrangeiros perguntarão o que acontece neste país, em que episódios lamentáveis, até escabrosos, se registram reiteradamente, causando medo entre os autóctones e suspeitas entre os parceiros de âmbito internacional.
O caso do ministro é muito especial, exatamente porque lhe incumbiam as providências finais para homologar a delação da Odebrecht na investigação da “Lava Jato”, o maior escândalo na administração pública do Brasil em todos os tempos. Fortunas fabulosas foram construídas à custa de barganha, da propina, da corrupção enfim, em prejuízo do interesse nacional. Discretamente, como de seu feitio, Zavascki conduziu o rumoroso caso, analisando rigorosamente a documentação enviada pelo juiz Sérgio Moro, de Curitiba, um dos muitos a elogiarem a conduta do distinto magistrado.
Antecipa-se um fevereiro extremamente difícil, até porque caberá proceder às investigações sobre o acidente em Paraty, como exigem as circunstâncias e autoridades judiciárias. Bem verdade que eu gostaria de escrever sobre as belas coisas com que a vida nos pode brindar. No entanto, o dever obriga a meditação em torno dos riscos presentes e ameaças futuras no campo social, político e humano. Os problemas econômicos e financeiros serão equacionados e resolvidos, mais dia menos dia. Mas o que pensar e dizer sobre as outras questões, quiçá mais delicadas e atrozes?
Transformamo-nos em itinerário e corredor de drogas, fabricadas pelas nações vizinhas e a serem consumidas no maior país da América Latina (que é o Brasil) ou exportadas para a Europa e Ásia. Silenciosamente, os criminosos encaminham os produtos do mal e da morte, enriquecendo milhares e viciando jovens desde a adolescência, obrigados depois, se possível, ao tratamento clínico, aos centros de recuperação ou às necrópoles. Milhares não escapam à degradação e a esses tristes fins passam ao próprio tráfico ou ao contingente de delinquentes recolhidos aos cárceres, em condições deprimentes como as telas de TV revelam e as fotos de jornais ilustram.
A imagem do Brasil está péssima, como se vaticinava. O britânico “The Gardian”, que não tira os olhos de nós, acha que os casos de Manaus e Natal não passam de mais um episódio na escalada de violência na guerra das gangues brasileiras pelo controle do tráfico de drogas. O “The New York Times”, em sucessivas edições, destaca a violência dos presidiários (eles autores de seus próprios destinos) e mutilados e decapitados. Mas as gangues criminosas querem manter o comando em suas celas e pavilhões.
Deu nisso, como se preconizava.


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Por Manoel Hygino - 18/1/2017 10:14:53
Harmonia entre os poderes

Manoel Hygino

É fabulosa a safra de recursos e outros meios jurídicos e expedientes postos em prática no Brasil para evitar que as decisões judiciais sejam cumpridas. Judiciário, Legislativo e Executivo se desdobram para manter as suas argumentações com relação a problemas que, deste modo, nunca têm fim.
No entanto, é significativamente claro o que diz a Constituição. Em seu artigo 2º, proclama-se a independência e harmonia entre os poderes, para que cada um se limite às funções que lhe cabem. Procurando sobrepor-se um ao outro, os três terminam por perder força e a confiança da sociedade.
Não se trata de definir quem é mais poderoso no sistema. Cada um agirá nos termos estabelecidos pela lei. De fato, o Judiciário não pode legislar, embora possa ser levado a isso por circunstâncias, o que não faz bem a ninguém. O Judiciário não pode comprometer-se, sem expor-se a risco de dúvidas sobre o comportamento de seus integrantes, como já acontece com inúmeros agentes do Executivo e do Legislativo. Imitar o imprestável não é bom conselho.
Quem percorre as páginas dos jornais e os canais de televisão e rádio se surpreende com os avanços e recuos nos processos de interesse público. A invasão da competência do Legislativo pelo Judiciário presentemente é flagrante e deve causar inquietude à presidente Carmen Lúcia, em que tanto confia o povo deste país, já decepcionado por suspeitas atitudes anteriores de outros.
Amigo advogado me dizia, há pouco, que passamos a viver não mais sob um Estado de Direito, pois submissos a um Estado de Juízes, o que não convém. Na realidade, os juízes devem ser independentes, mas – em uma democracia- submissos às leis e assegurando sua aplicação.
Interessante valer-se da experiência de outras nações, mais antigas, entre os quais o Reino Unido. Depois de participar do II Congresso Internacional da Associação dos Magistrados Brasileiros, em meados do ano passado, na Inglaterra, o desembargador mineiro Rogério Medeiros Garcia de Lima, do Tribunal de Justiça de nosso Estado, expressou entusiasmo pelo que viu e assistiu.
Os britânicos se orgulham da monarquia constitucional e da Supremacia do Parlamento. Vangloria-se do seu sistema jurídico, considerando-se um dos pilares da expansão política econômica do império britânico, ao propiciar segurança jurídica e previsibilidade (não é o que ora nos falta?).
Um dos baluartes do sistema é o princípio the rule of law, a regra do Direito e o Império da Lei, a que todos se submetem, inclusive, o monarca. Ninguém é ou pode ser exceção. Para que o sistema prevaleça e seja forte, todos têm direito de acesso à Justiça e ao devido processo legal, o due process of law.
O que mais causa inveja: Os britânicos não adotam Constituição escrita, seguindo princípios fundamentais milenares, reforçados desde 1950 pela Convenção Europeia de Direitos Humanos. Finalmente: Os magistrados de lá, recrutados entre advogados mais experientes, são imparciais e incorruptíveis. Valorizam os precedentes dos tribunais. Não inovam aleatoriamente, visando respeitar a jurisprudência e preservar a segurança jurídica.
Em resumo, é como sintetizou Lord Faulks, ministro da Justiça: Os países têm de zelar pelo cumprimento das leis e pela e atuação independente do Poder Judiciário.


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Por Manoel Hygino - 9/1/2017 08:06:13
Um olhar de criança

Manoel Hygino - Hoje em Dia (09/01/17)

O papa Francisco exarou mensagem sobre a Cúria que pareceria visando também, e muito especialmente, à sociedade política, inclusive a brasileira. Ele alertou sobre a existência de “resistências malévolas” contrárias à reforma da corte pontifícia. Foi peremptório: “a reforma não tem finalidade estética” e não pode ser entendida como “uma espécie de avivamento, maquiagem ou truque para embelezar o corpo curial, nem mesmo como uma operação de cirurgia plástica para tirar as rugas”.
O papa reconheceu determinadas resistências à reforma: “as resistências abertas, que nascem muitas vezes da boa vontade e do diálogo sincero; as resistências ocultas, que nascem dos corações assustados ou empedernidos que se alimentam das palavras vazias da hipocrisia espiritual e as resistências malévolas, que germinam em mentes doentes e aparecem quando o diabo inspira más intenções (muitas vezes disfarçadas sob pele de cordeiros)”.
“Não são as rugas que se devem temer na Igreja, mas as manchas!”, asseverou. Destacou que, para fazer a reforma, não basta “mudar o pessoal, mas é preciso levar os membros da Cúria a renovar-se espiritual, humana e profissionalmente”.
Assim, pelas palavras do pontífice, constatam-se as dificuldades que também ele enfrenta, não só com o seu rebanho em todos os continentes, pois latente na própria sede da Igreja Romana. Sem embargo, por força de seu dever de líder, de chefe de Estado, por suas firmes convicções, Francisco olha para fora e apela ao bom senso e solidário espírito de todos os de boa vontade, como há mais de dois mil anos se apregoou.

Seu insistente apelo à paz, em todos os recantos da terra (e não só no mundo cristão), de todas as regiões e confissões, deveria ser ouvido (mais ainda, nesta hora de transição no calendário). Sua voz precisaria sobrepor-se aos interesses econômicos, religiosos e territoriais. Será tão difícil sentir o que continua acontecendo?
O jornalista Paulo Narciso, coração aberto ao bem, à grandeza da profissão de fé, diante da foto de uma criança vítima do conflito sírio, estampada pela mídia, escreveu e eu acho útil transcrever: “Olhar ensanguentado de um menino de 5 anos, olhar mudo, imóvel, patético e olhar de cabeça inclinada, percorre o mundo. É intérprete do horror da guerra, ainda mais na Síria, uma das civilizações mais antigas. Omran Daqneesh foi atingido, com a família, por bombardeio aéreo. Sentado na parte traseira de ambulância, coberto de poeira, rosto ferido, a dor contida, o olhar, de cabeça baixa, envia aos homens – de todas as partes e épocas – muita repreensão, comovente e larga. Revendo muitas vezes o rosto hirto, as mãozinhas sobre as pernas, ingressa-se na brutalidade de que é vítima pungente, e não única, entre crianças. A imagem foi exibida pelo Aleppo Media Center (AMC), grupo ativista contrário ao governo de Damasco. Poucas cenas, como esta, conseguiram transmitir à humanidade atemporal a notícia da fúria de que são
capazes os homens e suas ideologias. O olhar de uma criança de 5 anos, alcançada pela guerra, envergonha o mundo.
Mas, não contém os homens, nem a guerra. (Seu irmão, Ali, morreu vítima do mesmo bombardeio)”.


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Por Manoel Hygino - 28/12/2016 13:45:07
ICAM: Nem tudo está perdido

Manoel Hygino - Hoje em Dia (28/12/16)

No último dia 15, li aqui sobre o fechamento da Livraria Van Damme, tradicional estabelecimento da capital. Com 47 anos, encerrou atividades quando 2016 quase terminava.
A Van Damme tinha as próprias regras. Entre elas, não vender senão livros obedecendo a preço tabelado, não fazendo promoções ou apelando a valores fora dos fixados pela editora. Conquistou, assim, público cativo pela sua lisura.
Pai e filho tiveram a iniciativa e mantiveram o negócio durante quase meio século, encarregando-se, pessoalmente, de atender a clientela, a que dava especial atenção e com a qual mantinha diálogo, inclusive na indicação de livros. O filho explica: “Em função dos tablets, do Kindle e do on-line, as livrarias tradicionais acabam perdendo espaço”.
Mas espaços também perderam a Mineiriana e a Status, ambas na Savassi, que cerraram as portas no ano passado. Sinal dos tempos, a que assistimos com pesar e temerosos.
Nem tudo, todavia, desabou. O Instituto Cultural Amilcar Martins teve sua coleção de obras raras da Biblioteca Mineiriana inserida no Registro do programa Memória do Mundo, da Unesco. É fato digno por sua significação para Belo Horizonte e para o país. A cerimônia se realizou, no dia 6 último, em Brasília, com presença dos membros do respectivo Comitê, dos representantes das instituições contempladas, da Unesco e convidados.
O Instituto se consagrou núcleo precioso de saber, no centro de Belo Horizonte, na Rua Ceará, quase esquina com Contorno. Suas portas estão abertas para aqueles que se interessem pela história de Minas, sobre a qual muito se ouve falar mas poucos se animam estudá-la e pesquisá-la. Há segredos recônditos que precisam ser desvendados, muitos dos quais inseridos nas páginas dos milhares de livros da benemérita Casa. Enfim, a Unesco não iria conceder distinção de tão singular valia simplesmente por favor ou gentileza. O que o Instituto preserva, sob olhar vigilante de Amilcar e irmãos, tão dedicados igualmente à nobre causa, é algo que honra as tradições da gente mineira e à família, a que tanto já devemos no campo do saber.
Alegra testemunhar o bom resultado de empreendimentos de efetivo relevo para o país. Num período de tanta turbulência na vida nacional, a premiação por organização internacional ao ICAM revela que nem tudo está perdido: se a credibilidade política e econômica enfraqueceu, se há dissensões no campo oficial de cultura, se existem disputas por recursos na área das letras e das artes, ainda persistem os que se esforçam por valorizar e proteger a herança maior que gerações nos legaram; sem se envolver no labirinto sombrio da distribuição de recursos públicos, cujas informações de valores comparecem frequentemente nos espaços político/policiais da mídia.
Quem quiser conferir ou conhecer as dependências do ICAM lá encontrará um verdadeiro relicário de obras raras, adquiridas aqui e ali, no exterior, não localizáveis mesmo em bibliotecas oficiais. É algo que causa orgulho à capital de Minas, com volumes lá mesmo registrados carinhosamente por servidores competentes. Não foi à toa que a Unesco a premiou.


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Por Manoel Hygino - 21/12/2016 08:35:30
O chão que pisamos

Manoel Hygino - Hoje em Dia (21/12/16)

Sem ser pessimista, vislumbro horizontes não muito animadores. Quem acompanha estas observações diárias, verifica que o passar dos dias os confirmam. Por isso, quando leio que a expectativa de vida do brasileiro segue crescendo, pergunto-me: que culpa têm as novas gerações? Não basta viver mais tempo, fundamental é a qualidade de vida que se tem. O IBGE informa que os nascidos viverão em média 75,5 em 2015. Bom ou ruim?
Depende de uma gama imensa de fatores. Mas, o presidente do próprio IBGE, Paulo Castro, antecipa: o Brasil enfrentará um período de estagnação em vez de recuperação, mesmo que a previsão de crescimento para a economia em 2017 se concretize. Ainda que o país saia da recessão, o avanço será insuficiente para vencer a crise (substantivo mais comumente empregado presentemente por estas bandas).
Castro declarou que o momento atual ainda é de piora nas projeções. Um dos fatores é o desarranjo no setor produtivo: “Algo há de errado na disposição desse time. As empresas entram mal em campo, as pessoas são desempregadas. Todos ficam desesperançados, a produtividade geral cai e o governo gasta demais, cobrando de todos para coibir a gastança”. Sem falar na alta taxa de juros, medida útil para período curto, mas que persiste há décadas.
O governo Temer decidiu mexer numa caixa de marimbondos, antes incluídos em pauta como temas permanentes, embora mais para manter as aparências. Entre eles, porque duradouros, os salários no serviço público e a reforma da Previdência, que interessam profundamente a todos.
Em meio ao torvelinho de enormes dificuldades, acirram-se os ânimos entre Legislativo e Judiciário, aflorando arestas, talvez ressentimentos.
Chegou-se, assim, ao clima de quase uma crise institucional, que não interessa a quem quer que seja, em tempo algum, a não ser aos pregoeiros, incentivadores e soldados da baderna.
Quando se aprovou o limite dos salários dos servidores públicos da União, considerando o que percebem os ministros do Supremo Tribunal Federal, pareceu-se classificar suas excelências do Judiciário como privilegiados com uma espécie de supersalário da República. No entanto, há muita gente ganhando acima do teto e Renan está no encalço dos felizardos. Aliás, não será difícil identificá-los e não só na máquina federal, nem só no Judiciário.
Como consequência, o noticiário da imprensa revela que todos os funcionários querem agora subir na escala salarial para chegar à remuneração dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Já é bom em um país em que as remunerações, de modo geral, são tão baixas. Aliás, seria por isso mesmo que se apela a múltiplos artifícios para alcançar patamares mais altos, mesmo através de propinas e outros meios criminosos.
No fundo, o que o brasileiro quer é apenas sobreviver – o que não anda nada fácil. O homem de rua acha que quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro. Este o Brasil em que estamos e em que vivemos, que exige mudanças – difíceis – para melhorar-se e às condições de existir de sua população.


82026
Por Manoel Hygino - 14/12/2016 09:15:27
Vulgarização da violência

Manoel Hygino - Hoje em Dia (14/12/16)

No primeiro domingo de dezembro, Ferreira Gullar, poeta e teatrólogo, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), maranhense de nascimento, deixou o Rio de Janeiro, onde viveu seus últimos anos de vida, para ingressar na história. Vítima de pneumonia, ficara internado em hospital, mais de vinte dias, não pelo Sistema Único de Saúde (SUS) evidentemente, que só paga, se não me engano, oito – talvez menos.
O corpo foi velado na Biblioteca Nacional, em seguida na ABL, e finalmente no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, como de praxe. Os médicos tentaram antes entubá-lo. Ele rejeitou. À mulher, a poeta Cláudia Animos, solicitou – ou determinou?: “Se você me ama, não deixe fazerem nada comigo. Me deixem ir em paz. Eu quero viver em paz”.
Seu último livro – “Autobiografia poética e outros textos”, lançado em 2016, não repetiu sucessos anteriores, mas se integrou à sua rica bibliografia. Criador do movimento neoconcreto na poesia, mudou de ideia e ainda enveredou para a política, entrando no partido comunista e se opondo à ditadura militar. Exilou-se na Argentina, viveu clandestinamente, e na terra de Perón e Borges escreveu “Poema Sujo”, de 1976, considerado sua obra-prima. De regresso ao Brasil, trabalhou na imprensa carioca e, para a TV, escreveu o seriado “Carga Pesada” e a novela “Araponga”, sendo indicado para o Nobel, em 2002.
Agora, tudo é memória. Em Montes Claros, Gullar foi homenageado no “Poesia de quinta – projeto experimental”. A cidade ama e promove poesia e o Grupo Trama Poética, desta vez. Teve participação de Aroldo Pereira, Marli Fróes, Antônio Wagner, Marlene Bandeira, Anelito de Oliveira, Dóris Araújo, Renilson Durães, Marina Couto, Marcim da Gaita, Juliana Peres e Jorge Luiz, dentre outros que se aliaram no preito ao bardo maranhense, sem contar os músicos Ney Antunes e Cid Monteiro, em outro local e hora.
Em uma cidade com altos índices de criminalidade, do que reclamam todos os munícipes com justa razão, a voz de Gullar poderia parecer uma advertência. Na estrada que a liga a Juramento, seis assaltantes entraram num sítio, renderam e amarraram dois cidadãos, roubaram tudo o que podiam, desde serra e DVD, e caíram no mato. No mesmo dia, a Polícia Militar só encontrou rastros de dois facínoras que investiram contra um homem de 23 anos, na rua Major Santos, executando-o sumariamente.
O fato nos leva a Gullar, que confessou em artigo: “Não há dúvida de que homicídio puro e simples não deixa de me espantar. De fato, tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa que não compreendo nem aceito. Mas sei, como todo mundo, se, dependendo de seu temperamento, pode uma pessoa perder a cabeça e matar um suposto inimigo”.
Mas, este é um outro problema. “Há, porém, pessoas que têm o prazer de matar e, por isso, mesmo, fazem isso com certa frequência. Lembro-me de um jovem que foi preso logo depois de liquidar um desafeto. Quando o policial lhe disse que no próximo seria maior de idade, e se voltasse a matar alguém iria para cadeia, ele respondeu: “Pois é, não posso perder tempo”.


82007
Por Manoel Hygino - 7/12/2016 09:07:00
A verdade histórica

Manoel Hygino - Hoje em Dia (07/12/16)

Em 9 de novembro, em sua Universidade Livre, a Academia Mineira de Letras recebeu o advogado e escritor Petrônio Braz, para palestra ao ensejo dos 40 anos do lançamento do romance “Maíra”, de Darcy Ribeiro. O conferencista lembrou que nascido em 1922, o autor parece identificar-se cm os primitivos habitantes da terra, com os índios das tribos que aqui existiram, senhoras da região do Grande Sertão, de Guimarães Rosa.
Darcy explicou que o esquema de “Maíra”, em linhas gerais, já o definia como um romance de dor e de gozo de ser índio. Tentou dar vida ao drama de Avá, uma espécie de índio-santo sofredor, na luta impossível para deixar de ser um sacerdote cristão para voltar a sua integridade original.
Enquanto ouvia Petrônio na AML, pensei no Rio Grande do Sul, onde muito ainda se cultiva o respeito pelos índios. Pensei em Nélson Hoffmann, advogado e ex-prefeito de Roque Gonzales, jovem cidade gaúcha fronteiriça da Argentina, do lado de cá do rio Uruguai; e Ruy Nedel, de Cerro Largo, ex-deputado federal, constituinte, historiador, autor de “Memoriando a História do Sul”, dentre outros, ambos escritores e defensores dos índios, de sua identidade e de sua cultura.
Para Nedel, a história foi redigida ao sabor dos colonizadores, os conceitos de justiça totalmente escamoteados, os reinos usaram a cruz onde a espada e o arcabuz não tinham força para promover a conquista. Os missionários podiam ter boas intenções, mas a estrutura do poder decidia os fins.
Aliás, em recente artigo em “O Nheçuano”, jornal de Roque Gonzales, Nedel lembrou exatamente o autor mineiro, dizendo que “o antropólogo Darcy Ribeiro foi uma autoridade inconteste na recente história do Brasil”. Político taxativo e corajoso, foi ministro de Estado, senador da República, secretário de Educação do Rio de Janeiro em um dos governos de Leonel Brizola, fundador da Universidade de Brasília (UnB) e por ela doutor “Honoris Causa”.
O depoimento do gaúcho Nedel, ardoroso defensor dos índios do Brasil, dentro e fora do Parlamento, é valioso para se ter uma ideia exata da importância de Darcy em defesa da causa. Nunca abriu mão de sua vocação de antropólogo. Na antropologia, dedicou-se com esmero aos povos nativos das Américas e suas civilizações, das mais avançadas às mais rudimentares. Aprofundou-se nos estudos e denúncias ao dantesco genocídio praticado contra os povos nativos por parte dos conquistadores”.
A despeito da dificuldade de comunicação, os espanhóis sabiam que o mundo condenava sua política homicida, que virou genocídio. Em 1556, o governo de Madri tentou apagar a verdade através de um decreto. Os termos “conquista” e “conquistadores” deviam ser substituídos por “descubrimiento” e “pobladores.”
É o capítulo mais doloroso da história da América Latina. Na luta das habitantes pela terra e que lhes pertencia, destacou-se Frei Bartolomeu de las Casas, que encontrou dura resistência.
Seus escritos e denúncias foram confiscados pelos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel. Um mosteiro em que se encontravam essas preciosidades foi invadido em Madri e sumariamente queimadas. Para decepção dos contestadores, cópias foram salvas pelos dominicanos da França.


82001
Por Manoel Hygino - 5/12/2016 09:11:28
Na hora da transformação

Manoel Hygino - Hoje em Dia (05/12/16)

Então, a situação em Cuba era paradisíaca antes dos Castros? Esta a pergunta que se faria depois de dois comentários aqui publicados sobre a Cuba anterior ao comunismo. Não era assim, nunca foi. Tiranos sempre existiram na América Latina, na ilha os houve também. Contra isso foi à luta de Jose Martí, o herói da independência.
Considero valioso o depoimento do diplomata Vasco Leitão da Cunha, embaixador do Brasil, respondendo perguntas da Fundação Getúlio Vargas – uma delas: “O senhor conheceu Havana em dois momentos muito diferentes: em 1940 e em 1956. Havia um contraste grande?”.
O diplomata respondeu que sim, sendo melhor se ver e constatar a realidade: “Havana era uma cidade muito bonita, de vida cara porque si, como dizia o embaixador da Espanha: “La vida en Cuba es cara porque si!
Era uma vida de grande luxo. Os diplomatas estrangeiros que não tivessem fortuna pessoal eram mais modestos. Havia um prateiro que me dizia: “O cubano procura mais peças de ouro do que de prata. Eu, como sou um homem modesto, não abuso, porque eles nem perguntam o preço. A moeda tinha o mesmo valor do dólar. Você dava uma nota de um dólar e recebia o troco em cubanos”.
Sobre aquela época, vale acrescentar: “ Cuba era próspera, tinha 15% de população pobre, mas não havia a miséria que existe no Nordeste brasileiro. O meu jardineiro tinha a casa dele, a cozinheira tinha duas casas e alugava uma, o cnauffeur tinha a sua casa”.
“A população rural não era miserável. Era muito bem paga, os açucareiros pagavam bem. Esse negócio de pobreza franciscana dos cubanos é mítico”. Mais adiante, declarou o embaixador Leitão da Cunha: “Diziam os cubanos- não quero citar isso como uma verdade histórica, mas apenas dizer que fazem essa referência – que os presidentes de Cuba, com exceção do primeiro, dr. Estrada Palma, eram todos corruptos. O presidente da República tinha comissão na fixação do preço do açúcar! Não é possível um chefe de Estado ter comissão, isso não era aceito. Os senadores governistas tinham uma participação, digamos, de 30% e, os oposicionistas de 10%! Como diz o francês: que país é este?”
A II Grande Guerra ajudara Batista, após o colapso da produção açucareira a Ásia e Europa. Cuba ganhou um alento inesperado. A colheita de açúcar passou de 2,7 milhões para 5,2 milhões de toneladas de 1940 a 1944. E o valor da produção subiu para U$251 milhões. Foram anos abençoados para o governo Batista. O alto preço do açúcar e o prolongado período de paz social, com apoio do partido Comunista e do movimento sindical, deram ao país uma memória popular positiva, como afirmou Richard Gott, o historiador inglês.
Começa o declínio, por injunções múltiplas. Para o diplomata, o clima social estava muito carregado na ilha em final dos anos 50, muito tenso. Na metade do século, Cuba sofria uma crise sistêmica – política e econômica. Novos atores começavam a despontar, um dos quais Fidel Castro. Os oficiais militares de patentes inferiores se arregimentavam contra a corrupção e o gangsterismo, com o estilo de vida de ostentação dos seus superiores.
Era o prenúncio de uma nova era, que as atuais gerações conhecem sob vários ângulos.


81996
Por Manoel Hygino - 3/12/2016 08:11:30
Como era Cuba

Manoel Hygino - Hoje em Dia (03/12/16)

Pessoas se impressionaram com alguns números e informações sobre Cuba antes da Revolução castrista em 1959, que aqui registrara, em comentário. Enfim, a ilha ficava muito perto dos Estados Unidos, que dominavam toda a região. Acontece em todos os tempos e lugares em que há o império de poderosos.
Mas Cuba tinha e tem luz própria, apesar da proximidade territorial diminuta e dimensões. Por exemplo: o movimento feminista na América Latina lá apareceu pela primeira vez no final dos anos 30. Ela se antecipou à Espanha em 36 anos, pois no país ibérico só se concedeu às espanholas o direito de voto, a posse dos filhos e o direito de passaporte ou conta bancária sem autorização do marido, em 1976.
Em termos de comunicação, o segundo país no mundo a fazer transmissão por televisão foi Cuba, em 1950. Um sucesso. As maiores estrelas da América, sem chance em seus respectivos países, iam a Havana para aparecer em seus canais. Em seguida apareceu a tevê em cores, que passou a emitir sinais oito anos depois.
Em 1954, Cuba havia uma cabeça de gado por pessoa e o país ocupava a terceira posição na América latina (depois de Argentina e Uruguai) no consumo de carne bovina per capita. Em termos de saúde, não ficava por menos. Em 1955, Cuba já se revelava o segundo país na América Latina com menor taxa de mortalidade infantil (33,4 por mil nascimentos).
Em 1956, a ONU a reconheceu como segundo país latino com as menores taxas de analfabetismo (apenas 23,6%). As do Haiti eram 90%; e El Salvador, Bolívia, Venezuela, Brasil, Peru, Guatemala e República Dominicana, com 50%.
Em 1957, a ONU registrou Cuba como o país da América Latina com maior número de médicos per capita (um por 197 habitantes) e com maior percentual de casas com energia elétrica, seguida pelo Uruguai. O conforto era prioritário, tanto que o primeiro hotel com ar-condicionado em todo o mundo foi construído em Havana: o Riviera, em 1951. O mesmo ocorreu com o primeiro prédio em concreto armado do planeta, o Focsa, erguido em 1952.
Em 1958, Cuba se orgulhava de ser o país da América Latina com maior número de automóveis (160 mil, um para cada 38 habitantes). Sua população possuía mais eletrodomésticos do que qualquer outra nação.
O país contava com o maior número de quilômetros de ferrovias por Km² e o segundo no número total de aparelhos de rádio. Em 1958, apesar da sua pequena extensão e de apenas 6,5 milhões de habitantes, Cuba era a 29ª economia do mundo.
Em 1959, Havana se tornara a cidade do mundo com o maior número de salas de cinema: 358, batendo Nova York e Paris, que ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente.
O embaixador Vasco Leitão da Cunha, que esteve na ilha em 1940 e 1956, comentou: “Da segunda vez, Havana estava muito mais desenvolvida. Cuba tinha uma prosperidade muito grande, só comparável à da Venezuela e à da Argentina, antes de Perón. Era uma vida de muito luxo”. Em 1959, houve a revolução. Começa outro capítulo na história da ilha.


81992
Por Manoel Hygino - 1/12/2016 09:10:44
Aluno de uma aula só

Manoel Hygino - Hoje em Dia (01/12/16)

Quem acompanha as transmissões de televisão, em vivo, como gostam de dizer os portugueses, espanta-se ao ouvir erros gramaticais vergonhosos. O verbo haver, por exemplo, coitado! Foi praticamente banido, aqui. Passou a sinônimo de ter na linguagem corrente no Brasil, como observou o conspícuo Antenor Nascentes.
Não se usa mais “há 30 anos”, mas “tem 30 anos”. Gente usa e abusa da língua pátria, ou nas vias públicas ou nas ilustres tribunas do Congresso Nacional. Não sei as notas que determinados parlamentares conquistariam numa seleção para candidaturas, se o português fosse condição para aprovação.
Nem gostaria de referir-me a outras palavras, como “aonde”, cujo emprego nos textos e na oratória constituem verdadeira calamidade. “Onde” e “aonde” são demonstração inequívoca na má utilização do vernáculo; é mais do que isso, pois erro crasso e inaceitável. Há gente (preste atenção no correto emprego), que não passou sequer pela Escolinha do prof. Raimundo, do Chico Anísio pela Globo, e se mete a gato mestre na língua que imortalizou Camões, ou que o gênio imortalizou, melhor dizendo. Nem frequentou aulas do seriíssimo (confiram o superlativo), mestre José Mesquita de Carvalho, nascido em Mariana, nem segue o exemplo de perfeccionismo de Eduardo Almeida Reis, membro da Academia Mineira de Letras.
Por oportuno, recordo Edmilson Caminha, um dos melhores autores brasileiros da atual geração. Em agosto deste ano, um artigo seu no “Jornal da ANE”, Associação Nacional de Escritores, recebeu título de “Nosso Napoleão, o imperador da língua”.
Focalizava Napoleão Mendes de Almeida, um dos maiores professores do idioma pátrio, autor da excelente “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, que, no ano passado, alcançou a quadragésima edição, com mais de 500 mil exemplares vendidos.
Napoleão Mendes de Almeida lutou muito para vencer. Nascido em Itaí, interior de São Paulo, estudou letras clássicas e filosofia, e, depois Direito, na famosa faculdade do Largo de São Francisco. Tentou o magistério por um ano, mas desistiu. Mendigou e dormiu nas ruas da capital, internando-se, por tuberculose, em um sanatório para indigentes que existia em Campos do Jordão. Ei-lo, em seguida, substituindo João Ribeiro na coluna “Questões Vernáculas”, no Estadão, onde permaneceu 40 anos.
Casado, criou os primeiros cursos de português e latim por correspondência. A esposa o advertiu: “Ensinar pelo correio em um país de ignorantes? É claro que não vai aparecer ninguém! Você morrerá de fome!”.
A iniciativa deu certo e encontrou seguidores nas décadas seguintes. Lembra-se de sua entrevista no jornal, em 1990. Ele contou que alguém se inscrevera às lições de português por via postal. Era um certo Luiz Inácio da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. “Pagou o primeiro mês de aulas por correspondência e não respondeu a uma sequer. De modo que não posso dizer nada da fraqueza do português dele”.


81986
Por Manoel Hygino - 28/11/2016 09:40:04
Uma mudança sem traumas

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Souza Valente foi o repórter que deu um dos mais importantes furos na história da Imprensa do Brasil: a proclamação da República. O fato decorreu de uma série de esforços orientados com inteligência, argúcia e audácia, fazendo com que a “Gazeta de Notícias”, o “seu jornal”, fosse o primeiro a inserir, que a notícia da mudança do regime político.
O repórter nascera com a vocação, sacrificando-se por uma boa notícia, a nota sensacional, conquistando fama e fazendo exemplos. Com mais de 80 anos, a Associação Brasileira de Imprensa conseguiu um lugar para ele no Asilo São Luís no Rio de Janeiro. A mão esquerda estava paralisada, o coração fatigado, mas demonstrando lucidez e boa memória. Ensinava: “o acaso ainda é o melhor amigo do repórter...”.
O “Jornal do Comércio”, em 16 de novembro de 1889, relatou: “despertou ontem esta capital no meio de acontecimentos tão graves e tão imprevistos que as primeiras horas do dia foram de geral surpresa.
Rompeu o dia um movimento militar que, iniciado por alguns corpos do Exército, generalizou-se rapidamente pela pronta adesão de toda a tropa de mar e terra existente nesta cidade. A consequência imediata destes fatos foi a retirada do Ministério de 7 de Junho, presidido pelo sr. Visconde de Ouro Preto, que teve de ceder à intimação feita pelo sr. Marechal Deodoro da Fonseca, que assumira a direção do movimento militar.
À exceção do lastimoso caso do Sr. Barão do Ladário, que, não querendo obedecer a uma ordem de prisão que lhe fora intimada, resistiu armado e ficou ferido, nenhum ato de violência contra a propriedade ou a segurança individual se deu até o momento em que escrevemos estas linhas”.
Penso eu: gente civilizada mesmo na frustração e derrota! Aliás, o próprio “Jornal do Comércio”, comentou: “aos que se acham com a responsabilidade da situação corre o imperioso dever de manter a ordem e a tranqüilidade pública. São tantos e tão importantes os interesses da população nacional e estrangeira da nossa capital que a mais rigorosa e constante vigilância torna-se indispensável para que no meio da efervescência natural nestas ocasiões não fiquem comprometidos os créditos de um povo civilizado, como é o povo fluminense”.
Os fatos são descritos, a seguir, pelo redator, desde o Arsenal de Marinha à “repartição da Polícia”, citando nomes e episódios, inclusive a renúncia do conselheiro Bosson. Os delegados de polícia, sabendo da decisão, pediram imediatamente exoneração de seus cargos. Correndo a informação de que alguns indivíduos pretendiam assaltar a Casa de Detenção, mandou-se para ali uma força de vinte praças, comandadas por um alferes. A ronda da cidade foi feita à noite por soldados do 7º Batalhão de Infantaria e outros corpos do Exército, enquanto as estações policiais foram reforçadas, sob comando de um oficial do Exército.
Constando que o visconde de Ouro Preto planejava organizar um gabinete para enfrentar a situação, o próprio Deodoro determinou que ele fosse preso. Obedecida a ordem, o visconde foi conduzido ao Estado Maior do 1º Regimento de Cavalaria, em São Cristovão. Tudo sem maior confusão, embora se desencaixotassem e se armassem oito metralhadoras Comblain, no Arsenal de Guerra, para eventuais reações, que não houve. Os navios de guerra nacionais, parados no porto, mantiveram suas guarnições em alerta.


81985
Por Manoel Hygino - 28/11/2016 09:36:43
Maíra chega à Academia

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Houve por bem a Universidade Livre da Academia Mineira de Letras programar uma sessão especial para homenagear Darcy Ribeiro, na noite de 9 de novembro último. O projeto, valiosa contribuição ao meio cultural de Belo Horizonte, partiu do acadêmico Rogério Faria Tavares, ao ensejo dos 40 anos de publicação de “Maíra”, romance do autor mineiro.
Para conferência sobre o tema, foi convidado Petrônio Braz, polivalente no ofício de viver e escrever – agrimensor, advogado, jurista, romancista, articulista, professor e poeta. Autor de várias obras no campo de Direito, e exerceu importantes cargos públicos na região em que nasceu (ele é de São Francisco, à margem do rio), credenciando-o ao título de cidadão honorário de muitos municípios por reconhecidos serviços.
Sua exposição sobre Darcy Ribeiro atraiu ao Auditório Vivaldi Moreira, da AML, escritores de diversos municípios, inclusive diretores da Academia. Comentou que, embora nascido em 1922, Darcy parece ter-se identificado com os habitantes primitivos da terra, com os índios das tribos que aqui existiam, senhoras das terras do Grande Sertão adotado depois por Guimarães Rosa.
Referindo-se aos importantes cargos que exerceu como fundador e reitor da Universidade de Brasília, Ministro da Educação, chefe da Casa Civil da Presidência da República, Petrônio viu em Darcy o idealista, seu gosto pelo magistério, a que imprimiu marcas de seu pensamento e personalidade.
Traçando a biografia do homenageado, Petrônio Braz lembrou seu tempo em Montes Claros, a infância e a adolescência. Recordou um dos momentos mais importantes de sua carreira, quando recebeu diploma em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo em 1946, especializando-se em Antropologia; sua admissão como etnólogo no Serviço de Proteção ao Índio e a fundação do Museu do Índio e do Parque Indígena do Xingu. Além de vice-governador do Rio de Janeiro, foi senador da República e membro da Academia Brasileira de Letras.
Darcy se encantou há 20 anos, em 17 de fevereiro de 1997. Zuenir Ventura comentou: “morreu o grande pagé, foi embora o nosso bom selvagem, subiu aos céus o nosso feiticeiro. A utopia ficou sem sua encarnação. A política, a ética, a erótica e a poética perderam sua rima rica”.
O conferencista sublinhou que o livro se acha esgotado e raramente se encontra num canto de prateleira de livraria ou em algum sebo. Dele se fala muito, mas se lê pouco. O próprio autor, contudo, se explica: “o esquema de ‘Maíra’, em suas linhas gerais, já o definia como um romance da dor e do gozo de ser índio. Retomando, ali, minhas memórias, consegui encarnar, dar vida ao drama de Avá, uma espécie de índio-santo sofredor, na sua luta impossível para mudar de couro, deixando de ser um sacerdote cristão para voltar a sua identidade original (...) Só fui completá-lo em 1974/75, para sair da tensão em que me afundei depois da operação de câncer. Suponho até que foi naquela experiência de ver a morte cara a cara, minha morte, como uma possibilidade real e concreta, que desatou as peias e deu a coragem de expressar-me calmamente como se requer de um romancista”.
Mas Petrônio dispunha de apenas 55 minutos para sua dissertação. O espaço era extremamente curto.


81968
Por Manoel Hygino - 21/11/2016 08:40:04
A outra versão da Coluna

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Fatos e publicações levam à conclusão da necessidade de um reexame da história do movimento militar-revolucionário que recebeu o nome de Coluna Prestes, e que, parece-me, não teve o tratamento isento que merece. Seria oportuno, aliás, um volver de olhos ao passado, às posições e gestão do presidente Artur Bernardes, mineiro de Viçosa e uma das personalidades mais polêmicas da República.
Em verdade, tudo começou em 5 de julho de 1924, em São Paulo, quando tropas do Exército e parte da Polícia sediada na capital levantaram-se contra o presidente do Estado, Artur Bernardes, chefe na nação. Apoderaram-se dos pontos-chaves da cidade, e o presidente do Estado fugiu, após alguns dias da resistência. Iniciou-se uma verdadeira ação de guerrilha contra Bernardes, que exercia o poder em estado de sítio.
Não se tratava de movimento comunista, até porque Luís Carlos Prestes somente se declararia como tal em 1930. O 5 de Julho, como lembrou o historiador Hélio Silva, foi liderado em São Paulo pelo general Isidoro Dias Lopes, que comandou a 1ª Divisão Revolucionária a partir daí, recebendo o apoio de Prestes, que se rebelara no Rio Grande do Sul. A marcha foi definida mais tarde por técnicos militares norte-americanos como resultante de uma estratégia de guerrilha pioneira no mundo moderno. Ainda Hélio Silva observa que, somente depois, os comunistas reivindicaram a liderança desta mobilização nacional, dentro da qual surgiu a imagem que se tornaria lendária, do “Cavaleiro da Esperança”.
A passagem da Divisão Revolucionária por Goiás, por exemplo, foi das mais dolorosas para a região e seus habitantes, como Sílvio do Rosário Curado Fleury descreve em “Goiás Anos 20 - Patriotas e Revoltosos”. Escritor e médico em Corumbá, que serviu também na Santa Casa de Belo Horizonte, onde recebeu a Medalha Hugo Werneck. Sua contribuição à história daquele tempo, eventos e personagens não foi ainda avaliada como necessário e ajudará ao conhecimento pleno e imparcial dos acontecimentos.
Sílvio Fleury narra em detalhes a ação da Divisão Revolucionária por extensas regiões. Afirma que a passagem do grupo por terras goianas inaugurou um período de sofrimentos e prejuízos para a população. A gente invasora arrebanhava animais de transporte e somente os abandonavam mortos ou inutilizados pelo seccionamento do tendão de uma ou das duas patas dianteiras, obrigando-os a se deslocar aos saltos até a extenuação.
O comércio e estabelecimentos praticamente desapareceram. Os roceiros procuravam refúgio nas matas e locais de difícil acesso. Quando caíam nas mãos dos revoltosos, eram presos, ameaçados, espancados, chicoteados e submetidos a vexames para darem informações sobre a região. Muitos foram coagidos a acompanhar os rebeldes em suas marchas e abandonados sem montarias em lugares inóspitos. Mulheres tiveram as orelhas rasgadas para lhes roubar os brincos e cortados os pescoços para arrancar-lhe brutalmente os colares. Estupros foram frequentes, ficando numerosos fatos desconhecidos porque as vítimas e familiares se sentiam humilhados.
O livro em questão, assim, relata o outro lado da epopeia da marcha dos jovens oficiais pelo interior brasileiro, história que se vai mitificando pela versão oficial (?). Para julgar, é preciso ser pleno e imparcial. “Goiás Anos 20” contribui substancialmente para esse objetivo.


81965
Por Manoel Hygino - 19/11/2016 09:26:23
Entre chuvas e destruição

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No Brasil há tremores de terra, felizmente sem maiores consequências. Um deles, porém, perto de Montes Claros, no distrito de Caraíbas, registrou uma vítima. Para alegria nossa, porém, não temos casos de maremotos, o máximo que se observam são ondas de cerca de três metros de altura, como aconteceu no Rio de Janeiro recentemente, espantando os banhistas das praias e os aficcionados de surfe.
No Japão houve o tsunami, e mais ao Sul nos países asiáticos, sucedem-se registros letais. Na Itália, há pouco, terremotos causaram pânico, mortes, feridos, danos em áreas urbanas. Em Portugal, temeu-se que o problema surgisse. O sismo de 1º de novembro de 1755 ainda provoca medo aos lusitanos.
Um técnico de Portugal, que foi à Itália, avisou: “Podemos ter sismo de magnitude muito elevada a qualquer momento. Sabemos que não o podemos evitar, mas podemos evitar as consequências, reforçando as casas e ter uma atitude adequada perante um sismo”, mas como nada é feito, “se acontecer aqui, basta ser igual aos que aconteceram na Itália, Lisboa vai ficar arrasada. Não estamos nada preparados”. O terremoto do século XVIII foi maior que o do Japão, em 2011, com 8,9 graus de magnitude.
Em 14 de novembro de 2016, moradores das áreas costeiras da Nova Zelândia sofreram as consequências do tremor de 7,8 graus, registrado logo após a meia-noite, quando se alertara sobre um tsunami. Boletim advertia que ondas de cinco metros podiam causar danos e mais vítimas, além das duas mortes já registradas.
Portugal, lá longe, conhecia o drama. Na última noite de outubro de 1755, Lisboa ainda se revelava uma cidade formosa, mesmo sem a opulência do Quinhentismo. Na manhã seguinte, outro novembro, a capital lusa estremeceu durante nove minutos. O que não derruiu, ardeu, disseram os cronistas.
No Brasil, contudo, vivemos outro tempo. A primavera não é tão saudável para os gaúchos da fronteira com a Argentina. Há borrascas, o vento sopra fortemente, há pancadas de chuvas, as águas encrespam, diminui a visibilidade. É mais ou menos o que conta Nélson Hoffmann, escritor de raras virtudes, ex-prefeito de Roque Gonzales, às margens do rio Ijuí, cujas águas fluem ao rio Uruguai, no limite com a terra de Borges, um cego que via longe.
Diferentemente, no sertão mineiro aguardava-se com ansiedade o inverno, isto é, a estação das chuvas. Paulo Narciso, advogado e jornalista de mão cheia em Montes Claros, no Norte mineiro, a maior cidade da região, acompanhou do Alto dos Morrinhos, as variações da época.
Escreveu, no último dia 10: “Por volta das 14h20m, a chuva que estava dependurada em grossas nuvens escuras desceu. Choveu copiosamente, aos cântaros, como se costumava dizer. Não sei como foi nas outras partes da cidade, mas na região do aeroporto de M. Claros a chuva foi exemplar, constante por 20 minutos, grossa como convém, educada, sem raios e trovões. Atraiu para si, para sua sinfonia, completa orquestra de sons, de uma passarinhada vibrante, feliz com a chuva. Coisa que não via há tempos - chuva constante, plena, festa de poetas cantores no céu, natureza em tarde de gala, refulgente. Desejar um arco-íris a mais talvez seja demasia, impróprio por muito querer. A chuva estancou, mas o céu promete mais, para reconciliar-se com o chão longamente cauterizado pela seca. Plenitude. Completude. Amém."


81959
Por Manoel Hygino - 17/11/2016 08:41:05
O fechamento do STF

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Da importância da Justiça para as sociedades civilizadas se pode tirar ideia positiva pelos momentos ásperos pelos quais passa o Brasil, sem se perder a visão do que acontece em outras nações. Na voz dos deserdados da sorte, dos que sofrem com os reveses cotidianos, vítimas de tragédias em todos os minutos, há sempre um grito: “Queremos Justiça”.
Os tempos mudaram, como observou o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, orador oficial na solenidade de posse de seu colega Herbert Carneiro como presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em julho último. “A função de julgar, lembrou ele, é tão antiga quanto a própria sociedade. Por mais primitivo que seja um aglomerado humano, o choque de paixões e interesses gera desavenças, cuja solução é submetida a um juiz. No princípio ‘dizer o direito’ era obrigação do rei, ao qual cumpria editar, executar e declarar o direito. Esse quadro atingiu o Brasil colonial, até a elaboração do princípio da separação dos poderes”.
No entanto, interesses múltiplos, nem sempre lícitos, levam à não obediência do princípio. A plena autonomia do Judiciário permanece como objetivo maior de uma nação que se preza. Rogério Medeiros lembra Floriano Peixoto, presidente da República. Em 1893, ao saber que o Supremo Tribunal Federal concedera habeas corpus a um opositor, o marechal de ferro comentou: “Eles concedem a ordem, mas depois procuram saber quem dará habeas corpus aos ministros do Supremo”. Uma ameaça não muito velada, como se vê, mas a que Corte não se curvou.
No momento que atravessamos, o Brasil se tem mantido harmônico em grande parte em função e por força do Judiciário, a despeito de equívocos amplamente divulgados pela Imprensa, fiscal do estado democrático de Direito.
Temos recente e forte a memória do regime militar implantado em 1964, cuja vigência ainda provoca discussão e embates e deve servir de advertência para os cidadãos na rigorosa observância de princípios de liberdade, aos quais não podemos abdicar, mas respeitar. Naqueles dias, houve arestas e atritos entre o Executivo e o Judiciário. Quando Castelo Branco – presidente, militar e democrata – visitou o Supremo Tribunal Federal (ocupantes do poder, então, se sentiam no dever de ir ao STF) ouviu-se o discurso do presidente da Corte, ministro Álvaro Ribeiro da Costa, uma peça digna e corajosa naquele instante. Disse: “A Justiça, quaisquer que sejam as circunstâncias políticas, não toma partido, não é a favor nem contra, não aplaude nem censura. Mantém-se equidistante, ininfluenciável pelos extremos da paixão política. Permanece estranha aos interesses que ditam os atos excepcionais do governo. Nosso poder de independência há de manter-se impermeável às injunções do momento, e acima de seus objetivos, quaisquer que se apresentem suas possibilidades de desafio às nossas resistências morais”.
Os tempos passaram, veio a Constituição de 1988, consagrou-se a autonomia do Poder Judiciário, essencial no período que a República vive. Nestas horas, a flama jurídica tem de manter-se altiva, movida pela ética, sem a qual a sociedade se arruína e o homem se avilta.
Volto aos fatos. Ainda no período militar, quando corriam notícias e boatos sobre ameaças ao Supremo Tribunal Federal, o próprio ministro Ribeiro da Costa afirmou: “Se mexerem no Supremo, fechá-lo-ei e entregarei sua chave ao presidente Castelo Branco”.


81917
Por Manoel Hygino - 27/10/2016 08:31:11
Ao apertar do gatilho

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O viajor que chega ao Brasil lendo os jornais, ouvindo os noticiários ou assistindo à programação das tevês, ficará assustado, no mínimo, com o teor dos fatos de que toma conhecimento. Sem Estado Islâmico, sem os brutais embates na luta intestina e fratricida na Síria, sem os incidentes entre palestinos e israelenses ou, ainda, sem as escaramuças entre turcos e curdos, a impressão que se tem é de que nos tornamos também aqui campos de batalha.
Há conflitos por todos os lados. As notícias do Rio Grande do Sul despertam especial atenção, porque ali as pelejas sempre foram por outros motivos e meios. As mortes presentemente se dão nos bairros e no próprio centro urbano da bela Porto Alegre, à luz do dia ou nas trevas da noite. No Rio Grande do Norte, escaramuças se registram diariamente, com mortos e feridos, inclusive em Natal tão decantada em verso e prosa.
Em São Luís, Maranhão, Estado de ilustres brasileiros, os fatos são cruéis e deploráveis, desde o presídio de Pedrinhas, núcleo de permanente rebelião de detentos contra a polícia estadual. Criminosos incendeiam os alojamentos e os coletivos na capital, durante noites sucessivas, obedecendo a ordens recebidas de detrás das grades, prejudicando o transporte coletivo e o sossego da população.
Em Franco da Rocha, São Paulo, presídio-hospital psiquiátrico, que acolhe centenas de detentos, estes se rebelam e ateiam fogo aos alojamentos, permitindo que dezenas deles escapem. Um consolo: autoridades alertam que se trata de criminosos de alta periculosidade. Agora, cabe ao poder público, reconstruir tudo e recuperar. Quem paga?
Em São Paulo ainda, a Secretaria de Administração Penitenciária informa que “o clima de harmonia que predominava” entre as grandes facções criminosas do Estado terminou. Elas partiram, novamente, para a guerra e, evidentemente, quem terá de suportá-la é a sociedade.
Os mais importantes presídios de Rondônia e Roraima se tornaram caldeirões em permanente ebulição. Em ambos, multiplicaram-se mortos e feridos e os governos estaduais se veem na contingência de apelar para a União.
No Sudeste impressiona a sucessão de ataques a bancos e repartições públicas. Em Belo Horizonte, a Polícia Civil prendeu grupo responsável por mais de trinta investidas contra caixas eletrônicos com prejuízo acima de R$ 1,5 milhão. Os criminosos são previdentes: fabricam os próprios explosivos. Também na capital das Alterosas, bandidos obrigam motoristas do Uber a atuar em crimes. Mas os taxistas também protestam: cinco deles são vítimas de meliantes todos os dias.
Pelo que se vê, não ingressamos no rol dos crimes ‘daselite’. É outro segmento expressivo no cotidiano do crime. Pergunto-me: ‘vale a pena ainda tocar no assunto?’.
No dia 1º deste mês, militares do Exército, destacados na segurança da Presidência da República, foram presos.Três deles são suspeitos de assaltar seis pessoas. O grupo usava pistolas das Forças Armadas para roubar dinheiro, celulares e objetos pessoais de pedestres em Ceilândia. Estavam com distintivos e crachás do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Este é responsável pela segurança do chefe da nação e pela coordenação dos serviços de inteligência federal, entre outras atribuições.


81909
Por Manoel Hygino - 22/10/2016 08:44:21
Manoel Hygino - Hoje em Dia

Na fila de espera

Ao estrangeiro causará estranheza o noticiário da imprensa sobre acontecimentos registrados no Brasil. Os espaços destinados aos registros políticos se confundem com os dos fatos policiais. Impressiona realmente, mesmo aos patrícios já acostumados com as mazelas da administração pública.
Diante dos inúmeros crimes (disse, inúmeros, sem quantidade exata, imensurável?, e não numerosos, isto é, de grande número) descritos em minúcias pelos veículos de comunicação, envolvendo integrantes dos altos escalões do poder, em seus três níveis. Fica-se quase perplexo: como conseguiram seus autores chegar a tal ponto de degradação, devassidão e delinquência sem que se tomassem em tempo hábil providências impeditivas?
Têm os chefes de Executivo de tomar extremo cuidado quando acolhem auxiliares. Esses podem já estar nas malhas de Justiça ou terem passado por elas, não ter ficha limpa, responder a processos ou estar à sua beira, porque investigados pela Polícia Federal, pela Civil, pela Promotoria Pública, enfim por quantos organismos agem em nome da lei.
Eduardo Cunha prometera que, se fosse preso, não cairia sozinho. Brasília incrementou em suas farmácias a venda de calmantes. Se ninguém está efetivamente acima e além da lei, e forem efetivamente denunciados ou delatados, tremerão as paredes dos edifícios projetados por Niemeyer. A bela igreja, ali erguida, inspirada nas antevisões de Dom João Bosco, estão certamente a receber fiéis e infiéis em busca da remissão dos pecados.
Verdade verdadeira e irrefutável é que as listas dos futuros ocupantes das celas da PF são enormes, firmadas por gente do mais alto gabarito na vida política, econômica e social do país inventado por Cabral. Pode até chegar o instante em que as autoridades judiciárias e policiais darão o aviso: não há vagas.
Conta-se, em todas as grandes capitais brasileiras, que se está criando um sorteio com atos prêmios: quem será o próximo a ser julgado pelo destemido juiz Sérgio Moro?
Da relação fatídica consta um preferencial, que nos remete a velho e aplaudido cantor de músicas com letras doridas de amor na primeira metade do século passado. Refiro-me a Augusto Calheiros, que encantava e suscitava lágrimas dos ouvintes de discos de 78 rotações ou rádios na época.
O Calheiros de agora é mais pomposo: José Renan Vasconcelos Calheiros, que consagrado magistrado mineiro identificou como “reformista constitucional, especialista em fatiamentos”. Segundo o Estadão, trata-se de um político profissional, em toda a extensão pejorativa do termo.
As manchetes de grandes jornais no dia seguinte à prisão de Cunha eram enfáticas: “Governo e Congresso temem delação”; “Lava Jato prende Cunha e amedronta mundo político”; “Prisão acende o alerta do Planalto”; “Cunha preso, aliados tensos”; “Prisão deixa a República de cabelos em pé”.
O “Estado de S. Paulo” via Renan: são 12 inquéritos junto ao STF, nove dos quais relativos à Lava Jato; em 7 de junho último, o procurador-geral da República chegou a pedir-lhe a prisão, assim como de Sarney, Cunha e Jucá, sob acusação de tentar obstruir os trabalhos da operação. Conclui o editorial: “O alagoano é um devoto das sombras e evita desafiar abertamente o governo – qualquer governo”.


81872
Por Manoel Hygino - 5/10/2016 10:08:24
Manoel Hygino - Hoje em Dia

Apressa-te, devagar

Os dias difíceis que a nação atravessa me incentivam a voltar ao tempo de Augusto, primeiro imperador de Roma, sobrinho de César, de quem recebeu um legado precioso, mas perigoso, tal a desagregação do Estado. Soube, contudo, enfrentar obstáculos e venceu.
Não sem razão, mereceu o texto da “Eneida” (VI. 701.794), transcrita pelo prof. J. Lourenço de Oliveira, em livro, de quem tenho um exemplar com dedicatória da esposa Alaíde Lisboa de Oliveira, irmã de Henriqueta e ex-integrante da Academia Mineira de Letras. Vai a repetição em latim: “Hic vir, hic est, tibi quem prometio saepitus audis, Augusto Caesar, Divi genus, aurea concet/Secula qui rursus Latio riegnata per arva/ Saturno quondam...”
Isto é: “Este varão que vês tão frequentemente prometido é César Augusto, de origem divina, que instaurará no Lácio, outra vez, os áureos séculos sobre as terras outrora governadas por Saturno...”
Virgílio adivinhou o futuro de Roma na pessoa de César Augusto, vaticínio de clarões imortais, no dizer do prof. Lourenço. De fato, o sobrinho de César não restabeleceu a idade de ouro, mas deu ao Império um largo período de tranquilidade e grandeza, como ora tanto necessitamos no Brasil.
O templo consagrado a Juno, em Roma, ficava aberto quando os soldados iam à guerra, para que o deus acompanhasse as legiões em seus combates. Durante duzentos anos não fora fechado, porque Roma estava sempre nos campos de batalha. Augusto voltou da campanha contra Cleópatra e o fechou: indicava que a paz voltara sobre o Império.
Leo Homo, referido por Veleio Patérculo, observa que, com Augusto, proporcionou-se ao povo romano e ao universo tudo aquilo que os homens podiam pedir aos deuses, tudo aquilo que os deuses podiam conceder aos homens, e que os desejos podem exprimir ou a felicidade realizar.
Não é o que os brasileiros esperam? E o que fez o prodigioso romano? Abafou discórdias civis que somavam vinte anos, restituiu a força da lei, a autoridade aos julgamentos, a majestade ao Senado, o respeito às magistraturas. Mais ainda: deu braços à agricultura, deu culto à religião, segurança aos cidadãos, garantia às propriedades.
E conformando Lourenço: “Tudo conseguiu com aquela vontade sábia e paciente, vontade jeitosa, que não entrava de golpe, mas progredia suavemente sobre o terreno que conquistasse. Seu estilo tinha ideias originais: a preocupação de garantir o tempo pela frente e o gosto de dar ao seu absolutismo as aparências legais, a fachada civil.
Graças a essas linhas mestras, viveu longamente ao lado do povo, enquanto o Senado lhe ia renovando os mandatos e mandados. Do seu amor ao tempo é a existência da máxima, que Suetônio afirmava de sua predileção: “Festina lente”, ou seja, apressa-te devagar.
Deste modo, Augusto revestiu com o manto da lei seu poder, que exerceu toda a vida, com direito a transmiti-lo a um herdeiro. E, assim, Augusto começou as reformas sociais.


81869
Por Manoel Hygino - 3/10/2016 10:02:28
Conselhos sobre o Brasil

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia


Thaís Abi- Samora, há dois anos, advertia que, se alguém viajar ao exterior ou encontrar quem queira saber algo sobre o Brasil, conte um pouco sobre as leis brasileiras. Eis o que é aconselhado:
1– No país abençoado por Deus, se for com sua família almoçar no domingo e tomar um ou dois chopes, ou dois copos de cerveja e for parado numa blitz, pagará multa de R$ 1.960 e terá a carteira cassada.
2 – Se comer bombons de licor, tomar xarope para tosse e alguns comprimidos e for parado num blitz, você paga uma multa de R$ 1.960 e terá a carteira cassada por um ano e o carro apreendido. Se tem dúvidas, tome conhecimento da lei que estabeleceu essas punições.
3 – Se você fumar maconha, fumar crack, cheirar cocaína, tomar comprimidos de ecstazy, tomar injeção de heroína ou ópio e for parado numa blitz, nada vai lhe acontecer.
4 – Se você roubar, assaltar, estuprar, atropelar e até matar alguém, com um bom advogado o máximo que acontece é esperar o julgamento em liberdade e, se condenado, como réu primário, ir para o regime semiaberto. Se tiver bom comportamento, só vai cumprir um terço da pena. Já se roubar milhões do povo ou dos cofres públicos, várias coisas podem ocorrer: vai eleger-se deputado ou senador, passará 15 dias num resort na Bahia em companhia da amante, será eleito presidente do Senado, nomeado ministro ou presidente de uma agência controladora.
5 – Um detalhe importante: se você tiver menos de 18 anos completos, aí você pode beber e dirigir como quiser, roubar, assaltar, estuprar e matar, sem problema algum. Você não pode ser preso porque é criança e pega no máximo três anos de cadeia.
6 – Agora, a melhor de todas: se você tem uma arma em casa, comprada regularmente depois de passar por todas as dificuldades da aquisição, com todos os atestados, testes e documentos apresentados e tiver a infelicidade de atirar em um bandido que entrou na sua casa para roubar ou matar, você será preso por tentativa de homicídio e pagará indenização ao bandido ou sua família por danos físicos e morais.
7 – Pior ainda, se o bandido for menor, aí você está lascado mesmo. Se por acaso ele estiver desarmado, aí é caso de tentativa de homicídio qualificado, sem possibilidade de defesa da vítima. Portanto cuidado: se um bandido entrar na sua casa, antes de atirar pergunte o que ele deseja, pergunte se ele está armado e se ele é menor. Agora, se ele matá-lo e for preso, vai receber de auxílio do governo R$ 922 por mês para cada filho que tiver.
Depois dessas explicações, veja a cara do seu amigo estrangeiro. Ele vai estar pensando que você é gozador, mentiroso ou ignorante mesmo.
Ele só vai chamá-lo de mentiroso, mesmo se você disser que precisa trabalhar cinco meses e oito dias de um ano para pagar ao governo os seus impostos!
Talvez comece a achar que você é louco e se seu país é um hospício, se disser que dois políticos condenados pela mais alta corte do país, e sem direito a recorrer, estão como deputado na Câmara Federal e presidindo o Senado e que ambos são membros da (CCJ) Comissão de Constituição e Justiça.


