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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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           Manoel Hygino    manoelhygino@santacasabh.org.br

83477
Por Manoel Hygino - 16/8/2018 07:22:29
Vaticinando o futuro

Manoel Hygino

Enfim, uma ingente e urgente missão a cumprir, pois a fiscalização da sociedade é hoje muito mais forte do que antes. Os meios de comunicação social ajudam os cidadãos a formar opinião e a opor-se ao que lhes parece prejudicial ao país.
É hora de se despertar para a realidade e o interesse maior, que é o da nação.
Nova estação do ano começa no mês que vem. O inverno tem o adjetivo vário usual na Folhinha Mariana. Já se teme o que virá neste segundo semestre, pois o primeiro não foi benévolo para extensas regiões do país.
Há culpados: não aprendemos a reger nossos próprios destinos e o resultado se repete periodicamente, com temporadas de escassas chuvas e suas consequências funestas, assim como de tempestade com inesperados e destruidores efeitos. Pecam os gestores da administração pública, mas também setores do empresariado, enfim todos os segmentos da sociedade de um modo geral.
O homem do sertão, antes de tudo um forte, na acepção de Euclides da Cunha, sofre ainda hoje os males dos quais já poderia ter-se libertado, fosse outra a condução do problema das secas. Este não deveria ser encarado apenas por escritores e técnicos de governo. Trata-se de desafio que vem de longe e se alongará, no curso da história futura, se não se levar em conta, com consciência e objetividade, o desenrolar dos fatos.
No caso mineiro, tem especial preponderância o rio São Francisco, cantado em prosa e verso, mas praticamente só lembrado em conferências e épocas eleitorais, como a atual. A propósito, em junho, em Januária, cumpriu-se a campanha “Eu viro carranca para defender o Velho Chico”, afirmativa muito apropriada ao tema.
José Ponciano Neto, que labora na área do meio ambiente há 42 anos, membro da Câmara Consultiva Regional do Alto São Francisco, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, esclarece que o objetivo foi conscientizar a população sobre a preservação, chamar a atenção para os graves problemas enfrentados pelo rio e sua bacia, e para a sua muito propalada, necessária e urgente revitalização.
O próprio técnico é peremptório: “transformar os órgãos fiscalizadores em fábricas de multas não é revitalizar uma bacia hidrográfica, não é defender o meio ambiente”.
Reestruturar estes como? Aperfeiçoar a metodologia operacional com novas técnicas, aumentar o número de fiscais, armas, veículos e a organizar-se física e administrativamente, criar projetos e programas de educação ambiental com instrutores dos órgãos oficiais. Por fim: melhorar toda a logística.
A reestruturação dos órgãos é essencial para os governos federal e estadual se tornarem proativos e não ficarem apagando fogo com multas. Depois de esses órgãos fiscalizadores estruturados, ver-se-á que somente as rubricas serão suficientes para manter os rios revitalizados.
Enfim, uma ingente e urgente missão a cumprir, pois a fiscalização da sociedade é hoje muito mais forte do que antes. Os meios de comunicação social ajudam os cidadãos a formar opinião e a opor-se ao que lhes parece prejudicial ao país. É hora de se despertar para a realidade e o interesse maior, que é o da nação. Sem falar nas populações ribeirinhas, crescentemente ameaçadas.


83476
Por Manoel Hygino - 15/8/2018 13:08:52
Sobre a hora política

Manoel Hygino

Chega-se quase à primavera com os mesmos sentimentos e pensamentos. Não melhoramos, vivemos em uma espécie de desalento, que constitui forma de manifestação da falta de esperança, esquecida no meio dos caminhos brasileiros. Confesso que é muito triste.
Em artigo para o jornal da ANE, Clóvis Rossi perguntava, em julho: “agora que ninguém está olhando, confesse: você também não está se sentindo perdido, esperando alguém?”. Há mais: “o brasileiro perdeu a guerra para si mesmo (...). Ele foi incapaz de organizar e fazer funcionar bem o seu aparelho de Estado e a sua economia”, escreveu Flávio R. Kothe, professor da Universidade de Brasília e presidente da Academia de Letras do Brasil.
Passa ao lado de Antônio Calado, que observou: “quando chega a hora dessas coisas mudarem, as coisas não mudam. Não conseguimos formular metas e estratégias”.
Vera Lúcia de Oliveira, psicóloga e escritora, residente em Brasília, observa a situação, ao comentar o romance “Entre Facas”, de João Almino, cujo mundo “vai da lamparina à internet, das ruas sem saneamento básico ao Facebook; do Brasil das carroças nas ruas aos aviões cortando o país de Norte a Sul; do país que entrou para a modernidade sem vencer o atraso, da modernidade vertical, imposta de cima para baixo, em que o avanço dos meios de comunicação não eliminou o analfabetismo, a miséria espalhada como erva daninha por todas as cidades, grandes e pequenas. Um Brasil desordenado, violento, produto da desigualdade que só faz aumentar. Um desastre, como diz o narrador. Um país mudo, que só fala por mensagem de WhatsApp”.
Os mais de duzentos milhões de habitantes deste país não se sentem tão satisfeitos como antigamente, com o que ocorre conosco agora e aqui. Basta conferir os meios de comunicação social as expressões de indignação e protestos em todos os quadrantes do país.
A questão de direitos ficou para trás. Tanto é verdade que pesquisa de agosto fluente mostrou que seis em cada dez brasileiros acham que “os direitos humanos apenas beneficiam pessoas que não os merecem, como criminosos e terroristas”. É o que consta de resultado do Instituto Ipsos, noticiado pela BBC de Londres, o mais alto percentual em 28 países auscultados.
Conceituado professor de direito anotou: “o Judiciário não julga. Por mais esforçados que sejam os juízes, encontram pela frente um procedimento arcaico, cheio de instâncias e recursos inúteis, enchendo estantes e computadores de matérias inúteis e consumindo milhares de reais. E a solução? Não há nem é previsível. Todos os planos sociais acabam no nada ou em desordem”.
Para não perder a oportunidade, lembro um sacerdote católico com 20 anos de ministério, graduado em filosofia e teologia. O padre Djacy Brasileiro observa que, nestas eleições, a gente viu poucos cristãos tentando fazer trabalho de conscientização, tentando libertar o povão da alienação política.
“Uma fé alienante, reacionária, só contribui com as estruturas sócio-político-econômicas, iníquas, desumanas, antiéticas, geradoras de tantas injustiças, exclusões e morte. Para os que fazem da religião cristã instrumento de alienação, valem estas palavras proféticas de Jesus, o libertador. “Nem tudo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus” (Mateus 7:21-23).


83471
Por Manoel Hygino - 13/8/2018 11:29:45
Ler e aprender

Manoel Hygino

Embora o assunto predominante hoje no Brasil seja a eleição de outubro, com todos os reparos que os cidadãos fazem aos candidatos à presidência da República, há outros temas, alguns de importância, a serem focalizados.
É o caso, assim, da inauguração de uma biblioteca num país que pouco lê. Trata-se da Biblioteca Maria das Mercês Paixão Guedes, implantada na maior cidade de norte de Minas pela Academia Feminina de Letras de Montes Claros, presidida por Felicidade Patrocínio, recentemente empossada.
Consoante a Castro Alves, que orientava dar-se livros à mancheias, obrigando o povo a pensar, está-se ampliando a atividade do sodalício em área fundamental à formação do cidadão. Uma das quatro cidades mais populosas do Estado, grande centro econômico, Montes Claros cultiva as Letras, a atividade cultural, literária e artística, que constitui verdadeiro patrimônio. Lembraria, à guisa de registro, que MOC foi, em determinada época, o único município do país com dois representantes na Academia Brasileira de Letras: Cyro do Anjos e Darcy Ribeiro.
Anteriormente, a presidente já adotara medidas no âmbito do mesmo programa, em seu Ateliê. Criara o projeto Escambo de Livros, com reuniões anuais para oferecer à comunidade publicações e palestras no gênero. Depois, instalou-se o projeto Livro Livre, com a disponibilização de livros para a população, todos os dias, numa estante em passeio junto ao estabelecimento. Estava inscrito: “Livro Livre. Leve livros para ler. Deixe livros para outros lerem”.
Foram dois anos do experimento. Todos os dias, param ali carrões, carrinhos, carroças, motos, dos quais desce gente de vária formação, estudantes especialmente, em busca do volume que lhe interesse. Graças a isso muito especialmente, descobriu-se que era muito mais expressiva do que suposto a produção no município e região.
O que se inseriu na Biblioteca já soma mais de mil volumes, à disposição de cerca de quatrocentos mil habitantes da cidade. Deste modo, procura-se contribuir para estreitar os laços entre a heterogênea comunidade montes-clarense, a que se incorporaram brasileiros de várias regiões, com ênfase do Nordeste do país. Graças a isso, confia-se na aproximação de irmãos de múltiplas origens e na difusão de nossa cultura e literatura, pilares importantes da história de Minas Gerais.
A inauguração oficial, neste dia 14, constitui um fato digno de nota, por demonstrar que os bens do espírito, da história e da cultura não se restringem às capitais, como sói acontecer muito comumente. Vale, ademais, para confirmar que os brasileiros de talento e vocação podem ser bons escritores, bastando ter oportunidade. Bibliotecas podem e devem servir à inteligência e à criatividade.
Em hora de notória inquietação com o futuro nacional, em plena agitada movimentação eleitoral, é bom preparar as futuras gerações para escolher seus representantes em altos escalões da República. Pode parecer simples jogo de palavras, mas não é: leitor e eleitor rimam bem. É na lucidez do cidadão que nos arrimaremos para um futuro mais feliz. Iniciativas com esse propósito são bem-vindas e devem ser incentivadas.


83469
Por Manoel Hygino - 10/8/2018 06:38:31
Na hora do aperto

Manoel Hygino

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) aprovaram proposta que inclui no orçamento da União para o próximo exercício reajuste de 16,38% nos próprios salários, causando descontentamento na sociedade brasileira, considerando a situação crítica pela qual passa. A hora é de crise e a medida se revelou inoportuna, embora justa, se levada em consideração a argumentação do ministro Ricardo Lewandosvski, autor do projeto que prevê o aumento encaminhado ao Legislativo em 2015, quando presidia o STF.
Ele próprio sustenta ser “necessário observar que os aposentados e pensionistas (da Justiça) estão em situação de penúria. Eles perdem até 40% das remunerações quando saem da ativa. Não dá nem para pagar plano se saúde”. Significa que esses funcionários se situariam praticamente no nível de demais brasileiros, de todas as carreiras, no serviço público ou fora dele.
Diversamente, depôs o professor José Matias Pereira, especialista em administração pública e doutor em ciências políticas, pela Universidade de Brasília. Para ele, as contas públicas estão desarrumadas. A decisão do STF, que altera o valor do teto salarial, terá efeito cascata em outras categorias. “A folha salarial dos servidores públicos é o segundo maior gasto federal, atrás apenas da dívida pública. Não é hora de conceder aumentos”.
este país continental e amplo em problemas, tem-se de manter a máquina administrativa, complexa e caríssima. A Câmara dos Deputados, por exemplo, está estudando o corte dos benefícios tidos como penduricalhos “na remuneração dos serviços públicos federais”.
Cada segmento tem de formular suas propostas para reduzir gastos e despesas, antes que o caos se instale. Embora o ministro Marco Aurélio Melo pondere que os subsídios da Justiça são achatados paulatinamente, há milhões de empregados – e desempregados – em pior situação. Daí, a inconformidade com que foi recebida a decisão da mais alta corte de Justiça do país, na última quarta-feira.
Os quatro ministros que votaram contra evidentemente têm razões sobejas para assim se posicionarem. São eles: Cármen Lúcia, presidente da Casa, Celso Mello, o decano, Rosa Weber, relatora do processo de descriminalização do aborto, e Edson Fachin, relator dos processos da ‘Lava Jato’. O Brasil já os conhece de perto por suas manifestações e posições.
Um dos que estiveram a favor foi o ministro Dias Toffoli, que presidirá o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça a partir de 13 de setembro. Luiz Fux será vice-presidente da corte. O que se quer é que se cumpra o que Cármen Lúcia vaticina: julgar e julgar bem. É só o que a nação deseja.
Não se quer, certamente, que os ministros sejam prejudicados, até porque, no alto cargo que ocupam, merecem confiança – ou devem merecer –, respeito e reverência de toda a nação. O que se pretende, sobretudo neste instante de extremos obstáculos, é oferecer oportunidade de conciliar lisura absoluta e dignidade.
Aliás, ao Supremo, por Supremo ser, compete resgatar a confiança do povo, porque há ministros que se tornaram objeto de críticas e suspeição, algum inserido até no triste anedotário popular.
A Corte não merece.




83467
Por Manoel Hygino - 9/8/2018 07:22:54
Boa evocação para esta hora

Manoel Hygino

Antigamente, se produzia no Noroeste de Minas uma aguardente denominada Paracatulina, que identificava o local em que era destilada. Concorria, em igualdade de condições, com as congêneres de Januária, então as mais conceituadas da terra alterosa.
Paracatu é cidade de muitos outros bons produtos, inclusive gente proba, digna e competente. Entre os mais recentes, no campo do direito se destacou Joaquim Barbosa, ministro do Supremo e seu presidente, sem cuja atuação não teria acontecido o famoso processo do Mensalão. Mas outros ilustres mineiros, lá nasceram.
É exemplo um médico que cursou medicina em Paris. Lá, ele se casou com uma francesa. Como consequência, o seu filho, Paulino José Soares de Souza, foi estudar na França. Tempo decorrido escreveu “Ensaio sobre o direito administrativo”, que experimentou uma “revolução de ideias”, uma espécie de Paulo Neves de Carvalho, o também mineiro, do século XX, que planejou e geriu a grande reforma administrativa do Estado no tempo em que Magalhães Pinto exerceu a chefia do Executivo.
No princípio da atividade política no Brasil, Paulino José Soares de Souza, depois Visconde do Uruguai, ocupou relevantes cargos, tendo o historiador José Murilo de Carvalho observado, aliás, que ele era “introvertido, avesso a conflitos, um estudioso por natureza”. Dele disse Cotegipe que “era capaz de valsar sobre uma mesa repleta de cristais, sem tocar numa peça”.
É bom lembrar, nesta hora de definições políticas, o que então disse o ilustre brasileiro de Paracatu. “O que tive ocasião de observar e estudar (na viagem à Europa) produziu uma grande revolução nas minhas ideias e modo de encarar as coisas”. A afirmação está no preâmbulo do ‘Ensaio’. Quando em Paris, Uruguai fez questão que o filho também passasse uma temporada na Europa, pois as viagens ‘dão uma grande sacudidela ao espírito, alargam a sua esfera, e habilitam para depois melhor ver estudar as coisas’.
O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, vice-presidente do TRE-MG, revela que “Uruguai afirma (...) que o que mais o impressionou na França e na Inglaterra não foram os monumentos, a riqueza, o poder material. Foi o bom funcionamento da administração. Nesses dois países, tudo se movia com ordem e regularidade, a população tinha confiança na justiça civil, criminal e administrativa. Na França, especula, o bom funcionamento da administração talvez fosse responsável pelo fato de a população suportar as restrições à liberdade política. O parágrafo imediatamente anterior à referência à revolução diz: “convenci-me ainda de que, se a liberdade política é essencial para a felicidade de uma nação, boas instituições administrativas apropriadas às suas circunstâncias e convenientemente desenvolvidas não o são menos. Aquela sem estas não pode produzir bons resultados”.
Mestre José Murilo de Carvalho, referido pelo desembargador Rogério Medeiros, assinalou bem a propósito: “muitos dos males apontados por Uruguai relativos à política nacional, como a distância entre governo e povo, a burocracia absolutista e infeliz, a mania de esperar tudo do Estado, o sufocamento dos municípios, a inadequada distribuição de responsabilidade entre municípios, províncias e governo central, o empreguismo, o empenho, o clientelismo, o patronato, o predomínio dos interesses pessoais e de facções, a falta de espírito público, a falta de garantia dos direitos individuais, continuam na ordem do dia, posto que atenuados”.


83464
Por Manoel Hygino - 8/8/2018 07:01:12
A imagem de Guevara

Manoel Hygino

Informou-me o jornal, no dia 27 último, da estreia, à noite pelo Canal Curta, no Brasil, do documentário “Che Guevara, Além do Mito”. Segundo o texto, o filme desvenda como Che, além de sua militância, preocupou-se em construir uma autoimagem de impacto para se sacralizar na história. A barba, a boina, o charuto e, claro, o olhar triunfante.
O historiador britânico Richard Gott, que se encontrou mais de uma vez com o guerrilheiro, adverte, em livros, que Che já exercia sua atuação carismática na vida real muito antes de tornar-se um ícone na morte e de uma imagem hipnótica de arte pop, num pôster da era de Andy Warhel.
Comentou: “como Helena de Troia, exercia um fascínio pelo qual as pessoas morreriam. Em Havana, naquela tarde quente de outono, encontraram-se num banco, num canto do jardim da embaixada, e todos se uniram à sua volta. Apresentações foram feitas e a conversa fluía”.
O jovem repórter de então não se lembra do que se discutiu. Era apenas um jornalista neófito, de pouco conhecimento, ainda menos de espanhol, atraído como mariposa para Cuba daqueles anos – como centenas de outros rebeldes aventureiros da Europa e das América – pela chama incandescente da Revolução.
Atravessava-se um momento difícil para os que, comandados por Fidel, havia chegado do México. Ainda o livre-pensar revolucionário era permitido em Cuba. “A arte abstrata floresce de maneira que faria Kruschev tremer e o filme ‘La Dolce Vita’ é exibido pelas salas cheias de Havana. O futuro da Revolução parecia largamente indefinido, páginas brancas a serem escritas”.
Trinta anos depois, o repórter, já experimentado, assistiu ao desembarque do corpo de Guevara, em 1967, quando já tivera fim à associação romântica de pessoas com o movimento de Fidel. Gott escreveu: “como muitos outros, guardei a memória do meu entusiasmo inicial pela Revolução, bem como uma afeição duradoura pelo povo cubano e sua luta desigual e um interesse contínuo pela longa história da ilha”.
Ché conquistou admiradores e enfrentou adversários em mais de um continente, e Mário Vargas Lhosa adverte para a criança asmática que nasceu de família modesta e teve de deslocar-se para aqui e ali para vencer as mazelas da enfermidade. Lhosa demonstrou até certo entusiasmo por sua personalidade em determinadas circunstâncias, sem perdoar determinados erros.
Para conhecerem o “milagre cubano”, Sartre e Simone de Beauvoir foram à ilha e passaram alguns dias. O famoso fotógrafo Alberto Korda tirou, então, muitas poses de Fidel e de intelectuais, mas o que se perenizou foi a de Che, tirada de baixo para cima, ele olhando ao longe com uma incrível aparência de dor e determinação. Formou-se o mais famoso retrato de Guevara, reproduzido por todo o século 20.




83463
Por Manoel Hygino - 7/8/2018 07:27:49
Os problemas do Rio

Manoel Hygino

Causa dó aos brasileiros conhecer a situação a que chegou o Rio de Janeiro, cujo ex-governador, preso, já cumula mais de 100 anos de pena a ser cumprida. Como pode? Os fatos mais próximos em termos de tempo, ajudam a esclarecer a situação, mas não contribuem para solução. A Cidade Maravilhosa, de mesmo nome, foi capital brasileira até a transferência da sede do governo para Brasília, à época de JK, presidente.
O Rio de Janeiro, cidade e estado se confundem, vivem drama permanente, em face dos problemas financeiros, urbanos e sociais, mais recentemente com ênfase a segurança pública. Mas quando se fala neles, lembra-se de Pereira Passos, prefeito da cidade durante o governo do presidente Rodrigues Alves (1902-06), realizador da remodelação urbanística conhecida como “bota abaixo”, mandado demolir pardieiros e abrindo novas avenidas, a mais importante a Beira-Mar; ao longo da faixa litorânea, que possibilitou o acesso a Copacabana. Diz a lenda que ele superou o atraso colonial, transformando “a cidade bárbara” em metrópole digna da civilização ocidental. O Rio dizia-se, “civilizou-se”; julgamento que não teria maioria hoje, se fizesse um plebiscito junto à população.
Imagine-se que, naquela época, foi proibido cuspir no interior dos bondes e nas repartições (onde deveria existir escarradeira), ordenhar vacas nas ruas, vender loterias nos quiosques, mendigar e atirar polvilho durante o Carnaval. Prometeu-se instalar mictórios públicos em vias estratégicas. As novas seriam largas, para substituir as imundas e estreitas, onde se acumulavam lixo e doenças e, em terrenos vagos, se implantaram praças arborizadas.
Operários, quase 2 mil foram contratados especialmente para essa tarefa. A esperança era de que o Brasil vê hoje que uma metrópole efetivamente surgiria. No entanto, o que o Brasil vê pela televisão é uma sucessão de barracos pelos morros, com estreitas passagens entre eles, um labirinto, barracos que podem servir de esconderijos para bandidos, alguns de alta periculosidade, vivendo ao lado de gente honesta.
O governador Pezão (pé grande ou de grande peso?), explica que o Rio de Janeiro tem os mesmos índices de criminalidade que os demais estados. E daí? A mobilização federal para a área de segurança, pelo menos tem prendido mais gente do que antes. Mandar para onde?
Como se disse, no tempo do prefeito Pereira Passos pensava-se que o Rio de Janeiro se civilizara. Os dias eufóricos, contudo, ficaram para trás. Lá, no passado, repercutia a libertação dos escravos em 13 de maio de 1888. Na Câmara dos Deputados, projeto do ministro Ferreira Vianna, repercutia intensamente. Havia consenso de que a abolição trouxera consigo o fantasma da desordem. “Um grupo de autoridades exigia medidas para garantir a defesa da propriedade e da segurança dos cidadãos, ameaçados pelas ‘hordas’, de libertos que supostamente vagavam pelas estradas a furtar e rapinar”.
Transcorridos mais de cem anos, o quadro presente não é de confiança da sociedade. Um parlamentar, Rodrigues Peixoto, fez discurso, então: “Em todos os tempos, o trabalho foi considerado o primeiro elemento de uma sociedade bem organizada. Cada membro da comunidade deve dedicar uma parte de seu tempo e do seu esforço no interesse geral, cuja inobservância apresente gravidade, o que autoriza de certo modo a intervenção do Estado”.


83460
Por Manoel Hygino - 4/8/2018 07:16:05
O Brasil na Segunda Guerra

Manoel Hygino

Brasileiros que assistiram à série de reportagens na TV Bandeirantes sobre ações de grupos nazistas em Santa Catarina se impressionaram com a audácia dos seguidores de Hitler no estado sulino durante a II Grande Guerra. Mesmo os mais atentos ao projeto expansionista pareciam pensar que a presença germânica se restringisse à Argentina a Paraguai. Longe disso, contudo.
Hitler pretendia dominar todo o mundo e não podia abrir mão da América Latina. Documentos revelados mais recentemente demonstram, à suficiência, que Berlim se preparava para um ilimitado controle desde que Adolf assumira o poder, ganhando força e presença. Para isso, assumira a nacionalidade alemã, conforme se avalia seguramente em matérias como a assinada por Robert Lopes, em 2012, no volume “Diplomatas e Espiões”, da Discovery Publishers. Os fatos relatados, de autoria do pesquisador, associado ao Laboratório de Estudos de Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP, contam a que ponto chegaram os nazistas na influência do nazifascismo sobre dezenas de personalidades, dirigentes e funcionários governamentais brasileiros e sul-americanos naquele período.
O professor não narra como representantes de países atrasados, em sua maioria dirigida por governos autoritários e intrinsecamente corruptos, enxergaram o regime hitlerista. Seria um modelo de crescimento capaz de trabalhar a estagnação socioeconômica, no hemisfério sul-americano, acumulada por suas práticas durante várias gerações.
O Brasil era importantíssimo. Tanto que, em meio de uma sexta-feira, 1º de setembro de 1939, dia da invasão da Polônia pelos alemães, Hitler encontrou-se, em Berlim, com o ex-ministro do Exterior do Brasil, Freitas-Valle, para uma análise da situação, por incumbência de Vargas.
Um outro diplomata, Jayme de Barros, depois da audiência entre Freitas-Valle e o homem mais importante do mundo àquela altura, ouviu dele um comentário franco: “o ditador nazista recebeu – com extrema polidez – e agradeceu-lhe ter vindo suportar com os alemães o duro combate. Disse ainda Cyro que, estranhamente, nunca vira em sua vida em olhar azul mais doce do que o de Hitler”.
Getúlio tinha um filho na Alemanha. Lutero estudava e namorava uma germânica, que se transferiria ao Brasil para morar. O casamento civil foi no Palácio Guanabara, o religioso no reservado convento de Santa Tereza.
A guerra continuava. Um pacato pai de família alemão, residente no Brasil desde 1920, que trabalhava na Siemens, entusiasmava-se com os planos do nazismo. Em 1939, em férias na pátria, deixou-se cooptar para o serviço clandestino na maior nação sul-americana. Recebeu treinamento básico, para preparar mensagens secretas e manipular equipamentos de longo alcance – e um codinome: “Ifreto”.
Hitler atacava em todas as frentes, mas os Estados Unidos estavam atentos. Havia mais de 1,5 milhão de alemães e descendentes na América do Sul, principalmente no Brasil e Argentina. Washington decidiu agir. Entendia que a parte subdesenvolvida do continente estava à mercê de nazista. O Brasil relutou em definir-se por motivos que se tornaram conhecidos.


83457
Por Manoel Hygino - 3/8/2018 09:39:00
Sétima arte em Mariana

Manoel Hygino

Primeiro cinema em Mariana! Surpreendi-me com a notícia em jornal belo-horizontino, porque a velha Ribeirão do Carmo, foi a primeira vila, cidade, e capital de Minas Gerais, sem falar no primeiro bispado e arcebispado, títulos que fazem orgulho aos que lá nasceram e viveram. De todos os mineiros, enfim. Honra e glória de todos nós!
Perguntei-me: primeiro cinema? Tive muitos amigos do Ribeirão do Carmo, alguns hoje não mais ao nosso lado. Mas as recordações são as melhores. Diante do noticiário, que naturalmente me atraiu o interesse, consultei o jornalista, escritor, confrade na Academia Mineira de Letras, Danilo Gomes, que prontamente me esclareceu, em 30 de julho último:
“Amigo e mestre Manoel Hygino, muito saudar! Informo ao ilustre colunista que não se trata do ‘primeiro cinema’ a ser inaugurado em Mariana. Na década de 1940, já tínhamos o Cine Theatro Central, na Praça Gomes Freire, dito Jardim de Cima, com coreto e tudo, cenário de “footing” e namoro. Ali, eu, Emanuel Muzzi, irmãos e amigos, naquela década seguinte, vimos muito filme romântico, muito faroeste com John Wayne (que você viu em Miami, “há milênios”!), Tom Mix, Hopalong Cassidy, Randolph Scott, Roy Rogers, Charles Starrett, Audie Murphy, filmes com H. Bogart, James Mason, Cantinflas, o Gordo e o Magro, Oscarito, Grande Otelo, Três Patetas, belas atrizes como Joan Collins e Monica Vitti, Doris Day, tantas outras. Mais Tarzan. Maris seriados como “A Ilha Misteriosa”, do tempo da guerra. Até a sensualíssima (!!!) Brigitte Bardot, perdição dos adolescentes fogosos... Silvana Mangano dançando rumba era uma luxúria, amigo...”
Mas, o excelente escritor marianense, radicado em Brasília, há décadas, não se deu por satisfeito e acrescentou, recordando ainda seu tempo de jornalista no Palácio do Catete, quando presidente da República o gaúcho de São Borja, Getúlio Vargas. Por sinal, no dia 24, mais um aniversário do triste fim do aliado de Minas na Revolução de 1930: aquele modesto cinema era o nosso “Cinema Paradiso”, sem tirar nem pôr. Quando vi esse filme italiano (duas vezes), vi-me no nosso cinema, em Mariana: me emociono pra burro, até hoje, choro feito bezerro desmamado.
Toda quinta-feira havia um seriado, que nos deixava de cabelo em pé. Tínhamos que esperar uma semana para ver o que aconteceria com mocinhos e vilões. A fita arrebentava, a luz se acendia, vaias e pateadas. Tudo em preto-e-branco. Color boy tecnicolor, só muito depois. Depois o cinema fechou, por muitos anos. O SESC o reformou, ficou um brinco, mas sem a magia antiga, o charme do passado. Agora temos novo cinema da Vila do Carmo? Nossa Velha Guarda gostaria de saber que história “cinematográfica” é essa, Hygino amigo. Abraço vilacarmense do velho cinéfilo Danilo Gomes.”
Cabe, assim, lançar luzes sobre a dúvida suscitada. O que se inaugurou, recentemente, foi uma série de exibições cinematográficas em praça pública, com cadeiras para o respeitável auditório, na sede e distritos. Algo como aconteceu em Belo Horizonte, nos anos 1950, com o Cine Grátis, de Paulo Quintino dos Santos, ou o Cinema Educativo, que Zolton Gluek criou para visita a bairros e vilas, quando foi chefe do Serviço de Turismo e Recreação, na gestão municipal de Giannetti.


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Por Manoel Hygino - 2/8/2018 07:22:55
Lugar ao sol para os negros

Manoel Hygino

Fala-se muito, muito se reclama, com ou sem razões, mas até agora nada ouvi sobre os 130 anos da Libertação dos Escravos, em 13 de maio de 1888. Uma exceção: no domingo, no Rio de Janeiro, houve uma passeata de protesto contra a violência que atinge as mulheres de cor no país.
Segundo uma das organizadoras da marcha, “o Estado Brasileiro tem um projeto de execução do povo preto. Essa execução não se dá só com armas de fogo. Ela se dá quando você não tem saúde, quando você não tem casa, não tem educação, não tem qualidade de vida”. A violência, contudo, sendo como referido, não é só contra as negras, mas contra o “gênero” feminino de um modo geral, a não ser as madames, as eleitas, ou nomeadas para cargos públicos importantes, nas três esferas do poder. O mesmo acontece com os homens.
O Brasil se orgulha dos que formam a população negra, em que se incluem Machado de Assis, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Cruz e Souza, grande poeta de Santa Catariana, o jurista Pedro Lessa, do Serro-MG, o maior jogador brasileiro de futebol, que foi Pelé, o Édson Arantes do Nascimento (sem esquecer o famoso Leônidas), o ministro Joaquim Barbosa, lá de Paracatu, Noroeste do Estado, peça fundamental no processo do Mensalão, até com nome sugerido para a Presidência da República. E mais outros, que poderiam galgar posições de relevo, se tivessem vontade e oportunidade para subir as escadas da fama.
E não tivemos, Grande Otelo, arista de cinema, teatro e televisão? E o cantor e compositor Milton Nascimento, do Sul mineiro? Quem esqueceu Pixinguinha? Cá em Minas, não se permitirá o esquecimento – embora poucos saibam quem seja, de Francisco Paulo de Almeida, nascido em Lagoa Dourada, perto de São João del Rei, lugar que se tornou paróquia, em 1832, e pertenceu administrativamente a Tiradentes, para se tornar município e vila somente em 1911.
Esse Francisco Paulo de Almeida era negro em um país de escravos, e se tornou o barão de Guaraciaba, por decisão da própria Princesa Isabel. Filho de modesto comerciante, família pouco conhecida, até o nome da mãe é alvo de dúvida, por ser escrava talvez. Seria Palolina, e seu próprio destino se perdeu em ínvios caminhos, ignorando-se a quem pertencia. Os próprios descendentes não têm precisa ideia de sua vida, possivelmente com nome de Galdina Alberta do Espírito Santo, conforme opina Mônica de Souza Destro, trineta do barão e residente em Juiz de Fora.
Mesmo assim, iniciando trabalho como ourives e abotoaduras vendidas na região aurífera de Minas, tocava violino em enterros, valendo-se moedas e dos tocos de velas que sobravam do funeral, antes de tornar-se tropeiro entre Minas e a Corte. Num segundo casamento, de que resultaram 16 filhos, tornou-se sócio do sogro, após cuja morte assumiu os negócios e fortuna. Ajudou na fundação de dois bancos, comprou fazendas no interior de Minas e no vale do Paraíba, chegou a ter mil escravos, pois essa era a mão de obra disponível”.
Muito mais a registrar.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2018 09:35:20
Os caminhos do caos

Manoel Hygino

Encontro um fragmento de artigo, diminuto ao ponto de não indicar a autoria, coisa que soma anos. Diz: “os jovens não têm tempo para leitura, ou foram tragados pela comunicação via internet”. No caso do Brasil, o mal é que continuamos governados discricionariamente. Adiante, mais grave a declaração: “felizmente, o Brasil continua sonhando com um regime verdadeiramente democrático. O que mudou em um pequeno período após a proclamação da República? Nada”.
Aqui, no Hoje em Dia, em 17/11/2017, encontro o artigo de Antônio Álvares da Silva, que é professor de direito constitucional na UFMG, em um 11 de outubro que ficou para trás. “Chegou a seu limite máximo a tolerância de nossas autoridades com o vandalismo que se vem praticando impunemente no país. Daqui para frente, a condescendência com os criminosos afetará o Estado de Direito, transformando-o em Estado da desordem e do desrespeito à lei”.
Já se advertia: “a ninguém, indivíduo, associação ou comunidade, é garantido o ‘direito de depredar, destruir e incendiar bens públicos e privados’”. É exatamente o que acontece presentemente em vários (ou todos) estados brasileiros, sem que os agentes da lei consigam sequer identificar os criminosos. O contingente policial não tem agentes em número suficiente para pôr a mão em mascarados, ou não mascarados, movidos pelo fim deliberado de praticar o terror e incentivar o caos.
“Se cabe à PM a função de polícia ostensiva de preservação da ordem pública (Constituição, artigo 144,§5º) estão na sua mais evidente competência reprimir os baderneiros e garantir a ordem, podendo para tal fim usar dos meios necessários, implícitos na permissão constitucional. Desde os romanos, perpetua-se no tempo a velha sabedoria acolhida por todos os povos: Vis vi repellitur – a força só se repele com força contrária, e quem tem legitimidade para usar a força máxima é o Estado através de suas instituições criadas para este fim. O crime tem esta peculiaridade: espalha-se como erva daninha se não for coibido em suas raízes”.
A grande e dolorosa verdade é que somos efetivamente vítimas do chamado estado democrático de direito em que vivemos. Os tributos que despejamos crescentemente nas arcas do Tesouro parecem insuficientes para que possamos gozar de direitos mínimos, entre os quais de ir e vir, e de ter bens assegurados.
Na hora de eleger novos mandatários, cumpre agir com prudência e lucidez. Não se trata de mera substituição de homens, como alertava Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”. Porque, como observa Amaury Brandão, lá de Pouso Alegre, já tivemos de tudo por aqui: badernas, quarteladas, deposições, impedimentos e outras medidas que não coadunam com as verdadeiras democracias.
Hoje, sob nova ótica, a nossa “democracia” constata diariamente o esbulho, a roubalheira e as vantagens de poucos grupos, aquinhoados com benesses imorais.
Estamos atrasados na mudança dessa prática negativa ou pusilânime. Caso contrário, não sairemos da nefasta situação a que chegamos.


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Por Manoel Hygino - 28/7/2018 07:42:53
Morte em Manágua

Manoel Hygino

Autoridades forenses nicaraguenses confirmaram que a estudante brasileira de medicina Raynéia Lima, de 31 anos, morreu por perfurações de balas no tórax e abdômen, após ataque supostamente de paramilitares. Eles atuam como força de repressão aos protestos que sacodem o país desde abril para exigir a saída de Daniel Ortega da presidência. Os mortos são além de 340, até agora, e o número de pessoas que perderam a vida cresce incessantemente.
A brasileira vivia há seis anos no país, onde cursava o último ano de medicina na Universidade Americana, e acabou ferida quando o veículo que dirigia foi atingido por disparos no Sudoeste de Manágua, em área dominada por paramilitares ligados a Ortega.
O escritor catarinense Emanuel Medeiros Vieira, perseguido e preso no Brasil pela ditadura militar de cá, e que ora sofre com um câncer que lhe atormenta os dias, em Salvador (BA), onde reside, envia mensagem, em nome dos democratas da Nicarágua. Pede que se divulguem os clamores contra o massacre de que têm sido vítimas, os que são da Nicarágua ou que lá moram.
Observa que, em 1979, todos os democratas apoiaram a Revolução Sandinista que derrubou a ditadura de Anastásio Somoza, não muito diferente, aliás, de muitas outras que dominaram as Américas do Sul e Central, digo-o eu.
A atual e violenta repressão de Daniel Ortega – que mudou de posição e optou por oprimir o seu próprio povo –, deixou ao menos 351 mortos em três meses de levante popular, mas continua no poder e sanguinário. Os estudantes o chamam de novo Somoza. Ele – traidor da revolução – aliou-se “à fatia mais reacionária e corrupta da elite nicaraguense”.
A Conferência Episcopal do país convocou um jejum coletivo para condenar a violência. Os bispos dizem que será “um ato de desagravo pelas profanações realizadas nestes últimos meses contra Deus”, em alusão à tremenda repressão às manifestações – em geral pacíficas – “contra o tirano”, que fez da esposa vice-presidente.
Os antigos integrantes do grupo formado nas Américas para derrubar as ditaduras de seus países desertaram. Sabe-se o que aconteceu com Cuba, buscando hoje nova vias para o povo e a economia nacional. No Brasil, Leonardo Boff condena os caminhos assumidos pelo ditador Ortega. Resta a Venezuela, falida em todos os sentidos. Até quando Nicolás Maduro resistirá?
Entre nós, o jornalista Clóvis Rossi, referindo-se à situação na Nicarágua, lembra Fidel em seu tempo idealista: “ah, velho Fidel, que tristeza ver que os sonhos que sonharam parcelas significativas dos jovens latino-americanos tenham sido soterrados por ditaduras”.
Fidel comentara: “chega já dessa ilusão de que os problemas do mundo podem ser resolvidos com armas nucleares! As bombas poderão até matar os famintos, os enfermos e os ignorantes, mas não podem matar a fome, as enfermidades e a ignorância”.
A lição é válida também para outros armamentos, em todos os lugares do planeta. Enquanto isso, mais um brasileiro é morto, agora em Angola. Aguardemos.