81868
Por Manoel Hygino - 1/10/2016 09:05:27
A consciência no sufrágio

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O ano que evolui para o fim não tem sido dos mais benignos para os brasileiros. Nesta véspera de eleições, que aquecem opiniões até à explosão, lembrei muito, entre outros fatos, de que pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, Suécia, concluíram que o dia mais triste da semana é o domingo. O resultado saiu de entrevistas com 12 mil pessoas na Europa, entre 1985 e 2007.
As eleições, entre nós, serão no primeiro domingo de outubro. Assim me sobrevieram outros pensamentos como de escolher nossos representantes para altos cargos da administração pública.
Fernando Guedes de Melo evocou, há dias, versos de William Blake: “Aquele que se deixa prender por uma Alegria, rasga as asas da vida. Aquele que beija a Alegria enquanto voa vive no amanhecer da eternidade”.
O princípio budista de impermanência de todas as coisas se casa com a Lei de Lavoisier, do século XVII, que nos faz retroagir ao ensino colegial: “No mundo, na natureza, nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”.
Então, a vida termina com a morte? A pergunta está na cabeça de todos que pensam (penso, logo existo) e acompanha o raciocínio interrompido. Há a morte? O cientista norte-americano Robert Lanza, eleito três vezes o mais importante do mundo pelo “The New York Times”, diz que a consciência nunca acaba mesmo depois que o corpo para de funcionar. Consciência é, pois, caso muito sério.
Para Fernando Guedes, a consciência utiliza a física Quântica para tentar provar que “existe, sim, uma espécie de vida depois da morte” para o ser humano. A consciência cria o universo material e não o contrário.
Para Lanza, o ser humano carrega o espaço e o tempo consigo, como as tartarugas os seus cascos. Quando o casco se desfaz, tempo e espaço permanecem. A teoria sugere que a morte da consciência simplesmente não existe. Ela é capaz de estar em qualquer lugar, seja no corpo humano ou fora dele. Acredita que múltiplos universos podem existir simultaneamente. Em um deles, o corpo pode estar morto, mas continuar existindo em outro. Mas, como disse Einstein, “o materialismo acabará por falta de matéria”.

Consciência – basta consultar os dicionários – é a faculdade que tem a razão de julgar os próprios atos; a voz secreta da alma, que aprova ou desaprova nossas atitudes.
Como observa Fernando, tudo aponta para uma transcendência além da dualidade no mundo da matéria, em seu nível mais fundamental. Indica a presença de um tertius superior, acima das dualidades – o que seria a consciência – presidindo os fenômenos no mundo da matéria. A consciência funciona como se fora a própria anima mundi.
Com tais pensamentos, caminhamos para o sufrágio de outubro, um que não é apenas apertar do botão. Tudo pode mudar para melhor ou pior no aparentemente simples ato de votar. O futuro quatriênio, à seu término, no-lo dirá.


81859
Por Manoel Hygino - 29/9/2016 09:30:03
O padecimento do Velho Chico

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Com a morte entre pedras do protagonista de uma novela global, há alguns dias, o São Francisco voltou à primeira página dos jornais, extensa via fluvial que sempre esteve entre os conhecimentos elementares até das crianças brasileiras, que aprendiam sobre suas nascentes em São Roque de Minas, terra de queijo bom e de gente trabalhadora e hospitaleira.
No domingo que passou, dois diários belo-horizontinos – entre eles o que o leitor tem à mão – dedicaram-lhe amplas reportagens. Uma, advertindo para o estado de definhamento das pequenas correntes que afluem ao São Francisco e para as que já secaram; outra contendo a história da navegação que começa em Pirapora, com as águas ganhando força a caminho do Nordeste.
As viagens pelo São Francisco foram por muitas décadas o sonho de gerações brasileiras, desejosas de conhecer a rica paisagem e as amáveis e simplórias populações ribeirinhas, a pesca abundante, os frutos nativos. Navios, ali chamados vapores, como o Benjamim Guimarães, Engenheiro Halfeld, Antônio Nascimento e outros, transportaram muitos milhares de pessoas entre Minas e os estados do Nordeste, inclusive na romaria de agosto até Bom Jesus da Lapa, na Bahia.
Tudo tem seu tempo, porém. As águas escassearam, foram corrompidas pelas indústrias e pela falta de proteção e de cuidados indispensáveis, causando dor e indignação aos brasileiros. Mais recentemente se percebeu também que as águas do Atlântico invadiam o São Francisco, deixando a população ribeirinha desprovida de peixe e água doce.
A notícia aprofunda a tristeza: o rio está sendo invadido pelo mar. Por força da estiagem dos últimos anos, a vazão, após a barragem do Xingó, reduziu-se desde o início de 2013, cem anos após o Benjamim Guimarães sair do Mississipi para vir para o Brasil. Sem vigor, o rio é tomado pela água do oceano, num fenômeno conhecido como “cunha salina”, provocando alterações no ecossistema e afetando o cotidiano das comunidades das margens.
As transformações saltam aos olhos: Crustáceos marinhos aparecem em Penedo, Alagoas, a cerca de quarenta quilômetros da foz. A situação se tornou mais grave em Piababuçu, a duas léguas do mar. Todos os dias, a captação de água a população é interrompida durante a maré alta.
Não só isso causa preocupação pelo aumento do sal na água, o número de pessoas com hipertensão cresce. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco diz que a atenção para o problema é prioritário. Mas o Brasil tem muitas prioridades.
E a transposição do rio santo? Como ficou ou está, depois de bilhões investidos na obra portentosa? Preferimos as da Copa, ainda inconclusas e exigindo cuidados e muito dinheiro. O velho Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, ensinava que governar é fixar prioridades. Não aprendemos. Continuamos encalhados no processo de desenvolvimento, como as velhas embarcações presas às areias acumuladas no leito do Chico, que não geme, nem chora, mas padece as populações ribeirinhas.


81842
Por Manoel Hygino - 22/9/2016 08:08:17
Vozes da primavera

Manoel Hygino - Hoje em Dia

As chuvas estão chegando. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, elas viriam acima da média histórica de setembro nos subsistemas Sudeste e Sul do Brasil, embora abaixo dos valores registrados no Norte e Nordeste. Quer dizer que, na região que concentra boa parte das grandes hidrelétricas do país, o Sudeste, a perspectiva era boa. De todo modo, a Agência Nacional de Águas recomendava que se poupasse água do São Francisco no reservatório de Sobradinho, para permitir a elevação do volume acumulado.
Enquanto a população brasileira, em grande parte, esturricava com altas temperaturas do final do inverno, um protagonista de uma novela global perdia a vida, preso às pedras, no fundo do rio da unidade nacional, como gloriosamente saudávamos a grande corrente nascida na Serra da Canastra, em Minas. A atriz Camila Pitanga comentou que Domingos Montagner, o Santo, salvou-a da morte, mas pereceu. O fato trágico evocaria, talvez, o cantor baiano Dorival Caymmi, para quem é “doce morrer no mar”...
Apelando à imaginação, poder-se-ia até pensar que o ator descobriu a terceira margem do rio, a adivinhada por Guimarães Rosa no conto de “primeiras estórias”. A terceira margem seria a inferior, a que geralmente não se vê, em água profunda, quando se nada ou se navega. É o leito, a terceira margem, “aquilo que não havia” porque não se via, mas que aparece com a nova dimensão de uma corrente fluvial. De todo modo, o artista encontrou junto às pedras do São Francisco seu leito fatal, no limite de Sergipe e Alagoas.
Enquanto a primavera não chegava, as altas temperaturas insistiam em castigar. Mas a Organização Meteorológica Mundial advertia que 2016 estava em via de transformar-se no ano mais quente registrado na história, com a coluna de mercúrio dos termômetros subindo como nunca antes. “Fomos testemunhas de um prolongado período de extraordinário calor e tudo indica que isso se transformará na nova rotina”, comentou o secretário da Organização.
Baseado em dados da Nasa e do Centro Europeu para as Previsões a Médio Prazo, o porta-voz acrescentou que se observaram os níveis mais altos de concentração de dióxido de carbono, quebrando recordes. “A temporada excepcionalmente longa de aquecimento global continuou em agosto, que foi a mais quente tanto na superfície terrestre quanto nos oceanos.”
Aqui e ali, em terras de Minas, algumas pancadas de chuvas... além das desfechadas pelas torcidas de futebol, organizadas ou desorganizadas, mas sempre agressivas até à morte. Foi assim entre cruzeirenses e atleticanos e entre palmeirenses e corintianos, na semana precedente.
Mas não se nega: as flores começam a mostrar-se. Ipês já colorem ruas das cidades, causando admiração e esperança, porque o belo sempre inspira alegria aos olhos e ao espírito. Sequiosos, os reservatórios das hidrelétricas e os abastecedores de água potável às populações citadinas aguardam e confiam.
Em tempo de tanto materialismo e objetivos escusos, sintamos a mudança do tempo e, como disse Alberto da Costa e Silva, “as folhas nascem, as folhas tombam longe, em longínquos jardins”.


81837
Por Manoel Hygino - 21/9/2016 08:55:17
A filha de Florival e Anésia

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Espinosa é cidade do Norte de Minas, na região limítrofe com a Bahia, distante 700 quilômetros de Belo Horizonte e a cerca de 600 metros de altitude. Cerâmica, laticínios, confecções, lojas e supermercados alimentam a sua economia. O ciclo do algodão se exauriu, com as lavouras destruídas pelo bicudo – o inseto, é claro.
À beira da sua principal avenida, está a sepultura da finada Amélia, assassinada pelo amante. Para lá se fazem romarias, queimam-se velas junto a uma capelinha erguida por um devoto, que considerava a defunta uma alma milagrosa.
Dali é a família de Carmen Lúcia Antunes Rocha, presidente do STF, que não aprova “presidenta”, flexão inventada por Rousseff. Sucederá a Ricardo Lewandowski, que presidiu as reuniões do Senado no histórico impeachment, que não considerou a perda por Dilma dos direitos políticos por oito anos.
A ministra, nascida em Montes Claros, pegou uma penca de abacaxis, a começar pelo reajuste dos salários dos membros do STF, contra o qual se posicionam todos os cidadãos, de cujos bolsos, já furados, se colhe a receita para cobrir o bolo. Eliane Cantanhede observa que a presidente da mais alta Corte de Justiça do país é “tida e havida como austera, poderia dizer, por exemplo, que não é de aumentar salários já altos, e pagos por toda a sociedade brasileira, enquanto 12 milhões de desempregados estão na rua da amargura.
Reajustados os proventos dos ministros, os demais virão em cascata e os contribuintes ficam sob o impacto do volume de suas águas, sujeitos a toda espécie de desconforto, dores e demais riscos. Mas Carmen Lúcia, de antemão, não admitiu a elevação, por questão de consciência. Ela é, antes e acima de tudo, do povo e da lei, não tergiversa ou procrastina, como boa parte dos mineiros do Norte do Estado. O que ela adora, e o disse, são as tardes de terça-feira, das reuniões da 2ª Turma do STF, a que pertencia.
Para ir à sede da Justiça do país em Brasília, dirigia seu próprio carro, e não para fazer charme: é inclinação pessoal. Declara não gostar muito de festas, mas de “processos”, e isso continuará acontecendo. Presidente, vai ter muita luta à frente, mas dispõe de serenidade com altivez, e isenção. A filha do sr. Florival e de Anésia, lá de Espinosa, não é de fugir aos embates. Se depender dela, não permitirá que o Supremo Tribunal Federal seja usado como alavanca salarial, como denunciado pelo colega, ministro Gilmar Mendes. Essas mulheres do Norte não são fáceis.
Lembrem-se de Maria da Cruz, que armou uma rebelião às margens do São Francisco, e de Dona Tiburtina, amada e contestada por não poucos, brava e solidária, personagem da Revolução de 1930. O Brasil tem confiança. No julgamento que manteve a prisão do ex-senador Delcídio do Amaral, em novembro último, ela foi peremptória: “aviso aos navegantes: nas águas turvas, criminosos não passarão na muralha da desfaçatez e não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro”. Tudo muito claro.


81826
Por Manoel Hygino - 17/9/2016 09:45:19
Sem previsão de tempo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O brasileiro reclama do tempo, não tão regular como antigamente. As estações não são tão delimitadas, pois o homem do campo antes sabia a época de plantar, quando as chuvas estavam por chegar, a hora da colheita. As cidades cresceram desmensuradamente e algumas são muito maiores do que vários estados. E falta água nos reservatórios das usinas hidrelétricas ou para atender a demanda da população sequiosa.
No século passado, já Euclides da Cunha informava sobre notícias que chagavam ao Rio de Janeiro “denunciando o recrudescimento do verão bravio”. Ah, se o autor de “Os Sertões” vivesse nos dias de hoje!
Aliás, Euclides escreveu, mutatis mutantis , como ora faço: Os velhos sertanejos, afeiçoados à passagem da harmonia de uma natureza exuberante, derivando na intercadência firme das estações, não fazem mais previsões sobre o tempo.
Procurando as causas, o escritor registra quanto contribuíram os índios com o mau costume do uso do fogo para sanar dificuldades imediatas, fazendo com que se cultivasse logo sobre as cinzas. Os que vinham de longe, os brancos, em busca tanto do aborígene, quanto do ouro principalmente, começaram a abrir caminhos e buracos pelas montanhas afora.
“Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto: esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na nas plantações de alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram áridos, ao cabo, aqui e ali, por toda a banda, para sempre, avermelhando os ermos com o vivo colorido da argila revolvida, as catas vazias e tristonhas com seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas. Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história”.
Teimávamos em destruir todo o território por ignorância, por inércia, por deixar como está para ver como fica. Nas regiões do regime pastoril, nos sertões, desbravados a fogo, incêndios duravam meses derramando-se pelas chapadas em fora. Estabelecia-se o regime desértico e da fatalidade das secas, que ameaçam anualmente o sistema energético hidrelétrico e o abastecimento de água às pequenas e às grandes cidades. As lições e as pregações, vamos dizer, até cívicas, para proteger o meio ambiente, praticamente nada ou muito pouco mudaram. Mesmo as advertências internacionais sobre os riscos que pairam sobre o planeta não produzem o efeito imprescindível.
Em “Contrastes e Confrontos”, em boa hora lançada pela Fundação Darcy Ribeiro, presidido por Paulo Ribeiro, em coletânea idealizada pelo conterrâneo de Montes Claros, se tem, ampliada, a advertência de Euclides. No livro, encontram-se as explicações que deveriam ser sabidas pelos que, ou promovem a desertificação do país, ou permitem que ela continue.
Desde o mau ensinamento do aborígene tudo tem mudado para pior. Novas derrubadas e estragos, novas capoeiras vegetando, tolhiças inaptas para reagir contra os elementos. Agravam-se cada vez mais os rigores do clima.
Em tempos mais modernos, os grandes rebanhos, a necessidade de abastecimento da crescente as plantações em longa escala, população, o atendimento ao mercado externo, sacrificando a terra, os mananciais, a vida como um todo.


81819
Por Manoel Hygino - 13/9/2016 09:29:06
Conselhos ainda válidos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Pode parecer que sou o pregoeiro do pessimismo quando apenas denuncio ou divulgo vícios e delitos que precisam ser extirpados. Esses fatos, e muitos personagens do mal, são suficientemente sabidos por todos, em todos os lugares. No entanto, não há interesse, ou não haveria, em resolver os problemas, inúmeros e graves, com os quais nos deparamos no país abençoado por Deus e vilipendiado por inúmeros brasileiros.
Em fevereiro de 2014, como aliás aqui me referi antes, a revista “France Football”, uma das mais bem ilustradas do mundo, trouxe uma reportagem sobre a Copa, de triste lembrança para nós. O poeta Aricy Curvello, que nasceu em Uberlândia, mas hoje mora no Espírito Santo, já merecidamente conceituado, me enviou suas observações. “Ninguém consegue enganar pessoas inteligentes. Aproveitem para sentir (pela publicação) como é medonha nossa realidade, que não escapa aos olhos treinados de europeus inteligentes”.
A edição em causa veio, então, em preto e branco, ao contrário das anteriores. Na capa toda negra se lia “Peur sur Le Mondial”, o “Medo sobre o Mundial”. Onde havia uma foto da bandeira do Brasil com “Ordem e Progresso”, uma tarja negra. No subtítulo: “Atingido por uma crise econômica e social, o Brasil está longe de ser aquele paraíso cinco meses antes do mundial. O Brasil virou uma terrível fonte de angústia”. No quesito segurança, lia-se o seguinte: No Brasil há mais assassinatos que na Palestina, Afeganistão, Síria e no Iraque juntos.
No Brasil há mais assassinatos que em toda a América do Norte + Europa + Japão + Oceania. A guerra do Vietnã matou 50 mil pessoas em sete anos. No Brasil, se mata a mesma quantidade em um ano. Em 2013, foram 50.177, segundo o governo. Segundo ONGs, superam 63 mil mortes. Todo brasileiro conhece alguém que foi assassinado e 1% dos casos resulta em prisão. Este 1% não chega a cumprir 1/6 da pena e é beneficiado por vantagens que se dão aos criminosos.
As prisões parecem masmorras e não recuperam. E mais rebeliões com dezena de mortos, pessoas decapitadas, esquartejadas são frequentes. Recomenda-se levar uma pequena quantidade de dinheiro para caso de assaltos. É comum assassinarem as pessoas que nada têm para o assalto. Não leve o cartão, você pode ser vítima de uma espécie de sequestro que só tem no Brasil: sequestro relâmpago.
Não use relógios, máquinas fotográficas, celulares, pulseiras, brincos, colares, anéis, bolsas caras, bonés caros, óculos caros, tênis caros, etc... Vista-se de forma mais simples possível. Se for assaltado, não reaja. Não ande pelas ruas após as 22h. Caixas eletrônicos não funcionam após as 22h30, devido aos assaltos. Os políticos, no lugar de aumentar a segurança, tiveram a brilhante ideia de proibir o cidadão de bem de tirar dinheiro do caixa. Os bancos fecham às 16h. Só faça câmbio em bancos ou casas autorizadas. Existe uma grande quantidade de moeda falsa e estrangeiros são alvo fácil. Policiais são monoglotas. Aprenda frases como: “Eu fui assaltado”, “preciso de ajuda”, “estou ferido”, “sou francês, leve-me ao consulado por favor”. Há falsas blitz para assaltar pessoas.
Há muitas outras recomendações, mas não cabem aqui. Os brasileiros conhecem tudo isso muito bem.


81805
Por Manoel Hygino - 2/9/2016 12:12:26
O Estado Democrático de Direito

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Tinha-se como certo o afastamento definitivo da presidente da República, no julgamento a que foi submetida no Senado Federal. Em verdade, eram dois julgamentos: um pelo poder político, nos termos da Constituição e legislação portanto, diante do descumprimento à Lei Orçamentária e à Lei de Responsabilidade Fiscal; o segundo, pelo povo do país, inclusive certamente alguns dos milhões que votaram pela segunda vez na presidenta, permitindo a continuação da rede de corrupção que fere a economia do país e o envergonha.
Os longos debates, acirrados e até insultuosos, deram ideia da exaltação dos ânimos, mas também do desespero de alguns parlamentares na Casa Alta do Congresso. Seguramente, todavia, o julgamento não se encerrou esta semana, embora já tenha entrado para a história.
O tema e os problemas terão sequência, porque a marcha das investigações sobre os escândalos abrangidos pela corrupção prosseguirá. A novela das iniquidades cometidas contra a nação e o povo não estará concluída enquanto não se esclarecerem todas as nuances dos crimes perpetrados contra os cofres públicos e no âmbito das empresas estatais. A sociedade quer conhecer mais e precisa de mais para considerar sepultada de vez esta fase lúgubre da vida nacional.
O Brasil quer conhecer exatamente quanto se emprestou ou “doou” às nações deste continente e da África durante os anos mais recentes, em que condições se fizeram as operações, em que ponto se acha a quitação das dívidas, porque certamente ainda existem. Não se nega solidariedade, mas persiste a regra de “amigos, amigos, negócios à parte”. Há milhões de brasileiros à míngua em todo o território e obras públicas imprescindíveis paralisadas ou sequer iniciadas, permanecendo os respectivos projetos nas gavetas.
Muito existe a aprender e me lembro da declaração que Ângela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, deu à imprensa quando Rousseff anunciou sugerir-lhe medidas para enfrentar a crise entre os países do bloco europeu. A Merkel foi clara e enfática: “Essa senhora vem à Alemanha nos dizer o que temos de fazer? Ora, a Alemanha vai bem obrigada, apesar de tudo. Mas vou aproveitar para dar um conselho a ela... Antes de vir aqui reclamar das nossas políticas econômicas, por que ela não diminui os gastos do governo dela e também os juros exorbitantes no Brasil? Se eu posso emprestar dinheiro a juros baixos e o meu povo pode ganhar com juros absurdos lá no país dela, não vou ser eu que direi ao meu povo que não faça isso. Ela que torne a especulação no seu país menos atraente”.
Temos pela frente uma imensidão de problemas, a começar pela expulsão dos maus brasileiros dos quadros dirigentes do país. Apoiamos Norberto Bobbio, citado pelo advogado Aristóteles Atheniense: “O escândalo é a corrupção, que vem a público. Portanto, se há corrupção, que haja escândalos. Dar publicidade à corrupção é sinal de robustez e não de fragilidade do sistema político”.
Corroboramos o conselheiro nato da OAB e presidente da AMLJ: “A subsistir o quadro atual, a nossa democracia, antes de ser um sistema político, não passará de um ‘arranjo’ que se presta a satisfazer interesses pessoais com o uso da máquina pública”.
E, de arranjos, estamos fartos.


81786
Por Manoel Hygino - 20/8/2016 08:34:54
A defesa improvisada

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Há muito, desejava falar sobre Pedro Fernandes Pereira Correa, nascido em Montes Claros de Formigas, como se chamava então o burgo. Era 1837 e o dia 29 de junho. Na terra natal, fez o primário e o latim, depois indo para Diamantina, onde se internou no Ateneu São Vicente de Paulo, sendo condiscípulo de Joaquim Felício e de Couto Magalhães, como registra Nelson Vianna, em suas “Efemérides”.

Mudou-se para São Paulo, matriculando-se na Faculdade de Direito, em 1864. Fez curso brilhante e revelou seus méritos, recebendo elogios de Xavier da Veiga e Nélson de Senna: “Insinuante e simpático, modos francos, mas afáveis, o impunham no conceito dos amigos e do povo como o doutor democrata, eloquente e ilustrado, a todos encantando com a fluência torrencial de sua palavra”.

Advogou em Montes Claros, Diamantina, Vila do Guaicuí e, finalmente, no Serro, tendo exercido a magistratura em cidades do Norte de Minas. Mas encontrou tempo para a poesia, publicada em vários periódicos, no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, ainda não capital.

Ficou famoso um caso em que atuou. Viajava pelo interior a caminho da cidade natal, quando – passando por Conceição do Serro – ouviu dizer que se julgava determinado criminoso. Como se encontrava, dirigiu-se à casa em que se reunia o tribunal do júri. Exatamente naquele momento, o juiz perguntava ao réu se tinha defensor. Com resposta negativa, o magistrado consultou, como de praxe, aos presentes se havia alguém para assumir o patrocínio da causa. Diante do silêncio, ouviu-se o recém-chegado: “Eu aceito”.

“Pelo seu trajar impróprio para o local e o ato, recebeu ares e insinuações de deboche, até porque de botas e com chilenas de prata. Admitiu o patrocínio gratuito do réu indefeso, examinou rapidamente os autos do processo, mas conseguiu refutar a acusação, a mais tremenda até então produzida na sessão. O promotor reconstituíra o crime nos seus mais terríveis pormenores, classificando o réu como monstro, sequer conseguindo quem o defendesse. “Foi necessário – acrescentou –, que por ali aparecesse um forasteiro que ninguém sabia quem era, de onde vinha, nem para onde ia, a fim de assumir temerariamente a aventura de patrociná-la”.

O jovem diplomado ergueu a voz: “Quem sou eu? Chamo-me Pedro Fernandes Pereira Correa, recém-laureado pela Faculdade de Direito de São Paulo. De onde venho? Do maior centro cultural do país, de onde partem as benéficas cintilações que se refletem gloriosamente por todo este imenso Brasil. Para onde vou? Sertão a adentro, rasgando as trevas das iniquidades com a luz da Justiça, procurando levar um lenitivo e salvar da ignomínia das perseguições os humildes e desprotegidos”.

Foram horas de oratória, que resultaram na unânime absolvição do réu. O jovem advogado, a partir de então, ganhou admiradores e causas. Não se livrou Pedro Fernandes, contudo, da execução, em 9 de novembro de 1879, por um fidagal inimigo. Os defensores também são mortos a tiros.


81778
Por Manoel Hygino - 17/8/2016 11:06:37
O prejuízo da Olimpíada

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Não demora e terminam os Jogos Olímpicos de 2016, algo realmente fantástico diante das dificuldades que passa o mundo e, particularmente, o país que os sedia. Coubertin, o nobre francês que teve a ideia de recomeçar as disputas da época do apogeu helênico, poderia julgar-se feliz e realizado com o espetáculo de abertura das competições, que a televisão mostrou, em vivo e em cores, como dizem os portugueses.
No entanto, em contraponto à beleza a que se assistiu, não passou ignorada a sucessão de problemas que, à margem, houve. Refiro-me à demonstração de pobreza, de miséria, até de violência, que, no período, estigmatizou a bem elaborada programação. Não foi invenção da Imprensa o registro de que se revelou ao planeta. Há um outro Brasil: o das enormes favelas e dos grupos criminosos e dos oportunistas, organizados para ilicitamente explorar o evento.
Afirmava-se que a Olimpíada não resultaria em prejuízo para o Brasil, consequentemente para os brasileiros. De antemão, conhecia-se que não se tratava rigorosamente de verdade, porque se tinha muito recente e viva a experiência desastrosa da Copa do Mundo. Nela, houve muito mais do que elevados prejuízos para os cofres públicos, apagando a esperança de, em contrapartida, cumprir-se um programa de obras públicas reclamadas há décadas. O dinheiro tomou outra destinação.
Com os olhos grudados nas televisões, nas quais os escândalos da Lava Jato passaram a plano inferior à Olimpíada, não se tomou conhecimento de uma decisão da Justiça Federal do Rio de Janeiro. Ela proibia que a União e o município fizessem qualquer repasse de verba pública para o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos, até que “seja dada ampla publicidade de todas as receitas e despesas”.
E ainda: caso algum repasse tenha sido feito, o Comitê Rio 2016 fica impedido de usar a verba para pagamento a fornecedores. O Comitê está também obrigado a justificar a necessidade de uso dessas verbas para organização e realização dos jogos.
A grave decisão foi de uma juíza – Márcia Maria Nunes de Barros, de plantão no Rio de Janeiro, e decorreu de pedido do Ministério Público Federal, em 2 de julho –, que exigia transparência nas contas das Olimpíadas. O MPF formalizou a solicitação ao Comitê, dando-lhe 20 dias para a abertura da caixa preta. A Comissão Organizadora se negou fazê-lo, todavia, sob alegação de que, sendo ente privado, não havia obrigação legal de atender.
A sua vez, a Procuradoria argumenta que a exposição da contabilidade é imprescindível, até porque estabelecida no contrato da Rio 2016 com o COI. No final da novela, quem terá de assumir o déficit do evento serão a União e os poderes públicos.
A juíza observa que dificilmente o prejuízo dos Jogos será recuperado “por quaisquer dos órgãos públicos, que se encontram em difícil situação financeira, como é de conhecimento geral”.
A belezura da Olimpíada, como se vê, contrasta com a feiura da contabilidade. No final, mais uma vez, o cidadão ficará coagido a quitar o déficit, como se não estivéssemos na crista de uma imensa crise. Este, sim, será um grande golpe contra a bolsa do brasileiro, que por sinal sequer mais bolsa tem.


81768
Por Manoel Hygino - 13/8/2016 09:02:09
Os nós na língua pátria

Jornal Hoje em Dia – Manoel Hygino

A montes-clarense Cármen Lúcia Antunes foi eleita presidente do Supremo Tribunal Federal, cargo que ocupará pelos próximos dois anos. A votação seguiu a tradição de escolher presidente o ministro mais antigo e que não tenha ocupado a cadeira.
Antes dela, a ex-ministra Ellen Gracie esteve no posto no biênio 2006/2008. A posse de Carmén Lúcia será em 14 de setembro. Com 62 anos, formada pela PUC de Minas em 1977, chegou ao STF por indicação de Lula e sugestão de Itamar. Foi procuradora de Minas é pós-graduada em direito constitucional, tendo sete livros publicados.
Como em provocação, o ministro Ricardo Lewandowsky, que está terminando seu mandato no STF, perguntou à sucessora se queria ser chamada de “Senhora Presidente” ou “Senhora Presidenta”.
Carmen Lúcia não titubeou, respondendo que seguiria as regras de vernáculo aprendidas nos cursos básicos quando estudante. Portanto, “senhora presidente”.
O assunto entrou para o anedotário. Tanto que Rodolfo Sarmento, em 12 de novembro de 2012, enviou ao seu público de blog a seguinte mensagem: “Aprendam. Acabou a moleza. Quem relutava, se negava ou criticava o pedido meigo de Dilma ser tratada como presidenta, pode preparar-se para não ser pego fora da lei. No dia 3 de abril, a presidentA sancionou a lei 12.605/12. Para quem ainda duvida, está lá no site da presidentA. A lei determina a obrigação da flexão de gênero em profissões. Ou seja, agora é presidenta, gerentA, pilotA etc... Vou aproveitar para exigir que eu seja tratado a partir de agora como flamenguistO, jornalistO, dentistO, motoristO etc. Só no Brasil”.
A mudança gramatical não foi avaliada pelos doutos membros da Academia Brasileira de Letras ou pelos ilustres estudiosos da língua. No entanto, o Diário Oficial da União de 4 de abril de 2012 publicava o texto da lei nº 12.605, do dia anterior, sob responsabilidade da subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República. Determinava o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas. Eis o texto:
“A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido.
Art.2º As pessoas já diplomadas poderão requerer das instituições referidas no artigo 1º a remissão gratuita dos diplomas, com a devida correção, segundo regulamento do respectivo sistema de ensino.
Art.3º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 3 de abril de 2012; 191º da Independência e 124º da República. Dilma Rousseff , Aloízio Mercadante, Eleonora Menicucci de Oliveira”.
Após a lei, Geraldo Coelho comentava: “Hoje, eu vou ao oculisto. Depois de passar no dentisto, tinha lá um motoristo e maquinisto, todos flamenguistos... desculpem mas não resisti; sou humoristo”.


81762
Por Manoel Hygino - 12/8/2016 11:13:14
O jogo dos bandidos

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Seguem as disputas na Olimpíada de 2016, realizada no Brasil com muita honra e elevadíssimos custos. A imagem que corre lá fora, pelas televisões de todo o mundo, é de beleza incomum, a despeito de falhas, naturais em empreendimentos de tamanha grandeza.
Agosto, dos Jogos Olímpicos, é também o dos catopês, em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, minha cidade natal. São espetáculos populares, incluídos entre as mais queridas tradições locais. As reportagens sobre estes eventos não aparecem, por motivos óbvios: há os maiores e mais relevantes, como se comprova.
Muitos milhares de agentes de seguranças se esmeram para garantir a boa ordem dos embates esportivos no Rio de Janeiro e para que o público, internacional, encontre a devida proteção e possa apreciar toda a beleza de uma cidade realmente maravilhosa, do ponto de vista da paisagem, embora delitos se registrem. Não se esperava outra coisa.
Nos pequenos burgos, porém, até em cidades de importância, a bandidagem aproveita a ensancha oportunosa. Caixas bancários são dinamitados, os pequenos comércios são alvo de reiterados assaltos, os crimes contra a vida se multiplicam. Nos grotões, o dispositivo policial, de um cabo e dois soldados, arrisca a vida para defender o patrimônio público e privado.
O tráfico desafia autoridades, o bem comum e a propriedade particular. Mortes que poderiam ser evitadas se sucedem, enquanto se multiplicam os assaltos a carros fortes, sem que sequer se saiba o volume do roubo.
No Rio Grande do Norte, mais de mil homens do Exército reforçam o patrulhamento ostensivo para “tentar” coibir os ataques por facções criminosas em Natal e cidades interioranas.
Em seguida, vieram os fuzileiros da Marinha. Na capital, o transporte coletivo está prejudicado, porque parte da frota foi destruída. Noites e madrugadas de terror causam inquietação e até pânico.
Curiosamente, o tumulto e novos crimes são dirigidos por bandidos da penitenciária de São Luís, por não concordarem com instalação de bloqueadores de celulares em presídios.
Eles seguem tomando conta.
Nordeste em chamas? A sede da Procuradoria da Fazenda nacional, em Recife, foi parcialmente destruída. Criminosos explodiram, pela madrugada, com um aparato poderoso, às instalações do órgão, entrando a Polícia Federal em ação. O terminal de autoatendimento foi aberto com explosivos.
Esta uma síntese da situação no país, enquanto se discute a continuação do processo de impedimento da presidente e se conferem os resultados da Olimpíada. A mídia apelidou a ação dos delinquentes de “a volta do cangaço”. É muito mais.
Os tempos de Virgulino, o Lampião, e seus companheiros de aventura no Nordeste ficaram mortos e sepultados de vez. As quadrilhas estão bem organizadas. Agora, existem mais rápidos e eficientes meios de destruição daquilo que pertence aos cidadãos e à sociedade. E há, também, muito mais estímulo, porque as drogas patrocinam e incentivam o crime. Além do mais, com celulares e outros instrumentos de comunicação, tudo se processa mais rápido e com eficácia.


81760
Por Manoel Hygino - 12/8/2016 10:15:56
Em tempo de Olimpíadas

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Estamos em plena Olimpíada e a referência nos remete ao verso do grande poeta baiano. Castro Alves dizia: “Estamos em pleno mar...” Na ocasião presente, as competições internacionais retratam a ilusão de antigos governantes deste país de que vivíamos no melhor dos mundos, como pensava Pangloss.
A Copa do Mundo constituiu um outro ato demagógico, demonstrador de que não devíamos alimentar a veleidade de sediar um campeonato daquela dimensão. Não revelaríamos o futebol anterior: de Pelé, Garrincha e outros craques, pondo-nos a nu, em 2016, com o placar negativo de sete gols diante da Alemanha.
O pior é que, desde o começo, os brasileiros tampouco depositaram absoluta confiança no êxito das Olimpíadas. O fracasso da Copa influiu negativamente nas expectativas dos brasileiros e de todos os que acompanham esporte. Em julho, 80% de pessoas aqui ouvidas disseram que os Jogos Olímpicos resultariam em prejuízo para o país, e não apenas esportivamente.
Especialistas em Saúde dos EUA aconselharam aos atletas que competissem nos jogos em que deveriam competir, em águas abertas, com a boca fechada. Isto porque, sete anos após o solene compromisso de limpar a baía de Guanabara, cientistas explicavam que o local estava ainda mais contaminado. O pediatra brasileiro Daniel Becker, ao “The New York Times”, declarou literalmente: “atletas estrangeiros vão nadar na merda humana sob risco de contágio de uma doença causada por todos estes organismos, especialmente um rotavirus que causa diarreia e vômitos. É triste, mas também preocupante”.
Não menos enfática foi a crítica da revista “The Economist”, da Inglaterra: o Rio de Janeiro está em decadência desde os anos 1960. Os jogos não vão mudar sua direção. Em 1960, a violência declinava, a economia nacional passava por um boom motivado em boa parte pela demanda por petróleo, através do pré-sal.
Neste agosto, a revista “New York”. Mostrou em colorida capa de cinco atletas em uma pista de corrida dos jogos, no Rio. Não buscavam o pódio, mas se salvar de um enxame de mosquitos da Zica
“O presidente do COI, Thomas Bach, declarou que o Brasil passa pela pior crise de sua história”: se o modelo resiste a testes de tensão, você vai perceber que é mais do que robusto. Vocês sabem a crise que o país está passando. Talvez seja a pior crise da história do Brasil. É uma crise que tem muitos desafios, como na área de saúde, na área ambiental também. Em todo lugar que olhamos vemos que há coisas faltando.
“A delegação de basquete masculino da China ficou presa em meio a um tiroteio próximo ao Complexo da Maré, ônibus que levava os atletas, a comissão técnica da seleção do país e jornalistas chineses havia acabado de sair do Aeroporto Internacional do Galeão quando passou pela troca de tiros que aconteceu entre as Linhas Vermelha e Amarela.” Não havia disputa de provas do gênero.


81736
Por Manoel Hygino - 27/7/2016 08:33:02
A banalidade do mal

Hoje em Dia - Manoel Hygino


Com seus oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados, grande área de fronteira e um litoral marítimo extenso, o Brasil está em permanente inquietação pela violência com que é agredido de todos os lados. O cidadão vive encurralado, prisioneiro dentro de sua casa, evidentemente os que a têm. Em meio a inúmeros estudos que se fizeram e se fazem, certamente se terá chegado a conclusões corretas sobre as causas do mal e de como exorcizá-lo. O Brasil é vítima e refém da violência, a que não falta a cobertura da imprensa, perigosa sem dúvida, dos fatos que se registram em quaisquer dia, hora e local, ao preço de vidas, sangue, lágrimas.
Li, há pouco, o sucinto relato de uma repórter da afiliada da TV Globo na Paraíba, assaltada no dia 13, à noite, na Universidade Federal de Campina Grande, enquanto fazia matéria sobre a insegurança no campus. A repórter falava ao celular quando o assaltante apareceu, tomou-lhe o aparelho à força e fugiu. Um dia antes, alunas da universidade sofreram um arrastão na área.
Permitimos que o crime invadisse e, até, dominasse regiões das cidades, dos estados e do país. Violência e droga de mãos dadas contra a nação e o cidadão. Tenho minhas dúvidas se é possível a recuperação. Como, quando e a que preço?
De janeiro até meados deste sétimo mês do ano, foram explodidos no mínimo 71 caixas eletrônicos em Minas Gerais, representando um ataque a cada dois dias. Não figuram somente grandes cidades. Pelo contrário, são alvos todas as regiões do Estado, com predominância as pequenas cidades, onde as agências postais dos Correios são atrativos para quadrilhas.
As Olimpíadas, trazidas para cá demagógica e lamentavelmente, aduzem nova carga de preocupação. Brasileiro do grupo terrorista Estado Islâmico pode estar planejando ataque no mês que vem contra a delegação da França. Quatro assaltantes, como aconteceu em Istambul, com armas pesadas explodiram caixas no Aeroporto de Montes Claros, assustaram bairros próximos... e fugiram. Que país é este?
São perguntas que se fazem, quando se toma conhecimento de tantas ignomínias. Um crime abalou Pirapora. Criança de dez meses foi executada com um tiro na cabeça por homens que chegaram a sua casa à procura do pai, envolvido no tráfico. O pai estava preso.
Também no Norte de Minas, perto de Buenópolis (de excelente água potável, como avaliava meu avô), menina de 10 anos foi estuprada e morta e teve o coração arrancado. O homicida antes fora preso por crime de morte, estupro e roubo, mas conseguiu evadir-se. Há o que pensar e muito a agir. Temos de raciocinar, como o fez Luiz Felipe Pondé, intelectual de coragem. Referindo-se ao mal, como sentido pela filósofa Hannah Arendt, ela se manifestou: “A banalidade do mal marca o mal não como “uma profundidade”, como tradição bíblica, mas como uma espécie de fungo que se espalha pelo mundo sem grandes profundidades ou sofrimento moral, aniquilando qualquer reação moral que importa. A banalidade do mal convive bem com os horrores, desde que a janta seja servida na hora”.


81724
Por Manoel Hygino - 20/7/2016 09:30:06
Liberdade de imprensa

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Guaxupé tem história e goza de bom nome, desde que começou a existir, inicialmente como curato de Nossa Senhora das Dores. Inserido na progressista e bela região Sul mineira, conquistou o título de cidadão e vila em 1903, adquirindo o nome atual, 20 anos depois. Em 2016, em fevereiro, porém, vereadores dos 13 que compõem sua Câmara Municipal decidiram entrar na Justiça contra veículos de comunicação, por divulgarem uma nota do Ministério Público Estadual, que os acusava de “dispensa irregular de licitação, apropriação indevida de dinheiro público e participação em associação criminosa para a prática dos supostos delitos” (ipsis verbis).
A nota do MPE diz ainda que “o caso começou quando, no início da atual legislatura, os parlamentares aumentaram, de maneira irregular, os próprios salários”. O Ministério Público de Minas Gerais observa, porém, que a Justiça não determinou a abertura do processo de cassação dos mandatos dos vereadores”.
O comunicado tinha 15 linhas e foi publicado por grandes jornais, rádios e televisões. Não só de Minas, porque incluíam também a TV Globo de Varginha, o Estado de S. Paulo, o G1 da Globo, a Rede Record, além dos mineiros Hoje em Dia e o Montes Claros. com. Difícil definir quantos exatamente terão procedido a divulgação, realmente de interesse público.
Os vereadores se sentiram ofendidos e, deles, cinco passaram a exigir, em processos distintos, R$ 35.2000,00 cada, indenização por danos morais e mais multa diária de mil reais, multiplicada por 5.
Os veículos em questão, contudo, é que deveriam sentir-se ofendidos, porque nada fizeram senão tornar público a nota do Ministério Público, ao qual simplesmente deram a palavra. Caberia a este, em última instância, ser processado, não os órgãos de imprensa.
As entidades representativas do setor – a Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT) e a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (ABERT) saíram em defesa das processadas, com toda razão. A primeira foi clara: “Em nenhum monumento, as empresas de comunicação pequenas e grandes, inventaram ou distorceram notícia. Apenas deram a palavra ao Ministério Público, uma instituição de reconhecido respeito”.
O comunicado da AMIRT “é dirigido a toda a população. Em especial, à Associação Brasileira de Rádio e Televisão, à Associação Nacional dos Jornais, às congêneres estaduais que representam os meios de comunicação de cada estado federado, ao Poder Judiciário do Brasil e a todos os veículos de comunicação do País, para que acompanhem, examinem, meditem e avaliem como a Liberdade de Imprensa no Brasil se sente novamente ameaçada e entregue a instâncias primárias ainda não plenamente convencidas do que representa para uma Nação a liberdade de imprensa”.
Constata-se que há mais do que um processo em curso no Juizado Especial de Guaxupé. Trata-se, mais uma vez, de agressão à liberdade de Imprensa, num momento em que se quer afastar a opinião pública do fulcro dos problemas que atingem a nação e seu povo, em hora tão tumultuada da vida nacional.


81721
Por Manoel Hygino - 19/7/2016 09:21:29
Agosto está chegando

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O mundo tomou conhecimento: após 5 anos de viagem, a sonda Juno entrou com sucesso na órbita do planeta Júpiter para desvendar seus mistérios. No Brasil, a polícia do Rio de Janeiro sequer consegue entrar nas comunidades tidas como pacificadas (?) mesmo que para atender casos urgentes e proteger cidadãos de bem, ameaçados ininterruptamente pelas quadrilhas, inclusive de traficantes ou pelos agentes de droga, em grande parte menores, sem falar nas milícias.
Não é tudo: a pouco menos de um mês das Olimpíadas, o Estado do Rio de Janeiro registra um roubo de rua a cada minuto, segundo o Instituto de Segurança Pública. Escrevi “Segurança”, mas deveria perguntar: que segurança é esta? Em maio, houve dez mil desses casos em vias públicas, cujo número cresceu 42,9% relativamente ao mesmo mês no ano passado. O roubo de veículos aumentou 33,2%; o de celulares 58,4%, enquanto as mortes violentas tiveram elevação de 17,7%.
Uma situação surrealista, a julgar pelas palavras das autoridades: O ministro da Justiça opina: “Não é provável que aconteça nos jogos do Rio atentado terrorista, mas é possível”. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, declarou: “Teremos no Rio todo efetivo necessário para atuar na segurança interna dos locais de eventos, na segurança patrimonial e no perímetro das áreas esportivas”. Não faz referência, todavia, aos bens não públicos ou a atividades não desportivas.
É bom lembrar que a Organização Mundial de Saúde publicou um guia para atletas, turistas e jornalistas do exterior que estarão no Rio, em agosto, para as competições. Na avaliação da agência de Saúde da ONU, os estrangeiros precisam “evitar áreas pobres ou superpovoadas nas cidades sem água encanada ou saneamento pobre, onde o risco de ser picado pelo Aedes aegypti é maior”. Fazer o que, então?
Em verdade, o Brasil passa por um dos piores períodos de sua história. Se o campeonato mundial de futebol foi o fiasco que se sabe, agora é a vez das Olimpíadas, outra suspeitosa vaidade para ajudar pessoas e grupos a se locupletarem.
Stephen Colber, apresentador de tevê dos Estados Unidos, criticou nossa situação referindo-se ao zika vírus, à poluição da baía de Guanabara e mostrando foto com um sofá jogado na água. Stephen observou: “Muitos locais das competições, ainda não estão acabados. Possivelmente mais de 10 bilhões de dólares em contratos de construção foram destinados apenas a cinco empresas e a pagamento de propinas”.
E a piada: ”Executivos já foram presos ou condenados, mas – para sorte deles – os presídios só ficam prontos em 2036”.
Assim é o Brasil e nós o sabemos suficientemente, embora não o percebamos. Ficamos aguardando os “lobos solitários”, aquelas pessoas que não pertencem a uma organização terrorista, como o Estado Islâmico (EI), que agem em favor de alguma ideologia.
Ou que não atuam por qualquer ideologia, como os vândalos que emergem às ruas, não se sabe de onde, para nos infernizar a vida.


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Por Manoel Hygino - 5/7/2016 08:23:47
O tempo e seus desafios

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O jornalista e advogado Paulo Narciso é extremamente cuidadoso na observação do tempo. E muito conhece a respeito, pois está em permanente espreita do Sol e da Lua, dos termômetros e higrômetros.
Em 20 de junho, quando começou, às 19h34, oficialmente o inverno, ele advertiu que aquela seria a noite mais longa do ano e o início da estação mais fria, a terminar em 22 de setembro, quando acontecer o Equinócio de Primavera no Hemisfério Sul.
Olhando para o céu, não notamos que a Terra possui uma “Segunda Lua”, recém-descoberta pela Nasa, que dispõe de equipamentos poderosos e sofisticadíssimos para identificar no espaço o que nós, pobres mortais, não conseguimos. Sem telescópio no Havaí, como possui a agência de Tio Sam, contentamo-nos em somente saber através de ler e ouvir notícias, de imagens via televisão.
Cá na Terra, em nosso país, com pés no chão, sentimos que a situação não é das melhores. Percebe-se pelo semblante das pessoas que há flagrante preocupação, até pela falta de perspectivas. A Receita Federal registra queda da atividade econômica, que – somada às desonerações – fez a arrecadação federal cair em maio pelo 14º mês seguido. Não é novidade, pois. Simultaneamente cresceu o número de consumidores com contas em atraso e CPFs desativados. Traduzindo: 59,2 milhões estão inadimplentes, sofrendo restrições para comprar a prazo e obter crédito. Esse total supera o número de votos dos conterrâneos, que votaram na presidente afastada do poder.
Não ficamos só nisso. Fala-se muito no elevado preço do feijão, a joia da mesa brasileira, mas os preços de todos os produtos essenciais à alimentação estão em espiral ascendente, como o arroz. Evidentemente há automática repercussão entre as famílias de baixo poder aquisitivo.
Os componentes da refeição já consomem metade do salário mínimo líquido do brasileiro, descontados os impostos, e superam a alta do Índice Geral de inflação. Em maio, a cesta básica – carne, leite, arroz, feijão e açúcar – encareceu 2,38% em relação a abril. Em Belo Horizonte, a soma foi de R$ 408,50.
Para levar para casa o suprimento de uma família de quatro pessoas, o trabalhador belo-horizontino gastou R$ 1.225,50, em maio. O tempo precisa ajudar, com chuva na quantidade indispensável, nada de sol abrasador de duração excessiva.
Em meio às dúvidas quanto ao bom futuro do país, a atividade econômica brasileira permanece em queda, persistindo tênues os vislumbres otimistas quanto a mudanças no quadro geral. É preciso paciência.
É prato cheio para o “Dayle News”, em que se mencionam dados sobre a corrupção, entre nós, inclusive entre os ministros do presidente em exercício. Segundo o tabloide, “não há dúvidas” do motivo pelo qual as coisas vão tão mal... Os brasileiros reconhecem que, em busca do tempo perdido, há muitíssimo a trabalhar, além de padecer ainda de muita carência.


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Por Manoel Hygino - 28/6/2016 10:09:06
O perigo mora ao lado

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Nenhum país está imune ao terrorismo. Por força da tecnologia, capaz de eliminar vertiginosamente imensas distâncias, estamos expostos a perigos que vêm de longe ou a pessoas movidas por motivos perversos, que levam à morte e à insegurança ponderável parcela de um povo.
Com dimensões continentais, de litoral extenso e fronteiras com vários países e dirigentes de duvidosas inclinações políticas e ideológicas, tornamo-nos extremamente vulneráveis. Sabemos disso.
Não só terroristas. Militantes de diversas facções, quadrilhas internacionais especializadas no tráfico de entorpecentes e pessoas, agem incessantemente. Gente de diversas nacionalidades e regiões se infiltram nas comunidades. Embora ingressem nos países ricos e poderosos, vejam como a Europa enfrenta a situação: em cada esquina, em cada casa de diversão, nos supermercados, em Paris, Bruxelas e Londres, em Madri e Roma, há o risco de se perder a vida. Multiplicam-se os esforços para contê-las, mas a onda persiste.
No Brasil, tão distante aparentemente dos focos de terrorismo, que podem vir do Oriente Médio ou do Norte da África, não escapamos. Na Tríplice Fronteira – Brasil, Paraguai e Argentina –, os Estados Unidos chegaram a montar uma base militar, há algum tempo, por admitirem riscos à segurança na América Latina.
Com a realização dos Jogos Olímpicos no Brasil, este ano, começou-se a preocupar a comunidade internacional. Se no velho mundo há problemas, como notório, como será com as competições em agosto? O fantasma perambula.
Procedente de Guantánamo, prisão dos Estados Unidos em Cuba, recebido no Uruguai por gestão do presidente Mujica, um ex-preso cruzou a fronteira com o Brasil, sem permissão das autoridades. O ministro do Interior, Bonomi, sabe apenas que Jihad Ahmad Diyab saiu do país. A Inteligência do país vizinho, a Interpol e a embaixada de Tio Sam em Montevidéu permaneciam alertas. Antes, ele tentara passar pela fronteira, mas fora proibido. E agora?
A ABI – Agência Brasileira de Inteligência –, neste junho, confirmou, a seu turno, que pessoas ligadas ao Estado Islâmico criaram um grupo para trocar mensagens em português, através de aplicativo de celular. A agência observou que a abertura desta frente de informações, voltadas para doutrinação extremista, “amplia a complexidade do trabalho de enfrentamento ao terrorismo, por representar facilidade adicional à radicalização de cidadãos brasileiros.”
Esse grupo é o Nashir Português, mesmo nome do canal criado pelos extremistas há 15 dias, com objetivo de arregimentar brasileiros para a causa jihadista, mas estão sendo monitorados pela Abin. Eles usam o aplicativo Telegram.
A verdade é que as portas do mundo se abrem mais intensivamente e não há limite para ação dos interessados a propagar as divisões entre os povos. Tanto que a Organização Mundial de Saúde já adverte também os estrangeiros que vêm para as Olimpíadas no Rio. Desta vez, os inimigos internos: “Cuidado com assaltos, táxis e até água de beber”. É imprescindível evitar as infecções gastrointestinais: “O nível de água nos reservatórios está abaixo do ideal por conta da contaminação por esgoto”.


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Por Manoel Hygino - 22/6/2016 09:58:52
Somos todos prisioneiros

Hoje em Dia - Manoel Hygino

A Organização Mundial de Saúde concluíra que há uma epidemia de homicídios, estando o Brasil no 11º lugar no ranking do planeta, contribuindo para os 475 mil registros anuais. Com 32,4 mortes em cada 100 mil pessoas, nossa proporção se aproxima da África do Sul, com 45,7, e da Colômbia, com 43,9. A liderança está com Honduras, que registra 103,9 mortes em cada 100 mil pessoas, e a segunda colocação com a Venezuela bolivariana, de Chávez e Maduro, com 57,6, dados de 2012.
Não só em tiros letais o Brasil tem destaque. O país apresenta taxa de 23,4 mortes no trânsito por 100 mil habitantes, segundo a OMS. Quedamos com o quarto pior desempenho no continente, atrás de Belize, República Dominicana e Venezuela – sempre ela. O total de vítimas fatais nas estradas do mundo deverá chegar a um milhão por ano em 2030.
A Organização atribui estas estatísticas nos países de baixas e médias rendas à regulamentação fraca, à qualidade inadequada das vias, às condições dos veículos e ao aumento da frota.
No entanto, o mais grave no Brasil, parece-me, é a agressividade com que se matam as pessoas, crimes bárbaros contra mulheres e crianças – não mais só adolescentes, as formas brutais com que agem os assassinos (entre os quais menores), os homicídios até coletivos em famílias desajustadas ou não preparadas suficientemente para a união, a falta de respeito entre seres humanos, enfim uma série de nuances macabras que antecipam o desfecho fatal ou caracterizam os atos de eliminação das pessoas. Quem lê os jornais, ouve os noticiários radiofônicos ou assiste às reportagens pelas televisões se espanta com os espetáculos de hediondez. A crueza e a ignomínia se vulgarizaram em nossos costumes, como jamais ocorreu em tempo pretérito.
Os bandidos se transformaram em heróis na imaginação dos que ainda não têm consciência dos fatos e não distinguem o bem do mal, numa sociedade em que a autoridade não age em defesa do homem e de seus valores, como devido.
Os fatos registrados no Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, abençoada por Deus, comprovam-no. Mais de duas dezenas de bandidos, armados de fuzis, pistolas e explosivos invadiram, de madrugada, o tradicional Hospital Souza Aguiar para resgatar um traficante internado e mataram um paciente que nada tinha a ver com os desígnios dos delinquentes. Os fatos testemunham e atestam o ponto a que chegamos. Vieram somar-se aos muitos outros que, em grupos, praticam mortes e ocupam espaços nos HPS das grandes cidades. Ainda resta algo a fazer pelo próximo neste vendaval de violência?
A nação passa presentemente por um dos períodos mais graves de sua história. Não está o quadro restrito aos desvios de conduta de cidadãos escolhidos para ocupar cargos importantes e exercer funções de elevada responsabilidade política e administrativa. Assim como na cúpula dos negócios públicos, há aviltantes registros de desvios de conduta e gestão, a morte circula em todos os recintos e recantos, com armas modernas que matam muitas dezenas de pessoas todos os dias, além das que são vítimas de estupros, como no morro do Barão, no Rio de Janeiro. Somos prisioneiros e não temos quem efetivamente nos assegure um mínimo de paz.


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Por Manoel Hygino - 21/6/2016 10:15:57
Como o Brasil cresce

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Notícia de 14 de junho: O valor pago pelos brasileiros em impostos neste ano alcançou R$ 900 milhões às 7 horas de domingo, dia 12, véspera de Santo Antônio, segundo o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo. Alencar Burti, presidente da entidade, comentou: “A população brasileira já paga tributos demais e, neste período de forte recessão, isso pesa demais. Apoiamos os ajustes propostos pelo governo, mas ponderamos que é impossível cogitar qualquer ideia de aumento de impostos agora: isso aprofundaria a crise”.
Ainda naquele dia, o Ministério da Educação concluiu que falta dinheiro para realizar o Enem. Seria necessária a liberação de R$ 75 milhões, além do já destinado à realização das provas. Ministério tem R$ 10 bilhões em compromissos.
São números inquietantes. Também no futebol, a situação preocupa, embora os milhões e milhões dispendidos na contratação de jogadores. Os clubes da Série A têm dívidas de R$ 4,8 bilhões. O Galo, por exemplo, registrou crescimento de R$ 204 milhões nos débitos com relação a 2014.
Enquanto o brasileiro trabalhou 153 dias deste ano só para pagar impostos (em 1996 eram cem dias), constata-se que aqui o cidadão dá mais tempo para o governo do que em países como Alemanha, Estados Unidos e México. O pior, porém, é o retorno insatisfatório, conforme o eufemismo de João Olenike, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. A cada dez rolos de papel higiênico, 32,55%, ou seja, o correspondente a três rolos vai para o tesouro. Na conta de luz, 56% do valor pago é para tributos. Não tenho dados à mão sobre o que se esvai em rombos no transporte rodoviário e no desvio da corrupção.
E há muitos aspectos mais que despertam atenção. Enquanto se ouve pelas televisões e rádios sobre milhões e milhões em reais ou dólares despejados nas contas de ilustres dignitários, por vias ínvias e criminosas, também se conhece que o INSS sequer tinha meios para antecipar a primeira parcela do 13º salário dos aposentados e pensionistas, como confirmou o Ministério da Fazenda. O adiantamento se fazia desde 2006 em agosto. Na última hora, reverteu-se a situação, com um pouco de boa vontade.
Apenas encher as burras do erário é uma boa medida? Não parece. Neste mês, por exemplo, levantamento da Austin Taing situou o Brasil na lanterna do crescimento mundial entre 31 nações pesquisadas. O país piorou o desempenho e ficou atrás inclusive de economias em crises financeiras graves, como a Grécia, com queda de 1,2%. A Venezuela, lanterna nos rankings anteriores, ainda não divulgou os resultados para o 1º trimestre.
O melhor desempenho entre as economias avaliadas ficou com as Filipinas, com crescimento de 6,9% no 1º trimestre em relação aos três primeiros meses de 2015. A China ficou na segunda colocação, com 6,7%, seguida pela Indonésia, com 4,9%. Os EUA, maior economia do mundo, apresentaram expansão de 2% nessa mesma base de comparação.
O Brasil também perdeu mais uma posição e agora ocupa o 57º lugar no ranking global de competitividade divulgado pelo IMD, em parceria com a Fundação Dom Cabral. Foi a sexta queda seguida do Brasil na lista – em 2010, o Brasil aparecia em 38º lugar, tendo despencado dezenove posições desde então. Assim, entre as 61 economias analisadas no estudo, o Brasil aparece em sua pior colocação desde que o índice de competitividade do IMD foi criado, em 1989, e só está à frente de Mongólia, Ucrânia, Croácia e Venezuela, a lanterninha da lista.


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Por Manoel Hygino - 18/6/2016 10:47:09
O Manifesto de Arinos

Manoel Hygino

No dia 7 de maio, mês de tantas tradições para a gente mineira, deu-se à publicidade um documento que precisaria ser conhecido do maior número de pessoas. São duas laudas digitadas em que se expressam os sentimentos e os desejos de uma cidade mineira, mas que, estou certo, correspondem aos anseios de todos os brasileiros de bem.
O Manifesto de Arinos, região de terra fértil e de gente laboriosa, começa com uma síntese sobre o momento atual: “Aqui vimos, pessoas de Arinos – cidade do Noroeste de Minas Gerais – dizer aos nossos compatriotas e aos povos do mundo que, diante da gravíssima situação a que chegou a vida política, econômica e social do nosso país, estamos dispostos a fazer o possível para ajudar as pessoas bem intencionadas a encontrar um caminho que traga solução aos problemas existentes”.
Sendo primeiro signatário Napoleão Valadares, da Associação Nacional dos Escritores, seguido de vozes representativas da cidade, pequena, pacífica e amante da ordem, eles pretendem zelar pela herança de honradez recebida dos antepassados.
Diz o manifesto: “Pensamos que o caminho nesse sentido (do engrandecimento do Brasil) seja a educação do povo brasileiro. Mas temos consciência de que é necessário, antes de tudo, que se faça a estabilidade do governo, com as mudanças necessárias, pelos caminhos legais, o que se encontra em andamento. Guiamo-nos pelos caminhos do Cristianismo com observância dos parceiros constitucionais e apegados à tradição patriótica da nossa gente. É necessário que tenhamos o espírito de servir desprendidamente. Servir por servir. Lembramos que aquele que serve é o maior servido, porquanto o serviço lhe retorna naturalmente em benefício”.
É nesse tom moderado que se expressou Arinos, que acrescenta: “A nossa formação cívica nos conduz à não aceitação dos desmandos que vêm ocorrendo nos últimos tempos, os quais trouxeram consequências que dificilmente serão reparadas. Cremos que a reação a esses desmandos, aqui manifestada, possa se estender a outras plagas e que tenha uma repercussão benfazeja, a fim de que o bem que almejamos seja alcançado por todos. O que desejamos – e com todo o fervor – é o bem da Pátria, que se consegue com idealismo, honestidade e coragem. Repudiamos todo tipo de governo repressor e entendemos que os cânones democráticos devam prevalecer, visando ao bem-estar social, aos direitos individuais e à liberdade dos cidadãos”.
Afiança o manifesto: “um dos nossos propósitos é combater a corrupção em todos os níveis, o que, a nosso ver, só se dá com – além da educação – rigorosa apuração de irregularidades na administração e severa punição aos culpados. Propomos profundas reformas, que deverão abranger a política, a economia (pontos mais críticos no momento), a saúde, a segurança, a agricultura e outros setores, atingindo, sobretudo a educação”.


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Por Manoel Hygino - 8/6/2016 09:38:12
Um crime abominável

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os crimes cometidos contra uma adolescente no Rio de Janeiro indignaram, em todos os lugares do Brasil a que chegou a notícia, em todo o mundo civilizado, enfim. Escrevi – civilizado. O que aconteceu desobedece aos limites de humanidade numa época em que todos esses atentados contra o ser humano já deveriam constituir uma nódoa relegada a passado longínquo.
No tempo em que se cuida de preservar os irracionais que circulam pelas ruas, de proteger cães e gatos e de oferecer tratamento luxuoso aos animais domésticos de estimação, episódios como os registrados numa cidade que já foi capital da República e pretende ser espelho para o mundo nas Olimpíadas de 2016 obrigam refletir como estamos longe do considerado humano.
Afinal, que animal é o homem?
Supostamente não somos mais primitivos por até nos localizarmos no que se convencionou classificar de Novo Mundo. Não é este o tempo e o lugar que desejaríamos, se fôssemos civilizados. Lembro com Ivan Lins, o grande humanista (filho de Edmundo Lins, presidente do STF na Ditadura Vargas), que a mulher, tal qual se nos apresenta hoje é o eterno feminino de Goethe – misto de ternura e pureza. A lenta transformação à humanidade resulta de longa e tormentosa evolução da na imalidade, em que primitivamente nos achávamos enchafurdados, até os dias em que começamos a parecer homens.
Tem razão Ivan Lins: parecer homens. E os episódios do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, abençoada por Deus (?), mostram de maneira clara e insofismável que apenas parecemos humanos. Os tempos antigos passaram, mas não mudamos o suficiente. “Nada mais subalterno entre os antigos, do que o papel das mulheres, meras máquinas de procriar, sem merecerem o menor apreço quer sob o prisma intelectual, quer mesmo sob o aspecto afetivo, achando-se no Direito Romano compreendidas na classe das coisas. Mesmo as patrícias ficavam, sob o nome de titela, numa espécie de escravidão”, como observou o sábio Ulpiano.
Em que pese a demorada transformação através de séculos que somam milênios, poder-se-ia classificar os fatos que ocupam os noticiários dos meios de comunicação como vergonha moral da Antiguidade... E de hoje.. E de sempre. Os fatos inquietam e revoltam. E são fatos.
No Brasil, somos cristãos e cumpriria lembrar que o cristianismo foi a primeira religião que se propôs, de modo sistemático, a purificar o homem. Falhamos criminosamente, porém,deixando predominar a brutalidade do instinto sexual, o mais perturbador de quantos constituem a complexa alma humana.
Pois Ivan Lins comentou: “Tornado-se o homem, através da purificação e do acréscimo de ternura nele produzidos pelo catolicismo, mais capaz de amar, aplicou essa capacidade, não só a Deus, mas à mulher que lhe suaviza a existência, como companheira das horas de dor e alegria”.
Sem embargo, assim não é para grupos e pessoas que precisam ser identificados e punidos. Aliás, as lições estão em São Paulo, ao reprimir, mediante atento e minucioso cultivo moral, os mais enérgicos e grosseiros instintos do homem... “Pois o amor é a mais alta virtude, maior que a esperança e ainda maior que a fé”.


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Por Manoel Hygino - 3/6/2016 09:07:18
A tampa do esgoto

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Passei parte do feriado de Corpus Christi meditando sobre o Brasil que nos viu nascer e no qual sobrevivemos. Li artigo do advogado Aristóteles Atheniense sobre a hora que atravessamos e no qual evoca o primeiro pronunciamento no STF do ministro Luís Roberto Barroso. Declarou este que o mensalão não foi o maior escândalo de nossa história, mas somente o mais investigado. Em sua opinião, não há corrupção em um ou outro partido, mas somente “existe corrupção”.
Os fatos seguintes à delação do senador Delcídio do Amaral servem de exemplo. Parece que se abriu a caixa de segredos espúrios envolvendo figurões da política, que põem em dúvida ou lançam na areia movediça do crime cidadãos supostamente incorruptíveis e respeitáveis. Se não o foram, deveriam sê-lo.
Pensar o Brasil agora é necessidade urgente em razão do perigo que a nação enfrenta, e no mesmo barco nos encontramos. A propósito se manifestou o filósofo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Denis Larrer Rosenfeld no distante 2009: “A corrupção tem se revelado uma calamidade que consome o resultado do trabalho de milhões de brasileiros, envergonha o país e mancha a imagem do Brasil no exterior. É um problema que, como se viu nos últimos anos, independe de ideologia ou de partidos políticos.
O povo brasileiro sabe dos fatos e acontecimentos. Conhece porque o dinheiro dos impostos não volta em obras e serviços públicos, em elevação de padrões de vida, em melhoria de estrutura rodoviária, por exemplo; em mais saúde, educação e segurança, como de direito do cidadão e ser humano. Grande parcela de sua contribuição se perde nos desvãos da máquina administrativa e nos esgotos da política, cujas tampas se abrem hoje para conhecimento geral e irrestrito.
Já sentenciavam os antigos: Impunitas peccandi illecebra. Assim é: a impunidade estimula a delinquência. O desconforto em que vivemos, a ausência de um sistema eficiente de assistência ao cidadão e à sua família, a ampliação da violência de um modo geral resultam do desrespeito na origem, quando os mandatários agem sem observância de princípios éticos, a talvez ou certamente confiantes em que os criminosos, os desviadores de recursos públicos, não serão punidos como deveriam. Entre nós, estabeleceu-se a regra de que a lei é dura, mas estica.
Trágico o que há. As agremiações políticas, em grande parte, são comandadas pelos mesmos grupos há anos, décadas, cuidando dos cargos como patrimônio pessoal. Não há espaço para novas lideranças, quando estas até temem assumir uma posição diante das falcatruas. O êxito dos escândalos provoca o descrédito na atividade política e os cidadãos de bem dela fogem.
No Brasil, deixam de existir cidadãos, substituídos por meros contribuintes ou pagadores de impostos e consumidores. A primeira prova de que se pode enfrentar o quadro deletério e pernicioso foi o mensalão, pelo qual ainda alguns pagam. Tornou-se a abertura apenas da rede de esgoto, que se vai descobrindo a cada dia e hora e não mais causa surpresa. Pelo esgoto, que falta no saneamento das cidades, vê-se escapulir o dinheirinho suado do trabalhador, aliviado em suas dores pela esperança em bons resultados das partidas de futebol de seu time e pela esperança de uma grande bolada na Mega-Sena.


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Por Manoel Hygino - 2/6/2016 09:01:35
A opinião pública apática

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Por mais que se queira ou se quisesse, não se poderia deixar de focalizar os acontecimentos que marcam o grave período político que atravessamos. A hora não admite omissão e, para salvar o que de bom e exemplar sobrou do caos, tem a nação de unir-se em defesa da nobreza e da dignidade na ação política.
Não se há de permitir que os vendilhões do templo, os desonestos, os larápios aproveitadores de oportunidades se sirvam das benesses e facilidades que a administração da coisa pública facilita. É hora e vez de os brasileiros se unirem em torno de seus ideias e de princípios para gerir. Enfim, tempos uma república, res publica.
Em seu “Refletindo o Direito e a Justiça”, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima (nascido em São João del-Rei e ex-juiz de Direito da Comarca de Montes Claros) focaliza os problemas que enfrentamos hoje e que, em alguns casos, apenas dão continuação ao que vem de outras eras, mas deveria ter sido extirpado dos costumes.
Para o magistrado, no Brasil existem “duas éticas”: uma para a população, outra para a elite. A primeira austera e a segunda, condescendente. Rogério Medeiros observa: “Qualquer país – ressalve-se – convive com a corrupção. Sendo impossível erradicá-la, pode-se contê-la em limites razoáveis. Tal contenção, evidentemente, não vem ocorrendo em nosso país”.
Acrescenta: “O fenômeno não é exclusivamente nacional. Ocorre em outros países, sobretudo nos subdesenvolvidos. Entre nós, como em toda a América Latina, mesclam-se caudilhismo e corrupção. Escrevia Jacques Lambert: “Se está encerrada a era do caudilhismo, pelo menos na maior parte da América Latina, os hábitos adquiridos deixaram traços duradouros na vida política de países que durante tanto tempo ele dominou”.
“Pode-se pensar, por exemplo, que a longa persistência do caciquismo tornou mais difícil o desaparecimento de um estado de espírito - de que, certa ou erradamente, todos se queixam na América Latina – que levaria muitos homens públicos a considerar normal o enriquecimento dos que detêm o poder”.
A pergunta que faço: será este o estigma da hora que atravessamos? A sucessão de escândalos, de denúncias, as delações de gravações com acusações a “ilustres” homens da res publica se não surpreendem, nos deixam estarrecidos. Embora, como comenta Medeiros, “Alvissareiramente se espraiam candentes clamores por ética na vida pública, em todos os níveis federativos. As lutas contra as transgressões da moralidade administrativa ocupam grande parte das notícias dos meios de comunicação social. Aviventam, diariamente, os valores morais, os quais vão sendo paulatinamente incorporados às ordens jurídicas de vanguarda”.
O papel das atuais gerações tem, portanto, relevância muito especial. Chegaram a hora e minuto de se esforçarem para que os cidadãos, por todos os meios, virem a tenebrosa página da história. Os sendeiros estão abertos e cabe à sociedade agir decisivamente. Temos de remover o que impede de se atuar em benefício da nação e de cada cidadão.
Se Bilac Pinto condenou um passado que ainda é presente, expresso em apenas duas linhas, temos de riscá-los definitivamente de nossas práticas: “o que torna mais grave esse fenômeno – da corrupção política e administrativa - , que ocorre em todos os níveis do governo, é a apatia da opinião pública diante dele”.


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Por Manoel Hygino - 20/5/2016 09:36:00
Vargas não sofreu impeachment

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os fatos políticos recentes nos fazem retroceder no tempo, alcançando 1954, quando a crise política brasileira de então chegara ao ápice. Na época do atentado a Carlos Lacerda, na rua Tonelero, em Copacabana, Josué Montello admitiu que o cerco estava a fechar-se em torno de Vargas, comparado pelo escritor a um “herói shakespeariano, à porta de um desfecho brutal, como nas tragédias”.
Elmano Cardim, historiador, comentou por telefone com Café Filho, vice-presidente da República: “A situação política está se deteriorando rapidamente. E eu temo que o desfecho da crise seja ruim para o Getúlio”. “Em todo o caso, Café Filho vai ter uma conversa com Vargas. Estamos na linha do imprevisível. Tudo pode acontecer. Ou nada pode acontecer”, observou Cardim.
Procuravam-se culpados e Montello tentou apontá-los: “A crise, na verdade, tem uma origem: a da luta contra o poder emergente de Samuel Wainer, diretor de Última Hora, pessoa ligada a Vargas, e a do atentado da rua Tonelero, em que morreu um major da Aeronáutica. Tudo o mais se insere nessas vertentes, inclusive a desmandos da guarda pessoal de Vargas, com destaque para a pessoa de seu chefe, Gregório Fortunato”.
Naquele instante, a situação parecia ter chegado ao clímax. As paixões chegavam ao nível do forno de Volta Redonda, aceso nas 24 horas do dia. Se não houvesse bom senso, a combustão incendiaria o país. Pretendia-se levar Getúlio ao IPM–Inquérito Policial Militar, aberto no Galeão. Café Filho propôs: que o presidente, Getúlio, e ele o vice, renunciassem simultaneamente a seus cargos, para escolha de um novo presidente em 30 dias.
Começou-se uma campanha em rádio, televisão e jornais exigindo a renúncia. Pensou-se no impeachment, mas foi imediatamente desconsiderado porque a Constituição exigia um quorum que a oposição não conseguiria de maneira alguma. O clima no Congresso Nacional era quase de morte. Um discurso inflamado de Afonso Arinos fazia acusações graves ao presidente. Gustavo Capenama subiu à tribuna para defender Vargas e sofreu uma crise de nervos.
Lacerda, ferido no pé em Tonelero, mantinha-se aceso e escreveu: ”Ninguém ousava, nem os maiores amigos de Getúlio ousavam, subir à tribuna para defendê-lo. O máximo que faziam era calar, ou falar para fora do plenário. Mas mesmo assim, o que não havia era quorum para o impeachment”.
Sem Getúlio admitir a dupla denúncia, sem condições legais para o impedimento, ameaçado por quase todos os lados, ainda que contando com enorme apoio popular, o pai dos pobres – como apelidado – apelou para o sacrifício maior.
Montello meditou: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura histórica para minha geração. Todo um largo período de vida brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora, já velho, no derradeiro lance de sua biografia”.
O tempo se encarregou de responder à pergunta: “Qual será a reação do povo, com esta tragédia? Eu próprio, longe da política, me sinto atingido e arrasado. E a verdade é que Vargas, abatido, humilhado, vencido, repentinamente desbaratou todos os seus adversários com o tiro que deu em si mesmo”.


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Por Manoel Hygino - 10/5/2016 08:25:22
Norte de Minas chega ao Planalto

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No ambiente político atual, os fatos sucedem com extrema velocidade, mas no fundo e na realidade, tudo aparentemente continua como dantes. Tem-se de cumprir o ritual, mesmo que os ocupantes do poder digam que há um golpe programado e em execução. O clima é de troca de acusações e de denúncias de arrepiar os cabelos.
Os nascidos em Montes Claros, no Norte de Minas, acompanham os acontecimentos e sua evolução, com especial interesse. Gente daquele extenso pedaço do território não chega à chefia do Executivo nacional, pois o que passou mais perto foi Juscelino, nascido em Diamantina, no Alto Jequitinhonha. E fez bonito.
Observa-se que, com a correr dos dias, há analistas que admitem a presidência da República chegar a uma montes-clarense, que não se devota à política partidária. Refiro-me à ministra Carmen Lúcia Antunes, de família de Espinosa, também naquele fundão, mas efetivamente nascida em Montes Claros.
Com 61 anos, solteira, integrou a Comissão de Ética em Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte (sem remuneração, é bom dizer, antes que inventem uma inverdade). Ministra do Supremo Tribunal Federal por indicação de Itamar Franco, acatada por Lula, ela assumirá a presidência do STF, entrando na linha de sucessão, após Levandoswski, cabendo-lhe convocar eleição presidencial, nos termos da Constituição.
A notícia alegra a região, bem pouco lembrada para altos cargos pelos ocupantes do poder de pessoas, e foi comentada pela jornalista Christina Lemos. O presidente da Câmara, afastado, Eduardo Cunha, está impedido agora de assumir a presidência da República, julgado pelo STF em ações penais. A mesma razão barraria também o presidente do Senado, Renan Calheiros, denunciado no Supremo.
Observe-se: “O impedimento dos dois tem base no artigo 86 da Constituição, parágrafo primeiro, que fixa os casos em que um presidente fica suspenso de suas funções: § 1º _O presidente ficará suspenso de suas funções: I- nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal; II – nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado”.
De acordo com o rito, o Senado processa e julga o presidente da República, após acusação formulada pela Câmara. Se isso ocorrer a partir de 10 de setembro, quando a ministra Carmen Lúcia substituirá Ricardo Lewandowski na presidência do STF, será ela quem assumirá a presidência da República no impedimento das demais autoridades. Terá prazo de três meses para convocar eleição direta para ocupação do cargo:
“Art. 81. Vagando os cargos de presidente e vice-presidente da República, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga”.
Os eleitos – presidente e vice-presidente – completarão o atual mandato, inconcluso, – chamado tampão. Alteração do Código Eleitoral (artigo 22) prevê que esta eleição deve ser direta. O pleito indireto ocorre somente se faltarem menos de seis meses para a conclusão do mandato. Todas estas questões se colocam apenas para o caso de impeachment. Há ações no TSE que buscam impugnar a chapa Dilma – Temer. Neste caso, aplica-se código eleitoral, que prevê a realização de novas eleições”.


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Por Manoel Hygino - 28/4/2016 09:10:13
O risco das viagens de autoridades

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Acusando adversários de perpetrarem um golpe contra ela e de depô-la do poder, a presidente brasileira, mesmo assim, foi à ONU participar da Conferência Mundial sobre Clima, embora sabendo que o “clima” aqui não lhe era muito favorável. É uma mulher ousada, nascida em Belo Horizonte, no Hospital São Lucas, descendente de búlgaros, brava gente.
Estavam previstas cerca de 72 horas no exterior, mas para golpes o tempo é mais veloz e fator essencial. Não se esquece, por exemplo, que Haile Salassie, imperador da Abissínia, coroado em 1930, foi destronado quando visitava o Brasil em 1974, substituído pelo general Aman Michael Andon.
Não perderei a ocasião para lembrar que a fundação da dinastia etíope é multimilenar. Resultou da união da rainha de Sabá com o rei Salomão, da qual nasceu Menelick I, pai de toda a linhagem.
Voltando ao Brasil e ao tempo, chegamos a Jânio Quadros, com a renúncia de causa não suficientemente esclarecida em 25 de agosto de 1961, quando o vice-presidente era João Goulart. Até onde possível, fatos foram relatados em minúcias pelos historiadores e pelos jornais. Entre nós, uma descrição muito boa e pouco lembrada é a de Anatólio Alves de Assis, da Polícia Militar, já falecido, estudioso do tema.
O ato de Jânio se deu logo após as solenidades do Dia do Soldado, naquela data. Um coronel do Exército foi ao gabinete do presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili, para pedir-lhe que o acompanhasse até o Ministério da Guerra, onde já se achavam os três ministros militares. Estes informaram que a renúncia fora formalizada e, estando no exterior o vice, por disposição constitucional, deveria ele, Mazzilli, assumir.
O Congresso Nacional já se achava reunido naquele momento. O presidente do Senado, Auro Moura Andrade, transmitiu imediatamente a notícia. Acrescentou: “Só desejo, neste instante, que Deus nos inspire a todos e faça com que possamos decidir, em hora de tão extrema importância para a vida nacional, com perfeito equilíbrio e com todas as energias da nossa vocação pública”.
O país se inquieta. Mazzilli se torna presidente em face da viagem de Jango à China Comunista. No dia seguinte, em sessão matutina da Câmara dos Deputados, sucedem-se parlamentares na tribuna. A grande dúvida: As Forças Armadas permitiriam a posse do vice?
No dia 28 de agosto, Mazzilli comunica aos antigos pares que os ministros militares pronunciariam pela inconveniência de Goulart assumir com plenos poderes. Declarou: “Tenho a honra de comunicar a vossa excelência (presidente do Senado) que, na apreciação da atual situação política, criada pela renúncia do presidente Jânio Quadros, os ministros militares, na qualidade de chefes das Forças Armadas e responsáveis pela ordem interna, manifestam a absoluta inconveniência, por motivos de segurança nacional, do regresso ao país do vice-presidente da República João Belchior Marques Goulart”.
Que fazer? Jango saíra do Brasil em momento supostamente favorável, mas houve a imprevista atitude do Jânio. Teve-se de enfrentar um novo e grave problema, que o Brasil conhece e até hoje repercute. Dilma teve confiança nos seus ministros.


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Por Manoel Hygino - 27/4/2016 09:41:02
As melhores almas do mundo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Ex-presidente do país com maior extensão territorial da América do Sul, em nossa época fez uma declaração que tocou profundamente o coração de todos os que nasceram no território: era ele a melhor alma do mundo, tendo dito diante de microfones e câmeras.
Evidentemente, com empáfia, deixou os nascidos no país em causa, chamados brasileiros, profundamente orgulhosos. Tinha-se na relação dos homens bons dali (ou daqui), personalidades, cidadãos dignos entre os bons, num contingente tão elevado de maus. Cada cidadão deste país poderia evocar nomes e personagens que engrandeceram e engrandecem o país por sua ação humana, solidária, em episódios que entraram para a história. A maioria deles, por sinal, não quis gozar de primazias e privilégios, viveu na humildade, no silêncio, lutando pelos pobres, esquecidos e humilhados, que penam até hoje a insensibilidade dos maus e a incúria dos que já alçaram a altos postos na administração pública.
Por oportuno, lembrar-se-á um indiano magérrimo, que tecia o próprio pano para confeccionar sua roupa “kaddbar”, iniciando uma luta incessante contra os colonialistas ingleses, que se assentaram na sua terra na segunda metade do século 18. A partir de 1920, a luta nacionalista se intensificou sob a liderança daquele magricela, de sandálias, já advogado, Mohandas Karamachand Gandhi. Mahamma , “a grande alma”, como o apelidou seu próprio povo, submetido a séculos de servilismo e opressão.
O vocábulo mahatma, sânscrita, é composto de duas outras – maha, grande, e atma, alma, significando um homem de elevada perfeição espiritual. Gandhi faz sua pregação cívica, social e humana, estendendo-a à África do Sul, também sob domínio inglês.
Sua vida é uma epopeia que chegou às letras e ao cinema. Para fazer pressão sobre os britânicos, criou um jornal – o “Nava Givan”. Por suas páginas, perdidas as esperanças nas promessas dos colonizadores, registrou: “Na Índia, de todos os lados, vê-se desespero. Esperava-se, confiava-se, que – depois da guerra (a 2ª mundial) o país teria um benefício compensado, mas a realidade desiludiu-nos”: Só no Satyagraha (no Brasil virou denominação de operação policial) está toda a esperança da Índia”. O movimento compreendia a resistência não violenta às determinações das autoridades, a desobediência às leis opressoras, a guerra econômica com o uso exclusivo de produtos nacionais e um elevado espírito de sacrifício.
As palavras de Mohandas eram acompanhadas de atitudes fortes e consentâneas com a realidade sofrida pelos indianos. O governo inglês continuou falando nos compromissos e o líder indiano começou uma campanha mediante sacrifício pessoal por jejuns, que poderiam levá-lo à morte.
Com uma existência de extrema simplicidade e modéstia, como um mísero penitente, seguiu o propósito, no qual se incluía a emancipação dos párias ou intocáveis. Eram milhões de infelizes, desprezados pelas classes superiores. Gandhi exigia que os templos, exclusivos para as classes superiores, as elites, fossem abertos aos não incluídos, frequentadas as casas santas, por tradição multissecular, somente pelos poderosos. O mahatma, a grande alma, foi assassinado por um fundamentalista em 1948.


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Por Manoel Hygino - 22/4/2016 08:46:01
De Júlio César ao nosso tempo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Ao passar o Rubicão, pequeno rio que, na antiga Roma, separava a Gália Cisalpina da Itália propriamente dita, Júlio César teria dito: “Alea jacta est”, isto é, a sorte está lançada, pondo-se em guerra contra a República.
As três palavras podem ser evocadas agora, quando acolhida a representação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Não é, infelizmente, o fim do pesadelo que atropela a nação, há muito tempo, enquanto sofrem as instituições, as empresas, as famílias, o cidadão.
Enquanto partidos e lideranças articulavam na capital da gloriosa República votos contra e a favor do impedimento, mediante deslavada troca de favores e promessas, o Brasil continuava o mesmo: mal. Dir-se-á que sou pessimista, não me importando o julgamento, certamente seguido por milhões de brasileiros.
Apanho os jornais, ouço rádios e vejo as televisões. Recolho informações: menor contra menor nas ruas de Montes Claros. Um rapaz de 17 anos usou um pedaço de ferro para assaltar outro, de 12, no centro da cidade, ao meio-dia. Roubou um celular.
Minas teve 749 vítimas de homicídios, significando 12,5 mortes por dia, no começo de 2016. No ano findo, o número era 1,49% menor.
O emprego na indústria brasileira caiu, pelo 13º mês consecutivo, em fevereiro. As horas trabalhadas no setor industrial tiveram retração, comparadas a janeiro.
Com medo da gripe H1N1, igreja cortou procissão, saudação e até orações de mãos dadas, na Diocese de Taubaté. Também foram suspensas a saudação e abraço de paz, entrega de hóstia na boca dos fiéis, e a procissão do ofertório em todas as missas. São Paulo é o Estado mais rico do país.
Final de março: vacina com H1N1 alcançou o patamar de R$ 300 na rede particular; na rede pública, somente os grupos de risco foram vacinados. A rede particular compreende os laboratórios, hospitais e clínicas especializadas.
Água da Copasa ficará mais cara em maio, e já estamos chegando ao quinto mês do ano. Não é só: no seguinte, o consumidor arcará com mais aumento do precioso líquido – precioso e caro – ao consumidor.
E temos de ficar com barbas de molho. O cenário político mudou, mas o drama por que passam os cidadãos para se desvencilhar honestamente de seus compromissos persiste.
Tanto que o Fundo Monetário Internacional prevê que o Brasil terá um rombo de contas até 2019 – e olhe que haverá eleição presidencial em 2018 – e o superávit primário (economia que o governo precisa fazer para pagar os juros da dívida pública) somente a partir de 2020 apresentaria melhora.
São previsões dramáticas e dolorosas, que as medidas adotadas pelo Congresso o são em tão alto nível que não chegam ao cotidiano dos coitados brasileiros. Alea jacta est.
Enfim, estamos cumprindo nosso dever com o erário: só neste ano, já pagamos R$ 600 bilhões em impostos.


81508
Por Manoel Hygino - 20/4/2016 10:35:56
No vendaval do impeachment

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Depois de muitíssimas horas a assistir os debates e discursos sobre o impeachment pela televisão, não restaram exemplares lições de oratória, lucidez e patriotismo. Seria útil, assim, lembrar episódios da brumosa nuvem de uma tempestade que ainda paira sobre a nação. A repetitiva argumentação das duas correntes não contribuiu para deixar magistrais registros do que no Parlamento se disse, no quase sempre pobre e inadequado vocabulário (às vezes grosseiros) dos participantes das reuniões. Serviu, contudo, para revelar que houve interesse, até porque imprescindível, em respeitar a Constituição.
As sessões a que se assistiu mostraram o nível intelectual dos representantes que os cidadãos escolheram para representá-los. Algo que não exalta as tradições dos grandes tribunos que historicamente brilharam nas duas Câmaras do Congresso. Sem embargo, cumpriu-se, de algum modo, o que se esperava, pelo menos no que concerne à forma e ao ritual.
Estas observações conduzem naturalmente ao discurso pronunciado por Rui Barbosa, em 1920, aos formandos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. A peça pela riqueza de ensinamentos recebeu o título de “Oração aos Moços” e foi lida pelo professor Reinaldo Porchat, em face do debilitado estado de saúde do paraninfo. Quase um século após a solenidade, suas considerações merecem leitura e meditação pelo que contém de grandeza espiritual.
Não faltou a Rui ensejo de tecer críticas, enfatizando que estamos “num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem e dispõem, as que mandam e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não há moral, pública ou juridicamente falando”.
Meça-se a crueza no exame de uma situação ainda não inteiramente mudada. Perduram vícios, pois “no Brasil, a lei se deslegitima, anula e se torna inexistente, não só pela bastardia da origem, senão ainda pelos horrores da aplicação”. O estadista baiano, que não galgou à Presidência da República, não deixa escapar oportunidade de apelar às escrituras. Declarou: “Ora, dizia São Paulo que boa é a lei, onde executada com legitimidade.
Para Rui, “de nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as ampare contra os abusos; e o amparo sobre todos essencial é o de uma Justiça tão alta no seu poder, quanto na sua missão”.
Em determinado trecho de sua célebre oração, Rui lembrou Canuto, rei dos vândalos. Este mandara executar uma quadrilha de salteadores quando um deles pôs embargos, declarando-se parente de “el-Rei”. Foi peremptório Canuto na decisão: “Se provar ser nosso parente, que o coloquem na forca mais alta”.


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Por Manoel Hygino - 16/4/2016 08:41:49
A crise chega à ONU

Contam-se as horas para a votação pela Câmara dos Deputados do impeachment. Nunca, jamais, em tempo algum, o Brasil sofreu um processo de estagnação como o atual, enquanto as pessoas, muito naturalmente, se perguntam: e depois?
Em verdade, jamais um pesadelo foi tão amplo e profundo, se possível aplicar os dois adjetivos para classificar a presente situação. Nem Freud poderia talvez explicar o clima estabelecido, envolvendo os mais de duzentos milhões de habitantes de um país, grande e bobo, como o classificava o acadêmico Eduardo Almeida Reis. A nação está abalada muito justificadamente pelos acontecimentos (de causas sabidas, embora nem sempre provadas), inclusive os novos atos que emergem aos cidadãos a todo instante.
Antigamente se dizia que o Brasil se encontrava à beira do abismo. Depois, surgiu a versão de que o abismo era menor que os imensos problemas criados por indefinido número de pessoas, descompromissadas com os superiores interesses e causas nacionais.
Enquanto se negociavam votos a favor e contra o impedimento, com métodos que razões denigrem o nome, o prestígio e o conceito da nação e de seus dirigentes, percebe-se que o mundo se inquieta pelo descalabro que nos corrói e as sombrias perspectivas da população que se dizia abençoada por Deus.
Não se trata, porém, de um problema político meramente doméstico, como inicialmente admitiu o secretário-geral da ONU, titular do importante posto exercido pelo chanceler Oswaldo Aranha.

Ban Ki-Moon, com a serenidade que o cargo impõe, formulou o primeiro apelo em relação ao Brasil nos quase dez anos de Secretaria na ONU, em atitude rara nos raros contatos das Nações Unidas com nosso país: “O Brasil é muito importante e qualquer instabilidade política é uma preocupação social para nós. Peço que os líderes adotem soluções harmoniosas de tranquilidade. Sei que é um desafio que o país vive. Mas acho que irá conseguir superar”.
Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, falando à imprensa na Suíça, foi além e advertiu mais vigorosamente. “Renovamos nosso apelo para todos os lados para garantir que o Poder Judiciário seja respeitado, que as instituições democráticas pelas quais o Brasil tanto lutou para ter sejam respeitadas e não sejam minados no processo”.
O bom-senso não rege nossos destinos, como conviria. A preocupação internacional é legítima. Houve um apelo até ao Judiciário, que precisa atuar com “escrúpulos, dentro das regras do direito doméstico e internacional, evitando posições político-partidárias”.
Mas como é possível evitar a judicialização se as decisões maiores são transferidas para a mais alta corte de Justiça do país? Rubert Colville, porta-voz da ONU, declarou: Preocupa-nos a possibilidade de um círculo vicioso que acabe afetando a credibilidade tanto do Executivo quanto do Judiciário”.


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Por Manoel Hygino - 14/4/2016 08:42:32
Bandidos atacam em Itacambira

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Itacambira é uma pequena cidade do Norte de Minas, palco de acontecimentos marcantes na história regional. Paróquia com o sofisticado nome de Santo Antônio do Itacambiruçu da Serra do Grão Mogol, já pertenceu a Minas Novas, Grão Mogol e Montes Claros.
A centenária igreja, abraçada pelas duas ruas da cidade, foi assaltada há vários anos e de lá foram levadas imagens preciosas, verdadeiras relíquias. Nenhuma foi resgatada.
Cinegrafistas norte-americanos passaram por lá para um registro sobre o burgo remoto, porque constava que o mal de Chagas, que tomava conta das casas humildes, terminaria por dizimar a população. De outra feita, descobriu-se que sob o piso da igrejinha do século XVIII encontraram-se múmias completas, que passaram a análise de cientistas e médicos. Uma delas foi transportada e se encontra no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
E muito mais havia. Por ali andaram sertanistas famosos como Fernão Dias, que localizou a mina de esmeraldas descrita por um antecessor também celebrado. Era, porém, um sonho do velho aventureiro de Taubaté. As pedras eram apenas turmalinas.
Conta-se que lá se localizava também Vapabuçu, cantada em prosa e verso por bons autores. O bispo de Montes Claros foi conferir e não achou a celebrada lagoa. Ficou como referência a Serra Resplandecente, ainda objeto de curiosidade de estudiosos.
A professora de licenciatura em história e bacharelado em humanidades e professora do mestrado interdisciplinar em ciências humanas, Ana Cristina Pereira Lage, está tentando saber mais sobre a existência de um acolhimento de mulheres que ali existiu há mais de duzentos anos.
Deu-se ao trabalho de até viajar a Portugal buscando documentos sobre aquela que se chamou Casa de Oração do Vale de Lágrimas, semelhante a Macaúbas. Eu me dou ao mesmo trabalho em outras fontes cá em Minas.
Enquanto com esse objetivo se trabalha, no último dia 8 de abril, um bando de assaltantes entrou na distante cidade, invadindo a agência dos Correios, pela madrugada, no dia de pagamento de aposentados. A quadrilha se deu mal. A PM, de Montes Claros, desconfiada, já havia adotado as providências no caso pertinentes.
Itacambira se transformou em campo de batalha, Quatro dos seis criminosos foram mortos na batalha, embora fortemente armados; dois ficaram feridos. Apreendidos quatro veículos, submetralhadora, espingardas calibre 12, dois revólveres 38 e três pistolas. O grupo seria responsável por outros assaltos na região.
O bang bang, não filmado por câmeras, demonstra a ousadia de organizações criminosas atuantes em todo o território, como as televisões mostram. Enquanto alguns estudam episódios relevantes do passado, há um salve-se quem puder nos grotões de que falava Tancredo.
Enfim, repetem-se os golpes contra as pobres cidades e contra os pobres das cidades sem que haja a necessária eficácia para conter os quadrilheiros que campeiam por todos os Estados. Itacambira é uma, num quadro nacional de grande risco. Viver é cada vez mais perigoso.


81469
Por Manoel Hygino - 12/4/2016 09:53:39
Apelando a São Longuinho

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os problemas enfrentados pelo Brasil hoje não se medem por números, tal a extensão, profundidade e, principalmente, complexidade. A que ponto chegamos, para onde vamos, quais são as propostas de solução, quais as perspectivas de solução pelo menos duradouras? Quem poderia responder?
O “New York Times”, na edição do dia 3 deste mês, em extensa matéria, registrou – em linhas gerais – que corrupção e crise “devastaram as ambições globais do Brasil”. Há perigosa borrasca e dela só escaparão os que usufruem dos malefícios causados ao povo em benefício pessoal de seu grupo de perversos que nada pensam, sequer sabem o que é pátria e solidariedade.
Este um motivo de temor quanto ao que está por vir. Repetir Rui Barbosa não cansa, embora se reconheça de antemão que não sensibilizaremos em favor dos que querem e precisam de paz, de trabalho e do direito de segurança, educação e saúde.
O grande baiano já ensinava: “A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma força de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos, é o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não emudecem, os que não se acovardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos e residem originariamente no amor”.
Estamos imensamente distantes de Rui e seus ensinamentos. Um grande mestre de direito da nossa época, Adilson Abreu Dallari, porém, focalizou o tema. E o fez com lucidez e coragem próprias, ao afirmar: “A desmedida pluralidade de partidos ultrapassa os limites da liberdade e adentra o campo da libertinagem. A hipocrisia campeia”. “A quase totalidade das siglas nada representa, mas serve para negócios espúrios no tocante ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda eleitoral”.
À frente, registra: “O chamado presidencialismo de coalizão se apresenta como um retumbante fracasso. Coalizão é, na verdade, um eufemismo, para cooptação. O Executivo não tem saída senão comprar apoios, na melhor das hipóteses, com sacrifício do planejamento e da racionalidade nas receitas e gastos públicos. Mas, em compensação, ganha inimputabilidade, pois, como se tem observado, a perda do mandato, pelo cometimento de crime de responsabilidade (que é fundamental no regime presidencialista) tem sido explorado como atentado à democracia, como se o voto popular garantisse a absoluta imputabilidade do governo ímprobo”.
Conclui-se que, para encontrar as virtudes e causas perdidas, teríamos de apelar a São Longuinho, que viveu no primeiro século e foi contemporâneo de Cristo. No Brasil, quando se perde alguma coisa e não a localizamos, de jeito nenhum, apela-se ao santo. Quando o que se perdeu reaparece feito mágica agradece-se, dando três pulinhos, acompanhados de três gritinhos. Mas o agradecimento não se tem visto entre nós, ultimamente.


81428
Por Manoel Hygino - 31/3/2016 09:19:55
Os abalos estão chegando

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O perigo passou a morar mais perto de todos nós, os do Sudeste brasileiro, em Belo Horizonte, por exemplo. Há dias, registraram-se tremores de terra em Sete Lagoas, a cerca de setenta quilômetros da capital, assim como em Pedro Leopoldo, Matozinhos, Capim Branco, Prudente de Morais e Confins.
Até recentemente, dizia-se que o Brasil era imune a abalos sísmicos, alinhando-se uma série de razões para tanta e tamanha bondade da natureza. Mas o tempo mudou, e muito. Assim, na região de Montes Claros, no Norte mineiro, repete-se a tremura da crosta terrestre, uma das quais matou uma criança em Caraíbas.
O sismólogo José Alberto Vivas Veloso escreveu e publicou, em 2014, livro dizendo a verdade, nova por aqui. Trata-se de “O terremoto que mexeu com o Brasil”. Centrado principalmente nos abalos que atingiram a cidade de João Câmara, no Rio Grande do Norte, focaliza com ênfase o de 30 de novembro de 1986, desastroso acontecimento que completará trinta aninhos.
O autor não se resume a fatos recentes. Lembra que, sendo Pedro II interessado em tais fenômenos (aliás, o era nas ciências de um modo geral), determinou a primeira pesquisa nacional sismológica. A atenção cresceu, quando – em seu palácio de Petrópolis – bela e imperial cidade de difícil topografia, também se registrou o acontecimento.
O fato levou o imperador a descrever o caso, em minúcias, publicando a narrativa na revista britânica “Nature”. O sismólogo conterrâneo e coevo conta tudo isso e mais: “Meu livro mostra que não só existem terremotos no Brasil, como eles podem trazer problemas às pessoas e às cidades”. O principal abalo de João Câmara, com magnitude de 5.1, danificou mais de 4 mil construções e produziu 26 mil desabrigados.
Veloso fala de cátedra. Pesquisador aposentado pela Universidade de Brasília foi designado para manifestar-se. Declarou: “É uma experiência pessoal impactante chegar a uma região remota e explicar que aqueles abalos não são castigos de Deus ou coisa que o valha. Não dá para ser um cientista de sangue frio o tempo todo. Na incumbência de acompanhar sequências sísmicas com duração de dias e semanas no Rio Grande do Norte, no Ceará, em Pernambuco e em Minas Gerais, particularmente em cidades pequenas, percebi que logo surge uma afetividade entre o sismólogo e os habitantes locais. O técnico passa a ser referência para orientar a população. Aí a responsabilidade aumenta, porque você não está apenas registrando abalos de terra, mas lidando com a segurança e o bem-estar das pessoas”.
Abalos desse tamanho acontecem a cada cinco anos em algum lugar do Brasil. Onde? Ninguém sabe’. O que temos de fazer é continuar monitorando e estudando os novos tremores, porque eles continuarão acontecendo”.
Assim, o aumento da frequência já bem perto da capital construída nos terrenos de Curral del Rey. Esperou-se mais de cem anos para identificar o problema que Aarão Reis não adivinhou.


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Por Manoel Hygino - 25/3/2016 16:53:39
Os ministros acovardados

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Leandro Mazzini, o bem informado jornalista que cobre Brasília para esta folha, publicou em sua “Coluna Esplanada”, há poucos dias, nota que terá sido lida por quem se interessa pelos destinos deste país. Dizia que, com a entrada (que até hoje não houve, por força de decisões judiciais) de Lula no governo, e com a efervescência popular dos protestos contra a presidente, o PT enviou seus principais expoentes sondar o quadro nas Forças Armadas nos últimos dias.

Realmente, a situação no país é de inquietação e as manifestações de rua se prestam a validar a necessidade da escuta. Há descontentamento em ponderáveis parcelas da população, mas é sensível a atuação daquele segmento que se forma nas vias públicas das capitais, com transporte pago para levá-lo de distantes regiões para hipotecar solidariedade à chefe do governo e ao ministro não empossado.

Os grampos de conversas entre autoridades são documento precioso para se avaliar a hora que atravessamos. Esses diálogos levam a conhecimento geral os planos e atividades de poderosos esquemas criminosos.

As Forças Armadas não pretendem entrar nesse imbróglio perigoso, “a não ser que sejam convocadas a cumprir com o seu dever”, segundo o senador Jorge Viana, do PT do Acre. Mas incomoda incontestavelmente que o atual governo tenha escolhido para ministro da Defesa um integrante do PCdoB, exatamente no octogésimo aniversário da Intentona de 1935. Esta deixou dores profundas nas famílias dos militares, mortos inclusive dormindo, nos atos sangrentos daquela frustrada rebelião.

O próprio Mazzini registra como foi a reação no Ministério da Defesa à nomeação da ex-deputada Perpétua Almeida, do PCB do Acre, para secretária de Produtos de Defesa da pasta. Cabe-lhe controlar vultosos contratos relativos à aquisição de armamentos, munições, veículos e equipamentos, numa área antes comandada apenas por especialistas.

Uma situação constrangedora, pois. Mas os militares decidiram, para amenizar – se possível – o clima no ministério, indicar um experiente general para monitorar de perto as ações da ex-parlamentar, e assim se vai carregando o andor.

De todo modo, a situação é tênue. Enquanto a assessoria do ministério nega qualquer tipo de indisposição, a secretária permanece gerindo a base industrial da Defesa, que conta com 200 fornecedores de grande porte.

Nos altos escalões, o silêncio é total sobre o tema, mas paira no ar o sintoma de não simpatia. Militar não fala, nem deve, a não ser em última instância. Mas, em meados de março, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, foi o convidado para uma conferência, em Manaus, dos comandos da região amazônica de fronteira. Nada de mais. Em declaração à imprensa, o ministro não pôde deixar de emitir opinião sobre a conversa telefônica gravada, em que Lula acusa os integrantes do STF de estarem acovardados, o que evidentemente ofendeu os membros da Suprema Corte.


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Por Manoel Hygino - 17/3/2016 10:39:42
Perdemos até a graça

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Um país com antenas ligadas aos acontecimentos políticos e jurídicos, com foco sobretudo em Curitiba, São Paulo e Brasília. Aliás, não poderia ser de outro modo. Os fatos são extremamente graves para que o cidadão os ignore. Defende-se a tese de que as instituições funcionam... Funcionam?
Em Montes Claros, a maior cidade do Norte de Minas, apreenderam dois rapazes de 15 anos, suspeitos de tráfico de drogas em uma escola e que promoviam desordens no estabelecimento, mediante explosão de bombas caseiras. Em suas mochilas, encontraram buchas de maconha. Noutro bairro, num Centro Socioeducativo do Adolescente, com nome de Nossa Senhora Aparecida, um agente abriu alojamento para conduzir um interno para atividade recreativa, e foi surpreendido por outros jovens, armados com chuços, que imediatamente evadiram após ferirem funcionários.
Assim se funciona.
A Justiça Federal do Rio de Janeiro estuda obrigar o INSS a fazer perícias médicas em até 15 dias do agendamento. O pedido liminarmente foi deferido na ação civil pública que o Ministério Público Federal moveu contra o INSS em razão da greve dos peritos. Os requerentes chegam a sofrer 180 dias de espera. “O que nós concluímos é que o modelo que existe, onde tudo depende do perito, não funciona mais e não conseguimos resolver esse problema”. A declaração é do subprocurador da República, Darcy Vitobelli, que aduziu: a greve que terminou em fevereiro só agravou o problema.
Não conseguimos enganar-nos o tempo todo. Sabemos que a situação é extremamente delicada e que a referência à boa fase das instituições e do Estado não corresponde à realidade. As pessoas estão indignadas, desesperançadas, acabrunhadas e a alegria nas grandes promoções artísticas e do Carnaval é só lenitivo e efêmero.
Quem obrigatoriamente recorre aos meios de comunicação percebe que más notícias predominam e que responsabilidade e culpa não cabem à imprensa ou aos jornalistas. As constatações resultam do próprio teor das informações, retrato fiel e triste da nação.
As áreas de saúde, de educação e de segurança, que envolvem o cidadão e as famílias, direta e duramente, são uma lástima. O Aedes aegypti, cujo malefício vem de longe no tempo e no espaço, se tornou praticamente igual ao câncer em ameaça à população. As prefeituras não têm condições de manter postos de atendimento aos doentes e a União está zonza no turbilhão de demandas.
Em verdade vos confesso que nos encontramos em período doloroso, sobretudo porque a sociedade não crê mais nos gestores do bem público, enchafurdados na maior calamidade ética da história brasileira. E temos mais de cinco séculos de descoberta da terra por Cabral, cujo feito sequer serve mais para bem-humoradas letras do tríduo momesco.
Apesar de tudo, as manifestações do último domingo (13), em todo o país, parecem servir de consolo e de algum sinal de esperança. Há milhões que esperam; e, enfim, milagres acontecem. É o que as multidões nas ruas e os milhões que permaneceram em casa aguardam. Ainda.


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Por Manoel Hygino - 12/3/2016 10:17:34
Manifestações perigosas

Hoje em Dia

Manifestações como as que se pretendia promover em capitais brasileiras, em 13 de março de 2016, deixam apreensivas as pessoas de bom-senso, principalmente quando se vive aqui período tão conturbado como o atual. As instituições funcionam, embora sob o clima denso e tenso de horas difíceis, de que podem valer-se os que se movem por instintos perversos, os desesperados, os baderneiros, enfim aqueles para os quais quanto pior, melhor.

Vem-me da memória um acontecimento terrível da história da Rússia em 1905, quando o povo, sofrido mais do que antes pelas dores da guerra e crescentes necessidades, se sentia desprotegido e começava a não crer na bondade do czar. Documentos com reivindicações eram encaminhados ao soberano, mas nenhuma resposta prática e válida era oferecida. Um dos grandes apelos era a jornada de trabalho de 8 horas, que constituía uma espécie de grito de guerra do padre Gapon, da Igreja Ortodoxa. Era mais um reformador do que um sacerdote, bom orador, mas que também defendia o dever de fidelidade ao czar.

Com 32 anos, magro e de rosto encovado, barba negra pontuda, tornou-se o ídolo da massa em Petrogrado, ex-São Petersburgo, a capital. Sua União dos Operários Industriais Russos se tornou movimento nacional e Gapon, após assistir a uma incômoda e inútil greve de quatro dias por postulações operárias, marcou uma grande manifestação para o domingo, 22 de janeiro de 1905, às 14h, em frente ao Palácio de Inverno, residência da família imperial. Seria um contato direto do soberano com a massa.

Tudo acertado, a multidão, com homens, mulheres e crianças, se aglomerou nas ruas cobertas de neve, carregando ícones e retratos do czar. Gapon à frente. À medida que se aproximava do Palácio, cantava o “Deus Salve o Czar”. O sacerdote levava à mão o pedido de oito horas de jornada, de salário mínimo de um rublo ao dia, de supressão das horas extras de trabalho e de uma assembleia constituinte.

Nicolau II se tinha ido a outra residência oficial. Diante do Palácio de Inverno, parece que os comandantes militares e policiais foram atingidos por uma espécie de pânico, quando os manifestantes não se dispersaram, a despeito da ordem. Os operários a sua vez estavam extremamente ansiosos por se aproximarem do czar. A guarda do palácio abriu fogo. A gente gritava e se debatia.

Mais de 500 pessoas morreram e milhares ficaram feridas. Os que assistiram ou passaram ali depois guardaram para sempre a lembrança do sangue sobre a neve. O imperador irremediavelmente se desligara para sempre dos súditos mais simples e humildes. Este foi o Domingo de Sangue.

O padre Gapon se viu constrangido a fugir, através da fronteira da Finlândia. Mandou mensagem a Nicolau: “O sangue inocente dos trabalhadores, de suas esposas e de seus filhos ergue-se entre vós, ó alma destruidora, é o povo russo. Nunca mais poderá haver relação moral entre vós e ele... Que todo o sangue derramado, carrasco, recaia sobre vós e sobre os vossos”.


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Por Manoel Hygino - 10/3/2016 12:00:43
Por Manoel Hygino -

Fatos e lições perenes

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não gostaria de permanecer no tema, que incomoda todos os brasileiros – patriotas e de bom senso. Mas o assunto se mantém no cotidiano inquieto de uma nação que não goza tranquilidade para trabalhar e produzir e ser feliz. Enquanto isso, a crise econômica se agiganta, eleva-se a inflação, perde-se a credibilidade internacionalmente e as dificuldades da população se avolumam – até para aquisição dos produtos de primeira necessidade.
A corrupção não é só nossa, tampouco interessaria que o fosse. Um balanço dos fatos mostra que a irmã do rei Felipe VI, da Espanha, infanta Cristina, continuará no banco dos réus em um amplo processo de desvio de fundos públicos, após rejeição do pedido de arquivamento do caso por fraude fiscal.
Em Israel, o problema avançou mais. Em meados de fevereiro, o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert foi levado a um centro penitenciário para cumprir pena de 19 anos por corrupção. É o primeiro ex-chefe de governo no país a sofrer a punição. Olmert está com 70 anos.
Na Polônia, o ex-presidente e líder histórico do Sindicato Solidariedade, Lech Walesa, prêmio Nobel da Paz em 1983, foi acusado de colaborar nos anos 1970 com serviços secretos comunistas. A denúncia foi formulada pelo Instituto Polonês de memória nacional. O chefe da instituição oficial, que instrui crimes nazistas e da época comunista, Lukasz Kaminiski, afirma ter encontrado no arquivo pessoal de Walesa manuscrito de colaboração por ele assinado, bem como recibos escritos com o pseudônimo “Bolek”.
Na Bolívia, o governo denuncia que circula na internet ameaça de morte contra o presidente Evo Morales. É parte de uma “conspiração” em um contexto de polêmicas que atingem o governante e sua ex-companheira, presa por enriquecimento ilícito.
A corrupção é universal e perene. No Novo Mundo, sequer o Haiti escapou. O ex-presidente Jean-Claude Baby Doc Duvalier, falecido em Porto Príncipe, a capital, em 4 de novembro de 2014, ao voltar para a pátria a fim de “ajudar o seu povo”, foi acusado de prisões ilegais, tortura, exílio forçado de adversários e malversação de fundos durante seu regime. Negou-se a comparecer à Justiça, mas em fevereiro de 2013 acedeu. O Judiciário ordenou novas investigações, mas a morte foi mais veloz.
Em tempos mais recentes, parece ter-se armado uma grande conspiração contra os corruptos, os dilapidadores do erário, os usuários e beneficiários dos bens públicos. Está-se criando uma consciência nacional, em todos os países, de que a propriedade publicada, os seus serviços e seus dinheiros têm de servir ao cidadão, à sociedade, ao povo, seu efetivo dono. As instituições, como sentenciou Ruy Barbosa, não caducam pela sua antiguidade, mas pela imoralidade dos homens que a representam, que as encarnam e que as exercem. Eis uma lição universal.
Outra lição é válida, agora: “Os partidos que se formam por amizades, por conveniências inconscientes, por influxo de nome, dependências e combinações individuais, não têm razão política de existir, são sindicatos de especulação organizada, que destoem a mora pública e corrompem as instituições”.


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Por Manoel Hygino - 1/3/2016 09:10:17
O estrondo em Mirabela

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Em 6 de fevereiro de 1930, registrou-se, em Montes Claros, grave acontecimento, de natureza eminentemente política, que resultou em numerosas mortes e feridos. Era, por assim dizer, o prenúncio da revolução daquele ano, que removeria, em outubro, do Palácio do Catete, o presidente Washington Luís e, após um curto intermezzo militar, na sua substituição por Getúlio Vargas. Ao episódio, Assis Chateaubriand denominou “emboscada de bugres”.
No final quente de sábado 6 de fevereiro de 2016, não muito longe da maior cidade do Norte de Minas, onde se deu o episódio anterior, ouviu-se em Laranjeiras, zona rural de Mirabela, um grande estrondo, uma forte explosão. A terra tremeu, os moradores de medo tremeram admitindo o pior, algo tenebroso que viesse das entranhas mais recônditas do subsolo.
Diante do interesse da imprensa, o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília informou que a área tem um “histórico de sismocidade”, como se trouxesse novidade. No domingo, não houve meio de confirmar o evento, pois nos equipamentos da região como se explicava, não havia funcionários trabalhando no feriado (?) de Carnaval.
Imaginamos se o tremor resultasse de algum meteoro como aquele que atingiu a Rússia há três anos. Ele entrou na atmosfera da Terra sobre o Atlântico, na costa do Brasil, no dia 6 de fevereiro, às 11h55. Observe-se a data: 6 de fevereiro. O mais recente deles se queimou na atmosfera, liberando o equivalente a 13 mil toneladas de TNT. Por felicidade, a bola de fogo estava a trinta quilômetros sobre a superfície do mar e a 100 km da costa de nosso país.
Se houvesse algum risco para o Brasil, poderia causar prejuízos incalculáveis. É indispensável ficar-se atento a que 30 pequenos asteroides, que medem de 1 a 20 metros, entram na atmosfera deste planeta anualmente, segundo leio no montesclaros.com. A maioria cai nos oceanos e não afeta áreas habitadas. Ainda bem.
Mas poderia acontecer como na Rússia, no outro fevereiro, o de 2013. No dia 15, um meteoro despencou em Chlyabinsk, ferindo mais de mil pessoas, grande parte atingida por estilhaços de vidro de janelas. Já em 30 de janeiro de 2016, astrônomos previam que uma nuvem gigante de gás colidiria com a Via Láctea. Os técnicos do Hubble Space Telescope preconizavam que, quando a nuvem entrasse em contato com a Via Láctea, provocaria grande explosão, liberando a misteriosa massa de gás, rica em átomos de enxofre e causando transtornos extremos. Ela se acumulara nas regiões externas do disco galáctico da própria Via Láctea durante 70 milhões de anos. Os astrônomos conseguiram apenas extrair mais experiência sobre o que está além da percepção do homem atual.
Os cientistas do espaço não gozam dia de Carnaval. Em Mirabela, quedou a lembrança do estrondo, que será contada às novas gerações. Aqui, porém, estamos no Brasil. É outro mundo.


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Por Manoel Hygino - 11/2/2016 08:24:08
Como rabo de Cavalo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

As perigosas aventuras no esporte não terminaram. Em julho de 2014, Mario Vargas Lhosa comentou para o mundo ler: “Fiquei muito envergonhado com a cataclísmica derrota do Brasil frente à Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, mas confesso que não me surpreendeu tanto”. “No futebol, assim como na política, é mau viver sonhando, é sempre preferível se ater à verdade, por mais dolorosa que seja”.
Não comento suas observações sobre utilização de dinheiro público na Copa, inexistente segundo fontes oficiais. Mas não me permito ignorar seu comentário sobre as construções para o campeonato mundial de futebol: “As obras em si constituem flagrante de delírio messiânico e enfática irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria Fifa, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato”.
Evito tocar nos aspectos especificamente políticos envolvendo a Copa, mas lembro, por exemplo, há poucos dias, uma reportagem de televisão sobre a arena de Manaus. Consumiu-se ali mais de R$ 600 milhões e o estádio foi usado pouquíssimas vezes. Dinheiro jogado fora, enquanto falta à saúde, educação e segurança. Mas não é tudo.
As Olimpíadas consumirão muito mais ainda, exatamente quando as “burras” do Tesouro estão praticamente esvaziadas, enquanto a construção civil registrou em novembro a perda de 3 milhões de postos de trabalho. Delfim Netto, em artigo, há cerca de dois anos, comentou sobre a inconveniência de o Brasil sediar a competição, por não resultar em resposta positiva do PIB a investimento.
O economista alertou: “mortal mesmo é financiar despesas de custeio, de pessoal, ou aumentar a relação dívida/PIB com mais aumento da dívida. O que ocorrerá com mais de 100 mil trabalhadores que serão dispensados simultaneamente com o fim das obras da Olimpíada no Rio de Janeiro, em maio de 2016?”
A mim me impressiona, sinceramente, as plúmbeas perspectivas que temos para este ano, embora governo e população pareçam tão motivadas para a alegria momesca e os jogos programados. A gente deste país protesta contra centavos a mais nas passagens de em transporte coletivo urbano, mas esquece a fábula do que se está gastando para sediar as competições.
Para este velho ermitão, essas temporárias expressões de euforia não me convencem. Sobretudo quando confirmados os horizontes sombrios que preconizam os conhecedores de economia.
Quem não viu que a taxa de desemprego no Brasil subiu para 9% no trimestre encerrado em outubro, conforme informado pelo IBGE, um organismo respeitável? Um número doloroso: 9,1 milhões de pessoas procuraram e não conseguiram emprego no trimestre terminado também em outubro de 2015. Os números e percentuais não são saudáveis. E ainda: o setor de saúde será o que sofrerá maior impacto negativo em termos de empregos nos próximos cinco anos.
No momento, estamos como se comenta em minha cidade natal: o país cresce como rabo de cavalo – para baixo.