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Por Manoel Hygino - 27/7/2018 06:37:31
O aniversário de Fidel

Manoel Hygino

Não sei se era sexta-feira, mas foi em 13 de agosto, no remoto 1926, que nasceu Fidel, em Birán, pequeno povoado da província de Holguín, em Cuba. Se fosse vivo, completaria 94 anos em 2018. Filho de imigrantes espanhóis e proprietários rurais, estudou em Santiago de Cuba e Havana. Em 1944, recebeu o prêmio de atleta estudantil e, no ano posterior, ingressou no curso de Direito da Universidade, tornando-se em seguida, dirigente da Federação dos Estudantes Universitários. Alina, a filha rebelde, como tal considerada por não poucos, conta que, na Faculdade, não concluiu o curso e não aprendeu qualquer ofício. Tentou todas as possibilidades no comércio, desde criar galinhas a granel no sótão do prédio em que se instalara, até vender frituras num esquina de Havana Velha.
O parágrafo seguinte é todo dela: “Foi, então, que decidiu usar astúcia na política. Conseguiu livrar-se dos rivais e, numa ascensão pontilhada de convenientes acidentes, atingiu o status de líder estudantil... Tinha uma estatura irrepreensível e o encanto de sem-vergonhice”.
Fidel conseguiu subir e se contrapôs a Fulgencio Batista, ex-sargento-taquígrafo do Exército. Este começou a agir conquistando apoio de círculos militares. Fez-se general e, em março de 1952, se nomeou presidente da República.
Fidel adotou a política anti-imperialista de esquerda, enquanto estudava Direito. Depois de rebeliões contra os governos de direita na República Dominicana e Colômbia, planejou a derrubada do presidente Batista, lançando um ataque fracassado ao Quartel Moncada em 1953. Depois de um ano de prisão, viajou para o México, onde formou um grupo revolucionário, com seu irmão Raúl Castro e Che Guevara. Voltando a Cuba, assumiu papel fundamental
na Revolução Cubana, liderando o movimento em uma guerrilha, na Serra maestra. Após a derrota de Batista em 1959, assumiu o poder militar e político como primeiro-ministro de Cuba. Os Estados Unidos ficaram alarmados com as relações amistosas de Castro com a União Soviética e tentaram removê-lo através de assassinato, bloqueio econômico e contrarrevolução, invasão da Baía dos Porcos em 1961.
Adotando um modelo marxista-leninista de desenvolvimento, Castro converteu Cuba em uma ditadura socialista sob comando do Partido Comunista, o primeiro do hemisfério ocidental. As reformas introduziram o planejamento econômico central e levaram Cuba a alcançar índices elevados de desenvolvimento humano e social, como a menor taxa de mortalidade infantil.
O mundo todo sabe sobre Fidel, diante das posteriores dificuldades internas e falta de investimentos soviéticos. Em julho de 2006, doença nos intestinos, levando Fidel a transferir a presidência ao irmão Raúl. Em 2008, anuncia que não se candidataria á presidência. Bom esclarecer que Fidel nunca foi eleito por via direta. Em 25 de novembro de 2016, aos 90 anos, falece.
Entre 13 próximo e 15 de novembro, haverá em Cuba consulta sobre mudanças fundamentais. O termo “comunismo” é eliminado da Carta Magna, reconhece-se a propriedade privada e a possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo gênero. Os ossos de Fidel devem estar tremendo sob a terra cubana.


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Por Manoel Hygino - 25/7/2018 09:03:49
O cotidiano brasileiro

Manoel Hygino

O engenheiro Fernando Guedes de Melo é perguntado como se posicionaria com relação a Nietzsche, para quem a mensagem matinal seria uma espécie de “hoje, vou dar alegria a alguém”. O entrevistado não tem dificuldade em responder:
“Como budista, geralmente concordo com a opinião do bodhisattva: que eu seja um instrumento para a felicidade e a iluminação de todos os seres, que esteja a serviço da paz, da sabedoria, que este seja um dia de despertar a harmonia para todo o mundo”.
Esta, contudo, deveria ser a mensagem de cada homem, de qualquer religião em todos os lugares do mundo, o que ora não acontece, com a sucessão de ameaças entre pessoas que vivem na mesma pátria, entre países e povos cujos mandatários não se entendem e trocam incessantemente acusações e promessas de agressões mútuas, de toda natureza, inclusive econômicas e bélicas.
O Brasil vive um período dramático de sua história, em que as próprias autoridades não sabem como firmar posição em face da violência hoje imperante. Tenho um caso horrível à mão. Um adolescente roubou um celular e apanhou até a morte em minha cidade natal, no Norte de Minas. Tinha quatorze anos e foi linchado, após acusação do furto. Colhido por sete moradores, estes o agrediram a pauladas, socos e pontapés. A vítima não resistiu. O aparelho não foi localizado pela polícia, que informou: entre os detidos pelo cruel homicídio estavam dois jovens de 13 anos, dois de 15 e um de 16. Os demais sumiram.
Estas são as reações que se vão tornando constantes em todas as cidades brasileiras, nas quais agem marginais já formados em idade e experiência e os que, talvez se julgando heróis a serviço do bem, acabam ilhados pelos agentes da lei. Irão para a cadeia? Cadeia resolve o problema, que é muito maior? Deixá-los soltos? Encaminhá-los a instituições ditas de sócio educação?
O povo se encontra em meio ao pesadelo, ou, usando a velha expressão, como cego em meio a tiroteio. Assim é a nossa pátria, pátria amada, salve-salve, em que só se salva quem puder. Estamos forjando a maior concentração de malfeitores do mundo, quem sabe? A esta altura... O povo paga imposto alto, ou faz de conta que paga, para reclamar dos insuficientes e ineficientes serviços públicos.
Enviar os adolescentes para estabelecimentos sócio-educativos? A expressão é bonita, mas não exatamente correta. As demonstrações revelam que essas casas são mais de aprimoramento de futuros malfeitores reiterados.
Construir novas prisões para os que ignoram ou agem contra a lei? É mais dinheiro, muito dinheiro, para solução no mínimo duvidosa, abertamente falsa. Cadeia não educa, pelo menos entre nós.
Já se sabe: o Brasil é o terceiro país do mundo em número de presos, isto é, 726 mil. E pior: outros 586 mil estão nas ruas quando deveriam estar detrás das grades. É dado oficial, divulgado pelo ministro Extraordinário de Segurança, Raul Jungmann.
No final do ano, eles somarão 841,8 mil; em 2025, 1,4 milhão de presos. O déficit de vagas prisionais é de 358.663. Haja dinheiro para pagar tributos!




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Por Manoel Hygino - 24/7/2018 08:27:43
A morte das ferrovias

Manoel Hygino

Abre-se o jornal e se constata, da manchete da primeira página aos artigos da editoria de economia, a predominância de títulos e conteúdos sobre o sistema ferroviário nacional. De uma hora pra outra, depois da greve dos caminhoneiros que atormentou a vida brasileira e dos brasileiros, que a nação estava – e está – extremamente vulnerável a todo tipo de desastres no sistema de transportes. Até hoje, a cada dia, surgem notícias dos efeitos da nefasta paralisação.
Descobre-se, somente após a greve, que estávamos marchando errados na política do setor e que se há de reexaminar o assunto, para podermos ter tranquilidade no futuro. Lendo “Diário da Falsa Cruz de Caravaca”, de Rogério Moreira, editado pela Thesaurus, de Brasília, percebe-se em que encrenca nos metemos e da qual temos de sair com a possível brevidade.
Pedro Rogério Couto Moreira é jornalista, escritor, membro da Academia Mineira de Letras, a cujo pai, presidente perpétuo, Vivaldi Moreira, se deve a instalação do sodalício em sede própria na rua da Bahia. Nascido em Belo Horizonte, jovem vendedor de balcão na Livraria Itatiaia, na mesma rua, ali começou seu relacionamento com a matéria impressa. Tornou-se jornalista conceituado, sem favor, passou pela redação de jornais de circulação nacional, foi designado correspondente da Rede Globo na Amazônia, encontrando um novo mundo, novos locais e personagens. Assim como identificou problemas que persistem, entre os quais da antiga Estrada de Ferro Tocantins, de que só se encontram relíquias.
Ferrovia de curtíssima vida, pois construída nos começos dos anos 1930, foi destruída numa penada do ministro da Viação e Obras Públicas do governo militar, em 1950. Observou: “A civilização do automóvel decretou que o trem de ferro era coisa do passado, coisa de capiau. O mundo tem de andar de quatro rodas nos asfalto”.
Tece considerações oportunas, sobretudo nesta hora: “É um mistério intrigante a morte das ferrovias brasileiras. Os Estados Unidos entronizaram o automóvel no seu panteão nacional. Dele fizeram ícone, herói feito gente de carne e osso, mas mantiveram a sua formidável malha ferroviária. Os europeus trataram de reconstruir a malha deles depois da Segunda Guerra Mundial, e com ajuda financeira americana. Por que no Brasil foi diferente?”.
As observações vêm em seguida: “Assim como mataram índios na Amazônia, assassinaram nossas ferrovias, aqui e sobretudo no Centro-Sul do País. O argumento era o déficit que acarretavam. É claro, elas não foram modernizadas, a via permanente da maioria delas era de bitola estreia. Tiraram os trens de circulação e, depois, completaram o serviço sujo, como fazem os mafiosos para não deixar pistas do crime; erradicaram os trilhos e dormentes. Mataram muito da alma brasileira com a extinção das ferrovias. Em Minas, um pedaço de cada ser mineiro morreu nos anos 50”.
Bem mais adiante em seu novo livro, que descreve em minúcias a vida na região amazônica, Pedro Rogério retorna “ao trem de ferro motivo deste registro e um relicário precioso da minha infância em Minas, tendo eu vivido, sem o saber, ao estertores desse meio de transporte, eficiente e barato”.
E lamento: “É mais do que nostalgia, é revolta contra quem, de modo criminoso, acabou com a nossa maravilhosa malha ferroviária de passageiros, sob o feitiço do rodoviarismo”.



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Por Manoel Hygino - 20/7/2018 10:17:08
Tragédia na BR-251

Manoel Hygino

Não causa mais susto sequer. A sucessão de graves acidentes nas rodovias do norte de Minas se transformou num registro corriqueiro que ocupa amplos espaços nos jornais, no noticiário das rádios ou imagens na televisão.
O desastre na BR-251, em Francisco Sá, nome de um dos grandes benfeitores da região, que levou ferrovia a extensos territórios de um estado praticamente com as dimensões da França, não mais serve como advertência aos gestores da administração pública; todos sabem da grandeza do problema, crescente com o número de veículos que por ali circulam e pela falta de atenção para as condições precárias da malha rodoviária.
Quando o ministro Francisco Sá, nas duas primeiras décadas do século findo, decidiu envolver-se pessoalmente na construção de ferrovia para suprir a demanda do inóspito sertão, preconizava também o crescimento da população e da produção agropecuária e, consequentemente, de vias adequadas de comunicação e para escoamento das safras.
Depois, aconteceu o que se conhece: a rápida ampliação do sistema rodoviário, em detrimento do ferroviário. Em determinado momento, as estradas de ferro foram reduzidas a plano secundário, com trechos enormes sumariamente supressos. Daí, a situação a que se chegou, sem que o poder público assumisse sua responsabilidade na manutenção condizente das autoestradas, a despeito de sua importância econômica, social e humana.
A tragédia do primeiro dia útil da semana é um grito de acusação (àqueles que insistem em ignorar fatos que não mais acontecem frequentemente, porque são incessantes. No mais recente acidente (se outro não ocorrer enquanto redijo estas linhas), pereceram – ou foram assassinados- oito pessoas, ferindo-se nada menos de 53 brasileiros. Pela descrição, percebe-se que serviços prestavam os veículos: cinco carros de passeio, um ônibus e cinco carretas. Não se contaram inicialmente os desaparecidos.
Por um terrível capricho da sorte, um carro Fiat estava a serviço da saúde da Prefeitura de Rio Pardo de Minas, transportando pacientes em tratamento de câncer, que diariamente faziam terapia em Montes Claros. Eram sete passageiros, de que não se tem maiores informações, mas se pode adivinhar. No ônibus, envolvido no desastre – e aqui o substantivo parece bem usado- estavam 16 crianças, que felizmente se salvaram, o mesmo não acontecendo com 64 adultos, atendidos em hospital de Francisco Sá.
Evidentemente, todo cuidado se exige ao trafegar por ali, com curvas sinuosas, que exigem perícia e prudência. Das autoridades, porém, muito mais se pretende, embora os mortos não reclamem. Perdurará o registro de vidas destruídas por todo o solo brasileiro, porque não se dá indispensável atenção às autopistas, transformadas verdadeiramente em caminhos para as necrópoles.
Não há tempo para fazer alguma coisa, porque estamos em período de caça aos votos. Aos candidatos, caberá prometer, esperando-se que sejam fiéis aos compromissos assumidos. Outubro está chegando com uma carga pesada de anseios e reivindicações de uma população tão carente e mal retribuída. Urge mudar o quadro e o clima. O cidadão está cansado de esquecimento ou de ser simples instrumento de manobra.




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Por Manoel Hygino - 18/7/2018 08:48:56
O segundo semestre do ano

Manoel Hygino

A Copa do Mundo passou, é mero registro histórico, como as Olimpíadas inventadas pelos gregos. Agora, nas nações que participaram dos jogos, é enfiar a viola no saco e começar tudo de novo, porque o tempo não parou.
Para os brasileiros, eliminados da Copa, apelou o Papa, sucessor de Pedro, na cátedra: “coragem! Haverá novas oportunidades”. Com a mensagem, Sua Santidade incentivou o país que, em termos de competição, ficou no tri, durante o período militar.
Não cabe agora choro nem vela, aceitou-se o resultado. O futebol do velho mundo predomina, com o quarto campeonato consecutivo vencido pela Europa, consagrada como epicentro do ludopédio. Não é novidade, porque a liderança dos europeus já também se revelou com os Mundiais Sub–20, Sub–17, com os torneios de clubes. Em resumo, os números mostram que a Europa domina o esporte.
Observa-se que, desta vez, não se ouviu falar mais em Pelé, que deve estar com a saúde mais abalada. O craque ficou velho e silenciou sobre os fatos e detalhes do campeonato de 2018. A idade é penosa e triste, e não há muitos craques iguais ao sul-mineiro, que brilhou durante longo tempo.
A propósito, já muito antes da Copa deste ano, Roberto da Matta observava com propriedade: “é revelador que o futebol seja um ‘jogo’, em que fatores imponderáveis intervêm. Como brasileirismo, o futebol é um escudo de autoafirmação com uma ambiguidade típica: é algo que praticamos com excelência, mas que não podemos prever o resultado. Trata-se de mais um traço da nossa proverbial duplicidade: somos os melhores do mundo, mas nem sempre podemos provar nossa excelência. Ela não é precisa e volta a nos relacionar com o imponderável, que aumenta a popularidade do futebol, tornando-o tanto sintoma quanto um esporte e indústria de massa. Quando ganhamos, o mundo vai bem; quando perdemos, viramos desgraçados”.
Para os cidadãos deste país grande e bobo, como o define o escritor e jornalista Eduardo Almeida Reis, membro da Academia Mineira de Letras, ainda teremos um jogo muito importante no calendário de 2018: as eleições para presidente da República, cujos votantes sequer conhecem os nomes dos candidatos como deveriam, tal a situação de imprevisibilidade que se estabeleceu até agora e que, parece, só se saberá ao certo em 15 de agosto.
O Brasil tem uma grave responsabilidade ainda neste 2018, num mês estigmatizado por acontecimentos dolorosos e dramáticos, como a morte de Getúlio em 24 de agosto, em 1954, que apenas aparentemente está distante. O fundamental é sentirmos a democracia em que vivemos, embora duramente. É um modo de vida e uma conquista permanente, como disse a ministra do STF, Cármen Lúcia, que em setembro deixará a presidência da corte suprema.
Até lá, a roda da existência continuará, em meio às dificuldades e incertezas, que se tornaram permanentes para os homens e mulheres deste país. De volta ao recesso de meio de ano, novamente a palavra estará com o Judiciário, que teve de manifestar-se em episódios marcantes em julho fluente.


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Por Manoel Hygino - 12/7/2018 14:33:03
Atribulações da hora

Manoel Hygino

Há muito se diz que nada mais ocorre nos meios jurídicos e políticos que surpreenda, ou assusta. Aqui, usei frequentemente o substantivo inquietação para qualificar a hora delicada que atravessamos. A palavra também ficou débil diante da situação de incessante indiferença aos sentimentos da população e do cidadão, que se vai robustecendo, emanada de altos escalões.
Os episódios registrados, cronometricamente, do último domingo até hoje, demonstram o grau de insensibilidade, quando não de menosprezo, com que o brasileiro é tratado pelo sistema.
Não se trata de meros atropelos ou enganos de funcionários subalternos e obscuros. Foram atos arquitetados, premeditados e postos em execução por integrantes do Legislativo e por membro do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, ciosos e conscientes de suas responsabilidades e de suas consequências.
A decisão de um magistrado plantonista, que mandou libertar um ex-chefe de Executivo, foi tido como “inusitado e teratológico", pela presidente do Superior Tribunal de Justiça, pois em flagrante desrespeito a decisões do Tribunal Regional, pelo STJ e pelo plenário do Supremo Tribunal Federal.
A ministra Laurita Vaz foi contundente: “É óbvio e ululante que o mero anúncio de intenção de réu preso de ser candidato a cargo público não tem o condão de reabrir a discussão acerca da legalidade do encarceramento, mormente quando, como no caso, a questão já foi examinada e decidida em todas as instâncias do Poder Judiciário”.
No mais, reafirmou a absoluta incompetência do juiz Plantonista “para deliberar sobre questão já decidida por este Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal, afastando a alegada nulidade arguida”.
O fato é mais grave, se se atentar que o “incidente” de dá exatamente num período em que o Judiciário do Brasil enfrenta uma avalanche de críticas e suspeições, a maior de toda sua história, por motivos de pleno conhecimento da nação.
Aliás, o caso nos obriga, mais uma vez, a recorrer a Rui Barbosa, ao definir o papel e responsabilidade do Poder Judiciário: “medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de Estado, interesse Supremo, como quer que te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz cobarde”.
A sociedade brasileira não se submete a tais injunções. Por sinal, os mais recentes acontecimentos fazem lembrar o ministro Joaquim Barbosa, ex-presidente da mais alta corte de Justiça, quando se manifestou, há algum tempo: “Somos o único caso de democracia no mundo em eu condenados por corrupção legislam contra os juízes que nos condenaram. Somos o único caso de democracia no mundo que as decisões do STF podem ser modificadas por condenados. Somos a única democracia no mundo que os deputados, após condenados, assumem cargos e enfrentam o Judiciário. Somos o único caso de democracia no mundo que é possível que condenados façam seu habeas corpus, ou legislem para mudar e serem libertos”.


83423
Por Manoel Hygino - 11/7/2018 07:30:09
Jornal não morre

Manoel Hygino

Houve por bem Fernando Horta Zuba tomar a iniciativa e organizar a publicação de “Jornal de Minas – Histórias que ninguém leu”, livro lançado em junho na Casa do Jornalista, na Álvares Cabral, na capital. O periódico, que começou a circular em 1972, era uma espécie de continuador de “O Dário”, criado pela Cúria Metropolitana de Belo Horizonte em 1935, quando era arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral.
O segundo periódico, que nasceu em pleno regime militar, ou ditadura, se aprouver a alguém, não dava sequência à linha do antecessor, que se orgulhava de ser “o maior jornal católico da América Latina”. E, realmente, assim fora. Presente em numerosas cidades mineiras (as assinaturas eram seu forte), por sua redação passaram nomes expressivos da política, das letras e da administração pública.
No JM, os acionistas majoritários eram Afonso Celso Raso e Afonso de Araújo Paulino, e minoritários, José Flávio Dias Vieira, Cristiano Ferreira de Melo e Marcos Sousa Lima, com “ideologias diferentes e pensamentos distintos, mas com o ideal comum de fazer um grande jornal”.
Em 1973, Afonso Paulino assumiu o comando total como superintendente, com sua experiência em administração e popularidade de atleta reconhecido no esporte com o apelido de “Minhoca”.
Segundo Afonsinho Raso, os profissionais e candidatos a sê-lo, estagiários, pautavam sua conduta com lealdade e sensibilidade. O volume, recém-editado, se realizou graças ao Zubinha, filho de Celso Fernando Zuba. Este começara carreira em Montes Claros, consolidou-a em Belo Horizonte, ganhou reconhecimento e amizades, atraindo ao “Jornal de Minas” o filho, frequentador do periódico desde os 5 anos e, hoje, inserido definitivamente no meio, sem nenhum favor.
Quando Adival Coelho, ex-chefe de redação do JM, completou 90 anos, em setembro de 2017, os remanescentes das antigas equipes se reuniram para comemorar no bar do Maranhão, por sinal, ex-linotipista experimentado (linotipo não há mais), depois fotógrafo e agora dedicado à atividade comercial. Foi uma reunião para lembranças de episódios que marcaram a vida do JM e de seus devotados colaboradores, jornalistas ou não. Afonso Celso Raso, agora com seus 84 anos, recordou que, no JM, por mais incrível que pareça, “a liberdade de pensamento sempre foi por nós respeitada, independente de posições políticas”.
O “Jornal de Minas”, segundo o editor do livro, contou com uma redação inquieta, com grandes diferenças ideológicas, mas com convivência harmônica, sob controle do big boss Afonso Paulino, ex-jogador da seleção brasileira de futebol de salão (presidente do Atlético Mineiro) e, “notoriamente, apoiador do regime militar de 1964”.
Este aspecto é, aliás, focalizado em franca entrevista. O empresário, hoje com 82 anos, que tinha em sua sala de presidente belos cães de raça dálmata, não limitou as perguntas, mesmo as mais delicadas, envolvendo suas ligações com o regime e acusações de tortura.
Vale a pena conhecer o texto, muito revelador da personalidade de Afonso Paulino, assim como de mais de três dezenas de outros, que viveram na redação e nas oficinas do JM uma página da história da imprensa mineira que precisa ser conhecida.
É algo muito especial, nesta hora em que o regime implantado em 1964 é condenado pela morte de Wladimir Herzog, episódio também focalizado no livro.


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Por Manoel Hygino - 10/7/2018 08:20:25
Não à clandestinidade

Manoel Hygino

Passado o tão angustiosamente esperado jogo entre as seleções do Brasil e da Bélgica, só nos resta voltar a conviver (se é que interrompemos) o cotidiano brasileiro, com todas as suas dúvidas e inquietação. Não há outro jeito, se bem que, dos dias passados, ficasse a marcação cerrada da imprensa, principalmente da Inglaterra, sobre Neymar, o nome mais visado da equipe verde-amarela.
Os jornalistas do Reino Unido – por sinal não tão unido como antes e como talvez desejariam – ironizavam o “player”, julgando sua atuação com a camisa 10 de “constrangedora e falsária”. Foi ridicularizado por seu mergulho extravagante contra o México, exagerando e tentando enganar os árbitros. Para o “Daily Mail”, ele “fez mais cortes de cabelo do que gols”, apresentando-se três visuais diferentes desde o início da Copa.
Agora a imprensa de todas as capitais noticia o ressurgimento, com vigor, do transporte ilegal para a população da região metropolitana e cidades próximas, embora as mais distantes permaneçam como dantes. Veículos foram recolhidos em Belo Horizonte, em dias recentes e condutores multados, mas o problema não sofreu solução de continuidade.
Em maio de 2014, Reinaldo Azevedo, na “Folha de S. Paulo”, já advertia para o caso de um deputado estadual surpreendido em reunião na sede da paulistana Transooper, cooperativa de vans e micro-ônibus, de que era presidente de honra, em companhia de 13 pessoas, que, segundo a polícia, eram ligados ao PCC. Um assaltante de banco foragido participava.
Ainda, segundo as autoridades policiais, o encontro tinha também o objetivo de planejar novos incêndios contra coletivos na capital bandeirante. Os veículos lá atacados, e muitas vezes destruídos, pertenciam invariavelmente a empresas privadas e não a tais cooperativas.
Não há um só jornalista ou um só político de São Paulo que ignore o fato de que o PCC se imiscuiu na área de transportes por meio de cooperativas. Em 2006, foi preso um sujeito chamado Luiz Carlos Efigênio Pacheco, então presidente da Cooper-Pam. Conhecido como “Pandora”, o homem foi acusado de financiar uma tentativa de resgate de presos de uma cadeia de Santo André. Ele negou ligação com o crime organizado, mas disse que, por ordem do então secretário de Transportes da gestão Marta Suplicy, levou para sua cooperativa integrantes do PCC. O chefão petista repeliu as acusações. “Só não pode repelir a sua óbvia proximidade com as ditas cooperativas e o incentivo que deu, ao longo de sua carreira, a essa, vá lá, “modalidade de transporte”.
Será que em Belo Horizonte o fato se repete? Mesmo que não seja assim, compete às autoridades fazer o que fazem, combatendo a clandestinidade e a morte nas ruas e estradas, que pode recrudescer com a nova avalanche de perueiros ou que outro nome se lhes queira dar.


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Por Manoel Hygino - 6/7/2018 07:35:38
Com Darcy e Israel

Manoel Hygino

Darcy Ribeiro passa a ser nome do anexo do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, em que se encontra o BDMG Cultural e sua galeria de arte. Na rua Bernardo Guimarães, 1.600 (para quem ainda não sabe), junto ao edifício-sede da instituição, batizado como Governador Israel Pinheiro.
Pontos de contato: Darcy é meu conterrâneo de Montes Claros, nascido em 1922; convivi com Israel, filho do também ex-presidente de Minas João Pinheiro da Silva, durante o período em que estive à frente da assessoria de imprensa do governo de Minas. Agora os encontro nos edifícios do banco, que recebem o nome dos dois ilustres mineiros.
Sequer conheci Darcy, cada um tomou seu rumo na vida, mas mantive respeito por seu trabalho nos vários campos a que se dedicou e às obras que construiu, entre as quais a Universidade de Brasília, os CIEPS, no Rio de Janeiro, ali também o Museu do Índio, o Parque Indígena do Xingu, a Universidade Estadual do Norte Fluminense, sem falar no Memorial da América Latina, em São Paulo. E houve a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, elaborada quando senador.
Foi uma figura singular na história brasileira, um brasileiro sinceramente apaixonado por seu país e confiante no futuro. A despeito de seus sofrimentos durante a ditadura militar, não desanimou, sempre pensando fazer do Brasil a mais bela nação do mundo. Faleceu, sem ver realizada a totalidade de seu sonho, mas convicto de que, algum dia, ele se realizaria. Como observou Eric Nepomuceno, conhecia e amava o Brasil. Conversava com todos, dos gabinetes de Brasília às tribos do Xingu, aprendendo sempre. Quando ia a nossa cidade natal, noite descendo, tomava direção dos transmissores da rádio de Paulo Narciso, assentando-se debaixo de uma grande árvore, presente às vezes o jornalista Fialho Pacheco, para contemplarem as luzes noturnas da cidade a ocidente.
Sem conseguir concretizar todos os seus projetos, porque inúmeros, talvez irrealizáveis, não se inclinou à adversidade e às perseguições. Deixou romances como “Maíra” (objeto de sessão especial na Academia Mineira de Letras, por iniciativa do historiador Petrônio Brás) e “Migo”, escritos valiosos como “O Processo Civilizatório”, “As Américas e a Civilização” e “Teoria do Brasil”, somando 96 edições em diversas línguas. Ao dar o nome do professor Darcy Ribeiro ao prédio anexo ao Banco do Desenvolvimento, rende-se, assim, homenagem aos vários Darcy, cujo centenário ocorrerá daqui a quatro anos. Àquele mesmo Darcy, que me enviara, no princípio de sua missão ao lado e com nosso indígenas, o volume “Kadiweu: ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza”, que trata de mitologia, xamanismo e arte. Nele, relatava e comentava a experiência, ao lado daquele grupo silvícola, remanescente dos “mbaxaá-guaikuru”, da fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Alguém saberá ou se lembrará?
Ficaram conhecidos como “os índios cavaleiros”, devido à sua grande habilidade em montaria, à sua grande criação de equinos e ao porte alto e forte. Em razão de serem guerreiros, as índias cadiuéus só costumavam ter filhos a cada seis anos, pois como não poderiam carregar mais de um filho em cima do cavalo, optavam por só ter outro filho quando o primeiro já possuísse a capacidade de montar sozinho. Foram aliados do Brasil na Guerra do Paraguai, motivo pelo qual tiveram a posse de suas terras reconhecidas pelo governo brasileiro, ao final do conflito.


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Por Manoel Hygino - 5/7/2018 11:44:22
O sono da ministra

Manoel Hygino

Acossada por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, a presidente da Casa, Cármen Lúcia, teria razões para deixar o alto cargo. Seu propósito inicial era aposentar-se, no princípio deste 2018, ao completar dois anos no exercício das altas funções. No entanto, a vida dá muitas voltas, e a mineira de Montes Claros, com raízes em Espinosa, cidade que não fica tão longe, deve estar implorando para o tempo restante fluir com rapidez.
Com o recesso do STF e as férias dos ministros, não havendo sessões nas duas turmas da Corte e do plenário, restou a Cármen o plantão para as emergências, neste ínterim. No mês que vem, após o retorno ao trabalho, pautados diversos processos polêmicos, constrange-se, certamente, a presidente, inclusive pela insistência de alguns “colegas” em quererem impor agendamento prioritário para algumas ações. A presidente não se curvará as pressões, pelo que se observa.
Cármen Lúcia deixará a presidência no dia 12 de setembro, sucedida pelo ministro Dias Toffoli, um dos integrantes da Segunda Turma, formada também por Ricardo Lewandovski, Gilmar Mendes, Edson Fachin e Celso de Mello, o decano, antigo companheiro de hotel ou pensão de José Dirceu, em São Paulo.
Um imbróglio, até porque Toffoli cassou, a decisão de Sérgio Moro, que obrigava o ex-ministro de Lula a usar tornozeleira eletrônica, enquanto cumprir medida cautelar domiciliarmente em Brasília.
E há, ainda, um recurso pelo qual o ex-presidente da República pretende ganhar liberdade, a ser julgado após o recesso, mas com data ainda não definida.
A presidente do Supremo, que já passou, mais de uma vez, pelo Palácio do Planalto, é muito clara em suas posições. “Nós do Direito temos o dever de trabalhar pela pacificação, não no sentido abstrato, mas no sentido de viver em paz com o outro, porque só assim o outro se sente no estado de Justiça”.
Democracia mais que regime, “é um modo de vida e uma conquista permanente”. Adverte: “O politicamente correto é o não pensar. O politicamente correto é uma renúncia à liberdade. Agora, é ainda pior, porque se você não pensa igual, você não é tolerável. E isso me parece um pouco como era no Parido Comunista que tinha um slogan assim: “Você pensa que pensa? Pensa não. Quem pensa por você é o Comitê Central. E eu agora fico achando que estamos assim. “Você pensa que pensa? Pensa não.”
Na quinta-feira, 28/06, ela declarou: “Não acredito que juízes do Supremo adotem decisões no sentido de tomar um partido, até porque isso é determinantemente proibido. Seria considerar que um juiz está assumindo uma decisão contrária ao que é o seu dever constitucional”.
A ministra parece seguir a lição de Sundfeld, segundo a qual o Estado jamais maneja interesses, poderes ou direitos íntimos. Para isso, há o dever da mais absoluta transparência.
Cármen Lúcia não dorme: “Hoje; temos as questões gravíssimas de organizações criminosas dominando em todos os estados do Brasil.
Por isso, eu digo que não é cômoda nem confortável nenhuma poltrona na qual eu me assente, por uma singela circunstância: eu sou uma das pessoas que, mais tendo informações, não tenho a menor capacidade para ter sono no Brasil”.


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Por Manoel Hygino - 3/7/2018 08:55:25
A Rússia para alguns

Manoel Hygino

Quem gostaria de ter ido à Rússia para a Copa? Trata-se de uma nação fascinante, com cidades que guardam preciosidades fantásticas, capazes de atrair o interesse de cidadãos de todos os países e toda época. Mas quem, cá no Brasil, teria condições financeiras de uma viagem dessa dimensão, embora admitindo que apenas conheceria um pouco – já que a nação compreende terras de dois continentes – do maior país do planeta?

A despeito da crise que atravessamos e da qual custaremos sair, a julgar pela evolução dos quadros econômico, político, jurídico e social, houve gente que se locomoveu daqui a Moscou, à linda São Petersburgo e a outras cidades, para assistir aos jogos. E aos deleites e gozos de que o latino não abre mão, principalmente se longe da pátria. Enfim...

O que me levou ao presente escrito, porém, foi saber como dezenas de conterrâneos lograram meios para aproveitar a “ensancha oportunosa”. Conheci fatos e números na apreciada coluna do jornal, assinada por Leandro Mazzini, na edição de sábado–domingo, 30 de junho–1ºde julho. O bem informado jornalista noticia: “a Caixa vai bem, na Copa da Rússia e com dinheiro oficial. O banco vai gastar mais de R$ 9 milhões com a viagem, já realizada, de 223 convidados – além do staff de dezenas de diretores e funcionários – para garantir as três promoções que lançou para lotéricos, servidores e clientes. Foram montados stands dentro e fora dos estádios da Copa da Fifa. Enquanto a grande maioria dos clientes paga taxas altas pelos serviços”.

O jornalista acrescentou: “segundo a assessoria da Caixa, as despesas serão, por baixo, R$ 8.664.920,00 apenas no pagamento de passagens, hospedagens, transfer e alimentação dos convidados”. A Caixa levou 73 donos de lotéricas, a promoção Meta Campeã (média de R$ 38,1 mil por pessoa), 79 servidores (R$ 43,7 mil per capta) e 71 clientes (R$ 34,1 mil). A despeito da gastança, o banco lucrou R$ 3,2 bilhões líquidos apenas no primeiro trimestre deste ano.

O banco informou em nota à coluna “que os convidados foram através de promoções, de marketing – como o BoraPraRussia (clientes) e A Hora é Agora (funcionários)”.

Mazzini, contudo, não se refere, nem poderia, a episódios envolvendo figurões da instituição financeira, não faz muito tempo. O assunto foi objeto de amplo noticiário da imprensa, que não se omitiu e envolveria desvios de dinheiro e nomeações de funcionários do alto escalão. A vantagem que se tem é que no Brasil se esquecem rapidamente mazelas e malfeitos.

O brasileiro pouco se interessa. Só reclama se o valor do tributo aumentou e se sente no bolso e nas necessidades imediatas não supridas.

A Caixa vai bem, muito bem, obrigado. Mas se viu na contingência de fechar 25 agências em 15 estados, conforme dispõe portaria de 21 de junho, com a economia estimada é de R$ 138,9 milhões. Quantos serão prejudicados pela interrupção de atividades do banco? O importante era a Copa, que já passou à história do esporte bretão. Daqui quatro anos virá outra. Quem viver verá. E o desejo é de que pelo menos no futebol sejamos vitoriosos e felizes, oxalá!


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Por Manoel Hygino - 2/7/2018 07:30:41
Expectativas além da Copa

Manoel Hygino

As lembranças da Copa do Mundo de 2018 depois que ela passar? É triste e lamentável a participação fora de campo dos brasileiros que foram à terra de Tolstói e Stalin. Os nossos torcedores-turistas fizeram papelões, no plural. Os jornais britânicos criticaram os jogadores brasileiros na vitória sobre Costa Rica. Neymar foi classificado de “mimado, resmungão, dramático e trapaceiro”. Em restaurante na gloriosa São Petersburgo, o presidente da CBF, ao lado de familiares, foi hostilizado por um torcedor do Paraná, que o chamou de “safado e vagabundo”, quebrando-lhe um copo na cabeça.
A revista “The Economist” previra, pelo seu site, que o Brasil seria campeão. Porque havia a ameaça dos loucos/maníacos do Estado Islâmico, ameaçando a competição com “um massacre nunca visto”. Seria a vingança contra a grande nação de Putin, por contrapor-se a operações do grupo terrorista na Síria. Ficou nisso, felizmente. Melhor assim.
A Copa do Mundo, que tanto empolgou os brasileiros, já vai terminar. A gente deste espaço do mundo esperava apagar o vexame da anterior, no coração do país, quatro anos atrás, em Belo Horizonte. Não são poucas as dúvidas e preocupações também na cena política. Chegamos ao segundo semestre de 2018 com velhos e novos desafios.
A violência permanece habitando nosso campo e nossas cidades. As dificuldades para vencê-las se tornaram mais evidentes depois da intervenção militar na segurança do Rio de janeiro. Em todos os estados, porém, as gangues atuam e enfrentam os agentes da lei, que caem inexoravelmente diante do poder de fogo dos bandidos, abastecidos com melhores armamentos, munições e dinheiro à suficiência.
No campo político-administrativo, identifica-se a insatisfação da população, que reconhece a incapacidade das autoridades para superar os imensos obstáculos, resultantes de equívocos e malfeitos mais recentes ou dos acumulados, que ganharam vigor no decorrer de décadas. E há uma eleição este ano.
Lembro agora o advogado paulista Almir Pazzianotto Pinto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho e ex-ministro do Trabalho. Com propriedade, dizia ele que estamos na oitava Constituição, a sétima do período republicano. “O número elevado de emendas revela que a redação original deixou a desejar. Os membros da Assembleia Nacional Constituinte decidiram por texto analítico, minucioso, prolixo, recheado de dispositivos dependentes de regulamentação. Recusaram o sucinto modelo americano, cuja lei fundamental data da independência em 1787.
Lembre-se Norberto Bobbio, durante crise na Itália, quando sentenciou: “A Constituição não tem culpa”. Pazzianotto acrescentou: “O mesmo se deve dizer em relação à nossa. Nem por isso, devemos responsabilizá-la por problemas que enfrentamos”. Eis a realidade.
O segundo semestre será dos mais difíceis.