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Por Manoel Hygino - 29/1/2016 16:35:35
Risco nuclear: nem um pio

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia


Depois das trágicas consequências dos desastres nas usinas nucleares de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, considerado o pior acidente da história, e de Fukushima, o mais recente, em março de 2011, no Japão, pensava-se que o Brasil repensaria a construção de unidades do gênero no país. Já temos a Angra I, a Angra II e Angra III, instaladas no litoral do estado do Rio de Janeiro.
São registros bastante conhecidos, pois amplamente divulgados pela imprensa de todo o mundo e criticados por autoridades de várias áreas, inclusive científicas e políticas. É sabido que a produção de energia pode ser alcançada por outros meios menos perigosos para as pessoas e nações, para o próprio futuro da humanidade. Os países desenvolvidos estão mudando seus planos de geração energética e caminhando para outras soluções, inclusive desativando algumas usinas.
No entanto, nosso jornal publicou, em 19 de janeiro, a notícia de que o governo brasileiro tem estudos para viabilizar, em quinze anos, usinas no Norte de Minas, entre Pirapora e São Romão. Não se trata de apenas uma, “às margens mineiras do Rio São Francisco” até 2030. Isto é: daqui a pouco, porque o tempo é célere e não para.
Das quatro programadas, com mil megawatts cada, seremos “contemplados” pela Eletronuclear com duas, definição que sairá ainda neste nosso bissexto 2016. A água do Rio de São Francisco resfriaria os geradores atômicos e seria despejada de volta à corrente.
Não será difícil talvez compreender a razão de tão alta deferência. Recebemos a distinção em silêncio, sem uma palavra de contrariedade ou um grito de repúdio das autoridades norte – mineiras, representantes de um povo tão altivo e bravo. Pelo menos desconhecemos qualquer reação, mas
ninguém ignora que os acidentes nucleares constituem elevadíssimo perigo. É alto o risco de contaminação para as pessoas, porém, como acontece com o solo e a água.
Quanto aos seres vivos, em primeiro lugar o homem, eles podem morrer ou desenvolver câncer de diversos tipos. No meio ambiente, exigem-se até centenas de anos para descontaminação da área afetada e imediações.
A grande quantidade de lixo nuclear requer altos investimentos e processos de segurança para armazenagem. Oportuno enfatizar que o lixo atômico não pode ser descartado na natureza, mas sim tratado e armazenado sob rígidos padrões.
As pessoas que vivem nas proximidades das centrais nucleares convivem diariamente com o medo de acidente, como em Chernobyl e Fukushima. Apesar de tudo, no caso específico, nem uma só voz se ergueu em defesa do Norte de Minas, em hora de tão grave decisão. Ficamos mudos!?
É curioso como apenas se lembra daquele grande território do Brasil para projetos arriscados e danosos, como as penitenciárias, mas não se cuida de investimentos para melhor aproveitamento de riquezas regionais, inclusive no que tange ao turismo e atividades agropecuárias. Ali a terra é fértil e bela, laborioso o povo, sobretudo evocado nos períodos eleitorais.


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Por Manoel Hygino - 16/1/2016 09:24:52
Flagrantes cotidianos


Manoel Hygino - Hoje em Dia

O país está paralisado. Menos para reajustes de preços e para o crime. Pergunto-me sobre as razões que levaram ao recrudescimento da violência, objeto de incessantes e judiciosas considerações de especialistas. Não encontro razões para bom humor, paz de espírito, confiança em dias mais felizes.

De minha terra, recebo as notícias em 18/12. Cenário: “Dois pistoleiros de moto executaram estudante, de 15 anos, sem passagem pela polícia, quando este ia para a escola à tarde. Morte imediata. Cai o pano”.

Mais ao Norte, cidade de Janaúba, dia 2/12: professor, 33 anos, em escola estadual é ferido na cabeça com tiros disparados por três rapazes. Estes queriam matar um estudante, também de 15 anos, erraram, e fugiram pelos fundos. Os quase assassinos tinham 16 e 17 anos.

Dia 15/12, Buritizeiro, margem do São Francisco: Cidadão pacato, avançada idade, em sua humilde habitação, é assaltado por três bandoleiros, e duas vezes baleado. Nada lhe furtaram porque a vítima nada possuía. Teve sorte: não corre risco de perder a vida.

Treze horas, rodoviária de Montes Claros, maior cidade do Norte de Minas: brasileiro aguardando ônibus para a capital é agarrado pelo pescoço por dois homens. Tomam-lhe 150 reais. Um menor de 15 anos é preso. Às 10h15, no centro urbano, dois gatunos chegam de moto e atacam homem que sacara 600 reais numa lotérica. Houve um grito de socorro e os marginais fugiram. Mesma cidade, av. Dulce Sarmento, 21 horas, homem de 20 anos é preso: equipado com moto e ajuda de parceiro, desapareceu.Roubava bolsas de mulheres.

Da grande cidade perto do centro do mapa de Minas, um outro registro, 13 de janeiro, ano novo, problema antigo e não resolvido: Com roupas de combate de guerra, três ladrões, um deles armado, aproximaram-se de uma casa, na rua Brasil (nome muito próprio aliás), às 15h30, antes pedindo à moradora, que chegava de carro, que queriam cumprir missão de eliminar os mosquitos. Autorizados, outros dois marginais, renderam a senhora, roubaram 9 mil reais e fugiram. Os vizinhos, ouvindo os gritos da vítima, só puderam ver os bandidos em disparada.

Só sertão? O rico cantor Ronnie Von e a mulher Cristina foram assaltados, em São Paulo, perto da Marginal Pinheiros (logo marginal?), em uma BMW, série 5. Os marginais desceram armados de um carro, com o qual bloquearam a via. Tiveram de completar o percurso a pé, ela ensanguentada, porque lhe tiraram o relógio de pulso à força. O cantor ficou a noite na DP e comentou: “Você perdeu no país o direito de ir e vi”.

O advogado Petrônio Braz comentou: “É dever do Estado garantir a segurança de todos os cidadãos. Grande utopia. Quem ou o quê é o Estado? O Estado, por seus órgãos, está em todos os lugares, a toda hora, para garantir essa segurança? Neste país, os que fazem as leis estão acobertados pela segurança. Para eles, o Estado está presente. Mas, e o restante da população (a que chamam cidadãos?) Já disse e outros disseram: Lei não desarma bandido, mas desarmou o cidadão honesto. A sociedade civil, o cidadão honesto, está desarmado, impossibilitado de exercer o direito à legítima defesa de sua própria vida”.


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Por Manoel Hygino - 30/12/2015 09:15:18
Jesus e os judeus

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Agora que o Natal passou, transformado em pretérito, meditamos novamente com a pergunta pessoal e íntima do velho Machado: Mudou o Natal ou mudamos nós? Em verdade vos digo: os dois mudamos. Seguiremos transformando-nos ininterruptamente, o tempo idem, os costumes, o jeito de ser e fazer.
Por sinal, saiu em 2015 a terceira reimpressão de “Jesus, segundo o judaísmo”, em que Beatrice Bruteau faz rabinos e estudiosos dialogarem sobre a nova perspectiva a respeito “de um antigo Irmão”. De fato, mais de dois mil anos após a execução no Gólgota, continuamos ignorando o menino que nasceu no Oriente, como sempre conturbado, como se pode aferir pelos textos que formam este volume.
A organizadora depõe: “Faz já algum tempo que tenho a impressão de que o cristianismo, na qualidade de religião que fala de Jesus, é em muitos aspectos sobremodo distinta da religião que Jesus praticou pessoalmente e cuja prática estimulou”. Diz ainda, com muita propriedade: “Se pudermos reconhecer que ‘esse homem, distorcido pelo mito cristão tanto quanto pelo judaico, não era na verdade nem o Cristo da Igreja, nem o apóstata e fantasma assustador da tradição popular judaica, já teremos dado os primeiros passos rumo ao resgate de uma dívida há muito contraída com ele”.
No artigo “Yeshua, o hasid”, Daniel Matt, autor de livros importantes sobre temas correlatos e professor de espiritualidade judaica da Graduate Theologial Union de Berkeley, Califórnia, tenta explicar a condenação de Jesus, preso, julgado e entregue à morte porque politicamente ameaçou tanto as autoridades romanas como a aristocracia judaica”. Ele decide ir a Jerusalém exatamente na Páscoa, a mais popular das três festas judaicas de peregrinação, quando se comemora a libertação da escravidão egípcia.
A significação política era imensa. Peregrinos sentiam o enorme peso do domínio de Roma, do imperador Tibério e de seu representante local, Pilatos. Admitia-se a proximidade de agitações e, normalmente, o governador ia de Cesarea a Jerusalém, com tropas extras. Na capital, Jesus atacou os cambistas nos átrios do templo e derrubou assentos e mesas. Desafiava publicamente a autoridade política e religiosa.
Matt comenta, ipsis verbis: “Suas ações ameaçadoras e o anúncio de um reino iminente solaparam o estatus quo de Roma”. Herodes já tinha problemas semelhantes com João Batista, um homem bom, que exortava os judeus a ter vidas justas. O governador/comandante ficou alarmado. Vislumbrava que aquela eloquência tinha tão grande efeito sobre as pessoas que poderia levar à sedição. Eram urgentes medidas para livrar-se de Jesus.
Diz São João, em seu Evangelho, que os sacerdotes temiam a popularidade de Jesus, capaz de conduzir a ações mais drásticas de Roma. O evangelista escreve: “Se o deixarmos assim, todos crescerão nele e os romanos virão, destruindo nosso lugar santo e a nação”.
Caifás, sumo sacerdote, dirigiu-se aos demais companheiros. Precisava-se sacrificar Jesus para benefício do povo: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?”.


81018
Por Manoel Hygino - 23/12/2015 08:49:09
Vapabuçu, dúvida histórica

Hoje em Dia - Manoel Hygino

A história impõe desafios às vezes intransponíveis. Mérito maior do pesquisador/historiador, que não se desvia do ofício, é reconhecer que sua missão pode ser incompleta, precária, até de vida curta.
O primeiro parágrafo sintetiza, por exemplo, um episódio da crônica mineira. Fernão Dias Pais Leme foi para o Norte de Minas em busca de índios para prear, de ouro e pedras preciosas. Quanto a essas, o sonho eram as esmeraldas, sobre as quais se comentava desde o “Tratado Descritivo do Brasil”, de 1587, atribuído a Gabriel Soares de Souza. Sem esquecer os sertanistas Antônio Dias Adorno e Marcos de Azevedo, este em 1611. O desbravador de Taubaté chegou enfim a Itacambira.
O livro primeiro da Receita da Fazenda Real de Minas das minas de Serro Frio, todavia, em registro de 15 de março de 1702, referiu-se às “minas de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro Frio, hoje Itacambira, descoberta pelo guarda-mor Antônio Soares Ferreira.
Informava-se que junto à Lagoa do Vapabuçu poder-se-ia extrair as pretendidas gemas. Vapabuçu, Upabuçu é corruptela de Yupaha-ocu, com o significado de “lagoa grande”, entrando o vocábulo tupi no vocabulário dos estudiosos, dos estudantes e dos curiosos. Assim, classificar a palavra Vapabuçu ou assemelhado de lagoa é ocioso, pleonasmo, embora comum.
Com idêntica designação há também várias. Em Sete Lagoas, na região Central, por exemplo, mas o nome hoje é de um bairro da cidade. Uma terceira fica no curso do rio Boacica, no Nordeste, referida pelo estudioso Levy Pereira, mas que não passa presentemente de uma área de alagadiços.
Fui a Itacambira para conhecer a cidade, a sua histórica igreja, a serra Resplandecente, Vapabuçu, a operosa população, tudo enfim que existe de bom e belo. Lagoa infelizmente, já não encontrei, a não ser uma depressão vazia. Tudo semelhante ao que o primeiro bispo de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta, vira e descrevera em 1926. Seria aquilo o que restou da descoberta pioneira, das lavras antigas?
Aí, ouvi dizer e conferi que em Minas Gerais, na região Leste, um distrito na cidade de Santa Maria do Suaçuí, de nome Poaia, também dispõe de uma Vapabuçu. Fernão Dias por ali teria estacionado sua bandeira quando em busca das pedras preciosas e contraiu febre amarela. Os fatos se assemelham, mas o local é diferente.
Esta lagoa, com 27 alqueires, mesmo na época de seca, se mantém estável. Turistas a visitam e a conhecem, ouvindo dizer ainda que o bandeirante vasculhara esmeraldas e encontrara a morte.
Indago-me: enfim, a verdadeira lagoa de Fernão Dias é a de Itacambira ou a de Santa Maria do Suaçuí, embora haja grande distância entre as duas? Fernão Dias se teria perdido no interior do sertão mineiro ou nós estamos deambulando? A dúvida shakespeariana pode ser válida nas próximas comemorações dos 600 anos do poeta de Stratfordu- pon-Avon, em 2016.
Enquanto se discute o achado do valoroso bandeirante, conviria estudar a construção de um complexo turístico-pedagógico em ambas as cidades, cuja receita beneficiaria seus cofres públicos talvez combalidos. Nem só de esmeraldas e sonhos vive o homem, carente e desejoso dos bens que a sociedade moderna disponibiliza.


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Por Manoel Hygino - 19/12/2015 09:20:19
Contra a corrupção

Hoje em Dia

A corrupção é problema histórico e, evidentemente, não restrito ao Brasil. O que aqui acontece, porém, é algo singular. As autoridades se tornam coniventes ou cúmplices dos corruptos por modos e instrumentos que os últimos acontecimentos demonstram de maneira clara e insofismável, pois amplamente exposto pela imprensa, que tem papel importante no combate ao mal.

Agora, o Ministério Público Federal se pôs em campo, preciosa e vigorosamente, ao oferecer à sociedade vinte projetos de lei, com mudanças legislativas apartidárias, consubstanciadas em um site: http/www.dezmedidas.mpf.mp.br. Chegou, assim, a hora de o cidadão, desde já, aliar-se a esse espírito e propósito, ao invés de contemplar passivamente os fatos.

As dez medidas visam: prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação, criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos, aumento das penas e crime hediondo para corrupção de altos valores, aumento da eficiência e da justiça dos recursos do processo penal, claridade nas ações de improbidade administrativa, reforma no sistema de prescrição da pena, ajustes nas nulidades penais, responsabilização dos partidos políticos e criminalização do caixa 2, prisão preventiva para evitar a dissipação do dinheiro desviado e, ainda, a recuperação do lucro derivado do crime.

O Brasil e os brasileiros estão sendo lesados, incessante e pesadamente, por aqueles que, valendo-se da “bondade” das leis e dos que as elaboram, desviam recursos do erário, agridem por todos os meios as empresas públicas, furtam (e até roubam) sem que haja uma reação punitiva eficiente e rápida contra os agentes do crime. Os casos mais recentes revelam, todavia, que se começa a ter consciência objetiva sobre esse mal, que exige remédios poderosos. A Polícia Federal e o trabalho da Laja Jato, dentre outras ações, demonstram-no claramente.

As medidas aqui relacionadas já foram aplicadas em Hong Kong, do outro lado do mundo. A gatunagem, inclusive oficial, foi extremamente corrupta, durante décadas. Hoje, ocupa lugar honroso no tenaz combate à praga, mediante aplicação de medidas semelhantes propostas agora no Brasil.

Não é simples iniciativa de advogados em tertúlia ou de brasileiros bem intencionados. As proposições se fizeram ou se fazem visando adesão de todos os brasileiros à iniciativa, objetivando alinhamento ao lado da cruzada regeneradora. Quem quiser saber mais e se integrar pode utilizar o site mencionado.

O fundamental é a conscientização de que o apoio da sociedade é essencial, para o que o MPF preparou documentos que precisam receber a assinatura de todos os homens que, nascidos neste país, se empenhem e sentem a premente necessidade de combater a corrupção. Ao fazê-lo, defendem a digna utilização dos recursos e bens públicos pela comunidade.

Como o manifesto dos mineiros, de que se orgulharam os que a ele aderiram e apuseram sua assinatura ao documento de 1943, agora o convite é formulado a todos que têm interesse em ver a nação trilhando o caminho do decoro e do verdadeiro amor à pátria.


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Por Manoel Hygino - 15/12/2015 09:25:00
O futuro nebuloso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não era propósito deste redator falar da situação dramática do país em que nasceu. Ao homem que ama a terra, sua gente, sua cultura, suas tradições e seu passado, confiante no futuro, assistir aos fatos presentes dói profundamente. Quem é o culpado pelo que ora acontece, pela encrenca em que fomos metidos e que compromete a imagem externa do país e as atuais gerações?
Os brasileiros conhecem a que ponto chegaram (ou chegamos), mas não sabem como dele sair. Eis a essência do problema. Na era Getúlio, no exercício do segundo mandato, quando o presidente descobriu que a nação se deixara carregar a um mar de lama (a expressão é dele), sentiu que não poderia deixar-se resvalar pela correnteza corrompida; assumiu a solução drástica, corajosa, trágica: suicidou-se com em tiro no coração. Era 24 de agosto de 1954.
Transposta a barreira do século, longe do local do ato sinistro, a situação do Brasil não é melhor. A sede do governo não é mais no Rio de Janeiro, a residência oficial dos chefes de governo se transferiu ao Palácio da Alvorada que Juscelino inaugurou. Executivo, Legislativo e Judiciário ganharam, com traços de Niemeyer, sedes belas e amplas, mas não o suficiente para contemplar a desmedida ambição dos homens.
Haja vista, a infinidade de processos e investigações que autoridades da República, por suas vias, responsáveis e conscientes, abriram, com toda a divulgação que a imprensa propicia aos remas de interesse pátrio.
Esta é uma hora sumamente grave na vida deste país e desta nação. Evoluímos em muitos sentidos, mas, sobretudo na malversação de dinheiros do povo, no uso indevido e delituoso da máquina administrativa, na falta de sensibilidade aos mais caros anseios, demandas e reivindicações do cidadão.
Pesquisa nacional do Data Folha, em novembro passado, apontou a corrupção como principal problema da atualidade. Seguem saúde, desemprego, educação e violência, embora – num plano amplo – a corrupção abranja todas as demais áreas, constituindo, em última instância, uma forma de violência contra o cidadão e a sociedade. Ela, contudo, ganhou maior força junto à opinião pública, a partir de junho de 2013, quando marcou recorde na série histórica entre nós. Por que? Bela pergunta.
Muitas figuras eminentes da república (convém com r ou com R?) estão na mira das autoridades neste lúgubre ocaso de ano: Que futuro lhes é reservado? E para nossa gente?
A abertura do processo de impeachment da presidente é iniciativa estritamente em consonância com o Estado em que vivemos e a legislação, embora motivos torpes e personagens altamente suspeitos tenham investido em sua aprovação. A despeito de numerosas investigações e da origem e natureza dos fatos delituosos estarem em apuração, verdade é que algo de podre persiste neste reino. Exige plena e aprofundada apuração, para que se resgate a confiança do cidadão e da sociedade nos homens que regem os destinos nacionais. Apuração. E punição, evidentemente.
Caso contrário, todo esforço e sacrifício da população estarão frustrados de vez.


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Por Manoel Hygino - 19/11/2015 09:23:14
Pelas reformas políticas

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Reformas políticas são reclamadas insistentemente, nelas muito se fala, mas as preconizadas ou anunciadas geralmente não correspondem à vontade ou necessidade popular, isto é, ao cidadão pensante e cônscio de suas responsabilidades perante a pátria. Aliás, “pátria” é uma palavra de que hoje pouco se lembra, daí decorrentemente ser menos usado o substantivo “patriota”.
Recordo, por sinal, um e-mail recebido, não sei de que fonte, sugerindo uma emenda à Constituição, ou seja, uma PEC de iniciativa popular com objetivos suficientemente claros. Assim, ficariam abolidas sessões secretas e não públicas para qualquer deliberação efetiva de uma das Casas do Congresso Nacional. Traduzindo-se: todas as reuniões passariam a ser abertas ao público e à imprensa escrita, radiofônica e televisiva.
Valeria a pena meditar. Como conviria determinar que o parlamentar será assalariado somente durante o exercício do mandato. Não haverá “aposentadoria”como membro do Congresso, apenas se contando o período cumprido no cargo, a seu agregado ao do INSS referente à profissão.
O autor da proposta quer também que os senhores congressistas e assessores paguem os próprios planos de aposentadoria, como fazem todos os brasileiros. Serão cancelados os atuais seguros de saúde dos deputados e senadores pagos pelos contribuintes, passando todos a participar do sistema de saúde do povo brasileiro.
Pergunta-se: por que os privilégios ora vigentes?
Mas há mais: aos congressistas ficam vendo aumentar seus próprios salários e gratificações acima dos padrões de evolução das remunerações da população, na duração do mandato. Um item desperta especial atenção: é vedada a atividade de lobista ou consultor, quando o objetivo tiver qualquer laço com a coisa pública. A vedação se tornou coercitiva, principalmente desde os fatos constatados no escândalo do petrolão, uma vergonha para a República.
O membro do Congresso deve ainda cumprir todas as leis que impõe ao povo, sem qualquer imunidade senão quanto à total legalidade de opinião quando na tribuna. Exercer um mandato é uma honra, um privilégio e uma responsabilidade, não na simples carreira. Finalmente, parlamentares não devem servir em mais de duas legislaturas consecutivas, evitando-se o clientelismo, que constitui uma das máculas do Sistema.
No fundo, o que se pretende é que se implante cá na terra descoberta ou achada pro Cabral aqueles preceitos da suposta Constituição imaginada por Capistrano de Abreu:
“Art. 1º – Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara.
Parágrafo Único: Revogam-se disposições em contrário”.
As reformas políticas podem não ser tão complexas como parecem. Devem ser claras e representar os verdadeiros objetos e pensamento da população.


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Por Manoel Hygino - 17/11/2015 08:47:05
O ocidente acossado

Hoje em Dia - Manoel Hygino

13 de novembro, sexta-feira. Em Paris, uma série de atentados na noite que descia sobre a Cidade Luz deixa numerosos mortos. Contá-los foi o primeiro desafio, simultaneamente com o de prestar a imprescindível assistência à uma população estarrecida, enquanto milhões de pessoas acompanhavam as cenas pela televisão em todos os países.
O cruel atentado na França surpreendeu a Europa, que empreende inauditos esforços para receber grupos que fogem da guerra na Síria e de toda sorte de infortúnios em seus países de origem no Oriente Médio e no Norte da África. O ataque terrorista, meticulosamente planejado, organizado e executado, produziu o saldo doloroso de mais de 120 vítimas, segundo as informações do dia seguinte, e centenas de feridos.
O presidente Obama observou que não se tratava de um atentado à capital da França, mas a todos os valores de que a humanidade compartilha. O nível de alerta se ampliou a toda a Europa, sufocada por problemas gravíssimos, inclusive dos emigrantes asiáticos e africanos, que não cessam de desembarcar em condições precaríssimas. No próximo dia 30, deveria (?) inaugurar-se a Conferência Mundial sobre o Clima, em Paris, dilacerada, mas consciente e firme.
A repercussão do episódio ganhou expressão indesviável. Não constituiu mais um ato de violência contra costumes ocidentais e sua maneira de viver. É um repto aos valores cultivados por ponderável parcela da humanidade, que deseja usufruir o direito de exercer sua vontade e a liberdade, confiando não ser impedida de fazê-lo pela força das armas e de bombas.
Não se consideram os eventos de Paris, um entre vários outros em 2015 e em anos anteriores, como expressão de fé e de religiosidade. Não se trata mais de converter beduínos, povos de vida simples, como outrora. Constitui um retrocesso ao nível de atitudes bárbaras, baseadas no ódio.
Neste século, que se desejaria de paz e amor, os acontecimentos trágicos são uma cruel agressão a pessoas e povos, que não praticam a violência do olho por olho e dente por dente. Tudo isso não é compatível com os mais elementares princípios de civilização.
Embora com os gritos em louvor a Alá, o que aconteceu em Paris contradiz o Corão, a bíblia do islamismo, que descreve Alá como “clemente e misericordioso”. Assim, a glória e o mérito não pertencem a Alá, como constou de comunicado dos terroristas.
Poder-se-á comparar, como já o fiz outras vezes, o barbarismo que tenta expandir-se agora à invasão dos bárbaros, nações de nomes e raças diferentes, que dizimaram extensas regiões da Europa, e a própria Roma, deixando um rastro de sangue há séculos. A tudo destruíram, trucidaram-se milhões.
Hoje, não há uma nação à frente dos horrores, pois se forjou um Estado Islâmico, em que se engajam indivíduos de igual índole e disposição de promover a morte e a ruína. O que a França, o mundo ocidental enfrentará, é um novo período de desconfiança, de suspeita, de inquietação e dor, porque o inimigo realmente pode morar ao lado e em nosso meio.
Podemos estar na iminência de uma terceira guerra mundial, como admoestou o papa Francisco. Não bastaram os dois trágicos conflitos do século passado.


80785
Por Manoel Hygino - 3/11/2015 09:34:37
Guerra é guerra

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O Brasil é, ao contrário do que se pensava e se propalava, um país violento. A guerra está nas ruas, nas favelas que receberam o apelido de comunidades mais recentemente, nas rodovias, nos casebres e nas mansões. Posso dizer até que jamais se matou tanto quanto agora – neste nosso tempo de paz. Paz?
A legislação sobre desarmamento nunca funcionou, mesmo com medidas mais rigorosas adotadas nas fronteiras para conter o ingresso de instrumentos letais no Brasil. Somos absolutamente vulneráveis. Vendem-se armas em plena Praça 7, em Belo Horizonte, centro comercial da capital (o centro geográfico é a Praça Raul Soares), e no labirinto das vielas, em qualquer hora do dia ou da noite. Nossa integridade física se expõe aos fabricantes de cadáveres, por motivos múltiplos ou sem razão alguma. A vida humana perdeu o valor.
Há um fato novo. Depois de dez anos do referendo sobre comércio de armas e munições no país e de muitos e até, às vezes, ásperos debates sobre o assunto, foi votado no dia 27 último, em Comissão Especial da Câmara dos Deputados, o projeto de Lei nº 3722/2012, com presença marcante do parlamentar Laudívio Carvalho.
A proposta, de autoria do deputado Peninha Mendonça, do PMDB de Santa Catarina, estabelece o Estatuto do Controle de Armas de Fogo e Munições, altera dispositivos e corrige falhas do Estatuto do Desarmamento. O que se esperaria é que o poder legislativo produzisse os bons frutos de que a população pacífica e ordeira precisa.
Segundo os repórteres do setor, o plenário da Comissão, sempre lotado como de costume e com presença de representações a favor e contra ao projetos, o público deu inusitado calor às argumentações dos parlamentares. Todos eles saíram ilesos dos acalentados debates.
De acordo com a Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições, os deputados federais da Comissão respeitaram e devolveram aos cidadãos a vitória conquistada no referendo de 2005. “A aprovação foi a primeira etapa de uma caminhada grande no que se refere ao tema”.
Segundo Bene Barbosa, presidente da ONG Movimento Viva Brasil, atuante pelo direito dos cidadãos à sua defesa, foi uma vitória do povo brasileiro. “Era preciso devolver ao cidadão de bem o seu direito, tirado durante tantos anos”. Em resumo, agora pode o cidadão armar-se. Melhora ou acirra a luta?
FHC é inteiramente contrário ao documento recém-aprovado. A partir de sua vigência, toda pessoa maior de 21 anos pode possuir e usar arma para defender seu patrimônio e sua vida. Deputados e senadores poderão também andar armados, bem como pessoas que respondem a inquérito policial ou processo criminal, além de agentes de trânsito e de medidas socioeducativas em trabalho.
Enfim, guerra é guerra. Tendo dinheiro para adquirir seu instrumento bélico, todos poderão ter um gatilho e projéteis à disposição, não apenas os marginais.


80749
Por Manoel Hygino - 27/10/2015 09:18:35
A desertificação nos atinge

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Prefeito de Belo Horizonte de 1955 a 1959, Celso Mello de Azevedo foi o primeiro cidadão nascido na capital a comandar seus destinos, slogan de sua campanha. E pôde sentir de perto os problemas da cidade projetada por Aarão Reis, mas também de todos os municípios mineiros, agrilhoados a uma arrecadação incapaz de suprir as necessidades e demandas de sua população.
Convenceu-se de ser imprescindível a modificação do sistema tributário brasileiro, para os municípios não ficarem à mercê da União e eternamente de pires na mão, para implorar ajuda do poder federal. A campanha de Celso tornou-se o Movimento Municipalista Mineiro, iniciando-se uma série de congressos nas principais cidades.
Era preciso mudar... para sobreviver. As ideias levaram a consenso. Os pleitos foram elaborados e definidos em documentos submetidos às mais altas autoridades do Estado e da União, que não tinham muito como contra-argumentar. Passados tantos anos, contudo, a situação da célula mater do sistema político não melhorou expressivamente. O grande quinhão da receita permanece com a União, nem sempre gerida com a consciência de nacionalidade que se exigiria.
Muito dinheiro e poder nas mãos de pessoas ou grupos com interesses nem sempre muito corretos deu no que deu. Os escândalos que se sucedem não são acontecimentos fortuitos e a história recente da República o demonstra à suficiência.
O país não tem conveniente estrutura de comunicação viária, por exemplo, como se constata. A falta de chuvas do período mostram, mais uma vez, que estamos à mercê da natureza, que também sofre os revezes da incompetência administrativa e da corrupção, coadjuvada pela escassa educação da população quanto à preservação dos bens coletivos.
Pois, nos encontros do Movimento Municipalista Mineiro, uma das advertências de técnicos conceituados era que estava em franco crescimento a desertificação de extensas regiões do território mineiro, embora um grupo não aprove a crise presentemente. 2015, cujo término se avizinha, com os graves males causados à população, é nítida revelação das sobejas advertências de décadas atrás. José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente e recursos hídricos, é peremptório: “Apesar de ser reflexo de períodos de seca prolongada, a ação cada vez mais predatória de fazendeiros e da população em geral alterou muito a quantidade de água dos rios, inclusive no que tange à exploração irregular com bombas de captação direta e a perfuração sem critérios técnicos e sem licença”.
Cita também a expansão do desmatamento para abertura de áreas de plantio de eucalipto, geralmente irrigadas com o manancial retirado desses cursos d’água. Nem as veredas celebradas por Guimarães Rosa, antes consideradas intocáveis, escaparam. As formações que funcionam como áreas de drenagem, sustentando o lençol freático que “brota” do chão, estão secando.
Nem se fale na qualidade da água, já que os rios se tornaram receptáculos de resíduos industriais e de dejetos humanos, além de tudo inservível às comunidades. A flora e a fauna estão sendo dizimadas, e ainda se pensa em transposição do São Francisco!
Transpor o quê?


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Por Manoel Hygino - 20/10/2015 08:56:34
As sombrias nuvens desta hora

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Castro Alves, o grande poeta baiano, já cantava: “Estamos em pleno mar”. Mas isso é passado. Em 2015, em plena primavera, poderíamos dizer: “Estamos em pleno deserto”, ampliado a extensas regiões do Sudeste, em cujas capitais estaduais os habitantes acompanham com ansiedade os boletins meteorológicos e a variação do nível das águas das represas abastecedoras de água para milhões.
Temperaturas se aproximam ou excedem os 40 graus, não sendo a marca mero privilégio carioca ou título de filme. O índice de raios ultravioleta atinge o extremo. A umidade do ar despenca. O país se sente inseguro, não só pelas mazelas de políticos e administradores públicos corruptos. A troca de acusações e pretensas defesas cria uma barafunda. Há falta de vergonha e de água, duas crises.
Quem ainda crê em alguém, neste território em que as afirmações peremptórias de inocência e de conhecimento de tramoias horripilantes são seguidas por documentação exaustiva a contradizê-las? E os acusados simplesmente tudo negam, ficando a situação como está ou como antes era. Presídios especiais são insuficientes para essa gente e há até aquele que, foragido da Justiça, alega não querer vir para cá pela falta de celas dignas para recebê-lo.
Consulto José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente e recursos hídricos, experiente, sobre as águas que vêm das nuvens, não as que turbinam os lava-jatos de um país, estigmatizado por maus cidadãos. Ponciano e outros mestres do assunto dispõem de uma estação climatológica Classe A, no norte de Minas, monitorada três vezes por dia. Seus dados foram obtidos durante 28 anos, assim como informações climatológicas trabalhadas para estudo dos ciclos.
Resultado: tendência de pouquíssimas chuvas (ou somente apreciáveis) na última semana de outubro; boas, na segunda quinzena de novembro; intensas em dezembro e janeiro; razoáveis em fevereiro, poucas torrenciais em março. Por enquanto, calor excessivo e crescente consumo de água.
Poder-se-ia perguntar, quanto às crises hídricas e de caráter reinantes no país. Restaria a indagação: Esta situação-limite, vamos dizer assim, poderia ter sido evitada?
Mas, a chuva chegará depois do sol inclemente. A escritora Maria Luíza Silveira Teles adivinhou: “Quando a chuva chegar, meu jardim e meu quintal haverão de mostrar todo o seu esplendor... A vida haverá de renascer e meu coração, povoado de alegria e gratidão, também viverá um novo tempo. Vou voar até plagas longínquas levadas por minha imaginação... “Os corações haverão de abrandar-se e teremos mais amabilidades e gentilezas... Quem sabe até menos crimes e tragédias?...”
E Brasília como estará?
É Primavera ainda, mas é horário de Verão. O clima causa dramas no Rio Grande do Sul e os maus brasileiros ateiam fogo na Amazônia ou na Serra do Curral, ameaçando a capital mineira que já teve belo horizonte e hoje é um amontoado de favelas que abrigam gente de bem e outros que ameaçam até de morte os que ainda o são.
Há dias, dizíamos dos riscos que corre o sistema judiciário brasileiro. Estabeleceu-se a judicialização como meio de fugir dos problemas políticos e econômicos, instrumento para sanar os desafios que nos convulsionam. O juiz Sérgio Moro é inocente útil em um sistema criminoso o está sendo levado pelos fatos?


80688
Por Manoel Hygino - 17/10/2015 09:42:30
Chagas em Lassance

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No dia 23 de setembro, mal chegada a primavera quente de 2015, um homem foi executado à tarde, ao tentar intervir em um assalto à agência dos Correios em Lassance, no distante Norte de Minas, mais perto da capital depois que o asfalto foi construído. Segundo a Polícia Civil, a vítima era funcionário da prefeitura cedido à delegacia. Não resistiu aos ferimentos e morreu no local, conforme divulgou a televisão até no exterior. Os suspeitos fugiram.

A cidade, emancipada em dezembro de 1953, está a 263 quilômetros de Belo Horizonte. Em tempos idos e vividos, para se chegar lá se enfrentava uma onda imensa de poeira, como, aliás, típico na região. Presentemente, tem menos de 7 mil habitantes, pacatos, simples, dedicados a seus afazeres, tomando conhecimento do resto do país e do mundo pelas notícias pródigas dos meios de comunicação.

Não me lembro de homicídio por ali, embora algum deva ter sido registrado desde que percorrida por tropeiros, com suas cargas destinadas aos grandes centros. Daquele pedaço do país partiam tropas para atender às necessidades de alimentos da corte no Rio de Janeiro, a carne de boi, principalmente. Mas quando o lugar nasceu em 1850, pelo empenho do cidadão Liberato Nunes de Azevedo, foram surgindo fazendas dedicadas à agropecuária e à extração do látex de seringueiras.

Entanto, Lassance – cujo nome homenageia o engenheiro-chefe da construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, Ernesto Antônio Lassance Cunha – não cresceu com a velocidade. Progrediu lenta e mansamente, talvez ao gosto dos mineiros, devagar e sempre.

O arraial antigo foi desperto pelo apito dos trens de ferro que chegavam. No interregno, porém, houve um fato muito especial e quase inteiramente olvidado. É que na tranquila Lassance, de gente modesta e amável, apareceu um médico que desejava descobrir as causas de uma infecção que afetava pessoas lá residente ou que por lá passavam.

Este indivíduo era Carlos Chagas, mineiro de Oliveira, que contratado pela Comissão de Estudos de Profilaxia da Malária, para prestação de serviços, montou laboratório em um simples vagão. Enfrentou o rigor do clima, as altas temperaturas, até mesmo o risco de ser contaminado pela misteriosa doença, que ninguém sabia o que era e como deveria ser tratada.

Inclinado sobre o microscópio na placidez do arraial, descobriu, em 1909, um protozoário causador da doença, ao qual deu o nome de “Trypanosama cruzi”, em homenagem ao mestre e amigo Oswaldo Cruz. No ano seguinte, estava consagrado como um dos grandes cientistas do mundo, contribuindo para prevenir e salvar vidas do mal, endêmico na maior parte das áreas rurais da América Central e do Sul, especialmente no Brasil, Argentina e Chile.

Os insetos portadores da doença invadem os casebres, ocultando-se na fenda da parede durante o dia. À noite, saem dos esconderijos e picam as pessoas adormecidas, onde a pele é mais fina. Carlos Chagas descobriu tudo sobre a doença.

Mas em Lassance, os que matam pessoas hoje são os próprios homens, à luz do dia, armados com o que há de melhor para eliminar pessoas de bem.


80622
Por Manoel Hygino - 3/10/2015 08:21:09
Modo mineiro de politicar

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No exercício de cargos na administração pública de Belo Horizonte ou do estado, tive contatos com inúmeros cidadãos que faziam política (muito mais pura, antes). Não é meu tema preferido, mas acompanho os fatos com o interesse que todo brasileiro deve ter com o que nos pertence: res publica.
Dizem que mineiro é eminentemente político e realmente, nesta arte, muito especial. Foi pensando nisso que me lembrei de João Valle Maurício, que atuou nesse campo em nossa cidade natal e no norte de Minas, enquanto se dedicava também à medicina – profissão escolhida para exercer, acima de tudo.
Meteu-se na política municipal e estadual, foi secretário de Saúde de Minas Gerais, período durante o qual manteve seu jeito alegre e comunicativo de atuar. Mauricinho, seu apelidado, gostava de ser o que era e de fazer o que fazia, ao lado da esposa, Milene, escritora como ele, filha de ex-prefeito. Um por genial.
Quando publicou um de seus numerosos livros, João Valle Maurício, da Academia Mineira de Letras, incluiu nele crônicas sobre política e políticos. Assim, começou um dos capítulos: “Mineiro gosta muito de política. Gosta também de emprego público, de requeijão, de molho pardo, tutu com torresmo, de pitar bem devagar, de tomar cafezinho adoçado com rapadura, ainda fumaçando, bem de madrugadinha, na beira do fogão”.
E tem outras preferências: gosta de contar histórias da família, de fazer visita a gente doente, de devoção, de usar patuá, de queixar doença, de fazer de conta que não quer, mesmo quando quer demais. “de tudo isso e m ais um tanto de coisa, mineiro gosta, porém, eu acho, que gosta mais é de politicar.
Esse querer bem já vem de muito longe”.
Assim sendo, a mineiridade tem fama de mineirice, isto é, matreirice e esperteza. Mineiro de tradição não aprecia espiar e brincar, vislumbrando as altaneiras montanhas e os vales verdejantes. Assim goza o bom bucolismo, espalhado e teimoso, nas queridas cidades pequenas, perdidas nas gerais.
No dedilhar de canoras violas, nas suaves cantigas de Reis, nas chorosas serenatas de puro amor, nossa gente se apaixonou, perdidamente, pela boa política. A relação dos aqui nascidos e que a praticaram é uma galeria com estupendos valores. Gente da melhor qualidade e capacidade, todos bem acordados para as fabulações políticas, coisa eu é bem difícil. O avô do escritor-secretário de estado ensinava: “Política é que nem carta de baralho, tem que ser pensada e misturada, mesmo assim, às vezes, engana a gente”.
Outras recomendações: “Pé ligeiro e boca fechada. O fuxico, o mexerico e o cochicho ao pé do ouvido são armas poderosas. Acho que mestre Maquiavel teria muito a aprender com o nosso sertanejo de chapéu de couro, com suas artimanhas eleitorais”, mas sem traições e roubalheiras.
Em resumo: “Politicar é um jogo. É uma doença que pega e não larga. As cidades, quase sempre mesmo as muito pequeninas, eram divididas entre dois partidos. Os grupos entravam e permaneciam em estado de beligerância sem tréguas. Eram adversários irreconciliáveis, a grande maioria nem mesmo sabia o motivo de tão radical posicionamento”.


80613
Por Manoel Hygino - 1/10/2015 08:52:17
Os judeus por aqui

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Iara Tribuzzi, autora de excelentes textos e com livro já publicado, contou-me que Frei Gotardo, antigo pároco de Salinas, holandês e franciscano, apontava que algumas povoações do norte de Minas seriam anteriores às cidades mineradoras e históricas. Afirmou também que o sacerdote entregou aos fundadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), os registros comprobatórios, arquivados pelos sacerdotes que o precederam. Segundo ele, a queda de Maurício de Nassau, com a expulsão dos holandeses de território brasileiro, causou o êxodo dos judeus do Recife. Deste modo, muitos deles desceram pelos sertões da Bahia e se assentaram nas terras onde encontraram sal à flor da terra, isto é, Salinas e arredores.
O sacerdote observava ainda que, nas décadas de 40/50 do século passado, muitos dos fiéis, católicos praticantes, não permitiam que as famílias consumissem carne de porco, peixes remosos (de couro) ou caças de casco fendido. Mostravam-se, entretanto, católicos fervorosos, rezando o terço em família e ajudando generosamente no Apostolado da Oração, as mulheres, ou na Sociedade de São Vicente de Paulo, os homens.
O assunto tem sido pesquisado por estudiosos do tema, enfrentando a precariedade dos arquivos. Não se pode duvidar da presença dos judeus no Brasil, por motivos óbvios. Pernambuco se tornou uma terra prometida para a população judaica, como assinalou Leonardo Dantas Silva, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, autor de “Holandeses em Pernambuco”.
A população judaica procedente de Portugal (os sefarditas) e da Polônia e da Alemanha (os arkenazins) se deu bem em terras pernambucanas por força da tolerância religiosa nos tempos de Maurício de Nassau. A área entre a foz do rio São Francisco e o Maranhão se fez conhecida como o “Brasil Holandês”. Num trecho do Recife, na Porta de Terra, no caminho de Olinda, construiu-se e funcionou a primeira sinagoga das Américas.
Com a volta de Nassau aos Países Baixos, a situação se deteriorou. Os luso-brasileiros resolveram retomar propriedades antes ocupadas e garantidas pelos exércitos da Companhia das Índias Ocidentais. Recife foi sitiada e oito mil pessoas ficaram sem comida, apelando até para os ratos às refeições. Até que pelo mar, chegou auxílio da Holanda.
Quatro centenas de judeus de Recife e de Maurícia, a ilha de Antônio Vaz, regressaram aos Países Baixos. Outros se dispersaram por novas colônias do Caribe e da América do Norte, inclusive fundando a Nova Amsterdã, a Nova York. Não poucos se dispersaram por território sul-americano e brasileiro, é claro. Estão aí, como judeus ou já católicos praticantes, embora identificáveis pela tez, pelos cabelos e a cor dos olhos.


80589
Por Manoel Hygino - 26/9/2015 08:49:40
A satisfação com o regime

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Por mais que grupos e pessoas se esforcem para dar pelo menos aparente alegria às cidades brasileiras, com shows e espetáculos públicos para os mais variados gostos, a verdade verdadeira é que paira sobre nós um clima cinzento, denso e de inquietação. Não há como escondê-lo, e só o pior cego não percebe que o brasileiro está apreensivo e tenso. O que será amanhã?
O entretenimento do picadeiro é fugaz, a realidade cotidiana rígida, pertinaz e duradoura. O espetáculo da política pode causar apenas algum enlevo a segmentos da população, mas o êxito... Só favorece os atores privilegiados. A glória não beneficia a plateia.
O brasileiro precisa ser escoteiro, sempre alerta à realidade, que sofre modificações incessantemente. Quem não as acompanha, pode perder o propalado trem da história. É preferível antecipar-se aos fatos do que arrepender-se.
A ministra do Superior Tribunal Federal (STF) Carmen Lúcia Antunes Rocha, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (aliás, a primeira e única até hoje), teceu considerações pertinentes em entrevista a um jornal. Suas observações merecem especial atenção, se levar em conta que a magistrada presidirá, no ano que vem, o Supremo Tribunal Federal, a primeira mulher a assumir o posto na mais alta Corte de Justiça do país.
A ministra defende que o brasileiro saia em defesa de seus direitos, não se restringindo a reclamar contra situações que exigem melhoria, aprimoramento, contenção ou extirpação de desvios.
Declarou ipsis verbis: “As pessoas de bem têm que reagir e agir no sentido de mudar a situação, e não de abandonar coisas como se não tivessem a ver com elas. Os assaltantes, traficantes, acabam tendo uma audácia muito maior porque sabem que as pessoas não vão agir. Então, é preciso que quem seja de bem mantenha a audácia para também reagir”.
O conselho tem validade bem mais ampla. Não se pode esconder ou omitir, deixando que as coisas fluam a bel prazer de alguém ou das circunstâncias, em detrimento da maioria e do bem. São lições triviais, mas preciosas.
“Cidadania e democracia se aprende”. “O cidadão, dede os jovens até os mais idosos, mantém ciência muito clara do que representa o regime democrático”.
Temos de lidar com prudência, mas sem medo. O Brasil é nosso, e governos nós os escolhemos. A nação tem de desenvolver-se.
Aliás, muito a propósito veio o Estadão, ao publicar, no dia 24, que “desde 2008, o Ibope perguntou à população em idade de votar quão satisfeita ela está com o funcionamento da democracia no Brasil”. Segundo o jornal, “os resultados nunca foram brilhantes, ainda menos se comparados a países latino-americanos como Uruguai e Argentina, mas jamais haviam sido tão chocantes quanto agora”.
Em resumo, só 15% dos brasileiros se confessam contentes, sendo satisfeitos 14% ou muito satisfeitos, 1%, com o jeito que o regime democrático funciona no país. Isto é, um cidadão em cada três está “pouco satisfeito”, (36%), 45% nada satisfeitos”. Na série histórica, nada há parecido com tal nível de insatisfação.


80544
Por Manoel Hygino - 17/9/2015 08:47:08
Aconteceu em Antônio Olinto

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Sequer era um povoado, mas um ajuntamento de casas em torno da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, ligando os grandes centros ao sertão. Quando houve um surto de coqueluche em minha cidade, nossos pais concluíram que devíamos abrigar-nos ali, longe da poeira das ruas. Havia tranquilidade e ar puro. Assim era a Antônio Olinto que conheci criança, em sossego pleno e sob carinhoso cuidado.
Antônio Olinto foi o primeiro presidente de Minas na República, antecedendo a Cesário Alvim. Natural do Serro, professor, jornalista, político e engenheiro, só ficou no cargo até 24 de novembro de 1889. O tempo passou e, como sempre, sofreu a avalanche de mudanças rápidas. Em agosto de 2015, em Antônio Olinto, zona rural de Montes Claros, a polícia entrou em ação num clube, quando surgiram denúncias de indivíduos aparecerem ostentando armas, vendendo e consumindo produtos perigosos, inclusive a menores. Todos os indivíduos , detidos ou apreendidos, apresentavam sintomas de ingestão de bebidas alcoólicas ou uso de drogas.
A lembrança alerta para a degradação do ambiente em que vivemos. O pacato lugarejo, que contribuíra para recuperação da saúde das crianças, foi golpeado por forças estranhas ao meio, ignorando a lição de São Francisco de Assis, louvando o Senhor, “pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”. Contrariamente às benesses, surgiram o fumo, o álcool e as drogas, que dizimam a geração de hoje e degradam o ser humano desde a infância, contribuindo para destruição dos vínculos familiares.
A sociedade não se preparou para essa guerra. Os tóxicos invadiram e dominam o mundo, prestando-se a enriquecer os agentes do mal. Já Paulo VI, em 1971, alertava a FAO sobre a possibilidade de uma “catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial”. Esta civilização industrial é a mesma que promove a produção e comercialização das drogas e destrói o ecossistema.
O pontífice (e não faço o registro simplesmente para elogiar a Igreja) observou que o ser humano parece “não se dar conta de outros significados do seu ambiente natural, para além daqueles que servem somente para os fins do uso ou consumo imediatos”... E maléficos, acrescentaria eu. Não nos apercebemos de que se trata de uma advertência sobre problema que ultrapassa a visão simplista das coisas ou a nossa imperdoável omissão diante da degeneração que avança.
O homem e a Terra são indissociáveis. O progresso humano autêntico possui caráter moral e pressupõe pleno respeito pela pessoa e pela natureza. Os humanos de nossa época, porém, talvez mais do que nunca, desconhecem essa realidade ou fazem de conta que desconhecem, procurando servir-se de produtos disponibilizados sem medir as consequências danosas. Presentemente, há ampla e indispensável divulgação de orientações quanto à preservação do meio ambiente. Assim se deve proceder. Mas nós fazemos parte desse convívio e nos vamos extinguindo, moral e materialmente.


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Por Manoel Hygino - 16/9/2015 10:12:41
A Revolução Liberal de 1842

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Pedi para me adquirirem na Assembleia Legislativa do Estado um exemplar da “História da Revolução Liberal de 1842”, de autoria do Cônego Marinho, originalmente publicado em 1844. Houve solenidade, compreensível diante da importância da obra, que – como se deduz pelas datas – se tornou pouco conhecida.
Com a iniciativa, a Assembleia lançou também um Programa Editorial de Obras de Valor Histórico e Cultural de Interesse de Minas Gerais e do Brasil, coordenado pelo deputado Lafayette de Andrade. Sobre a necessidade de resgatar um momento histórico tão valioso, falaram o presidente da ALMG, Adalclever Lopes, o secretário de Cultura de Minas, Ângelo Oswaldo, e o deputado federal Bonifácio de Andrada. Bonifácio discorreu sobre a Revolução Liberal de 1842, foco do livro, que contrapôs republicanos brasileiros a defensores da manutenção do domínio português. Não era de se estranhar. Estava-se apenas a vinte anos da independência e havia ainda segmentos que desejavam o retorno à situação anterior ao 7 de setembro.
Atravessava-se um momento candente. Quando se proclamou a Independência, o Brasil estava dividido em muitas correntes de pensamento. A abdicação de Pedro I resultaria das pressões. Havia hostilidades a Portugal em muitos lugares e se considerava a própria independência um arreglo. Duas correntes se consolidaram: a liberal e a conservadora. Esta realçava a autoridade imperial, defendendo o princípio da autoridade encarnado no Imperador. Os liberais, por um golpe de Estado parlamentar, tinham conseguido elevar ao poder o adolescente Pedro II.
Em 23 de março de 1841, quando se acirram os ânimos, sob liderança de Bernardo de Vasconcelos voltou ao poder o grupo conservador, com um gabinete ultra. Objetivava dar à máquina governamental do país condições de funcionamento para que a ordem fosse implantada, mas frustrando a autonomia das províncias. Os liberais dominavam o parlamento e se opuseram em campo até por uma solução armada, em Minas e São Paulo.
A certa altura é nomeado presidente da província de Minas Bernardo Jacinto da Veiga, tido pelos liberais como faccioso e autoritário. Enquanto isso, caminhava para Minas, procedente do Rio, Teófilo Benedito Ottoni, líder do liberalismo brasileiro. Em Barbacena, um grupo ocupou a cidade e proclamou José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, presidente interino da província.
Moderado, de arraigados sentimentos monárquicos, Pinto Coelho aceitou a missão, até por temer uma solução republicana. Escreveu uma carta ao imperador explicando os fatos, documento aparentemente não entregue. Mas também divulgou um manifesto, que começava dizendo:
“Quando a pátria periga, é dever de todo cidadão correr em sua defesa; e quando a liberdade é calcada aos pés por um governo ambicioso, empunhar as armas para defendê-la e sustentá-la é a primeira obrigação do homem livre. Nós havemos chegado infelizmente ao ponto de recorrer a esse meio extremo, para defender a nossa pátria, para salvar as instituições livres, a nossa Constituição do aniquilamento total de que é ameaçado por uma facção astuciosa que se apoderou do poder!”.
Infelizmente, o espaço é curto para tão tema importante. Quem quiser saber mais terá de recorrer ao livro do padre José Antônio Marinho, mulato de origem humilde, nascido em 1803, na freguesia do Brejo do Salgado, distrito de Januária.


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Por Manoel Hygino - 10/9/2015 08:58:31
Tudo combinado, nada resolvido

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Insistentemente se tem perguntado: “o Brasil é um país sério?” ou “ o Brasil pode ser levado a sério?”. “O Brasil tem jeito?”. As semelhantes indagações devem ser analisadas principalmente agora, quando se adotaram medidas saneadoras e ainda modestamente penalizadoras como as do caso do mensalão e do petrolão, que parecem indicar tempos mais austeros para a vida política e administrativa do país.
Certo é que a resposta segura só virá depois que a Lava Jato chegar ao término efetivo, quando concluídos os processos, fixadas penas para os réus como determinadas por lei, concluídos s recursos. Precisa ter-se em mente que jamais o Brasil esteve tão atento aos fatos como presentemente, quando os meios de comunicação tenazmente se esforçam por divulgar os fatos como convém. Se houver excessos, também eles poderão sofrer sanções. Assim se procede.
Mas tudo muito longínquo. A cada dia e hora surgem novas denúncias que exigem competentes averiguações. Quem leu com cuidado os jornais destes dias, surpreende-se com o manancial de crimes cometidos contra o patrimônio da nação, que é meu, é seu, de mais de 204 milhões de brasileiros, quantos os somados pelo IBGE há pouco.
Prematuro preconizar o que há pela frente, mas se admite que o Brasil será o de antes e o de depois dos processos em diligência. O povo deste país parece acordar para a nova realidade, que não deve cingir-se a autoridades e partidos que ascendem ao poder para fazer nomeações e indicações a altos cargos, e os em comissão, em toda a máquina administrativa, mas sem respeitar o verdadeiro “patrão”, o cidadão que tudo paga e tudo sofre.
Há comissões parlamentares inquirindo sobre o que obrigatoriamente se teria de saber. No entanto, o direito de defesa – e ele é indispensável – faz com que os debates se desenvolvam igualmente em torno dos interesses e razões (?) dos envolvidos nos delitos, em detrimento do objetivo principal.
Figuras típicas da fase mais aguda da crise que atravessamos nas últimas décadas, suspeitos, acusados e até julgados por improbidade, entram em cena arrogantemente, dedo em riste, para vilipendiar sobre a honra alheia. Não foi assim, por exemplo, no caso de Collor, com o procurador-geral da República?
Vive a nação uma hora grave de sua história, mas que poderá trazer a resposta às perguntas iniciais: O Brasil é um país sério? O Brasil pode ser levado a sério? O Brasil tem jeito? Verdadeiramente, os cidadãos, como todas as nações deste mundo inquieto, aguardam até com ansiedade que luzes sejam lançadas em caráter definitivo. Antes que desabemos pelo escuro precipício da marginalidade e dos interesses criminosos instalados na máquina pública.
O que a nação espera é que as longas discussões, os extensos interrogatórios de CPIs e atividades policiais e judiciais em nada resultem, como em tantas e tão numerosas vezes. Não há mais espaço para decepções e desencantos. O homem do Brasil está exaurido e indignado. O conversário destes dias faz lembrar o professor Afonso Lamounier de Andrade, antigo responsável pelo ensino dos filhos de servidores da Cemig nas Usinas, também, ex-diretor do Atlético: “Tudo combinado, nada resolvido”. É o que não mais se admite.


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Por Manoel Hygino - 27/8/2015 08:21:52
Vista d’olhos pelo país hoje

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Passo em revista notícia sobre fatos de minha cidade natal, a maior do Norte de Minas: o Samu enfrentou dificuldades para atendimento à população porque suas macas estavam retidas nos hospitais; Corpo de Bombeiros é vítima de trote maldoso, seguindo para local de grave acidente em Mirabela, que vitimou criança de 6 anos e a mãe dela – era brincadeira; PM apreende tabletes de maconha e réplica de submetralhadora em um bairro, num quarto de garota de 17 anos; mãe de 49 anos atende apelo do filho, d e 20, doente terminal de câncer, e o mata. O corpo foi para Januária, a mãe ficou presa.
Que rol macabro, tenebroso, de informações! Mas houve muito mais. Operação da PM no trânsito apreendeu, em local proibido, 126 motos e 17 quatro rodas. Jovens tentaram fuga, impedida por disparos de munições de impacto; duas frentistas assaltadas tiveram roubados seus celulares e bolsas; em outro local, ladrões atacaram posto de gasolina e levaram substancial soma de valores; em Várzea da Palma, pela segunda vez, meia dúzia de bandoleiros explodiriam um caixa bancário no Centro da cidade. E mais homicídios e tentativas pelo sertão adentro.
No domingo de protestos políticos e pacíficos nas capitais, uma casa de eventos em Montes Claros foi atacada por bandidos. Agem por atacado, agora. Foram 50 reféns e oito assaltantes. Um segurança e um cliente sofreram agressões, exigindo atendimento hospitalar. Quanto levaram os bandidos não se sabe, só que deixaram o local em carros escuros.
Não só. Homens encapuzados, à noite, atacaram comércio na comunidade de Cana Brava II, zona rural, devidamente armados, roubaram dinheiro, danificaram mercadorias e atiraram em um dos comerciantes. É a nova lei, que vai imperando em todo o Brasil, não só na maior cidade do país, onde se registraram dezoito assassinatos numa só noite.
Os episódios esparsos referidos são apenas reflexos do que acontece no Brasil nosso de todos os dias, sem possibilidade de solução a curto ou médio prazos. As perspectivas são sombrias, no mínimo incertas. Amigo meu, que vive destas horas, que não são evidentemente de otimismo, comentou: “O agosto das sementeiras, onde a natureza exubera para receber o milagre da vida em forma de semente, o agosto está turvo, muito turvo, acima da crosta. A res publica sacode”.
Manifestações nas ruas e avenidas, em cidades grandes e pequenas; insatisfação generalizada no oitavo mês do ano. No distrito de Mocambinho, município de Jaíba, na região em que o BID financiou o maior projeto de irrigação da América do Sul, há tensão. A Polícia Militar tem sido chamada a assegurar a integridade física das autoridades e do patrimônio público. Em Brasília, o clima é aquecido diariamente em discussões explosivas. E o povo?
Recordo com inquietação a pergunta formulada pelo papa Francisco: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” E também: Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos?


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Por Manoel Hygino - 30/7/2015 08:41:38
A hora grave das decisões

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Mais uma vez, a nação vive uma crise: econômica, social e institucional, já sem nos referirmos à moral e ética. A degradação de costumes, de um modo geral, fere os homens probos que ainda acreditam no bem e no bom, no legal e no justo. Age-se sorrateiramente, em grandes negócios, escondendo-se o escuso nas entrelinhas de contratos vultosíssimos.
A elasticidade da legislação – é lei dura mas estica – permite que bons escritórios de advocacia e profissionais conceituados e de elevados honorários consigam a procrastinação das decisões. E aí, mais uma causa da desconfiança do cidadão e da sociedade. A ocasião faz o ladrão, mas a impunidade o estimula. E eis que, no Brasil, a ousadia dos gatunos de alto coturno, aliada à atuação de defensores de incontestáveis méritos, tem impedido que os responsáveis por crimes de efetiva magnitude sejam levados ao cumprimento de rigorosas penas. Poder-se-ia contar nos dedos os que se viram por sua ação iníqua, sobretudo contra o erário e o patrimônio público, serem levados às prisões.
O Judiciário tem sido repetidamente falho nas condenações, não só pela abertura da legislação, mas ainda pela própria situação de magistrados, escolhidos pelos chefes de Executivo. Favores e benefícios marcam os julgamentos, às vezes, minuciosamente arquitetados desde a escolha dos integrantes de tribunais.
O sistema, incontestavelmente pernicioso às mais nobres aspirações de uma nação, conduziu o Brasil ao que ora é, acompanhado com suspeição no concerto mundial. Os recentes acontecimentos, que vêm desde o mensalão – uma experiência de grande significação para nossos costumes políticos e administrativos – evidentemente ferem interesses de pessoas e grupos. Mas é o que deve prevalecer por ser o mais válido e mais servirem ao futuro.
Vivemos um período grave da vida nacional, do qual se deve extrair lições. Não se pode perder ensejo tão doloroso e traumático, para o qual, aliás, recorro a ideias de José Saramago:
“A Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida e o alimento do corpo...”