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Por Manoel Hygino - 29/6/2018 07:21:27
A maldição do vice

Manoel Hygino

Ele não é tão conhecido em Minas como deveria. Refiro-me a Ailê- Salassié Filgueiras Quintão, jornalista e professor, doutor em história cultural. Antes de tudo talvez, homem de imprensa. Trabalhou na Folha de S. Paulo, Última Hora, Rádio JB, Diário Popular de SP, Correio Brasiliense, correspondente em Londres e enviado especial para coberturas diversas na América Latina. Não sei se pertenceu a equipes de jornalistas esportivos, mas sei que cobriu os Jogos Olímpicos de Atenas, Pequim e Londres. Em seu currículo, esclarece-se que se graduou em jornalismo, política e história, lecionando na Universidade de Brasília e na Católica. Autor de dez livros, entre os quais Jornalismo Econômico, Americanidade, Rupturas e Codinome.
Chama a atenção: nasceu na tranquila Piraúba, na Zona da Mata mineira, cidade de que conheci apenas uma senhora, casada com amigo meu, que pertencera ao setor de distribuição do saudoso Jornal do Brasil. E agora eis o Ailê Salassié que lançou, neste tumultuoso 2018, “Pinguela, a maldição do vice”, pela Editora Otimismo, de Brasília. O vigoroso trabalho é dedicado à Associação Nacional dos Escritores, à Academia de Letras do Brasil e à Academia Ubaense de Letras, representada pelos seus presidentes Fábio de Souza Coutinho, Flávio René Kothe e Marum Sallum Alexander.
Em resumo, ele – o autor – constatou que, nos 50 dos 129 anos de República, o Brasil foi governado por vice-presidentes nada menos que 11 vezes, em decorrência de algum impedimento do titular. Está na contracapa: “o cargo de vice-presidente parece amaldiçoado. Este livro trata do momento de passagem do poder para Michel Temer e da conturbada gestão do vice”. O atual presidente seria uma vítima da história ou mais um protagonista do caos.
O prefaciador, Hélio Marcos Prates Doyle, observa que os textos do volume refletem o espanto da população, a angústia dos indivíduos e indignação do jornalista, que constituem o espírito da obra. Não o inspiraram a ideologia nem o misticismo, mas sim a “ansiedade nata do repórter”, confundindo-se com o “olhar curioso do historiador, uma boa simbiose, representando a união de duas perspectivas distintas, mas complementares”.
Nos textos, identificam-se contradições que emperram o crescimento do Brasil, fazendo lembrar as “lacunas históricas”, de Hanna Arendt. Delas, resultaram diagnósticos melancólicos sobre a gestão do Estado e as carências da população. Na convivência com os fatos, viu-se surgir entre nós uma pluralidade de partidos, de políticos e de agentes marginais que constroem falsas realidades, acobertadas ou acobertando cinicamente um mundo de transgressões.
Aliê confessa que se deparou com a “figura aparentemente solitária de Michel Temer, vice-presidente da República, um senhor indeciso, porém teimoso, e que se propôs a apenas concluir a transição do mandato presidencial”. O ex-presidente FHC, aliás, classificou o governo dos vices de “uma pinguela”, título do livro ora comentado.
O Brasil precisaria ter um vice? É uma das várias perguntas que emanam das quase quatrocentas páginas. E o vice herdou uma administração da máquina do Estado desarrumada, a economia em recessão, o desemprego generalizado, o país em estado conflituoso e população sem ter no que acreditar. E mais: uma operação jurídico-policial inquisitória anticorrupção, além de expor os ranços oligárquicos na política e os protagonistas transgressores emergentes.


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Por Manoel Hygino - 28/6/2018 07:35:24
Em pleno circo

Manoel Hygino

Enquanto as seleções costarriquenha e brasileira de futebol disputavam partida pela Copa do Mundo, lá na Rússia, ponderável parte da força produtiva do país parava. Pouco importavam os dias de paralisação por conta da greve dos caminhoneiros, que tão elevados prejuízos causara – e ainda causa – à nação. Tampouco se preocupava com o alerta da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) sobre a possibilidade de novo caos, já que os mesmos autores da primeira prova prometem parar o país mais uma vez, formulando novas e idênticas medidas.
Pão e circo são remédios utilizados há séculos para manter satisfeita a multidão. Agora, a arena foi transferida à Rússia, cuja história e belas construções de arte foram pouco apresentadas por visitantes nada ilustrados, dentre os quais latino-americanos que preferiam assediar as mulheres com gestos e palavras de baixo calão.
Fazer o quê? Poucos se lembrariam que a energia subiu 3,3%, quase o dobro da inflação. Em prioritário lugar, o circo, em que os cidadãos, que somos nós, fazem o papel de palhaços sem graça.
Em meio à turbulência pelos dois únicos gols, assegurando ao Brasil a vitória na disputa, pude ler os inspirados versos de Manoel Firmato de Almeida, ex-chefe da Cirurgia Pediátrica da Santa Casa de Belo Horizonte. Ele os classifica de Paródia sob o título de “Vou voltar para Pasárgada”, à Manoel Bandeira.
Ei-los:
“Vou voltar para Pasárgada onde eu era amigo do Rei. Lá não usávamos imagens, mas imaginação. Não usávamos o politicamente correto, mas o certo. Mandavam os que podiam e obedeciam os que tinham juízo. O respeito é que gerava amor. O amor é que gerava
gente. O tempo era o senhor do universo. E a vida a senhora da terra. O velho, o senhor da sabedoria. O jovem não era o dono da verdade, ou o professor de Deus. A criança, um botão que um dia seria uma rosa ou um cravo. Era irrigado, cultivado, às vezes podado. As dúvidas continuavam dúvidas. As verdades eram para serem acreditadas. As mentiras eram apenas classificadas. As mentirinhas era esquecidas. As cabeludas eram guardadas. O futuro a Deus pertencia. Deus dava, Deus tirava. O passado virava estórias da carochinha. O presente era vivido. Deus, o senhor do destino. Deus dava, Deus tirava. Uns gostavam de chocolate preto, outros de branco. Gêneros eram simples assim: homem é homem, mulher é mulher. E assim era a vida em Pasárgada. Simples, né?”.
Os amantes do antigo esporte-bretão, como o futebol foi chamado, tiveram oportunidade, mas não a aproveitaram certamente, para conhecê-la devidamente, porque São Petesburgo, onde se deu o espetáculo esportivo, é uma das mais fantásticas belezas a se apreciar na pátria de Tolstoi e Dostoievski, sem falar, no próprio Pedro, o Grande, que fez construir a cidade sobre pântanos, como JK procedeu com Brasília, erguida no áspero e quente território do interior brasileiro.


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Por Manoel Hygino - 27/6/2018 07:33:21
Sangue na Nicarágua

Manoel Hygino

Arrogante, o presidente Trump trata com menosprezo os países latino-americanos, que os mais ousados na linguagem crítica chamam de “América Latrina”. De todo modo, o hemisfério Sul do novo mundo e parte da América Central não encontraram meios para vencer a pobreza, a miséria, sequer manter-se honrosamente entre os conhecidos como “emergentes”.
Há muito de errado com os que formamos tão significativa parte do mundo. O Brasil chegou a ser a quinta economia do planeta, mas seu povo sofre hoje uma espécie de decadência. Manoel Bonfim, um brasileiro que nasceu no final do século XIX, sentiu o problema e observou: “temos visto, é verdade, povos que, após um certo período de progresso, chegados a um estado de civilização superior, degeneram e decaem: mas não se pode afirmar que existem povos condenados a uma eterna barbárie, por serem essencialmente incapazes de progredir. É que a decadência e degradação têm como causa um fator que surge com o próprio progresso da civilização – é o parasitismo; sempre por toda parte o parasitismo, causa das causas, causa primeira, resumindo a história de todas as decadências em que vão desaparecendo os povos e as civilizações. Progride o povo, organiza-se o trabalho, acumula-se a riqueza, e a nação se distribui, então, em duas camadas: uma espessa; a maioria, embaixo, penando, trabalhando; outra em cima, dormindo, dirigindo, gozando o fruto do trabalho dos que vivem miseravelmente e que são os únicos a produzir. Chega-se a um momento em que essa classe dominante concentra em si, efetivamente, todas as funções sociais (fora o trabalho material), assenhoreando-se de todos os encargos sociais...”, e daí para frente.
Estas reflexões me vêm agora, diante da situação dramática que vive a Nicarágua mais uma vez. Lá se atravessa uma herança do ódio. Para se explicar a causa, bastaria lembrar o tempo do ditador Anastasio Tacho Somoza, que disse, em determinada oportunidade: “vou garantir a paz neste país a qualquer custo. Ainda que tenha de disparar contra cada homem na Nicarágua para conseguir isso”. Agora, o presidente Daniel Ortega, fiel aliado de Hugo Chávez, está em profundas dificuldades (no passado fora acusado de abusar de uma enteada, de 12 anos). A mãe, Rosario Murillo, chegou a acumular vários cargos no governo, em contrapartida pelo silêncio em torno do crime durante 20 anos. Manteve-se, assim, no poder, enquanto a Nicarágua se estacionava entre os países mais pobres do continente, com mais da metade da população em estado de máxima pobreza.
Há poucos dias, conseguiu-se publicar uma carta aberta aos policiais, em que se adverte: “o regime de Daniel Ortega já está acabado. Vocês precisam deter de uma vez por todas este insensato banho de sangue”. Os cidadãos, de mais de 4 mil cidades (é o que leio em jornal brasileiro) pediam para que a violenta repressão tenha fim, quando quase duzentos mortos se somavam, além de 1.340 feridos, desde 18 de abril.
O documento diz ainda: “deixem suas armas, peguem seus escudos e se unam a nós, porque, quando desaparecer o poder da família de Daniel Ortega e sua esposa (a vice-presidente) Rosario Murillo, vocês ficarão sozinhos e desprotegidos”.
Até o momento em que redijo este registro não houve manifestação oficial, e as perspectivas de novas mortes continuam. Pobre América!


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Por Manoel Hygino - 19/6/2018 07:45:59
As perdas no Triângulo

Manoel Hygino

O Triângulo Mineiro, uma das regiões mais dinâmicas e fortes economicamente do Estado, mantém-se na mira dos bandidos que sustentam permanente onda de ataques contra agências bancárias. Consta que o movimento resulta de um projeto de Marcola, fundador do PCC, visando agitar o país e desafiar o poder instituído.
Enquanto atentados se repetem por aquele (e outros) territórios, leio no “Jornal da ANE”, enviado pelo escritor Danilo Gomes, que faleceu o poeta Aricy Curvelo, que nasceu naquela bela cidade. Escobar Franelas, autor de artigo, esclarece que o vate partiu depois de algum tempo internado, acometido por uma doença fatal.
É notícia triste, em meio ao tiroteio de todas as semanas. Aricy foi um poeta discreto, talvez tímido, mas que jamais falhou em correspondência com as pessoas com as quais contatara sobre letras, aqui e no exterior.
Poeta robusto, como classifica Franelas, era também ensaísta, tradutor e um ativo interlocutor da produção poética, correspondente da revista Literária Anto, de Portugal, e integrante do Conselho Editorial da Revista do Escritor Brasileiro.
No Sul do país, Nélson Hoffmann, em Roque Gonzales, publicou no belo jornal local, faz pouco tempo, uma longa entrevista de Aricy. As distâncias não isolam os poetas, pois para estes não há distâncias. Em “A poesia mineira do século XX”, Assis Brasil o menciona como devido. O registro está na edição da Imago (Rio de Janeiro, 1998).
Nascido em Uberlândia, Triângulo Mineiro, em 7 de maio de 1945, Aricy residia há quase trinta anos na praia de Jacaraípe, em Serra, Espírito Santo, quando nos deixou em 10 de janeiro de 2018, depois de um longo período de internação. Pouca gente, creio que praticamente só os familiares, o sabia.
A discrição de Aricy era proporcional à sua generosidade. Há uma grande expectativa de que “Menos que os nomes de tudo”, uma obra que ele vinha burilando há muitos anos, estava pronta e que seria publicada em breve.
Sobre o poeta que nos deixou, Fábio Lucas, confrade na Academia Mineira de Letras, crítico literário de nomeada, escreveu: “Aricy Curvelo, com ‘Os dias selvagens te ensinam’, sobrepaira entre os melhores poetas de sua geração”. Fábio, que é de Esmeraldas, não faz favor nenhum ao autor de Uberlândia, descendente dos Garcias d’Ávila, que chegaram ao Brasil com Tomé de Sousa, nosso primeiro governador.
Formado em direito pela UFMG, em Belo Horizonte, pertenceu aos quadros da Vale do Rio Doce, servindo em Belém e Santarém, a terra do escritor Nicodemos Sena, que lhe inspirou belas páginas.
Depois foi para o Espírito Santo, onde no silêncio encerrou uma carreira digna e elogiada, em Jacaraípe, município de Serra, mas eu não tenho notícia de sua convivência com o mar. É sempre triste a partida de um bom poeta, dos que se trancafiam em algum ligar remoto e se quedam a meditar e produzir. Prisioneiro voluntário, talvez solitário, fugiu da terra como um passarinho. Aos 73 anos.


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Por Manoel Hygino - 18/6/2018 06:35:51
Stalin, mais uma vez

Manoel Hygino

Enquanto se busca identificação e prisão dos responsáveis pelas dezenas de ataques a bancos e estabelecimentos públicos no Brasil, bem como do “incendiamento” (a palavra é pouco usada cá no Brasil) de coletivos, as atenções se voltam para a Copa Mundial de futebol, na Rússia, mas sem o entusiasmo de outras competições. Pudera! Depois do fracasso de quatro anos atrás, em nosso próprio terreiro, não mais se tem a confiança anterior, embora não tenha fenecido a esperança.
Não sei se de propósito, São Paulo exibe “A morte de Stalin”, uma comédia um tanto sem graça, que – na opinião do crítico Inácio Araújo – é “uma maneira de contar uma história, não raro, escabrosa de maneira agradável”. Nem poderia ser de outro jeito e maneira, se considerar que o filme é britânico, com humor britânico, de modo que só se percebe “que se trata de uma comédia quando já se passou um terço de duração”.
Quem viu o filme comenta que, no princípio, Kruschev descreve, aos risos, como matava alemães presos após a batalha de Stalingrado. Não era motivo de riso, mas as lideranças políticas russas tinham sua maneira de ver e sentir.
Ademais, o final de vida do poderoso líder soviético já foi relatado inúmeras vezes e com inúmeras versões. Há exatamente três anos, por exemplo, lançou-se aqui o livro “A morte de Stalin”, sobre o episódio, em quadrinhos, traços e textos simples, tradução da publicação francesa.
Apresentado originalmente em Paris, em 2014, o livro mereceu prêmio como de melhor HQ no festival “Encontros com a História”. A obra narra em tom de sátira o clima de conspiração na União Soviética com o desaparecimento do líder, em 1953. Mas como teria sido mesmo a morte de um dos homens mais poderosos do mundo do pós-guerra? Enfim, Stalin era durão, porque duríssimo, exercia policiamento rigoroso sobre os que poderiam pretender sucedê-lo, enfim, sobre todo cidadão russo. Não se esquecerá da incessante perseguição ao seu principal adversário, Leon Trotsky, assassinado no México, com uma picareta de quebrar gelo, em 1940.
O domínio de Stalin, sucessor de Lênin, era ilimitado. Edward Radzinksy, autor de mais de um livro sobre períodos marcantes da Rússia, com o novo regime, descreve o final. Teria sido estrangulado por Kruschev, Beria e Malenkov. Nada disso, porém, correspondeu à verdade. Segundo Radzinky, o líder faleceu em consequência de um derrame, Acidente Vascular Cerebral, um AVC fulminante.
Svetlana, a filha, conta: “ele abriu seus olhos pela última vez. Sua aparência estava desfigurada. De repente, sua mão se levanta, parecia querer golpear algo no ar ou nos ameaçar. No momento seguinte, seu espírito, após um esforço final, rompe de seu corpo”.
Não só Radzinski considera que Stalin fizera nascer nas pessoas o sentimento de que eram vitoriosas, porque tinham uma sociedade única, como nunca houvera. Os muitos autores são unânimes: suas regras ninguém ousava desafiar e quem tentava não sobrevivia. Centenas de personalidades foram eliminadas, bem como mais de 5 milhões de famílias camponesas. I. Rybin e Dimitri Volkogonov contam não muito diferente: Stalin fora encontrado estatelado no chão, só de camiseta, calças e pijama. Não conseguia falar, mas levantava a mão. Às 5h50, em 5 de março de 1953, morre.


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Por Manoel Hygino - 15/6/2018 07:28:30
A violência pré-banalizada

Manoel Hygino

O escritor Emanuel Medeiros Vieira, nascido em Santa Catarina, caminhante pelo Brasil e fora dele, reside agora, novamente, em Brasília, onde goza de simpatia e bom relacionamento. Vai enfrentando, estoicamente, o câncer que só consegue vencê-lo em determinados momentos do dia, impedindo-o de dedicar-se à missão: escrever.
Não desanima, e seus textos e poesias valeram-lhe indicação pela Associação Internacional de Escritores e Artistas, IWA, ao Nobel de Literatura, sobre o que falarei proximamente. Enquanto fluem os dias, dolorosos para Emanuel, ele faz reflexões e lembra os anos de chumbo, quando preso e torturado pela revolução ou ditadura militar.
Em fevereiro último, em bom instante de saúde, Emanuel me encaminhou e-mail sobre a Campanha da Fraternidade 2018, promovida pela Conferência dos Bispos do Brasil, com temas “Fraternidade e Superação da Violência” e “Vós sois todos irmãos”. Na oportunidade, o presidente da entidade, cardeal Sérgio da Rocha, de Brasília, afirmou: “os grupos sociais vulneráveis são as maiores vítimas da violência”.
O alto dignitário ressaltou que as várias formas de violência no Brasil são praticadas contra os negros, os jovens e as mulheres, mas descreveu também que “a corrupção é uma forma de violência e ela mata”. “Ao desviar recursos que deveriam ser usados em favor da população, os políticos acabam promovendo uma outra forma de violência contra o ser humano, a miséria”, embora o escritor enfatize que não somente eles (políticos) são responsáveis.
Concorda com Dom Sérgio, que acentuou ser “um equívoco achar que superaremos a violência, recorrendo a mais violência”. Na oportunidade, Dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, catarinense de Brusque, apelou: “vamos trabalhar para que a cultura da paz prevaleça e a gente viva num mundo onde, ao menos, haja respeito mútuo”.
O poeta comentou: “o que acaba com a autoestima de um povo é a falta de conhecimento e ignorância”. Além da falta de fibra, “essa carência de solidariedade, essa obsessão por engenhocas eletrônicas, sem nenhum controle do instinto (já está em Freud: “a violência: inata do ser humano só pode ser coibida pela lei”).
Quase finalizando: “a violência banalizada em todos os lugares, nas escolas, o império do tráfico, a falência e comunicação entre pais e filhos, o sonho de ser modelo ou atriz, vai gerando uma sociedade de sonâmbulos morais”.
Sente-se ainda prisioneiro na cadeira de tortura, em que havia um crucifixo na parede. O militar sem farda o olha e aconselha: “pede para Ele; Ele te salvará?”, perguntou, num sorriso cínico. Cristo quieto na cruz. O homem musculoso ligou a máquina: gritos, mais gritos, só gritos. O minuto parecia uma hora, ou a eternidade toda. O Crucificado em silêncio. Um guarda no térreo berrou eufórico: “gol do Corinthians”. O Doi-Codi era no bairro chamado Paraíso.
Introduzido no carro para transferência. Os agentes gritavam, “saiam da frente, são terroristas”, e as pessoas olhavam horrorizadas. Um agente disse: “não temos nada contra vocês. Se a revolução de vocês ganharem, pagando bem, a gente bate também naqueles que vocês mandarem.
O Crucificado? Perdi-o de vista. Talvez esteja numa igreja velha”.


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Por Manoel Hygino - 9/6/2018 08:21:42
As nossas vantagens

Manoel Hygino

Difícil escrever no Brasil sem se deixar influenciar pelo período ora vivido. Quando as autoridades, nos três Poderes, perdem a confiança do povo, tremem as instituições e abre-se espaço à explosão de sentimentos não contidos de agressão resultando na violação de bens e entes.
A onda de ataques a coletivos, carros, prédios públicos, delegacias de polícia, agências bancárias e correios e de rebeliões nos presídios, causa mais do que preocupação – gera medo. Teme-se sair à rua ou ficar em casa, deslocar-se de um local a outro, na via urbana, nas estradas e nas regiões rurais.
A inquietude não se restringe ao Sul de Minas ou ao Triângulo, às cidades balneárias, atinge também o Vales de Jequitinhonha e do Paranaíba, o São Francisco, a Região Metropolitana de Belo Horizonte, estende-se à Bahia e a todo o Nordeste, com ênfase no Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará, alcançando o Norte e os estados fronteiriços.
Observa-se que o objetivo se concentra em obstar a prestação de serviços públicos, inclusive os policiais, assim como a rede de transportes coletivos e de comunicação. Há explicação, portanto: indispor principalmente a classe média e o trabalhador.
Em todo caso, as atenções se voltam para a Copa do Mundo, neste mês das festividades juninas, religiosas e populares. O brasileiro confia em que não se repita o vexame de quatro anos atrás, com o humilhante placar imposto pela Alemanha ao Brasil.
Enquanto em Uberaba o prefeito decretava, há alguns dias, situação de alerta pela onda de atentados a peças fundamentais ao normal funcionamento da cidade, o técnico Tite liberava sexo para os jogadores da seleção canarinha, visando à Copa da Rússia – mas apenas nas folgas. O detalhe é significativo: nos períodos de concentração, os jogadores ficam proibidos de levar acompanhantes para os quartos.
Esquecem-se as observações feitas em 2014. Lembrávamos então, com Maria Lúcia, que a Alemanha conquistara 103 prêmios Nobel; que o salário de professor do ensino público era de 30mil dólares por ano, enquanto no Brasil era de 5mil dólares no mesmo período; que navios em trânsito por dia nos portos eram 3.800 na Alemanha e 315 no Brasil; que o número de patentes de novas invenções por ano era: Alemanha 5.300 x Brasil 540; número de satélites colocados em órbita por foguete próprio – Alemanha 112 x Brasil 0; submarinos nucleares, Alemanha 11 x Brasil 0. Mas, nem tudo era tristeza: o número de jogadores das seleções com brinquinhos nas orelhas e cabelos pintados: Brasil 9 x Alemanha 0.
Quais seriam, agora, os escores de parlamentares e assessores de alto nível no governo federal e estaduais, imersos em investigações por suspeita de improbidade administrativa, desvios de recursos, lavagem de dinheiro? Quantas rebeliões nos presídios? E quantos assassinatos sem esclarecimento e mortes nas estradas? E na Alemanha? São respostas sumamente difíceis por quem de dever, a não dos técnicos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


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Por Manoel Hygino - 8/6/2018 07:00:29
Quem paga o pato

Manoel Hygino

Com a greve dos caminhoneiros, quem pagou o pato não foram só os habitantes deste país, embora 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos ficassem sem se alimentar, até os palmípedes e morreram. Sem falar no consumidor principal, o homem, ameaçado de não dispor de gás para fazer sua comidinha ou aquecê-la. Para glória de Evo Morales, o Brasil seguiu ajudando a Bolívia silenciosamente, importando um produto essencial.
Houve ou não empresários em apoio à greve? Mesmo depois da edição das medidas provisórias de acordos com os caminhoneiros, a paralisação prosseguiu por mais dias. A União está torrando R$ 10 bilhões pelo fim do movimento, embora quem pague o pato, seja o Brasil, isto é, o cidadão, cada um de nós. Como sair desta situação?
O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, que se empossará no dia 21 como vice-presidente Corregedor do Tribunal Regional Eleitoral (o presidente será o desembargador Pedro Bernardes de Oliveira), em livro lançado em março de 2015, durante congresso de juízes do Mercosul, em Foz do Iguaçu, lembrou a propósito: como são “saudáveis para o regime democrático a realização de protestos e a reivindicação de direitos pelas pessoas”. Mas, por outro lado, “o progresso de um país depende também do fortalecimento das instituições. E não prescinde da conduta ética dos cidadãos”.
Observa que o mundo, desde 2008, mergulhou em grave crise econômica, que inclui Estados Unidos e China, que sofrem seus efeitos. Adiante, sustenta que “a conjuntura respinga de maneira preocupante no Brasil. Nos últimos doze anos, fincamos nossa
estabilidade econômica no modelo exportador de mercadorias (commodities). Agora vivenciamos a perigosa combinação do endividamento governamental, diminuição sensível do crescimento econômico e risco da volta da inflação”. Era 2015, bem antes das medidas “benévolas” tomadas pelo governo para pôr fim à paralisação rodoviária deste ano.
O magistrado dá uma lição: “governos, com raras exceções, gastam mal o dinheiro arrecadado com impostos. Um país emergente, contudo, deveria seguir o ditado popular: “se o cobertor é curto, cobre a cabeça e descobre os pés”.
Atualizemos parte do texto do magistrado de São João del-Rei. Em julho de 2013, nossos governantes e políticos se surpreenderam com eloquentes manifestações de rua, estimuladas pelas redes sociais. “Milhares de cidadãos saíram às vias públicas para protestar, dentre outros temas, contra a má qualidade dos gastos públicos, as deficiências nos setores da saúde, educação, transportes públicos, e a corrupção”.
O Brasil atravessa um período extremamente difícil, e a preocupação se estampa no semblante das pessoas. Depois dos caminhoneiros, que outras corporações, de empresários ou trabalhadores, poderão cruzar os braços?
Há bem tempo, em palestra, o ministro Sydney Sanches afirmou “que em todos os países, o futuro era imprevisível, mas que, no Brasil, até o passado é imprevisível. Salientou, assim, que, quando um ato é praticado, nem sempre é possível saber quais serão os efeitos jurídicos que poderá ter no futuro. Essa frase foi repetida recentemente pelo ministro Pedro Malan. Ora, quando os juristas e os economistas concordam em reconhecer que vivemos num clima de instabilidade jurídica, há uma reação imediata que se faz necessária.(...)”.


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Por Manoel Hygino - 7/6/2018 07:45:28
Os trilhos do progresso

Manoel Hygino

A greve dos caminhoneiros terminou há vários dias, mas deixou funestas consequências no cotidiano brasileiro, resultado de uma visão um tanto estrábica da realidade. Ao longo do tempo, preferiu-se e adotou-se a solução ferroviária para a comunicação entre extensas regiões e o escoamento da produção.
Lamentavelmente, o Brasil se diz com pressa e esta é repetidamente sinônimo de imperfeição. Nas pequenas coisas e nos grandes empreendimentos, assim ocorre, mas não se aprende. Depois da paralisação do transporte rodoviário por cerca de dez dias – dez dias que abalaram a nação, para repetir o título do livro de John Reed sobre a revolução russa de 1917 –, chegou-se à conclusão de que, mais uma vez, se errara.
Hoje, segundo leio nos jornais, seriam necessários quinze anos para reparar o mal, em busca do tempo perdido, para furtar de Proust o raciocínio. A malha ferroviária do Brasil tem 30,5 mil quilômetros, enquanto a rodoviária chegou a 1,7 milhão de quilômetros. Percentualmente: 1,7% de ferrovia contra 61,1% de rodovia.
Com a extensão territorial do país, continua-se a insistir em aproximação e integração. Os antigos governos não estavam preparados financeira e tecnicamente para implantar grandes estradas de ferro para responder aos imperativos do desenvolvimento. Lideranças regionais cuidaram, assim, de estender trilhos entre regiões distantes, diante da lentidão ou da letargia oficial.
No caso específico do Norte de Minas, já antes da República se organizara uma sociedade anônima, sediada no Rio de Janeiro, a capital do país, para se construir uma ferrovia ligando Montes Claros, a principal cidade, a Extrema, no Rio São Francisco. As primeiras providências vieram no ano seguinte, quando os engenheiros se puseram em ação. Houve festa, com música e foguetório, passeatas...
Tinha-se projetado antes outras ferrovias, mas ficaram no papel, como se diz. A depois denominada Central do Brasil, porém, continuava um tanto a passo de tartaruga, mas andava. Foi aí que entrou em cena Francisco Sá, como lembra Hermes de Paula, médico e historiador, que registra em livro a invasão da cidade por tarefeiros e auxiliares. Os trilhos iam chegando. Em 7 de junho de 1924, o ministro nascido na região inaugurou a estação ferroviária de Bocaiúva, causando ciúme na gente de Montes Claros. O tempo fluía e a ansiedade aumentava.
A inauguração seguinte, fim de linha, levou o ministro Francisco Sá para a solenidade em 1º de setembro de 1926, considerado desde então “o maior dia de Montes Claros”. A estrada chegara para facilitar o comércio, as comunicações e a indústria, eu inevitavelmente seguiria o exemplo.
Como se esperava, houve discurso, bandeirinhas de papel crepom, queima de fogos, manifestações populares que atraíram a população. Ofereceram-se banquetes e baile, assentando-se a pedra fundamental do monumento que se ergueu na praça junto à Estação. Repetindo: com a paralisação rodoviária de maio de 2018, pôde-se sentir a importância do transporte por trilhos, inclusive porque, nos incômodos dias recentes, o metrô de Belo Horizonte também interrompeu seus serviços por alguns dias e horários. Voltar atrás na memória pode ajudar na definição de planos e projetos úteis à sociedade.



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Por Manoel Hygino - 4/6/2018 07:12:13
A via sacra dos tributos

Manoel Hygino

A greve dos caminhoneiros ainda repercutirá pesadamente no dia a dia dos brasileiros. Venceram-se apenas os entraves mais graves, um pré-caos, para impedir a marcha da nação a tempos mais funestos. Muito não se contou, nem se esclareceu ainda, sobre a paralisação de maio de 2018. Um movimento tão extenso, abrangendo todos os estados e o Distrito Federal, não se daria espontaneamente, sem que os muitos milhares de caminhoneiros tivessem conseguido adesão de Norte a Sul, de uma hora para outra. Os órgãos de inteligência certamente conheciam articulações e ficam na obrigação de revelar nomes ao povo.
Uma das causas da paralisação, a principal, suponho, não atinge exclusivamente essa categoria profissional: o alto vulto dos impostos. Não é de hoje. Há algum tempo, Francisco Guedes de Mello me encaminhou uma relação informando os países em que menos se trabalhou em um ano para pagar tributos, em 2011. Em primeiro lugar, as Maldivas, com zero horas, seguido dos Emirados Árabes Unidos, com 12 horas; na Europa, o sexto lugar – Luxemburgo, com 59 horas; a Suíça, em oitavo, com 63, e Irlanda com 76 horas. O Brasil comparecia à frente em todo o mundo com 2.600 horas, enquanto em 2º lugar estava a Bolívia, com 1.080, e o Vietnã, com guerra e tudo, com 941 horas.
Se isso já era muito, tínhamos a honra de ostentar a maior carga tributária do mundo, conforme dados do Banco Mundial (Doing Business 2011).
Não só caminhoneiros (e empresas do setor) pagam caro em impostos, nas cargas interestaduais: 2,65%. Medicamentos, por exemplo, levam consigo 44,4%; a conta de luz, 47,87%; o café, 36,52%, e assim por diante. O papel higiênico, cuja falta é notada na Venezuela, vem aqui com 40,5% de tributo embutido, sem falar na conta de telefone – com 49,78%, o cigarro (felizmente não fumo): 81,68%, além do macarrão, onerado em 35,22%.
A cerveja aparecia com 56% de imposto e a cachaça com 83,07%, evidentemente muito pesado para o incauto consumidor. Para aquecimento, observe-se que o cobertor traz consigo o peso de 37,2%.
Atente-se, ainda, para o fato de que, além destes tributos, o cidadão paga de 15% a 27,5% do salário a título de Imposto de Renda. Fora colégio dos filhos, IPVA, IPTU, INSS, FGTS etc.
A máquina administrativa não funciona sem combustível, isto é, sem os recursos dos impostos. Ficou provado: o atendimento das reivindicações dos caminhoneiros e das empresas transportadoras de combustíveis vai gerar novos ônus para o cidadão brasileiro, já suficientemente informado a respeito pela mídia. Serão diminuídas as verbas destinadas à saúde, à educação, ao esporte e outras áreas. Daqui menos de sessenta dias saberemos onde mais seremos sacrificados. Devemos precaver desde já. O aperto verá irrevogavelmente.
Apesar de tudo, continua – embora menos ostensivamente – a campanha política para as eleições deste ano, mesmo não se sabendo exatamente os nomes dos indicados e suas respectivas plataformas. Chamou-me a atenção a nota do colunista Leandro Mazzini, na edição da última sexta-feira: “Lula faz campanha dentro da cadeia. Tem usado os aliados que o visitam. O vereador Eduardo Suplicy levará mensagem do ex-presidente para a Parada Gay em São Paulo”.


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Por Manoel Hygino - 2/6/2018 07:43:43
A ira despertada

Manoel Hygino

Mesmo que ela acabe antes do esperado, o problema suscitado pela greve dos caminhoneiros não está resolvido. De fato, o movimento foi muito mais sério do que se pensava ou se pensaria. Eu lembro que, anos atrás, já o ex-ministro Rubens Ricupero dizia: “incêndios de ônibus, saques, bloqueios de estradas são sinais ominosos que deveriam preocupar, mais que o funk, ostentação nos shoppings”.
Tudo acontecia antes esporadicamente. Depois dos protestos de junho de 2013, tornou-se rotina. Sugere deterioração grave da coesão social, pois prejudica, sobretudo, os mais vulneráveis, os habitantes do mesmo bairro que os perpetradores.
É, sob todos os aspectos, preocupante a situação. Vivemos um processo de ampliação e elevação dos níveis de insatisfação, não mais restrita aos segmentos mais sofridos da população. Naquela época, a danificação ou destruição tinha como objeto o próprio causador da cólera: o trem que descarrilou, o ônibus que aumentou de preço. Grupos se levantam contra aquilo que se lhes apresenta como prejudicial ou sacrificante e nada mais ofensivo diretamente que os impostos.
Assim, na atual conjuntura, há uma participação geral contra tributos, retratada na solidariedade das pessoas aos motoristas dos caminhões, expressa em fornecimento gratuito de alimentos àqueles que paralisaram suas atividades. Entraram em ação até criminosos, como se verificou no Rio de Janeiro, ou ainda os milicianos, aos quais se acusa de inumeráveis tropelias na região.
Finalmente, os donos das grandes empresas puseram suas manguinhas de fora. Fornecem alimentos e outros adjutórios, a fim de que seus empregados se mantenham paralisados. O que se havia de temer é a ampliação do movimento, incentivando-se pela impunidade, em que o Brasil exerce a liderança.
Antônio Álvares da Silva, professor de direito, aliás, ponderou, em outra ocasião, evocando a lição histórica: Vis vi repellitur: “a reação do Estado e da sociedade tem que ser pronta, contundente, imediata e dentro da lei. A ciência do direito, que tem o dever de ser servir à vida, está, na obrigação de fornecer às autoridades os instrumentos jurídicos necessários: uma lei que sujeite aos juizados criminais regulados pela lei 9.009/95 os crimes de qualquer espécie praticados em demonstrações públicas, presos em flagrantes serão processados”.
Pela simples enunciação dos setores, grupos ou pessoas participantes do crime cometido neste final de maio, vê-se que são muitos os culpados. Todos devem responder por seus atos, pessoas físicas ou jurídicas, mandantes, empregados e vassalos.
“Bastará esta reação do Estado e, em pouco tempo, o mal estará banido. Tudo se fará dentro da legalidade e do Estado de Direito, pois é inerente às democracias punir imediatamente e com severidade aqueles que ferem as leis. Se assim não agirmos, estes baderneiros se organizarão, formando milícias paramilitares e constituirão ameaça ao próprio Estado. Então estará em risco a ordem jurídica, exatamente porque se omitiram aqueles que têm a obrigação de defendê-la”.


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Por Manoel Hygino - 30/5/2018 08:44:13
O país que aí está

Manoel Hygino

A greve dos caminhoneiros incomoda o Brasil há vários dias, gerando repercussão altamente perniciosa aos que vivem neste país. Mais do que incomodar, causa prejuízos à confiança em quantos insistem em depositar boas expectativas sobre nosso futuro. O presente está aí, escancarado e doloroso, para quem atravessa tão tormentoso período, que poderia ser de tranquilidade e de realizações.
Tantos dias passados do início do movimento que paralisou o país, ele nos lembra, por óbvios motivos, como assinalei em escritos anteriores, aquele que resultou no relato de John Reed. O livro recebeu o título de “Dez dias que abalaram o mundo”, transformado em filme, enquanto se sepultava o corpo do autor junto ao de Lênine na base do Muro Vermelho do Kremlin.
Outras personalidades certamente estão, neste momento, descrevendo as dificuldades remanescentes da paralisação de maio; quando não a angústia da nação, com mais de 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados e enfrentando a borrasca, embora pudesse oferecer a seu povo paz e felicidade.
Mais de um século transcorrido, o Brasil vive problemas que já deveriam inexistir, tantos os exemplos que se colhessem no desenrolar da história, mas não o foram. No instante em que redijo estas mal traçadas linhas, o país segue parado, frustrando os que se esforçam para dar sequência à construção de um lugar melhor para viverem as vindouras gerações.
Oxalá não tenha êxito os inúmeros aproveitadores da situação, de todas as procedências e tendências. Porque milhões de trabalhadores se encontram ociosos, enfrentando vicissitudes sem encontrar meios de sustentar-se e à família.
Somente agora se desperta para a dura realidade, para as causas múltiplas que geraram o caos anunciado e pressentido. A palavrinha de quatro letras – Caos – passou a fazer parte das manchetes das folhas que circulam, porque os patrícios que circulam pelas rodovias ou ruas já o padecem no sacrificado cotidiano.
Monteiro Lobato e os remanescentes da antiga luta do “Petróleo é nosso” devem sentir-se frustrados, porque o ouro negro, fator de progresso, resultou em inquietação. Esta poderia conduzir a desvios gravíssimos de conduta dos que não estão “nem aí” para os superiores interesses da pátria. Aliás, uma palavra pouco utilizada em tempos mais recentes.
Escondeu-se a verdadeira face do problema do petróleo. Se era fator de esperança, chegou a quase desastroso, pela insânia voraz dos maus brasileiros que não podem ver uma porta de cofre aberta.
No domingo, 27 de maio, gente de todos os recantos se perguntava como seria o dia seguinte, diante da falta de meios de transporte e de combustíveis. Os médicos poderiam ir aos hospitais? E a enfermagem? E o bancário ou balconista? Domingo, em muitas cidades, não houve veículos coletivos. Mas era um dia para descanso. O seguinte, contudo, trabalho. Como fazer? Para Antônio Machado, omite-se presentemente, “a captura do Estado por oportunistas de todo tipo”.
Darcy Ribeiro dissera: “não gostamos do Brasil que aí está, tão espoliado pelos ricos e tão sofrido pelos pobres.


83349
Por Manoel Hygino - 29/5/2018 08:22:04
Sintomas dramáticos

Manoel Hygino

Quando se atravessa situação como a do Brasil de nossos dias, penso no clima que antecedeu à Revolução Francesa e no da Revolução Russa, cujo centenário se registrou no ano passado. Seria prudente que mais pessoas lessem a respeito desses dois momentos históricos, para (quem sabe?) oferecer alguma contribuição à amenização e, depois, à solução do problema que ora nos atormenta.
No caso específico da segunda, seria oportuno lembrar como era Petrogrado, depois Leningrado e antes São Petesburgo, cidade então com mais de dois milhões de habitantes e capital da Rússia. No inverno de 1916, o soberano ainda estava em seu palácio e uma aristocracia cosmopolita dançava pelos salões. Em verdade, porém em dezembro daquele ano, houvera uma crise no governo, mas ninguém compreendia plenamente como a situação se agravava rapidamente. Para o historiador Alan Moohead, já era explosiva.
Lá como cá agora, o povo estava insatisfeito e se sentiam sintomas sérios de uma extrapolação. Na capital dos russos, assistiam-se a distúrbios e não se sabia a maneira de preveni-los. Um dos personagens destacados do período era o padre Gapon, que as multidões aplaudiam e merecia respeito de setores oficiais. Em 1 de janeiro de 1917, ele mandou um bilhete ao Czar dizendo:
“Não acrediteis nos ministros. Eles vos estão enganando com respeito ao verdadeiro estado das coisas”. Enquanto isso, as várias correntes políticas defendiam ideias e atiçavam mais lenha à fogueira.
Aconteceu o que se sabe e que repercute até hoje na grande nação (e no mundo), embora decorridas décadas da vitória da revolução bolchevista. O americano John Reed, autor de “Os dez dias que abalaram o mundo”, descreve bem a situação da segunda metade do século XX. Nem tão longe estamos.
Ao encerrar-se a terceira semana do quinto mês de 2018, neste Brasil descoberto por Cabral e alvo de tamanhas falcatruas de maus brasileiros e não brasileiros no decorrer de tantos decênios, identifica-se o clamor de importantes segmentos da sociedade. Contra políticos, determinada imprensa e jornalistas, homens de empresas, líderes partidários e todos mais quanto possam existir, inclusive os incentivadores de confusão e de distúrbios, nas cidades e no campo.
A greve dos caminhoneiros é a continuação de uma série de fatos sintomáticos de ameaças ao bem-estar da comunidade e do próprio estado democrático de direito, sobre o qual tanto se fala e pouco de protege. A paralisação do transporte nas rodovias do país põe em risco o abastecimento geral da população, do alimento aos medicamentos e gases medicinais, a locomoção das crianças às escolas, dos trabalhadores que têm de ir e vir à jornada, além das mães de família que precisam comprar os produtos, vegetais já murchos ou apodrecidos, para encher a barriga da prole.
E, se falta pão, corre-se perigo. A Revolução Russa durou três anos e só terminou com derramamento de muito sangue.
Perigos à vista.



83338
Por Manoel Hygino - 26/5/2018 07:19:14
Embaraços à vista

Manoel Hygino

Em espanhol, como sabeis, “embarazada” significa “grávida”, embora nossos dicionários registrem o vocábulo “embaraço” como sinônimo de “gravidez”. Pois com a greve dos caminhoneiros, percebemos como a atitude adotada por uma categoria profissional pode embaraçar, causar estorvo ou obstáculos, a toda uma comunidade.
Na vida social, das famílias, ocorrem presentemente mudanças radicais, que nossos avós sequer pensariam ou admitiriam. As transformações se processam não apenas no âmbito de estudos, não são meros prognósticos ou ideias. Na própria religião católica, em cujo seio nasceu grande parte do mundo que fala português ou espanhol, há transformações.
A declaração do papa, em meados de maio, ao receber um chileno que se dizia vítima de abuso sexual por sacerdotes, causou surpresa, quando não espanto. A tolerância de Francisco com relação à sexualidade surpreendeu. Ao queixoso Juan Carlos Cruz, o pontífice teria dito: “Deus o fez assim e o ama dessa maneira, e para mim não importa. O papa o ama desta maneira, e você deve ser feliz do jeito que é”.
Aproximadamente na mesma ocasião, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cá no Brasil, deve ter tomado a decisão (não a conheço) se permitiria ou proibiria união estável entre mais de duas pessoas. O CNJ marcara reunião para o dia 22 de maio, quando se aprovaria o registro da união estável de mais de duas pessoas, as chamadas uniões poliafetivas.
O assunto não é novidade. A matéria está no Conselho desde 2016, quando a Associação do Direito das Famílias e das Sucessões requereu proibição deste tipo de união. A então corregedora nacional de Justiça, Nancy Sandrigh, recomendou aos cartórios que não oficializassem uniões deste tipo até se discutir o mérito da questão.
O atual corregedor, João Noronha, votou pela proibição total das uniões poliafetivas, sob argumento de que a Constituição e o Código Civil não preveem este tipo de situação. Quando a ação foi apresentada ao Conselho, há dois anos, haviam sido identificados três casos de uniões registrados nos cartórios: entre um homem e duas mulheres; outra com três homens e duas duas mulheres; e uma terceira, de três mulheres.
Aguarda-se o que virá depois do fim da paralisação dos caminhoneiros e da efetiva aplicação das novas regras sobre essas uniões. Dois problemões para uma república, que precisa resgatar o status que lhe permita usar o R maiúsculo na inicial. Grandes embaraços, enfim.
Verdade é que, num país como o nosso, heterogêneo, sem a educação que se quer, a decisão do Conselho Nacional de Justiça deverá sobrecarregar os cartórios, quando não as delegacias de polícia. Porque, certamente, o número de casos semelhantes aos já registrados, ampliará enormemente.
Há de evocar-se o episódio de adultério consentido como o de Sara, cujo marido Abrão, depois Abraão, deixou sua bela esposa ser cortejada pelo faraó do Egito, por temer ser morto por ele, como está no Gênesis. Só os casos conhecidos no Brasil causam preocupação quanto ao futuro.


83333
Por Manoel Hygino - 25/5/2018 07:13:42
Dois problemas em pauta

Manoel Hygino

Quem acompanha o comentário julgará, possivelmente, que o pessimismo move a redação destes textos. No entanto, há de se convir que o transcurso dos dias neste Brasil de 2018 não aponta outro posicionamento.
Embora o doce enlevo produzido pelo expressivo espaço cedido pela mídia ao casamento real no inglês castelo de Windsor, no último dia 19, sábado, o brasileiro já estava impregnado de inquietude pela sucessão de reajustes nos preços dos combustíveis.
Num país como o nosso, progresso exige energia e transporte, como constou da campanha de JK, que se esmerou no objetivo no exercício do cargo.
Nem tantos anos são passados, mas a energia hidrelétrica escasseia e as estradas são objeto de intermináveis demandas, tal seu estado de conservação (ou de sua falta).
O brasileiro entende de veículos automotores porque vive em um país eminentemente rodoviário. Entre os desejos mais ardentes de cada cidadão estão um celular, uma televisão e um carro ou moto, ultimamente o veículo mais usado em roubos e assaltos.
Aumentar o preço do diesel e da gasolina constitui crime. Não se dá, contudo, maior atenção ao transporte rodoviário, como na recente (ou na presente) situação. Fecham-se as estradas e se impede a movimentação de caminhões que transportam inclusive bens perecíveis para consumo da população. A manifestação dos caminhoneiros é legítima, as autoridades competentes deveriam antever que haveria contestação à incessante elevação de preços de gasolina e diesel, afetando os veículos rodando pelo imenso chão do território nacional.
Evidente que a política de preços de petróleo é correta. O presidente da Petrobras, Pedro Parente, tem razão, principalmente depois da estigmatização da empresa federal pela sucessão de escândalos, com repercussão internacional. Mas o governo como um todo precisa ser sensível às decorrências.
O brasileiro tem de estar consciente da dura realidade a que fomos lançados. Muito mais de doloroso virá pela frente e que não será hostilizando o governo Temer que a situação melhorará, pois vivemos agora os efeitos desastrosos de um período pretérito.
Ademais, não se trata somente de petróleo. O sistema elétrico nacional passa por sérios obstáculos e quem paga pelo desastre é sempre o consumidor, isto é, o cidadão.
Vender ou não vender a Eletrobrás, criada no regime dos militares, é apenas um item na problemática geral. Algo, realmente, muito difícil de se admitir, mas existe e tem de ser tratado com coragem e prudência.
A chuva de 2017–2018, em volumes mais reduzidos do que o esperado, não possibilita confiabilidade às hidrelétricas. Vai apelar-se à termelétrica, de preços elevados. O vento não atende às necessidades complementares do país, nem com ajuda de algum Dom Quixote.
O resultado já está aí. Aumento na conta de luz, inclusive de Minas Gerais, a caixa d’água do Brasil, como dizia o governador Bias Fortes. Preparar os bolsos. Há um consolo: no Amapá, o reajuste nas tarifas será de 37%.
Valha-nos Deus.


83329
Por Manoel Hygino - 24/5/2018 06:37:05
Abrindo a economia

Manoel Hygino

Em entrevista à revista Veja, Martin Wolf, principal comentarista do “Financial Times”, se mostra pessimista com relação a uma solução política para o Brasil fora do centro, alertando que a polarização nacional pode ter consequências, que classificou de “trágicas”.
Foi categórico: “não se pode esquecer que a economia já passou por uma recessão com queda real de 9% na renda per capita em apenas três anos, que a situação fiscal é insustentável e que um escândalo de corrupção tragou alguns dos principais empresários do país, justamente do setor que afeta diretamente o crescimento, que é a construção civil”.
Aponta caminhos: “é preciso abrir a economia, que ainda é relativamente fechada, fazer a reforma tributária, uma reforma trabalhista de verdade, investir mais em infraestrutura e criar políticas públicas que aumentem a poupança interna”.
Na longa entrevista a Ana Clara Costa, nenhuma referência à antes tão apregoada “reforma agrária”, embora supostas lideranças entrem em cena frequentemente incitando invasões de propriedades privadas: no campo e na cidade, porque é assim agindo que se consegue maior publicidade, talvez exatamente o que desejam ou pretendem alguns.
O fechamento da economia, mencionada por Wolf, nos conduz naturalmente ao Paraguai do tempo de Dom Gaspar Rodriguez Francia, o temido El Supremo, proclamado ditador perpétuo do país, em congresso especialmente reunido em 1816. Sob pressão dos grandes capitais ingleses e do bloqueio imposto por Buenos Aires, Francia fechou a pátria para o mundo.
O empresariado local, o clero e a aristocracia, ligados à Argentina, passaram a boicotá-lo. Francia não se intimidou. Mandou matar todos os que o hostilizavam. Foi um Deus nos acuda, porque o misantropo, detentor dos destinos guaranis, dirigia tudo sozinho, transferindo para o Tesouro o que pertencera às classes eliminadas.
Quanto à distribuição das terras, tomou atitudes antes não pensadas. Dividiu-as em pequenas e médias propriedades, alugando-as ao povo. Cada cidadão, segundo Carlos de Oliveira Campos, possuía sua chácara, plantação e gado. Eram as denominadas “estâncias da pátria”, cuja renda revertia para o Estado. Em 1823, ele descreveu e mandou distribuir um folheto, em que afirmava: “as pessoas trabalham em união comunitária, cultivando áreas que se destinam ao poder público, dessa forma diminuindo e muito nossas necessidades, segundo as regras do Divino Mestre Jesus Cristo”.
O Paraguai exportava, mas quem o fazia era o governo, detentor de monopólio. Criou-se uma entidade importadora, para importar e distribuir ao povo os artigos que vinham do exterior, algo como uma estatal. Explicação: os nativos eram os donos do país.
Houve inimigos e opositores à maneira de agir. A Francia, pouco importava. Corrêa da Câmara, diplomata brasileiro que visitou Assunção em 1825, declarou: “sem sombra de dúvida, este país é a primeira potência da América do Sul, excetuando-se o Brasil”. No ano de 1824 não havia mais analfabetos.
Francia morreu sozinho em 1840, sem deixar testamento, bens ou dinheiro. Achava que legava às futuras gerações uma sociedade comunitária, cooperativa, próspera e feliz.


83327
Por Manoel Hygino - 22/5/2018 06:13:53
Preservando a história

Manoel Hygino

Lamentavelmente, o brasileiro não dá maior importância à história. Daí, talvez a situação a que chegou a nação neste princípio de século, com desmandos e falcatruas disseminadas por todos os lugares. Grande parte das chamadas elites e dos governos está descompromissada com aquilo que muitas gerações construíram – o patrimônio nacional, fruto de sangue, suor e lágrimas, se me for permitido parafrasear Churchill.
Neste ano que vivemos, registram-se os 150 anos da chegada a Minas do Visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, que pouquíssimos saberão quem foi e que incumbência trouxera de Portugal. A ordem era promover a derrama, substantivo de que já se ouviu falar, mas não suficientemente compreendido.
Seria a cobrança, por bem ou por mal, dos impostos devidos pelos mineiros – aqui nascidos ou moradores – à coroa portuguesa. E eram altíssimos. Um quinto do ouro extraído no território se destinava a Lisboa. Resumindo: a coroa tinha direito a cobrar 20% da produção, anualmente, o que correspondia a 100 arrobas do precioso metal. Se não o fizesse, seriam adotadas medidas drásticas, com execução fiscal em massa.
Acontece, contudo, que já existia um povo em Minas, no século XVIII, e ele não se conformava. O descontentamento se converteu em aspiração por um governo próprio. Em Vila Rica, os mais importantes, os letrados, conhecedores da independência da América do Norte, queriam fazer o mesmo. Nasceu, assim, a ideia da Inconfidência, da conjuração, que não se consumou, mas aqueceu os motores dos que já alimentavam o sentimento de pátria.
Não se falou nisso nas comemorações do 21 de Abril, em Ouro Preto, este ano. Pelo que se percebeu na mídia, desfigurou-se a solenidade, que exalta um dos mais sérios movimentos emancipacionistas brasileiros, suas lideranças e participantes. Em Ouro Preto, no passado mês, substituiu-se a bandeira do Brasil pela de grupos movidos por outros interesses e motivações.
Pelo menos, contudo, sabe-se que há instituições dignas que zelam e velam o passado, suas tradições e ideais. Dentre tantos, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas, o Arquivo Público, a Academia Mineira de Letras e o Instituto Amílcar Martins cumprem a missão histórica, ampliando suas bibliotecas e tomando iniciativas em reverência àqueles que, no passado, tanto deram de si, inclusive a liberdade e a vida, pelo Brasil que se erguia.
Contrariamente ao dito por Fukuyama, a História não acabou. O povo do Brasil continua lutando pelas suas mais legítimas causas, anseios, demandas e reivindicações, embora haja segmentos que percorrem duvidosos e perigosos, talvez ínvios caminhos.
Diante dos fatos, lembro frases perenes: De Lord Acton: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”; Mme. Roland, a caminho da guilhotina: “ó liberdade, quantos crimes se cometem em seu nome”; Luther King: “I have a dream”; de uso comum: “ó, inclusão social, quanta babaquice se divulga em teu nome”; “ó pobres, quanta roubalheira é cometida em teu nome”.
No entanto, a mais bela é do líder senegalês Léopold Senghor, em visita ao Brasil: “É preferível anteciparmo-nos à história com dignidade do que ter que alcançá-la de qualquer maneira, no ressentimento”.


83324
Por Manoel Hygino - 21/5/2018 07:12:17
Caminhos para a Ásia

Manoel Hygino

Frequentemente, se renova a pergunta: o Brasil é um país sério? A dúvida encontra explicação nos fatos diários vivenciados. Recordo, por exemplo, a notícia que li em 27 de maio de 2015, procedente de Londres. Reportava à ferrovia que a China construíra na América do Sul.
A estrada começaria no Rio de Janeiro, Atlântico portanto, atravessaria a floresta amazônica e a cordilheira dos Andes, terminando na costa peruana.
Segundo o jornalista Gerardo Lissandy, o projeto ganhou impulso com visita do premier chinês Li Reqiang à América do Sul, quando esteve com a presidente Rousseff. Foram assinados 35 acordos de cooperação com o Brasil, englobando áreas como planejamento estratégico, transportes, infraestrutura, energia e agricultura.
Muito entusiasmo entre os representantes do Brasil e da China, argumentando-se que, com a ferrovia, “um novo caminho para a Ásia se abriria, reduzindo distancias e anseios”. Para Kevin Gallagher, professor da Universidade de Boston e autor de estudos sobre as ligações China-América Latina, “seria uma grande conquista e uma peça-chave da relação do país asiático com o hemisfério sul da América...Se esse projeto realmente sair do papel”.
A ressalva tinha suas razões, embora tudo indicasse a efetiva conveniência e importância do empreendimento. “Há uma lógica econômica por trás do projeto”, disse João Augusto Castro Neves, analista de consultoria, já que, nos últimos anos, as relações entre a China e o Brasil têm sido muito focadas no aspecto comercial, com o aumento das exportações de produtos como soja e ferro para a gigante asiática.
Transcorridos dois decênios, todavia, silêncio. Sabe-se que a iniciativa exacerbara as já tensas relações entre Peru e Bolívia, cujo presidente Evo Morales protestou ao saber que a estrada passaria fora do território boliviano. De seu lado, em Lima, Ollanta Humala estrilou.
Até maio de 2018, a situação sofrera profunda transformação. A presidenta deixara o Executivo brasileiro, Humala não está mais no governo peruano, acusado de corrupção. Castro Neves já advertira que havia desafios de engenharia e custos para possibilitar um transporte a Cordilheira dos Andes e desembocar no Pacífico. Se não houvesse planejamento adequado, o projeto terminaria paralisado, como outras grandes promessas de investimentos na região. Tinha razão, como se vê.
A questão, como se admitira, não era simplesmente de injetar dinheiro. Falharam completamente as perspectivas. Longe está a perspectiva de se pôr em operação um trem de alta velocidade, que facilitasse o comércio com a América Latina, de um modo geral, não apenas para servir ao Brasil e a China, sem prejudicar o meio ambiente. A China, que já avançou expressivamente seus negócios com o hemisfério sul-americano (observe-se a concorrência que determinados produtos chineses fazem no mercado brasileiro), perdeu a ocasião de se tornar a “queridinha da América Latina”. Pelo menos, por enquanto.


83322
Por Manoel Hygino - 19/5/2018 07:13:56
O que há pela frente

Manoel Hygino

Conhecendo as vicissitudes do sertão mineiro, já se preparam os moradores da região para possível novo período de escassez de água, embora a estação das chuvas tenha terminado faz tão pouco tempo. É uma fatalidade que vai se repetindo há muitas décadas, séculos, sem se chegar a uma solução possível por novos meios e métodos. A ciência evoluiu muito, mas os organismos oficiais brasileiros não chegaram ainda a uma proposta imprescindível e factível.
Há bem pouco, isto é, em meados de abril, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) sugeriu a continuação do Estado de Emergência em Montes Claros, a maior e mais forte economicamente cidade da região. Um relatório agroclimatológico do município, relativo aos impactos da estiagem prolongada na zona rural, alerta para as consequências inevitáveis. Dá o que pensar.
Mais do que pensar, contudo, é preciso fazer-se algo. A empresa, que enviou o documento à Defesa Civil do município, o fez acompanhar de planilhas e sugestões para elaboração de um plano de ações para combate aos efeitos da prevista seca. Aliam-se, também, as causas do fenômeno: baixa pluviosidade e má distribuição das chuvas, além de altas temperaturas e déficit do balanço hídrico. Os dados advertem que, no ano agrícola que termina em junho, foram registrados apenas 803,2 milímetros de chuva por metro quadrado, bem abaixo da média hídrica de 1.077 milímetros.
Depreende-se que há algo de ameaçador no calendário. Observa-se que o Comitê da Bacia Hídrica dos Afluentes Mineiros do Alto Jequitinhonha, vem lutando para discutir as explorações hídricas, mediante formas técnicas e com sustentabilidade. Para José Ponciano Neto, técnico no assunto, a guerra não está perdida. No caso específico da bacia do Congonhas, por exemplo, o rio pode ser recuperado, tudo depende do homem.
O homem ajuda a destruir, todavia. Na bacia do Congonhas, destaca-se a silvicultura do eucalipto e do pinus, após a devastação – no passado – das matas nativas visando à produção de carvão. Nascentes já secaram e outras agonizam.
Ponciano lembra que Carta Encíclica do papa Francisco alerta que a degradação aumenta por culpa dos poderosos, “mas também pelo desinteresse dos outros”. Acrescenta: “Não são somente as ações que resolverão os problemas globais, mas elas confirmam que o ser humano ainda é capaz de intervir de forma positiva. Como ele foi criado para amar, no meio dos seus limites germinam inevitavelmente gestos de generosidade, solidariedade e inteligência”.
O número dos que se encontram sem trabalho no Brasil presentemente é alarmante. As estatísticas não deixam mentir. No entanto, os milhões de ociosos involuntários não desejarão transferir-se para as áreas rurais. Preferem permanecer em edifícios sem segurança, passando necessidades e correndo risco de vida, como aconteceu recentemente na Praça Paissandu, em São Paulo. Resta esperança, como diz Isaías Caldeira: “No país das palavras de ordens gritadas por uma minoria que nada produz, ainda há uma maioria que acredita no trabalho e no esforço pessoal como forma de ascensão social pra brancos, negros índios e mestiços”.



83319
Por Manoel Hygino - 18/5/2018 07:23:22
Os loucos varridos

Manoel Hygino

Recorremos aos meios de comunicação. No dia 14, delegado da Polícia Federal em São Paulo faleceu, em decorrência de tiro na barriga, durante assalto a sua casa no elegante bairro do Morumbi. No mesmo dia, Auman al Zawhiri, chefe da rede terrorista Al-Qaeda, convocou sua gente para lutar contra Estados Unidos e Israel, em represália pela inauguração da embaixada de Tio Sam em Jerusalém. No dia da solenidade, 52 palestinos perderam a vida nos conflitos na Faixa de Gaza, entre tropas de Israel e manifestantes contrários. A televisão mostrou tudo.

Em Montes Claros, minha cidade natal, em plena luz do dia, numa de suas mais movimentadas ruas, dois assaltantes invadiram uma clínica médica usando armas de fogo e capacetes. A clientela correu em todas as direções. Uma senhora com a filha se ajoelhou, de cabeça baixa, debruçando sobre a filha para protegê-la com o próprio corpo. Um dos meliantes, com mochila nas costas e arma na mão, aproximou-se da mãe para tentar apoderar-se de algo antes de fugir.

O mundo está louco, ou é louco, a julgar pelo que diz Rubem Alves, num artigo que o pensador Francisco Guedes de Melo me enviou, há mais de quatro anos. O palestrista e escritor, para responder a uma pergunta, declarou:

“Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. Eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimentos para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou-se. Todas elas pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito tempo depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem-unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas”.


83316
Por Manoel Hygino - 17/5/2018 07:35:31
O Paraguai pede passagem

Manoel Hygino

Nutro grande simpatia pelo povo do Paraguai, uma nação que aparece na América do Sul como uma espécie de coitadinha, sobretudo depois do caos em que afundou o país com a Guerra do Paraguai, no final do século XIX. Em verdade, o presidente Bartolomeu Mitre, da Argentina, sempre tivera intenção de anexar a República do Paraguai à Confederação da Argentina.
Para atrair o Brasil à aventura bélica, houve proibição do ditador guarani Solano López de nossas embarcações usarem o rio Paraguai para acesso à província de Mato Grosso, impedindo a movimentação de valiosas cargas de erva mate, madeiras e tabaco e causando vultosos prejuízos.
Assim, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Montevidéu decidiram enfrentar Assunção, numa guerra que se desenvolveu de 1865 a 1870, com reflexos altamente perniciosos às três nações.
Houve transformações profundas nas relações entre Brasil e Paraguai no decorrer do tempo, mas o vizinho continuou o primo pobre. O Império virou República e esta, entre outros fatos memoráveis, construiu a Hidrelétrica de Itaipu, o que assegura o fornecimento de energia aos dois lados da fronteira, de modo a prover a demanda industrial, inclusive futura. Ótimo.
Afora, leio nos jornais a informação sobre um belo empreendimento no limite entre nossos países, o que, em princípio, é motivo de gáudio.
O Paraguai vai propor ao Brasil financiar todo o orçamento de mais de U$ 6 milhões para a construção de uma ponte sobre o rio Aspa, que unirá San Lázaro, no departamento de Concepcion, ao Estado do Mato Grosso do Sul.
O titular paraguaio de Obras Públicas e Comunicação, Ramón Jiménez Gaona, anuncia que o ministro Valter Casimiro Silveira, de Relações Exteriores, iria discutir o projeto durante encontro em Brasília. A ponte terá extensão de 200 metros e o investimento do governo paraguaio está estimado entre US$ 6 milhões e US$ 8 milhões. O Paraguai tem interesse de que essa infraestrutura seja construída o mais rápido possível para garantir sua ligação com o Brasil. O empreendimento é considerado estratégico pelos paraguaios. A minuta de acordo envolvendo a proposta já foi entregue ao governo brasileiro.
Não ficou claro que tipo de produção será escoado pela nova ligação. Não consta do noticiário. Por outro lado, teme-se que se torne uma nova e rendosa rota de drogas, de que o nosso Hermano é pródigo.
Evidentemente, as autoridades “brasilenãs” estão suficientemente atentas. O tráfico já nos inquieta demais, exigindo até a participação das Forças Armadas no próprio perímetro territorial.
Os inimigos do Brasil não são mais os da II Grande Guerra. Naquela ocasião, terminado o conflito, o Paraguai se tornou um paraíso para militares e civis nazistas, que fugiam aos julgamentos na Europa. Sem esquecer Menghele, o Anjo da Morte, médico responsável por experiências genéticas, que conseguiu transferir-se para o Brasil e aqui morreu.


83313
Por Manoel Hygino - 16/5/2018 07:05:29
Diante de memorando da CIA

Manoel Hygino

Um documento da CIA, datado de 11 de abril de 1974, encaminhado pelo diretor Willian Colby ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, somente há poucos dias tornado público, agitou os meios políticos, jurídicos e militares brasileiros, por óbvias razões. O memorando foi elaborado dez anos após a Revolução de 1964 (ou golpe, como preferem outros) e divulgado agora, quando todos os presidentes do período ditatorial estão mortos e sepultados.
O mesmo se refere ao período de transferência do poder ao general Geisel, informado de que mais de cem pessoas tinham sido executadas na gestão do seu antecessor, Garrastazu Médici. O sucessor teria orientado que o método de tortura e eliminação dos “inimigos” fosse mantido, mas apenas nos casos que envolvessem os considerados “perigosos”.
Empossado em 15 de março de 1974, o general fez questão de esclarecer que queria fazer a reabertura política, mas sabia que a época lhe exigia muito cuidado para levar à frente seu projeto. Os setores de repressão não concordavam e abriram uma campanha contra os grupos contrários e as prisões ficaram lotadas, sucedendo-se as torturas pelo simples fato de não estar alguém ao lado do governo.
Publica-se, neste 2018, muito a propósito, portanto, no Brasil e Portugal, pela Juruá Editorial, o novo livro de Paulo Fernando Silveira, “O voo do Carcará”, que descreve a suspeita sobre assassinato de um cidadão por agentes do Serviço de Inteligência Brasileiro.
O autor, com dezenas de livros bem sucedidos, conta como numa pequena comunidade no sopé da Serra da Saudade, perto de São Gotardo, a 250 quilômetros de Belo Horizonte, ocorrera a morte de um brasileiro que nada tinha a ver com a situação geral do país. Travava-se de uma guerra entre os militares no comando da nação e os grupos subversivos, lembrando-se a morte de Marighella e Carlos Lamarca.
Nas células se reuniam guerrilheiros, e não apenas homens. Existia, por exemplo, Fernanda – uma bela jovem guerrilheira carinhosamente chamada de Nanda pelos companheiros, de olhos esverdeados, voz aveludada e sorriso enigmático. As discussões ali eram amplas e a troca de informações compreendia até a Operação Condor, chamada de Carcará no Brasil. A missão contava com apoio, não escrito, da própria CIA americana e tinha como objetivo a coordenação da repressão aos opositores de suas respectivas ditaduras.
A execução, em circunstâncias muito raras, de um anônimo homem do interior, numa região em que a agricultura era exercida por gente simples que e sem suspeitas, conduz a uma investigação extensa, que envolve interesses e ações internacionais. “O Voo do Carcará” chega, neste ano, às livrarias do Brasil e da pátria-mãe.
Paulo Fernando Silveira, mineiro de Conceição das Alagoas, membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, advogado por 18 anos, professor universitário, depois de iniciar a carreira como magistrado federal em São Paulo, voltou para o Estado natal, servindo também em BH, Uberlândia e Uberaba no cargo. Sua produção revela um autor consciente, até porque vivenciou, aqui ou em suas viagens internacionais, a aventura à época em que os fatos ocorreram.


83306
Por Manoel Hygino - 14/5/2018 07:03:24
O fenômeno Joaquim Barbosa

Manoel Hygino

Vai-se afunilando o fluxo de candidaturas à presidência da República, o mais conturbado processo de escolha de pretendentes à chefia do Executivo nacional até hoje. Um dos mais fortes quase concorrentes, um ex-presidente, se encontra preso em Curitiba e é tido como fora do páreo, se chegar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O segundo concorrente seria o atual ocupante do Palácio do Planalto, sucessor da impedida ex-presidente, inclinada a uma vaga no Senado. Suspeitas e investigações sobre atos e episódios ilícitos na gestão Michel Temer inibem definições do eleitor a seu favor. Mal acompanhado, pesam contra seu nome as sucessivas denúncias de acusações a assessores mais próximos, inclusive ex-ministros.
Joaquim Barbosa, aposentado no Supremo Tribunal Federal, decidiu não disputar, após filiar-se ao PSB. Foi peremptório: “está decidido. Após várias semanas de muita reflexão, finalmente cheguei a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a presidente da República. Decisão estritamente pessoal”.
O ex-presidente do STF, mineiro de Paracatu, terra ancestral do estadista Afonso Arinos, autor do projeto de lei que fulminou com o racismo no Brasil, como disse o confrade na AML Pedro Rogério Moreira, seria agora a esperança para muitos brasileiros, principalmente depois de sua séria condução do processo do mensalão.
A política, como lamentava Magalhães Pinto, é como nuvem, e assim flui. As opiniões sobre Joaquim Barbosa são múltiplas, algumas sublinhando sua dignidade, sua isenção, outros dando realce à sua maneira estouvada de manifestar-se. Não há novidade. Nasceu no sertão, filho de operário, assinala o desassombrada – expressão do interior mineiro, numa cidade em que se fabricava pinga Paracatulina, que não sei se ainda existe.
Pedro Rogério, acima mencionado, fez suas observações: “sábios da velha ordem que está sendo desmantelada pela força da opinião pública que sustenta a ‘Lava Jato’ decifram o enigma Joaquim Barbosa, assemelhando-o à figura de Jânio Quadros aprimorado à era digital. Jânio inventou a vassoura para ‘limpar a bandalheira’, dizia o jingle de sua vitoriosa campanha.
Barbosa, contemporâneo de nossa época, brandirá o sucessor da vassoura, o aspirador de pó ético, agora conhecido pelo nome de Ministério Público, instituição que moldou o viés jurídico do provável candidato. O paralelismo com o intransigente Jânio é aceitável, mas acaba aí. São homens diferentes na sua composição moral e ética. Torço para a decifração da velha ordem estar errada, pois o Brasil não merece mais sobressaltos, não pode ter mais sobressaltos, como os que atropelaram o Brasil na Era Jânio”. Diria eu: muita gente boa agora votará em branco.


83304
Por Manoel Hygino - 12/5/2018 07:09:26
Tudo segue como dantes

Manoel Hygino

Aconteceu em abril. O presidente da República sancionou, sem vetos, projeto que endurece penas para roubos e furtos, como os de caixas eletrônicos com uso de explosivos. Os delitos passam a qualificados, com prisão de 4 a 10 anos. O furto e roubo dos respectivos equipamentos também aumentam o tempo de prisão. O roubo com emprego de armas de fogo cresce dois terços da pena e, se houver lesão corporal grave, a punição será de 7 a 18 anos.
Não me parece que a simples divulgação da notícia intimide os bandidos, a julgar pelo que se vê e se ouve pela mídia. No mês passado, um mineiro condenado a 236 anos de prisão, foi recapturado em São Paulo.
Iria submeter-se a uma plástica no rosto, sendo detido ao entrar num hospital. O dito cujo escapara da penitenciária de Juiz de Fora, em janeiro, e pretendia não mais ser reconhecido. Condenado 36 vezes, envolvera-se no tráfico de drogas em Contagem e ameaçara policiais, o que constitui imprudência, no mínimo. Agora é prisioneiro em Pouso Alegre. Alegre?
Criminoso não tem medo. O que se verifica no Rio de Janeiro, com a intervenção federal na Segurança, demonstra-o de maneira tácita. Prova está, por exemplo, no que aconteceu, há dias, com a torcida organizada do Vasco, em que se incluem marginais. Estes entraram em confronto com a Polícia Militar, obrigando a paralisação do jogo com o Cruzeiro. Os PMs tiveram de usar gás de pimenta e os pais, que ousaram ir à partida levando crianças de colo, tiveram de refugiar-se nas cabines de imprensa. No segundo tempo, formaram-se novos focos de confusão na arquibancada e a polícia foi novamente acionada. Afinal, essa gente o que quer? Futebol ou tumulto? Violência?
Em todos os estados e no Distrito Federal, em áreas urbanas ou rurais, corre-se risco de ser atacado por delinquentes armados. O número deles, muitas vezes, é superior ao dos contingentes dos postos ou delegacias policiais. Como bandido nada tem a perder, tudo é válido. Crueldades são praticadas, e o abominável se vai tornando corriqueiro.
Há casos quase inacreditáveis. Foi preso no Norte de Minas um cidadão suspeito de participação em sequestro, roubo a banco e assassinato de um delegado no interior da Bahia. Detalhe: era cadastrado com dois números de telefones celulares e com o CPF do próprio presidente da República.
No dia 8, anunciou-se que os Correios fecharão 513 agências no país, com demissão de 5.300 servidores. A explicação é de que se pretende diminuir o número de postos de atendimento. Aliás, eles têm sido um dos alvos preferenciais dos bandidos no interior. Em Montes Claros houve cinco assaltos em um mês.
O brasileiro, a se levar em conta os fatos mais recentes, deve assumir a posição do médium e escritor, também apresentador de televisão, Luiz Gasparetto, falecido em São Paulo. Ele confessava: “não tenho medo de morrer porque convivo com fantasmas o dia inteiro”. É o que ocorre diariamente nas cidades ou nos campos.


83298
Por Manoel Hygino - 10/5/2018 19:36:10
Finalmente, a Faculdade

Manoel Hygino

Abrir ou não abrir novos cursos de medicina? Eis a questão que se pôs à discussão nacional, o que, no fundo, é bom, porque os grandes problemas têm de ser examinados e debatidos em nível amplo, não se restringindo ao interesse de pessoas ou grupos. Medicina é saúde e vida, envolve o país como um todo e todos devemos perceber sua importância para o homem que aqui nasce ou decidiu aqui habitar.

A moratória de cinco anos que se quer estabelecer para instalação de novos cursos, como pretendida pelo governo, há de ser avaliada sob muitos ângulos e aspectos. A criação de novas escolas de formação profissional universitária não diz respeito só à necessidade de preparar jovens para o exercício da atividade de sua inclinação e vocação. O futuro de gerações está em jogo, assim como a de um país com as nossas dimensões e a grandeza de sua responsabilidade no contexto internacional.

Uma comissão ministerial virá conhecer mais de perto a Santa Casa de Belo Horizonte, primeira instituição da área de saúde da capital mineira, inaugurada em 1897, e que aguarda aprovação do MEC para seu curso de medicina. Hoje, a instituição mantém, dentre outros misteres, o maior estabelecimento prestador de serviços do SUS no Brasil, com um hospital central habilitado à internação e assistência de mais de mil pessoas. Muitos de seus médicos já são professores de faculdades, e agora poderão também exercer o magistério em sua própria casa.

Em 1911, quando se lançou a pedra fundamental, na avenida Alfredo Balena, da primeira faculdade de medicina de Minas Gerais, hoje da UFMG, o presidente do Estado era Bueno Brandão, que compareceu à solenidade. Cícero Ferreira, primeiro médico de BH, dos quadros da Santa Casa, lembrou que em nosso Estado a ideia da fundação de uma Escola de Medicina vinha do tempo em que “os destinos do Brasil se achavam manietados aos da velha metrópole”.

Declarou: “só nos resta darmos parabéns a nossa estrela por ter sido a nossa geração a executora destas ideias. No corpo clínico, que constitui consagração da futura faculdade, não falta fé, que é a propulsora dos grandes cometimentos”. “Temos reunidos, no momento atual, os elementos de êxito e a pátria mineira pode agora repousar tranquila e assegurada. A última de suas independências, que era a independência intelectual, há de ser conquistada...”