O Judiciário tem sido repetidamente falho nas condenações


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Por Manoel Hygino - 28/7/2015 09:27:01
A ferrovia ligando oceanos

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Uma ferrovia que liga, na América do Sul, o Atlântico ao Pacífico, cortando a região amazônica do Brasil e do Peru, eis o grande projeto que entra em pauta. Quem faria a grandiosa obra seria a China, talvez por motivos mais ideológicos que econômicos. O país oriental atrai, sem dúvida, a atenção das nações envolvidas no vultosíssimo empreendimento, parecendo demonstrar que a América Latina desdenha ou não se interessa por associação com os do Ocidente.
Não é apenas um projeto portentoso, percorrendo o traçado a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes. Nos círculos oficiais de Brasília e Lima há euforia. Afinal, é algo realmente de grande envergadura, liderado pela China. Quer Pequim fazer muitíssimo mais do que os norte-americanos, que tentaram e não lograram êxito na Madeira – Mamoré, linha férrea de menor extensão e de que restam cemitérios de obras e locomotivas em fase final de degradação desde que o projeto fracassou.
A presidenta confia plenamente no êxito da iniciativa, desde que recebeu a visita do primeiro-ministro chinês, Li Kegiang. Paira entre nós, contudo, o fantasma que faz estremecer os que acompanham as obras públicas no país de Pero Vaz e Pedro Álvares: o espectro macabro abrange os problemas gravíssimos da Petrobras e a transposição do São Francisco, cujas margens, em muitos trechos, são atravessadas a pé e onde os vapores, há tempos, deixaram de navegar como nos velhos e mais amáveis tempos.
Para as autoridades de cá, um novo caminho para a Ásia se abrirá para o Brasil, reduzindo distâncias e custos. Claro que, para consecução do empreendimento, ter-se-á de vencer desafios de engenharia, ambientais e políticos, além de tantos outros que surgiram depois do fracasso da Madeira-Mamoré e da Fordlândia, que reduziu a cinzas o sonho de Henry Ford.
Não se fala onde Brasília conseguirá recursos para cobrir sua participação no negócio, já que o país não tem disponibilidade sequer para pagar contas de medicamentos e aumentar as tabelas de honorários médicos do SUS. Há pessoas que pensam que ainda continuarão enganando indefinidamente, mas o cidadão que sofre muito, e muito mais sofrerá com os anúncios de cortes em investimentos e despesas na última quarta-feira, já sabe o que é falso e falacioso.
Faltando menos de três anos e meio para terminar o presente quadriênio do Executivo, são duvidosos os destinos nacionais. A falta de confiança no governo é notória e se criou confuso ambiente para definição de rumos e grandes construções. Além disso, o que falta concluir em termos de infraestrutura já é imenso e dificilmente se concluirá nos 41 meses vindouros. Quem viver até lá poderá conferir.


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Por Manoel Hygino - 25/7/2015 08:08:46
A guerra urbana aqui e alhures

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não desejo cingir comentários à minha cidade de nascimento, até porque o crime está disseminado por todo o país. Em verdade, a despeito das investigações sobre as operações contra os bandidos (de atuação alguns até em cargos públicos), o panorama não é edificante. A que ponto chegou o Brasil! Transformamo-nos em caso de polícia e os malfeitores insistem e persistem. Não há saída dentro da lei?

No boletim diário que me chega do Norte de Minas, constato: menor de 17 anos foi ferido a tiros à 1h30min, na rua Boa Vontade, bairro Santa Rita, a cem metros de casa. Dois homens em bicicleta, armados de revólver e pistola, aproximaram-se e dispararam. O rapazelho foi atingido no braço e no ombro, correu ao alpendre de casa e os suspeitos fugiram. Detalhe: o menor tem quatro passagens pela polícia. Com ou sem redução da maioridade penal, qual seria o resultado? A rua do atentado é da “Boa Vontade”. E é consagrada pela hagiologia.

Em âmbito nacional, no dia 19, a mídia deu realce à ocorrência de vinte assassinatos em Manaus, desde a sexta-feira anterior. Quem ligou a televisão à noite de domingo, porém, soube: mais seis pessoas foram incluídas no obituário da capital amazonense. Executaram-se 26 pessoas e, na segunda, a soma era de 31.

Cidades pequenas e grandes do país se tornaram verdadeiros matadouros humanos ou palcos de matanças. As estatísticas dizem o suficiente. Nos presídios de Manaus, novos registros, enquanto cenas de violência se repetem em Belém, São Luiz, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte. Observa-se que as autoridades procuram debelar a onda, mas o território já está minado. Não me referi ao Rio de Janeiro e São Paulo, interminável agenda para as pautas jornalísticas. O terror se encontra praticamente instalado, por mais que a expressão seja forte. Forte, mas verídica.

A Amazônia do presente está muito, muito, distante da de séculos atrás, mas a luta pela conquista da terra e pela civilização ainda não terminou. Bem a propósito, Fábio Lucas, em “Peregrinações Amazônicas”, evocou Thiago de Mello: “A Amazônia já não é mais a região misteriosa de antigamente, um exótico celeiro de lendas. Não é a Manoa do Lago Dourado, nem o País das Amazonas. Também já não se trata apenas do paraíso, com a bem-aventurança da luz na poderosa quietude da selva. Nem do inferno rubro do fogo das febres, de serpentes e peçonhas. Mas, muito dela ainda resta por ser descoberto”.

Fábio Lucas registra que, com a implantação da Zona Franca de Manaus, um boom é experimentado por Manaus. O Teatro Municipal foi reaberto, assim como a Universidade. “A elite local, mais uma vez, está sintonizada com o consumismo internacional”. Em contrapartida, a cidade não dispõe de cinturão verde, o leite, a carne e os hortifrutigranjeiros vêm de fora. O comércio se expandiu e novos empregos foram criados. Surgiu o repentino florescimento do antigo boom, que atrai aventureiros e marginais de todos os lados. A desilusão está na criminalidade, que se enraíza e deixa rastros de sangue. Presídios e cadeias estão lotados.

E o que se vai descobrindo não é exatamente o melhor e mais promissor, como se depreende das notícias. Lamentavelmente, a violência lá está sob muitas formas e condições.


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Por Manoel Hygino - 22/7/2015 08:26:44
Chica da Silva em cena

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Acontece com Chica da Silva, a rainha de Diamantina, o mesmo que aconteceu com Cleópatra: feia ou bonita? As duas foram poderosas e dominaram seu pedaço, embora a egípcia tenha estendido seus domínios mais que a tejucana. Agora que se quer exumar os restos de Chica na Igreja de São Francisco, na terra de JK, a historiadora e professora da UFMG Júnia Furtado não se demonstra entusiasmada com a ideia de reconstrução facial e crânio-facial, em busca da resposta.
Júnia acha que nada se ganha com a proposta, até porque é incerto localizar-se o corpo da escrava no suposto local, já que à época de Chica os sepultamentos eram coletivos. A professora evoca o livro de Joaquim Felício dos Santos, publicado 70 anos após a morte da personagem. O conceituado jurista, professor e político descreveu Francisca da Silva: “Uma mulata que tinha as feições grosseiras, era alta, corpulenta, trazia a cabeça rapada e coberta com uma cabeleira anelada em cacho pendentes. Não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim não possuía atrativo que pudesse justificar uma forte paixão”.
Sóter Couto, diamantinense, médico da primeira turma (1917) de formandos da Faculdade de Belo Horizonte, em “Vultos e Fatos de Diamantina”, dá outra versão: “Em contraposição a certos escritores, achamos que Chica da Silva foi uma mulata bonita, tal a forte paixão que despertou primeiro ao dr. Manoel Pires Sardinha e depois no desembargador João Fernandes, que se deixou enlear nas redes de um forte amor, satisfazendo a todos os caprichos da escrava que passou a ser a rainha do Tijuco”.
De todo modo, o que se verifica é que, feia ou bonita, produziu filhos: 14 com o desembargador João Fernandes, que os legitimou, ou 13, porque o primeiro resultaria da sua ligação com o dr. Sardinha. Chica da Silva, eis a verdade, formou a sua prole e o seu reino, ela que fora escrava do pai do padre Rolim, Antônio Caetano de Sá, e da negra Maria da Costa.
Feia ou bonita, preta sem dúvida, escrava alforriada pelo desembargador João Fernandes, Chica tinha ódio dos portugueses, mas amava aquele que a elevara às condições de soberana. Segundo Sótar, correndo-lhe nas veias o sangue africano, tratava mal os lusos, porque os irmãos de cor eram caçados e vendidos.
Analfabeta, desenvolveu o Tijuco. Criou bandas de música e incrementou o teatro, onde se apresentavam as melhores peças. No seu “castelo”, recepcionava os sábios que visitavam o arraial e nas festas que promovia havia o cunho aristocrático das grandes cortes. Aparecia coberta de joias e pedrarias, acompanhada de um charmoso séquito de escravas, com trajes da moda.
Tinha uma igreja particular e ajudava os que a procurassem, mas se continha quanto aos infelizes que não lhe despertassem a graça. Mandou os filhos estudarem esmeradamente e, quanto às do sexo feminino, enviou-as ao recolhimento em Macaúbas, em Santa Luzia, o mais prestigioso da época.
Em 12 de dezembro de 1770, fez testamento, legando aos descendentes todos os seus bens. Em 15 de fevereiro de 1796, faleceu. João Fernandes morreria em 1799, em Portugal, chamado pela coroa, que identificara graves irregularidades em seus contratos. Naquele tempo, havia disso.


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Por Manoel Hygino - 18/7/2015 09:12:07
Suprindo o silêncio dos omissos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O brasileiro é agredido todos os dias, horas e minutos. São atos praticados contra o cidadão e a sociedade. Os veículos de comunicação se infestam com descrição de episódios que depõem contra o próprio conceito de nação. Constata-se que, mais de que em qualquer outro tempo, misturam-se os desvios e delitos políticos e policiais. Não é difícil verificar.

Há intranquilidade nas áreas rurais, nas estradas e nas vias urbanas. Os esforços de sucessivas gerações para construir uma pátria rica economicamente e em valores morais e éticos ruem silenciosa ou estrondosamente, de acordo com as características de cada caso e com a importância dos autores ou atores envolvidos.

Temerosos das vaias, autoridades refugiam-se em seus abrigos oficiais, evitando contatos com o próprio eleitorado, a que não respeitou nos compromissos assumidos nas campanhas. Há desconfiança generalizada em torno da gestão dos negócios públicos, dada a infinda improbidade.

Minha cidade natal, a maior e mais poderosa economicamente em vasta região do território mineiro, não respirou alegria ao completar 158 anos.

Em sua vida mais recente, no campo da criminalidade, comparece estrepitosamente a tragédia nacional desta época. É ininterrupto o tráfico de drogas, que destrói vidas e famílias, para sustentar os facínoras que fazem do negócio sórdido a sua riqueza, talvez opulência.

Visitada sempre pelas autoridades maiores do país e do estado na celebração destas festas anuais, em 2015 neste meado de ano, não se repetiu, na capital do Norte mineiro o comparecimento de presidentes da república e governadores, de ministros para abertura da Exposição Agropecuária Regional. Sequer um senador, na cerimônia inaugural.

Segundo a imprensa local, o Parque de Exposições estava em júbilo, a despeito da crise econômica que abala o país. Um dos dois oradores mais aplaudidos era pouco conhecido, mas discorreu sobre a hora grave que a nação atravessa, fazendo-o em tom alto, humano e breve, como convinha ao ensejo. Conforme um dos veículos mais prestigiosos da cidade, o sergipano observou, e repetiu, que o pior da hora que vivemos não reside na economia em frangalhos. Habita na face moral, na ausência dela, no seu estralhaçamento. Supriu com sua fala incisiva a ausência dos que antes, em melhores tempos, reverenciaram o Norte de Minas e sua cidade líder, altiva e brava, nos momentos em que a bravura é o último recurso.

Enquanto silenciam os que mais obrigação teriam de falar, avoluma-se a onda de pessimismo e os bons cedem lugar aos que avançam contrariamente em muitas frentes de combate, estimulados pela ausência de quem deveria zelar pela ordem e progresso, o verdadeiro, como está na bandeira.

Na mesma cidade, cinco dezenas de alunos de uma escola municipal atiravam bombas e exigiam férias, ateando fogo em caixas de papelão, enquanto uma professora criticava a polícia chamada ao local. Alegava a mestra que os estudantes exerciam o direito de manifestar-se. Assim começa o ensino em era de geral inquietação.


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Por Manoel Hygino - 7/7/2015 08:54:33
S. Exa., a mandioca

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Pedro Álvares Cabral inventou o Brasil em 1500 e a presidente do país descobriu a mandioca em 2015, embora a façanha seja antiga. Dela se extrai material para produção de pratos típicos do Nordeste brasileiro, passando a integrar a culinária dos mineiros.
Euclides da Cunha não poderia perder a ensancha tão oportunosa e descreveu, na página 335 de “Os Sertões”: “vivia-se à aventura, de expedientes. De modo próprio, sem a formalidade na emergência disponível, de uma licença qualquer, os soldados principiavam a realizar, isolados ou em pequenos grupos, excursões perigosas pelas cercanias, talando as raras roças de milho e mandioca, que existiam”.
O registro não poderia ser ignorado por Manif Zacharias, em “Lexicologia” de “Os Sertões”, um levantamento das palavras usadas pelo grande escritor, e definiu: “Mandioca, s.f. Planta da família das euforbiáceas (manihot utilíssima), cujos grossos tubérculos radiculares, ricos em amido, são de largo emprego na alimentação; o próprio tubérculo desta planta; aipim, macaxeira”. Mas cuidado, há a mandioca brava, uma variedade cujas raízes são venenosas e citada também em “Os Sertões”: “Alguns morreram envenenados pela mandioca brava e outras raízes, que não conheciam”, como está na página 337.
Em minha terra, como registrou o médico, pesquisador e historiador Hermes de Paula, “o pão não é usado em cem por cento em todos os lares no almoço e no jantar; a farinha de mandioca tem a primazia”. Ou tinha. Os hábitos devem ter mudado, mas se preparar uma paçoca ou farofa sem farinha? E há ainda os biscoitos, em cuja composição entram erva-doce, sal e ovos.
Eduardo Almeida Reis, cronista aplaudido, membro da Academia Mineira de Letras, condena determinado feijão de tropeiro, composto com meio quilo de torresmo, meio de linguiça, dois bifes de lombo grelhados, alho, cebola, quatro ovos, couve e feijão. E farinha evidentemente, como lhe foi servido alhures. Se não matar o comensal à mesa, descreveu ele, decerto matará a companheira no leito. “Morte ao feijão tropeiro, é doravante minha divisa. Se Mestre Hygino permitir...”.
Para Eduardo Frieiro, o trivial da mesa mineira é o mesmo, com pouca variação, nas diversas regiões do Estado, até as proximidades da Bahia, onde os hábitos alimentares se parecem um tanto aos baianos. Não pode faltar a farinha de mandioca, embora a de milho fosse mais comum antigamente.
O juiz Carlos Ottoni relatou como era a alimentação dos canoeiros de Minas, descendo o rio das Velhas até o São Francisco. Homens resistentes, alimentavam-se bem com o seu feijão com farinha e toucinho. Ao meio-dia, exigiam uma parada para a jacuba, que temperavam com farinha, rapadura e limão. Leopoldo Pereira pormenoriza: “No caldeirão onde uma boa porção de gordura de porco já está bem quente, rapa-se um pouco de rapadura e, depois que esta amoleceu pelo calor, junta-se farinha até fazer uma massa como angu. Para os outros, é repugnante este terrível engordurado ‘choriço’, mas o canoeiro o come como delícia e para ele o czar da Rússia pode comer mais caro, mas não tão bem”.
Nada lembra o acendrado patriotismo da presidente.


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Por Manoel Hygino - 2/7/2015 10:14:15

Meados de ano perverso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Junho de 2015 já é passado. Pena que, ao deixar de ser presente, marcou-se por acontecimentos nada alentadores ou promissores. Do Norte de Minas Gerais, chegou a informação de que, na quarta-feira de São João, ainda se viam “rabos de galo”, com a lua evoluindo a crescente.
Paulo Narciso, jornalista com vocabulário de poeta, explica que a data de São João teve céu azul pela manhã, com muitos rabos de galo, isto é, nuvens que indicam chuvas na crença popular. Mas, cidades interioranas vão perdendo a alegria das fogueiras na porta das casas, a começar porque a lenha diminui e, segundo, porque o costume se vai acabando, restando praticamente as festas em clubes, dolorosamente descaracterizadas. Bons tempos aqueles perdidos no infinito do tempo!
Obriga pensar, sobretudo neste 2015 do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo, cujas bondades e lições ainda impregnam os homens de bem no Brasil, abençoado por Deus. Mas haverá um segundo a mais, como anunciou o Observatório de Paris.
O fenômeno inquieta os que habitam países de gente pobre ou oprimida ou de maus dirigentes: mais tempo a sofrer. O segundo cronológico a mais foi adicionado em 30 de junho, terça-feira, quando a contagem do tempo foi até 23-59-60, quando o normal seria 23:59:59.
Ajustaram-se os relógios para estarem em sincronia com a rotação da Terra. Mas as grandes empresas se preocupam. A alteração poderá provocar falhas em sistemas de tecnologia, pois os horários oficiais dos países são controlados por relógios atômicos, extremamente precisos. Os brasileiros, inquietos com o duro ano já pela metade, temem suportar um segundo a mais. Magistrado respeitável observou: “O momento exige prudência das autoridades. Vivemos uma guerra civil não declarada, com a corrupção institucionalizada. É preciso atuar dentro dos imperativos éticos e legais. Devemos ficar atentos, em permanente vigilância, na defesa da democracia e da legalidade”.
É questão de bom senso, tão exigido nas horas mais graves da vida do homem e da história de um povo. O mundo está profundamente abalado. Os recentes acontecimentos envolvendo ações bárbaras, reivindicadas pelo Estado Islâmico, no Oriente Médio, no Norte da África e episódios na própria Europa, advertem para a necessidade de os homens despertarem para a nova realidade.
Os meios de comunicação põem as pessoas cientes do que ocorre em questão de segundos. Se a tecnologia permite contatos imediatos, por que os homens não agem segundo os ditames da boa lei, da justiça, da solidariedade e da fraternidade? Por que há de predominar o império da violência e do crime nas relações humanas, nos governos e entre povos?
O que se ganha com a apropriação ou desvios delituosos de dinheiros públicos, no volume e com a desenvoltura demonstrados nas investigações realizadas no Brasil? O que pensará a comunidade internacional, ao tomar conhecimento do que aqui se faz incessantemente na gestão de bens do povo e do cidadão?


80156
Por Manoel Hygino - 27/6/2015 09:55:59
Um túmulo profanado
27/06/2015

Aconteceu numa quinta-feira, pela manhã, no cemitério São João Batista, em Uberaba. O túmulo do médium Chico Xavier, que recebe mais de duas mil visitas em média, por semana, procedentes de todo o país, foi atacado com pedaços de granito. O propósito era quebrar o vidro de proteção, fabricado com material blindado, mas apenas o estilhaçou.

Foram arremessadas três pedras e o(s) vândalo(s) usou (usaram) os pés para ter mais apoio e força, falhando em seu desígnio. A polícia se esforça por identificar o ou os autores do crime, assim como a causa, embora tudo permaneça inteiramente obscuro.

Em face do mundo vil e violento em que nos achamos, parece um registro de menor importância. Nos Estados Unidos, a mais poderosa nação do planeta, ainda se repetem assassinatos de negros por brancos e, no norte da África, o grupo Boko Haram insiste numa incompreensível campanha de aprisionamento de jovens de cor para objetivos inconfessáveis.

No outro lado do mundo mediterrâneo, o Estado Islâmico quer impor pela força seu califado, ideia que se supunha sepultado, definitivamente nas areias da história. As ruas do mundo são palco de crimes e constrangimentos de toda espécie. Monumentos históricos de Palmira, Oriente Médio, estão sob risco de destruição pelo EI, mesmo considerados patrimônio da humanidade.

Mas danificar o túmulo de um pobre homem de Minas, que viveu 92 anos e sempre serviu aos que o procuravam para aconselhamento e amenizar suas angústias, parece estranhável. Que se pretendia com a profanação? Teria caráter religioso? Ou seria um ato de vandalismo? Ou, ainda, uma tentativa frustrada de furto de algum objeto preservado?

O professor Joaquim Cabral Netto, advogado, ex-corregedor geral do Ministério Público, ex-presidente da Associação Mineira do Ministério Público e da Confederação Nacional do Ministério Público, editou – no ano passado – um livro sobre Chico Xavier, lembrando facetas da vida do médium de Pedro Leopoldo.

Artur da Távola, jornalista, político, escreveu sobre o médium: “A figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier ganha um significado profundo, duradouro, acima e além de paixões religiosas, doutrinas científicas ou interpretações metafísicas. Aquele homem de fala mansa, peruca, acentuado estrabismo, pessoa de humildade e tolerância, não configura o tipo físico idealizado do líder religioso, do chefe de seita, do místico impressionante”.

Conclui: “Além da aura de paz e pacificação que parte dele, há outro elemento poderoso a explicar o fascínio e a durabilidade da impressionante figura de comunicação de fé: a grande seriedade pessoal do médium, a dedicação integral de sua vida aos que sofrem e o desinteresse material absoluto”.

Chico nasceu em pobreza, sofreu com duas deficiências físicas. Quando lhe foi perguntado se houve algo de que se arrependesse, respondeu: “Ah, sim, arrependo-me de não ter amado mais, porque é só o amor o que a gente deixa sobre este mundo. Mas não se pode esquecer que é preciso amar sem esperar ser amado, e sem aguardar recompensa alguma”.

Sobre Deus, explicou-se: “Quem teria colocado a vida e o perfume das flores, o azul do céu, o verde dos mares e a luz das estrelas?”. Uma observação que legou: “Conheço gente tão pobre, tão pobre, que só possui dinheiro”.


80142
Por Manoel Hygino - 23/6/2015 09:53:36
A sorte está lançada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não desejava voltar a comentar problemas da política e da administração pública, por motivos que os brasileiros conhecem e sentem. Os cidadãos dignos deste país (que o jornalista Eduardo Almeida Reis classifica de grande e bobo) repudiam o estado a que chegamos, uma barafunda que depõe contra nossos foros de civilidade e patriotismo.
Na verdade, o povo, que sente na pele e no estômago os erros e falcatruas (os malfeitos, se quiserem este substantivo, no plural), não alimenta benévolas expectativas sobre seu futuro. Os escândalos que abalam a nação demonstram à suficiência, para onde e para quem foram os vultosíssimos recursos subtraídos do orçamento. Os nomes dos beneficiários pelo logro, para não dizer crime, se tornaram conhecidos porque a imprensa não os omite.
O brasileiro não os perdoa, indigna-se e exige punições à altura dos danos causados à nação por falsos mensageiros do bem, da paz e do progresso. Para o contribuinte anônimo mas consciente, são pessoas que deveriam estar na cadeia, como os indivíduos que praticam ilícitos penais estabelecidos na legislação específica.
Se tudo o que se desfalcou no país fosse devolvido, em termos de dinheiro e patrimônio, somando-se juros, multas e correção monetária, não se precisaria evidentemente dos cortes orçamentários que os ministros da área econômica propuseram. Os poderes da República não têm como impedir redução de verbas, porque não há outro caminho ou proposta a seguir, para evitar a bancarrota.
Vive a nação um dos piores períodos de sua história nem sempre tranquila, como se desejaria e se poderia. Em meado de ano, não se sabe o que será o segundo semestre, senão pela projeção de dados e previsões nem sempre confiáveis.
Em meio a tudo, a certeza única de que a segunda metade de 2015 será mais difícil. Um ministro da presidente declarou: “Vão ocorrer várias reclamações sobre paralisação de obras. Pararam, sim. Não há cortina de fumaça e não posso esconder o que está acontecendo”.
O Ministério da Saúde teve seu orçamento reduzido em R$ 103,2 bilhões, o segundo maior corte entre todas as pastas. Quem tem coração forte para sofrer as consequências saberá do desfecho. A morte pode bater à porta de inúmeros lares.
O desenlace seria mais suave se as autoridades se conscientizassem de seu papel na sociedade cristã ou solidária em que nos encontramos. Seria menos penoso para a população, se se diminuísse o número de ministérios e, não só eles; que se extinguissem as mordomias, com gabinetes, secretarias, adjuntos, assessores, suportes burocráticos, carros, motoristas, 14º e 15º salários nos três poderes da República. E há muito mais a se fazer com idêntico objetivo.
Já nem falo em criminalizar o enriquecimento ilícito com maior velocidade – evidentemente sem objetivo persecutório, mas confiscando os bens dos que construíram fortunas e adquiriram patrimônios de forma indevida, tudo rigorosamente dentro da lei, não acorrentada a expedientes protelatórios sobremaneira conhecidos.


80125
Por Manoel Hygino - 20/6/2015 12:20:54
Quando setembro vier

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O fim do mundo sempre preocupou o homem, o único animal que raciocina (ou deveria). A coisa que habitamos teve início, e cientistas e curiosos sempre se interessaram pelo tema e admitem também o fim, havendo muitas versões para vaticinar como seria o end, evidentemente não happy. Há milênios aguardamos, confiando que isso não aconteça conosco ou que somente ocorra em época remota do futuro, quando já sepultados. Em verdade, a Terra permanece em mutação incessante. Os sucessivos registros de sinistros, no Chile, no Haiti, no Japão, no Sudeste asiático e no Nepal lançam o homem em perspectivas extremamente sombrias. Só no Nepal, em abril, o terremoto, de 7,8 graus da escala Richter, com seus mais de oito mil mortos, assustou os terráqueos.
Mas, o terremoto não era fenômeno isolado, como depois se constatou. O monte Everest, o mais alto do mundo, se moveu 3 centímetros para Sudeste, segundo estudo chinês. O curioso é em que ele “andava”, nas últimas décadas sempre, para o Nordeste, mas mudou de direção, provocando gigantesca avalanche na região. Ainda bem que o Brasil não sofre de tremores catastróficos, embora uma criança tenha falecido em consequência de um cismo no Norte de Minas.
O asteróide, Ícaro, que passou de raspão pela Terra no dia 16, não afetou o planeta. Quando digo “de raspão”, refiro-me a oito milhões de quilômetros de distância. Ainda bem, porque se a pedra gigantesca nos atingisse, poderia destruir o mundo em que estamos ou parte dele.
Poderosos telescópios acompanharam a passagem do tenebroso objeto, mas não vi as imagens, detalhe tão pouco significativo. O essencial é que passou bem longe, não representando perigo ou risco. O que agora gera inquietação é um outro, programado para setembro, quando a primavera chegar.
Difícil imaginar qual mês seria melhor (?) ou pior para arrasar este pedaço de universo em que nos achamos. Verdadeiramente sobreviver se tornou um imenso desafio, com nações guerreando entre si, grupos étnicos em luta na África, Europa ou Estados Unidos, enquanto traficantes de drogas e usuários do poder ainda se ajeitam, como aliás sempre aconteceu.
Até o nono mês de 2015, certamente persistirá o conflito entre as ideias e previsões de religiosos e cientistas da NASA. Aqueles crêem que, entre 22 e 28 de setembro, a Terra será destruída por um asteróide como forma de “castigo divino”, o que até certo ponto seria compreensível.
Para a NASA, “em centenas de anos não existem objetos tão grandes se aproximando da Terra”. Seus técnicos lembram que esses corpos sísmicos quando entram em contato com nossa atmosfera, geralmente se destroem em decorrência do forte aquecimento.
De todo modo, os fanáticos acreditam que em setembro ocorrerá o início de sete anos de angústias para o ser humano. Haveria, contudo, ainda uma expectativa. Alguns entes sobreviveriam como parte da metade que se salvará, para testemunhar os fatos e descrevê-los. Até setembro.
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80116
Por Manoel Hygino - 18/6/2015 09:26:23
O Macaúbas do Sertão

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Itacambira significa “pedra pontuda no meio do mato”. É tupi-guarani, mas tem outras acepções. Ficamos com a que aí está para não criarmos mais problemas. É o nome de uma cidade pequena e pacata no Norte de Minas, que não quer incomodar ninguém: apenas viver e ser útil com sua população.
Agora, o Ministério de Integração Nacional promete dar andamento à construção de uma barragem ali, abrangendo também Grão Mogol (é novela como toda obra pública neste país) para abastecimento de água e geração de energia para vários municípios. Servirá ainda para ajudar no controle de cheias nos rios Verde Grande e Jequitinhonha.
Mas Itacambira tem história, às vezes triste. Anos atrás, despertou o interesse da mídia americana, pelo elevadíssimo índice de pessoas castigadas pela doença de Chagas. Para lá se deslocaram repórteres de Tio Sam. Em seguida, descobriram-se corpos mumificados na sua igreja de Santo Antônio, que impressionaram estudiosos, mas especialmente o eng. Simeão Ribeiro Pires, que aprofundou pesquisa sobre sua origem e causas. Uma das peças se encontra em instituto científico do Rio de Janeiro.
Guimarães Rosa, no desbravamento do sertão e suas veredas, lança a hipótese de ali ter sido batizada Diadorim, o que também mereceu consideração de Simeão. Há alguns anos, marginais invadiram o templo à noite (naquele tempo, ainda se davam ao cuidado de surrupiar após as trevas chegarem) e levaram consigo imagens, jamais recuperadas.
Em tempo mais próximo, encontrei na “Histórias de Minas Gerais”, do excelente João Camillo de Oliveira Torres (2015 é seu centenário), informação de que em Itacambira existiu um estabelecimento para recolhimento, moradia, estudo e oração para moças e senhoras. Até então, as mais conhecidas casas do tipo eram o Caraça, para rapazes, e o Macaúbas, em Santa Luzia, para o sexo feminino.
Dário Teixeira Cotrim, dos Institutos Históricos e Geográficos de Montes Claros e Minas Gerais, tem belo livro sobre Itacambira, mas não faz referência ao fato. Não é o único, o que me levou a aprofundar a investigação. Colhi dados valiosos em livro do Instituto Cultural Amilcar Martins, na rua Ceará, na capital, que seleciona, protege, recupera e disponibiliza muito do que há de valioso em termos de nossa história. Finalmente, cheguei a Ana Cristina Pereira Lage, professora de Licenciatura em História e Bacharelado em Humanidades da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, recentemente chegada de Portugal.
Ana Cristina esclarece de vez; o recolhimento que recebeu o nome de Vale de Lágrimas existiu, não é ficção. A Casa ficava entre os rios Araçuaí e Fanado, aos pés de um morro, mas foi obrigada a transferir-se em consequência da insalubridade causada pelas cheias.
O novo local, era o Arraial de Santa Cruz da Chapada e um médico atendeu as enfermas: o dr. Antônio Xavier Ribeiro. Em seu novo acolhimento, já se encontravam aquelas senhoras e moças, com suas escravas e gado, em 1780.
Tampouco em Chapada do Norte permaneceu. A minha pergunta: não se encontraram sequer ruínas da primeira Casa do Acolhimento? Encontrá-las fisicamente seria grande achado.


80092
Por Manoel Hygino - 13/6/2015 08:36:56
Poesia, acima de tudo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Maior territorialmente que a França, Minas Gerais foi, no decorrer da história, sempre um centro artístico, literário e cultural sumamente importante no Brasil como o é, aliás, no terreno da economia. Até porque esses elementos se completam na sociedade. Enquanto os buscadores de riquezas do solo e subsolo procuravam ouro, diamantes e outras pedras preciosas, a região já mostrava relevância em agropecuária, por exemplo.
O Norte de Minas, esquecido pelos políticos por não produzir minerais de grande valor material, convivia com outros costumes, com outras terras e outras gentes.
É o que se pode dizer para não menosprezar os homens que surgiram, revelaram-se e produziram na órbita literária (prosa e verso), na música, nas letras jurídicas, no cinema, por que não?
Por tudo isso é que se deve dar ênfase à atividade literária das mulheres norte-mineiras, de que é exemplo Yvonne de Oliveira Silveira, presidente da Academia Montesclarense de Letras, falecida recentemente em pleno labor, ao completar 100 anos. É uma glória, admirada e querida.
Mas as mulheres da região têm beleza física e notável convivência com as letras. É o que se dirá, por exemplo, de Karla Celene Campos, que recentemente lançou “O lado de dentro das coisas”, sob o selo Catrumano. O volume aparece belamente aureolado com a crítica de Ivana Rebello, professora universitária com títulos cá na terra e no exterior, e Georgino Júnior, cujo comentário merece confiança e respeito.
Já homenageada no XVIII Salão Nacional de Poesia Psiu, a autora já tem cinco livros publicados, além deste a que me refiro, e participação em antologias de contos, crônicas e poemas.
Ivana Rebello observa: “Com os cabelos incandescentes, a poeta se vira ao avesso, entremostrando-se. Para queimar assim, só mesmo com verso em punho e alma exposta, porque a poesia de Karla Celene mora nela, habita-a. É trabalho de mestre, que “estabelece uma íntima ligação com todas as fontes visíveis (e invisíveis) da vida”, completa Georgino.
É, sim, poesia da melhor qualidade, sem formalismo, sem convenções. Difícil escolher o melhor poema. Abro a página 38, onde está “O Eterno”: “Fiz parar o relógio da minha casa/ às três da tarde:/ Hora do café da casa-grande/Da casa-grande com cheiro de jasmim/E presença da minha avó”. Salto um trecho: “Faz quarenta anos que a minha avó/Todos os dias/ Às três da tarde/ Vem preencher o oco/ Que o tempo/Cava/Irremediavelmente/ Nas paredes da minha alma”.
“É, sim, poesia da melhor qualidade, sem formalismo. Difícil escolher o melhor poema”


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Por Manoel Hygino - 9/6/2015 10:00:22
Em Moscou, o ‘Lago dos Cisnes’

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Eles estão de volta. Falo dos integrantes da comitiva político-religiosa que fez uma excursão pela Europa e Oriente Médio, aproveitando o feriadão de Corpus Christi, que começou numa semana e terminou nesta de agora. Enfim, eles merecem, assim como os convidados, e esposas (dos parlamentares) que não poderiam deixar de acompanhá-los numa turnê tão emocionante e em condições especiais.
Quinze pessoas participaram do périplo, organizado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que quis aproximar-se mais e promover uma efusiva integração de parlamentares e religiosos, ou parlamentares religiosos. Entre os acompanhantes, o Pastor Everaldo, ex-candidato do PSC à Presidência da República. Tudo no estilo que convém e sem mais rigorosas orientações sobre divulgação, para que não se pense tratar-se de mais uma presepada para usufruir de recursos públicos. Até porque o contribuinte brasileiro já sabe aproximadamente para onde vai o dinheiro da arrecadação.
Na última sexta-feira, aliás dia muito próprio, houve uma visita ao Norte de Israel, para conhecer o mar da Galileia e a vila de Nazaré, locais ligados à vida de Cristo. É uma região cheia de história, tanto que qualquer cidadão gostaria de ir até lá. Mas é privilégio de grupos reduzidos. Por aquele pedaço de mundo, o filósofo grego Celso imaginou um judeu perambulando e pregando idéias e disseminando lições. Que oportunidade tiveram os brasileiros que lá estiveram na primeira semana de junho!
O líder dos 15 levou a esposa, um assessor de imprensa e um policial legislativo, responsável pela segurança. A Câmara dos Deputados, conforme informado, só pagaria passagens dos parlamentares, não das esposas e acompanhantes. Cunha não receberia diárias, porque viajou a convite. Não se divulgou o custo da excursão, mas a diária do deputado em viagem fora do país custa US$ 428.
Houve, ou se programara, encontros no Parlamento de Israel (afinal se tem de encontrar uma justificativa), uma visita ao Museu do Holocausto e um encontro em Ramallah, com Abas, presidente da Autoridade Nacional Palestina. Inevitavelmente, incluiu-se uma chegadinha ao Mar da Galileia, junto ao qual está Tiberíades.
Finalmente, o grupo desembarcou em Moscou, para reunir-se com Renan Calheiros, presidente do Senado, que se encontrou com chefes de parlamentos do BRIC, grupo formado pro Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na ida para Moscou, Calheiros passou três dias em Paris com a esposa, para onde voara pela Air France. No último domingo, os russos brindaram Renan e Cunha com uma récita de balé, no Teatro Bolshoi, constando do programa “O Lagos dos Cisnes”, com música de Tchaikovsky. Em Paris, as despesas correram por conta do senador, que recebeu meias diárias. Aliás, ele viaja acompanhado por um diplomata da Assessoria Internacional da Casa Alta do Congresso.
Agora, estão todos de volta. Deve ser profundamente incômodo retomar o exame da reforma política e da desoneração da folha de pagamento. A prestação de contas da viagem é com a assessoria.


80057
Por Manoel Hygino - 6/6/2015 20:06:44
Pelo começo de junho

Jornal Hoje em Dia

Maio passou sem que se lembrasse o “plenilúnio de maio nas montanhas de Minas”, do soneto de Augusto de Lima. O último dia apareceu, quando o sol acendeu suas luminárias, alumiando Belo Horizonte como em bela manhã de primavera. Mas, ainda somos outono, e muito ainda pode acontecer de belo e amável. Os cidadãos de bem deste país tanto o merecem.

Os cinco primeiros meses de 2015 não foram de encantamento e felicidade, para coroar o labor da gente mineira. Parece que, apesar dos esforços para robustecer o carinho pelo nosso passado, muito já perdemos; tanto que pode até afugentar o sonho futuro.

Em 30 de agosto, quatro anos atrás, Roberto Elísio, meu sucessor na Assessoria de Comunicação do governo do Estado, bom companheiro e boêmio como todos os demais filhos de Santa Luzia, observava que minha cidade natal, “Montes Claros, é sui-generis: consegue manter a sua pureza de alma e de sentimento, apesar da onda de violência que tomou conta dos novos tempos e das velhas cidades, contra a qual, dolorosamente, nem ela, nem minha doce Santa Luzia foram vacinadas”

Neste clima, nesta estação e nestas circunstâncias, muito pouco normalmente se esperaria do período inicial do ano. As tentativas governamentais de fazer em pressa reformas políticas confiáveis aos destinos nacionais e o rebuliço causado pelos escândalos frutos da corrupção, não possibilitam evocar- como devido- os doces tempos que ficaram para trás e tanto nos orgulham.

Os sucessos musicais de hoje, por sinal, perderam em melodia (sequer a têm) e não seduzem por seus versos, antes pelo contrário. A música é fruto da vida em sociedade e, assim, a do presente reflete um tempo de violência e de desdém ao amor, não como antigamente cultivado. O resgate, se possível, será longo, penoso e, talvez, improvável.

Saudade? Talvez, e muito justificável. No decurso dos dias, percebemos que perdemos a confiança no outro, e nos outros, sobretudo nos que merecem aplausos e votos. O resultado é ruim, pois aprendemos a suspeitar, obrigando aliás melhor orientação nas escolhas.

As épocas mudaram, mas o ser humano, em sua essência, não. Tem as mesmas necessidades dos ancestrais, os mesmos ideais avoengos, sentimentos semelhantes. Há os que amam e os que não amam, os que defendem as boas causas e os que não se nutrem da boa seiva.

Viver o dia a dia conscientemente é desejável e, quando se acompanha o balanço de um período eloquente em erros, desvios e atentados contra o bem comum e a causa pública, meditamos como a nação teria progredido se houvesse menos voracidade sobre o patrimônio da comunidade.

Junho chegou e nos remete indesviavelmente às populares festas de época, voltando a lembrança a brasileiros esquecidos em rincões distantes, cuja presença na história é valiosa e reclama das autoridades maior interesse e mais zelo da classe política.

Em Paris, em pleno inverno, a belo-horizontina escritora, Maria José de Queiroz, laborou um poema em homenagem a Drummond, com relembrança do torrão natal: “Mas no fim de cada estrada/Minas me espera, de alcateia./ Na esquina de mim mesma/entre calle e street strass e boulevard./ no agudo da incerteza, da angústia,/ do desassossego,/Minas me diz: presente”.


79955
Por Manoel Hygino - 20/5/2015 09:32:52

O acolhimento de Itacambira

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Itacambira, norte de Minas, é cidade pequena, simples e acolhedora. Fui lá conferir enfrentando a estrada sem pavimentação, conhecendo a igrejinha de Santo Antônio, construída no princípio dos anos 1700, o que dá ideia da importância do templo, abraçado pelas duas ruas do lugar.
Fernando Dias Paes Leme andou por ali, procurando esmeraldas da Serra Resplandecente e a Lagoa Vapabuçu.
Sob as tábuas do templo, encontraram-se corpos mumificados, que mereceram reportagens nas maiores revistas do mundo. Lá, poderia ter sido batizada aquela que, na ficção de Guimarães Rosa, foi Diadorim. A arquitetura interna é única e recebeu menções elogiosas de autoridades no assunto. Tudo isso, não evitou a voracidade dos caçadores de peças sacras, que lhe surrupiaram cinco imagens, sem retorno, em 2012.
Chamou-me especialmente atenção o registro de João Camillo de Oliveira Torres, historiador respeitável, sobre a existência em Itacambira de um acolhimento/educandário para moças, não constante da crônica regional. Seguindo a pista, solicitei ajuda ao Instituto Cultural Amilcar Martins, que detém um dos mais completos acervos bibliográficos do Estado, sempre ampliado pelo entusiasmo e amor aos livros de seu diretor, Amilcar Vianna Martins, filho do cientista homenageado com o nome da instituição.
Na biblioteca, localizamos “Clero Mineiro”, de Furtado de Menezes, em dois volumes, edição de 1933, que aclara a questão. Diz o autor que, na freguesia de Itacambira, a quatro léguas da vila de Minas Novas, nas margens meridionais do rio Araçuaí, o padre Manoel dos Santos fundou, em 1756, uma casa para abrigo de moças sob o título de Casa de Oração do Vale de Lágrimas.
As primeiras que chegaram foram as irmãs Izabel e Quitéria, seguidas de outras que elas se uniram “para entregarem-se ao serviço de Deus”. A fundação foi aprovada pelo arcebispo da Bahia, D. João Botelho de Matos e, logo protegida pelo seu sucessor, frei Manuel de Santa Inês. As acolhidas viviam de esmolas, das costuras que faziam e do cultivo agrícola por escravos que lhes foram dados.
Em 1785, o governador Martinho de Mello Castro, por ordem de Lisboa, procurou saber da vida do instituto junto à comarca de Serro Frio. A resposta foi plenamente satisfatória, embora o local fosse “doentio, ermo e inabitável, principalmente no tempo de chuvas. “Assim, o acolhimento foi transferido para Chapada do Norte, medida aprovada pelo governador. O comandante do destacamento, revelou: “É uma casa de oração secular, sem voto algum, utilíssima aos povos deste paíz; porque ali mandam alguns Pais de Família ensinar suas filhas, tendo-as recolhidas por alguns anos, de d’ahi costumam sahir não só provectas em artes liberaes mas também no Santo amor e temor de Deus”.
Restaria perguntar: nada restou do instituto em Itacambira ou Chapada do Norte? Ana Cristina Pereira Lage, com doutorado em Educação pela UFMG e professora universitária, focaliza o problema em profundidade, mas não indica a localização geográfica da primeira instituição nem o nome de Itacambira. Mas vamos seguir as pegadas.


79930
Por Manoel Hygino - 16/5/2015 09:40:15
É preciso mudar de rumo

Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, avolumam-se a inquietação e o medo. A criminalidade cresceu ininterruptamente e assusta. A imprensa não se cansa de insistir no assunto, que ocupa grandes espaços em todos os meios de comunicação.

Resultado, praticamente nenhum. Tudo se resume em expressão de boas intenções e aprofundamento de discussões e de conhecimentos e experiências. O perigo está em todos os lugares, todo tempo. A chacina de meados de abril no Pavilhão Nove da torcida organizada do Corinthians, em São Paulo, ilustra a opinião. A Polícia Civil informou que a ordem de execução, sem qualquer chance de defesa, partiu da facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios. Deitadas no chão, as vítimas receberam tiros de 9 mm na cabeça.
Em Jequitaí, a 100 quilômetros de Montes Claros, a maior cidade do norte-mineiro, doze criminosos, no dia 24 de abril, explodiram caixas eletrônicos e dispararam contra um posto policial (ou quartel), fugindo os bandidos em carros e motocicleta para Várzea da Palma. Repetia-se, assim, o que acontecera, dias antes, em Buenópolis, onde seis ladrões explodiram os caixas de bancos, acionaram gatilhos várias vezes e fugiram.

Na mesma ocasião, um rapaz de 18 anos foi executado, perto de salão paroquial, na cidade-polo. O jovem, Mateus, tinha onze passagens por furto e uso de drogas, recém-saído de um centro de recuperação de menores.

Em Jaíba, disputa para saber quem ouvia música mais alta na porta de um bar resultou no assassinato de pessoa com 27 anos, na frente da mãe, ela também baleada. Revoltados com a situação, populares mataram um dos suspeitos. Quebradeira na rua, um veículo queimado, sempre com o propósito de liquidar: um dos arruaceiros foi atingido três vezes nas costas e, em seguida, mais cinco projéteis nas axilas, no rosto e no tórax. Balas não se desperdiçam.

Na mesma cidade, uma fundação que cuida de crianças com câncer foi invadida. Os ladrões apontaram revólveres. Agrediram e algemaram os que ali se encontravam, prendendo-os em salas. Quebraram os telefones fixos, roubaram malote com dinheiro e celulares.

Em um bairro, às 8 horas, dois encapuzados de 19 anos assaltaram um comércio, mas foram presos com revólver com numeração raspada e cartuchos intactos, além de bens roubados da loja e dos clientes. No bairro Alto de São João, posto de combustíveis foi alvo de meliantes armados, que renderam os frentistas e roubaram.

Isso, em pleno sertão, supostamente longínquo, percorrido por criminosos em todas as direções. No Estado, no primeiro trimestre, mais da metade dos estupros ocorreu contra menores de 14 anos, com 562 casos, seis ataques por dia, num total de 923 registros, conforme dados da Secretaria de Estado de Defesa Social. Os roubos somaram mais de 25 mil no período, enquanto os crimes violentos cresceram 7% relativamente a 2014. É como disse Mauro Santayana, há quase um ano. Apesar da melhora da renda e do emprego nos últimos anos, a morte tem colhido, regadas e sangue, safras cada vez mais maiores. E completa: “Antes que se fechem atrás de nós os portais do inferno, é hora de mudar de rumo”.


79925
Por Manoel Hygino - 15/5/2015 09:24:09
O Brasil no século XXI

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Muito mais terão os brasileiros que se esforçam para o reencontro de caminhos. Os males ora enfrentados, com comprimidos e cataplasmas, são apenas anúncio ou prenúncio do que sobrevirá. A sociedade paga pelo preço de seus erros.
Acostumamo-nos a assistir pela televisão, em cores, ao drama das nações e dos povos da Europa, com desfiles de desempregados pelas ruas e as manifestações de desagrado e dor nas principais praças. Esse clima se está transportando ao Brasil, sempre acostumado a “jeitinhos” para resolver problemas. Mas o tempo mudou enormemente. Governos pensaram que artifícios resolveriam os desafios e a população, carente e ludibriada, apoiou as medidas paliativas então tomadas.
Chegamos ao que chegamos, com a administração pública procurando tapar o sol com a peneira e apelando, somente agora, para cirurgias de emergência, extensas e profundas, para vencer o mal. Ou os males. O cidadão terá de suportar os resultados da enganosa política. Antes se dizia que estávamos à beira do precipício; agora, nele caímos.
Até que ponto a situação está mesmo ruim?
Em âmbito internacional, as potências, que deveriam manter a paz, são as que mais vendem armas e não sabem como fugir dos entreveros, por enquanto regionais e localizados, mas ameaçadores. Não há mais vez para a lição de que as pessoas devem viver acima de suas posses, adquirindo bens dispensáveis ou adiáveis, e gozando benesses, que nada trazem de retorno. Mergulhamos numa tempestade perfeita de consumo de energia, enquanto falta água para mover hidrelétricas e atender à demanda da produção agrícola, até para o uso humano diário.
Estamos em meio de um mundo em turbulência e buscando novos rumos. Ricos e pobres enfrentam situações adversas e não identificam as melhores vias para transitar. O Brasil, que estimulou o consumo para agradar os ingênuos e a desejos de afirmação, percebe que errara e luta por reacertar. Missão difícil para um povo que achava que Deus é brasileiro e não lhe falharia nas horas duras.
A época da sombra e água fresca é lembrança que virou saudade, uma ilusão pela qual teremos de pagar preços altíssimos. Nosso relacionamento externo é vago, difuso, apontando oposição às nações com as quais mantivemos negócios e diálogo durante séculos, mas disposto a abolir subserviência. Os modelos de que nos aproximamos não são os mais adequados, com o Brasil carreando enormes recursos para ajudar quem conosco não colabora ou fortalecer governos que não satisfazem seu próprio povo.
O século XXI se parece com a Idade Média: potências emergentes, corporações multinacionais, famílias poderosas, extremistas religiosos, mercenários poderosos. Poderíamos evocar Mohathir bin Mohamed, ex-primeiro-ministro da Malásia: “Dois milênios de experiência, e montanhas de conhecimentos, não nos tornaram mais capazes de administrar nossos negócios mais do que o homem da Idade Média”.
Pagaremos altos custos e prestações e com prestações dolorosas. O pior está à frente. Sobretudo com o crescimento do desemprego e a natural insatisfação popular. Pelo menos se espera que os cidadãos consigam identificar onde, quando e com quem a má sina começou. Sem nada resolver.


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Por Manoel Hygino - 25/4/2015 11:20:35
Cem anos de belas lições

Manoel Hygino - Hoje em Dia


Completaria 100 anos, em 30 de dezembro último, dia também do aniversário natalício de Danilo Gomes, o poeta da gloriosa e pioneira vila, cidade e capital de Minas Gerais. Da metrópole brasileira, ele enviou mensagem de cumprimentos a Yvonne de Oliveira Silveira, que foi mais do que um ícone, porque um ser humano admirável e exemplar. Não sei se a mestra de gerações sucessivas de montes-clarenses terá recebido a homenagem do bardo conterrâneo de Cláudio Manoel da Costa; como não terá lido certamente o artigo com que expressei minha simpatia, apreço e amizade, nas páginas do “Jornal da Associação Nacional dos Escritores”. Estavam minadas as forças que a mantiveram em intensa atividade durante um século, iniciada em 1914, e o magistério aos doze anos. Em minha posse na Academia Mineira de Letras, surpreendi-me com sua presença na casa de Vivaldi Moreira, a quem sempre reverenciou por sua conduta lhana, de empreendedor, pela cultura e vasta produção literária. A mestra, elegante em seu sapato de meio salto, deixara o sertão e deslocou-se ao novo Curral Del-Rey com outros ilustres filhos da mesma terra e região. Para saudá-la, mais do que ao empossante, o Madrigal Renascentista, regido pelo maestro Marco Antônio Maia Drumond, cantou a modinha do compositor João Chaves: “Amo-te muito”. O tempo fluiu sobre a solenidade no auditório da Academia, junto à belíssima mansão que o grande mestre da medicina Borges da Costa, ergueu pra residir na rua da Bahia, hoje sede do sodalício. Yvonne foi símbolo de operosidade e de dedicação ao ensino e á cultura de sua/nossa terra, presidente vitalícia da Academia Montesclarense de Letras, a cuja frente esteve de fato, até estoicamente, até o final. Engrandecendo o adeus neste abril, a despedida foi numa quente tarde de abril, azul e gentil, o corpo levado ao último abrigo terreno, sem pompa, nem extenso cortejo, num sábado típico de calor do sertão. Completava-se, então, o ciclo de vida de quem tanto dera de si, pelos valores humanos, pela cultura, pelas letras, pela arte, na cidade que a viu nascer, reverenciou-a e a levou ao túmulo. Não deixou filhos. O esposo, também bom poeta, já se fora há alguns anos, quase centenário. O sonho maior de Yvonne, porém, não se consumara, como confessou: “A vida concedeu-me amores, mas me negou o mais sublime de todos, o amor materno. Pude amar como filha, irmã, noiva, e esposa. No entanto, o coração parece vazio, está sempre a desejar, não obstante o amor que dedico aos que formam a minha família, porque jamais pude sentir o amor de mãe”. Somente a maternidade completa a mulher, preenche-lhe o coração, sublima-lhe a vida. Pela maternidade, a mulher torna-se colaboradora de Deus, amplia o seu apostolado social. Os filhos são a continuação de sua vida e só por esse meio pode o homem de algum modo escapar da morte que tudo destrói e apaga. O amor faz esse milagre: transmite a vitalidade dos esposos a formas novas, antes que as suas formas pereçam. Está aí a lei de Deus, infinitamente sábia, quando o Criador abençoou a união do homem e da mulher dizendo: Com o “crescei e multiplicai-vos, ficou estabelecida esta lei. Por ela, está assegurada a preservação da espécie”.


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Por Manoel Hygino - 1/4/2015 11:08:52
Cem anos de amor às letras

Manoel Hygino dos Santos

Uma jovem professora e escritora do interior brasileiro completou, com muita alegria e convenientes provas de carinho e reverências, cem anos em 30 de dezembro. Nascida em 1914, no norte de Minas, fez o curso primário em Montes Claros, e, em seguida, a Escola Normal. Transferindo-se com os pais para Brejo das Almas (o nome inspirou o livro de Drummond), hoje Francisco Sá, lecionou no grupo escolar local.
Era um tempo de ensino superior cingido praticamente às capitais ou às cidades maiores. No velho e lendário Brejo regeu classes e se fez professora de Educação Física, por dez anos. Casou-se com Olyntho Silveira, fazendeiro, com inclinação às letras. Uma união de mais de setenta anos, durou até o falecimento do marido quase centenário. O casal já se transferira para a cidade mais importante da região, grande centro econômico, mas também político e cultural, Montes Claros.
O amor sincero e entranhado inspirou um poema nas bodas de prata: “Companheiro”. “Tu és o companheiro eu escolhi/ para o fatal caminho do amor, / E o ideal abandonei por ti, / Para viver contigo o risco e a dor./ Faz vinte e cinco anos. Nem senti andar pelo caminho sedutor./ Morria aqui um sonho, outro ali./ Nós dois vivendo de esperança e ardor./ És aquele, sim, que um dia escolhi./ E não importa que a glória inconstante/ E a alma incerta se esquivem de ti./ O amor nos dá tanta felicidade/ que só desejo no supremo instante/ partir contigo para a eternidade”.
Ele, esposo e poeta, se foi. Ela ficou para continuidade de uma obra admirável. Yvonne de Oliveira Silveira se consagrou, em um meio rico de mulheres com notáveis virtudes nas letras, na história, na música, nas artes e cultura enfim. Depois, presidente da Academia Montesclarense de Letras, exerce o cargo com total devotamento e competência (além dos demais que ocupa), tornando-se vitalícia como de direito e de fato.
Presidente de Honra do Elos Clube, sócia do IHG de Montes Claros, do Rotary Clube Sul, da Academia Feminina de Letras de Minas Gerais, sócia da Academia Municipalista de MG e fundadora da de Montes Claros, comparece rigorosamente às solenidades, sempre elegante e b em disposta. Fornada em letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Montes Claros, da Unimontes, pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-MG, construiu um belo currículo com uma série de atuações, inclusive em funções públicas participando de cursos na capital mineira pela UFMG e na Comissão Mineira de Folclore. Lecionou Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura na FAFI; História das Artes no Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez; entremeados esses misteres com viagens pelo país ou fora dele para congressos e seminários.
Com Olyntho, publicou “Brejo das Almas”, em 1962 e, daí para frente, jamais deixou de editar novos livros, o mais recente, “Cantar de Amiga”. Para Maria Luiza Silveira Teles, também escritora, “toda a sensibilidade e a rica interioridade de Yvonne Silveira se derramaram nessa obra cheia de beleza, que é, em si mesma, uma canção do mais puro dos sentimentos e uma elegia à própria vida”.
Sua biografia é imensa, mas se há de enfatizar a incessante produção para jornais, em verso e prosa, presença em prefácios e orelhas, em palestras e conferências, que transformaram todos os seus dias, e tudo o que faz, “numa belíssima canção à vida do ser humano”. Os cem anos de Yvonne é uma festa para todos nós, pois a ela devemos um rosário de exemplos de operosidade e de bem servir.
O mais importante a realçar neste centenário é que Yvonne continua integralmente sua vida, sem titubeios, com firme vontade, atenta a seus compromissos, a que hora e onde for, a serviço da educação, das artes, das letras, do convívio social. Para se ter uma ideia mais adequada de sua disposição, iniciou recentemente um curso de pintura no Ateliê Felicidade Patrocínio, em sua cidade, frequentado pelo que há de mais nobre e prestigiado em Minas, e por que não dizer no Brasil? Reinicia, diariamente, os eu labor porque a juventude é um estado de espírito.


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Por Manoel Hygino - 31/3/2015 09:01:06
Sob signo da Quaresma

Manoel Hygino - Hoje em Dia

É Quaresma, período de 40 dias que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos. No interiorzão brasileiro, em minha cidade e região de nascimento, por exemplo, não poucos sequer sabiam pronunciar a palavra: mais fácil e comum era Coresma. Mas naqueles tempos idos e vividos, havia mais respeito às tradições religiosas e aos costumes longamente preservados. Nesse tempo, cumprem-se cuidadosos programas nas igrejas sob a cor litúrgica do roxo, que significa luto e penitência. No Colégio Loyola, em Belo Horizonte, haverá a exposição de “Duzentas faces de Jesus de Nazaré”, de Petrônio Bax, na capela do educandário, até 30 de abril, além de disponibilização do respectivo e belo catálogo. Poucos artistas brasileiros se dedicaram ao tema, com tamanha força pictórica, quanto esse mineiro de Carmópolis.
A quarentena do período se liga ao número correspondente na Bíblia: os 40 dias do dilúvio, os 40 dias de Moisés e de Elias na montanha, os 40 dias de Jesus no deserto antes de encetar sua vida pública e, ainda, os quatro séculos do exílio dos judeus no Egito. Na Bíblia, quatro simboliza o universo material, seguido de zeros, ou seja, o tempo de nossa vida na terra. A prática da Quaresma vem do século 4, com a prática de penitência, de renovação para toda a Igreja, do jejum e da abstinência. No mundo atual, muito mudou. Ao invés dos exercícios religiosos, sobretudo católicos, que prevalecem ainda fortes nos grotões, prefere-se aproveitar os dias para temporadas nas praias, nas casas de campo, até viagens ao exterior. O avião facilita.
Onde houver uma igreja pelo país afora, pequena que seja, há as comemorações até a data maior, a Paixão do Senhor, na Semana Santa, para a qual se recomenda jejum, abstinência e oração silenciosa. O foco é a contemplação dos passos de Jesus, em seu sofrimento, sua condenação, sua afixação na cruz. Os fatos representados são acompanhados pela descrição dos oradores sacros, que têm frequentemente nesses episódios o ápice de sua carreira como sacerdotes e de sua consagração como artistas da palavra e do pensamento, sob ausculta de fiéis que percorrem longas distâncias para gratas horas de enlevo espiritual.