O grande Miguel Couto, paraninfo da solenidade, fez aplaudido discurso, sentenciando que “um instituto desta ordem é uma casa de ensino e de trabalho, segundo a fórmula – ensinar trabalhando, no laboratório e no hospital, ou melhor no laboratório dentro dos hospitais, para que o estudante, desde o momento em que lhe acudiu a ideia de exercer a medicina, se compenetre de que a nossa arte está toda na observação, aliando a ciência à caridade, se já é uma forma de caridade aprender em uns para acudir os outros”. É chegada, mais uma vez, a hora longamente esperada.


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Por Manoel Hygino - 9/5/2018 07:39:21
A chave de tudo

Manoel Hygino

Otacílio Negrão de Lima é o nome da via pública que contorna a Lagoa da Pampulha. Prefeito de Belo Horizonte no tempo em que Benedito Valadares governava Minas Gerais, deixou marcas de sua gestão na municipalidade belo-horizontina, com obras importantes. Entre elas, a construção da represa da Pampulha, que visava aproveitar a água para abastecer a população.
Bom lembrar. Otacílio chefiou o Executivo duas vezes, a seguinte por eleição popular, depois de conseguir simpatia e apoio exatamente pelas anteriores realizações. No segundo mandato, construiu o Teatro Provisório, no Parque Municipal, que passaria a chamar-se Francisco Nunes. A capital estava sem uma casa de espetáculos à altura da expectativa e dos foros de cultura conquistado, já que o prédio do Teatro Municipal, na rua da Bahia com Goiás, fora vendido. O sonho era um novo Municipal, em outra área, bela ideia de Juscelino, empreendedor nato e corajoso.
Quando JK assumiu a prefeitura, por insistência de Benedito, tinha o propósito de um projeto de um teatro moderno. A situação havia mudado muito, e a obra no Parque Municipal, de alto custo, foi interrompida e aguardou até que Israel Pinheiro, o construtor de Brasília, chegasse ao Palácio da Liberdade. Novas ideias tinham surgido e, assim, nasceu o Palácio das Artes, de que tanto a capital imaginada por Aarão Reis se orgulha.
Mas JK já implantara uma obra portentosa, que tanto destacou Belo Horizonte no cenário internacional. Tratava-se do conjunto arquitetônico da Pampulha, aproveitando o que legara Otacílio. O empreendimento ganhou reconhecimento mundial pela Unesco, ao consagrá-lo como patrimônio cultural. Quando o jogo era permitido no Brasil, gente de todo o planeta se deslocava para o Cassino, não apenas uma casa de diversão, mas também de expressão artística. Os cantores mais populares e conceituados do Brasil, das Américas – de Hollywood inclusive – e da Europa por aqui passaram.
A Pampulha se transformou em cartão-postal de Belo Horizonte, mas sofre os ininterruptos impactos do crescimento da população, mal preparada, ou sem preparo, para sensibilizar-se com a herança recebida e a preservação de um patrimônio, que temos de transferir aprimorado às futuras gerações.
A região é pródiga em atrações outras, como a Cidade Universitária, os estádios esportivos, o Jardim Zoobotânico. Contudo, a degradação é notória e não se pode culpar apenas a administração da cidade pela situação a que chegou aquele pedaço de Belo Horizonte.
A Pampulha cresceu e, com ela, o lixo nas ruas, os despejos na lagoa, cujo destino é muito nobre para merecer tanto desprezo. Recordo e transcrevo o escrito por Le Corbusier, há muito tempo: “a arquitetura preside os destinos da cidade. Ela ordena a estrutura da habitação, esta célula básica do tecido urbano, cuja salubridade, alegria e harmonia são submetidas às suas decisões (...) Ela dispõe os prolongamentos das casas, os lugares de trabalho, os espaços destinados a descanso. Ela estabelece a rede de circulação que põe em contato as diversas zonas. A arquitetura é chave de tudo”.


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Por Manoel Hygino - 5/5/2018 07:20:58
Com a boca na botija

Manoel Hygino

Abre-se o jornal, liga-se o rádio ou a televisão, pode-se mudar o matutino ou o canal, mas não mudam as notícias, principalmente as más, que dominam os espaços nos veículos de comunicação. Suspeições, denúncias, acusações, investigações, apurações – no fundo, mais escândalos nos arraiais da administração pública envolvendo inapelavelmente organizações empresariais.
Já se perguntou: que país é este? Não surpreende mais o crime cometido, qual a gravidade, pois na terra inventada por Cabral (o lusitano) e redescoberta por Cabral (o ex-governador do Rio de Janeiro) o que assusta é o volume dos recursos desviados ou furtados dos cofres públicos ou surrupiados do patrimônio da sociedade, isto é, de todos os que contribuímos para manter o Estado. Agora, os segmentos mafiosos se apropriam do que pertence à sociedade, como se fosse seu.
Quase no final de semana, a Operação “Câmbio, desligo” cumpriu 33 de um total de 46 mandados de prisão preventiva e 53 de busca e apreensão em quatro estados e no Distrito Federal. Objetivava desmontar uma rede de doleiros, especializada em lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O esquema permitiu um giro de US$ 100 milhões em um esquema ilícito paralelo aos sistemas bancários oficiais. Afinal, crime pequeno é bobagem.
Pensando em hoje e ontem, recordo Israel Pinheiro, a quem visitei no dia do seu aniversário, em janeiro, em sua modesta casa em caeté, dias antes da posse. Chovera muito e a estrada em construção, que liga a BR-381 à cidade, estava uma lástima. Chegamos à residência em um estado de dar dó, sujos de lama, inclusive o sobrinho do eleito, Raul Bernardo, futuro secretário de governo, que conosco se encontrava. Almoço: feijão, arroz, angu e couve.
Pois bem, fui o último assessor de imprensa de Israel. Constava que, após ser o grande esteio da construção de Brasília, estava rico e se falava abertamente da fortuna que acumulara. Quando saiu do Palácio da Liberdade, tivemos de fazer uma vaquinha para comprar-lhe um automóvel, porque não tinha dinheiro disponível para adquirir um para uso pessoal.
Pois bem. César Prates, companheiro de todas as horas de Juscelino, conta (e Ronaldo Costa Couto, confrade na Academia Mineira de Letras, escreve) que Israel era ótimo. “Qualquer coisa que a gente perguntasse para ele, ouvia primeiro um não... Muito simples e honesto. Certa vez, vi dona Coracy (a esposa) costurando uma calça que ele usava muito. Fiquei pensando: o homem tem tudo na mão e a mulher costurando a calça dele?”.
Antes, surgira na imprensa a notícia de suspeita de uma importação ilegal na pasta da Agricultura, de que era titular seu amigo Evaristo. O governador me chamou e ao secretário de Educação José Maria Alkmim. No terceiro andar do Palácio dos Despachos, deu a ordem: “Você e o Alkmim preparem um pedido de demissão para o Evaristo assinar. Façam um ‘enterro de primeira classe’!”. Assim se fez.


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Por Manoel Hygino - 4/5/2018 07:37:51
Segurança e estabilidade

Manoel Hygino

Jornal de Porto Alegre, em edição de 29 de março, trazia na manchete da primeira página: “A seis meses da eleição, país vive tensão com violência política”. Era Quinta-feira Santa, e a Folha de São Paulo advertia: “Lula encerra sua caravana pelo Sul sob novo protesto”.
Efetivamente, a nação se inquieta continuamente com acontecimentos e fatos políticos, com decisões da Justiça, logo revogadas por recursos, que não permitem sequer o cidadão assimilar seu efetivo conteúdo e suas repercussões. A mais alta corte de Justiça do país, a sua vez, se tornou alvo de restrições, como jamais houvera neste país.
Dizer-se que tudo se processa em obediência ao Estado democrático de Direito constitui uma verdade precária, pois contenta somente alguns que ocupam altos cargos e defendem certas causas e interesses. Não resultam em contentamento da população, perdida como cego em tiroteio.
O clima é denso e algo tenso, quando se constata a cada dia e hora a violação de direitos consagrados, dentre os quais o de ir e vir e o de propriedade. Aliás, o desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, doutor pela UFMG, professor universitário, Rogério Medeiros Garcia de Lima, recorda em artigo, publicado em jornal paulista, na semana passada: “o sólido e milenar sistema jurídico da Inglaterra”, de que ”se orgulham os cidadãos ingleses porque garante segurança jurídica e confere estabilidade econômica no país”. Este resulta daquele.
A propósito, evoca Lord Tom Bingjam, falecido em 2010, autor do já clássico “The Rule of Law”, que reúne a concepção jurídica do Estado de Direito, de que tanto se ouve falar por aqui, sem que muitos saibam exatamente do que se trata. Em síntese:
Ninguém será punido, castigado corporalmente ou privado de seus bens, a não ser em caso de violação do Direito vigente; a violação será apurada pelos tribunais ordinários, jamais por um tribunal composto de juízes escolhidos para julgar segundo o interesse do governo; os juízes devem ser independentes e imparciais. O jurista inglês completa, citado Thomas Ruller, que é do século 17–18: “você nunca será tão alto, a lei está acima de você”.
Eis a questão essencial. Para grande parte de nosso povo, há magistrados falando demais, inclusive ilustres membros do Supremo. Esse falatório gera dúvidas e apreensão, quando ao tribunal cabe contribuir para a paz social. O ex-ministro do próprio STF Eros Grau, aliás, alerta: “submetemo-nos ao poder exercido pelo Estado moderno em troca de garantias mínimas de segurança, por ele bem ou mal asseguradas. Sem a culpabilidade e a previsibilidade de comportamentos instalados pelo Direito Moderno, o mercado não poderia existir”. Para ele, não mais vivemos um “Estado de Direito”, pois submissos a um “Estado de Juízes”.
Destaca ainda: “Os juízes não fazem justiça! Vamos à Faculdade de Direito aprender direito, não justiça. Justiça é como a religião, a filosofia, a história. (...) Assim é o juiz: interpreta o direito cumprindo o papel que a Constituição lhe atribui”.
Tudo o que ficou dito acima alerta para a hora que atravessamos, cuja harmonia tanto depende de nossos magistrados e respectivos Conselhos – nos dois sentidos.


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Por Manoel Hygino - 2/5/2018 07:19:20
Sem ordem, nada feito

Manoel Hygino

O Brasil tem mais de 8 milhões de quilômetros quadrados de extensão, informação que restou grudada à memória desde os tempos de ensino elementar. São hoje mais de 200 milhões de habitantes, que enfrentam inúmeros problemas e fazem reivindicações, o que é direito de todos.
No entanto, por múltiplas razões que não cabe detalhar, as demandas não podem ser resolvidas de uma hora para outra, mas há pessoas e grupos que se aproveitam da situação para, sob o vulnerável manto de agilização de soluções, incitarem à violência ou à prática de atos ilícitos, sob desígnios incompatíveis com nossos foros de civilização. Só se alcançará progresso efetivo e duradouro, ou perene talvez, dentro da lei e da ordem.
Teço estas considerações em face dos recentes episódios registrados no Norte de Minas, onde um grupo, que se diz liderado pelo Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra, tentou invadir a Fazenda Bom Jesus, de 200 hectares, na região de Toledo, a cinco quilômetros do perímetro urbano. Acontece que a área era, e é, de propriedade da Codemig, Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais e destinada à implantação de um projeto industrial.
A população local segue o exemplo do passado, desde que ali se estabeleceu Simão Toledo Pizza, descobridor da região. Instalou-se e as gerações seguintes se mantiveram operosas, mas altivas. Foi o que demonstrou agora.
Pormenoriza-se: 80 pessoas tentaram invadir a fazenda, mas foram impedidas por cerca de 120 produtores, designados “Segurança no Campo”. Os sem-terra chegaram de manhãzinha, iniciaram a limpeza do terreno para montagem de barracas. Os produtores se mobilizaram e se deslocaram para lá, levando tratores e veículos para impedir a entrada dos bens dos quase invasores.
O clima, como se havia de esperar, ficou tenso, mas a PM chegou. Um dos proprietários da terra retirou a bandeira do MST do mastro e colocou a do Brasil. Ofensas várias, desavenças, mas diante dos policiais militares voltou a calma. Somaram-se esforços, com participação do Sindicato Rural e da Pastoral da Terra. Os chegantes aceitaram deixar o local pacificamente, dirigindo-se para um acampamento já existente, na Fazenda Sanharó. Um dos fazendeiros declarou: “se os sem-terra tentarem invadir nossas propriedades com violência, teremos que reagir à altura. Não é isso que queremos”.
Outro produtor rural afirmou: “os fazendeiros do Norte de Minas resolveram se unir para defender o direito à propriedade. Não vamos permitir que marginais– os fora da lei – estejam acima dos cidadãos de bem, que trabalham e produzem”.
O produtor Wilker Lima informou que os integrantes do movimento estão sempre atentos à movimentação do MST na região para uma reação rápida. “Nossa arma é a presença nas propriedades”, afirmou Wilker, lembrando que os produtores querem evitar os conflitos com os sem-terra. “Só queremos respeito à propriedade privada no campo, da mesma forma como existem propriedades privadas como casas, apartamentos e terrenos na área urbana”. Ninguém deseja ser surrupiado do que lhe pertence e custou muito esforço e sacrifício.


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Por Manoel Hygino - 26/4/2018 07:30:34
Mais que cor e ficção

Manoel Hygino

Pessoas há que nasceram com a visão de futuro. Profetas ou adivinhos estão inseridos entre os povos e habitam as páginas dos livros de história e religião. Ou de religiões. Os brasileiros, formados sob o símbolo da Cruz, em que foi crucificado Jesus e movidos pela fé cristã, ouvem a respeito ou leem nas páginas da Bíblia Sagrada – no velho ou no novo Testamento.
Há, todavia, homens que antecipam o futuro em seus escritos, seja em trabalhos científicos ou literários. Ninguém se esquecerá, certamente, de Júlio Verne, autor de magníficas obras de ficção, transpostas com sucesso ao cinema.
Mas, no Brasil, há alguém que não se pode olvidar. Refiro-me a Monteiro Lobato, consagrado como autor de contos infantis, mas que se revelou em outras importantes áreas do gênio humano. Lobato, paulista, sintetiza o escritor do Brasil do século passado, culto, criativo, patriota, não restrito às fábulas e historietas destinadas às crianças.
A ele se deve, por exemplo, livros valiosos para a própria vida nacional. Falecido há 70 anos, em 1948, deixou um legado precioso de ideias que ganharam força com o decorrer do tempo. Foi assim com “A luta pelo petróleo”, que advertiu os políticos brasileiros para a imensa riqueza que tínhamos e desprezávamos, quando o império do ouro negro já resultava em voracidade na sua exploração pelas maiores nações do planeta.
Não se restringiu à ideia. Dirigiu-se ao presidente da República, Getúlio Vargas, insistiu em sua tese, usou a imprensa, incomodou, e tanto, que terminou preso pela ditadura. Sem embargo, estava carregado de razões, como se demonstrou soberbamente. Não era invenção: tínhamos petróleo, faltavam perspectivas de nossos homens públicos e do próprio empresariado.
O jornalista e escritor Pedro Rogério Moreira, confrade na Academia Mineira de Letras, filho do presidente perpétuo Vivaldi Moreira, trouxe do escaninho da memória uma outra produção de Monteiro, este um amigo pessoal do autor cá das montanhas, Godofredo Rangel. Em 1926, publicou “O Presidente Negro”, um de seus livros não muito lembrados, mas agora oportunamente evocado.
No volume, Lobato discorre sobre a eleição, nos Estados Unidos, no ano de 2228, de um chefe de Estado negro, Jim Roy. Parecia improvável, numa época de profunda discriminação ao negro na terra de Tio Sam. No entanto, Monteiro só errou em termos de data: Barack Obama, muito mais cedo do que se admitira, foi eleito para a Casa Branca e exerceu a presidência por oito anos. Depois veio Donald Trump.
No Brasil, o Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu, ex-presidente do STF e de origem humilde, é candidato à sucessão de Michel Temer.


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Por Manoel Hygino - 25/4/2018 08:04:46
A droga entra em campo

Manoel Hygino

O crime se instalou no país poderosamente. Quem ler o mais recente número da revista Veja ficará impressionado com as informações contidas em reportagem assinada por Leonardo Coutinho. Confirmando, aliás, o que repete o governador Pezão: o cenário desolador estabelecido pelas maiores organizações criminosas no Estado do Rio de Janeiro não é exclusividade. O que, aliás, se sente pela sucessão de ataques a bancos e Correios, em todo o território nacional, com ênfase nas pequenas cidades do interior brasileiro.
O Norte do país, principalmente os estados que têm fronteira, vivem tempos inclementes, pois ingressaram na rota do tráfico internacional de drogas: Amazonas, Acre e Rondônia. O Ceará, que não faz divisa com outra nação, não fica atrás no desvio à lei, por ser o lugar preferido para exportar o produto letal para a Europa. Quem vê noticiários de televisão, assiste à sucessão de ataques dos traficantes até em Fortaleza, a capital.
Ali, os bandidos atearam fogo a 70 veículos, enquanto atiraram coquetéis molotov a prédios públicos, inclusive postos policiais. Era o aviso às autoridades de que não aceitariam bloqueadores de sinais de telefones celulares em presídios. Há dois anos, o Primeiro Comando da Capital, agressiva organização que age em todo o país, chegou ao cúmulo de estacionar um carro-bomba em frente à Assembleia Legislativa cearense quando os deputados discutiam projeto que regulamentava a matéria.
Este é o retrato aproximado do que acontece em todos os nossos estados, e Belo Horizonte, que tem 121 anos, não fica de fora. Em uma semana foram incendiados sete coletivos e, a despeito dos bons propósitos e competência de nossa polícia, a droga circula perigosamente em todas as regiões. Ataques a instalações financeiras e a apreensão de grandes quantidades de drogas se repetem, sem esmorecimento dos desafetos da lei.
O brasileiro vive em permanente sobressalto, e tem razões de sobra. A própria Organização das Nações Unidas já reconhece o Brasil como o segundo maior mercado mundial de cocaína, tendo à frente apenas os Estados Unidos. Mas em termos de crack, considerada mais agressiva e letal, estamos em primeiro lugar. Somos líderes.
E têm razões os operários do crime e da morte. Avalia-se que o negócio gera faturamento de R$ 34 bilhões ao ano. Se fosse empresa estabelecida legalmente, se situaria entre as maiores companhias brasileiras.
Não basta prender. Os bandidos agem dentro das prisões e penitenciárias e se gabam do sucesso, inclusive filmando suas atividades e difundindo-as por meio do popular WhatsApp. Esse rico material, abrangendo cenas de selvageria contra as quadrilhas rivais, são divulgadas.
O crime não cessa de ganhar espaço. Neste abril, por exemplo, li notícia: “O jogador do Paranavaí, Maurim Vieira de Souza, ameaçou de morte o bandeirinha do jogo contra o Independente, após marcação de pênalti a favor do adversário, em um jogo de domingo, em Paranavaí, no Paraná”. O jogo foi pela divisão de acesso do campeonato paranaense.
Na súmula do árbitro João Queiroz consta que o jogador proferiu as seguintes palavras: “seu ladrão, safado, você tem que voltar esse pênalti, eu sou do PCC e vou colocar o revólver na sua boca e você ai sentir o gosto da bala”. Maurim teria continuado as ameaças mesmo depois de expulso: “eu vou pegar lá fora, seu vagabundo, vou te esperar lá”.


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Por Manoel Hygino - 24/4/2018 06:38:10
O impasse na fronteira

Manoel Hygino

Nos Estados Unidos, o superastro Donald Trump insiste, em meio a problemas internacionais muito sérios, em construir um muro para separar a nação do Norte do México, fazendo de conta ignorar de onde vieram extensas regiões para formar o território de Tio Sam. Na parte de baixo do continente, o Brasil enfrenta incessantemente ingresso de venezuelanos através de Roraima, que já se sente prejudicado por milhares de pessoas que se viram obrigadas a fugir da falta de liberdade e de alimentação em sua pátria.
A governadora do Estado, Suely Campos, para tentar pelo menos amenizar a situação, entrou com ação no Supremo Tribunal Federal pedindo que o governo feche temporariamente a fronteira. Explica-se: “é preciso resolver os impactos da migração e proteger o povo de Roraima”.
A chefe do Executivo tem lá suas razões, que não são as de Trump com relação ao país vizinho. Diante dos 500 a 700 hermanos da Venezuela, que passam diariamente por seu limite territorial, Suely argumenta: “O Estado já está sobrecarregado. Como é o menor Estado da Federação, com 520 mil habitantes, temos acréscimo de 10% da nossa população. O desequilíbrio social e econômico que essa forte migração está causando em nosso Estado não foi previsto em nenhum tratado internacional”.
O presidente da República já esteve por lá e prometeu medidas em caráter de urgência para reduzir o impasse, antes que se torne inviável uma solução. Como a responsabilidade sobre a guarda das fronteiras é da União, a governadora declara que “o que é feito não atende aos anseios de que o Estado precisa”. Alerta, ainda, para quadro da assistência aos venezuelanos, já que “nos hospitais aumentou a demanda acima de 2.000%. Estamos vivendo epidemia de sarampo. A fronteira precisa ser fechada até que esses problemas sejam contornados”.
Para a ONG denominada Conectas, que acompanha de perto a situação, a solicitação é de “disparate”. Disse Camila Assano, de mencionada organização: “é uma iniciativa que vai na contramão dos que se empenham para encontrar uma solução satisfatória para o fluxo migratório. Não leva em consideração nem mesmo a dimensão geográfica da fronteira com a Venezuela, que é seca e extensa. Além disso, é uma medida que, se implantada, seria desumana, pois aumentaria o sofrimento e estimularia o ingresso informal, já que, hoje, os venezuelanos que buscam auxílio procuram o posto da Polícia Federal na fronteira, permitindo ao poder público ter controle sobre a situação”.
Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) apontam que os venezuelanos são maioria entre os estrangeiros que pedem refúgio ao Brasil. Dos mais de 86 mil pedidos de reconhecimento de refúgio em análise, um terço, ou seja, cerca de 28 mil solicitações, é de venezuelanos.
Cuidemos, nós, do problema, porque Caracas não está nem aí. Tenta salvar-se Maduro, em meio ao clima que criou para si desde que sucedeu a Chávez, sem meios e modos de tirar a nação do caos. E, evidentemente, é proibido contestar ou protestar: o opositor Leopoldo Gómez foi condenado a 14 anos de prisão por “incitar a violência” em manifestações de rua, em 2014. A promotora-geral que cuidou do caso foi exilada. De longe, denunciou a fraude judicial de que foi obrigada a participar.


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Por Manoel Hygino - 19/4/2018 07:15:40
Os cem anos da Revolução

Manoel Hygino

Há pouco, realizou-se a eleição presidencial na Rússia e Vladimir Putin superou os 69% das intenções de voto, de acordo com o último levantamento oficial autorizado antes da votação. O candidato comunista Pavel Grudnin alcançaria de 7% a 8%; o ultranacionalista Vladimir Zhirnovsky, de 5% a 6%; a jornalista liberal Xenia Sobchak, entre 1% e 2%; e o liberal Gregori Yalinski e o nacionalista Sergei Baburin, idem.
O pleito não despertou interesse maior dos partidos comunistas do mundo e de seus ainda adeptos ou simpatizantes. Transcorrido um século do início da Revolução Russa, o interesse entre os defensores das ideias de Marx e de Lenin e do conflito não se mostram muito atentos, pelo menos aparentemente. A Revolução, que durou três anos e pôs fim à monarquia de Nicolau II, deixou um saldo de seis milhões de mortos, vítimas de massacres, fome e epidemia. Calcula-se que 1,5 milhão de russos abandonaram o país durante o período, que culminou com a assunção no poder dos bolcheviques.
A história da Rússia, desde seus primórdios remotos até hoje, e a mais fascinante que há, segundo o professor Falcionelli, da Universidade de Mendoza, na Argentina, eu concordo plenamente. Alan Moorehead, autor inglês, em sua história da Revolução Russa, a seu turno, opina que “não existe sobre a terra assunto mais controvertido e o transcurso de quase meio século (quando ele publicou sua obra) não conseguiu abrandar os fortes sentimentos, as dissensões e aos desentendimentos entre os que viviam na Rússia naquela época. Muitas vezes fatos comuns são objeto de discussão entre testemunhas oculares e historiadores que se colocam em campos opostos e até mesmo os mais dedicados estudiosos discordam em questão de interpretação”.
O quadro de hoje foi amainado, mas o tempo é ainda muito curto para uma interpretação desapaixonada e objetiva. Sem embargo, o registro se tem de fazer, embora tantas e tamanhas as diferenças entre 1917 e 2017.
Moorehead faz questão de enfatizar a importância da Alemanha no processo de preparação para o movimento. É objetivo: “os alemães haviam tido estreitas relações com os partidos revolucionários russos a partir de 1915. Revoluções custam dinheiro e a revolução russa foi um negócio demorado. Onde Lenin e seus amigos acharam o dinheiro de que precisavam?
Resposta mais clara foi procurada tenazmente pelo doutor Stephe T. Possony, professor de relações internacionais da Universidade de Georgetown, que empreendeu um minucioso estudo com um grupo de pesquisadores, seus discípulos. O assunto era de notório e amplo interesse, levando os Estados Unidos a uma definição de sua política mundial depois da 1ª Grande Guerra.
Chegou-se a conclusões até certo ponto inesperadas. Entre elas, de que a ascensão dos nazistas na Alemanha esteve intimamente relacionada com a herança que Lenin deixara. “Justifica-se: sem as garantias de apoio dadas por Stalin, Hitler dificilmente teria ousado mergulhar o mundo em outro terrível conflito em 1939”. Acrescenta o historiador: “os atuais compromissos dos Estados Unidos na Europa e no Extremo Oriente, a queda da China, a Guerra Fria, os acontecimentos os da Coreia, a crise econômica no Oriente Médio, a corrida dos projéteis deferidos – tudo isso teve sua origem na tempestade que derrubou o Czar, em Petrogrado, em 1917”.


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Por Manoel Hygino - 17/4/2018 07:36:59
Uma questão de fé

Manoel Hygino

Os elogios em alguns dos maiores jornais dos Estados Unidos, a começar pelo “New York Times”, que o classificou como best-seller nº 1, são um chamativo à leitura de “A vida e a época de Jesus de Nazaré”, no Brasil editado pela Zahar. O autor é Reza Aslan, nascido no Irã, de família muçulmana, transferido para os Estados Unidos, onde se formou em Harvard e na Universidade da Califórnia.
Tornou-se especialista em temas religiosos, estudou o Novo Testamento, o grego bíblico, história, sociologia, para enfim produzir algo de interesse e que poderia, talvez, influenciar uma aproximação de povos, tão marcados pela incompreensão e por divergências que geram o fanatismo. Na nota inicial, Reza diz que, quando tinha quinze anos, encontrou Jesus.
Este o verbo - encontrar. Em seguida, explica-se: “Há 2 mil anos, disseram-me, em que uma terra antiga chamada Galileia, o Deus do céu e da terra nasceu na forma de uma indefesa criança. A criança cresceu e tornou-se um homem sem faltas. O homem tornou-se o Cristo, o salvador da humanidade. Por meio de suas palavras e ações milagrosas, ele desafiou os judeus, que se acreditavam os escolhidos de Deus e, em troca, os judeus o pregaram em uma cruz... Sua morte é o ponto central de tudo, pois seu sacrifício salvou todos nós do peso de nossos pecados. A história, contudo, não terminava aí, porque três dias mais tarde ele ressuscitou grandioso e divino, de maneira que agora todos os que acreditam nele e o aceitam em seus corações também jamais morrerão e terão vida eterna.”
O autor confessa dificuldades para elaboração de seu livro: escrever uma biografia de Jesus de Nazaré não é como escrever uma de Napoleão: parece a montagem de um quebra-cabeças enorme, com apenas algumas peças na mão; o grande teólogo cristão Rudolf Bultmann dizia que a procura pelo Jesus histórico é, no fim das contas, uma busca intensa, pessoal, íntima. Os estudiosos se inclinam a ver o Jesus que querem ver. Frequentemente veem a si próprios, como reflexo na imagem que construíram de Jesus.
Em pouco mais de 300 páginas, Reza consegue uma ampla reconstrução do tempo de Jesus e de sua personalidade, que varia segundo cada um, cristão ou não. O personagem, grandioso, é também polêmico, e o escritor faz uma análise ampla e profunda dos Evangelhos. É também didático, pretendendo ser isento, pesquisou e quer informar, parecendo ansioso por transmitir o que conseguiu em seus estudos e transmiti-los límpidos ao leitor.
Ao confluir a apresentação, observa: “De fato se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político da época em que viveu – uma época marcada por uma persistente revolta contra Roma, que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria”.
A conclusão: "O Jesus que é revelado nesse processo pode não ser o Jesus que esperamos, e ele certamente não será o Jesus que os cristãos mais modernos reconheceriam. Mas, no final, ele é o único Jesus que podemos acessar por meios históricos. Todo o resto é uma questão de fé”.


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Por Manoel Hygino - 14/4/2018 07:39:40
O Norte de Minas no Planalto

Manoel Hygino

Pelas voltas que o mundo dá ou por obscuras razões do destino. Isto é, pelo encadeamento de fatos determinados por leis necessárias ou fatais, Minas Gerais é o único Estado a que coube fazer-se representar na chefia do Executivo Nacional por uma mulher: e mais de uma vez.

Primeiro, quando Dilma Rousseff, belo-horizontina nascida no Hospital São Lucas, sucedeu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, através de sufrágio popular; e – esta semana – quando a montes-clarense Cármen Lúcia Antunes Rocha, por força das circunstâncias, ocupou o cargo, por curto tempo, durante viagem do presidente Temer ao Peru.

Um fato a que ela não poderia faltar, como presidente do Supremo Tribunal Federal. Por coincidência, numa sexta-feira 13, mas de abril. Com a substituição, evitou-se que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, Eunício de Oliveira, se incompatibilizassem à disputa eleitoral de 2018.

Não é o melhor tempo o que atravessamos, por numerosos fatores e sintomas perceptíveis. Até as ruas, pelas quais transitamos no nosso cotidiano, se mostram acabrunhadas, como se refletissem o desencanto de uma população: que já teve paz, tranquilidade – no mínimo para as tarefas indispensáveis à vida, à percepção de salários, que – mesmo diminutos – pudessem assegurar o pão-nosso-de-cada-dia. Os ricos ficam de fora dessas considerações e padecimentos.

Há de se observar que esta é a segunda vez que o Norte de Minas chega à presidência. A primeira foi com Juscelino, que no ano passado festejaria aniversário de formatura em medicina pela Universidade de Minas Gerais. Foi uma época de distensão política, de amena convivência, que permitiu que se executasse em cinco anos uma administração de cinquenta, em realizações em favor do Brasil e dos brasileiros. Em maio, Cármen Lúcia, que o Brasil conheceu pelos veículos de comunicação mais recentemente, voltará ao cargo. Só se pode augurar a quem vier a suceder a Temer, dias melhores e mais felizes, como os da época de JK, por exemplo.

Daqui a poucos meses, a nação escolherá um novo presidente. A inspiração emanada da operosa e sofrida gente norte-mineira poderá servir de aconselhamento na hora da magna decisão. Serão mais quatro anos de governo, a partir do vindouro janeiro, que tanto representa em esperança do cidadão de hoje e das futuras gerações.

O Brasil tem um grave, até porque imenso, dever a cumprir. O que mais se poderia desejar é que se sinta a democracia como um modo de vida e uma conquista permanente, como disse a própria Cármen, há poucos dias, na Faculdade de Direito da UFMG.


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Por Manoel Hygino - 12/4/2018 20:10:58
Um apelo nacional

Manoel Hygino

Prudência mais do que nunca. Eis o de que se precisa nesta hora em que os ânimos se exaltam nos meios políticos, e em que, mesmo usando terminologia respeitosa, demonstram estranheza entre si os próprios ministros da suprema corte de Justiça do país.

Por mais que se queira amenizar seu estado de espírito, o cidadão deste país, o nosso país, acha-se perturbado pela sucessão de episódios que estigmatizam o período que atravessamos, sem previsão de fim.

A desconfiança em torno dos homens que deveriam zelar, orientar e conduzir, no âmbito dos poderes da República, os destinos nacionais, se generaliza perversamente, embora os sinais positivos na economia. Não se poderá perder a oportunidade de corresponder aos horizontes favoráveis.

Da situação, que se me afigura preocupante, se utilizam os aproveitadores de todas as horas e ocasiões, não simplesmente os instalados em gabinetes oficiais. As sucessivas rebeliões nos presídios são apenas um sintoma do clima instalado no país, mesmo com a evidente diligência de setores oficiais, prevenindo-se contra a ação dos fora da lei em nossas estradas e nas vias urbanas. Sofremos em permanente estado de medo, inclusive pela atuação incessante do chamado “novo cangaço”.

Servem-se da situação os participantes de movimentos engajados na criminosa missão de tentar desestabilizar o que já se encontra abalado: o fechamento de ruas e rodovias, impedindo a livre circulação de pessoas, até em sua ida e vinda do cotidiano; a reincidência em ocorrências graves como as que, pelas chamas, tiram de circulação coletivos indispensáveis à locomoção das pessoas – sejam trabalhadores ou estudantes. Acalora-se o momento, por mais que se peça serenidade.

Até quando o povo do Brasil suportará o fragor da ameaça insistente, não se pode saber. Como não se sabe, efetivamente, como se conseguirá devolver paz à sociedade brasileira, violentada pela sequência interminável de escândalos nas altas esferas da República, como jamais, em tempo algum, antes se vira e se pudera medir.

Há de se extrair das entranhas dos dicionários o significado e sentido de palavras pouco usadas mais recentemente: dignidade, moral, honestidade, decoro, patriotismo enfim. Elas não podem permanecer como meros registros nos léxicos, com acepções se tornando crescentemente esquecidas da prática, aqui e agora. É dever inalienável e intransferível a adesão a essa mobilização, pessoal e geral, pelo bem da nação. O futuro está em nossas próprias mãos.

Palavras, palavras, palavras, reclamava Shakespeare da verborragia insistente, sem amparo e sustentação em ações efetivas. Sei que se tornou extremamente difícil encerrar esse período de facúndia abundante e estéril. Há muito a se construir em país tão extenso e que pode ser fecundo em felicidade para um povo que continua sofrendo, mas esperando. A responsabilidade dos que detêm algum tipo de poder é essencial. Os cidadãos estão alertas e a História registrará, fazendo justiça a quem merecer.


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Por Manoel Hygino - 10/4/2018 19:20:08

A MARCHA DAS HORAS

Manoel Hygino

Os dias fluem mais rapidamente do que nunca, embora com aproximadamente as horas de sempre. As notícias e fatos são profundamente inquietantes. Houve um terremoto na Bolívia, mas prédios sacudiram em várias cidades do país. Jornal destacou: “A República tremeu e deve tremer de novo”. Referia-se à decisão do STF no habeas corpus preventivo não concedido ao ex-presidente Lula, em reunião do último dia 4.
Não era o fim. Eclodiu uma guerra em que abaixo-assinados pediram a manutenção da prisão do ex-presidente em segunda instância. Outro periódico usou a manchete: “Decisão sobre Lula eleva tensão e Cármen pede serenidade”.
Serenidade?
Desaceleração da Terra em seu eixo causa aumento no número de terremotos, dizem cientistas, admitindo novos tremores em 2018. Pesquisadores do Tio Sam identificam registros históricos de cismos de grande intensidade em 1910, 1943, 1970 e 1980. Por aqui, as ocorrências políticas graves poderiam ser também levantadas. São frequentes.
Em duas semanas, dois assaltos contra agências dos Correios em Montes Claros, com características muito parecidas. Os bandidos chegaram de moto e, armados, pediram (?) dinheiro. Retomaram o veículo e desapareceram. O maior assalto foi contra a sede principal dos Correios na Praça da Matriz, histórico logradouro da cidade. Neste ínterim, a repartição federal começou a distribuição de correspondência, em dias alternados, em 743 cidades. Por que?
Em São Paulo, abrem-se inscrições para concurso, com 2.700 vagas, para soldado de segunda classe, com salário de R$ 3.049,41. Dos candidatos, exige-se 1 metro e 60 de altura mínima, e das mulheres 1 metro e 55. Não se fala em “gêneros outros”.
Em Minas, há 120 vagas para juiz de Direito, com salário inicial de R$ 26.125,17. Candidatos têm de provar três anos de experiência. Oito vagas para candidatos negros e quatro para pessoas com deficiência. Não há referências a índios. Em Fortaleza, matutino alerta: “Prisão de Lula pressiona ministros do Supremo”. Novas tentativas judiciais para libertar o ex-presidente, dependem, na última análise dos ministros do STF.
Nas próximas horas, o cidadão deste país ficará de olhos e ouvidos atentos ao noticiário. Um misto de medo e insegurança, inclusive pelo radicalismo de posições políticas, quando tanto necessitamos de tranquilidade em busca do tempo perdido.
Quarta-feira, dia 11, reunião do Supremo. Dois dias depois, a presidente da Corte, Cármen Lúcia Antunes Rocha assume o governo do país, com as viagens de Temer e de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados ao exterior. Até porque a lei eleitoral dispõe que não podem assumir sequer interinamente para não ficarem inelegíveis.
É a primeiro chefe de Executivo do norte de Minas, nascida em Montes Claros, onde reinou D. Tiburtina, símbolo da mulher sertaneja. E Cármen Lúcia é dos Antunes, de Espinosa. Quem quiser saber mais, deve ler a história de Antônio Dó, contada por Petrônio Bráz.


83239
Por Manoel Hygino - 9/4/2018 11:57:35
Aguardemos próximos capítulos

Manoel Hygino

Uma semana que inquietou nações de três continentes. Na Ásia, a ex-presidente da Coreia do Sul, Park Gueun-hye foi condenada a 24 anos de prisão por corrupção, encerrando a carreira da primeira mulher eleita chefe de Estado. Julgada e considerada culpada de vários crimes, entre os quais abuso de poder e de relações ilícitas com poderosos grupos empresariais, em março de 2017 foi destituída e presa por tribunal e condenada ao pagamento de multa equivalente a quase 17 milhões de dólares. O Sérgio Moro de lá se chama Kim Se- Yoon, que na sentença baixara o tempo de reclusão de 30 anos da ex-presidente, pedido pelo Ministério Público.
Na riquíssima África do Sul, após a morte de Winnie Mandela, viúva de Nelson Mandela, a mais alta expressão da luta pela independência e fim do apartheid, o ex-presidente Jacob Zuma foi levado ao Tribunal Superior de Durban, acusado de suborno em aquisição de armamentos a vários fabricantes no exterior, somando em torno de 16 bilhões de dólares, ou seja, cerca de 4,2 bilhões de euros. Sem contar os fabricantes de eletrônicos.
Abandonando a presidência, após extenso confronto com Cyril Ramaphosa, líder do poderoso Congresso Nacional Africano, cuja meta principal era a luta contra a corrupção, Zuma protestou, em Zulu, contra “alguma pessoas que querem tratar-me como culpado”. Nas ruas, grupos protestavam: “Não mexam com Zuma”.
No Brasil, houve ex-presidentes presos e exilados. O primeiro, porém, levado à Justiça, inclusive à decisão do Supremo Tribunal Federal, foi Luís Inácio Lula da Silva, eleito por dois mandatos, que cumpriu, mas respondendo a outros processos em tramitação. O tumultuoso caso do apartamento em Guarujá, lhe valeu 12 anos e 1 mês de prisão após a não concessão do habeas corpus apresentado pela defesa, com o apertado placar de 6 a 5.
Fez-se a transferência para Curitiba, não tão tranquilamente como poderia ter sido, mas como também se admitiria. O que se pode dizer, contudo, é que o ex-presidente escolheu mal o alvo de seus ataques no discurso na porta do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, contra o Judiciário e a Imprensa.
Em certo ponto, declarou ipsis literis: “Não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”.(?) “Quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vai ser candidato. Ora, a toga é um emprego vitalício. O cidadão tem de votar apenas com base nos autos do processo”.
Adiante, argumentou: “Quantos mais dias me deixarem lá (na prisão), mais Lulas surgirão neste país. Estou fazendo algo muito consciente’. Sempre ameaças:” A história vai daqui a alguns dias vai provar que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou, o juiz que me julgou e o Ministério Público que foi leviano. Vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado de lá”.
Enquanto jornalistas eram hostilizados em São Bernardo, o apartamento, em Belo Horizonte, da ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, era pichado por militantes. Dá o que pensar. E temer.


83226
Por Manoel Hygino - 3/4/2018 07:06:01
A hora da Justiça

Manoel Hygino

O dito pelo não dito. Assim estamos vivendo o Brasil presentemente, mesmo se sabendo que esta não é a melhor prática nos campos administrativo ou jurídico, social também, sendo imperativo dar vigência às decisões. Evidentemente se há de dar velocidade à tramitação de processos na Justiça, mas há casos recentes em que providências determinadas pela própria autoridade judiciária são quase imediatamente revogadas. É o caso de pessoas ligadas ao presidente da República, alvo de investigações da Polícia Federal, presas e horas depois liberadas. O mesmo ministro do STF que os encaminhara à prisão os soltara, atendendo à Procuradoria-Geral.
O assunto rende. Dias antes, o diretor-geral da PF, Fernando Segovia, informara que a investigação sobre o Decreto dos Portos, beneficiando um grupo poderoso, seria arquivada por falta de provas. A declaração causou repercussão, inclusive no âmbito do organismo federal. Um grupo de delegados oficiou ao diretor do Combate ao Crime Organizado, Eugênio Ricas, com uma advertência: se houvesse interferência na apuração ou que qualquer outra, se acionaria o Supremo pedindo medidas cabíveis contra o titular do cargo. Este acabou exonerado, com garantia de algo melhor, em outra área, na Europa.
Mas o Brasil acompanha os fatos e sabe que a situação não ficou equacionada, nem o será a curto ou médio prazos. Muita água ainda correrá sob a ponte. Lembro a propósito o que lera a respeito, não sei exatamente onde nem quando. Os julgamentos da magistratura, em uma grande maioria, estão sujeitos a recurso. Já a Constituição, quando falou do júri, usou o termo “soberano”, significando o último poder, sobre o qual não há ou haveria outro.
A jurisprudência, contudo, mudou o espírito da Constituição e permitiu recurso para instância superior. Eliminou-se, assim, a vontade do povo e transformou em recorríveis as decisões soberanas do júri. Mal terminado um julgamento, só se fala em recurso, via de regra: Ministério Público para aumentar a pena, dos advogados para pleitear nulidade. De tudo se recorre de modo que nada é decisivo e definitivo, sequer duradouro. O Judiciário perde autoridade.
Não se alegará que o réu tem direito a defesa. Claro que tem, tanto que pode exercê-la amplamente no correr do processo e sessão do próprio júri, sob testemunho dos representantes dos cidadãos, da imprensa e da sociedade.
Isso no caso do crime comum, se todos não o fossem, em última análise. Nas demais questões, para as formais, há embargos declaratórios, que o magistrado pode decidir com representantes do Ministério Público e da OAB. Pelos fatos descritos, sem mencionar nomes, pode-se verificar a necessidade de dar efetividade às decisões judiciais, sem cercear a defesa do réu.
Há corrente vigorosa que julga imprescindível se encontrarem meios e modos de colocar a Justiça sob controle do povo. Do outro lado, existem aqueles que acham que o povo não sabe escolher, como tem acontecido em nosso degradado sistema político. De toda maneira, há de se buscarem vias para transitar com clareza, presteza e dignidade, sem levantar suspeitas de que o Judiciário claudica, tergiversa, atrase ou acelere decisões.



83224
Por Manoel Hygino - 2/4/2018 07:43:28
Páscoa que inquieta

Manoel Hygino

Páscoa, tempo sumamente esperado, anualmente, por judeus e cristãos. Os primeiros celebram solenemente o fim do longo cativeiro no Egito e os cristãos a memória da paixão, crucificação de Jesus, e ressurreição em Jerusalém; no domingo seguinte, o de Ramos. Mas a Páscoa no Brasil de 2018 é altamente preocupante, mesmo quando se diga que o brasileiro não leva a sério as coisas sérias.
Nesta antevéspera, conheceu-se, por exemplo, pelos meios de comunicação, que o Ministério da Saúde, cujo titular até há pouco era Ricardo Barros, estuda importar importantes medicamentos sem aval da Anvisa. Justificativa: “sem aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o MS quer derrubar em editais de compras a exigência de documento que confere autenticidade a remédios importados. Sem eles, há risco de entrada de drogas falsificadas”, publicou a Folha de S.Paulo.
Esta acrescenta: “A decisão é mais um capítulo do imbróglio envolvendo ministério, Anvisa, fabricantes e distribuidoras de remédios para doenças raras, que se arrasta desde outubro passado e que se transformou em uma guerra judicial. Por causa da discussão, pacientes com doenças raras ficaram sem medicamentos, e treze pacientes teriam morrido no seu aguardo, os mesmos com liminares favoráveis”.
Não só remédios é problema. O técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, que atua no Norte de Minas, José Ponciano Neto, com longa experiência, comenta a perspectiva no abastecimento de água à região, clara e objetivamente: “o quadro é estarrecedor com relação ao desmatamento, este avança com uma velocidade incontrolável, da noite para o dia, vários hectares devastados, para serem transformados em carvão para alimentar fornos de usinas mantidas por empresários irresponsáveis. No rastro vem a criação do boi muitas vezes; alguns criadores para aumentar seu pasto, não respeitam nem a mata ciliar. Aliás, não respeitam nada. Eu digo alguns! Não são todos! Minha lida é no campo monitorando os recursos hídricos”.
Não escapa ao cidadão, porém, a memória da mais recente reunião do Supremo Tribunal Federal, cuja manifestação foi constrangedora para o prestígio da Corte. É o caso do habeas corpus preventivo, impetrado pela defesa de um ex-presidente. Carlos Eduardo de Freitas, delegado da Polícia Federal e professor da Academia Nacional de Polícia, por exemplo, diz: “O STF, em verdade, decidiu que antes precisava decidir se podia decidir. Decidiu que poderia! Mas decidiu não decidir, mesmo podendo decidir! Decidiu, assim, que vai decidir o mérito em outro dia. Mesmo assim, decidiu que o TRF4 não pode decidir antes da decisão a ser tomada pelo próprio STF, inicialmente no dia 04 de abril, após a Semana Santa. Entendeu? Triste Brasil!”
O general de exército Antonio Hamilton Martins Mourão, recém-passado à reserva, usou um adjetivo para posicionar-se diante da sessão do STF: “Envergonhado”. Eis o texto na íntegra: “Ao ver o STF, corte maior de nosso Brasil, sinto-me envergonhado pela falta de espírito público, pela covardia moral, pela linguagem empolada – destinada a enganar o homem comum –, pelas falsidades e, principalmente, por observar que uns merecem mais que outros ante os olhos daquele colegiado. Fica claro que os que possuem ‘pertences’ jamais cumprirão a pena que merecem por haver surripiado o bem público”.



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Por Manoel Hygino - 30/3/2018 08:32:23
Singularidades brasileiras

Manoel Hygino

O Brasil é rico em singularidades. Primeiro de abril, Dia da Mentira. E, neste ano 2018º da graça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Belém (não rigorosamente definida geograficamente), cá entre nós, na terra descoberta por Pedro Álvares, o Cabral, temos o 4 de abril. Nele, a mais alta corte de Justiça do país apreciará o mérito do habeas corpus impetrado pela defesa de um ex-presidente da República.

A sessão do dia 4, quarta-feira, se faz muitos dias depois da triste, embora agitada reunião que ficou no disse, não disse. Ou, como diria o professor Afonso Lamounier de Andrade, ex-diretor do Atlético: “Tudo combinado, nada resolvido”.

Os ilustres ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), cujos nomes o Brasil hoje sabe de cor, inclusive com relação à sua vida profissional e até doméstica, devem ter meditado o suficiente sobre o grau de desconfiança a que foram lançados junto à opinião pública.

No Dia do Circo, 27 de março, a imprensa nacional noticiava a rejeição dos embargos apresentados pela defesa ao TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), de Porto Alegre, no processo original, classifiquemos assim. A matéria regressa ao âmbito do Supremo, mantendo-se a decisão do juiz Moro pela condenação, no caso do tríplex de Guarujá, então na segunda instância. O dito pelo não dito agora.

No dia 4, irá repetir-se o placar da reunião anterior do STF? As consequências serão muitas e imprevisíveis, dado o nível de polarização política, da insatisfação popular, do poder de fogo das organizações criminosas, do descrédito do Estado pela sociedade. Não é de chuvas apenas que a nação precisa.

Amigo do peito, diante da situação, usa poucas palavras: “Faltou dizer – o país, calcinado, pega fogo de novo. Não se cansam de inviabilizar tudo, irresponsavelmente. Até quando? ”Outro, da magistratura, também é econômico no comentário: “O momento é grave. Se o judiciário era o último refúgio da nação, temo que ela agora esteja ao relento. Dias sombrios se avizinham. Rezemos”.

No dia 28 de março, quinta-feira, Paulo Maluf, ex-governador do estado mais poderoso do país, chegou algemado ao hospital Home, de Brasília. Não conseguia andar, não usava a cadeira de rodas. Guardado por seguranças, em quarto fechado. Para que? Mas, o ministro Dias Toffoli lhe concedeu prisão domiciliar.

Em âmbito internacional, o imperador Akihito, do Japão, faz visita a Okinawa, célebre pela mais sangrenta batalha do Pacífico, durante o segundo conflito mundial. No Brasil, é outra a guerra, que continua. Nada resta ao cidadão, a não ser aguardar, mesmo sabendo que de barriga de criança e sentença de juiz pode vir surpresa.

Haja visto que, na quinta-feira última, por ordens de custódia do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, foram presos José Yunes, advogado e ex-assessor do presidente Temer; ex-deputado Wagner Rossi, também ex-ministro da Agricultura, seu assessor Milton Ortolan, e João Batista Lima, ex-coronel da PM de São Paulo amigo de Temer.


83220
Por Manoel Hygino - 29/3/2018 19:46:32
Pelos que sobrevivem

Manoel Hygino

A execução de Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, em 14 de março, obscureceu as notícias sobre o falecimento, na madrugada do mesmo dia, de Stephen Hawking, na Inglaterra. Considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos, estudava a natureza da gravidade e do universo, temas que não fascinam o brasileiro.

Stephen era branco, nascido em um país de primeiro mundo, tinha 76 anos, e ganhara celebridade com sua teoria do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo. Aliás, tudo muito bem exposto no seu “Uma breve história do tempo”, livro só lançado em 1988, um dos 14 que escreveu.

O pormenor é que o personagem, tão relevante para as ciências, sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica, que transmite rastros de dor e amargura aos seus pacientes. E também a suas famílias, aos médicos que deles cuidam, como contado em “A teoria de tudo”, que rendeu, no cinema, um Oscar ao ator que interpretou Stephen.

Uma enfermidade terrível. No caso de Hawking, a esclerose lhe foi diagnosticada aos 21 anos, quando só conseguia movimentar um dedo e os olhos voluntariamente. Como as dificuldades não afetaram sua capacidade intelectual, seguiu rumo, usando um sintetizador eletrônico para falar. Sua vida pessoal, a despeito de tudo, continuou: casou duas vezes e teve três filhos. Não reclamava da desdita e se manteve fiel a seus projetos.

Suas ideias desafiavam a teoria da relatividade geral, que consagrara Einstein, que por sinal viveu igual número de anos. Aliás, o detalhe não escapou aos interessados e curiosos: o sábio britânico morreu no mesmo dia e mês em que Einstein nasceu. E há mais: o físico nasceu exatamente 300 anos após a morte de Galileu Galilei, italiano nascido em Pisa, de família florentina empobrecida.

A despeito dos desafios da saúde, o inglês de Cambridge não estava de mal com a vida: cativava as pessoas, participou de filmes e séries de televisão, como acabo de ler. Assim aconteceu com “Os Simpsons”, “Star Trek” e a comédia “The Big Bang Theory”. Deixou, contudo, um pedido: que sua fórmula matemática fosse inscrita no túmulo. Suas cinzas serão enterradas ao lado de Isaac Newton, na Abadia de Westminster, principal igreja da Universidade em que Hawking lecionou, 52 anos, apesar de sua situação especialíssima.

Enquanto se espera a conclusão das investigações sobre Marielle, assassinada na noite carioca, lembraria que este crime permanece na sombra, com 45% de favelas cariocas dominadas por milicianos, com 2 milhões de pessoas das comunidades sob o jugo dessas organizações, que faturam anualmente R$ 145 milhões, só com transporte irregular. Os traficantes têm outra organização e maior faturamento.

Como Rubem Braga, oremos pelos meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e dos barrigudinhos da roça, protegendo suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobras e seus olhos que podem pegar tracoma. Afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil.


83214
Por Manoel Hygino - 27/3/2018 15:47:24

O julgamento do habeas corpus

Manoel Hygino

Refleti, aqui, mais de uma vez, que o Judiciário brasileiro está sob julgamento. Renovo a consideração, diante da situação complicadíssima que a nação atravessa e sobre a qual não paira dúvida. O que há de mais grave é que a sociedade não pensa mais como antes sobre um ente tão importante à vida nacional.
Recordo a declaração do ministro Luís Roberto Barroso, quando da apreciação da ação penal 470. Então, afirmou: “Faço o que acho certo, independentemente da repercussão. Não sou um juiz que me considero pautado pelo que vai dizer o jornal do dia seguinte. Sou pautado pelo que considero certo”.
Tem razão o advogado Aristóteles Atheniense ao perguntar: “o que representa a opinião pública numa querela judicial? Até que ponto estará o juiz vinculado ao homem da rua, diante dos fatos que, por se tonaram controvertidos, reclamam a palavra final do Judiciário?”
De fato, o magistrado não pode ignorar o pensamento, o sentimento, o posicionamento do cidadão e da sociedade, embora sem a eles subordinar-se. O juiz julga problemas do cidadão, da coletividade, não sendo admissível ignorá-lo, eis que em seu nome exerce funções e ocupa cargo da maior relevância.
A hora reclama isenção, não omissão. A crescente demanda ao Judiciário reflete o período difícil da vida brasileira, em todas as frentes e horas, quando a grandeza do Judiciário se submetem matérias como células-tronco, cotas universitárias e a Convenção 158 da OIT, que se atém à proteção do trabalhador. Ao assumir o cargo, o juiz sabe que irá agir em nome e nos temos da lei. Na palavra de Rui Barbosa, “no regimento constitucional a lei é reguladora universal da obediência; e o poder que a quebra, introduz no mecanismo social um princípio de desorganização, cujas consequências nunca se podem calcular.”
O juiz, também na Suprema Corte, tem de estar afinado com o cidadão em suas mais acalentadas demandas, agirá em nome de quem lhe delegou o poder de julgar. O próprio Rui observava que, “com a mesma pena se pune aquele que furta o milhão, ou um lenço, que se esconde na algibeira, ou de outro qualquer modo. O que imprime o caráter do ato é a sua moralidade, é a natureza do direito que ele viola, é a imoralidade da aberração que ele representa; não é a importância do prejuízo material que ele causa”.
O Supremo não pode apequenar-se, verbo usado no julgamento do habeas corpus preventivo de um ex-presidente da República. Nossos juízes se expõem a críticas e ressalvas como no caso de determinados privilégios e benefícios que lhe são facultados, cuja regulamentação menos protecionista ou mais condizente com a hora dramática que o Brasil enfrenta, se faz inadiável. O julgador precisa estar acima das dúvidas e das concessões e de expedientes utilizados pelos outros dois poderes.


83211
Por Manoel Hygino - 27/3/2018 07:50:06
Os Idos de Março, cá entre nós

Os Idos de Março ficaram imortalizados, quando Shakespeare os incluiu na sua tragédia sobre Júlio César. Na velha Roma, eram os Idos o dia 15 de março, maio, julho e outubro e o dia 13 dos outros meses no Calendário. O terceiro mês ganhou importância por nele se ter dado o assassinato do Caio Júlio César, 44 anos antes de Cristo.
Ao regressar de suas campanhas na Gália, na Bretanha e na Espanha, cumulado das maiores honrarias, ídolo das suas legiões, elevado a ditador perpétuo da nação, César despertou fortes oposições, que maquinaram sua execução. Entre os conspiradores, “amigos” como Cássio e Bruto, este também filial protegido.
Eis que aparece um adivinho, retratado pelo gênio de Stratford, que o advertiu: “Cuidado com os Idos de Março!” O triunfante romano não deu atenção ao aviso, riu-se, e seguiu para o Senado. Quando discursava, defendendo-se de acusações, foi rodeado pelos conspiradores e Túlio Cimbero o feriu pelas costas, com um punhal. Ia resistir, mas se deparou à frente com Bruto, seu pupilo. Aí houve a frase histórica: “Tu quoque, filius meus”? Cobriu-se o glorioso general com o manto e deixou-se apunhalar, até cair morto.
“Os Idos de Março” foram assim, nas páginas da História, indelevelmente manchados de sangue inocente derramado pela política. Mas no Brasil, descoberto por Cabral (o Pedro Álvares, o português; não o outro, que governou o Estado), também se deu um episódio praticamente correspondente à data: no dia 14 de março de 2018, na rua Joaquim Palhares, no Estácio, região central do Rio de Janeiro, a vereadora Marielle Franco foi assassinada. 38 anos, foi morta a tiros, por volta das 21h30, depois de participar de uma reunião sobre a égide “Jovens Negras/Movendo as Estruturas”, na Lapa.
A edil teve uma vida de sacrifício, como outras milhões de brasileiras. Negra, nascida na região não muito pacífica da Maré, onde vivia, foi mãe aos 19 anos e quinta vereadora mais votada, em 2016. Lésbica, tinha como bandeira de luta o feminismo e a defesa da população das comunidades, antes classificadas como favelas. Digna de elogios pelo esforço para formar-se Socióloga pela PUC-Rio, mestra em administração pública pela Universidade Federal Fluminense, teve como tema de dissertação –“UPP: a redução da favela a três letras”.
Contrária à intervenção de tropas federais na segurança no Rio, não poderá acompanhar as investigações e ver o desfecho da medida adotada contra a violência naquela unidade da federação; na Cidade Maravilhosa, cantada em verso e prosa, e degradada no decorrer do tempo.
Perguntava Marielle, pouco antes de ser assassinada, com o motorista Anderson Pedro Gomes: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” Há uma infinidade de pistas e a resposta não será respondida, com a velocidade que se desejaria. O universo feminino e carioca é imenso e há águas revoltas e muita lama a ser removida, além de interesses espúrios e criminosos. Quanto a isso, não há dúvida.


83192
Por Manoel Hygino - 19/3/2018 14:29:16
Além de armas e blindados

Manoel Hygino

A intervenção militar federal no Estado do Rio de Janeiro não pode, nem deve, ser encarada como simples tomada de posição em face de problema em uma unidade federativa. Tampouco pode ser vista como providência meramente política, considerados os graves aspectos envolvendo a segurança, numa área de notável significação histórica, intelectual e artística. De fato, o Estado do Rio ocupa posição estratégica singular par ao país e para a nação.
Há de se convir que a violência não se restringe unicamente àquela região; de fato, todos os estados, em seus rincões ou nas capitais, passam por um momento de gravidade, que se medirá pelo fragor das estatísticas, que não se deve ignorar ou menosprezar. O Brasil vive sob o signo da criminalidade disseminada em todos os setores e atividades.
A propósito, o general Braga Neto declarou, com consciência de difícil missão que lhe foi atribuída: “Não haverá território em que a polícia não entre. Se houver mandado e a polícia desejar entrar, ela pode fazê-lo com maior ou menor dificuldade. Quando ela pede nosso apoio, nós entramos em qualquer lugar do Estado”.
O que está em risco não são as UPPs pacificadoras, que- por sinal- nada pacificaram ou encontraram condições somenteB para amenizar situações extremamente conflitivas. Mas a violência no Brasil não reside mais aqui e ali. O crime está distribuído e organizado sistematicamente, nele atuando centenas e centenas de agentes do mal. O Rio de Janeiro é ponto de referência, mas não caso isolado. O Brasil precisa mais do que novos e mais modernos armamentos, mais do que viaturas e blindados, para servir a todas as unidades da Federação. Tem-se de compenetrar de que há uma guerra, em que devem empenhar-se todos os segmentos da sociedade, além dos que servem às forças armadas e às polícias.
As quadrilhas já identificadas, seus comandantes, têm de ser tratados como tal, formadas por seres humanos que perderam o itinerário do bem e de superiores interesses.
Está-se assistindo, a cada dia e hora, a ação de baderneiros e bandoleiros, seguros de serem os donos inexpugnáveis de negócios, evidentemente escusos. Mas o Brasil não está à venda, nem o futuro das gerações que ora se formam. A maneira insistente, sem medo e pudor dos criminosos nas áreas sob alerta das autoridades, demonstra que eles se julgam capazes de resistir à lei, à ordem, danificando o patrimônio público e privado, sacrificando a vida de milhões já atormentados pela força de outros desvios do interesse nacional.
Os direitos humanos têm de ser respeitados, não simplesmente pelos que lutam pela paz, palavra de três letras que contém um desígnio especial e humano inabalável e da maior grandeza. A luta pelo bem e pelo futuro reclama coesão e consciência. Como tal deve ser encarada, reconhecendo-se de antemão que serão embates duros, com repercussão ampla e profunda. Os inúmeros erros de sucessivos e muitos anos de enganos e desenganos, poderão repetir-se em refregas com aqueles que não sonham com o Brasil abençoado por Deus, que desejamos transferir às novas gerações.
Não é mais hora de tergiversíveis, adiamentos e procrastinação. Cumpre seguir com prudência, mas agir.


83189
Por Manoel Hygino - 17/3/2018 07:43:34
Presentes pré-natalinos

Manoel Hygino

Para o Natal, faltam meses. Mas, o bondoso Papai Noel, representado pelo secretário de Cultura de Minas, Ângelo Oswaldo, confrade da Academia Mineira de Letras, me fez chegar o presente antecipadamente. Rico e capaz de saciar o mais refinado apreciador de boas iguarias.
Numa embalagem plástica, recebo belíssimos números do Suplemento Literário, que causariam inveja ao próprio Murilo Rubião, que Deus o abençoe. Assim, tenho em mãos as edições 1.372, 1.374 e 1.375, correspondendo respectivamente aos períodos maio/junho, setembro/outubro e novembro/dezembro de 1917, as duas mais recentes impressas em papel especial.
Na 1.372, a ênfase é Adélia Prado, vencedora do Prêmio Governo de Literatura 2016 na categoria Conjunto da Obra. Trata-se de uma carreira desenvolvida a partir dos anos 70 e, hoje, internacionalmente reconhecida, como aliás consigna a apresentação, que também homenageia Sílvio Rogério Silva (Ficção), Tadeu de Melo Sarmento (Poesia) e Jonathan Tavares (Jovem Escritor Mineiro).
Mas constitui preito a todas as mulheres que se dedicam à poesia, como se depreende da entrevista concedida pela colombiana Lena Reza Garcia, autora de Cereté, pequena cidade, a Ana Elisa Ribeiro e Diana Araújo García. Mas além de Lena, comparece Carla Diacov em ensaio de Cândido Rolim. Com capa do artista plástico Mário Azevedo, este 1.372 é um prato irresistível a se degustar prazerosamente, na Quaresma de 2018, contando com outros excelentes regalos.
A edição 1.374, com páginas em cores, lembra o centenário de Murilo Rubião e, ao ensejo, se informa que o criador do Suplemento declarara sua admiração por um escritor italiano, por aqui quase desconhecido: Massimo Bomtempelli. E, aproveitando o grato ensejo, o próprio Ângelo Oswaldo nos premia com curta biografia do autor, acrescentando alguns de seus contos, um dos quais em tradução de Aurora Russi, consulesa da Itália em Belo Horizonte.
A edição 1.375, a sua vez, chama a atenção para escritores mineiros que apareceram a partir do Suplemento, dando-se realce a Luiz Vilela, lá do Pontal do Triângulo, isto é, de Ituiutaba, que produz mais do que arroz de esplêndida qualidade. No número mencionado, o contista é entrevistado pelo jornalista Duílio Gomes, tão cedo de nosso meio removido por disposição superior, e que, por longos anos, prestou colaboração ao “Minas Gerais”.
Na primeira pergunta dirigida pelo laborioso marianense Duílio, irmão de nosso confrade Danilo Gomes, da AML, faz uma pergunta, longa e seca, ao autor triangulino: “Na noite de 20 de abril de 1967, já quase 51 anos portanto, você lançava aqui, na capital mineira, na Livraria do Estudante, seu primeiro livro, de contos, “Tremor de Terra”, e recebia, naquela mesma noite, a notícia de que o livro ganhara, em Brasília, o Prêmio Nacional de Ficção. Como foi isso?”
A resposta leva a conclusões importantes a quem se interessar pelo assunto: “É importante lembrar que eu, recusado pelos editores, publicara o “Tremor” à minha custa, numa edição graficamente modesta e de apenas mil exemplares, entre os quais vários consagrados, como José Geraldo Vieira, José Conde, Mário Palmério, Osman Lins...”.


83185
Por Manoel Hygino - 13/3/2018 17:55:51
Um compromisso irrevogável

Manoel Hygino

Não surpreende, é até edificante, quando não comovente, conhecer-se o número de pessoas que, neste país continental e nesta nação tão desnecessariamente conturbada, se dispõem a candidatar-se à presidência... da República, é claro. São heróis por antecipação, que se julgam publicamente capazes de enfrentar as adversidades da hora e de sempre para conduzir o Brasil a uma fase de ordem e de progresso, como estampado na bandeira nacional; substantivos que inúmeros sequer sabem inscritas no lábaro.
Em período de tantos e tamanhos desencontros da história, quando há uma densa penumbra envolvendo fatos e personagens de influência nas decisões maiores; quando os tribunais não encontram espaço nas pautas para julgamento; quando se adota compreensível cautela com relação a até membros da alta magistratura; quando o crime se estendeu as mais distantes regiões do território é no mínimo alentador constatar que homens tão probos pretendem laborar em favor da pátria.
São homens nascidos, criados e formados neste país, em que também nascemos e nos formamos. Certamente têm condições de competência, dignidade e de sabedoria, imprescindíveis à hora. Devem alimentar-se de sinceras e sadias convicções e de consciência, como Rui se referia ao ideal.
Refiro-me ao ideal, que “não se define: enxerga-se por clareiras que dão para o infinito; o amor abnegado; a fé cristã; o sacrifício pelos interesses superiores à humanidade; a compreensão da vida ao plano divino da virtude; tudo o que alheia o homem da própria individualidade, e o eleva, o multiplica, o agiganta, por uma contemplação pura, uma resolução heroica, ou uma aspiração sublime”.
Nesta grave fase da vida nacional, quando há temor nas ruas e nos lares, quando a força armada do Estado por seus vários componentes é convocada a sair em defesa das instituições; o brasileiro terá que, na mais de dezena de nomes arrolados para postular a presidência, escolher o que mais convém à nobilíssima causa, não se esquecendo de que a riqueza não prospera em solo abalado por convulsões políticas.
Na história, passamos por extensos períodos de ditaduras e governos fortes, felizmente superados após ingentes sacrifícios. É preciso preservar a reconquista, e evidentemente os que se candidatam pensarão em atender às mais alentadas demandas e reivindicações de um povo, que ainda navega em águas turvas.
Já que lembramos Rui, é bom pensar com ele que pelas eleições se evitam as revoluções. Revoluções e eleições são os dois meios de remover os maus governos. O povo que elege, não se revolta; aguarda a operação eleitoral, para ter governo que lhe sirva.
O brasileiro que irá votar- e quantas vezes terá errado!- sabe que não pode equivocar-se novamente, sob a certeza de que penas mais pesadas o punirão. A eleição corresponde a uma decisão, que envolve toda a comunidade, todos os seus entes, por um período extenso, que pode causar mais penúrias e dores, se cometido equívoco.
Deve ter chegado a hora do apelidado “voto consciente”, que não visa agradar o eleito, em detrimento dos interesses de todos e de cada um. Não se deve abrir mais espaços para elites, cujo comportamento se identifica nos danos cotidianos. O ciclo em que nos debatemos exige, antes de tudo, um compromisso moral.


83172
Por Manoel Hygino - 10/3/2018 07:28:06
O último titã

Manoel Hygino

Pouco se ouve sobre Percival Farquhar, que chefiava um grupo norte-americano, pretendente a concessão das grandes jazidas de ferro em Itabira, terra de Drummond, poeta, e do historiador João Camillo de Oliveira Torres. Este afirmou: foi, possivelmente, o primeiro capítulo da luta nacionalista brasileira, pois Artur Bernardes, presidente de Minas e depois da República, era visceralmente contrário à saída dos minérios para usinas estrangeiras. Seu sucessor no Estado, Raul Soares, se recusou a assinar o contrato, em 1921.
Para se entender o caso sem perda de tempo, tão precioso em nossa época, aconselharia recorrer-se a Enéas Athanázio, advogado e escritor de Santa Catarina, que acaba de publicar “Farquhar e Lobato”. Em poucas páginas da Editora Minarete, relata em pormenores a extensa guerra entre o americano e o autor de São Paulo, um cidadão sem medo, que se engalfinhou com o adversário, onde estivesse, por suas ideias e com patriotismo.
Enéas traça o perfil do magnata. Homem de mil negócios, fundou um império econômico, o Sindicato Farquehar, com tentáculos em grande parte do mundo. Nascido na Pensilvânia, estabeleceu seu grupo em Nova York, após formar-se em engenharia e direito. Lidou com energia elétrica, bondes, terras, gado, frigoríficos, navegação, celulose e papel, madeiras e minérios. Além do projeto para exploração das riquezas de Itabira, recebeu concessão para operação dos portos no Pará e do Rio Grande, construiu a Madeira-Mamoré, a “ferrovia do diabo” ou “da morte, a Estrada de Ferro São Paulo Rio-Grande, sonhando com a interligação de todo o continente, inclusive o famoso trem internacional, blindado e luxuoso trafegar entre Argentina e São Paulo”.
Está ligado perenemente à história de Santa Catarina, por seus empreendimentos ferroviários, mas também na implantação de grandes serrarias operadas pela Sohthern Brazil Lumber & Colonization Company. Por sua atuação em extensa região, é lhe atribuída a Guerra do Contestado, cujas instalações em Calmon foram invadidas e queimadas pelos revoltosos. Vez por outra, algum periódico recorda esse período de sangue do interior catarinense.
Ainda segundo Enéas, a Lumber, associadas e sucessoras, serraram cerca de um bilhão de árvores, em lugar nada em compensação: “nem uma obra pública, um educandário, um hospital. Até a região amarga a triste condição de ser a mais pobre do Estado”. Lobato, a propósito, criticou: abusadamente, o governo brasileiro está sendo manobrado. Nas sombras pelos piores inimigos do país, que se põem a que o Brasil tenha uma indústria de aço importante, através da qual possamos escapar de nosso lodaçal econômico.
O intelectual catarinense, um entusiasta de Lobato e de suas campanhas, define a posição do paulista diante do riquíssimo ianque: “não passava de um perigoso aventureiro internacional que pregava o entreguismo e encarnava o próprio imperialismo. O escritor temia a ação do americano, em especial sua capacidade de abrir portas de maneira não ortodoxa, através de polpudas propinas, que – segundo seu biógrafo – eram repassadas pro seus advogados e engenheiros bem relacionados, nunca por ele próprio, que seria quacre convicto”. Do empenho de Lobato, vai-se com moinhos de vento, lembrando o personagem fantástico de Cervantes.
Em tempo: o biógrafo em questão é Charles A. Gauld, no livro “Faruhar, o último titã, com 520 páginas.


83165
Por Manoel Hygino - 9/3/2018 07:07:15

Perguntas e dúvidas

Manoel Hygino

É quaresma. Espaço de quarenta dias de jejum, desde a quarta-feira de cinzas, inclusive, até domingo de Páscoa, exclusive. A paisagem natural, como o roxo das plantas demonstram, que chegado é o tempo, já não mais respeitado do jejum que marcou o passado. Na Quaresma, ao findar a última semana de fevereiro, uma tempestade desabou sobre Belo Horizonte, deixando um rastro de destruição e uma morte. O tempo fechado, plúmbeo, parecia prenunciar o desastre sobre a montanha. Aconteceu.
Terminado o horário de verão, que incomodou grande parte dos brasileiros, reencorpadas as represas hidrelétricas, afastou-se temporariamente a inquietude com o provável alongamento do racionamento de água e energia em determinadas regiões, porém permanecem ou surgiram novas preocupações. Este é um ano de eleição e, se a economia dá sinais de melhoria, muitas outras perspectivas são sombrias.
Anuncia-se que os partidos políticos terão mais de R$ 888 milhões de fundo público para o pleito, sendo muitos os candidatos a candidatos à presidência da República e aos demais cargos em disputa. Indaga-se o brasileiro sobre alguém, que, honesto e patrioticamente, poderá exercer tão excelsas funções. Dúvidas cruéis.
O Carnaval de 2018 ficou para trás, com euforia belo-horizontina de quem aprecia Momo e seus folguedos, ignorando as frustrantes filas à rede pública de saúde. A febre amarela ameaça. Pelas rádios e TVs, há a notícia de que o gás de cozinha triplica o preço desde que sai da refinaria até chegar ao consumidor. Como?
Em Jacarepaguá, estado do Rio, um subcomandante de Unidade Pacificadora foi executado após entregar a arma. Trata-se do terceiro militar morto desde a nomeação do general Braga Neto para interventor federal de segurança pública. Tinha 26 anos e apanhava um lanche no comércio para alimentar-se.
Ainda naquele estado, um juiz federal, foi flagrado dirigindo o Porsche apreendido do notório empresário Eike Batista. O magistrado se viu condenado pela própria Justiça Federal a 52 anos de prisão. Que exemplo!
Minas, Espírito Santo e São Paulo temem a fuga em massa dos criminosos do Rio para seus territórios. Há natural medo de que os delinquentes, perigosos e poderosos, se escondam além dos limites fluminenses. É melhor prevenir, se é que ainda há tempo.
Vinte milhões de casas no Brasil já são abastecidas pela energia gerada pelo vento, o que significa 11%. O país descoberto por Cabral ultrapassa o Canadá e Itália no uso dessa fonte. Não se informou, contudo, como o vento fornecerá alimentos às residências. Há jeito?
Depois das notícias e considerações, pergunto-me com relação à Constituição, tão citada em discursos e sentenças. A Carta Magna, quando falou do júri, usou o termo “soberania”. Quer dizer: o último poder, sobre o qual outro não existe. Sem embargo, a jurisprudência mudou o espírito da Constituição e se permitiram recursos a tribunais superiores. As decisões são soberanas? Com tais inquirições, perde-se o sono.


(N. da Redação - A foto acima, da última lua cheia em M. Claros, no fim da semana passada, é homenagem do montesclaros.com ao escritor e jornalista Manoel Hygino, a mais alta voz de M. Claros nos dias atuais).