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Por Manoel Hygino - 25/3/2015 09:10:00
Pelos caminhos do bem e do bom

Hoje em Dia - Manoel Hygino

Nem tudo se encontra nos meios de comunicação eletrônicos com uma parafernália de palavras em inglês ou corruptelas, agora amplamente sabidas das novas gerações. Os jovens e adolescentes já andam com algum aparelhinho nas mãos e nos ouvidos para se corresponder com o mundo, que não evoluiu o necessário, contudo, em termos de entendimento. Caso contrário, não existiriam conflitos no Oriente Médio, no norte da África, pelas bandas do Paquistão/Afeganistão e adjacências, nas regiões que formavam a União Soviética, antes o grande império que desabou com Nicolau II, o último czar.
Há, todavia, gente que insiste e persiste, não desiste dos tipos gráficos, que ganharam velocidade e universalidade com Gutenberg. Quando a editora Del Rey fecha as portas de uma de suas lojas e a Mineiriana encerra atividades na rua Paraíba, em BH, há aqueles que não se curvam às imposições e às coerções de nossa era. É o tempo, por exemplo, de Felicidade Patrocínio, com seu “Clube de Leitura”, em Montes Claros; da bem sucedida promoção “Livro na Praça” e ainda da “Santa Leitura, Uma Biblioteca a Céu Aberto”, que Estella Cruzmel apresenta em logradouros públicos da capital.
A idealizadora nasceu em uma fazenda no município de Mariana e se voltou para as artes plásticas, com a pintura. Lançou o livro “Espaço de fantasias”, e criou o Projeto “Santa Leitura”, em Santa Tereza, na praça Duque de Caxias, expandindo-se para a Comunidade Sagrada Família no bairro Taquaril e Floresta, na praça em frente à Igreja Nossa Senhora das Dores e, confiante, não deseja interromper a escalada bem sucedida, a despeito de dificuldades e percalços.
Estella tinha loja de roupas em Belo Horizonte, lia nos intervalos das visitas de cliente. Acumulou livros nas prateleiras e constatou que muitas senhoras e moças se interessavam pelo conteúdo, a partir das capas expostas. Era um bom sinal, de modo que decidiu seguir o conselho do grande vate baiano Castro Alves, distribuindo livros às mancheias e mandar o povo pensar.
Assim foi a gênesis do Santa Leitura, que ganhou adeptos, cresceu a novos bairros, conquistou públicos, impregnando a vida de sentimentos de beleza e conhecimento, da cultura e do bem. Está consciente de que “o caminho para melhorar o mundo é educar as pessoas, e, aos poucos, vou fazendo a minha parte, de todo coração”.


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Por Manoel Hygino - 17/3/2015 09:48:25
Agora, a luz está acesa

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Domingo parecia destinado a ser igual a todos os demais. Mas se havia anunciado que este, em março de 2015,seria diferente porque se programavam manifestações de protesto contra o governo nas principais cidades brasileiras. Seriam prova de vivo descontentamento da população pelo desvirtuamento da atividade política, em repúdio à corrupção por escândalos na administração pública, o mais recente envolvendo a maior empresa pública nacional: a Petrobras.
Outros motivos havia, mas estes já seriam suficientes talvez para entornar o caldo. Dias antes, ocorreram desfiles nas capitais em apoio ao governo e em defesa da Petrobras, embora a empresa já estivesse ferida em seu patrimônio, em seu prestígio e em seus brios.
Chamou atenção, para os que têm conhecimento mínimo de história, a data: 15 de março. Era este dia, assim como o 15 de maio, julho e outubro, e o 13 dos outros meses, formadores do antigo calendário romano, que se chamava de Idos. Havia, entretanto, um outro sinal macabro.
Regressando de suas vitoriosas campanhas na Gália, da Bretanha e Espanha, Caio Júlio César, cumulado de honrarias e ídolo de suas legiões, dirigindo-se ao Senado, sem medo e mesmo advertido de que opositores conspiravam contra sua vida, foi ali assassinado, quando discursava. Assim, o 15 de março, tão distante no tempo (a morte foi em 44 a.C.), ficou indelevelmente manchado pelo sangue derramado na política.
Marco Antônio fez um candente discurso junto ao corpo, dizendo porque comparecia ao enterro. Com Shakespeare, recordamos suas palavras: “Aos homens sobrevivem o mal que fazem, mas o bem quase com seus ossos fica enterrado. Seja assim com César”, o que -“para os gritos dos pobres tinha lágrimas”, que três vezes recusara a coroa”. “Tenho o coração, neste momento, no ataúde de César”, declarou Marco Antônio.
O 15 de março, em 2015, neste país, foi demonstração de insatisfação pela situação a que chegamos. Todo o Brasil sabe o que existe, quais as causas do lastimável estado em que nos encontramos. Fontes oficiais descreveram os protestos do domingo como da “zelite”, é isso. Tudo bem. Não houve mortos, feridos, destruições.
Cabe, a partir deste momento, formar uma sólida consciência nacional para que os aproveitadores do poder, onde estiverem, percebam que o povo se mantém disposto a defender os interesses do país. Chega de fazer de conta que tudo anda bem, que os desonestos serão punidos exemplarmente. É preciso acabar com a corrupção e com a impunidade. O cidadão precisa resgatar a confiança nas instituições. A nação não pode arruinar-se por um punhado de assaltantes dos cofres e do patrimônio público.
O Mensalão, o Petrolão, a "Lava Jato" são apenas capítulos de devassidão nos costumes. Não se pode cerrar os olhos aos fatos, contra os quais protestaram as ruas no domingo. Temos de responder a um jornalista amigo que lamentava, há tempos, por verificar que o Brasil havia deixado de ser um país para transformar-se em um território. Nem sequer permaneceu como tal, entrou em decomposição, sem consciência moral. Temos um país pior do que o que recebemos. Os valores deixaram de ter valor. O que mais dói é a insensatez. A proposta de domingo, 15 de março, é de mudar o quadro, para evitar-se o caos.


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Por Manoel Hygino - 19/2/2015 10:24:37
Apenas para lembrança

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Carnaval... se foi. Agora é esperar o de 2016, evidentemente com perspectivas menos sombrias, porque o deste ano apareceu pintado com tons plúmbeos. Fernando Om, que sabe analisar os problemas, escreveu: “Mais do que tratados a respeito, um simples comentário en passant pode muitas vezes trazer à luz a verdade nua e crua daquilo que está realmente por trás dos episódios: Carnaval? “Todo mundo fingindo ser muito feliz”.
E o brasileiro vai vivendo no país do faz de conta, do jeitinho e dos lençóis amarelecidos em que somos embrulhados. Oxalá possa alguém lembrar-se de festa passada com de imagem da marchinha que identificou o confete como pedacinho colorido de saudade. Bons e mais alegres tempos que habitam os corações.
Diferentemente de Paris, em que houve a chacina na redação do Charlie Hebdo, por estampar a figura do profeta em suas páginas, aqui os maometanos, ou jihadistas (se existem), não apelaram às armas para punir de morte os infiéis. Pôde-se apelar, sem receios e atitudes hostis, cantando, como há muitos anos: “Alá, Alá ô, meu bom Alá:? Mande água para ioiô/ manda água para Iaiá”. A falta de chuva, por sinal, foi a maior das últimas décadas. O volume que chegou aos reservatórios das principais hidrelétricas em janeiro, nunca esteve tão baixo nos últimos 85 anos. São Pedro caprichou, desta vez, coagindo os foliões a apelar para Alá, meu bom Alá.
Nos períodos de calor mais intenso, quase perdidas as esperanças, pedia-se em coro: “Tomara que chova, sete dias em parar”, o que seria uma catástrofe, s e atendida a súplica. Lembro o governador Francelino Pereira, piauiense, confrade na Academia Mineira de Letras, singrando de barco o caudal do São Francisco, para transmitir uma palavra de alento e encorajamento às populações ribeirinhas, cujas casas foram invadidas e danificadas pela torrente impetuosa. Carnaval no Brasil parece apagar todas as dores e vilipêndios, haja vista as fotos nos jornais e as reportagens nas televisões. O de Belo Horizonte, que se vai resgatando em prestígio e ganhando público, não merecera, nos anos 40/50, o entusiasmo de Manoel Luis Caldas, representante aqui da Francepresse. Ele considerava nossa festança momesca menos animada do que a Semana Santa no Rio de Janeiro, onde era apaixonado atleta do Bola Preta, com sede social perto do Municipal.
O historiador Nelson Vianna lembrou um velho carnaval em minha terra, há muitas décadas. No domingo gordo, formou-se um cortejo representando um casamento. Recém-chegado à cidade, um jovem fantasiou-se de noiva, com todo o requinte, véu e grinalda, um rico buquê. De fraque, modelo de distinção, o noivo desfilou de gravata e botinas de verniz, pelas ruas, seguido o par nubente por graves testemunhas. Cantava-se o sucesso da época “Americana”.
Na terça-feira, novamente o grupo desfilou com os mesmos personagens. A noiva, porém, já esposa, carregava um bebê passou a esposa, bebê nos braços. Seguiam-se os padrinhos, antes testemunhas. Encaminhavam-se ao batizado. Tudo no mais perfeito respeito e alegria


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Por Manoel Hygino - 26/1/2015 09:29:42
O cheiro da corrupção

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Em termos de corrupção, nada mais pode assustar o cidadão deste país. Com o mensalão, poder-se-ia supor que se alcançara o ápice das falcatruas em âmbito político. Nada disso. Muito mais veio à frente, enquanto o ministro Joaquim Barbosa, relator da AP 470 e presidente do STF, se viu considerado persona non grata, e efetivamente o era, para os que cuspiram no prato em que comeram.
Ser honesto no país se tornou afrontoso. É se erguer contra os crimes que se cometem contra o patrimônio público, contra o erário, contra o cidadão mantenedor das instituições. Ao deixar o Supremo, o mineiro de Paracatu quase sofreu impedimento de exercer a advocacia, por iniciativa da sua própria corporação.
Depois, surgiu o petrolão, uma novela sem fim previsto, tal a envergadura do assalto à maior empresa do país, que ajudamos a fundar há décadas. Tornada vulnerável à voracidade de maus brasileiros à frente dos negócios, não a honraram. Pelo contrário.
Quantos são os casos de corrupção? Quantos se viram envolvidos nos negócios escusos e desonestos? Quantas investigações se realizaram ou são ora realizadas? Quantos pagaram pelos atos de improbidade? Quantas demissões se fizeram em cargos na administração ou quantos ressarciram os danos? Quantos foram para a cadeia?
A verdade nua e crua é diferente. O petrolão é um crime de lesa-pátria. Mas, há também os de menor monta, os dos pequenos gatunos, os das instâncias inferiores da administração, inclusive municipal. As apurações do Ministério Público em Minas, no que tange à farra em prefeituras do interior, apontam dezenas de pessoas comprometidas em abusos e muitos milhões desviados de seus objetivos essenciais.
Até quando o cidadão digno e trabalhador terá de esforçar-se e sacrificar-se para manter a máquina ineficiente e onerosa, sem nela encontrar resposta a suas necessidades, sobretudo no caso da saúde, da segurança e da educação? A ineficiência no serviço público é motivo de chacota, desespero e revolta.
Enquanto isso, milhões são gastos em despesas desnecessárias, viagens supostamente a trabalho, mesmo ao exterior, como já apurado e comprovado. Todos os meios são utilizados para mascarar ou camuflar dispêndios, para os quais se conta também com ajuda eficiente dos cartões corporativos.
O mensalão e o petrolão são espelho de uma nação que despreza o que outrora foi bom e paradigma. E o cidadão pratica a lição do “cada um por si e Deus por todos”, por não confiar na autoridade, mesmo aquela que ajudou a eleger. Das licitações para obras públicas, se pode ter um desenho na historieta contada pelo advogado, poeta e professor José Luiz Rodrigues.
Ele descreve: Um prefeito do interior deste Brasil solicitou orçamento a um engenheiro japonês para uma obra no seu município. O japonês disse que faria a obra por R$ 3 milhões. Fez a mesma solicitação a um engenheiro americano. Este disse que faria o serviço por R$ 6 milhões. Não satisfeito, o prefeito procurou um engenheiro brasileiro. O doutor disse que o seu valor seria de R$ 9 milhões. O prefeito considerou absurdo o orçamento do patrício. Então o conterrâneo explicou: - Dos R$ 9 milhões eu tiro R$ 3 milhões para você, R$ 3 milhões para mim, e fazemos o serviço com o japonês.


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Por Manoel Hygino - 24/1/2015 12:21:45
Execução na Indonésia

Manoel Hygino - Hoje em Dia

As organizações criminosas no Brasil permanecem fortes e, ao que tudo leva a crer, mais poderosas e ousadas. Em 2012, depois de o PCC ordenar ataques a policiais em São Paulo, 106 PMs foram assassinados. No ano passado, o Primeiro Comando da Capital preparou novos ataques, caso a sua cúpula fosse transferida para RDD, Regime Disciplinar Diferenciado na Penitenciária de Presidente Bernardes, no interior do vizinho Estado.
Naquela época, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Benedito Roberto Meira, pôs a corporação em alerta. No ano passado, os bandidos prometeram uma Copa do Mundo do Terror e ataques durante as eleições. Os planos foram interceptados em telefonemas pela inteligência da polícia. “Passei mensagem aos meus homens para que redobrem a atenção”, afirmou o coronel Meira.
Mas se não houve a hecatombe que premeditavam os criminosos e suas organizações, sua ação não cessou. A sedução do mal continuou em grande escala e o crime persiste e insiste, porque existem recursos para investir e a impunidade nefasta contribui.
A corrupção na administração pública, que habita os espaços da mídia, permeia a onda de crimes contra a vida e o patrimônio de todas as pessoas, enquanto a fúria devastadora de desrespeito a pessoas, empresas e repartições põem a perder a cordialidade e a boa convivência de velhos tempos. Não há mais segurança em lugar nenhum, em qualquer dia e hora.
Em tempos mais recentes, cogitou-se de zelar em defesa das nossas próprias instituições ameaçadas em todos os flancos. Milhões e milhões de reais circulavam pelas maiores praças bancárias do mundo, dinheiro subtraído do cidadão pelas vias movediças da corrupção e pelo cruel negócio das drogas e comércios semelhantes.
A Polícia Federal da Suíça revelou, no final do ano, que a movimentação de dinheiro para contas secretas naquele país pelo crime organizado brasileiro só é superada pela máfia italiana. Conforme investigações, essas organizações criminosas transitaram, em 2013, mais de 29 milhões de francos suíços, equivalentes a mais de R$ 75 milhões pelos seus bancos, com o objetivo de lavagem de dinheiro.
O mercado brasileiro do crime usa a praça financeira suíça de forma mais intensa que a máfia russa ou o crime organizado chinês, cujo volume de dinheiro movimentado é três vezes maior que o dos russos.
Essas observações conduzem automaticamente ao lamentável episódio de dias atrás, quando um brasileiro foi executado na Indonésia por transporte de cocaína introduzida em equipamento de sua asa delta.
É deplorável, sob vários aspectos, mas o fato apenas confirma a maneira displicente com que os brasileiros já circulam por todos os países na prática de crimes contra a saúde e a vida, confiantes na tolerância de outros governos. Ignora-se que não se adota em alguns países a prática de receber condenados por delitos de suma gravidade, como aconteceu com o sr. Batisti, homicida, condenado na Itália por quatro assassinatos e aqui acolhido oficialmente. O Brasil não pode abonar o crime organizado e não é valhacouto de inimigos da lei. Apesar dos pesares, o fuzilamento de um brasileiro vale como advertência: não podemos conviver ou contemporizar com o crime e os criminosos.


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Por Manoel Hygino - 20/1/2015 10:43:25
No último dia de 2014

Manoel Hygino dos Santos

Haroldo Lívio de Oliveira saiu de cena sem consentir o epílogo, a alocução com que, entre os antigos, acabada a peça teatral, um do atores se dirigia ao público para resumir a obra, gabar seus merecimentos e solicitar aplausos. Coube, assim, como imprescindível, aos seus amigos e companheiros de idéias e ofício, fazer a síntese de uma vida dedicada à amena convivência, ao mais saber e ao mais ensinar.
Nascido em Brasília – a de Minas, a velha Contendas; foi titular de cartório de Registro de Imóveis, por concurso, em Porteirinha. Em Montes Claros se consagrou como advogado, jornalista, escritor, e consultor para todas as questões que precisavam ser deslindadas sobre a grande região norte-mineira. Acima de tudo, foi um ser humano exemplar e querido.
Com apenas um livro publicado (certamente com outros em elaboração e finalização) primou-se pela sobriedade no texto sobre os temas focalizados. Distinguiu-se pela lhaneza - no trato e pelo notável cabedal em termos de história, costumes locais e regionais dos seus personagens.
É penoso redigir estas linhas sobre um homem de bem, e que partiu como ele o fez: de supetão. Em artigos ou crônicas para os periódicos locais, redigiu o necrológio daqueles que pelo sertão mineiro passaram e a ele serviram com desprendimento e carinho. Foi um dos mais conceituados entre os jornalistas que se incumbem desse doloroso mister.
Razão tinha Oswaldo Antunes, ao prefaciar “Nélson Vianna, o personagem”, tantos anos atrás. Lembrou Francis de Croisset ao ajudar compor “As Vinhas do Senhor”. Comentou que a leitura é uma viagem dos que não podem tomar o trem, pensamento próximo do jeito brasileiro de acompanhar, da janela das composições ferroviárias, panoramas que cruzavam o sertão como televisão dos retirantes.
Através de seu livro e de inúmeras colaborações para a imprensa, nós, retirantes do tempo, contemplamos e evocamos paisagens humanas transpostas à letra de forma por Haroldo Lívio. Seu plano maior era mudar-se para Grão-Mogol, a jóia do sertão mineiro, cidade encravada nas pedras e em que Lúcio Bemquerer construiu um presépio de rara beleza e de imenso conteúdo espiritual e humano.
A residência de Haroldo seria na antiga rua Direita, no centro histórico. Registrou Wanderlino Arruda: “É obra granítica, com paredes de meia braça, a sustentar janelas coloniais, portas imensas, de duas bandas, com pesadíssimas travas e ferrolhos, frutos, não só da segurança mineira, mas da senhorial competência de seus ferreiros de antanho”.
Projeto concluído, com todo o mobiliário no melhor gosto, ela não serviu ao desejo e sonho do autor, que ali teria incontestavelmente o lugar ideal para meditar, recordar o passado e escrever. Ali, se sentiria no Jardim de Academos, pois tem uma imagem que lembra regiões da Grécia.
Protegida pelas agressivas muralhas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra, como ele mesmo escreveu. Suas ruas estreitas e tortuosas, pavimentadas outrora de seixos rolados, coloridos, imitavam um bordado. E há agora, o presépio- Mãos de Minas.
Haroldo parecia ter pressa. Partiu no último dia de 2014.


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Por Manoel Hygino - 13/1/2015 09:51:43
Um perfil de Fidel

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Corajosas as mulheres cubanas. É o que se depreende de “Alina”, memórias da filha de Fidel Castro, cuja primeira edição se deu em Barcelona, em 1997. Na dedicatória, “homenagem a todos os que foram, são e serão cubanos”. No prefácio, uma indagação indesviável e a que todos procuram responder: “O que será de Cuba? A pergunta me faço diariamente, mas ainda não há resposta”. A dúvida persiste, mas se abrem lentamente as janelas para desvanecê-la. O reatamento de relações diplomáticas entre Washington e Havana clareia o cenário, mas há muito a fazer. Raúl Castro não quer o fim do comunismo, e o mundo não deseja a ilha dominada e subserviente, a quem quer que seja.
Um ano novo está aí, num mundo dilacerado ininterruptamente por guerras, mas Cuba vai saindo de quase 60 anos de estagnação e retrocesso, servindo para abrigo e acolhimento de pretensos (?) revolucionários de outros países e como campo de treinamento para cubanos que agiam na África e América. A própria Alina chegou a classificar os patriotas desviados não de soldados, mas de mercenários.
Enganam-se os que pensam que Cuba parou no tempo antes da revolução castrista. Bem verdade que se transformara em ponto de investimentos de poderosos grupos – cassinos, de divertimentos outros e negociatas de mafiosos dos Estados Unidos, explorando do charuto famoso à prostituição.
Antônio Rangel Pestana, cientista político, ardoroso comunista no passado, afirma ser ocioso especular as razões que indicaram Cuba ao regime soviético, e se perder tempo para definir se Fidel se tornou comunista antes ou depois de tomar o poder. Para companheiros de juventude que deixaram Cuba, é indiscutível o fascínio que “o universitário Fidel teve pela obra de Lênin, não pelos fundamentos humanistas do marxismo”.
No Colégio Belém, um ex-professor se refere à forte influência que o integralismo espanhol de Primo de Rivera exerceu nos jesuítas e em seu jovem aluno, admirador de César e entusiasta de Hitler. Sua inclinação por José Martí, o herói de Cuba, resultou da necessidade de dar um cunho nacionalista e patriótico, dando motivação à sua luta contra Batista. Na prisão, após o fracasso da tomada do quartel de Moncada, atraiu-se por Stálin e, principalmente por Robespierre e Napoleão, tangido sempre pela vertente autoritária e violenta da história.
O escritor brasileiro observou, ainda: “Sua ação política será sempre uma constante opção pela violência como forma de resolução dos conflitos. Estou convencido de que Fidel, uma vez no poder, aprofundou as características leninistas de sua política por uma questão de identificação e conveniência. Esta doutrina propunha a brutalidade dos métodos, o centralismo das decisões e o unipartidarismo do regime, inteiramente apropriados ao seu objetivo de estabelecer um governo centralizador, personalista e ditatorial”.
O presidente Torrijos, do Panamá, sintetizou: “Fidel acha que sabe de tudo”. A isso acrescentou Bandeira: “Todos os que pensavam de forma independente foram entrando em rota de colisão com o Comandante, num momento ou outro do processo. Ou se afastavam, ou eram marginalizados, presos, banidos, assassinados. Fidel só ouve a própria voz, e se cerca de bajuladores incondicionais. Figura típica e patética do Terceiro Mundo”.


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Por Manoel Hygino - 9/1/2015 09:46:59
O futuro opaco

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O recorte ficou ao lado de tantos outros. Ignoro o autor e em qual jornal o pequeno texto encontrou guarida. O Brasil inicia um novo período de sua história, mas possivelmente se enquadrem as considerações ao momento que vivemos:
“O futuro é opaco e se nega a ser decifrado. Mesmo quando explorado pelas melhores inteligências, apoiadas nas mais recentes técnicas econométricas, ele se recusa a confessar qual o caminho que tomará. Essa realidade e a prudência levam a comportamentos defensivos.
As autoridades responsáveis pela política econômica devem pesar cuidadosamente os riscos alternativos sem deixar-se imobilizar, mesmo porque não há caminho de custo zero. Os analistas, para preservar a credibilidade, procurarão acertar (ou errar) juntos”.
Eis a questão.
A hora é difícil. A alegria do Natal, da passagem de ano, das posses e pompas já se esvaiu. Não se ouve mais o foguetório, e o calendário praticamente vigora desde 5 de janeiro. Cabe ao povo, ao cidadão, aguardar as primeiras medidas governamentais, antecipando as vicissitudes e o ônus. Ou o júbilo pelos êxitos. Para onde estamos indo? As questões de sempre, em meio às dúvidas permanentes. É preciso enfrentá-las e dar-lhes resposta, porque o tempo não para e o futuro, qualquer que seja, somente espera.
Alexandre Herculano escreveu: “Há muitas vezes na história, ao lado dos fatos públicos, outros sucedidos nas trevas, os quais frequentemente são a causa verdadeira daqueles, e que os explicariam se fossem revelados”. O tempo que vivemos exige que os registros acontecidos na escuridão sejam desvendados e amplamente conhecidos, para que não se cometam injustiças. Para consegui-lo, porém, exige-se isenção e honradez.
Se voltássemos às raízes do programa republicano, que é de 1870, e nisso há mais de século portanto, veremos que os sonhos das gerações anteriores a 1889 não conseguiram corresponder às expectativas e à esperança. Nem as alcançaram em décadas de regime.
Já não se convencia a sociedade que a reforma era complexa e abrangia todo o mecanismo social. Negá-las, dizia o documento, seria uma obra ímpia. Aprazá-la indefinidamente, constituiria um artifício grosseiro e perigoso.
São quase setenta anos da queda do governo ditatorial de Vargas. O fato obriga indesviavelmente a lembrarmo-nos do Manifesto dos Mineiros, de 1943, quando se disse que o patrimônio moral e espiritual não sobrevivem ao desleixo. “Os bens materiais arruínam-se e se perdem quando a diligência do dono não se detém sobre elas. As conquistas espirituais também se perdem quando o homem as negligencia, por lhe parecer assegurada a sua posse”.
Em determinado período, aduziu-se: “Desejamos retomar o bem combate em prol dos princípios, das idéias e das aspirações que, embora contidas ou contestadas, haveriam de nos dar a Federação e a República, não como criações artificiais de espíritos românticos e exaltados, mas sim com iniludíveis imposições de forças históricas profundas”.
É o que penso agora.


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Por Manoel Hygino - 5/1/2015 10:00:17
Com o falecimento do Haroldo Lívio, perdemos uma das maiores Inteligências do nosso norte. Era um excelente escritor e amigo, que muito contribuía para a preservação da memória local e regional. Com profundo pesar, recebo a infausta notícia, dividindo a dor com a família e sociedade.


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Por Manoel Hygino - 29/12/2014 13:40:11
Cem anos exemplares

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Uma jovem professora e escritora do interior brasileiro completa cem anos em 30 de dezembro. Nascida em 1914, no norte e Minas, fez o curso primário em Montes Claros, e, em seguida, a Escola Normal. Transferindo-se com os pais para Brejo das Almas (o nome inspirou o livro de Drummond), hoje Francisco Sá, lecionou no grupo escolar local.

Era um tempo de ensino superior cingido praticamente às capitais ou às cidades maiores. No velho e lendário Brejo regeu classes e se fez professora de Educação Física, por dez anos. Casou-se com Olyntho Silveira, fazendeiro, com inclinação às letras. Uma união de mais de setenta anos, durou até o falecimento do marido quase centenário. O casal já se transferira para a cidade mais importante da região, grande centro econômico, mas também político e cultural.

O amor sincero e entranhado inspirou um poema nas bodas de prata: “Companheiro”. “Tu és o companheiro eu escolhi/ para o fatal caminho do amor, / E o ideal abandonei por ti, / Para viver contigo o risco e a dor./ Faz vinte e cinco anos. Nem senti andar pelo caminho sedutor./ Morria aqui um sonho, outro ali./ Nós dois vivendo de esperança e ardor./ És aquele, sim, que um dia escolhi./ E não importa que a glória inconstante/ E a alma incerta se esquivem de ti./ O amor nos dá tanta felicidade/ que só desejo no supremo instante/ partir contigo para a eternidade”.

Ele, esposo e poeta, se foi. Ela ficou para continuidade de uma obra admirável. Yvonne de Oliveira Silveira se consagrou, em um meio rico de mulheres notáveis virtudes nas letras, na história, na música, nas artes enfim. Depois, presidente da Academia Motesclarense de Letras, exerce o cargo com total devotamento e competência, além dos demais que ocupa.

Presidente de Honra do Elos Clube, sócia do IHG de Montes Claros, do Rotary Clube Sul, da Academia Feminina de Letras de Minas Gerais, sócia da Academia Municipalista de MG e fundadora da de Montes Claros, comparece rigorosamente às solenidades, sempre elegante e b em disposta. Fornada em letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Montes Claros, da Unimontes, pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-MG, construiu um belo currículo com uma série de atuações, inclusive em funções públicas participando de cursos na capital mineira pela UFMG e na Comissão Mineira de Folclore. Lecionou Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura na FAFI; História das Artes no Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez, entremeados esses misteres com viagens pelo país ou fora dele para congressos e seminários.

Com Olyntho, publicou “Brejo das Almas”, em 1962 e, daí para frente, jamais deixou de editar novos livros, o mais recente, “Cantar de Amiga”. Para Maria Luiza Silveira Teles, também escritora, “toda a sensibilidade e a rica interioridade de Yvonne Silveira se derramaram nessa obra cheia de beleza, que é, em si mesma, uma canção do mais puro dos sentimentos e uma elegia à própria vida”.

Sua biografia é ampla, mas se há de enfatizar a incessante produção para jornais, em verso e prosa, presença em prefácios e orelhas, em palestras e conferências, que transformaram todos os seus dias, e tudo o que faz, “numa belíssima canção à vida do ser humano”. Os cem anos de Yvonne é uma festa para todos nós, a quem devemos um rosário de exemplos de operosidade de bem servir.


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Por Manoel Hygino - 23/12/2014 10:11:17
Jesus Seria de Nazaré?

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Onde foi efetivamente o berço de Jesus? A pergunta ecoa pelos séculos e inúmeros estudos e muitas pesquisas se fizeram na tentativa de decifrar o enigma. Para se ter fé, não precisa rigorosamente de certezas. Não sem razão, nas solenidades religiosas cristãs, se reitera: “este é o milagre da fé”.
Sem embargo, faz-se referência incessante a Jesus, como “homem de Nazaré, “um lugarejo distante, no cume irregular de um morro batido pelos ventos da baixa Galileia, como a descreve Reza Aslam, não muito diferente da descrição de Saramago. Os moradores se utilizavam de um único poço para obter água fresca. O nome do lugar não aparece em nenhuma fonte judaica antes do século 3 a.C..
Ali, possivelmente nasceu Jesus e cresceu. Jesus de Nazaré passou a ser seu nome. Mateus e Lucas, no entanto (só eles), afirmam que Jesus nasceu em Belém, igualmente ignorada no Novo Testamento, mas que dele tratam como “O Nazareno”. Apesar disso, há um único versículo em João, 7:42, a respeito.
Quando Jesus é convidado a ir à Festa dos Tabernáculos, ele resiste: “Eu não vou a esse festival (da colheita). Ainda não é o meu momento”. A família se desloca à Judeia, e ele segue-lhe os passos, à distância, secretamente, em meio à multidão, que sobre ele expressa opiniões.
No meio do povo, conclama: “Que venham a mim e bebam aqueles que têm sede!”. Alguns passaram a vê-lo como o Messias, mas a figura deste era também muito vária. Podia ser um rei ou um sacerdote, ou ambos num só. Algo estava certo: cumpria-lhe libertar os judeus do domínio do invasor, restaurar Israel, estabelecer o poder de Deus em Jerusalém. Muitos supostos messias tinham fracassado no afã.
Descenderia da Casa de Davi? Segundo Reza Aslam, o evangelista João não demonstra interesse sobre seu renascimento físico, embora reconhecesse no nazareno um ser eterno, com a força primordial da qual toda a criação surgiu.
Marcos também não se preocupa tanto com o pormenor no seu evangelho, escrito após 70 d.C.. Para o evangelista, o essencial é o seu papel. O importante para as primeiras comunidades cristãs é o seu ministério, nascimento e infância interessam pouco ou nada, como o revelam os documentos de cerca de 50 d.C.. Paulo se resume à crucificação e ressurreição, embora se refira à Última Ceia.
Depois do sacrifício no Gólgota, começou-se a pensar na origem e passado de Jesus. Há dúvidas e controvérsias. Não há narrativa nas Escrituras Hebraicas. O escritor iraniano, de origem muçulmana, porém, é enfático: “O verdadeiro Jesus, o pobre camponês judeu que nasceu em algum momento entre 4 a.C. e 6 d.C., na desordem rural da Galileia – busque-o nas casas de barro esfarelento e tijolos soltos aninhados em uma pequena aldeia varrida pelos ventos, Nazaré”.
Acrescenta: carpinteiro ou construtor, Jesus foi “como um trabalhador artesanal e diarista, teria pertencido à classe mais baixa de camponeses na Palestina do século 1, um pouco acima do indigente, do inimigo e do escravo, com conhecimento rudimentar do hebraico, suficiente só pra compreender as escrituras lidas na sinagoga”. E chegou ao lugar e ao tempo em que nos achamos.


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Por Manoel Hygino - 6/12/2014 12:12:56
Os voluntários de Cuba

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os médicos cubanos chegaram, inúmeros outros já estiveram ou estão em outros países, certamente porque há nações que precisam desses profissionais. O mercado interno da ilha está bem abastecido deles, a julgar pelas notícias. Não só os discípulos de Hipócrates. Há cubanos, de todas as profissões, por este mundo afora. Trata-se do que o governo cubano denominou de “Internacionalismo proletário”, como lembra Antônio Rangel Bandeira, revolucionário nos anos rebeldes do regime militar brasileiro, ex-exilado.
Em seu “Sombras do Passado”, Rangel não se restringe ao tempo pretérito, porque as repercussões da revolução dos Castros ainda se mantêm. É o caso dos insulares que deixam a ilha sob a bandeira do altruísmo. O escritor não partilha a ideia: “O governo omitia os interesses econômicos da medida, a manipulação dos voluntários, e escondia as cifras que transformaram principalmente Angola e Etiópia num matadouro de cubanos, para exaltar a “vocação napoleônica do Líder Máximo”, conforme o general Rafael Del Pino.
Para ele, afora o contrabando de armas para diferentes países, em Angola o Movimento Popular de Libertação – o MPLA pagou 1 milhão de dólares por ano a Havana, durante os quinze anos em os soldados dos Castros permaneceram, em seu território. É muito?
É ainda mais: “Os angolanos pagaram mais de 4 milhões de dólares para a manutenção da tropa cubana. Segundo o próprio Fidel, foram enviados para os países africanos cerca de duzentos mil cubanos.
O general mencionado depôs: “No princípio de 1975, fui convocado para apresentar-me no Ministério do Interior. Vi-me frente a um desagradável burocrata, que, sem maiores comentários – me perguntou se eu estava disposto a cumprir uma missão internacionalista. Disse que sim. Uma semana depois, embarcaram-me em um cargueiro, junto com quatro mil homens. Não sabíamos para onde nos levavam. Só depois de doze dias, disseram-nos que a maioria ficaria em Angola.”
Aquela gente só sabia da África pelos discursos oficiais, que nada esclareciam de suficiente. “Em Cuba, a opinião pública não sabe praticamente nada sobre as guerras naquele continente. As famílias dois mortos foram proibidas de recuperar seus corpos, enterrados no estrangeiro; os que voltavam feridos ou doentes de AIDS foram mantidos reclusos em hospitais. E sanatórios, evitando-se que a população tivesse noção das proporções do desastre.
Mais de dez mil cubanos morreram em Angola e ficaram feridos em torno de 25 mil, mas os números são segredo de Estado. O propósito é “ocultar a carnificina provocada pela megalomania de Fidel e pelo fiasco da estratégia militar do regime”.
Quando o general Ochoa, um herói, regressou a Havana, passou a reclamar da falta de apoio aos cinqüenta mil cubanos que também voltavam, numerosos relegados ao desemprego e contaminados pela AIDS. Aí, começou a inquietar os irmãos Castros, e sabe-se o que com ele aconteceu. Não foi o único. Mas os dólares do mercenário compromisso já estavam em Havana.


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Por Manoel Hygino - 5/12/2014 10:25:18
Reenchendo a caixa d’água

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O governador José Francisco Bias Fortes, do velho PSD, criado por Vargas ao final de seu “curto período” de quinze anos à frente dos destinos nacionais, gostava em seus discursos, em tom solene e grave, de enfatizar que Minas Gerais era a “caixa d’água do Brasil”. Nas alterosas, de fato, têm nascentes e ganham volume, rios que asseguram comunicação, energia e o vigor da economia em extensas regiões do país.
Como é relevante essa caixa d’água! Quando a nação passa pelas graves dificuldades como as da hora presente, a apreensão se amplia. Falta o líquido nas torneiras da maior cidade do país, mas ele também míngua no próprio território de nossa velha província. Seco o nascedouro do São Francisco, rio da unidade nacional, todo o Sudeste pena e põe em risco o sistema interligado de energia.
A bela queda d’água na Serra da Canastra, em São Roque de Minas, não há mais. É o novo retrato do Brasil que não chega às torneiras. Mais uma vez, as montanhas e os rios da terra de Tiradentes têm de ajudar os vizinhos. As águas da bacia do Paraíba do Sul, abastecedora dos três principais estados da região, são compelidas a auxiliar em hora de desdita, inclusive a bacia do Cantareira,em São Paulo.
Assim, o governo federal estuda, em caráter de urgência, as instâncias de São Paulo, do governador Alckmin, e das lideranças políticas paulistas, para a transposição do Paraíba, cumprindo o mandato bíblico de dar água a quem tem sede. Minas é sempre lembrada nos momentos mais difíceis e delicados da nação, e não somente quando há assalto à liberdade como em 1943, e da gente das montanhas partiu o grave alerta contido no Manifesto dos Mineiros.
Ao invés de proteger o velho Chico e seus afluentes, cuidou o governo da República na gestão Lula de lançar um projeto faraônico e demagógico de transposição da corrente para atender às demandas do Nordeste. Ignorou-se que o rio, nos últimos tempos, perdera força e grandeza, tanto que é já atravessado a pé ou a cavalo junto à grande ponte de Pirapora, mantendo-se em operação apenas uma turbina em Três Marias.
Os períodos áureos se foram e, com eles, milhares e milhares de turistas deixaram de navegar por aquele belo e remoto rincão brasileiro, de gente trabalhadora e afável, a que muito devem a música e o artesanato mineiro.
Ali, não há, nem nunca houve, navios, porque lá subiam e desciam “os vapores”, movidos a lenha, trazidos da América do Norte. Mas não dispunham os visitantes de Tio Sam da alegre acolhida dos barranqueiros, prestimosos e gentis, com frutas regionais, peixes magníficos e a aguardente que tornou Januária famosa.
Quanto se foi perdendo pela falta de conhecimento e amor ao interior mineiro! A civilização também ingressou ali, víveres se destinavam às cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, excelentes consumidores. E há templos históricos, que a propaganda oficial até hoje não importou em divulgar, alguns mais velhos do que os das cidades históricas do ciclo do ouro.
Retornemos, porém, aos dias de hoje: As chuvas voltaram na última semana de novembro. É hora de reencher a caixa d’água.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2014 09:36:05
Na falta da água

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O tormento decorrente da longa estiagem deste ano – continuando as parcas chuvas de 2013 – incomoda a gente do país, sobretudo do Sudeste, porque somos um povo que adora banho. É uma tradição transmitida pelos ancestrais de sangue tupi e guarani, como registra Wanderlino Arruda, dos Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros, e membro de um sem número de entidades que têm a ver com as letras, as artes e o saber.
Inegavelmente, a indiaiada amava – e ama – divertir-se na água e com a água, com ênfase os bugrinhos, costume herdado alegremente e decepcionando as gerações avoengas europeias. Com a crise desde 2014, priva-se o brasileiro de um prazer muito típico e gostoso, obrigando-se nestes dias de penúria a insatisfatórios e decepcionantes banhos de bacia e caneco. O racionamento que já atinge muitas cidades causa tristeza e revolta.
Quando elaborei texto para o livro sobre os 50 anos do “Madrigal Renascentista”, lembrei uma questão levantada pelos cantores, em excursão aos países nórdicos: queriam tomar banho, prática incomum naquele pedaço da Europa. Mas os artistas não abriram mão.
Wanderlino, aliás, evoca o testemunho do estimado padre Aderbal Murta, que deixou marcas de sua passagem nos lugares em que exerceu o sacerdócio. Ele, bonachão, recordava que o reitor da Universidade de Louvain, na Bélgica, melindrou-se quando os seminaristas brasileiros que lá chegavam também pediram um pequeno cômodo no grande conjunto de edifícios, para se banharem: água da cabeça aos pés, vinda de cima, passar sabonete, enxaguar o corpo, enxugar com uma toalha felpuda. Muita exigência! Então, banho era com luva, esponja, apenas esfregando, sem molhar o chão.
Os bárbaros, ao invadirem a Europa, atribuíram aos banhos coletivos a decadência romana. Destruíram todos os banheiros públicos e particulares, eliminando por quase um milênio o costume. Recomendava-se apenas lavar as mãos antes das refeições, como registra o sábio Ivan Lins.
Alguns casos ganharam fama. Isabel, rainha de Castela, só tomou dois banhos, ao longo da vida e se gabava disso: um, ao nascer, e o outro, preparando-se para o consórcio real. Das ideias da Idade Média, decorreu o desprestígio em que caíram os banhos. Augusto Comte escreveu: “Estreitamente preocupado com a pureza moral, esqueceu-se o catolicismo de constituir a purificação física como o primeiro degrau da disciplina individual, descurada como inútil à salvação eterna”. São Gregório proibiu os banhos aos sábados, “principalmente se a finalidade fosse higiênica”.
Compreende-se: tomar banho era pecado, ato de luxúria, algo muito mundano, um cuidado excessivo com o corpo. Langlois, contudo, observa que o hábito era corriqueiro entre os fiéis medievos. O banho, até acompanhado, principalmente em se tratando de amantes, com a cabeça coroada de flores, originou condenáveis abusos no dizer de Gautier.
Então, surgiram mulheres que se dedicavam a lavar a cabeça dos grandes senhores, embora as gentis profissionais não gozassem de boa reputação. Aqui e agora, é diferente, muito diferente. É preciso muita água e o desperdício é criminoso neste tempo de seca inclemente.


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Por Manoel Hygino - 18/11/2014 15:41:51
Montes Claros é pródiga em mulheres talentosas nas letras, nas artes, na pesquisa histórica, no magistério. Quem as conhece e ao que elas perfeitamente fazem avaliam méritos e virtudes, amplamente reconhecidos, até consagrados.
A presença e atuação das montes-clarenses nestes campos é notável e invejável. Imagino como uma cidade, no sertão que já foi longínquo, cresceu em tão bela seara.
Faço esta meditação, ainda sob o impacto do passamento de Ruth Tupinambá Graça, que tanto resumiu o panorama da inteligência e sensibilidade de nossa terra. Deixou-nos aos 97 anos, mas sua contribuição à crônica local supera o limite do tempo.
Por todos estes motivos, encaminhei, através de Wanderlino Arruda, modesto texto de homenagem a quem apenas partiu de nosso meio, deixando um legado de valor inestimável.

Meu estimado Wanderlino,
Há mais do que um vácuo pelo passamento de Ruth Tupinambá.
Ficou conosco a graça riquíssima de suas reminiscências, para que as novas gerações conheçam a Montes Claros que houve.
Não há como deletar as belas páginas que ela escreveu para a descendência seguinte.
O legado não se perdeu, nem se perderá. Veio para ficar.
É com este sentimento que recebo a pungente notícia.
Saberemos respeitá-la pela lindeza do que nos transmitiu e pelo que foi.


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Por Manoel Hygino - 13/11/2014 10:43:59
As chuvas no sertão

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Chuva no sertão é mais esperada, com mais fervor e ansiedade, que o prêmio maior da Sena. Enfim, a loteria beneficia apenas um, ou uns, quando do chamado bolão. As águas descendo das nuvens são mais democráticas, trazem bondades a milhares e milhares, mesmo milhões de pessoas. Por isso, o homem do sertão – ou mulher – diz que ela vem do céu, constitui algo sobrenatural, que depende de Deus, porque nele se crê.
Quando falta esta bênção no sertão, em longa temporada, reúnem-se as devotas para o terço na suas humildes habitações, fazem novenas e formam procissão com as fiéis carregando pedras na cabeça em cantorias tristes, expressando dor, mas também confiança em que não sejam esquecidas. E o sol, inclemente e impiedoso, desce em chispas sobre as cabeças desprevenidas.
Caminhões e caminhões, lotados dos que procedem de terras mais ao Norte, chegam carregando suas dores e já parcas esperanças. São dezenas e centenas de quilômetros de incômodo percurso, passando fome, lembrando o que ficará para trás, os pequenos e pobres bens que herdaram de pais e avós também sofridos. Sem mais condições físicas para enfrentar o extenso deslocamento ao Sul, ficavam em seus casebres os mais idosos, aguardando a hora final ou já sepultos na terra em que vieram à vida.
Quando outubro se esvaía neste 2014, o redator local, atento e com bom texto, registrou eufórico: chuva de encher rio, uniforme, vigorosa, comportada, sem raios e trovões. Chuva de lavar os ares, de acender a iluminação das ruas. Chuva de Deus, chuva da infância em minha cidade, quando a população toda rumava para a beira do rio Vieira, a fim de ver a enchente chegar e passar, ir levando grandes toras e tudo que achava pelo caminho. Chuva de transformar ruas em rios, próprias às brincadeiras dos indomáveis meninos que fomos todos. Chuva de se juntar às outras na memória da gente, de tapar os horizontes, de aquietar a terra, serenar, docemente lhe dizendo nas profundezas que aqui estamos nós, os filhos de Eva e da terra.
Persiste, porém, a dúvida. Ela vai continuar? As boas impressões persistiram, mas não longamente: as chuvas inaugurais do sertão, ou mesmo as saideiras, que abrem e fecham o ciclo das águas, costumam ser iradas. Este ano, não. Surgiu de mansinho, estendeu seu manto sobre a serrania com doçura e o calor forte fugiu. Temporariamente.
Reina a natureza, há festas nos ninhos, a natureza se recompõe, a ensinar aos homens que eles pertencem à natureza, e não o contrário, como julgam na sua soberba, e enfatiza o jornalista Paulo Narciso. Ele olha pela janela – os montes claros encobertos pela chuva mansa e pensa: é a sinfonia de sempre nos pingos de chuva. O Natal parece que chegou. Glória a Deus nas alturas.
Mas tudo não passou de um aviso prévio, para que todos se preparassem para quando a chuva chegar forte, ao ponto de destruir moradias humildes. Resta esperar, os rios estão secos, até o Velho Chico chora de saudade na lonjura de seu leito sagrado.
O São Francisco murchou, virou um filete de água, os peixes morrem, a agricultura ribeirinha padece duramente, o gado enfraquece e carrega seu esqueleto em busca de alimento. Que venha mais água do céu!


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Por Manoel Hygino - 10/11/2014 10:44:28
Relíquias... ou quase

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Leio uma lauda sobre a beatificação de Paulo VI, considerado o papa da continuação, conclusão, recepção e aplicação do Concílio Vaticano II. No texto, informo-me de que o pontífice beijou os pés do patriarca de Constantinopla, devolvendo a relíquia da cabeça de Santo André à Igreja Ortodoxa.
Os pormenores me chamam a atenção. Santo André é um dos apóstolos, o outro é Felipe, com nome grego. Natural de Betsaida, era irmão de Simão Pedro e pescador de Cafarnaum, sendo – juntamente com Pedro – chamado por Jesus ao apostolado. A tradição lhe atribui vários campos de atividade missionária, incluindo Bizâncio e Grécia, onde foi martirizado sobre uma cruz em forma de X, chamada Cruz de Santo André. Padroeiro da Rússia, ali Pedro, o Grande, criou a Ordem do Cavaleiro de Santo André.
Suas relíquias foram trasladadas, na época da quarta cruzada, de Acaia para Constantinopla e, em fins do século, para Roma, onde ficou principalmente em Amalfi, cidade italiana. Hume, “History of England”, 1891, conta que, no reinado do soberano inglês Henrique VIII, foi encontrado num “prego”, penhorado por quarenta libras (soma elevadíssima para a época) um dedo de Santo André, pertencente a um dos mosteiros ingleses mais célebres da Idade Média.
O tema, tão curioso, serviu para um capítulo de excelente obra de Ivan Lins (evidentemente o escritor), membro da Academia Brasileira de Letras, mineiro de Belo Horizonte. Lins, que foi meu amigo, recorda que o padre Vieira, no século 17, lembrava que foram disputadíssimos os restos mortais de São Francisco Xavier, cujo braço direito fora requisitado em Roma pelo Santo Padre, Paulo V.
Essa exagerada devoção gerou muitas fraudes. Frei Salibene, franciscano do século 13, nascido em Parma em 1221, deixou interessante crônica a respeito. Diz ele que, apareceu em Parma, carregada por frenética multidão em procissão, uma relíquia de Santo Alberto de Cremona. Era o pequeno dedo do pé.
Um cônego, dotado de extraordinário olfato, aproximou-se do andor e percebeu que o cheiro não era exatamente de santidade. Tomou em suas mãos a relíquia e constatou que a preciosidade não passava de um dente de alho.
O imenso valor das relíquias na Idade Média se devia a sua eficácia para exorcizar Satanás, o grande e permanente pesadelo medieval. Trata-se de algo que, mesmo hoje, ainda influencia os incautos e ingênuos. Guibert, Abade de Nogent, discípulo de Santo Anselmo, escreveu, em meados do século 12, a propósito de um dente de leite de Cristo, minucioso tratado que impressiona pela solidez da argumentação.
Naquele remoto tempo, até cidades europeias adiantadas acreditavam em estupendas relíquias. Várias localidades se orgulhavam de possuir sapatos, camisas, cabelos e até o próprio leite da Virgem. Autores garantem que o Papa Clemente V, em 1310, dividira em três o santo Umbigo, que teria sido conquistado por Carlos Magno ao império grego. Uma parte foi direcionada à igreja de São João de Latrão, em Roma, outra enviada a Constantinopla, e a terceira à igreja de Nossa Senhora de Châlons, onde se celebrou missa para recepcionar a honrosa partícula do corpo de Jesus.


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Por Manoel Hygino - 5/11/2014 10:30:30
Um mineiro na Semana de Arte Moderna

Manoel Hygino dos Santos

Daqui oito anos, estaremos comemorando o centenário da Semana de Arte Moderna. O encontro de escritores, artistas e jornalistas no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, foi um marco na história do Brasil, pelo que também representou política e ideologicamente.
Em princípio, os promotores do evento - a palavra assume aqui seu verdadeiro significado – queriam que os autores brasileiros, os artistas, tomassem ciência e consciência do que acontecia na Europa em termos de vanguarda do pensamento. Não era um movimento exclusivo desse segmento social, como afirmou Mário de Andrade em conferência, vinte anos depois, na Casa do Estudante, no Rio de Janeiro, em 30 de abril:
“Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo, com a prática europeia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e umas outras causas internacionais, bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de um espírito novo e exigiam a verificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal”.
Como agora acontece, a sociedade queria mudança, não só a queriam os intelectuais, os artistas, os escritores, o próprio desenvolvimento econômico e social queria transformação, adaptando-se ao novo tempo. Após os governos militares do início da República, os senhores rurais voltavam ao poder, fortalecidos pela vigorosa ascensão do café, que girava em torno do Eixo São Paulo- Minas. Sobreveio “a política dos governadores”, quando os mandatários estaduais apoiavam o governo federal e este os governos estaduais”.
Surgiram as oligarquias, grandes e prestigiosas famílias ou grupos políticos que se perpetuavam no poder. Minas e São Paulo, os estados mais populosos, se revezavam no poder, fazendo a política do café-com-leite, que permaneceu até 1930.
Esse sentimento, consciência e atitude ganharam todos os segmentos aparecendo na música popular nos versos de Noel Rosa, lembrando que Minas dá leite, São Paulo dá café e o Rio de Janeiro dá samba. Não constituía, a verdade exatamente, mas era um espelho assemelhado da vida social, artística e política naquele período.
Após a primeira guerra mundial, terminada em 1918, em que um mineiro- Wenceslau Brás- se encontrava na presidência da República, as capitais brasileiras metamorfosearam, à frente São Paulo. Houve um surto rápido de progresso industrial, a urbanização, o nascimento do segmento sindical, a burguesia cada dia mais forte, embora marginalizada pela política econômica voltada para a produção e exportação do café. A
imigração europeia avançou principalmente no sentido dos grandes centros, ou seja, São Paulo preferencialmente, e para a região cafeeira. De 1903 a 1914, o Brasil acolheu 1,5 milhão de imigrantes.
Nasce um novo país, dividido entre urbano e rural. Os trabalhadores se preparam, desde então, para embates em torno de suas reivindicações, os anarquistas aparecem sobretudo em São Paulo e publicam seus jornais, como “La Bataglia” e “A Terra Livre”. Eclodem na maior cidade brasileira as primeiras greves a partir de 1905, a mais importante delas em 1917. Falava-se na Revolução Russa daquele ano, e o próprio Partido Comunista é fundado em 1922, representando simultaneamente o declínio anarquista.
Em setembro de 1922, um brasileiro chegava a Moscou para participar do IV Congresso da Internacional Comunista. Era Antônio Bernardo Canellas, de 24 anos, um dos mais jovens delegados dos 394 credenciados ao encontro. Canelllas sabia de cor e costumava repetir o pensamento de Kropotkin, anarquista russo: “Todas as coisas do mundo são de todos os homens, porque todos os homens delas necessitam, porque todos os homens colaboraram, na medida de suas forças, para produzi-las, porque não é possível avaliar a parte de cada um na produção das riquezas do mundo...”
A Semana de Arte Moderna compreendeu três sessões, nos dias 13, 15 e 17 fevereiro, principalmente por iniciativa do “festejado escritor, Sr. Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras”, como noticiou “O Estado de S. Paulo” e atraiu muita gente ao Teatro Municipal de São Paulo; gente dos meios intelectuais e artísticos, e curiosos. No saguão, pinturas e esculturas que causavam espanto.
O orador oficial da abertura foi Graça Aranha, que disse a certa altura: “Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida, se não são fogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ os esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pela força do Passado.” A repercussão foi enorme, como se esperava. No dia 15, Menotti Del Picchia discorreu sobre arte e estética, lendo textos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado. O público miava e latia. Ronald de Carvalho leu “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, numa crítica ao parnasianismo. Nas escadarias do Municipal, Mário de Andrade leu fragmentos de “A Escrava que não é Isaura”. Perguntou depois: “Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?...
Confusão e críticas e apupos, mas o movimento estava lançado com predominância por nomes fortes do meio literário e artístico de São Paulo. Di Cavalcanti sublinhou o lado político do movimento com ataque à aristocracia e à burguesia. Mário de Andrade definiu: “Lirismo: estado afetivo sublime – vizinho da sublime loucura. Preocupação de métrica e de rima prejudica a naturalidade livre do lirismo objetivado”.
Causou espécie a última noite. O maestro Villas-Lobos entrou em cena: de casaca... e chinelos; o público interpretou o episódio como futurista e vaiou. Só depois, pôde explicar que assim se apresentara no palco por força de um calo doloroso.
Entre os participantes da Semana, havia um mineiro, pouco conhecido presentemente: o poeta Agenor Barbosa, nascido em Montes Claros, em 1896 e evocado recentemente por um historiador da região – Haroldo Lívio. Este reconhece que o vate norte-mineiro é até ignorado presentemente por seus conterrâneos, ainda que outro menestrel, Cândido Canela, o considerasse “o maior de todos os nascidos na cidade”. Foi reverenciado em São Paulo, que o elegeu para o rol dos dez maiores poetas paulistas, juntamente com Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e outras celebridades e cresceu “ainda mais, conquistando lugar cativo no coração dos paulistas, que o tinham como um dos nomes gloriosos da literatura de São Paulo, a despeito de mineiro do sertão.
Agenor, segundo Haroldo Lívio, foi o único participante aplaudido pelo público, que vaiara Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Mário de Andrade e outros famanazes das artes.
Em sua cidade natal, fez o curso primário e, com a transferência da família para Belo Horizonte, aqui iniciou o secundário, que concluiria em São Paulo. Também lá se formaria em Direito e colaria grau em 1926, retornando a Belo Horizonte. Aqui, ingressou no serviço público e na imprensa como repórter do “Diário de Minas” e do “Folha de Minas”, nos quais também publicava poesias de sua lavra.
De retorno a São Paulo em 1916, ingressou no “Correio Paulistano”, admitido na redação, dirigindo também a editoria literária de “A Cigarra”. Pode-se dizer que se consagrara. Na paulicéia, em enquete da revista “Panóplia”, foi eleito como um dos maiores poetas de São Paulo. O escritor Mário da Silva Brito se refere a ele no livro “História do Modernismo Brasileiro”.
Em seu brilhante livro sobre a cidade, Nelson Vianna( ¹) transcreve soneto inédito de Agenor:
MONTES CLAROS
“A doçura sem fim do silêncio, que espalma
as suas asas sobre a noite, eu me avizinho
da terra, que me acena como um ninho
e, na distância, é sempre linda e sempre calma.

A minha terra vive dentro de minh’alma...
deixem que fale o coração, devagarinho...
Que eu pare um pouco, em meio à sombra do caminho
E lhe teça, a sorrir, este canto e esta palma”.

Ouço, de longe, a voz do berço que me chama.
Voz serena de amor, de carinho e piedade
que é suave como um beijo e arde como uma flama.

Minha terra natal! Minha velha cidade!
Dentro do coração que te pertence, clama
a dor do meu exílio e da minha saudade”.

Djalma Andrade, da Academia Mineira de Letras, na seção “História Alegre de Belo Horizonte”, publicada no jornal “Estado de Minas”, exaltou-o: “Agenor Barbosa, quando jovem, foi um dos poetas mais queridos de Belo Horizonte. Muito magro, muito pálido, escrevia nas revistas versos líricos, que eram gravados de cor pelas garotas de 1915. Nas varetas do leque de uma moça, numa festa de barraquinhas, escreveu:
“Quando for nosso noivado
Será tão lindo o teu véu,
Que um beijo o trará bordado,
Pelas santas lá no céu”.

Quando do centenário de Montes Claros, em 19 57, a comissão organizadora dos festejos decidiu incluir Agenor entre os convidados de honra, mas ele não se dignou de comparecer. O poeta Cândido Canela, enraizado no berço, tomou-se de dores, embora sequer o conhecesse, e escreveu uma série de cartas na quais um velho bardo, supostamente Esperidião Santa Cruz, afastado da terra natal há mais de meio século, demonstrava morrer de saudade e deplorava não regressar à origem para rever os amigos.
O historiador evoca, como o próprio Cândido Canela me contou: “Esperidião foi o pseudônimo que o autor das cartas criou para substituir o nome real do homenageado. A cidade inteira acompanhou a publicação, na Gazeta do Norte, das cartas chorosas que chegavam toda semana. Nos saraus familiares, tornou-se o assunto predileto, porque o macróbio Esperidião, apesar de um ancião de escasso convívio, recordava-se nitidamente da Montes Claros de sua mocidade. Declarava os nomes de sues antigos companheiros de bailes e serestas, como também se lembrava das donzelas românticas de seus tempos de rapaz. Ninguém sabia, exceto o jornalista Jair Oliveira, que se tratava de uma brincadeira do verdadeiro autor das cartas, e ambos se divertiam com o sucesso do público”.
A correspondência era tão fiel à realidade, que pessoas de boa memória acreditaram ter conhecido pessoalmente o missivista Esperidião Santa Cruz, que, ao final, ficou muito mais conhecido do que o próprio Agenor. Maria Ribeiro Pires, escritora e oradora de mão cheia, está à procura de exemplares dos jornais que publicaram as cartas, há mais de meio século.
A coleção, contudo, foi recolhida a local não sabido.

(¹ ) Vianna, Nelson, “Efemérides Montesclarenses”, Parte II, Coleção Sesquicentenário, vol.5, Editora Unimontes, Montes Claros


78949
Por Manoel Hygino - 1/11/2014 09:10:58
A Nova Cuba

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Por mais que se pretenda esquecer, as eleições de 2014 já estão inscritas entre as que mais mexeram com o sentimento popular. Não sem razão o país ficou dividido ao meio, com Aécio Neves somando mais de 51 milhões de votos.
A distribuição de votos pelos estados não constituiu surpresa, se se considerar que a Bolsa Família foi o mais importante contributo para a preferência pela candidata petista. A predominância de Dilma no Nordeste produziu repercussão. Segundo alguns, até que se deveria futuramente fundar os Estados Unidos do Nordeste para abrigar os dele nascidos e os habitantes de tão grande região brasileira, capaz de decidir os destinos nacionais, contrariando ou divergindo do próspero Sul.
Eleika Bezerra, vereadora em Natal, sugere a divisão do Brasil em dois países. O primeiro englobaria Norte e Nordeste e se chamaria Nova Cuba, por motivos não difíceis de adivinhar. Com 71 anos, Eleika é professora pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e se elegeu em 2012, usando como principal bandeira a luta pela educação. Comprometeu-se a doar integralmente seu salário parlamentar para entidades filantrópicas, registrando o compromisso em cartório, para que dúvidas não pairassem.
Sem se explicar claramente, a ilustre edil e mestra propõe ainda que Minas Gerais seja “implodido e vire um lago”. Talvez pudesse suprir as necessidades hídricas da sequiosa São Paulo, caso haja uma tão extensa e inclemente estiagem como a deste ano.
No entanto, não perco a oportuna ensancha para referir-me aos muitos meios e métodos usados na América Latina para se chegar ao poder. Assim, aconselharia a leitura de “Tiranos & Tiranetes”, em que Carlos Taquari revela, com riqueza de pormenores, como se alcança o topo do comando nesta estupenda região do Novo Mundo.
Simón Bolívar, transformado em ídolo de segmentos político-ideológicos, já registrava em sua pátria: “Este país cairá, infalivelmente, nas mãos da multidão desenfreada, para depois passar ao controle de tiranetes de todas as cores e raças”. Previsão vencida ou ainda válida?
Pois é lá mesmo na Venezuela que aconteceu, entre outras, a lição proclamada pelo coronel Pérez Jiménez, à frente de um regime militar desde 1948. Para legitimar-se, convocou uma assembleia que elegeria o presidente. No decorrer da apuração, constatou que a situação não lhe era favorável. Suspendeu os trabalhos, exigindo contagem “mais correta” de sufrágios e, dois dias depois, o resultado saiu com a vitória do regime.
Nem assim se satisfaz. Com medo de um boicote da oposição, que comprometeria a confirmação da sua escolha, “convidou” os líderes contrários para reunir-se com ele em palácio. Seis compareceram.
Jiménez lhes exigiu apoio, que eles não aceitaram. Mal encerrado o encontro, todos foram presos pela polícia secreta, levados a um avião e encaminhados para o Panamá, sem documentos, dinheiro ou bagagem. Assim, a Venezuela, agora de Maduro, sucessor de Chávez, passou mais de cem anos ininterruptos sob caudilhos.


78924
Por Manoel Hygino - 28/10/2014 10:34:53
A defesa da soberania

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Fizeram-se as eleições de 2014, os resultados são sabidos e comentados. Mas o grande desafio, o maior deles, permanece. Há necessidade de se apurar fatos e identificar pessoas responsáveis por desvios e escândalos, fatos graves registrados nos últimos anos, além do mensalão.

Há, incontestavelmente, mais do que interesses eleitorais ou eleitoreiros. O Brasil se infestou de gentes que rezam pela cartilha da incompreensão, de objetivos inconfessáveis ou de desígnios que depõem contra nossos foros de civilização, nossas tradições, contra as próprias instituições. Vivemos sob risco permanente, não apenas pelos que nos impedem de circular tranquilamente pelas ruas, de ir e vir ao trabalho, do exercício do ofício que nos dá sustento e à família.

Percebe-se que há vontades, que – mesmo ocultas – a ninguém serão imperceptíveis, porque o pior cego é o que não quer ver. Há mais do que sequestradores, assaltantes de bancos, paranoicos soltos, ousados bandidos, pedófilos, usuários de drogas em surtos letais, bêbados ao volante, estupradores, comerciantes de drogas, corruptos e corruptores, contrabandistas, aliciadores de mulheres para fins sexuais, homicidas em potencial prontos a agir contra a vida humana.

Tudo isso existe, sim, é gravíssimo, mas muito mais há. Sem entrar especificamente nos escândalos que estigmatizaram a administração pública e envolvendo poderosas empresas, conhece-se a ação de grupos que professam princípios que ferem não só a Constituição, mas os ideais mais sagrados da nação.

As pessoas que formam esses ajuntamentos precisam ser identificadas, saber-se que fundos os mantêm e patrocinam suas ações; cumpre esmiuçar, por exemplo, até onde vão os propósitos do chamado Foro de São Paulo, não um simples movimento, mas uma entidade fundada por partido político e que pretende sobrepor-se ao Brasil, Estado independente, ligando-se a governos estrangeiros e organizações terroristas.

Não interessa ao Brasil viver com aqueles que não o respeitam, com os maus patriotas, os que não o amam, os que contribuem para, mais uma vez, vilipendiar sobre a livre manifestação do pensamento, como aconteceu, há pouco, com um periódico da capital de São Paulo, cujas instalações foram atacadas pela malta. Não foi meia dúzia de indivíduos, mas cerca de 200, segundo autoridades policiais. Quem eram? Quem está por detrás de sua atividade criminosa?

O Brasil quer saber mais e mais sobre o que acontece dentro de seu território, mas isso não convém a certos espécimes que só aparecem nos momentos propícios à vandalização. Não será com a censura à imprensa ou ameaças ou destruição de seu patrimônio material que ela se calará ou se avaliará seus possíveis excessos.

A história o prova. “A coação à imprensa, ferindo o indivíduo, ofende, ao mesmo tempo, a ordem pública, a nação, o regime de governo”, já admoestava Rui Barbosa: “Todo o poder que se oculta perverte-se”.

É imperativo abrir o jogo, antes que tornem impraticável a democracia.


78914
Por Manoel Hygino - 27/10/2014 10:16:40
O espólio perverso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O Brasil amanhece com um presidente a tomar posse. Assume em hora delicada, depois de uma campanha política marcada pela excessiva agressividade e ao chegar o partido no poder há 12 anos sendo alvo de acerbas críticas na condução dos problemas que avultam e pela onda de escândalos.
A hora convida a evocar Durkhein, que classifica tais períodos de “anomia”. É o “estado de uma sociedade caracterizada pela desintegração das normas que regem a conduta dos homens e asseguram a ordem social”.
Os fatos fazem retroceder cem anos, quando Rui Barbosa, em manifesto de 28 de dezembro de 1912, dizia da “crise de desfacelo dos elementos de nossa vida nacional”. Havia, então, razões sobejas para ele não se candidatar à sucessão. Se o fizesse, não disputaria um governo, mas “o espólio de uma casa roubada”, pois “o que há é uma falência, econômica e financeira, política e institucional, por liquidar”.
O “Correio da Manhã”, em 15 de novembro de 1914, fez análise minuciosa do governo que expirava, criticando o presidente, por “sempre que chamado, pela sua função, a deliberar um caso político afeto ao governo, esquecer o dever que lhe criavam as leis, de agir respeitando os direitos de cada um, para só procurar atender às conveniências dos amigos e associados políticos”.
O velho jornal acusava: “O partido do presidente, vivendo do bafejo do governo, do qual tirava as vantagens mais necessárias à sua existência e ao exercício de sua força como agremiação poderosa, não hesita em querer os maiores absurdos, nem o chefe do Estado em concedê-los”.
Mais veemente, afirmava que os destinos do país se tornaram “joguete de meia dúzia”, não possuindo a nação “verdadeiramente um governo, mas um diretório de facção política, que a explora em benefício dos seus, sem olhar aos grandes interesses gerais”.
Segundo o matutino, “o partido (do presidente) não serviu unicamente para enfraquecê-lo dentro do Congresso; serviu ainda para desmoralizá-lo perante a Nação, porque não houve crime que a quadrilha cometesse que logo não fosse apadrinhado” pelo chefe da nação e seus ministros.
Adiante: “Não haverá, por certo, em toda a história política do Brasil, lembrança de um governo que deixe o poder tão amaldiçoado, nem dum chefe de governo que saia da sua posição tão coberta pelo descrédito, pela cólera do povo e, até, ultimamente pelo ridículo.
Por isso, a manhã do dia desta segunda é como aurora de esperanças e a atmosfera que respiramos nos dá a ideia de ser mais oxigenada. Dir-se-ia que éramos cativos e reconquistamos a liberdade. O lixo da situação miserável que nos aniquilou vai, portanto, ser varrido”.
É com esses sentimentos e pensamentos que o Brasil desperta hoje. Há necessidade de uma tomada nacional de consciência para que os destinos do país não sejam desviados infortunadamente. Compreendemos a dor do próprio Rui, ao envergonhar-se por fazer parte “de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer”. “Ao lado da vergonha de mim, tenho também pena de ti, povo brasileiro!”


78907
Por Manoel Hygino - 25/10/2014 09:21:18
Entrevista presidencial em Paris

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Fim de governo, proximidade de outro quatriênio presidencial. Bom tempo para recordar o passado. Rivadávia de Souza, gaúcho trabalhando na Imprensa de Getúlio desde que este assumiu a chefia do governo, lembra ser-lhe atribuído recepcionar na capital francesa, Juscelino, recém-eleito para o Catete. JK hospedou-se com sua comitiva em uma suíte do Hotel Crillon, na Place de La Concorde. Era praticamente uma casa, com sala, vários quartos e um corredor para a porta de entrada, para propiciar total privacidade.
Rivadávia sabia alguma coisa sobre Juscelino e procurou bem haver-se naquela ocasião única, quando a França queria conhecer o mineiro pobre, nascido numa cidade do interior brasileiro, rica em diamantes. Rivadávia, jornalista de Uruguaiana, não poderia falhar na missão, até porque poderia ser-lhe um contato importante na carreira.
Convocou-se uma coletiva, no amplo salão de conferências do Crillon, onde se afeririam as qualidades e virtudes do eleito para o governo brasileiro. De antemão se sabia que o presidente fora telegrafista, de horário noturno, no serviço público e colara grau em Medicina pela escola de medicina de Belo Horizonte, em 1927. Em seguida, médico da Polícia Militar de Minas Gerais, participara da Revolução de 1932, chegando a governador do Estado.
Uma carreira de incontestável sucesso, marcada pela construção de uma bela cultura. Alguém no círculo dos entrevistadores formulou uma pergunta. JK discorreu longamente, em francês brilhante, eloquente, escorreito, sem tropeçar numa sílaba sequer, como se discursasse de improviso, na própria língua, e não na de Montaigne e Voltaire.
Vários presentes já tinham participado de entrevistas ali. Mas, todos ficaram encantados com a facilidade verbal de Kubitschek, superando os depoimentos precedentes. No final, os jornalistas prorromperam numa entusiástica e calorosa salva de palmas, não somente pelo conteúdo das respostas, mas ainda pela forma primorosa com que as emolduraram.
Máximo Scioletti, conselheiro da Embaixada Brasileira em Paris, não escondeu sua surpresa: “Poucos franceses serão capazes de falar com tamanha eloquência”. Não conhecia, porém, a seleta plateia que Juscelino era um velho habitante da Cidade Luz. Lá cumprira bolsa de estudos no Hôtel Dieu, pronto-socorro de Paris, e fizera especialização com um dos mais celebrados cirurgiões e urologistas do mundo: o professor Chevassu.
Assim, no remoto 1930, o médico de Diamantina aprimorara o francês, instalando-se no pequeno hotel de La Paix, no número 225, do Boulevard Raspail. A jornada diária era de 8 horas da manhã às 6 da tarde, nas três primeiras semanas. Depois, vinha o treinamento no Hospital Cochin, onde se organizara o primeiro serviço do mundo especializado em vias urinárias. Não tinha como não aprender a língua que servira a Victor Hugo e Dumas.
Então, visitou o Louvre pela primeira vez e frequentou o Café Du Brèsil, onde conheceu Portinari e o fez seu amigo por toda a vida. Seguiu para a Alemanha para estágio no Hospital Charité, em Berlim, mas teve de voltar ao Brasil pela eclosão da revolução de 1930. De volta, escreveu, a bordo do navio Almirante Alexandrino: “Toda a minha timidez havia desaparecido, passei a amar a vida, certo de que ela nada mais me negará”.


78891
Por Manoel Hygino - 18/10/2014 10:36:10
Por onde penetram os ladrões

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Tomé, também chamado Dídimo, era judeu e apóstolo de Jesus, nascido na Galileia, figurando em três episódios no Evangelho de São João. Na última ceia, quando o Mestre anunciou aos discípulos que teria de deixá-los, mas que eles conheciam o caminho para se encontrarem, Tomé ergueu a voz: “Senhor, nós não sabemos para onde ides; como podemos conhecer o caminho?”
As atitudes de Tomé são curiosas. “Depois da ressurreição, e sem estar presente ao primeiro aparecimento de Jesus, declarou não acreditar sem ver e tocar as chagas no corpo do Mestre”. Em nova aparição, Jesus o censurou pela incredulidade, prostrou-se diante dele e exclamou: “Meu Senhor e Meu Deus!”.
Estas observações servem para justificar a crença de que Tomé queria sentir de perto os fatos. A tradição conta que evangelizou medos e persas e chegou à Índia, onde padeceu o martírio. Seu corpo teria sido trasladado a Edessa, antiga cidade da Mesopotâmia, hoje denominada Orfa, onde São João Crisóstomo indicou seu túmulo, assim como quatro outras sepulturas apostólicas. Sua pregação em Malabar é tradição conservada pelos chamados “Cristãos de São Tomé”.
O escrito mais antigo em que ele aparece são os “Atos de São Tomé”, redigidos em língua siríaca, obra anônima, apócrifa e recheada de elementos literários. Bem recentemente, novo achado redescobriu o apóstolo. Em 1945, num antigo cemitério de Nag Hammadi, no alto Egito, encontraram-se potes de barro, contendo 12 manuscritos em caracteres coptas, que trouxeram novamente Tomé ao núcleo do cristianismo.
O jornalista Paulo Narciso me advertiu para a descoberta, que deixou o mundo, sobretudo cristão, perplexo. É que o texto seria, de fato, o “Quinto Evangelho”, referido pela tradição oral. Aliás, além de Marcos, Mateus, João e Lucas, outros documentos preciosos foram localizados no Egito e nas proximidades do Mar Morto, que demonstram a força religiosa naqueles anos lindeiros ao nascimento de Jesus.
A localização dos escritos de Tomé por lavradores foi saudada, embora parte dos papiros encadernados em couro tenha sido usada para acender fogo. Uma outra parte foi vendida e encaminhada ao museu Copta do Cairo, e mantida, durante 11 anos, entre bugigangas.
Até que, pesquisadores estudaram cientificamente os documentos e constataram que ali estava o Evangelho do apóstolo Tomé, ou seja, cópias do original do século II da era cristã. Não se trata de descrições da vida de Jesus, como nos demais apóstolos, mas além de 100 sentenças ou aforismos de “Jesus, o Vivo”.
Chamam a atenção as observações iniciais: “Estas são as palavras secretas de Jesus o Vivo, escritas por Didymos Thomas. A palavra aramaica “Thomas”significa “gêmeo”, em grego “Didymos”. Ali estão ensinamentos esotéricos de Jesus, não para as multidões, mas especialmente escolhidas para os discípulos, capazes de compreender o sentido místico de certas verdades profundas, como comentou Huberto Rohden.
Eis o 103º ensinamento: “Disse Jesus: feliz do homem que sabe por onde penetram os ladrões! Assim pode erguer-se, reunir forças e estar alerta e pronto antes que eles venham”.


78882
Por Manoel Hygino - 16/10/2014 08:48:00
Um barão de verdade

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O jornalista Alberto Sena, de volta às raízes em Grão Mogol, como fez o sociólogo e empresário Lúcio Bemquerer, reacende luzes sobre o passado, contando com a rara memória de Geraldo Ramos Fróis, aos 77 anos. Lembrou-se uma personagem pouco reverenciada em nossa história: Gualtér, filho de Caetano Martins Pereira, proprietário da fazenda Santo Antônio, onde viveu 50 anos e cujo nome foi mudado para Cafezal.
Gualtér Martins Pereira era um homem bom, possuía mais de cem escravos e, abolicionista, libertou todos eles três meses antes da Lei Áurea. Juiz de direito de Rio Pardo de Minas, no Jequitinhonha, anulou a sentença de um homem condenado à morte e mandou-o a novo julgamento.
Entrou em acordo com seus cativos, para que calçassem a trilha de 15 quilômetros entre a casa na roça e a cidade. Dos diamantes encontrados no itinerário, 30% seriam dele e 70% deles. Fazia aquele trajeto a pé ou a cavalo, não usando liteira. O prédio da fazenda não existe mais, como tampouco arraigadas recomendações daqueles tempos heroicos.
Três escravos fugiram, reaparecendo três meses depois. Gualtér os advertiu: “Vocês já estão castigados por terem voltado e se humilhado”. Mandou construir um prédio (hoje Casa de Cultura), todo em pedras, para servir de hospital para o irmão que estudava medicina e onde clinicaria após colação de grau. Determinou que funcionaria como Santa Casa sob condição de que, quem não tivesse dinheiro, receberia tratamento gratuito.
Coronel da Guarda Nacional, organizou o 7º Batalhão de Voluntários da Pátria, em 1865, para ir à Guerra do Paraguai. No contingente, achavam-se quatro de seus irmãos, além de parentes e escravos, do Cafezal e de Lençóis, na Bahia. Recrutou 200 homens, fardou-os e armou-os a suas próprias expensas. Prometeu liberdade a todos os escravos-soldados que voltassem vivos da frente de guerra.
Sua atitude despertou atenção de Pedro II, que lhe concedeu o título de barão de Grão Mogol. O súdito foi ao soberano para agradecimento, dizendo-lhe não fazer jus à distinção por ter ideias republicanas. O imperador contestou-o: “Não agracio um homem de ideias republicanas, mas um grande brasileiro”.
O escritor Mário Martins de Freitas, em livro não publicado em vida, julga que o varão ainda não merecera “na história da pátria a devida láurea pelos serviços prestados ao Brasil, a não ser o nome de serra do Barão do Grão Mogol ou do Itacarambiruçu.
O memorialista Gerado Ramos Fróis não esquece: o barão gozava de alto conceito na corte, não fez curso superior, era destemido, teve 78 filhos, a maior parte deles com escravas. Era homem bondoso, constando que não castigava os escravos. Pediu até que fosse sepultado no mesmo cemitério deles. No entanto, faleceu no Rio Claro (SP), onde se encontrava em propriedade da família. O corpo foi levado do canavial paulista em que jazia pra Grão Mogol, sua terra natal, como sempre desejara. O traslado do corpo foi uma verdadeira aventura.


78762
Por Manoel Hygino - 7/10/2014 10:36:51
Eleições e saneamento

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Cinco de outubro pode ser uma data que se fixará definitivamente na história do Brasil, não por ser o décimo mês do ano e de revoluções, como a de 1930, com os entreveros anteriores e o desenlace trágico, em agosto de 1954, daquele que guindara à Presidência da República. Revoluções e eleições, não poucas, ocorreram para simplesmente desaguar no país de 2014.
Melhoramos? Pioramos? Realizamos nossos melhores sonhos ou apenas assistimos conformados ao andar da carruagem? Ainda sob os inquietantes fatos que marcaram os anos mais recentes, com escândalos sucessivos envolvendo até a maior empresa nacional, vimos engavetarem-se nos escaninhos da memória, os mais antigos, como o da poderosa chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, filhos e marido. Perderam foco os fatos, mas seus participantes se brindaram com os dinheiros e viagens pelo mundo afora, cobertos pelo cofre público. Silêncio em torno.
Nem se fale no mensalão, cujo desenrolar as pessoas acompanharam de perto, graças à mídia. Uma sucessão de crimes enfeixados em um só, praticados por figuras de proa na administração do país, porque entre nós os negócios públicos e os interesses políticos e pessoais se misturam no balcão de entendimentos e propostas escusas.
Não fora a pertinácia do ministro Joaquim Barbosa, tudo ficaria como antes. O interesse notório da cúpula era esconder. Por detrás ou sob o manto que cobre as negociações ilícitas, cometem-se os crimes mais torpes, e o cidadão conhece, às vezes, detalhes porque a mídia divulga.
Joaquim Barbosa já não é mais ministro do Supremo, não mais o preside, mas nenhuma entidade em favor do negro do Brasil saiu em sua defesa pelas críticas sofridas. Estende-se uma cortina de reservas à sua atuação, em que se critica o verbo forte e o comportamento inusual do mineiro de Paracatu.
Lamentavelmente, o Brasil não vai bem, obrigado. Há a bandidagem, criminalidade, a desastrosa estiagem refletindo sobre tudo e todos, o autêntico pibinho, os modestos níveis de produtividade industrial, o São Francisco – seco na nascente e que não ameniza sequer a voracidade dos potentados e as necessidades da população sofrida.
Neste país que esquece o essencial, constata-se que permanecem sem esgoto 42,9% das residências, que atiram dejetos no entorno, em terrenos baldios, córregos, lagoas, rios e mar.
Dados recuperados pelo professor José Geraldo Freitas Drumond alertam para essas questões, ele que foi presidente da Fapemig e é membro titular da Academia Mineira de Medicina. Comenta que o país é secularmente defasado em indicadores de saúde que medem a qualidade de vida de seus cidadãos, que se exaurem nas filas de ambulatórios médicos e entulham os corredores das emergências públicas.
Poder-se-ia mais explicitar. O Plano Nacional de Saneamento Básico prevê esgotos coletados e tratados em 93% dos municípios, no prazo de 20 anos. Na estatística que tenho à mão, só se investiram R$ 8,4 milhões em um ano. Daí, avaliar-se a prioridade na saúde pública, quanto a lixões e a progressiva contaminação do solo, da água e do ar, que contribuem para agravar os indicadores de saneamento básico. Em verdade, sabemos todos que, somente com educação e saúde, chegaremos a ser uma nação desenvolvida e rica.


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Por Manoel Hygino - 6/10/2014 11:19:27
Recebi, com profundo pesar, a notícia do falecimento do Luiz Carlos Novais, o Peré, aos 61 anos. É uma perda inestimável para o jornalismo montes-clarence e para os que privaram de sua amizade. Trouxe alegria em seu nascimento num dia de Natal, mas nos deixa uma lacuna.


78693
Por Manoel Hygino - 27/9/2014 11:21:54
Esporte e crime


Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os tempos mudaram. Antigamente, futebol era com bola; mais recentemente se pratica com bala, projétil. É o que se depreende pelas partidas mais importantes, os chamados clássicos, como se observa em várias regiões do país. Minas Gerais, até há pouco de gente recatada e pacata, não fica atrás nessa autêntica marcha da violência. O balanço policial de Cruzeiro x Atlético, dias atrás, é dura prova de agressividade, que foge inteiramente aos padrões e protótipos do mais puro esporte. Quatro pessoas baleadas, 22 rojões, duas bombas, um sinalizador e um soco inglês apreendidos.
Na fronteira entre os adversários, bombas foram lançadas em ambas as direções, como no ano passado, quando uma caiu na torcida do Galo. Em 2012, houve arremesso de objetos contra espectadores durante jogo no Independência. No início da tarde do último prélio, quatro atleticanos foram baleados na Floresta, quando esperavam coletivos para deslocamento ao Mineirão. Trocaram-se provocações e dispararam-se os tiros, com quatro feridos recolhidos ao HPS.
Brigas e tumultos caracterizam praticamente os jogos, que deveriam ser espetáculos de salutar convivência, não um selvagem enfrentamento, capaz de repercutir negativamente no futuro das pessoas, física e psicologicamente.
No caso mais recente, seis torcedores foram processados, três dos quais proibidos de frequentar estádios nos próximos quatro meses, conforme definido pelas autoridades. Uma, não aprovou o estabelecido e terá processo tramitando normalmente. Um segundo se apresentava em tal estado de embriaguez que não teve condições para sequer tomar decisão. De um terceiro cidadão, não foi possível acessar antecedentes criminais. A PM, todavia, apurou que as bombas atiradas na arquibancada partiram das torcidas.
Pelos fatos e circunstâncias, conclui-se que esses “torcedores” não se deslocaram ao estádio pelo simples desejo de assistir a uma peleja de futebol. Para ali foram dispostos a uma batalha campal, para o que se armaram até com instrumentos como aquele que matou um jovem torcedor do Peru numa partida do Corinthians naquele país.
O que as televisões mostraram em torno do grande estádio depõe contra os foros de civilização deste país. São jovens e homens maduros, mulheres se atracando, trocando socos, chutando corpos, especialmente as cabeças, em cenas bárbaras. Não se trata de brincadeiras de mau gosto, mas inequívocas demonstrações de falta de respeito entre seres humanos, aparentemente despreparados para viver em sociedade.
Baderneiros e/ou marginais transformaram as “torcidas organizadas” em bandos sem compromisso social, moral ou esportivo. Estão dispostos a todo tipo de arruaças e agressões, como se registra em todos os estados. Haja vista o torcedor que, em estádio do Recife, atirou um vaso sanitário sobre um cidadão, que perdeu a vida ingloriamente. Aqui mesmo, um suspeito de balear atleticanos no jogo recente, seria integrante de um desses grupos. Unidas para o crime, como se constata.


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Por Manoel Hygino - 26/9/2014 09:45:41
O tempo de Getúlio

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não gosto deste tipo de redação – quando me vejo constrangido a registrar em papel sobre minhas coisas. Acontece, no entanto, que tampouco posso omitir-me. As linhas iniciais do comentário desta sexta-feira (26) são para contar que, no dia 28 de setembro, na incipiente primavera, será apresentado no Clube de Leitura/ Ateliê/ Galeria Felicidade Patrocínio, em Montes Claros, o meu livro “Vargas – De São Borja a São Borja”.
A instituidora desse local de arte, letras, cultura, uma artista de alto nível, quis com o ato de domingo homenagear Getúlio, amado e repudiado, personagem que entrou definitivamente para a história, por sua vida e por sua trágica morte.
Quem abre a programação é Yvonne de Oliveira Silveira, presidente da Academia Montes-clarense de Letras, singular expressão de dedicação às letras, professora universitária, integrante de várias entidades atuantes na área, que – a todas as promoções – comparece altivamente, elegante e lúcida, sapatos altos, para desenvolver considerações sobre os temas propostos. Na altura de seus 100 anos, que completa em dezembro, cercada da estima e da admiração de todos que a conhecem e perdem os que não a conhecem.
O atual é período muito próprio para tornar mais conhecido o volume, que desvenda e revela episódios importantes, ignorados ou nebulosos, sobre Vargas, desde seu nascimento em São Borja, até o suicídio no Palácio do Catete, em 24 de agosto de 1954, em momento tormentoso da vida brasileira.
O advogado Petrônio Braz, membro de várias academias e presidente da que se fundou no Vale do São Francisco, fará uma análise do trabalho publicado e ater-se-á à figura de Vargas. Pois naquele ano indelével, Petrônio, jovem e já envolvido em movimentos políticos, viajou a Belo Horizonte para receber Vargas, no aeroporto, em sua última viagem fora da capital da República.
O filho de Brasiliano Braz, outro barranqueiro que amou e se orgulhou da terra em que nasceu, descreverá Getúlio, desde as margens do rio Uruguai, onde surgiu à vida e para a história, como diz em sua carta-testamento. Transcorridos decênios de seu desaparecimento, Getúlio permanece figura fulgurante no cenário político e a focalização de seu nome poderá servir à meditação, em época de mais uma eleição presidencial. Evidentemente, o analista dissertará sobre o passado e o presente, sinalizando novas perspectivas para o Brasil e as novas gerações.
Como acontece nessas reuniões, os presentes poderão expor seus pontos de vista, aduzir dados e comentários, que se prestem a melhor entender e sentir a significação do focalizado, isto é, Vargas. Para o autor destas mal traçadas linhas, é momento muito especial, porque pelo crivo desses debates já passaram pelo mesmo local nomes como os de Rubem Fonseca, recentemente falecido, Guimarães Rosa, o conterrâneo Cyro dos Anjos, o próprio Petrônio por sua “Saga de Antônio Dó”, o outro conterrâneo Darcy Ribeiro, Clarice Lispector, e o “Cantar de Amiga”, de Yvonne, dentre outros.


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Por Manoel Hygino - 18/9/2014 08:46:01
Chico Xavier está firme

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No princípio, era o verbo. E o verbo – além de sinônimo de palavra – é tão importante que teologicamente identifica a segunda pessoa da Santíssima Trindade, encarnada em Jesus Cristo. É altíssima, portanto, a importância da palavra, do verbo.
Pois um depoimento que teria sido dado, informalmente, por Chico Xavier, durante jantar em sua casa em Uberaba, em 1986, serviria de introito, com a devida vênia, para este comentário sobre um livro publicado sob o título de “Não será em 2012”.
Os autores são Marlene Nobre e Geraldo Lemos Neto, que não conheço o trabalho, não consegui sequer um exemplar, até porque não dispunha de referência sobre a editora, sua localização e data de lançamento. No entanto, como o tema serviu à produção de um filme – “Data Limite – Segundo Chico Xavier”, com direção de Fábio Medeiros e codireção de Juliano Pozati e Rebeca Casagrande –, o assunto ganhou dimensões pela reportagem assinada por Ana Elizabeth Diniz.
Segundo Geraldo Lemos Neto, um dos escritores, “Chico Xavier nos informou que havia dado à humanidade terrestre um período extra de tempo de 50 anos a partir do momento em que o homem pisou pela primeira vez na lua, em julho de 1969”.
Constituía uma previsão e um alerta do médium de Pedro Leopoldo: “O que a raça humana e, principalmente, as nações mais poderosas e desenvolvidas do mundo fizeram neste período que se encerra em 2019, é que atestará a capacidade de nos desenvolvermos mais rapidamente e em paz a caminho de uma comunidade interestelar, gerando avanços ainda inimagináveis numa sociedade mais fraterna e mais justa, num mundo em regeneração”.
Há sempre um mas. Este aparece no texto seguinte: “Caso contrário, atrasamos o nosso passo evolutivo com um conflito nuclear de consequências arrasadoras e imprevisíveis”. Isto é, o futuro do planeta e de tudo que nele existe está atrelado às decisões que o homem tomar.
O coautor do livro resume: “Se passarmos esse prazo de 50 anos, sem nos lançarmos à terceira guerra mundial, então entraremos em um glorioso período de desenvolvimento acelerado, conquistando conhecimentos mais largos sobre nossa existência e integrando-nos definitivamente com a comunidade das civilizações extraterrestres mais evoluídas do que nós, absorvendo os ensinamentos e recebendo delas uma imensa e inimaginável cooperação”.
Os anúncios e advertências de Chico Xavier, pela credibilidade que ele tem e merece, devem ser analisados com isenção e bom senso. Os norte-americanos insistem em que não há seres de outros planetas a visitar-nos, o que contrasta com as ideias de conceituadas personalidades.
O ET de Varginha poderia ser uma notável realidade. Os exibidores de cinema poderão retirar das prateleiras os velhos filmes de viagens interplanetárias e levá-los às televisões.
Chico comentou: “fazemos parte de uma família universal e não somos o único mundo criado pro Deus”, e “Irmãos de outros planetas mais evoluídos terão permissão para nos apresentar abertamente”. É assunto muito próprio para Fernando Guedes de Melo.


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Por Manoel Hygino - 4/9/2014 09:23:28

Mistério de Itacambira

Manoel Hygino - Hoje em Dia

João Camillo de Oliveira Torres, pesquisador e estudioso de nossa história, focaliza, em “História de Minas Gerais”, as casas religiosas e santuários construídos pela piedade popular. Além das igrejas nas cidades, havia asilos e educandários. Nasciam pelo esforço e tenacidade de um ermitão de burel azul, bordão e relicário.
Entre eles, estão o Caraça, a ermida e o asilo da Serra da Piedade, a cidade santuário de Congonhas do Campo, e o colégio de Macaúbas, sítios inscritos na história da religião, das letras e das artes em Minas. São obras materiais e obras pias de relevo no processo de conquista da terra, da disseminação da religião e do fortalecimento do poder real.
O mais antigo é o recolhimento de Macaúbas. Mas houve também a Casa de Orações do Vale de Lágrimas, fundado em Itacambira, pelo padre Manuel dos Santos, em 1756. Segundo João Camillo, era um misto de convento e de colégio, chegou a ter muitas alunas e foi sempre muito elogiado por autoridades civis e eclesiásticas. Furtado de Menezes o considera o mais antigo colégio de Minas, embora hoje esquecido ou raramente citado.
Itacambira é uma pequena cidade no Norte de Minas, que ganhou publicidade quando se descobriram corpos mumificados na pequena igreja. O fato ganhou espaço na imprensa e reportagens foram inseridas nas páginas das grandes revistas e jornais. Eu mesmo estive lá para conhecer a localidade, o templo, a população, os fatos.
O engenheiro Simeão Ribeiro Pires, estudioso da região, fez aprofundada pesquisa e, em seu escritório em Montes Claros, guardou consigo uma daquelas múmias. Algumas delas, removidas dos porões da própria igreja, foram transferidas ao museu da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
Em Itacambira, teria existido a lagoa do Vupabussu, provável local da mina de supostas esmeraldas, descobertas por Antônio Dias Adorno, e que o bandeirante Fernão Dias veio procurar. O bispo de Montes Claros, dom João Antônio Pimenta, deslocou-se da sede da diocese para tentar achar a antiga lagoa e a Serra Resplandecente, fazendo relato circunstanciado ao governador. Ao contrário do esperado, encontrou sinais de uma febre endêmica, possivelmente tifo.
Itacambira já pertenceu a Minas Novas, Grão Mogol e Montes Claros, conseguindo autonomia administrativa em 1962. Lá se chegava por estradas de terra, de difícil acesso, mas com belas paisagens. Ladrões andaram por lá e furtaram bens da igreja de Santo Antônio, certamente não muito valiosos.
O que também mereceu atenção da mídia, em 1966, foi a reportagem de cinegrafistas americanos para uma edição costa a costa. Contava que Itacambira desapareceria, pois a população seria extinta pelo barbeiro e o mal de Chagas.
Não acharam o colégio, nem foi procurado, tampouco ouvi falar a respeito em autores recentes, como aconteceu com as esmeraldas de Fernão Dias, que acabou acometido por uma febre que o conduziu aos últimos dias.
Não se pode deixar de registrar, finalmente, que naquela igrejinha teria sido batizada a menina que, em “Grande Sertão: Veredas” foi a Diadorim, de Guimarães Rosa. Ao fato, aliás, faz referência Simeão em um de seus bons livros. Mistérios que pedem pesquisas. Itacambira e a história merecem.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2014 09:16:48
O silêncio dos magistrados

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Doutor Honoris Causa por várias universidades no exterior, o ex-presidente acha que só ele tem direito de falar. Ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam manter silêncio sobre os problemas do país e da administração dos negócios públicos.
Lula declarou peremptoriamente, em fevereiro último, e os jornais, que não brincam em serviço, publicaram: “Se quer fazer política, entre num partido político e seja candidato”. A crítica foi formulada, em Ribeirão Preto, durante evento com líderes do agronegócio, quando o ex-metalúrgico discursou ao se tocar no caso mensalão. “O papel do ministro da Suprema Corte é falar nos autos do processo e não ficar falando para a televisão o que ele pensa”.
Disse mais, repetitivo: “O cidadão, se quiser fazer política, que diga: ‘não aceito ser ministro (do STF), vou ser deputado, vou entrar num partido e mostrar a cara’”. Sem citar José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, já então detidos, Luís Inácio choramingou, alegando que o seu partido “está sofrendo, pois tem companheiros presos, com os quais se solidarizava”. “Tenho que pagar se tiver prova contra mim, a Marta (Suplicy) tem que pagar e cada um de vocês (eram 1.500 pessoas no auditório) têm que pagar porque foi o nosso partido que não deixou sujeira debaixo do tapete. O que vale para nós tem que valer para todos”.
Lula preconizou que a campanha de 2014 não seria fácil. “Os tucanos não brincam em serviço, porque ninguém tem um bico daquele tamanho à toa. É bico de predador, de comedor de filhotinho”, asseverou.
O antecessor de Dilma evita tocar no assunto Petrobras, nos preços de energia elétrica, no subpis. Não alude as vendas de veículos e motos que, neste ano, tiveram o pior desempenho desde setembro de 2012. Nem considerou que os carros vendidos no Brasil estão entre os mais caros do mundo.
Feita a conversão de moedas, os adquiridos nos Estados Unidos chegam a ser duas ou três vezes mais baratos. Assim, o trabalhador daqui tem que suar quatro anos, três meses e 22 semanas para adquirir um.
Tampouco interessa. Mas Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e conselheiro da presidente, admite que a situação está difícil. “A gente não pode se enganar”, até porque o próximo governo terá de resolver duas encrencas: reajustar preço da gasolina e deixar o dólar subir.
O que nos conduz inapelavelmente às declarações da ministra Carmen Lúcia, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que evidentemente não tem o direito de se manifestar, direito só dos políticos, segundo Lula.
“Muitas vezes, especialmente na parte administrativa, eu acho que estou maquiando cadáver. Esse Estado brasileiro, como está estruturado e como a Constituição previu há 25 anos, não atende mais a sociedade. O que era esperança, na década de 1980, pode se transformar em frustração. A tendência de uma frustração, o risco social é se transformar em fúria. E, quando a fúria ganha as ruas, nenhuma ideia de Justiça prevalece.


78535
Por Manoel Hygino - 30/8/2014 10:12:56
Quatro meses, e um novo ano

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Era uma vez, um país que se afirmava feliz, amante da paz, de gente cordial e amável, solidária e prestimosa, mas que andava devagar. Para que pressa? Hoje, tudo é rápido, vertiginoso, célere e agitado. Quem tem pressa como cru. O resultado se pode avaliar pela estatística. Acidentes de trânsito deixaram mais de 563 mil mortos no Brasil de 2003 a 2012, conforme dados do Dpvat. Sem falar em quase dois milhões de feridos.
Independentemente de partidos e candidatos, os fatos – os números – e as evidências demonstram que não estamos bem. A avaliação é de pessimismo, mas verdadeiramente nele vivemos e os que conosco não concordam sabem que temos razão. Existem pessoas que preferem narcisisticamente usar os aparelhinhos para tirar a própria foto, deixando para lá a preocupação com a realidade. Crime de omissão. A verdade tem muitas faces e cada um lhe dá a interpretação que mais lhe satisfaça.
Na primeira quinzena de agosto, já se publicava que “a desaceleração nas vendas do comércio, que bateu forte no varejo especialmente na época da Copa do Mundo, teve impacto negativo no emprego do setor”. Também a indústria demitiu mais que contratou. Indústria e comércio aliados na frustração.
As coisas não marcham a bom vapor. Por exemplo: cerca de 12% dos revisores de redação foram“reprovados” na última edição do ENEM. Atente-se: as redações são corrigidas por profissionais da área de letras e passam por processo de capacitação. Parece incrível, mas não é.
A poderosa PETROBRÁS, que com calor e entusiasmo os brasileiros criaram, há décadas, vê-se atirada no olho do furacão, envolvida em escândalos com repercussão internacional. Nem vamos falar em Passadena. Vamos referir-nos à demissão de empregados, traduzida como “demissões voluntárias”, visando redução de custos. O plano envolve 8.379 petroleiros.
No mesmo diapasão trabalha a indústria automobilística, usada demagogicamente para dar uma falsa noção de propriedade aos “trabalhadores do Brasil”, como discursivamente Getúlio saudava o povão no Estádio de São Januário, durante o Estado Novo. Pois bem. Até a primeira metade de agosto último, o setor cancelou contrato com 5.600 trabalhadores, a maioria nos programas apelidados de “demissão voluntária”. Pois, sim.
A Volkswagen dará férias coletivas a 4.500 operários de uma unidade de Taubaté e a Fiat suspende parte de produção em Betim. E a indústria de autopeças segue a via dolorosa.
Dependendo de São Pedro, que grave responsabilidade tem sobre os terráqueos, muito poderemos sofrer nos últimos meses de 2014, ao abrir e fechar as torneiras celestiais. Como dizia Aureliano Chaves, não adianta tapar, ou tentar, tapar o sol com a peneira. Fatos são fatos.
A própria Fundação Getúlio Vargas, que não é um organismo da oposição, já se manifestou. O Brasil passou por recessão técnica no primeiro semestre. A última vez, como registrou o IBGE, fora no início de 2009, na esteira da crise financeira mundial. Os males se repetem.


78531
Por Manoel Hygino - 29/8/2014 09:42:19
Um doente em agonia

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O tempo segue vário, adjetivo utilizado pela “Folhinha Mariana”, por décadas e décadas consultada pela gente humilde do interior mineiro para saber o que a aguardaria após a semeadura e plantio. E se as chuvas não chegarem em 2014, como aconteceu no inverno do ano passado? A situação não afeta somente as represas que abastecem de água e movem as turbinas do sistema energético.
Já estamos em um novo ciclo e o sertanejo olha para o céu – sem nuvens. Nas cidades, espera-se que a água bendita baixe a poeira e carregue a sujeira das ruas. Nos burgos menores, fazem-se novenas e promessas. E a chuva... nada.
Leio que os meteorologistas estão otimistas com mudanças a partir de outubro. Mas será época de eleições. Chuvas não poderão atrapalhar o comparecimento do eleitorado às urnas?
No Norte de Minas, as temperaturas serão dois graus a menos, causados por El Niño, fenômeno que só mais recentemente surgiu no panorama climático. A perspectiva é de mais chuva na região central do Brasil, podendo também ajudar a região mineira de seca. Se os meteorologistas estiverem certos, claro.
Parece existir uma conspiração firme e incessante contra as fontes naturais do progresso e da grandeza nacionais. Estamos ampliando o precipício a que seremos atirados irreversivelmente. Poderia parecer catastrofismo, se se disser que há generalizada falta de consciência sobre nossa responsabilidade perante as atuais e futuras gerações. E não somente dos políticos.
É algo muito pior do que o terremoto que abalou o norte da Califórnia, como aqui descrito pelo jornalista Ricardo Galuppo, e do que o do Chile e no Peru, no último domingo. A nossa tragédia poderá durar décadas e séculos.
Escrevi que o São Francisco agoniza. Não é força de expressão. O experimentado advogado e conhecedor dos problemas regionais deste Estado, Petrônio Braz, evocou, há poucos dias, o pernambucano Salomão Vasconcelos: “Em menos de cem anos, o rio São Francisco será apenas um grande cânion, cortando um extenso deserto central”, como há decênios ouvi de conceituados técnicos.
O que foi feito de concreto? O próprio Petrônio raciocina:
“Hoje, estamos convictos dessa dolorosa realidade. Em menos de uma geração, nós, brasileiros, destruímos o rio São Francisco. Muito se tem falado, demagogicamente, em defesa do rio São Francisco, em revitalização, em desassoreamento, e até em hidrovia – idiotas de gabinete –, mas nada, absolutamente nada, foi feito ou está programado, de forma positiva, realista. O governo federal ainda persiste com o faraônico projeto de transposição das suas águas para o Nordeste, como se fosse possível transformar um doente em agonia em doador de sangue”.
Catastrofismo? Repito a pergunta. Não me parecem alvissareiros os horizontes. Há poucos dias, o diretor do Operador Nacional de Sistema previu que as hidrelétricas em operação deixariam de receber, em agosto, 13% de volume de água para atender ao sistema elétrico. Além do mais, já se sabia que as usinas do Sudeste e do Centro-Oeste passariam, em agosto e setembro, pelo período mais crítico dos últimos anos. E setembro está aí.


78509
Por Manoel Hygino - 25/8/2014 09:04:13
Um outro BBB

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A trajetória de Darcy Ribeiro pela vida política e intelectual brasileira é de apenas conhecimento superficial, como ocorre com outros raros cidadãos do país. Recordo quando ele lançou livro sobre os costumes dos cadiueu, uma tribo do oeste brasileiro. Foi, salvo engano, a primeira publicação sua numa área de pessoal encantamento. Começava a encontrar-se e encantar-se com a América Latina.
Darcy viveu um dos períodos mais agitados da história brasileira. Foi ministro, chefe da Casa Civil da Presidência da República, fundador de uma universidade em uma cidade construída para ser capital nacional.
Nascido em família ilustre do sertão mineiro, foi um dos seus filhos mais prestigiosos e expoente. Suas eventuais extravagâncias, entre as quais a fuga de um hospital em que tratava de câncer, foram fruto ou consequência de sua maneira especial de viver e de encarar a vida.
Em 1962, como primeiro reitor da Universidade de Brasília, decidiu criar e publicar a Coleção Biblioteca Básica Brasileira, com notáveis méritos. Lamente-se que, com as mesmas iniciais, pôs-se no ar um programa de televisão que nada tem a ver com o Brasil e a educação. O objetivo de Darcy era proporcionar um conhecimento mais profundo da história do país e de sua cultura.
Agora, a Fundação Darcy Ribeiro vem publicar a primeira coleção de dez volumes, de um total com 150 diferentes títulos, que constituirão a Biblioteca, um dos mais acalentados sonhos do ex-ministro da Educação do governo João Goulart.
Os dez volumes me chegam, com o abraço fraterno de Paulo de F. Ribeiro, presidente da Fundação Darcy Ribeiro, e do irmão Ucho, que seguem à risca o desenvolvimento do programa do tio.
Observe-se a lista desta relação: “A América Latina”, de Manoel Bonfim; “América Latina: A Pátria Grande”, de Darcy Ribeiro, com prefácio de Eric Nepomuceno; “As Religiões no Rio”, de João do Rio; “Braz, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado”; “Cultura e Opulência do Brasil”, de André João Antonil; “Memórias de um Sargento de Milícia”, de Manuel de Almeida; “Minha Formação”, de Joaquim Nabuco; “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; e “Viagem ao Brasil”, de Hans Staden.
Pela enunciação dos títulos, observa-se que se trata de um projeto do mais alto nível, com edição patrocinada pela Petrobras e Correios. Assim se valoriza a memória cultural brasileira, promovendo-se a democratização do acesso à cultura e o fortalecimento da cidadania.
Interrompido o programa na ditadura militar, foi ele retomado pela Fundação Darcy Ribeiro, aliada à Fundação Biblioteca Nacional e à Editora UnB. A partir daí, constituiu-se um comitê editorial para redesenhar o projeto e executá-lo, com a inclusão de novos títulos.
Isso quer dizer: 150 obras, totalizando 18 mil coleções, somando 2 milhões e 700 mil exemplares, para distribuição gratuita por meio das bibliotecas públicas em todo o país.


78492
Por Manoel Hygino - 22/8/2014 08:51:38
O carente São Francisco

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O historiador João Ribeiro, um dos notáveis polígrafos do Brasil no século passado e cujo sexagésimo aniversário de morte este ano se registra, deixou consignado: “...excluído o mar, caminho de todas as civilizações, o grande caminho da civilização brasileira é o rio São Francisco; é nas suas cabeceiras que pairam as grandes bandeiras, e daí se expande e ondula o impulso das minas, é no seu curso médio e interior que se expande e propaga o impulso da criação, os dois máximos fatores de povoamento”.
Joaquim Ribeiro, que não é o romancista de “A Carne”, mas o renomado polígrafo elogiava: “A amenidade do clima, a fertilidade da terra e a abundância da água garantem a higidez da população, que só conhece as catástrofes das grandes cheias, que, todavia, prenunciam safras prodigiosas vindouras”.
A situação não é mais tão feliz, como atestam as informações, contidas em relatórios oficiais e na imprensa, que não deixa de advertir pra os problemas atuais. As águas deixaram de servir, há muito, apenas ao abastecimento da população e à agricultura, porque o país necessitava de energia elétrica e o rio poderia prestar eficiente contribuição. Três Marias e Paulo Afonso o demonstram.
A ideia de aproveitamento das águas para suprir demandas do Nordeste foi posta em execução – sempre atrasada – pelo ex-presidente da República Lula, enquanto não se assegurava à suficiência o controle da qualidade e quantidade de volume emanado dos altos de São Roque e, em seguida, dos demais afluentes da miraculosa bacia.
Mas o São Francisco já não é o mesmo, diminuiu, se degradou, sem que se tomassem medidas prévias indispensáveis. A corrente é hoje frágil e a seca, que atormenta ponderável parte de Minas Gerais, atinge enormemente o rio da unidade nacional, com o sistema energético necessitando ininterruptamente de socorro das térmicas.
Enquanto a maior cidade do país sofre a falta d’água até nas torneiras, o espectro do racionamento de energia, sempre negado pela autoridade competente, passeia por um cenário de incertezas. Em Três Marias, por falta de água suficiente, reduziu-se o trabalho das turbinas, enquanto a cidade de Pirapora, mais embaixo, entra em regime de contenção de consumo. As populações ribeirinhas padecem angústia cotidiana e há previsões sombrias, a curto e médio prazos.
A própria navegação, sustentáculo da economia de extenso território, é afetada. A paralisação das viagens do velho Benjamim Guimarães, vapor de tradição nas barrancas, adverte para a gravidade do problema. Lembramos que a embarcação, trazida dos Estados Unidos, é a última movida a lenha ainda em atividade no mundo. No rol de adversidades, envolve-se, ainda, o turismo, valiosa fonte de economia para este segmento do São Francisco e oferecendo perspectivas alvissareiras.
O vapor interrompe o curso após 101 anos de sua construção, enquanto a cidade em que se inicia a navegação do Velho Chico se vê na contingência de lançar mão de solução de emergência para não faltar o precioso líquido nas torneiras. Sinal dos tempos!


78469
Por Manoel Hygino - 18/8/2014 08:34:01

Cem anos de belas lições

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Agosto, 14. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, por proposta do deputado Carlos Pimenta, prestou-se homenagem à professora Yvonne Silveira. Nenhuma iniciativa mais legítima e justa. O preito se deu ao ensejo do seu centenário de nascimento, enquanto se promoviam as festas típicas do mês na maior cidade do norte-mineiro, em que ela nasceu e a que dedica toda sua vida.
Em todas as ocasiões e lugares em que se fazia necessária sua presença no campo cultural, educativo, literário, artístico e cívico, lá estava. Suas aulas na faculdade se caracterizavam pela livre manifestação, interação e harmonia com seus discípulos. A mestra insistia na tecla da leitura dos bons livros e dos bons autores, como condição de formação intelectual, de êxito pessoal e profissional e, por extensão, para desenvolvimento do ser humano e da pátria.
As aulas constituíam, enfim, lições de espírito cristão, de transmissão de ensinamentos imprescindíveis, de sabedoria e brasilidade, de respeito ao passado e da visão de futuro.
No finalzinho de 2013, programavam-se os festejos, a que ela modestamente disse não fazer jus. Desde então, comoventes encontros se sucederam para cumprir, ou não, o que se deliberava. Dona Yvonne já deixara de pertencer-se, para pertencer à sua cidade, à sua história, à sua gente, a seus costumes e tradição, a seus ideais, ao magistério universitário, às letras.
Presidente da Academia Montes-clarense de Letras há muitos anos, tem dedicado ininterruptamente aos nobres objetivos da entidade identificada como “A Casa de Yvonne Silveira”, com Y e duplo n, como convém. No decorrer do calendário de 2014, tem sido alvo de sucessivas manifestações de apreço e admiração, e razões suficientes existem.
Dona Yvonne, grande dama da intelectualidade regional, não falta a compromissos, desloca-se a todo lugar e na hora em que é chamada, e persiste em sua linha de conduta neste ano como o fez ao longo de toda a existência. Jovem, em seus cem anos, não tergiversa, não falha. Um exemplo genuíno da tenacidade da mulher do sertão mineiro.
Lecionou literatura na Faculdade de Filosofia, a FAFIL, mas sua vida é a grande lição, insinuante no salto alto, a voz firme, a argumentação segura, a memória fantástica, que jamais deixa escapar um detalhe. Doutora em Literatura, o é também em comportamento e elegância.
No Dia Internacional da Mulher, institucionalizou-se a proposta de atribuir a uma brilhante mulher a placa alusiva à data. Por sinal, a distinção foi conferida exatamente a Dona Yvonne, nem poderia ser de outra maneira.
Esta apenas uma das expressões de carinho a quem se mudou da cidade natal, adolescente, apaixonou-se, casou-se e viveu com seu eleito durante 76 anos, um amor que parece novela, mas nunca se apaga.
Viúva, não se dobrou como o junco à adversidade. Não perdeu a doçura, o entusiasmo, o charme, a voz suave, o leve sorriso, para continuar a vida. Que completa um século, mas tem muito mais caminho a percorrer.


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Por Manoel Hygino - 29/7/2014 09:04:32
Caetana, a inexorável

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não só agosto traz desgosto como geralmente se crê. Não apenas o oitavo mês é aziago, como se pensaria, o que se depreende dos fatos registrados em julho de 2014. Depois do misterioso desaparecimento do vôo MH 370 da Malaysia Airlines, em 8 de março, desastres aéreos se repetiram e daquele sequer se encontraram vestígios da tripulação e passageiros a bordo, somando 239 pessoas. Abdução?
Em seguida, o vôo MH 17, ainda da Malaysia Airlines, deixou 298 pessoas mortas, ao sobrevoar o Leste da Ucrânia, talvez abatido por um míssil, em meio ao complexo ambiente de tensão entre a Rússia e Ocidente. Houve mais. Na sequência, um jato com 118 passageiros e tripulantes sumiu dos radares entre Burkina Faso e Argélia. Era a terceira grave ocorrência na aviação comercial em apenas sete dias, sem falar na queda de um bimotor da Transásia, em Taiwan.
Meras coincidências?
Porque, cá entre nós, também sofremos no Brasil golpes no período. O irreverente escritor João Ubaldo Ribeiro, baiano e fumante inveterado, fugiu ao rol dos vivos, entre os quais os seus confrades na Academia Brasileira de letras. Legou inédito “O correto uso do papel higiênico”, que certamente trará novidades.
Mineiro de Boa Esperança, cidade cantada em música e letra na composição de Lamartino Babo, subiu a lugar feliz Rubem Alves, embora pouco caso se tenha presentemente às boas e bonitas coisas do intermezzo terreno. Deixou escrito: “Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira”.
Finalmente, no entardecer de 23 de julho, Ariano Suassuna, largou as amizades e admiradores da Terra, para fazer alegria em novas companhias. Sofrera um AVC, foi operado em Recife e entrou em coma, para em seguida deixar seus seis filhos e quinze netos.
Nasceu em 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital do estado, em 16 de junho, entre as festas de São João e São Pedro. Seu pai, João Suassuna, era governador da Paraíba. Após o mandato, mudou-se com a família para o interior. Quando Ariano tinha 3 anos, na revolução de 1939, um pistoleiro executou-lhe o pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. Apontavam-no como mandante do assassinato de João Pessoa, que o sucedera no governo, também assassinado. Um dia antes, deixara carta aos nove filhos pedindo para não tentarem vingar-lhe a morte. Escritor feito e consagrado, querido, o autor paraibano, confessou: “Escrevo para enfrentar a transitoriedade. Não gosto da idéia de ter medo de morrer. A morte, na Paraíba, é uma mulher e se chamava Caetana. Eu me contento de encarar a maldita, se ela vier na forma de uma mulher, acolhedora, carinhosa, bonita e amante”.
Se bela e afetuosa, não se pode dizer, mas ela chegou. Mas Ariano, como Rubens, o mineiro, e João Ubaldo, o baiano, foi juntar-se às centenas de vítimas das aeronaves sinistradas e outros desastres graves. Caetana é inevitável e inexorável, em vias aéreas ou terrestres.


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Por Manoel Hygino - 22/7/2014 09:16:56
Onde a bossa-nova surgiu

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Vinícius de Moraes tinha raízes mineiras, dos Machados que produziram Lucas, o grande médico, Lúcia – a escritora, o acadêmico Ângelo Machado e tantos outros personagens queridos; Noel Rosa, já se viu, também teve ancestrais na montanha e, no ápice da carreira, veio aqui buscar cura de tuberculose; mais recentemente, descobri que João Gilberto veio a Minas para haurir na fonte inspiração para a bossa-nova.
E escolheu para sua experiência nada menos que Diamantina, terra de Juscelino, o carismático governador e presidente, empregado dos Correios antes de fazer o curso de Medicina e colar grau em 1927, ao lado de Pedro Nava, entre outros. E JK foi apelidado de “o presidente Bossa-nova”.
Ruy Castro, ao elaborar o seu “Chega de Saudade”, recorda a passagem de João Gilberto pela terra de Juscelino, de Francisco Nunes, o maestro, e em que viveu Helena Morley, a menina-prodígio – autora de um livro inesquecível, avó do acadêmico Eduardo Almeida Reis.
Acontece que Castro, o brasileiro, de nome Ruy, não se aprofundou no estudo sobre JK em Diamantina, como informou Juscelino Roque, conhecedor das pesquisas de alto nível realizadas por Wander Conceição sobre a histórica cidade e suas personalidades. Por sinal, o autor ainda luta para conseguir recursos para continuação de seu minucioso e revelador estudo.
Parece estranho, bossa-nova–Diamantina. Mas é fato. Aliás, o trabalho de Wander sobre a influência de Minas e de Diamantina na gestação da bossa-nova já extrapolou as fronteiras de Minas e do Brasil. O suicida jornalista alemão Marc Tischer lançou um livro em sua pátria com o título “Ho-ba-lá-lá, à procura de João Gilberto”, citando uma entrevista com Wander. Este trabalha seu projeto, há mais de década, sozinho, sem ajuda financeira de governo ou empresarial, mas não desiste. Ele sabe da valia de seu esforço.
Mas não somente Ruy Castro entrou no tema. Zuza Homem de Mello produziu um livro de 120 páginas, lançado em 2001, para festejar os 70 anos do compositor, explicando tecnicamente a formação do ritmo e dos acordes da bossa-nova. Diz Zuza, na página 33, que: “Foi especificamente em Diamantina, em 1956, que João Gilberto atingiu a magia que procurava”.
Como o compositor apareceu na terra dos diamantes? A irmã Maria da Conceição Dadainha era casada com um engenheiro civil, Péricles Rocha de Sá, que chefiava obras de uma rodovia na região, a BR-367. Antes, vivera em Diamantina um irmão de João Gilberto, o Jovino, que estudou no colégio Diamantinense, responsável por ensino de primeira qualidade. Mas ainda tocava violão e jogava futebol, pescava, além de integrar o Tiro de Guerra.
Os diamantinenses não conseguiam ver João Gilberto. Ele se enfurnara na casa do cunhado e da irmã, por oito meses. Trancava-se no quarto com o violão e não saía sequer na calçada. Fechava-se horas e mais horas no banheiro, também com o violão. À noite, percorria de meias, para não fazer ruído, os corredores da casa. Depois cantava e tocava baixinho, ao lado do berço de Marta Maria, a sobrinha, no quarto de criança. Para os diamantinenses, era um sujeito esquisito, que passava o dia de pijama tocando violão.


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Por Manoel Hygino - 18/7/2014 10:45:10
Espetacularização contestada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Um magistrado atuante no norte mineiro condenou pela imprensa uma operação policial que resultou na detenção de dezesseis suspeitos de malversação de dinheiros públicos, onze dos quais sequer foram indiciados. Para ele, era perfeitamente dispensável a espetacularização da diligência, porque apenas cinco foram acusados pelo desvio de R$ 35 mil, quando se anunciara um furo de R$ 10 milhões.
Eis em linha gerais, a causa da polêmica que se criou, em que se posicionaram a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, por sua diretoria regional; a Amagis- Associação dos Magistrados de Minas Gerais, que saiu em defesa do juiz Isaías Caldeira Veloso; e mais a Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Público do Norte de Minas.
A crítica à ação policial resultou numa desastrosa série de críticas a que aderiram pessoas de duvidosa conduta em episódios políticos locais. Assim, a incontida animosidade tolda a vida de uma cidade, que precisa de temperança e de elevado senso de responsabilidade para sobrepairar a desentendimentos ocasionais, cujo conteúdo se percebe, e com melindres que afloram e suscitam copiosas diatribes ao magistrado.
Há de se esclarecer: o juiz em causa é cidadão cônscio de seus deveres e direitos, veemente contra os desvios de recursos públicos seja nos altos escalões da República, seja nos mais distantes grotões das Gerais. Um jornal de Belo Horizonte, sem conhecer nuances questão, inseriu em suas páginas uma nota sobre os fatos.
O magistrado voltou para dizer que nunca criticou os processos, nem juízes, mas os métodos dos investigadores, no caso o Ministério Público, com participação da autoridade policial. E mais: “Sou contra a espetacularização dos atos, com a mídia adrede preparada para filmagens e jornalistas a postos, quando das prisões. Prisões em geral por 5 dias, as tais prisões temporárias”, já apodadas atualmente de “prisões para humilhações”.
O juiz, diante daquilo que considerou uma agressão, desabafou: “Pago impostos, tenho filhos e amo meu país e a democracia. Enfim, sou cidadão. Não vou me calar, quando sentir que os postulados democráticos estão sendo atacados. Não quero ditadura, sob nenhum pretexto. Já vivi sob regime de exceção”.
Do alto de seus 54 anos, afirma ter vivido sempre às suas custas, lembrando que prendeu todos os líderes de facções criminosas da cidade (Montes Claros), recebendo a Medalha Tiradentes da PMMG, por sua maior produtividade em Minas. Orgulha-se de seu trabalho no fórum por 16 anos, sem nenhum processo ou sindicância contra sua atuação. Recebe quase 300 inquéritos por mês da Polícia Civil, a que responde trabalhando, a despeito das dificuldades operacionais. E sofre por ver-se perseguido por combater ferozmente a corrupção, inclusive por membros de um grupelho que jamais se contrapôs ao escândalo do mensalão e outros escândalos nos altos escalões.
O que preocupa o magistrado, agora, é quitar seu carro, comprado por consórcio e adquirir parta si um apartamento, deixando de vez o aluguel de R$ 1.200 que tanto lhe custa pagar ao início de todos os meses. E confia economizar para presentear, se possível, as filhas com uma viagem à Disney.