83160
Por Manoel Hygino - 7/3/2018 07:10:02
Um julgamento político

Manoel Hygino

Jamais, o Brasil passou por uma série tão extensa de julgamentos nos altos escalões como presentemente. As atenções se voltam para os veículos de comunicação, também tampouco tão incessantemente consultados como agora.
Pois “Julgamento Político” é de um dos títulos de “O livro de curiosidades da Bíblia”, do escritor e jornalista Pedro Rogério Moreira, ainda a ser lançado, mas que certamente interessará a gregos, troianos, judeus e palestinos, que tenham um mínimo de vontade de conhecer assuntos com os quais convivemos por toda a vida.
Julgamento político ou técnico? É a indagação que se repete a cada dia, diante da sucessão interminável de nomes que surgem no rol dos já investigados ou sob investigação, e a serem levados a juízo. Para Pedro Rogério, nosso confrade na Academia Mineira de Letras, filho do presidente perpétuo do sodalício, Vivaldi Moreira, o julgamento de Jesus Cristo foi eminentemente político.
Explica: “O Sinédrio, misto de tribunal religioso e civil composto da nobreza da nação judaica, condenou Jesus à morte. Mas não tinha poder de executar a sentença, porque o Império Romano lhe havia retirado a autoridade de matar”, isto é, de executar.
Deste modo, “o Sinédrio encaminhou o condenado ao representante de Roma em Jerusalém, Pôncio Pilatos”, que seguia rigorosamente as regras das comissões de controle de infecção hospitalar em todo o mundo: “lavou as mãos”.
Deu-se, então, a segunda fase do processo, diante do tribunal romano, o Pretório. Pilatos não se convenceu da culpa de Jesus e o enviou à presença de Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia, a mais alta autoridade civil e judicial”, que tampouco via razão na condenação máxima, ele que antes mandara executar João Batista. In dubito. O caso foi reencaminhado a Pilatos, que “sem convicção jurídica e moral, acabou fraquejando, por medo político, e referendou a sentença imoral reclamada aos berros pelo populacho arregimentado pelo Sinédrio” (João 18.1-13 e “Vida de Cristo, de Recciotti).
No entanto, em outro tópico, o autor chama a atenção para o detalhe: “Herodes ficou alegre... diante de Jesus”. É que Lucas, o evangelista, o único a historiar o fato, relatara que o tetrarca, rei da Galileia e de outra província da Palestina, a Pereia, “se alegrou muito em ver Jesus, pois de há muito desejava conhecê-lo, por ter ouvido falar dele muitas coisas e esperava algum milagre”.
Os fatos se encaixavam. Herodes estava em Jerusalém para a Páscoa quando se deu a prisão do nazareno. Como o governador considerasse o acusado inocente, queria livrar-se de julgá-lo e mandou o caso para quem mais podia. Jesus procedeu, como muitos investigados pela Lava Jato hoje: ficou em silêncio diante das perguntas de Herodes.
A solução sofria procrastinação, como no Brasil de hoje. Herodes Antipas tratou o réu com “desprezo e zombaria” e, sem definição, determinou seu retorno a Pilatos, sem exarar sentença. Repetia-se o fato envolvendo Herodes Magno, avô do tetrarca, que mandara eliminar décadas antes, as crianças nascidas em Belém, à época de Jesus, bebê.
Resumindo: Jesus, antes da condenação fatal, passou por quatro juízes, mas em poucas horas, na Páscoa. Aqui, ainda Quaresma somos.


83152
Por Manoel Hygino - 3/3/2018 08:16:59
Petróleo, ainda

Manoel Hygino

Energia é problema, de modo geral. A que chega pela fiação das distribuidoras de eletricidade e a que move aparelhos de locomoção e transporte, em todas as regiões do planeta. O Brasil mal está saindo de um desafio, porque as chuvas acomodaram as represas, afastando embora temporariamente o risco de racionamento.
Energia, contudo, não é nem será tema ultrapassado. Há os seus preços, que pesam em todos os orçamentos: os industriais, públicos, comerciais, das famílias. Um professor da Universidade de Upsala, Suécia, integrante de um grupo de trabalho, defendeu a teoria de que a capacidade produtiva de petróleo no mundo, não conseguirá acompanhar o aumento de demanda e entraria em declínio de 2013. Estamos nesse período.
Em resumo: iniciamos o processo de redução da produção de petróleo barato, até porque a extração está mais cara. Produção cai, custos aumentam. O presidente da Shell no mundo advertiu que poderá haver um próximo ciclo de disparada nos preços do petróleo, caso a economia cresça. Seria uma nova e grave crise mundial. Para os estudiosos, ela resulta de os respectivos problemas não serem considerados em tempo hábil.
O jornalista Dídimo Paiva comentou: “Com a aprovação do Projeto Regulatório do Pré-Sal (Petrosal), todos pensamos que estávamos iniciando a grande tarefa de ressurreição do Brasil. Alguns órgãos do governo da União informaram que nessa obra já temos cerca de 250 mil pessoas qualificadas na sua execução. Uma tarefa grandiosa, tanto mais que até hoje não conseguimos resolver o problema de educação de qualidade para todos”.
Devemos voltar aos Beatles e conformar-nos com a ideia que o sonho acabou? A verdade é que não terminou o consumo elevado e o brasileiro quer carro, se possível mais de um. A descoberta do pré-sal despertou esperanças, que se vão desvanecendo, principalmente com a recente política de preços. Que, por sinal, já vai mudar.
Os piratas que dirigiram a Petrobras deixaram um rastro de prejuízos e suspeição, que só o tempo se encarregará de vencer, se possível. Mas a gente deste país paga alto preço pelo enriquecimento ilícito de muitos. A empresa, no período áureo, promoveu o maior investimento da indústria mundial de petróleo.
E agora? Evidentemente se cuida do assunto, que é essencial, mas os horizontes ainda não podem ser esplêndidos. O buraco, a cratera, é enorme, sequer foi medida em termos de extensão e profundidade.
Como sair dessa tragédia? Qual o prazo? Qual o preço? Evidentemente, os números serão fantásticos e não nos desvencilhemos da maior crise econômica e moral de nossa administração pública.
Investiga-se e julga-se, enfrentando os meliantes com poder de fogo extremamente elevado. Não se trata de um caso como o de um criminoso do naipe do Rogério 157, sucessor do já preso Francisco Bonfim Lopes, o Nem, que comandava a venda de entorpecentes em boa parte do Rio de Janeiro. O negócio agora é outro: petróleo.


83140
Por Manoel Hygino - 28/2/2018 07:26:41

Perguntas e Dúvidas

Manoel Hygino

É Quaresma. Espaço de quarenta dias de jejum, desde a Quarta-feira de Cinzas, inclusive, até Domingo de Páscoa, exclusive. A paisagem natural, como o roxo das plantas demonstram, que chegado é o tempo, já não mais respeitado do jejum que marcou o passado.
Na Quaresma, ao findar a última semana de fevereiro, uma tempestade desabou sobre Belo Horizonte, deixando um rastro de destruição e uma morte. O tempo fechado, plúmbeo, parecia prenunciar o desastre sobre a montanha. Aconteceu.
Terminado o Horário de Verão, que incomodou grande parte dos brasileiros, reencorpadas as represas hidrelétricas, afastou-se temporariamente a inquietude com o provável alongamento do racionamento de água e energia em determinadas regiões, porém permanecem ou surgiram novas preocupações. Este é um ano de eleição e, se a economia dá sinais de melhoria, muitas outras perspectivas são sombrias.
Anuncia-se que os partidos políticos terão mais de R$ 888 milhões de fundo público para o pleito, sendo muitos candidatos à Presidência da República e aos demais cargos em disputa. Indaga-se o brasileiro sobre alguém, que, honesto e patrioticamente, poderá exercer tão excelsas funções. Dúvidas cruéis.
O Carnaval 2018 ficou para trás, com euforia belo-horizontina de quem aprecia Momo e seus folguedos, ignorando as frustrantes filas à rede pública de saúde. A febre amarela ameaça. Pelas rádios e tevês, há a notícia de que o gás de cozinha triplica o preço desde que sai da refinaria até chegar ao consumidor. Como?
Em Jacarepaguá, Estado do Rio, um subcomandante de Unidade Pacificadora foi morto a tiros e executado após entregar a arma. Trata-se do terceiro militar morto desde a nomeação do general Braga Neto para interventor federal de segurança pública. Tinha 26 anos e apanhava um lanche no comércio para alimentar-se.
Ainda naquele Estado, um juiz federal, foi flagrado dirigindo o Porsche apreendido do notório empresário Eike Batista. O magistrado se viu condenado pela própria Justiça Federal a 52 anos de prisão. Que exemplo!
Minas, Espírito Santo e São Paulo temem a fuga em massa dos criminosos do Rio para seus territórios. Há natural medo de que os delinquentes, perigosos e poderosos, se escondam além dos limites fluminenses. É melhor prevenir, se é que ainda há tempo.
Vinte milhões de casas no Brasil já são abastecidas pela energia gerada pelo vento, o que significa 11% do país, com o que o país descoberto por Cabral ultrapassa o Canadá e Itália no uso dessa fonte. Não se informou, contudo, como o vento fornecerá alimentos às residências. Há jeito?
Depois das notícias e considerações, pergunto-me com relação à Constituição, tão citada em discursos e sentenças. A Carta Magna, quando falou do júri, usou o termo “soberania”. Quer dizer: o último poder, sobre o qual outro não existe. Sem embargo, a jurisprudência mudou o espírito da Constituição e se permitiram recursos a tribunais superiores. As decisões são soberanas?
Com tais inquirições, perde-se o sono.


83139
Por Manoel Hygino - 27/2/2018 07:10:05
Lenta e serenamente

Manoel Hygino

No Brasil, a violência chegou a tal ponto que as chuvas, longa e ansiosamente aguardadas, chegaram em “pancadas”. Os fatos de que se toma diário conhecimento demonstram que não estamos no melhor dos mundos, embora o outro – o de resto do planeta – não seja dos mais pacíficos.
Cito um exemplo: o Zoológico de Montes Claros será desativado definitivamente, depois de um jacaré-de-papo-amarelo ser encontrado morto. A PM informou que o bicho, com mais de 30 anos, fora morto com um “instrumento perfuro-cortante”, possivelmente um arpão. Não constituía fato isolado. Anteriormente, os humanos atacaram um macaco. Os animais remanescentes serão doados a outros zoos. Terão vida mais longa e proteção?
Em Brasília, por aquela época, um caminhão de Bombeiros foi interceptado por PM, pela madrugada, ao cruzar em alta velocidade em direção ao Congresso. Explicou-se: um sargento bombeiro, de 44 anos, furtou a viatura e saiu “louco em disparada na Esplanada”. Não tinha autorização para retirar o caminhão e queria explodi-lo contra o prédio do Parlamento. Tratava-se, talvez, de um surto psicótico, tão comum em atentados nos EUA.
Prepararam-se multidões para o Carnaval em 2018, no Brasil, em que se julga o período de alegria máxima do ano. Mas o acontecimento momesco me faz, em contraposição, evocar o sepultamento, em janeiro, do carroceiro João Faria, mestre do Segundo Termo de Catopês, de Nossa Senhora do Rosário, em Montes Claros. O som dos tambores e caixas cessou para que houvesse silêncio total. O sucessor, irmão mais velho, em voz rouca enquanto o corpo descia à derradeira morada, advertia: “não cabe a nós contrariar a vontade de Deus. Vai em paz, meu irmão”. Aí, a cantoria recomeçou repetindo
um ritual de dois séculos. Ou mais, quem sabe? Depois que a matéria desceu ao solo, ainda molhado pela invernada de janeiro, em pleno verão, crédulos e incrédulos acompanhavam os boletins da meteorologia. Mais chuva? Seja o que Deus quiser.
Depois dos folguedos, acorreram-me da memória as declarações do papa emérito Bento 16, que fará 91 anos em abril: “no lento enfraquecimento de minha força física, interiormente estou em peregrinação para a Casa do Senhor”. Seu secretário pessoal observou que o pontífice, renunciante em fevereiro de 2013, estava “apagando como uma vela, lenta e serenamente”.
Neste mosaico de fatos e pensamentos, vejo-me, coagido a repetir com Juscelino, após 1964, humilhado e ofendido: “nenhuma ferrugem na alma nem na vontade. As declarações e os sofrimentos da revolução não conseguiram quebrar a fibra íntima. Sinto-me ainda capaz de grandes aventuras, tais como Brasília. Esta graça Deus conferiu-me. Se não me permite ver o mundo num halo de esperança, também não o fechou nas trevas da desilusão. Compreendo os homens. São seres que não atingiram ainda o status profetizado por Teilhard de Chardin – a igualdade com Deus. Estão numa escala que exigirá ainda milênios ou bilênios para chegarem ao aperfeiçoamento. Sei, portanto, perdoar as falhas. De vez em quando, uma ingratidão mais forte desequilibra a nossa crença. Com o tempo refazemos”.


83134
Por Manoel Hygino - 24/2/2018 07:25:10
Um patrimônio valioso

Manoel Hygino

O escritor Franklin Jorge presta um relevante serviço ao país que lê ao selecionar textos de Luís da Câmara Cascudo no volume “Actas Diurnas”, que acaba de ser publicado em Natal (RN) por Adriano de Souza, sob patrocínio do Novo Jornal e do Instituto Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, presidido por Ana Maria Cascudo Barreto, presidente.
Neste tempo que atravessamos, em que se fala do Estado nordestino por atos de violência ali praticados, com ênfase na rebelião ou rebeliões no presídio de Mossoró, é de suma importância saber-se que naquele pedaço de Brasil, tão visitado por suas bela praias, há mais, muito mais. Para lembrar, por exemplo, a produção intelectual e literária de Cascudo, representante das mais belas tradições da terra e de sua gente. Ana Maria e o jornalista Cassiano Arruda Câmara, este de “O Novo Jornal”, honram, assim, o compromisso de preservar, divulgar e gerenciar o patrimônio cultural de quem fala tão alto entre os potiguares.
O Rio Grande do Norte tem gloriosa história, a começar porque os portugueses apareceram por lá, com dom Nuno Manoel, em 1501, um ano após descoberta a terra. Mas não só os lusos se interessavam por ela e a ocuparam. Os franceses lhes seguiram os passos. Só em março de 1597, um ataque simultâneo por terra e mar, expulsou os súditos de Paris, naquela que é considerada entre as mais importantes operações de guerra do Brasil colonial. Foi a retomada do território, verdadeiro marco no controle do Nordeste, como registra Ivan Alves Filho. Terminava ali a ocupação francesa, nas proximidades da fortaleza dos Reis Magos, como conta o jesuíta Serafim Leite.
Muita história, pesquisada e relatada, inclusive pela voz popular, exatamente por Câmara Cascudo, que precisa ser mais difundido. Não se esquecerá das lutas históricas que lá tiveram lugar, como a rebelião comunista de 1935, a Intentona, que chegou a instalar um governo provisório em Natal.
Tudo isso de que eu falo passou por Cascudo, que focalizou a história dos Santos Reis do Oriente, considerando-a como uma vitória da tradição oral, da cultura popular, sobre a secura dos textos religiosos. O historiador sentencia: “foi uma veneração que o povo soube levar até o culto e derramá-la pelo universo cristão”.
De fato, dos evangelistas apenas Mateus foca o assunto, enquanto Marcos, Lucas e João guardam silêncio, sendo conveniente observar que mesmo o único a registrar o fato nada diz sobre a individualização dos visitantes à manjedoura onde nascera o filho de Deus. Revelou simplesmente: “Eis que uns magos vieram do Oriente”, não dizendo quem era e quais seus nomes, a cor da pele. E olhe que a visita já estava profetizada nos Salmos de David e de Salomão e em Isaías.
Pois Cascudo comenta: “os cristãos simpatizaram com aqueles homens que tinham vindo de longe procurando o Rei dos Judeus, guiados pelo clarão de uma estrela miraculosa, a nossa Estrela do Natal, que está no escudo da nossa cidade que usa o divino nome”.
Os três sábios não mais intervieram em nada na vida terrena de Jesus, mas Cascudo realça que São Tomé ainda os encontrou vivos e velhinhos e lhes concedeu as águas do batismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Há muitas razões, pois, para elogiar o esforço de Franklin Jorge, do Ludovicus, de O Novo Jornal. Cascudo é um patrimônio.


83125
Por Manoel Hygino - 21/2/2018 10:32:06
Aqui e agora, o desafio

Manoel Hygino

Aconteceu o que se esperava. A intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro se tornara imperativa pelas próprias razões que determinaram a medida presidencial extrema, embora não a última. Apesar do interventor general Braga Neto não aceitar a ideia de tanta gravidade, considerando a existência de “muita mídia” em torno do assunto, o Brasil inteiro admite e reconhece a situação a que chegou aquele Estado, como julgou o governo federal.
O fato, aliás, é percebido pelo comandante do Exército, general Villas Boas, ao advertir que os problemas enfrentados pelo Estado vão além da segurança pública e exigem ações mais efetivas. “Os desafios enfrentados pelo Rio de Janeiro ultrapassam o escopo de segurança pública, alcançando aspectos financeiros, psicossociais, de gestão e comportamentais”; impõem a “necessidade de uma honesta e efetiva ação integrada dos poderes federais, estaduais e municipais”.
As primeiras providências são para atender ao ritual legal para fazer funcionar o que se pretende, começando pela aprovação da Câmara e do Senado. O planejamento se iniciou imediatamente, para que se tenha realmente sucesso no que se propõe empreender em área tão complexa e abrangente até final de dezembro.
A situação a que chegou o Estado do Rio não é a única e primeira, sequer restrita ao território em que se encontra encravada a imagem da cidade considerada cartão-postal nacional. O que se fará ali poderá ser extensivo a todas as regiões do país, estigmatizado por crime e corrupção, propagados a todas as unidades da Federação. Não se trata de um desafio localizado em suas causas e efeitos, pois dolorosamente sentidos em todos os rincões.
Vive a nação uma fase dificílima e não há como negar. A medida drástica adotada com relação ao estado litorâneo atinge, em última análise, toda a nação, exposta a organizações criminosas de alto poder e inteiramente contrárias aos interesses nacionais. Combatê-las em todas suas fortalezas e seus escalões é uma imposição, nesta hora já abalada por outras situações não menos embaraçosas à vida nacional e ao exercício pleno da democracia.
Dispenso-me de enunciá-las. A opinião pública, o cidadão, sabem.
Mutatis mutandis, evoco aqui o que se disse, em 1870, quando se publicou o manifesto do Partido Republicano, em 3 de dezembro: “A imprevidência, as contradições, os erros das usurpações governamentais, influindo sobre os negócios internos e externos da nossa pátria, vão criando esta situação deplorável, em que as inteligências e os caracteres políticos parecem fatalmente obliterados por um funesto eclipse”.
Poderia soar estranho, mas se permitiria repetir, aqui e agora, que a sociedade brasileira, após tão extenso tempo de existência como coletividade nacional independente, encontra-se, em face do problema de sua organização e funcionamento políticos, como se surgisse do caos colonial.
É triste a constatação, mas pelo menos aponta para a necessidade de todos os brasileiros se incorporarem a uma obra de regeneração nacional, em clima tão plúmbeo e confuso.


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Por Manoel Hygino - 17/2/2018 08:18:53
A tragédia da BR-251

Manoel Hygino

O grave – gravíssimo – acidente na manhã de 13 de janeiro, foi mais – muito mais – do que mero desastre rodoviário no Norte de Minas. O número de mortos e feridos equivaleria ao de vítimas dos atentados perpetrados no Oriente Médio pelos fanáticos religiosos que anualmente deixam saldos de dolorosas memórias.
O tópico inicial da imprensa escrita, o lead, dava a síntese da tragédia: caminhão desgovernado invade a contramão, provoca batida entre cinco veículos e causa pelo menos 13 mortos e 29 feridos. Local: BR-251, Norte de Minas, próximo à histórica Grão Mogol, rodovia das mais intensas em tráfego de carga pesada.
A Delegacia Regional da Polícia Rodoviária Federal expediu, na época, nota confirmando os dados e a dinâmica do acidente, que começou quando carreta, com outro veículo na carroceria, viajando Salinas a Montes Claros, perto do KM 413, invadiu a faixa contrária, em uma reta, e desencadeou a sucessão fatal.
De quem é a culpa? A pergunta surge naturalmente, mas a resposta exige cuidados especiais. No trecho extenso de estrada que liga à rede rodoviária nacional, a muitas vezes fatídica Rio-Bahia, BR-116, dezenas e dezenas de pessoas ficaram mutiladas para sempre. Ou simplesmente perderam a vida.
Poderia a tragédia ser evitada?
Evidentemente, sim. Já há sinalização e o perigo era ali mesmo, não morava ao lado. É uma região enorme, percorrida por cargas transportadas para o Nordeste ou passageiros que descem o mapa
para o Sul e Sudeste, ou por nordestinos que vão matar saudades na terra natal.
Quem acompanha os fatos, através de qualquer meio de comunicação, sabe perfeitamente que não é o primeiro, nem será o último acidente com muitas vítimas naqueles rincões. A máquina de produzir defuntos funciona sistematicamente e é frequente a falta de consciência dos que dirigem veículos por aqueles pedaços do Brasil. O Estado, como poder público, aparentemente fizera o que devia, para evitar acidentes, ao que se depreende da descrição.
O atendimento às vítimas é demorado, sobretudo pelas longas distâncias. A rede hospitalar não está preparada à suficiência para tragédias dessa grandeza e consequências. A sucessão de choques, o capotamento, o tombamento e o incêndio dos veículos, de mais de um Estado, demonstraram que toda precaução é pequena em tais lugares e circunstâncias.
Os hospitais locais, com ênfase a Santa Casa de Montes Claros, a cidade de maior importância do Norte, fizeram o possível, com os meios disponíveis, no sábado quente já pela manhã. O Samu foi chamado à emergência e um helicóptero da Polícia Militar participou do trabalho, em local remoto, esforçando-se ao máximo em benefício do próximo. No entanto, o resgate da vida não está disponível muito perto. Tudo se transforma, enfim, num doloroso e imprevisível episódio.
A tragédia também relembra os mortos no já histórico rompimento da Barragem do Fundão, a partir do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, há mais de dois anos. As estatísticas são insaciáveis. E o Brasil ostenta o nono lugar no cômputo mundial de acidentes de acidentes de trânsito.


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Por Manoel Hygino - 9/2/2018 07:01:55
As causas de mal-estar

Manoel Hygino

O brasileiro está desencantado, a não ser aquele que se perde (ou se encontra) à margem da lei. Não há pessimismo, são os fatos que o demonstram. Recorro ao noticiário de apenas um dia e vejo: tantas pessoas morreram por febre amarela; cidade baiana tem 23 casos de malária; em uma semana, registros de dengue quase triplicam. Como se sentiriam os cientistas patrícios do princípio do século passado, a começar por Oswaldo Cruz?
Em outro dia, informação nova e preocupante. Dados do Ministério da Saúde revelaram que, em cinco anos, o número de episódios de sífilis aumentou 5.000%, tornando-se a doença epidemia. Esta é séria, podendo causar leões na pele, nos ossos, nas articulações, além de aneurismas, meningite, paralisia geral e demência.
Se pouco, a Sociedade Brasileira de Primatologia adverte que o Brasil está à beira de um desastre ambiental, mais grave a situação em Minas, Espírito Santo e São Paulo. É que, embora não transmitam febre amarela, os macacos continuam atacados e mortos pela população. “Sem macacos, contudo, não se poderá saber se há vírus na região”, dizem os técnicos.
Não se tente desvendar o infinito novelo de causas que produziram a presente crise, perversa e sem previsão de fim. A hora do relógio tem 60 minutos, mas a das dificuldades e desafios atuais não tem duração prevista. A “Folha de S. Paulo” explica que uma serie de erros explica o avanço da febre amarela”; o “Estado de S. Paulo” observa “Fundo público eleitoral dá mais dinheiro a 21 partidos”. Há ligação entre os fatos!
A Reforma da Previdência, quase unanimemente aceita pelas lideranças, inclusive dos economistas, se mantém no balança, mas não cai de interesses subalternos. É quase incrível: as facções e seus privilégios acima de razões maiores da nação, uma chantagem fantástica, em torno do futuro nacional. É o caso da batalha jurídica da posse da ministra do Trabalho, um bafafá de baixo nível, a despeito da relevância do ato central.
O rebaixamento da nota de crédito soberano do Brasil pela agência internacional de risco Standard & Poor’s não surpreendeu. Enfim, as dificuldades em se aprovarem reformas com efeitos de longo prazo têm repercussão. Ninguém abre mão do que é ou supõe direito adquirido.
E descambamos para a barafunda em que nos debatemos. Não é como a bola de fogo que cruzou os céus do Norte do Peru e do Acre, há poucos dias. Ela deixou apenas um rastro branco no espaço e desapareceu. Aqui é diferente e inquieta profundamente. As causas do mal-estar são difusas, algumas identificadas, como a seguinte: a Avaliação de Alfabetização mostra que crianças com 8 anos não conseguem ler um texto, escrevem muito mal e na matemática têm a pior avaliação. A prova foi feita no ano passado com mais de 2 milhões de alunos do 3º ano do ensino fundamental – a idade em que termina o ciclo de alfabetização nas escolas. Na leitura, 56% estão no pior nível e não entendem o que leem nem mesmo histórias em quadrinhos.
Quase um terço dos alunos não aprendeu a escrever de forma satisfatória, não sabe escrever palavras de forma correta e os textos são incompreensíveis. A maioria que consegue escrever um texto comete muitos erros ortográficos e de concordância. Na matemática, 57% estão no pior nível. Quase seis em cada dez alunos não conseguem resolver problemas simples.


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Por Manoel Hygino - 6/2/2018 08:55:02
Literatura e Psicanálise

Manoel Hygino

Vera Lúcia Oliveira apresentou, em 2017, ainda tão perto e tão em nós humanizado, “O beijo da mãe” e outros ensaios de “Literatura & Psicanálise”, pela Thesaurus. Com quase duzentas páginas, acrescenta à nossa literatura e biblioteca um belo conteúdo. Não é só percorrer o texto e tomar conhecimento de fatos e personagens. Até porque alguns deles já foram dissecados por quem tem efetiva competência e interesse pelos focalizados e pela verdade em sua inteireza, se possível.
O que quero dizer se explica e se justifica pelo pensamento inicial que é de Schopenhauer, em “O mundo como vontade e como representação”: “O poder da verdade é inacreditavelmente grande e de duração indizível. Encontramos seus frequentes vestígios em todos os dogmas, mesmo os mais absurdos e bizarros, de diferentes épocas e países, muitas vezes até mesmo em companhia estanha, em mistura esquisita, no entanto, reconhecível. Ela pode ser comparada a uma planta que germina sob um amontoado de pedras e, não obstante, emerge para a luz, desenvolvendo a si mesma por desvios e curvas, desfigurando-se, empalidecida, mas alcançando luz”.
Com exatamente uma dúzia de textos, Vera Lúcia focaliza os fatos e procura encontrar a verdade, que são muitas, pesquisadas tenazmente pelos pioneiros da psicanálise, a que se disponibilizou material abundante na literatura. Assim, a autora recorre para seu excelente trabalho a Mário de Andrade, Marcel Proust, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Flaubert, com personagens suficientemente conhecidos ou algum outro qualquer, como o que recebeu o nome de Roberto Carlos Ramos, protagonista do filme brasileiro “O contador de histórias”, de Luiz Vilaça.
No caso do último citado, tem-se uma visão de Donald W. Winnicott do adolescente com treze anos de idade, que se deitou, em posição fetal, numa linha de trem para matar-se, e quedou esperando. Mas a morte passou ao lado.
Um outro filme focalizado ”Augustine”, à primeira vista apenas o caso da moça pobre de 19 anos, que trabalha como doméstica em uma residência burguesa em Paris, em 1885. Na cozinha, vê os caranguejos se debatendo na fervura e, no momento em que serve os comensais à mesa, sofre um ataque histérico. Ela puxa a toalha, levando o jantar e tudo o mais que ali havia. Augustine é transportada ao hospital La Salpetrière, onde é internada, sob cuidados do doutor Charcot, já famoso. Por sinal, ele mostra a macaca de estimação Zibidie, doação de D. Pedro II, seu paciente e amigo e de quem, assinará o atestado de óbito em 1891, na capital francesa. Muitas emoções.
O último capítulo conta a via crucis de um doente de nervos, que mexeu com a tranquilidade de muita gente, principalmente depois que se tornou público o seu livro “Memórias de um doente dos nervos”, publicado em 1903, traduzido no Brasil pela psicanalista Marilene Carone. Era um cidadão comum, filho de uma família burguesa protestante, pai exigente e fruto de um ambiente cultural de muita disciplina; um drama pessoal e familiar, que vai parar com Freud. A descrição de Vera Lúcia de Oliveira é perfeita. Como, aliás, tudo o que mais se insere neste volume, com louvor. Quem ler, confirmará. A apresentação é de Frederico Lucena de Menezes, médico-psiquiatra, terapeuta e escritor.


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Por Manoel Hygino - 2/2/2018 08:02:00
Lembretes talvez úteis à hora

Manoel Hygino

O Brasil acompanha cuidadosamente, como em poucas outras vezes, os acontecimentos no cenário jurídico e político. Não basta ter opinião formada, o importante é a consciência em torno dos fatos, de suas causas e efeitos a curto, médio e longo prazos, pelo menos meditar seriamente sobre eles.
Para uso pessoal, recorri a trechos de um discurso do desembargador Rogério Medeiros: Eis Will Durant: “Todas as concepções morais giram em torno do bem geral. A moralidade começa com associação, interdependência e organização. A vida em sociedade requer concessão de uma parte da soberania do indivíduo à ordem comum; e a norma de conduta acaba se tornando o bem-estar do grupo. A natureza assim o quer, e o seu julgamento é sempre definitivo; um grupo sobrevive, com concorrência ou conflito com um grupo, segundo sua unidade e seu poder, segundo a capacidade de seus membros de cooperarem para fins comuns”.
E Aristóteles, citado por Giovani Reale: “Se, de fato, idêntico é o bem para o indivíduo e para a cidade, parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade; é certo que o bem, desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa, é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades”.
José Arthur Gianotti: “Quiseram construir um mundo sem ética. E a ilusão se transformou em desespero. No campo do direito, da economia, da política e da tecnologia, as grandes expectativas de um sucesso neutro, alheio aos calores éticos e humanos, tiveram resultado desalentador e muitas vezes trágico”.
O historiador José Murilo de Carvalho, referindo-se a Paulino José Soares de Souza, Visconde do Uruguai, filho de um médico brasileiro, nascido em Paracatu (terra de Joaquim Barbosa), observa: “Muito dos males apontados por Uruguai reativos à política nacional, como a distância entre o governo e povo, a burocracia absolutista e ineficaz, a mania de esperar tudo do Estado, o sufocamento dos municípios, a inadequada distribuição de responsabilidade entre municípios, províncias e governo central, o empreguismo, o empenho, o ocultismo, o patronato, o predomínio dos interesses pessoais e de facções, a falta de espírito público, a falta de garantia dos direitos individuais, continuam na ordem do dia, posto que atenuados”.
O professor Luiz Werneck Vianna, em 2013: “É hora de a política se fazer presente. Removendo práticas e instituições que levaram a atividade à degradação, deixando a sociedade brasileira prisioneira do anacronismo destes novos coronéis da vida republicana. Na política, os poderes abusaram do despudor, os valores foram dissolvidos. As pessoas não querem apenas de volta a estabilidade na economia. Elas desejam também recuperar o respeito perdido, a dignidade aviltada pela vulgarização dos modos e a celebração das espertezas”.
O próprio Werneck continua: As ruas começaram a falar sobre aumento das tarifas e os péssimos serviços dos transportes públicos, mas seguem falando de muito mais: de corrupção, de descaso, de desmandos, de desonra, de desvios de conduta. Na economia, o poder público (...) abusou da sorte e agora chega para todos a dolorosa conta da farra de gastos.


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Por Manoel Hygino - 30/1/2018 07:58:46
Dias portugueses e outros

Manoel Hygino

Para premiar seus leitores neste ano em que chega aos 70, Edgard Pereira concluiu e fez publicar, no final de 2017, “Dias portugueses e outros”. Algo para comemorar, somando o novo livro a “Violeta trindade”, “O lobo do cerrado” e “Outono atordoado”, premiado pela Xerox do Brasil, em 2001. Não só: professor aposentado de literatura portuguesa pela UFMG, doutor em Letras pela UFRJ, se lhe devem ainda, por sua produção como crítico literário e ensaísta, os títulos “Portugal, poetas do fim do século”, “Mosaico insólito” e “Arquivo e rota dos sonhos,” com edição portuguesa em 2014.
Lançado pelas Edições Suspiros Poéticos, de Belo Horizonte, o volume que se editou agora constitui uma homenagem ao livro “Suspiros poéticos e saudades”, de Domingos Gonçalves de Magalhães. Mas estas são apenas referências, porque nele se encontra muito mais do que o previsto no singelo título. É mais ainda do que um simples “diário” como sugerido.
Vale a pena a leitura, porque – através de Edgard Pereira – nos aproximamos dos modernos autores de além Atlântico, em África e Europa, embora nos atualizemos sobre o que há de novo nas letras do lado de lá e, ainda, do obituário de nomes expressivos.
O escritor, contudo, não se restringe a Portugal, porque se atém às efemérides, produção de obras, eventos e prêmios, o cotidiano em torno do que se chama “vida literária”, como o fez Eduardo Pitta, de Moçambique. Muito agradável a viagem com o professor mineiro que, ao desembarcar em Lisboa, lembra que Camões, no canto três de “Os Lusíadas”, enaltece as canções de fado e a histórica, nobre e calorosa cidade.
Observa: “o fanatismo pelo futebol lá também existe, talvez em escalas mais civilizadas, se tais sentimentos podem ser graduados”. Comenta que, “por mais que os portugueses reclamem das medidas de austeridade adotadas pelo governo, nada pode ser dito que lhe desmereça a competência e determinação na gestão do patrimônio público. Percebe-se a atuação de pessoas que trabalham de forma séria e compromissada, “detalhe que sinto nas mensagens que de lá me enviam os escritores Ronaldo Cagiano, de Cataguases, e Eltane, que decidiram trocar a residência da terra descoberta por Cabral pela de seu nascimento.
Mesmo de longe, Edgard acompanha o Brasil. Quando da Copa do Mundo, em 2014, aqui realizada. Cláudia Leite cantou o hino da competição, usando um maiô escuro e se tornou piada nas redes sociais lusas com o apelido de “galinha pintadinha”.
Na sequência das lembranças, a de Lúcia Machado de Almeida, falecida em 2005, a quem visitara no apartamento na Praça da Liberdade, onde sabia receber bem ao lado do esposo, o idealizador do Museu do Ouro, em Sabará, Antônio Joaquim de Almeida. Recorda-se, ainda, Pedro Rogério Couto Moreira, nosso confrade na Academia Mineira de Letras, filho de Vivaldi, presidente perpétuo do sodalício e culpado de meu ingresso ali, com cumplicidade de Murilo Badaró, seu sucessor.
Pedro Rogério encaminhara a Pereira o opúsculo “Geografia Sentimental de Miguel Torga em Minas Gerais”, separata da Revista da Academia, de que sou por ora editor. Também evocado o acadêmico Benito Barreto, o homem da “A Saga do Caminho Novo”, quando de sua concorrida posse. Enfim, um belo encontro com o excelente professor-escritor.


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Por Manoel Hygino - 27/1/2018 07:28:17
Neste incerto janeiro

Manoel Hygino

No término de ano, hora do balanço nos estoques dos estabelecimentos comerciais, trabalhoso esforço físico nas antigas lojas do interior, mas imprescindível. Na alta administração pública, levantamento do que ficou para trás e orçamento do que se terá à frente.
Embora os numerosos votos de felicidade, pairava dúvida sobre o futuro a curto, médio e longo prazos. O brasileiro se cansa em aguardar o melhor e desiludir-se. Regra geral. Assim, quem leu o noticiário encontrará números dolorosos. Em 2016, o Brasil tinha 24,8 milhões de brasileiros com renda inferior a 1/4 do salário mínimo, ou seja, houve 53% de aumento em comparação com 2014, segundo o IBGE. Significa: 12,1% da população vive na miséria. Consoante o Ipea, famílias com 1/4 do salário mínimo per capita estão em “pobreza extrema”. Os que vivem com até meio salário mínimo estão em pobreza absoluta”.
Ampliemos o raciocínio. O Banco Mundial estabelece como situação de pobreza extrema a linha de US$ 5,5/dia para consumo individual. Em 2016, esse valor correspondia, no Brasil, ao rendimento de R$ 387,15 por pessoa. Com base nesta classificação, havia por aqui 52,3 milhões de patrícios em pobreza extrema. E quem está efetivamente nesta condição vive ou sobrevive? Fica a pergunta.
Outra estatística, também do IBGE, de meados de dezembro: o número de jovens de 16 a 29 anos, que não estudam ou trabalham, chegara a 41,25 milhões em 2016 – isto é 25,8% do total de brasileiros nesta faixa etária. O grupo de “nem-nem”, como apelidados, evoluiu para 28,5% em quatro anos. Evidentemente, a culpa não é só do governo Temer.
Também no último mês do ano soubemos que, com base em estudo de consultoria, o consumidor residencial brasileiro teria de lidar com dois anos de reajustes na energia, bem acima da inflação. Causas: regime de chuvas insuficiente e crescimento dos encargos sociais. Neste final de janeiro, São Pedro reduziu as perspectivas de tarifas mais elevadas. Houve chuvas. Resta agradecer mais.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor divulgou, neste ínterim, pesquisa mostrando que tarifas cobradas pelos cinco maiores bancos do país subiram bem acima da inflação no período novembro 2016–outubro 2017.
Mas o consumidor não está nem aí, ao que parece. A razão está, suponho, no fato de o Brasil ser o segundo país do mundo em que as pessoas mais têm percepção equivocada sobre a realidade, segundo o Instituto Ipsos Mori. Em primeiro lugar, a África do Sul. Depois de Brasil vêm Filipinas, Peru e Índia. Próximas da realidade: Suécia, Noruega, Dinamarca, Espanha e Montenegro.
Confesso que descobri só recentemente o vocábulo “furdunço”, como classificaria a partida de futebol entre Flamengo e Independiente, na Argentina, no final da Copa Sul-Americana. Houve uma sucessão de brigas em derredor do Maracanã, centenas de torcedores invadiram o estádio sem ingressos, houve pancadaria por todo lado; feridos, balas de borracha e gás lacrimogêneo contra os baderneiros. E somos, ou éramos, considerados os reis do futebol, mas o espetáculo que todo o mundo viu envergonhou a nação e feriu nossos foros de civilização. Belo exemplo, não é?