78327
Por Manoel Hygino - 17/7/2014 09:33:36
Morte na Semana Santa

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Felicidade é o nome, e diz muito. O currículo, extenso e rico, difícil resumir-se sem correr o risco de pecar por omissão de algum título. Mas, tento: escultora, gosta de escrever, professora de arte, ex-professora de Filosofia da Unimontes e do curso de Filosofia do Seminário Diocesano de sua cidade natal. Formada em Pedagogia Musical pelo Conservatório de Música Lorenzo Fernandez, pós-graduada em História da Arte e de Filosofia e Existência pela Universidade de Brasília, tem dezenas de artigos publicados, com textos versados inclusive para o italiano.
O espaço é curto para tantos títulos, demonstradores dos méritos dessa mulher, que lançou um livro recentemente, descrevendo a vida de um pintor norte-mineiro, premiado no Brasil e lá fora, e que viveu efemeramente, se se considerar o quanto poderia mais ter feito. Felicidade Maria do Patrocínio Oliveira, eis o nome completo da autora que integra a Academia Montes-clarense de Letras, criou e mantém um exemplar Clube de Leitura, no centro irradiador de cultura e arte, que muito honra Minas Gerais pelo que fez e faz.
Sua escultura tem enriquecido exposições em várias cidades brasileiras, enquanto outras embelezam locais nobres de sua terra natal e alhures. Para a escritora Maria Luiza Silveira Teles, é um ser humano raro, pela espiritualidade, desprendimento e doçura. Para a presidente da Academia Montes-clarense de Letras, Ivonne de Oliveira Silveira, é dona da palavra e cultiva a arte literária com estilo original e agradável.
É exatamente o que demonstra em “Raymundo Colares e o fogo alterante da criação”, lançado neste 2014, que não pode ser avaliado apenas em termos de Copa e futebol. Focalizando o pintor Ray, nascido em Grão Mogol, Felicidade retrata a curta vida e o fim trágico de uma das maiores expressões da arte mineira neste século até aqui transcorrido.
Entre nossos artistas, está Raymundo Colares, “presença fulgurante num momento crítico de transição da história das artes, quando se tornou referência do que há de mais genuíno e elevado na pintura brasileira”. Em seu livro, ilustrado com quadros do focalizado, tem-se a extensão, complexidade e beleza de um artista privilegiado. Nascido numa cidade fulgurante pela grandiosidade da natureza, transferiu-se pra a cidade maior e economicamente mais poderosa da região e ali começou a interessar-se por cinema, imagens e artistas. Introspectivo, fez-se leitor compulsivo e revelou sua inclinação pelo desenho e pela pintura.
Depois, houve muito mais, inclusive Rio de Janeiro, em 1960, tempo de transformações sociais e culturais. Sentiu espaço para voar, impressionou-se com a metrópole, que lhe abriu as portas do mundo. Fez-se professor, o que era natural, e versejava com sucesso, expôs em Londres. Após beber em um bar do Aterro do Flamengo, no Rio, foi atropelado, fraturando a perna e braços. Voltou à sua cidade, agudizou-se a droga, atirando-o à ruína, assumiu a homossexualidade, mesmo não a aceitando. Internou-se para desintoxicação. No leito, amarrado, percebeu que o colchão incendiava, talvez resultante de uma ponta de cigarro. Era Semana Santa. O corpo foi queimado quase inteiramente. Tinha 42 anos.


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Por Manoel Hygino - 14/7/2014 16:08:55
A diária da prisão

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O Brasil depois da Copa: o que será? Poderá uma competição esportiva internacional contribuir para mudanças fundamentais na vida do país e das pessoas? Fala-se no legado. Como será? Ficaremos apenas com estádios de custos altíssimos para disputas locais...ou, quem sabe, servir para jogos de várzea. Afinal, a imensidão de recursos públicos - ou seja, de cada brasileiro - terá resultado prático e bom para a gente ou restará como uma lição a ser deplorada?
Enquanto se desenrolava a Copa, muito aconteceu além do desabamento do viaduto Batalha dos Guararapes, em Belo Horizonte, e da agressão de um jogador colombiano a colega profissional do Brasil, astro da equipe. Enquanto a bola rolava, uma agência bancária em Francisco Dumont, norte de Minas, foi atacada por ladrões e roubada. Uma semana antes, explodiram um caixa eletrônico na mesma pequena e pacata cidade, chamada Conceição do Barreiro antigamente.
Daniel Marques, leitor de Virginópolis, alertava, há poucos dias, para a elevação das taxas de homicídios no país. Já em 2012, o número de mortos foi de 56.337, cinco vezes superior a apenas um ano de guerra no Iraque. E a estatística continua crescendo, enquanto o governo insiste em ser bonzinho com os que roubam, que matam, com os que não trabalham, não estudam, nada produzem.
Recentemente, o juiz de Direito Isaías Caldeira, de Montes Claros, bravo defensor das boas causas, advertia para o clima criado entre nós. Há "uma nova forma de aposentadoria precoce, através dos programas assistenciais, pois quem é inserido em tais bolsas ali permanece, sem previsão de mudanças, no gozo do ócio, sob sustento dos impostos dos que trabalham e recolhem aos cofres públicos, para o proselitismo caridoso dos mandatários ocasionais".
Enquanto isso, avultam a violência e o desrespeito a pessoas e patrimônios. O sistema prisional exibe péssimas condições, como opinou, a sua vez, o juiz de Direito de Execuções Penais de Governador Valadares, Thiago Colnago Cabral. É o que sabemos. Já em 2012, o país contava com 548.003 presos, para 310.687 vagas.
O Brasil parece privilegiar os ociosos, os viciados, os marginais, os criminosos enfim.
Suas famílias recebem benefícios e a própria proliferação da espécie é fonte pecuniária.
Os homens abandonam o trabalho e, com o dinheiro recebido da Bolsa, apelam para o álcool ou coisa pior. Recurso mensal chega do Tesouro, mesmo nas áreas rurais.
Uma verdade se diga, porque permanece como lição da Copa: é preciso mudar, mas - antes e acima de tudo - mudar o que? Para quê? Como? Quando? No caso do sistema prisional, é bom conhecer o que a Holanda está fazendo. Decidiu seguir a Dinamarca e a Alemanha ao impor a seus presidiários o pagamento de 16 euros (R$50) por dia atrás das grades.
O objetivo é obrigar o criminoso a assumir o custo de seus atos delituosos e poupar. O preso tem de entender que faz parte da sociedade e, se comente um delito, tem obrigação de contribuir para custear o ônus que provoca. Que seus atos não sejam pagos, do ponto de vista econômico, apenas pelo resto do cidadãos, advertiu o Ministério da Justiça holandês. No Brasil, o custo mensal de um preso é de R$1800, segundo o Ministério da Justiça.


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Por Manoel Hygino - 8/7/2014 08:56:28
A noite de mil anos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O jornalista Paulo Narciso, uma das melhores redações da Imprensa mineira, é um cidadão que se preocupa com os problemas de nosso tempo, do homem e da sociedade. Mais do que isso, entende e mais estuda modificações da natureza e do clima. Outro dia, ele registrou que, na madrugada de 21 de junho, sábado, o inverno começaria, oficialmente, às 02h04, com a mais longa noite do ano.
Acrescentava que, sexta-feira, o sol se poria mais cedo, às 17h31, só devendo o dia clarear às 6h23 da manhã de sábado. O dia precedente assinalou o período em que a Terra esteve mais afastada do Sol: daí, a noite ser a mais longa e o dia o mais curto. É a data do Solstício de Inverno no Hemisfério Sul, e do de Verão, no Hemisfério Norte, a que as televisões deram grande ênfase, focalizando fantásticos monumentos no Reino Unido.
Noite mais longa do ano! O fato nos direciona naturalmente à Idade Média, considerada frequentemente a mais longa das noites da história da humanidade. Contra esse ponto de vista, ergue-se Ivan Lins, belo-horizontino, da Academia Brasileira de Letras, em livros e conferências. Aliás, ao prefaciar um de seus bons livros, Afrânio Peixoto comentou, com toda razão:
“A Idade Média, por uma convenção espiritual puramente didática, é o espaço de tempo que medeia entre a Idade Antiga, que termina com o Império Romano, e a Idade Moderna, que começa com a queda da Constantinopla. Pura comodidade cronológica! O tempo antigo não acabou, menos ainda o médio, nem o moderno é geral e constante”.
Afrânio segue o raciocínio: “Idade Média, pois, é artifício, porque o tempo e seus caracteres continuam, aqui e ali, e continuarão; porque as divisões e os nomes são recentes e arbitrários. Nada mais errôneo que considerar a idade Média como a noite, o obscurantismo. Quem preparou o Renascimento foi a Idade Média”.
Lins emite seu pensamento: “Tão sedutora e cheia de atrativos é essa fase da história, onde, como em paradoxal milagre, surgem – da barbárie e do entrechoque das armas- as virtudes mesmas que constituem hoje o mais precioso apanágio do cavalheirismo; de ensinamentos”. A Idade Média não foi um dia perene, tampouco uma noite de mil anos, como a julgou Michelet.
Fala-se repetidamente sobre a Idade Média, para criticá-la. Louva-se e se gaba a beleza e grandeza da civilização romana. Mas se esquece de que, mesmo na fase áurea de Roma, os espíritos de escol não se revoltavam quando o pai deixava os filhos morrerem à porta, de fome e frio, por não querer educá-los. Simultaneamente se ignorava a selvageria habitual dos divertimentos em que mais se apraziam o povo.
Ivan Lins pergunta:“Que mais cruel do que os combates de gladiadores, essas matanças humanas, sistematicamente apresentadas ao público como soberbos espetáculos? Nada mais atraía tanto os romanos de todas as classes, e era com volúpia, que os assistentes, inclusive as vestais, se levantavam, freneticamente, como um só indivíduo, para abaixar o polegar e ter a delícia de presenciar o vencedor cravar a espada na garganta do vencido”.
A Idade Média surgiu e eliminou esse bárbaro costume, tanto quanto outros, que eram até motivo de orgulho de Roma. A malsinada Idade Média, porém, ainda pode ser identificada em episódios freqüentes do Século XXI.


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Por Manoel Hygino - 26/6/2014 09:58:37
Nossos grandes desafios

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Li, há muito tempo, a respeito da matança de jovens no Brasil. O que aqui acontece é inominável, um genocídio, uma guerra permanente não declarada que a ninguém faz bem. O assunto é imensamente exposto e discutido por todos os meios, lugares e pessoas, mas se perde no palavrório, em que os jornalistas somos envolvidos obrigatoriamente. Nem teríamos como evitar participar, porque é de cada um e de todos.
O caso dos moços deste país com menos de dezenove anos merece consideração à parte, porque é exatamente o período em que o cidadão deveria estar começando ou já trabalhando, produzindo. Não é o que acontece: três adolescentes em cada grupo de mil morrem no país antes de alcançar essa idade, conforme dados do Índice de Homicídios na Adolescência.
A taxa cresceu 14% apenas de 2009 a 2010. A previsão, se não houver queda nos próximos anos, é de que 36.735 jovens de 12 a 18 anos sejam executados, possivelmente por arma de fogo até 2016, na maioria negra. Calculado pela Universidade do Rio de Janeiro, o índice passou de 2.61 mortes por grupo de mil jovens para 2,98.
São dados referentes a municípios com mais de 100 mil habitantes, divulgados pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e pelo UNICEF, em dezembro de 2012. De lá para cá, não acredito que os percentuais tenham decrescido, a considerar o noticiário da Imprensa.
O homicídio é indicado, entre nós, como principal causa de morte dos adolescentes e equivale a 45,2% do total de óbitos nessa faixa etária. Na população geral, as mortes por homicídios representam 5,1% dos casos.
Sem dados à mão, posso admitir que a situação, nos municípios com maior população, é muito mais grave, em grande parte atuando como fator de criminalidade o uso de crack e drogas, inclusive álcool. Envolvem-se nesses contextos os jovens que não trabalham, embora tanto se divulgue sobre a falta de brasileiros para o mercado produtivo. Enquetes divulgadas por jornais mostraram, há algum tempo, que os adolescentes na idade em questão não querem trabalhar ou estudar, com omissão perniciosa dos pais.
Para onde estamos indo? Quando isso cessaria?
Essas observações se repetem, mas soluções não há, ou pelo menos não houve, embora especialistas existiam operando por aí com numerosas propostas e sem respostas significativas. É algo profundamente triste, porque se percebe que os jovens pensam fundamentalmente em ser atletas ou artistas, para ganhar fábulas em dinheiro, ou ingressar no serviço público, considerado dos mais precários do planeta, embora mais seguro e bem rentável.
Há, deste modo, muitas frentes a atuar, antes que o mal se torne sem remédio. E sem remédio, seria o caos, não interessa a quem quer que seja e à nação, abençoada por Deus, mas esquecida pelos cidadãos, desestimulados pro motivos perfeitamente sabidos e consabidos.
Se os mais moços não querem estudar e trabalhar, se o número dos mais velhos é crescente, temos um desafio de consequências inimagináveis. Conhece-se que o sistema previdenciário já enfrenta desafios, que se agravarão nas próximas décadas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento e entidades e agências de pesquisas dignas de confiança. Para o BID, a população de idosos quadruplicará em menos de quarenta anos. Para um técnico, este é o momento de pensar em novas políticas para evitar um futuro mais doloroso. Atualmente, o Brasil já gasta mais de 14% da produção total do PIB, com seguridade social. E depois? Muita morte violenta, gente sem trabalhar, milhares de mutilados pelo trânsito e viciados em drogas e idosos em ascendência numérica. Onde vamos parar?


78147
Por Manoel Hygino - 17/6/2014 08:54:40
Os algozes e suas vítimas

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O governo publicou decreto da presidente que aperta a legislação contra uso e publicidade de cigarros e produtos semelhantes, ampliando restrições em ambientes considerados permitidos ao fumo. Até os chamados “fumódromos” estão proibidos a partir de 180 dias da publicação do decreto. Não haverá tampouco publicidade comercial de produtos do tabaco, embora não se saiba até que ponto isso contribuirá para desestimular o uso do terrível veneno.
Enquanto isso, o crack ganha terreno pelo interior adentro, porque nas capitais já é epidemia. O problema já foi mapeado até pela Confederação Nacional dos Municípios. O tratamento médico tem sido ineficiente, por múltiplas razões, até porque de altíssimo custo.
Curioso que o governo tomasse iniciativas para coibir o tabaco, deixando o campo bastante liberado para produtos semelhantes. E a população vai na onda, contribuindo para as marchas pela liberação da maconha, que reúne milhares de pessoas nas capitais. Legalizar seu uso em estados norte-americanos, na Holanda, no Uruguai, é um risco que se corre por lá. São povos diferentes, em condições de vida diferentes e de culturas diferentes.
O ex-presidente FHC defende a descriminalização da “cannabis sativa”. Em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, barrancas do São Francisco, onde se rodou parte do seriado “Grande Sertão: Veredas”, influenciados os cidadãos por integrantes da equipe da televisão, começaram eles a fumar maconha, deixando o cigarro de lado. Passaram a plantar e colher a erva em seus quintais, consumindo-a abertamente.
A cannabis até curava doenças e, sob outro ponto de vista, é econômico: antes compravam o fumo de rolo ou o cigarro em maço.
Para o advogado Huascar Terra do Vale, as drogas se tornaram o maior problema social do século, mal que tem trazido desgraça a milhões de famílias em todo o mundo. Para ele, “todos os dias saem reportagens sobre o problema das drogas em revistas, em jornais e na televisão. Médicos e psicólogos famosos apresentam suas opiniões, sempre vazias e inócuas. Por quê?”
Não só os profissionais mencionados, porém, se manifestam. Enfim as drogas estão na pauta de todas as redações, nos escritórios de advocacia, nos consultórios, nas delegacias de polícia, nas festas, nos jogos esportivos, nas casas e nas ruas.
Huascar, contudo, dá resposta à última palavra do penúltimo parágrafo: “Por que? Todas as reportagens e palestras sobre as drogas se referem ao problema como se fosse uma calamidade da natureza, como as inundações, os tufões e os terremotos. Como se o homem não tivesse nada a ver com sua origem.
No entanto, o problema das drogas faz parte de um esquema gigantesco para ganhar dinheiro à custa de suas vítimas, o que demonstra também como as pessoas em todo o mundo são reféns de interesses econômicos”.
Existe uma grande conspiração do silêncio para jamais expor em público as verdadeiras causas do problema das drogas, a fim de manter o negócio. “O problema das drogas foi criado pelo próprio homem, que o transformou em um ótimo negócio”, como aconteceu com a indústria do tabaco, que formou verdadeiros impérios e magnatas em atividades paralelas. Huascar acrescenta: “É a lei da selva. É incomensurável a quantidade de sofrimentos derivados desse esquema infernal de exploração das fraquezas humanas”.


78137
Por Manoel Hygino - 14/6/2014 14:15:15
A memória de Baggio

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Domingo, primeiro dia de junho. Falece em Belo Horizonte Marco Aurélio Baggio, 71 anos, médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta. Foi agraciado, em quase 50 anos de carreira, com 35 insígnias e medalhas por mérito cívico; publicou 19 livros e integrou a Academia de Letras do Brasil. Era titular da cadeira 96 da Academia Mineira de Medicina e da de número dez do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, do qual era presidente emérito. Ocupou a cadeira 27 da Academia Brasileira de Médicos Escritores, Abrames, e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional MG.
O velório foi a partir da manhã do dia seguinte na Funeral House, na avenida Afonso Pena, e o enterro na terça-feira. O local é antiga residência de Antônio Pimenta, médico de Montes Claros, da Santa Casa e um dos fundadores do Sanatório Santa Terezinha. Casado com uma Alcântara, de Grão Mogol, não deixou filhos, elegeu-se deputado estadual, foi diretor do Departamento de Administração do Estado, transformado em Secretaria de Administração.
Membro da Arcádia Mineira, de que foi entusiasmado presidente, Baggio deixou ali amigos e admiradores. No dizer de Juçara Valverde, presidente da Abrames, “deixa semeadas angústias, dúvidas, reflexões, que sua inteligência registrou em seus muitos livros. Conosco cria moradia e saudade”.
Marco Aurélio não conseguiu realizar um de seus projetos: eleger-se à Academia Mineira de Letras, embora não lhe faltassem condições para ocupar uma cadeira. Frequentava a Casa de Alphonsus, Vivaldi e Murilo, fez ali conferências, inclusive sobre Guimarães Rosa. Um de seus últimos livros foi “Jesus de Nazaré: Esplendor no Ocidente”, que merece leitura atenta e meditação.
O autor afirma que “Jesus de Nazaré propôs uma forma inovadora de viver as relações humanas, baseada na fraternidade e fundamentada na prevalência do espírito. Profetizava a chegada de um novo tempo, em que as relações de poder que criavam a hierarquia de classes – uma oprimindo as outras – seriam substituídas pelo enlevo da espiritualidade, e anunciava o próximo evento – a vinda do reino de Deus”. Propôs a salvação dos pobres, a exaltação dos humilhados, a cura dos doentes, a distribuição da justiça, o respeito à liberdade de consciência e a utopia da vigência da solidariedade universal entre os homens.
Caminhando para o final de seu livro, Baggio enfatiza a enorme e excelsa contribuição de Jesus de Nazaré para a confecção de uma sociedade, tão significativa quanto avançada, a que chamamos, genérica e adequadamente, do Ocidente.
“Mais que todos, pairando acima dos principais expoentes, a pessoa e o ensinamento – a Boa Nova – de Jesus de Nazaré refulgem, esplendorosos, como um farol que norteia as intenções e funciona como o ímã que colige e retempera as realizações do Ocidente, rumo a seu vir- a- ser o seu porvir. Esse homem maiúsculo, vivendo em seu tempo, até hoje bastante insolvido: a pobreza e a exclusão das pessoas. Somos todos devedores dele, de Jesus de Nazaré, pela graça de nos manter nessa senda que ele, poeticamente, denominou “reino de Deus” – vale dizer – reino do espírito humano”.


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Por Manoel Hygino - 6/6/2014 08:21:46
Mesmo dentro do Fórum

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Há dias, em Montes Claros, mais importante cidade norte-mineira, uma idosa foi executada a tiros ao sair de um ato religioso acompanhada do neto. Eram 30 os assassinatos em maio, até onde segui na estatística macabra. Moc e outros burgos da região, as estradas para o norte do Estado e país, padecem a maior onda de violência na história, com população assustada, caixas eletrônicos destruídos e esvaziados, bandidos à solta, todos os dias e horas.
Em 27 de maio, dia de aniversário de minha única e saudosa irmã, ali nascida, 300 integrantes de um movimento dito de “trabalhadores desempregados” invadiram o fórum local em protesto contra a reintegração de posse de um terreno, que tinham ocupado.
Não se pode dizer que se trata de manifestação pacífica quando três centenas de pessoas adentram, sem permissão, um local em que se julgam feitos judiciais. Assim aconteceu. O B.O. da Polícia Militar conta que “o MM. Juiz de Direito foi agredido com empurrões, mesmo protegido pelos militares de serviço”.
Na ação, um PM que ali trabalha há anos, cidadão de bom caráter e conduta, foi agredido com golpes de capacete e sofreu ferimentos no rosto. Sua boina foi furtada e o óculos de grau quebrado. Somente pela intervenção de várias guarnições policiais militares restabeleceu-se a ordem, com a retirada dos arruaceiros de dentro da sede da Justiça, cujos portões passaram pela fúria dos invasores.
Com a atitude atrabiliária dessas pessoas, impediu-se a audiência, agendada para aquela manhã, de processos cujos prazos se esgotavam. Com isso, marginais serão ou foram libertados, sem que os autores de crimes ficassem em prisão até julgamento.
O juiz de Direito Isaías Caldeira, em tons veementes, condenou a manifestação transformada em baderna, apoiado por pessoas que se aglomeraram junto ao palco dos acontecimentos. Os invasores não eram pobres diabos, humilhados e ofendidos, como declarou um dos que assistiam ao desenrolar dos fatos: ...“tudo gente de boa saúde, pessoas de forma física excelente, mas que não têm força para trabalhar e conseguir com dignidade sua própria moradia. Hoje, eles ganham o pedaço de terra; amanhã, a vendem e, depois, fazem a mesma baderna para conseguirem mais”. Um outro cidadão afirmou: “Estamos chegando ao estágio da desobediência civil. A coisa vai ficar feia por aqui”.
O magistrado, dos Caldeira Brant da história mineira, não se deixou intimidar pela turba e condenou o desvio de rumos que determinados grupos estão dando à hora que a nação atravessa. Para o magistrado, o Brasil não pode retroceder e tornar-se novamente uma república de bananas.
Modus in rebus, cuidado com as coisas, diriam os romanos diante do período que vivemos e que deveria ser de comemorações com uma copa esportiva internacional, agendada – errônea e demagogicamente. Nas maiores cidade do país e nos grotões, percebe-se a existência de um caldeirão fervente de demandas e reivindicações, mas também de interesses subalternos ou espúrios. Assim se explica o verdadeiro esquema bélico do poder público para conter possíveis eclosões de destemperos de grupos mal intencionados, para os quais quanto pior, melhor. É uma hora delicada, que o Brasil acompanha com preocupação.


78012
Por Manoel Hygino - 23/5/2014 08:34:46
Prendeu, tá preso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O leitor que acompanha este comentário terá percebido, até porque não escondo, minha preocupação com os dias que atravessamos. Não há pessimismo ou catastrofismo, mas uma candente inquietação no país, avaliável não apenas pelas manifestações das ruas, mas também pela conversa na rua, nos restaurantes, nos estádios esportivos, nas salas de aula, nas barbearias, nos deslocamentos em táxi e em coletivos. O Brasil está descontente e há, inclusive, os que admitem ou prenunciam o caos, que afinal não interessa a quem quer que seja e com o qual não concordo. Há meios e modos de evitar o pior.
O clima espiritual do Brasil não é o que desejamos, nem o que defendemos para o país em que nascemos e para a nação que integramos. Os crimes, muitos deles extremamente bárbaros, se repetem tragicamente em pequenos burgos ou grandes cidades. Receio agudo toma conta de todos os cidadãos, em todos os lugares e horas. As autoridades, mantidas com dinheiro público para proporcionar segurança e tranquilidade à comunidade, já se revelam impotentes, mais do que isso, temerosas, porque também reféns.
Há medo de sair às ruas, há medo de permanecer em casa. Vislumbram-se sintomas e sinais de descontentamento em grande parte dos setores produtivos e profissionais, até porque segue atuante e ousada a malta de bandidos soltos nas vias públicas, dos que vivem na marginalidade e dos que fazem de conta que são bons brasileiros, mas se mantêm contrários ou alheios ao império da lei e da ordem.
As próprias polícias – Federal, Rodoviária Federal e Civil – de vários Estados, entre as quais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, protestam com esta situação. Os atos do último dia 20 serviram de alerta. Eles exigem a reformulação na política de segurança pública para o Brasil. É um apelo que tem de ser ouvido por quem de dever, antes que descambemos para o precípuo inimaginável do desarranjo das instituições.
Para esta sexta-feira, estavam programadas manifestações na capital de Minas, além das já costumeiras no Rio de Janeiro e São Paulo. Quando até os agentes de segurança discordam de rumos e pedem mudanças, sente-se que há algo de grave e errado no país, que, para ser bom efetivamente, tem de ser eficiente, correto e justo.
A palavra da comandante de policiamento de Belo Horizonte foi muito clara e lúcida: “Nós queremos é uma lei que funciona, que a gente não tenha que prender bandido mais de uma vez. Prendeu, tá preso, responde preso pelo seu ato”. Evidentemente, em todas as esferas da vida do país.
Em 2014, há eleição presidencial. É uma oportunidade sobremodo preciosa para se identificar o melhor candidato no elevado cargo, não se deixando influenciar por promessas só expressas em campanha política. Antigamente, candidato era o cidadão puro, cândido, sem mácula, que merecesse a confiança da nação. Em verdade, o povo precisa ser ouvido, mas lhe compete também votar conscientemente.
Aguardemos outubro.


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Por Manoel Hygino - 17/5/2014 11:07:26
Números reveladores

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Que haja mais recurso para a saúde no Brasil. O país está enfermo, possivelmente gravemente, e não se lhe tem dado a atenção imprescindível. Curiosamente, a própria população só reclama, protesta e até agride, quando as filas se tornam enormes e o quadro do paciente evolui desfavoravelmente. Há, então, entreveros entre as famílias dos pacientes e os funcionários das unidades de atendimento, só encerrados com a entrada em cena da polícia. É muito triste!
Sem embargo, estamos assistindo a um genocídio calamitoso, com nossa própria responsabilidade e culpa, nem que seja por omissão. Perde-se a sociedade no palavrório de discussões sobre como resolver os problemas, sem resultado prático. Para o desafio das drogas não há solução ou não tempos competência para resolvê-lo?
Quando me refiro a drogas, incluo o tabaco, a maconha dos viciados, as bebidas alcoólicas, tanto quanto o extasis e o LSD. Tudo é veneno sob várias fórmulas e formas, que conduzem as pessoas para os desvãos da degradação e dos crimes previstos nos Códigos Civil e Penal, enquanto enriquecem os eternos aproveitadores das desgraças alheias.
As ruas se infestam de pobres diabos, direcionados inapelavelmente aos mais perversos destinos. Acompanhamos a desintegração social e lastimável degradação. Numa leitura de jornais do mês cinco deste ano, cientificamo-nos de que o consumo de álcool no Brasil já é superior à média mundial. Mais de três milhões de pessoas morreram em 2013, em decorrência de consumo de álcool. Dados são da OMS, a maior autoridade no assunto. O álcool excessivo eleva o risco de desenvolvimento de mais de 200 doenças.
O crack, pro exemplo, também inquieta o país. O neurocientista Carl Hart, da Universidade de Columbia, que esteve, pela primeira vez, no Brasil para conferência em São Paulo, afirma que o Brasil está prestes a vivenciar o mesmo pesadelo da epidemia de crack, que ocorreu nos Estados Unidos, nos anos 80.
Para Hart, não é apenas a droga. Em verdade, a polícia e os governos se vêem na consequente contingência de apelar para a força para tentar conter o vício. O resultado é igualmente nocivo, porque os métodos costumam ser agressivos, até letais. Além de queda, coice como se diz no interior mineiro.
Por sinal, o índice de crimes violentos continua crescendo, o que confirma o agravamento da situação. Em Minas, conforme balanço da Secretaria de Estado de Defesa Social, os homicídios e latrocínios, no primeiro trimestre, passaram de 20.665 ocorrências no ano passado para 26.323 em 2014, com 27,3% a mais. É um mau sinal. Em março, no estado, subiram para 9.091 as ocorrências, 22,9% a mais do que 2013. Em Belo Horizonte, o avanço alcançou 23,4% no mesmo período. Os crimes violentos que mais aumentaram na capital, nos primeiros meses de 2014, foram os roubos.
Evidencia-se pelos resultados que os remédios prescritos por nossas autoridades e técnicos não produzem resultados positivos. Mas não devemos permitir que o quadro se agrave indefinidamente.


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Por Manoel Hygino - 10/5/2014 10:59:14
Panem et circenses, ainda

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A poluição pode ser sinônima de corrupção. Preste-se atenção nos fatos para extrair ideias adequadas. No último março, por exemplo, a imprensa publicou que quase metade da água dos rios, córregos e lagos de Minas e outros seis estados é considerada péssima ou ruim. Estatisticamente, assim estão 40% dessas correntes e reservas hidráulicas.
O dado resultou de levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, após análise das condições em 117 pontos fluviais entre março de 2013 e fevereiro de 2014. Na amostragem, consideraram-se pontos em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Somente 19 rios e mananciais, isto é, 11%, mostravam boa qualidade, em área de preservação ambiental. Nenhum ponto foi julgado ótimo. Os parâmetros de avaliação foram a qualidade da água, o nível de oxigênio e de pH, o odor e a presença de urina e fezes.
Quem lê e ouve notícias possivelmente terá tomado conhecimento deste fato. É algo muito grave, sobretudo nesta hora em que falta água em grandes, médias e pequenas cidades do país, a começar por São Paulo.
José Ponciano Neto, que é técnico, observa: “Sem dúvida é uma situação singular, faltou planejamento em todas as esferas de governo. Pelo menos as crises hídricas que ameaçam o abastecimento de água e a distribuição de energia servirão para os governos do Estado, federal e municipal entenderem que com água não se brinca. Dependemos do ciclo hidrológico, das tempestades solares que aumentam a evaporação das águas e a desertificação do solo, e principalmente, da vontade do Grande Arquiteto do Universo, que é Deus”. Mas o homem deve fazer a própria parte.
Não é responsabilidade ou culpa só dos governos. A população contribui enormemente para a degradação das águas, como acontece com os costumes políticos e com a deterioração do espírito de família, sentida até pela sucessão de crimes ignominiosos relatados na imprensa.
Perde-se qualidade de vida, que não se resume em possuir bens duráveis (?), viajar ao exterior a prestações ou por cartão, frequentar o chique dos hotéis e dos restaurantes, ir às casas de espetáculos, que essas têm ampla e atrativa programação presentemente. Tudo tem evidentemente de ser fruído, mas com limitações, como indica o bom senso.
Já os romanos adotavam uma política semelhante, mutatis mutandis. Era o provimento de comida e diversão do povo, com o propósito de reduzir ou amainar o descontentamento contra os governantes. A Copa, este ano, programada quando a situação econômica internacional era mais favorável, explica a velha prática, transferida à atualidade e a nosso país.
Então, não se disputava o ludopédio, ainda não inventado.
O povo se satisfazia com os combates entre gladiadores, promovidos nos anfiteatros, para se recrear a população, embora com o cruel assassinato de pessoas nas arenas. Enquanto isso, o pão era distribuído gratuitamente, uma espécie de Bolsa Família. O resultado foi imenso: enorme elevação de impostos, que impactava perversamente a economia do império. Eis aí o apogeu e a decadência do grande império.


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Por Manoel Hygino - 5/5/2014 08:15:44
Os preocupantes abalos sísmicos

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Ouvia-se antigamente falar em tremores de terra em Minas Gerais. Ficaram famosos, e serviram até ao anedotário, os de Bom Sucesso, no Oeste mineiro, terra natal de Cícero Ferreira, primeiro médico de Belo Horizonte e berço da família Guimarães. Mas persistia, mesmo assim, a versão de que o Brasil se preservara de terremotos, embora abalos sísmicos ocorressem.
Recentemente, a sucessão de tremores em Montes Claros, a maior cidade norte-mineira e sua área de influência, despertou a atenção para o problema, principalmente porque a imprensa, ativa, deu ênfase aos fatos. Equipe da UnB, que visitou o município entre 9 e 13 de abril deste ano, elaborou um relatório que faz pensar. O documento admite que a falha sismogênica tem dimensão maior do que a anteriormente encontrada em 2011/2013, com “ativação de um novo segmento”.
Os técnicos dizem ainda: “Não é possível prever como a atividade sísmica vai evoluir. Não há estudos capazes de auxiliar na previsão de tremores. Esta dificuldade faz parte da natureza e não resulta de falta de equipamento ou insuficiência de maiores estudos geológicos, geofísicos ou sismológicos. Diante desta incerteza, só é possível comparar com as dezenas de outros casos já ocorridos no Brasil”.
Quer dizer: o problema vem de longe no tempo, como, aliás, conta o especialista no assunto José Alberto Vivas Veloso, no livro “O terremoto que mexeu com o Brasil”. O autor focaliza principalmente os abalos em João Câmara, cidade potiguar, e o tremor ocorrido em 30 de novembro de 1986. Mas não se resume o registro a esse tremor mais lembrado, como leio no montesclaros.com, do jornalista Paulo Narciso. O tema aprofunda-se.
Resgatam-se, assim, fatos do segundo império, quando o imperador, embora preocupado com os problemas literários, mas também científicos, determinou a primeira pesquisa sismológica nacional. Hoje, os políticos parecem não se interessar tanto pelo assunto. Mas Pedro II, em 9 de maio de 1886, estava no palácio em Petrópolis, às 15 horas, quando sentiu a terra tremer.
Vivas Veloso anotou: “Meu livro mostra que não só existem terremotos no Brasil, como eles podem trazer problemas às pessoas e às cidades. O principal tremor, em João Câmara, com magnitude 5.1, danificou mais de 4.000 construções e criou um continente de 26 mil desabrigados”.
O sismólogo se avalia: “Não dá para ser um cientista de sangue frio o tempo todo. Na experiência de acompanhar sequências sísmicas com duração de dias e semanas no Rio Grande do Norte, no Ceará, em Pernambuco e em Minas Gerais, particularmente em cidades pequenas, percebo que logo surge uma afetividade entre o sismólogo e os habitantes locais. Aí a responsabilidade aumenta, porque você não está apenas registrando abalos de terra, mas lidando com a segurança e o bem-estar das pessoas”.
Esta é exatamente a sensibilidade que deve impregnar os que zelam pela segurança das comunidades, especialmente lembrados no período eleitoral. Temos de mudar essa mentalidade e pensar na sofrida existência dos milhões de brasileiros que dependem da assistência do poder público até para sobreviver.


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Por Manoel Hygino - 3/5/2014 10:08:54
Como o Brasil é visto

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Emanuel Medeiros Vieira, nome respeitável nas letras brasileiras, perguntava em Brasília e se respondia: “Pessimismo? O Brasil já é um dos países mais violentos do mundo”. Comentou ainda: “Não será com propaganda ufanista que se convencerá o país das maravilhas de uma Copa do Mundo certamente festiva nos estádios e problemática fora deles”. “O tempo dirá quem foi “pessimista”, como gosta de dizer a presidente, num discurso que beira um tipo de fascismo tupiniquim”. Emanuel foi um dos perseguidos pela ditadura, embora não pleiteie indenizações. Lembre-se Ruy Castro, que também se tornou autor nacional por biografias importantes, inclusive de Garrincha. Ele escreveu: “Nosso passado recente inclui prisioneiros metralhados às centenas numa cadeia, homens fritando seus semelhantes em ‘micro-ondas’ nas favelas ou abatendo helicópteros com fuzis. Chacinas são vistas como faxinas. Outros degolam companheiros de cela, chutam cabeças de adversários caídos nas arquibancadas, agridem moradores de ruas e gays e vão às ruas para destruir, queimar, matar”. O quadro que se tem presentemente do Brasil no exterior não é sentido só lá fora. Quem leu, com mais cuidado, os noticiários da imprensa escrita no finalzinho de abril, encontrou certamente uma informação que preocupa. O Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou relatório sobre a segurança que nosso país oferecerá na Copa do Mundo. O enfoque parece tão grave que o prestigioso “El País”, de Madri, repercutiu: “O relatório do Ministério, em sua seção ‘serviços ao cidadão’, que é lida com atenção por todas as grandes agências de turismo do país e pelos turistas que compram pacotes de férias, oferece uma imagem desoladora do Brasil, uma nação onde as leis não são respeitadas e onde o turista corre o risco de ser vítima de ladrões, sequestradores ou simplesmente de se envolver em confrontos entre a polícia e grupos criminosos, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro”. Continua o jornal: “... o Brasil se transformou em uma perigosa armadilha para viajantes desprevenidos que desconhecem a realidade do país. O Ministério recomenda que os turistas alemães não usem roupas chamativas e joias quando saírem a passear pelas ruas, que evitem levar grandes quantidades de dinheiro e escondam artigos eletrônicos, como telefones celulares e computadores portáteis. “Em caso de ataque, não resistir, porque os ladrões geralmente atuam sob influência de drogas, estão armados e não se amedrontam com ações violentas”.
Com ou sem Copa, o Brasil se tornou um campo de morticínio. Mata-se por qualquer motivo... ou sem razão alguma, inclusive crianças indefesas, grávidas, idosos, em todas as regiões e em todas as horas. Caso recente, por exemplo, foi a de um presídio na Bahia em que detentos foram enrolados em colchões pelos companheiros de cela, ateando-lhes fogo. Nada mais dantesco. E, mutatis mutandis, não se trata de caso isolado. No Rio Grande do Sul, no Paraná ou no Maranhão, o mesmo terror.O governo federal preparou 10 mil homens para apoiar as polícias militares nas doze cidades-sede dos jogos da Fifa visando conter protestos violentos durante o campeonato. E quem protegerá o resto da população?


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Por Manoel Hygino - 2/5/2014 08:44:54
O avião desaparecido

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Quando se publicou minha crônica “O 777 que soverteu”, registrando o caso do avião da Malaysia Airlines, texto repetido pelo site montesclaros.com, Isaías Pereira dos Santos, lá de nossa Januária, escreveu a propósito da tese da abdução da grande aeronave. Aliás, a palavra “soverteu”, usada no interior mineiro, significa exatamente “sumir”, desaparecer.
Isaías observou:
“Imaginei essa possibilidade no dia seguinte ao desaparecimento da moderna aeronave. Os recursos tecnológicos atuais permitem rastrear e localizar o trajeto de alguém com um simples aparelho celular, de um velho computador e nossas conversas via e-mail, GPS de veículos em trânsito, chips em animais etc. O Googleheart mapeia nossas cidades e localiza veículos em movimento. Penso que as buscas são apenas para despistar as causas reais. Uma cortina de fumaça. Já se vão alguns séculos que o genial Shakespeare disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa filosofia”. Os alienígenas existem, estão por aí, por aqui, pertinho de mim e de você, que possui sensibilidade para me acompanhar nesse raciocínio”.
Já, em janeiro do ano passado, Fernando Guedes de Mello, conhecedor desse tipo de acontecimento e que vê além de olhos comuns, evocava que “o termo ‘teletransporte’ foi criado e popularizado pelos livros e filmes de Science fiction como, por exemplo, “Jornada nas Estrelas”. Na Bíblia, as narrativas de fenômenos correlatos referem-se a “arrebatamento”. Nos relatos de acontecimentos ufológicos, são referidos como “abdução”, quando se trata de um arrebatamento ou transporte sem o consentimento do abduzido; e, caso contrário, de resgate, quando é para o próprio bem do resgatado”.
Na verdade nos falta saber imensamente mais do que já aprendemos. O americano Hubble, em 1929- apenas 85 anos atrás- descobriu que existem bilhões de galáxias além da Via Láctea. Mais: que os mundos não são estáticos. Hubble liquidou a ideia do universo estável de Newton e demonstrou que o Cosmos está em expansão. Huascar fornece dado precioso: As galáxias se afastam uma das outras à velocidade de até trilhões de quilômetros por ano, nos limites do Universo visível. O homem é passageiro desta fantástica viagem a destino desconhecido. E no Cosmos não estamos sozinhos.
Ficamos na posição de Rachel Carson: “Cada mistério desvendado nos leva ao limiar de um mistério maior”. Não devemos estar sós no Universo, podendo existir milhões de planetas com vida no Cosmos, alguns com vida inteligente.
O próprio cristianismo pode entrar no âmago da questão. Como desapareceu o corpo de Jesus, transportado à tumba, após recolhido do local da crucifixão? É um tema sempre atual e candente, porque envolve fé e a própria ideia de milagre. Jesus teria atravessado paredes sólidas e desaparecido no ar. Milagre ou abdução? Quem poderá dizê-lo de forma definitiva e incontestável? Há várias teorias e nenhuma resposta convincente. É certo que algo de extraordinário aconteceu em consequência da morte de Jesus.


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Por Manoel Hygino - 21/4/2014 08:23:16
O 777 que soverteu

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O que se conhece é pouco, mas é tudo. Um enorme avião no Oriente distante levantou vôo de Kuala Lumpur, capital da Malásia, e simplesmente sumiu. Soverteu, como diziam os meus amigos da roça.
Por mais diligências que se tomassem, usando as técnicas mais avançadas para localização da aeronave, em terra e mar, nenhuma pista concreta.
O engenheiro Fernando Guedes, estudioso de problemas assim intricados, e o médico Marco Aurélio Baggio, psiquiatra, costumam ver mais longe do que os demais seres pensantes. O segundo advinha: “O Boeing, de 63 metros de envergadura e de comprimento, 297 toneladas, é um objeto grande, mas não tão enorme que não pudesse, como foi de fato, tragado por um objeto extraterrestre e capturado”.
Foi, além do mais, um prejuízo imenso. Duzentos e cinquenta milhões de dólares, embora o mais grave deva ser o medo que as pessoas possam ter, a partir de agora, de voar naquela região tão cheia de mistério.
Marco Aurélio tem, também, outra ideia mágica: juntar centenas de maus brasileiros, despiciendos e descartáveis, abrigá-los numa dessas naus voadoras e encaminhá-los à abdução.
A abdução é uma pista, que inúmeras pessoas podem não querer aceitar, mas que não se desprezará. Todas as formas de busca estão sendo utilizadas, sem nenhum rumo alentador.
Nada no céu, nada no mar, nada em terra. Mas o 777 da Malaysia Airlines existiu, fazia um vôo para a China, a partir de Kuala Lumpur, e desapareceu misteriosamente.
Baggio vai além: “Como cosmólogo amador, sei que os alienígenas são extraterrestres, pairando em ainda incognoscível dimensão cósmica. Suspeito, contudo, que não são extragalácticas, por serem as distâncias muito longas”.
O médico não tem esperança: Ave elegante, ultratecnologia aviônica da Boeing, o 777 merece tratamento especial neste momento, todo rigor nas investigações, mas não se tem encontrado senão um ou outro lixo oceânico. A explicação é clara: “Nossos parceiros alienígenas, sabe-se lá porque, aparecem súbito, fazem das suas e somem. Levam consigo aquilo que lhes interessa e, uma prestidigitação espacial, torna transparentes as coisas abduzidas. Isso é lá uma propriedade especial, típica deles. São mágicos em graus superlativos”. O avião sumiu, não deve reaparecer jamais.
As autoridades militares e pesquisadores dos céus nos Estados Unidos não acreditam, ou fazem de conta que não acreditam, na existência e em aventuras fantásticas dos alienígenas. Há arquivos inteiros sobre o assunto, mas Tio Sam não se abre, até porque pode não ser conveniente.
Desta vez, foram 239 os desaparecidos, os abduzidos no Oriente, em 12 de março. A mídia internacional, no dia seguinte, emitiu a hipótese de o vôo MH-370 ter sido alvo de sequestro por forças cósmicas desconhecidas. É a hipótese que prevalece.


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Por Manoel Hygino - 15/4/2014 10:04:12
A língua espanhola entre nós

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Como numerosas pessoas neste país, comecei cedo na língua espanhola, antes da II Guerra, quando o Inglês se assenhoreou do mundo. Foi um dos efeitos do grande conflito, em que os americanos do Norte se juntaram aos ingleses (e outras nações) para combater Hitler e Mussolini, depois Hiroito.
Cercados por usuários do Espanhol praticamente por todos os lados, o Brasil permaneceu com a língua de Camões, mas assediado de perto por Cervantes. Incursionava-se no espanhol, que tem evidentemente semelhanças com o Português, mais fácil de assimilação do que a língua de Shakespeare.
Editoras argentinas, em determinado período, ofereciam livros a preços mais compatíveis com o bolso brasileiro. Ler ou tentar ler na segunda língua ibérica falada se tornou um hábito. Nesse ínterim, quis o governo facilitar o acesso mediante a introdução do Espanhol no currículo do curso médio.
Foi útil a iniciativa, como se constata pela leitura de “La poesia está en el viento”, publicação bilíngue da Embaixada da Espanha no Brasil, no Projecto Cometa Literária, editada pela Thesaurus, de Brasília. Nasceu uma bela coletânea de poemas em língua espanhola e com rica ornamentação de pintores, de cá e de lá.
As traduções são de Kori Yaane Bolivia Carrasco Dorado e há, ainda, um poema inédito de Luis Garcia Montero.
Comparecem com excelentes textos Begoña Sáez Martinez, Mário F. de Carvalho, Ana Paula Barbosa de Miranda e Antonia Regina Neri de Souza, Alicia Silvestre Miralles, Antônio Miranda, Nicolas Behr, Anderson Braga Horta, João Carlos Taveira, Angélica Torres Lima, José Jeronymo Rivera e Oleg Almeida, autores respeitáveis e a que tanto devem as letras da capital federal.
Eu teria de preencher mais laudas para dizer quais outras pessoas e organizações contribuíram para confeccionar esta joia. Entre aquelas Álvaro Trejo Gabriel Y Gaalán e Álvaro Martínez- Cachero Leseca, conselheiros respectivamente de Cultura e Educação da Embaixada da Espanha.
Ánderson Braga Horta confessa que seu contato primeiro com o idioma irmão vem dos dez anos, aproximadamente, quando também me aventurei no Espanhol, ao descobrir um bem ilustrado volume de “Dom Quixote”, numa estante de livros em minha terra natal. O que, aliás, também dá ideia de como Cervantes chegava ao interior do país.
Depois, fui agregando conhecimento por leituras diversas, em livros de baixo custo, que me acompanharam pelo curso ginasial e colegial, em educandário agostiniano, de padres espanhóis.
Daí para frente, jamais parei, até porque tive de revalidar estudos em Montevidéu, em provas orais e escritas em Espanhol. Aproximei-me de grandes autores, graças ao convívio com o poeta Enrique Romero Arenillas, com quem discutia sobre Pablo Neruda, Lorca e Gabriela Mistral. São tantos! Se, lamentavelmente, nenhum dos mencionados está mais entre nós, a obra permanece.


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Por Manoel Hygino - 14/4/2014 09:23:53
A insegurança generalizada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não há interesse em combater a corrupção, como se demonstra, à suficiência, com o caso Petrobras. Partidos, grupos e políticos obstam a que se averiguem os fatos denunciados, sob argumento de que integrantes de outras agremiações também cometeram delitos semelhantes, em outras ocasiões. Na troca de acusações e levantamento de suspeitas, num país em que crimes contra o patrimônio e o erário são recebidos como naturais, tudo parece cingir-se ao âmbito da troca de farpas e imputações.
Pode-se afirmar que, em um cenário ampliado, nada se faz, nem se pretende fazer, para aclarar falcatruas e apontar seus autores, sendo o Mensalão um episódio singular no reino da impunidade. Nem pode sair nas ruas de Brasília o presidente do Supremo e relator da matéria, apupado, xingado pelos comparsas dos malfeitores, por motivos perfeitamente compreensíveis.
Nãos nos acostumamos a prender e punir os responsáveis por crimes praticados por organizações criminosas ou pessoas envolvidas nos delitos.
Milhões de reais rolaram por aí e beneficiaram os agentes políticos, que dispõem de bens não adquiríveis no mero exercício da profissão. Têm luxuosos carros blindados importados, iates, palacetes e tudo mais quanto o permita, no Brasil ou no exterior, o dinheiro ilícito.
Corrupção é problema comum a todos os países. Mas nas grandes potências, nos ricos, ela atinge os contingentes mais favorecidos. Aqui, a despeito das fantasias de riqueza, incrementada pela publicidade governamental, procurando dar impressão de que muito temos, a situação é diversa. Mais sofrem os que já têm pouco ou nada e são coagidos a “contribuir”, como se fora facultativo.
Pratica-se crime contra direitos humanos, quando se avança sobre o Tesouro, porque para lá caminham todos os impostos. Ou deveriam caminhar, porque há desvios. A carga tributária entre nós é uma extorsão, porque extraída, em grande parte, de segmentos sofridos, que constituem a grande maioria da população.
O escândalo Petrobras poderia ser um marco na história do Brasil. Temos de convir com o juiz Isaías Caldeira quando diz que as leis penais já não feitas sob o influxo inteligente dos juristas, mas impostas pela força e barulho de militantes políticos, com óbvias exceções.
O caso Petrobras é uma violência contra o povo deste país, além daqueles outros crimes de que somos incessantemente vítimas em nosso cotidiano, nas vias públicas, nos lares, à porta das faculdades. O clima é de insegurança generalizada, pelo que se vê.


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Por Manoel Hygino - 11/4/2014 08:22:42

Enquanto a Terra treme

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A Terra tremendo, cada vez mais frequentemente. Não apenas no norte do Chile ou na China, por exemplo. Não é preciso ir tão longe. Na região norte - mineira, o fenômeno é registrado presentemente como jamais ocorrera antes.
A população de lá não quer ser notícia de telejornais, nem mostrar às câmaras as rachaduras nas paredes das casas, o desabamento parcial dos tetos. Não é motivo de orgulho, mas de medo, não mais circunscrito aos tiroteios das gangues no seu feroz ofício de destruir caixas eletrônicos pelo interior brasileiro.
As autoridades na capital da República não escondem os fatos, mas são evasivas. Informam apenas que foi a falha geológica. Mas e daí? Um estudioso do assunto, um técnico, levanta uma série de perguntas: Se foi a falha geológica, o que provoca que movimentação? Por que os blocos carsticos se movem? Para cima ou para baixo? São impulsionados pelo excesso de gás natural ou à extração do calcário pelas mineradoras próximas? As explorações desenfreadas de águas subterrâneas pode ser uma das causas?
José Ponciano Neto tem formulado estas indagações, e não me lembro de uma resposta clara, decisiva. Ele acredita que os sismos dos últimos anos são induzidos pelo homem. Em verdade, se causa ou causas há, cabe à autoridade pesquisar e esclarecer, determinando providências que evitem mais graves consequências e examinando a tese de outros especialistas, se for o caso.
Mesmo que fosse apenas um lugarejo, o problema deveria merecer atenção do poder público. Já é extensa a região atingida por esses abalos, e sua repetição alarmante. Não se esquecerá de que já houve morte.
Por que a falha de três quilômetros não se mantém no lugar como até algum tempo era? O que aconteceu?
Enquanto praticamente nada surge de objetivo e suficientemente elucidativo, a maior cidade norte - mineira e populações disseminadas pelas áreas rurais se mantêm em ininterrupta inquietação, tangidas pela insegurança. Essa gente tem o direito de conhecer os fatos, suas origens e seus efeitos!
Embora não se creia que nossos tremores sejam de magnitude comparável aos de outros países, pelo menos se deveria ser melhor aquinhoado com notícias. Um especialista alerta: é importante construir edificações mais resistentes para enfrentar o impacto dos abalos. Falta esclarecer quem vai assegurar os recursos.
As consequências foram maiores. No Hospital Universitário, faltou energia e os geradores não funcionaram. Seus servidores se assustaram porque havia pacientes entubados. O estrondo anunciador de uma provável catástrofe, foi pela manhã. A população saiu às ruas. A telefonia foi prejudicada. Depois, novos ruídos fortes no ventre da crosta terrestre. Os adolescentes estavam praticamente prisioneiros na Escola Normal, um prédio com escadas. Há uma certeza- novos tremores virão.


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Por Manoel Hygino - 27/3/2014 08:35:15
Nosso admirável mundo novo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Em 30 de março, quando a noite descer sob o sertão mineiro, o Clube/Leitura/Ateliê/Galeria Felicidade Patrocínio receberá, em Montes Claros, Ivana Rabelo, doutora em Literatura pela USP, para falar sobre “Admirável Mundo Novo”, o livro perene de Aldous Huxley.
Este é um dos livros mais lidos em nosso tempo, mesmo 83 anos após seu lançamento. Poder-se-ia conceituá-lo como um volume de ficção científica, mas é muito mais. A obra acena para projeção de um mundo futuro, faz-nos pensar na sociedade contemporânea de consumo, nos hábitos, nocivos ou não, que desenvolvemos no excesso de tecnicismo e na desumanização da sociedade, como a própria Ivana enfatiza.
É tema, pois, de relevância sobre as questões propostas, que levam à indagação de como uma pessoa deficiente, para Aldous, quase cega desde os 20 anos, e que só conseguiu ler com auxílio de uma grossa lupa e aprendeu Braille, seja considerado um “homem de visão”.
O autor nasceu numa família inglesa de personalidades. Seu avô Thomas, foi conhecido naturalista, e seu irmão, Julian, falecido em 1975, biólogo e filósofo, partidário das teorias da evolução. Aldous se fez um homem afeiçoado à cultura, sobretudo científica, tipo de intelectual onisciente, sedutor e com opinião sobre quase tudo.
Uma resenha que me encaminhou Fernando Guedes de Mello alerta para a posição de Huxley. Nela se condensa o pensamento do escritor: o avanço científico pode ser, em sociedades desiguais e mercantilizadas, o caminho para a barbárie.
Há uma indesviável pergunta: Seria pertinente reler, hoje, “Admirável Mundo Novo”? Seria pertinente retomar um livro escrito há tantas décadas, numa época tão distante que nem sequer a televisão fora inventada? Seria essa obra algo além de uma curiosidade sociológica, um best seller comum e efêmero que, no ano de sua publicação, 1932, vendeu mais de um milhão de exemplares?
No entanto, o livro dos anos 30 é surpreendentemente atual, tanto que as pessoas inteligentes vão e voltam a suas páginas nesta segunda década do século XXI, exatamente porque o assunto é muito nosso. É nossa conturbada época, instrumento hábil a reflexões sobre o homem, o mundo, a sociedade, o tempo de agora e o que virá.


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Por Manoel Hygino - 24/3/2014 08:44:02
As águas de março ainda frustram

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O brasileiro olha para o céu, principalmente se morador do Sudeste hoje, e não vê sinais de chuva. A natureza anda econômica em termos de despejar água sobre extensas regiões. O sol é causticante, os termômetros ultrapassam muito frequentemente os 30 graus, o suor castiga, o corpo padece sob a inclemência dos raios solares.
Por enquanto, não há racionamento de energia elétrica, embora as informações a respeito se intensifiquem, em ameaça constante ao homem, da cidade, ou do campo, que sobremaneira já sofre tantos outros problemas. Há exatamente um ano, os jornais chamavam atenção: a falta de chuva na nascente faz sumir trechos do Rio São Francisco, lá longe, perto da foz, na divisa de Sergipe e Alagoas. No Nordeste, as chuvas já deviam estar caindo, mas em 2013, nada. A profundidade do rio diminuiu. Pesquisadores observam que a situação se vem agravando e há trechos em que a água desaparece e já é possível caminhar em pleno leito seco do velho Chico.
Dez meses depois, jornal belo-horizontino destacava em 6 de fevereiro de 2014 (data do famoso tiroteio em Montes Claros, em 1930, que deixou ferido o vice-presidente da República Melo Viana), que o volume de Três Marias era historicamente o menor numa primeira semana de fevereiro: 26,6%, quando a média, na época, é de 96,2%. O nível da água encontrava-se 13,8 metros abaixo do esperado, representando consequentemente 37% a menos na produção de energia. Nas demais hidrelétricas de Minas, do Sudeste e Centro-Oeste, a situação era quase a mesma.
Simultaneamente, o consumo de energia, como compreensível, seguia em elevação. Em 2001, em situação semelhante, houve racionamento. Em consequência, ter-se-ia, como se faz, de apelar inapelavelmente para as termoelétricas para suprir o mercado, o que causa aumento das tarifas, o que não é bom, principalmente em ano de eleição.
E o que será da produção da agricultura, valioso suporte de nossa balança comercial? O panorama preocupa. O consumo de eletricidade deve crescer 4,3% ao ano, entre 2013 e 2023, segundo a Empresa de Pesquisa Energética.
Em março, de São José, não choveu no Sudeste o aguardado. A reduzida água que desceu dos céus não melhorou a situação dos reservatórios. Nas regiões mais sofridas, como Norte de Minas e Jequitinhonha, há ansiedade e desalento. No rio Congonhas, a novela de construção de uma barragem, não chegava ao capítulo final. O empreendimento ampliará o volume de água em Irapé, grande geradora de energia, mas também fornecerá água ao mineroduto que transportará o produto até o porto de Ilhéus. Confiava-se em que a presidente liberasse o edital de concorrência, o que não ocorreu até agora. Para a dança dos obstáculos e atrasos, também contribuiu o levantamento ambiental na área da barragem que, a sua vez, necessita de ação da SEMAD e da COPAM-NM.
Algumas cidades do Sudeste já adotaram racionamento. No Norte de Minas, vamos inovar. O governo, preocupado com os sofrimentos do cidadão e sua família, estimula a perfuração de cisternas, com alguns acréscimos úteis, para armazenamento da água em condições adequadas. Estamos evoluindo, mas falta muitíssimo para alcançar os objetivos maiores. O Brasil, que deveria ser o maior produtor de soja do mundo, frustrou-se pela falta de água. Foi ultrapassado pelos Estados Unidos. Inapelavelmente a conta de luz vai subir, alguns produtos da mesa já aumentaram até 500% e a inflação segue a rotina desastrosa.


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Por Manoel Hygino - 17/3/2014 09:13:47
Sob o signo do banditismo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Há uma obsessão generalizada com relação ao banditismo no país presentemente? Será que a imprensa exagera na ênfase dada ao problema, embora incontestável? A verdade nua, crua e fua – como dizia o professor Assis Sobrinho – é que brasileiros se encontram duramente sitiados, ainda que o Brasil tenha oito milhões e quinhentos mil quilômetros de extensão.
É muito difícil tomar conta desse tamanhão de território. Mas se as organizações e grupos de bandidos o podem, por que não as forças de segurança, nelas se incluindo todos os dispositivos, somando muitos milhares de homens e equipamentos modernos recém-adquiridos?
O caso de Itamonte é significativo, mesmo cinematográfico, lá no Sul do Estado, mas os criminosos levaram a pior, graças à conjunção de força