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Por Manoel Hygino - 19/1/2018 07:31:36
Moscou assiste ao fim de Trotsky

Manoel Hygino

Assassinado em 1940, na cidade do México, por ordem de Stalin, Trotsky aparece agora nas telas da televisão russa, como comentado por Vitor Gomes Pinto. Em oito capítulos, revive-se a história de um dos mais importantes personagens do século XX, relatada pelo Pervie Canal, o Canal 1, para todo o território. Como se deve esperar, atraindo público inédito, dada a restrição- a palavra é fraca- que se fazia até hoje à personalidade focalizada e seu trágico fim.
A série foi anunciada por imagens pela própria Pervie Kanal, como já se se avisara durante o Mipcon, projeto voltado para o mercado internacional de conteúdos audiovisuais, realizado em Cannes. O fato passou a ocupar amplos espaços na mídia mundial e Konstantin Ernst, diretor-geral da rede, com 51% das ações do governo, explicou porque: “É a primeira série dedicada a Trotsky na história da Rússia. Ao contrário de Lênin, Trotsky se parecia com um herói de rock: fuga da prisão, revolução, amor, exílio e morte”. Todo mundo, por suposto, sabe algo a respeito.
Há cerca de dois meses, comentei aqui a repito: Leon Trotsky foi um dos principais instigadores, junto com Lênin, da Revolução de Outubro de 1917, que inspirou até um poema veemente de nosso Drummond. Fundador do Exército Vermelho, consagrou-se como um dos artífices do primeiro plano da vitória dos bolchevistas na guerra civil russa de 1918-1921.
Estabelecido o novo governo após Kerenski, Trotsky se opôs a Stalin, expulso do governo e do partido e, em seguida, da União Soviética. Passou pela Turquia e Noruega e, por fim, se transferiu para a América Central, escondendo-se na casa do pintor Diego Rivera, na capital mexicana. Conseguiu escapar de um primeiro atentado ordenado sistematicamente por Moscou, mas não do segundo, em 20 de agosto de 1940, na rua Coyacán, no distrito central da cidade.
A cena do último ato já foi focalizado pelo cinema inúmeras vezes. Agora, interpretado pelo popular ator russo, Konstantin Khabenski, aparece um homem envelhecido, que conversa com um jornalista canadense. Este representa o espião espanhol Ramón Mercader, enviado especificamente ao novo mundo para eliminá-lo. À polícia, ele contou: “Fechei os olhos. Desfechei um golpe terrível na cabeça de Trotsky. O grito que ele deu, eu jamais esquecerei. “Um “ah” longo e sem-fim, um som que ainda ecoa em meu cérebro. Trotsky ainda se levantou, correu em minha direção e mordeu minha mão. Consegui empurrá-lo. Caiu, mas se levantou de novo”.
Em Moscou, Pavel Sudoplatov, dirigente da KGB, que recebera pessoalmente de Stalin a ordem para a Operação, ouviu- através de mensagem de rádio cifrada – a confirmação do sucesso da empreitada. O “camarada” Trotsky estava definitivamente fora de combate.
Há alguns anos, o jornalista Geneton Moraes Neto entrevistou-o. Sudaplatov falou com frieza impressionante. Não há lugar para arrependimentos tardios ou sentimentos “vãos numa operação planejada e perpetrada em nome do Estado”.
A real identidade do assassino só foi obtida anos depois. Suportou sessões de tortura duas vezes por dia pela polícia mexicana. Mais tarde, ganhou do Kremlin uma casa de campo próxima a Moscou e uma pensão equivalente à de um major-general. Chegou a trabalhar para o governo Fidel Castro, no Ministério do Interior cubano, até morrer, em Havana, em 1944.


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Por Manoel Hygino - 17/1/2018 10:13:29
Exaltação ao povo que trabalha

Manoel Hygino

Passei longas (?) horas percorrendo as páginas. Havia muito trabalho a ler, a perscrutar nas fotos, numerosas, preciosas por seu valor histórico e sentimental. Na realidade, “Zé Gomes simples assim”, publicado em 2016, não é apenas um conjunto de imagens e registros escritos de seus autores, capitaneados pro Wagner Gomes, o organizador.
Livro que nos desperta sensações e sentimentos gratos. Caríssimo, no que tange ao seu valor material, porque o papel é de primeiríssima qualidade e, portanto, de alto preço; caríssimo, porque resgata o passado para um público devotado, que o deseja forte e perene;
parcialmente adormecido, mas não mortos. Saudade, pela melancolia que povoa o leitor pelos momentos, oportunidades e acontecimentos, que atravessou, mas também pelos belos instantes que não tivemos a sorte de viver, mas que tanto gostaríamos.
De uma singela homenagem do filho comovido, evolui-se para uma composição feliz de vários autores, da família ou não, gente que esteve ao lado de José Gomes durante sua existência, marcada pela simplicidade da origem e pela disposição de ser útil. Uma límpida demonstração do que eram as famílias antigas, em sua estrutura alicerçada na dignidade, na honra pelo trabalho, pela boa conduta e pelo espírito de solidariedade.
José Gomes, chefe dos Correios e Telégrafos em uma cidade grande (hoje pelos 400 mil habitantes), pai de família, vinculado e incentivador de belos projetos no campo social, esportivo e filantrópico, maçom movido pelas melhores princípios da irmandade, revela que se pode vencer com honestidade, ser útil. Os depoimentos, diversos, demonstram como foi a sua jornada pessoal, em uma comunidade que procurava concretizar sonhos e aspirações.
No período que ora cruzamos, que parece evidenciar a inclinação e a direção de só se conquistar sucesso pelos ínvios caminhos, pela improbidade, é alentador confirmar as trilhas do êxito e da ventura podem ser as do bem.
Esta a lição que fica do livro de Wagner Gomes, ao ensejo do centenário de seu pai. Por sinal, ao ver as imagens e percorrer os diversos excelentes textos, dá-se uma volta ao passado, através da farta documentação fotográfica. Ao tecer a crônica de vida paterna, o autor revela o sentido de família, da união dos cidadãos de bem visando seus mais cálidos sonhos e ideais.
O trabalho, cuidadoso, carinhoso, de Waldir Gomes é um hino a Montes Claros de ontem, que foi de seu pai, meu, seu, de sucessivas gerações, mais do que um a exaltação aos ancestrais que edificaram a cidade grande no longínquo sertão norte-mineiro. É, antes e acima de tudo, talvez, uma canção de esperança e de confiança no futuro de uma gente, operosa, dinâmica, que sabe o que quer para si e para a descendência. A bela edição constitui, ademais, pelo que se vê, mais do que um precioso documentário sobre a história de um lugar e uma gente, cujo denodo se acompanha desde a construção da casa na Dona Eva, a primeira, até os edifícios e bairros que se incorporaram ao panorama da terra de Gonçalves Figueira.


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Por Manoel Hygino - 8/1/2018 06:31:10
Um mineiro que veio de longe

Manoel Hygino

O falecimento de Francelino Pereira dos Santos, no dia em que começou o verão deste ano, não teve a repercussão devida. Muitos só ficaram sabendo depois do velório no Palácio da Liberdade. Aniversariava em 2 de julho, mesma data do jornalista Wilson Frade e do ex-prefeito de Belo Horizonte, secretário de Estado e presidente da Cemig Celso Mello de Azevedo. O França, como tratado entre os amigos, veio do Piauí, via Pirapora, e se apresentava como governador do Norte de Minas, região pela qual, aliás, nutria grande carinho.
O jornalista Paulo Narciso dedicou ao passamento cinco linhas, o suficiente. “Para registro da história, acima das paixões que muitas vezes tornam os homens indignos de si e do seu tempo: quando deixou o governo de Minas, o piauiense Francelino Pereira não tinha um carro. Informado disso, o então prefeito de Montes Claros, Toninho Rebelo, chamou alguns amigos e cotizaram a compra de um. Francelino foi presenteado por esses amigos com um Opala. Opala usado, de segunda mão. O ex-governador de Minas e sua família passaram a se valer de um carro usado”.
Francelino e Juscelino são nomes que rimam e ambos gostavam de modinhas. Através de sucessivos anos, trocando ideias na portaria de fundo da Prefeitura de Belo Horizonte, na rua Goiás, mantivemos uma amizade, uma discussão cordial sobre problemas diversos, com ênfase no campo da educação e das artes. Na Academia Mineira de Letras, encontramo-nos nas reuniões.
Companheiro de incursões amazônicas com Mário Palmério, Pedro Rogério, TV Globo por algum tempo, meu confrade na Academia Mineira de Letras, no dia do velório, mandou-me um e-mail, que publico sem autorização: “Que perda lamentável a do Velho França. Mas sei que foi descanso. Eu gostava muito dele. Poucos sabem que o Francelino é patrono do moderno cinema nacional, já que o homem da política eclipsou o espírito preocupado com a sétima arte. Quando ele foi senador, criou a Lei de Incentivo ao Audiovisual. Levei muitos cineastas amigos para conversar com o França, no Senado. Era uma pessoa sóbria, mas alegre, lhano no trato. Como morasse em hotel, e sofria de úlcera, às vezes o trazia à minha casa para comer arroz mole com chuchu, carninha moída e caldo de feijão. Ele adorava. Um político probo, modesto, incapaz de disparar um doesto ferino, mesmo aos adversários. Saudades”.
Quando mais se comentava sobre sua candidatura, por via indireta, ao governo de Minas, seu conterrâneo, João Veras, ex-Itacolomi e já gerente regional do Sistema Globo de Rádio, decidiu reunir em sua casa, na Senador Pompéu, Serra, jornalistas para uma conversa informal. Foi um sarau agradável, no tempo previsto, em que o convidado contou episódios de sua vida, sua atuação política, da maneira quase afetuosa, com que o presidente Geisel o recebia no Planalto para uma taça de vinho.
Jornalistas – Geraldo Majela Andrade e Geraldo Diniz Resende –, do antigo “O Diário”, católico, entre eles, me chamaram a um canto e me perguntaram: “por que você, tão amigo do Francelino, não o aconselha a aceitar a sugestão para o Palácio da Liberdade?”. Dirigente de partido, veiculado umbilicalmente à UDN, relutava. Transmiti-lhe, quando a sós, a pergunta. Dias depois, ele resolveu aceitar a indicação. Mera coincidência, talvez.


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Por Manoel Hygino - 5/1/2018 06:46:23
O odor ainda persiste

Manoel Hygino

Olho pela janela e lamento concordar que lá fora não mudou muito de 2017 para cá, a despeito do foguetório comemorativo da travessia do ano, da euforia dos que se transportam de seus locais de residência para as festas, que exaltam uma alegria que, na mais das vezes, não habita os corações. O tempo é duvidoso, não só aquele que as belas comunicadoras de televisão anunciam. O clima do ano findo não findou com ele. Apenas fazemos o jogo do faz de conta.
O mais deplorável é que restou um halo de desconfiança em torno do terceiro poder da República, ainda não contagiado pelo clima de suspeição em torno de suas decisões. Não o ignoram os próprios membros do Supremo Tribunal Federal, que é mais do que guardião da Constituição, porque o é da credibilidade da sociedade.
No dia 19, na sessão sobre investigações do “quadrilhão do PMDB na Câmara” ( a expressão está nos jornais do dia seguinte), o notório ministro Gilmar Mendes afirmou: “populismo judicial é responsável por esse tipo de assanhamento. A história não vai nos perdoar”.
O ministro Luís Roberto Barroso rebateu, afirmando que vira o episódio da mala de dinheiro: “eu vi a corridinha na televisão. Tudo documentado”, referindo-se ao ex-assessor especial da presidência, Rodrigo Rocha Loures. São fatos que enxovalham a dignidade e a honra nacionais. Barroso observou: “nós vivemos uma tragédia brasileira, uma tragédia de corrupção que se espalhou de alto a baixo. É a cultura de desonestidade em que todo mundo quer levar vantagem”.
No mesmo tom, concluiu: “são diferentes visões da vida e do país. Não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas. E temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar às novas gerações que vale a pena ser honesto. Sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade, porque não têm. Tem que tratar o menino pego com cem gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais”.
Há intenso calor, chamas, em torno das decisões dos titulares dos três poderes da República. O caso Loures gerações não esquecerão, porque já inscrito nas páginas da história. Ademais há de se atentar, evidentemente, para a ação indireta de inconstitucionalidade, proposta pela Procuradoria-Geral da República quanto ao indulto de Natal, proposto pelo presidente da República, que causou, por óbvios motivos, tremendo mal-estar.
Para Raquel Dodge, o indulto “se destina a favorecer, claramente, a impunidade, dispensando do cumprimento da sentença judicial justamente os condenados por crimes que apresentam um alto grau de dano social, com consequências morais e sociais inestimáveis, como é o caso dos crimes de corrupção, de lavagem de dinheiro e outros correlatos”.
A ministra Carmen Lúcia, presidente da mais alta corte de Justiça, não deixou por menos. Suspendeu, em caráter liminar, o indulto previsto no decreto, assinado pelo chefe da nação.
Não há dúvida, porém, que o odor do escândalo já se espalhara amplamente. É nesse indesejado ambiente que abrimos o calendário de 2018. Só resta aguardar, se possível, que os dias vindouros desfaçam as perspectivas desagradáveis, porque o tempo é inexorável. Ele não perdoa.



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Por Manoel Hygino - 3/1/2018 07:36:27
João Pinheiro e os partidos

Manoel Hygino

No dia 16 de dezembro último, em frente ao monumento a João Pinheiro, na Praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte, prestou-se homenagem ao grande mineiro, na data de seu nascimento. Ali discursou o advogado Aristoteles Atheniense, que dispensa apresentação, valendo lembrar que pertence ao IHGMG (fundado por Pinheiro) e preside a Academia Mineira de Letras Jurídicas.
O orador lembrou momentos da vida de João Pinheiro, sublinhando que faleceu em 25 de outubro de 1908, às vésperas de completar 48 anos, após exercer cargos importantes no Estado e na República, mas “nenhum recurso pessoal amealho”. Filho de imigrante italiano, com a morte do pai, viu-se na obrigação de trabalhar para ajudar a família.
Pelas dificuldades para fazer universidade em Minas, mudou-se para São Paulo, onde dava aulas de física e química para ajudar na permanência e no custeio na celebrada Faculdade do Largo de São Francisco, celeiro de figuras exponenciais das ciências jurídicas e da política brasileira. Ele seguiu as pegadas, com lucidez e espírito público. Em 2005, senador, lançou o Manifesto do Eleitorado Mineiro, que merece leitura mais de um século depois.
Em Ouro Preto, para onde voltara a fim de exercer a advocacia, elegeu-se para representar Minas na Constituinte da Primeira Carta de República, mas se retirou da atividade partidária. Em menos de cinquenta anos, construiu uma rica biografia, já que fugia a suas perspectivas construir uma biografia de riqueza.
Na hora triste de escândalos que atravessa a nação, o exemplo do oleiro de Caeté exige atenção pelo que fez por Minas em termos do progresso e de correção administrativa. Partia do princípio de que “as formas de governo são um meio de realizar a felicidade pública”, pois “só a virtude é o fundamento da República”.
Eleito presidente de Minas, João Pinheiro realizou um intenso programa de desenvolvimento econômico, sobretudo na agricultura e pecuária, atividades possíveis à época. No entanto, também deu especial atenção à instrução pública, ampliando a rede escolar, certo de que a velha província tinha de erguer-se do marasmo e madorna, a que fora lançada com a exaustão dos filões auríferos. Afirmou: “Minas é um povo que se levanta”, que – se gerou pilhéria – advertiu para os novos caminhos a serem percorridos.
Candidato ao Palácio da Liberdade em 1906, no dia 7 de fevereiro apresentou um manifesto corajoso, válido na hora presente. Dizia: “Partidos de políticos feitos por políticos e para políticos, a nação os tem visto com indiferença, alheada de suas formas vãs, sem divisar nelas os seus grandes interesses vitais – de sorte que as tentativas se têm confundido com a política parasitária que as origina. E o povo, através das vãs promessas e das puras questões constitucionais, só vê, de real, a percepção crescente dos impostos e a má aplicação dos mesmos, a empobrecê-lo cada vez mais”.
E mais: “Triste herança da monarquia, o partidarismo, que se transformara em agremiações para a posse do poder, mesmo com o repúdio das próprias ideias, substituídas pela divisão dos proventos e lugares; semelhante partidarismo, que fez a monarquia tombar ante a indiferença nacional, deve ser banido da República, que precisa sanar o grande mal que nos aflige”.


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Por Manoel Hygino - 2/1/2018 07:07:47
Curiosidades na Bíblia

Manoel Hygino

Chegou em hora especialmente muito própria. Refiro-me a “O Livro de Curiosidades da Bíblia”, de Pedro Rogério Moreira. Acompanha-o belo cartão, em cores, ”Visita dos Três Reis Magos”, com original pintado com a boca, assinado por Rosmarie Weber. O confrade da Academia Mineira de Letras explica que o exemplar é de uma tiragem fora do comércio, que a editora fez. Deste modo, quando vier na edição definitiva, o livro terá passado por revisões, inclusive com a colocação do índice remissivo no início.
O autor observa que não pretendeu ser completo, embora fruto de releituras seguidas da Bíblia há vinte anos. Não há propósito de difusão religiosa, muito menos compromisso com a teologia. Com a leitura se terá uma visão geral do cenário e das personagens que fazem da Bíblia o livro mais célebre da história da civilização.
Uma curiosidade até: o escritor adiciona a seu nome a sua profissão – repórter. “Em primeiro lugar, para o leitor saber que o autor não é alguém especialista em Bíblia, um biblista, mas um bibliômano, alguém que gosta de livros, entre os quais a Bíblia”. Em segundo lugar, porque, para selecionar os verbetes, ele utilizou as indagações básicas que norteiam o seu antigo ofício, ou seja: O quê? Quem? Quando? Onde? Como? – não necessariamente nessa ordem.
Agradece ao amigo Mário Girasole, em cujas veias napolitanas corre o generoso sangue dos mecenas, e ao pai, Vivaldi Moreira, presidente perpétuo da AML, a quem o livro é dedicado com amor, até porque sua primeira Bíblia fora doada por ele. Antes de ingressar no texto, Pedro Rogério cita Machado e Jorge Luís Borges, quando este observa: “O mundo é um jogo de símbolos e cada coisa significa outra coisa”.
Assim, se poderá antecipar o que serão os 500 verbetes à frente, objeto de curiosidade do autor e do público interessado.
Porque Trump decidiu instalar em Jerusalém a embaixada dos Estados Unidos em Israel, recorro ao profeta Jeremias, que expressou sua angústia com a destruição da cidade pelos caldeus de Nabucodonosor, em 578 a.C. O bom repórter descreve a cena de mais de 2.900 anos atrás.
“A rua entulhada de destroços do templo, dos prédios públicos e casas particulares”. Algumas Bíblias modernas não trazem o texto grego do Antigo Testamento, que diz: “depois da deportação do povo (para a Babilônia) quando Jerusalém ficou deserta, o profeta Jeremias assentou-se a chorar; com o coração cheio de amargura, ele gemia e lançava gritos de dor (fora da Bíblia Sagrada). Foi então que o profeta compôs as cinco elegias que integram as chamadas Lamentações, texto que, na versão latina da Bíblia, dá continuidade ao livro de Jeremias”.
No verbete “nascer sobre os joelhos”, lembra que este era um modo de adotar como filho legítimo um bebê de outra mãe. Assim, o caso de Raquel, que era estéril, mas condescendente, aconselhou o marido: “Eis aqui minha serva Bilá; dorme com ela, e que ela dê a luz sobre os seus joelhos”. Está em Gênesis 30:3.
Outro caso: as montarias dos juízes eram jumentos. Jair teve trinta filhos e trinta jumentinhos, em cima dos quais ele andava com os filhos. Abdon teve 40 filhos e 30 netos, os quais montavam setenta jumentinhos. Muito diferente de hoje, não é?


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Por Manoel Hygino - 29/12/2017 09:31:43
Cuba – as interrogações

Manoel Hygino

Alina Fernandez, filha de Fidel castro, ao concluir o prefácio de seu livro sobre sua vida, o regime, o pai, deixa a interrogação: “O que será de Cuba?”. Responde: “Essa é a pergunta que me faço diariamente e para a qual ainda não há resposta”.
O historiador inglês Richard Gott é mais extenso. Fidel, morto, é uma figura do passado, com barba encanecida se foi. Mudara o slogan: em vez de “socialismo ou morte”, consoante o violento século XX, passou a “um mundo melhor possível”, adequado aos revolucionários mais pacifistas de uma nova era. Quando morrer, haverá pouca mudança em Cuba. Enquanto pouca gente via, a mudança já ocorreu”.
O sucessor Raúl já entrara em cena, como uma motoniveladora a aplainar caminhos. Aproximações se fizeram, sobretudo com Obama na Casa Branca. Mas entrou em cena Donald Trump. E agora?
Presidente de Portugal, ou ex, Mário Soares fez-se a mesma indagação, há bem anos atrás, e observou: “Pelo que tenho lido, os vários partidos cubanos que atuam no estrangeiro têm plena consciência disso – manifestando-se com grande sentido de responsabilidade e uma enorme paciência. Julgo muito positivo que assim continuem. Qualquer aventura ou falso passado saldar-se-ia por enormes sacrifícios para o povo cubano: a juntar a todos aqueles a que têm estado submetido há mais de três décadas”.
Então? Volto a perguntar. É bem possível que a vida, com sua riqueza e imprevisibilidade, acabe por encontrar uma solução que nenhum dos mais sagazes analistas da realidade cubana foi ainda capaz de prever... Não foi o que sucedeu com as experiências comunistas do Leste europeu, incluindo a Rússia? Tenhamos, pois, confiança. As coisas são o que são e obedecem a uma lógica implacável, que se sobrepõe aos voluntarismos humanos, por mais intransigentes e determinados.
Antônio Rangel Bandeira, cientista político, revolucionário dos anos rebeldes do regime militar brasileiro e ex-exilado, fez uma análise profunda e pessoal sobre Cuba, que pode contribuir para antever os fatos:
“Os anos 80 sepultaram a ideia de Revolução (a cubana), consolidando a via das reformas pacíficas das estruturas sociais. Até mesmo a débâcle do comunismo se fez de forma não-violenta, contrariando todos os prognósticos. É chegada a hora de se desmilitarizar a sociedade cubana e substituir os desmoralizados mitos do marxismo-leninismo, e do fidelismo, por um modelo incorporador, e não excludente. Conciliar o dinamismo do mercado com o papel social do estado é o desafio, sem abdicar da ética da solidariedade, que nos foi legada pela tradição do socialismo humanista. O término da Guerra Fria não trouxe a paz. Ao contrário, fez explodirem conflitos nacionais, étnicos e religiosos de extrema violência. Devemos lutar, em Cuba e em outros países, por uma alternativa nova, baseada no primado da tolerância, antes que as guerras santas incendeiem. Talvez, na confluência da vitalidade do capitalismo com a busca da fraternidade do socialismo, esteja nascendo um novo tipo de sociedade”.


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Por Manoel Hygino - 27/12/2017 07:18:31
Tremores de terra no Brasil

Manoel Hygino

Embora o presidente dos Estados Unidos, que ainda vai completar um ano de mandato na Casa Branca, não tenha interesse pelo Acordo de Paris sobre o clima, como asseverou publicamente, o mundo está preocupado. A Terra, que nunca foi a mesma, sofre variações permanentes e até os ingênuos, se observadores, acompanham modificações no cotidiano.
No Brasil, as temporadas de chuvas não são tão obedientes aos meses como antigamente, faz frio em tempo que deveria de ser de alta temperatura, os meteorologistas se veem em dificuldades para adivinhar como será o amanhã. Os agricultores, aqueles que sobrevivem do que o solo propicia, não preveem mais quando iniciar a semeadura, muito menos a colheita.
Pelo noticiário diário de rádio e televisão, todos – ou quase todos – já saem de casa sabendo se haverá, sol, tempo nublado, preparam-se para ida e vinda ao labor diário. No entanto, as falhas não podem ser debitadas unicamente a defeitos de equipamentos. O homem, por mais interesse que tenha e de mais dispositivos técnicos disponha, não consegue acertar.
Há, contudo, uma unanimidade: a humanidade é responsável e culpada pela situação em que nos encontramos, sendo urgente que se adotem providências internacionais para evitar o pior. Só Trump o desconhece, e ele se encontra à frente dos destinos da nação mais poderosa do planeta. Fazer o quê?
Recentemente, chamou a atenção, embora não condizente com o conteúdo, a notícia relativa ao mapa de risco de tremores de terra no Brasil, editado pelo “Jornal da USP”, um valioso documento da
Universidade de São Paulo. É assunto que toca de perto a Minas Gerais.
Em tempos pretéritos, a informação que se tinha é de que esses fenômenos se davam na região Central de Minas, no município de Bom Sucesso e adjacentes, por exemplo. Era até folclórico o que se contava. Depois, a situação mudou. No Norte do Estado, lá pelos lados de Montes Claros, tremores se registraram, e em Caraíbas se deu a primeira morte causada pelo fenômeno no país.
Pois o novo mapa elaborado pelos geofísicos da USP incluiu novas regiões onde os abalos sísmicos podem ser mais frequentes. Embora o Brasil não tenha histórico de problemas de alta expressão, os casos exigem permanente monitoramento pelos técnicos.
Alerta-se, aliás, para a catástrofe de Mariana, há dois anos, quando o rompimento da Barragem de Fundão destruiu o subdistrito de Bento Rodrigues e danificou cidades e povoados adjacentes. O rio Doce, por muitos decênios, sofrerá os efeitos da avalanche e da carga de minerais tóxicos que carregou.
Pois somente agora se publica a respeito. Desastres ambientais como o ocorrido em Mariana, em 2015, teve como uma das causas apuradas uma série de tremores de magnitude 2,01 e 2,55, alguns dias antes do acidente, com catastróficos efeitos humanos e ambientais.
O novo mapa sismológico, atualizado pelos pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, acrescentou novas áreas brasileiras nas quais o fenômeno pode ser mais frequente.
Bom Sucesso não tem mais seu tradicional bondinho e não mais registra tremores. Que todos se cuidem!


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Por Manoel Hygino - 26/12/2017 07:31:51
Honduras em suspense

Manoel Hygino

A América Latina, a que surgiu da colonização espanhola, continua a mesma. Há pouco, o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernandes, candidato à reeleição, fez uma declaração importante. Estaria aberto à revisão na contagem dos votos da eleição presidencial deste ano. Em meio às alegações de fraudes, eclodiram protestos e renasceu a violência. Não se ousava dizer quem realmente venceu.
O presidente, mais sereno, pediu ao tribunal eleitoral o exame de todos os votos nas eleições de 26 de novembro, sob a ideia de que “o povo merece respeito”. O último resultado mostrava que o atual chefe de governo teria vencido com 43%, enquanto o opositor, Nasralla, ficara com 41,4%%. Ambos sustentavam terem vencido o pleito, enquanto organismos internacionais denunciavam irregularidades no processo.
A mesma novela de sempre. E Honduras é um país pequeno, não precisaria de tanto furdunço, tem menos de 120 mil quilômetros quadrados, com cerca de 2 milhões de habitantes, nação montanhosa, percorrida por numerosos cursos de água, com saídas para o Atlântico e o Pacífico, uma nesga, imprensada pela Guatemala, El Salvador e Nicarágua. Colombo tocou a sua costa, a de Honduras, em 1502.
Por lá, predominou o poder das grandes empresas norte-americanas, que exploravam a produção e exportação de bananas e as ferrovias. O poder de Tio Sam era tamanho que, em 1924, os Estados Unidos invadiram Honduras para proteger seus interesses. O jornalista Carlos Taquari, em livro, chega a dizer que “a exportação para o mercado norte-americano acabou marcando de forma triste a história dos países da América Central. Como essa era a única opção, os camponeses eram forçados a aceitar os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. Os ditadores de plantão cuidavam para que os interesses das empresas não fossem ameaçados e para que não houvesse qualquer tipo de mobilização”.
A situação de turbulência chegou aos campos esportivos. Houve a Guerra do Futebol, em 1968–1969, em que as disputas não se restringiram aos gramados, envolvendo hondurenhos e salvadorenhos. Na Copa do México, em 1970, o clima se tornou bélico, podemos dizer, após ser queimada a bandeira de Honduras. Revidando, os salvadorenhos residentes em Honduras foram agredidos pelos naturais do país, com mortos e feridos. As duas nações romperam relações e a Força Aérea de El Salvador atacou alvos em território do vizinho, enquanto o exército entrou em ação e aviões de Honduras atacaram depósitos de combustíveis em El Salvador. A OEA teve de entrar em ação, conseguindo-se um cessar-fogo, na “guerra de quatro dias”.
Sem embargo, a instabilidade permaneceu, pois grupos paramilitares e esquadrões da morte puseram as manguinhas de fora com suas armas. Washington, a seu turno, decidiu entrar em território hondurenho para enfrentar dispositivos a serviço do governo sandinista da Nicarágua. Era a famosa operação dos “contras”, com 15 mil rebeldes nicaraguenses.
No entanto, não significou tranquilidade. O fogo cruzado dos países ao lado e os interesses de Tio Sam não permitiram a paz. Internamente, proibiu-se a reeleição de presidentes, depois de décadas de governos corruptos. O que acontece são cenas do atual capítulo.


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Por Manoel Hygino - 20/12/2017 08:06:13
A explosão da criminalidade

Manoel Hygino

A despeito de esforços mais recentemente postos em campo, não se veem ainda vislumbres de que a luta contra a bandidagem no país esteja em declínio. O “novo cangaço” avança por todos os estados. Evidentemente a conjunção de forças estaduais é muito importante, mas outros apoios são imprescindíveis, como o das Forças Armadas, não para as atividades típicas das polícias. As fronteiras são extensas, seu patrulhamento há de ser permanente, e só isso serve para se avaliar o desafio da missão. Alguma coisa se tem feito, sem conseguir, contudo, eliminar as hordas criminosas. Os numerosos atentados no Rio Grande do Sul, na semana passada, servem para medir e justificar vigor e pertinácia para se impor o primado da lei.
Cangaço deixou de ser, há muito, um fenômeno restrito ao Nordeste. Ele cresceu para o Sul, ingressou nos estados mais ricos e nas cidades maiores, aperfeiçoou métodos e rotinas, avançou sobre pequenas comunidades, conseguiu armar-se poderosamente. As organizações se mostram atuantes mesmo quando lideranças estão trancafiadas nos presídios.
Dizer-se que a situação é extremamente grave é pouco, porque o brasileiro, em toda região e lugar, tem medo do que lhe pode ocorrer; sequer sabe se voltará ao descanso noturno no lar. Os grotões deixaram de gozar paz, como outrora.
Deploravelmente, os marginais passaram a ser confundidos com heróis, como aconteceu com Rogério 157, traficante, nascido em Governador Valadares, e que, como astro, deixou-se fotografar com os próprios policiais que o tinham surpreendido na periferia carioca.
No sistema prisional, em que temos a “honra” de ocupar a terceira colocação mundial em número de detentos, com 730 mil internos, as rebeliões e fugas se repetem, desafiando mais do que guardas penitenciários, as próprias autoridades e a lei.
Há poucos dias, foi preso o também traficante Alberto Ribeiro Sant’Anna, o Cachorrão, apontado como chefe na Favela da Rocinha, junto a Rogério Avelino. A nacionalmente conhecida comunidade, há três meses, vive clima de guerra, na zona Sul do Rio de Janeiro.
Cachorrão, ou Cachorro Louco, agora detido, condenado por roubo e tráfico de drogas, tem ficha criminal das mais gordas. Acusado por lesão corporal e dano ao patrimônio público, chegou a ser preso em 2009 para finalmente ganhar a liberdade provisória em 2013. Agora esperará uma nova oportunidade de escapar.
No Paraná, na penitenciária de Cascavel, no Oeste do Estado, houve uma nova tentativa de fuga, cuja evolução desconheço. Pode-se esperar mais um final feliz – para os meliantes, é claro. Sei apenas que um preso teria sido decapitado. Adianta?
Em Mato Grosso, em plena madrugada, 26 presos fugiram após explosão de parte do muro lateral da penitenciária Major Eldo Sá Correia, a 218 quilômetros de Cuiabá. Os presos faziam greve de fome pela superlotação, má qualidade dos alimentos, falta de medicamentos, de dentistas e de médicos especialistas. Lá também!


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Por Manoel Hygino - 19/12/2017 07:14:27
Eça de Queiroz e o Brasil

Manoel Hygino

Está circulando a 18ª edição a Revista Magiscultura, semestral, com excelentes colaborações de membros da magistratura mineira na ativa ou aposentados. Homenageado desta vez, Silviano Santiago, aplaudido escritor nascido em Formiga, sobre o qual nos manifestaremos, com alegria, em próximo comentário. Por ora, ficamos com o desembargador Gutemberg da Mota e Silva, que apresenta esplêndido ensaio sobre Eça de Queiroz sob título “De agitador a escritor muito amado no Brasil”.
Eça foi, e é, incontestavelmente, um dos autores portugueses mais conhecidos, apreciados ou criticados do lado de cá do Atlântico. Sua família se insere entre as mais nobres de Portugal, pela origem real, o que se depreende das próprias armas do nome. Provém de Dom Pedro I, de Portugal e de Inês de Castro, o que materialmente correspondeu a terras, jurisdições e rendas a partir de 1360.
O escritor, nascido em Póvoa de Varzim, em 25 de novembro de 1845, tem bibliografia vastíssima e foi traduzido para o espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, checo, russo e polonês, merecendo larga atenção da crítica e dos biógrafos. Atesta-o o desembargador Gutemberg, no ensaio ora publicado, que extrapola as dimensões de artigo.
“No Brasil, que lê pouco, ninguém deixou pelo menos de ouvir falar em “O Crime do Padre Amaro”, ”A Ilustre Casa dos Ramires”, “O Mandarim” ou “Os Maias”. Sofrendo tuberculose intestinal, que o levou a óbito em 1900, Eça é tido como um dos mestres do realismo. Para ele, contudo, o mundo só vale pelo homem, sendo os valores solenes da natureza “menos merecedores de nossa admiração consciente do que o cérebro de um simples oleiro”.
Eça influenciou a opinião pública do Brasil, daí as críticas que frequentemente se fazem sobre suas posições com relação a seu tempo, sua pátria e ao Brasil. Lembro, por oportuno, já que o aniversário da proclamação de nossa República foi comemorado no mês passado, o que ele escreveu e publicou sob pseudônimo de João Gomes, na “Revista de Portugal”, em dezembro de 1889.
Disse ele: “Com o império, segundo todas as probabilidades, acaba também o Brasil. Esse nome do Brasil, que começava a ter grandeza, e para nós portugueses representava um tão glorioso esforço, passa a ser um antigo nome da velha geografia política. Daqui a pouco, o que foi o império estará fracionado em repúblicas independentes, de maior ou menor importância. Impelem a esse resultado a divisão histórica das províncias; as rivalidades que entre elas existem; a diversidade de clima, do caráter e dos interesses; e a força das ambições locais... Os Deodoros da Fonseca vão-se reproduzir por todas as províncias. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos de um grande império”.
A despeito de tudo, a previsão de Eça falhou, embora repercutisse perigosamente por aqui, como observa Mônica Figueiredo, referida pelo ilustre magistrado mineiro. A autora diz que “as corrosivas páginas de “As Farpas” (livro de Eça) acabaram por atingir de maneira perigosa a integridade física de muitos portugueses.
“No interior de Pernambuco, a comunidade lusa foi transformada em alvo de um xenofobismo que atacava emigrantes em nome dos brios nacionais”. Tais críticas, “consumadas com sofreguidão pelo público do Brasil evidenciaram“ a profunda rede de ressentimentos sobre a qual se tinham erguido as relações luso-brasileiras no Brasil do segundo império”: É tema pouco focalizado.


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Por Manoel Hygino - 15/12/2017 07:07:03
Urológica: Temer e Juscelino

Manoel Hygino

Antes, pouco se usava a palavra “próstata”. Refere-se, no entanto à glândula do sexo masculino humano, localizada no colo inferior da bexiga. Esta semana, o vocábulo voltou a ser assunto, quando o presidente Michel Temer foi acometido de problema nas vias urinárias e se submeteu a um procedimento em São Paulo, para onde foi transferido em caráter de urgência.
Na quarta-feira, dia 13, ele foi internado, no princípio da tarde, com um quadro de dificuldade urinária e diagnóstico de estreitamento uretral, como constou de boletim médico. A recuperação exigirá 48 horas, sendo o chefe do governo acompanhado pelas equipes médicas dos doutores Roberto Kalil Filho e Miguel Srougi.
Trata-se de uma intervenção de pequeno porte – agora uma uretrotomia interna, realizada no Hospital Sírio-Libanês, como nas vezes anteriores. O presidente tem mais de 70 anos e se cuida, como conveniente, aproveitando agora a evolução da assistência médico-cirúrgica.
Juscelino, quando tinha 68 anos, enfrentou problema semelhante. Exilado, sofreu uma lesão maligna de próstata, decidindo tratar-se no “New York Hospital”, sendo operado por um professor de alta competência. Necessitou de três cirurgias seguidas para debelar a doença, segundo o médico Fernando Araújo, dos mais conceituados de Minas, ex-presidente da Academia Mineira de Medicina e da Associação Médica de Minas Gerais.
O caso do diamantinense ilustre, aliás, um dos pioneiros da urologia em Minas, médico do São Lucas e da Santa Casa, depois do Hospital Militar, é descrito em minúcias por Fernando Araújo: as duas primeiras cirurgias foram “por via endoscópica e demonstraram a presença de células malignas. A terceira, radical, deixou as consequentes sequelas como incontinência urinária”.
Depois, conta: “tivemos uma triste conversa telefônica com ele e Dona Sarah, antes da cirurgia, pois eles queriam dados acerca da sobrevida pós-operatória e da necessidade da operação. Optamos pela cirurgia, o que ele fez naquele hospital. Quando retornou ao Brasil, iniciamos o tratamento daquela desagradável incontinência urinária, que ele tanto tratara em seus antigos clientes. Pouco tempo após, faleceu num acidente automobilístico”.
Juscelino era autoridade em urologia. Um registro da época é dado de Fernando Araújo, que evoca um paciente acometido de tuberculose renal, e do qual ele fazia a extirpação do rim doente: “a artéria renal foi pinçada vigorosamente mas, o que era muito comum nessas cirurgias, não oferecia extensão suficiente para ser ligada com categute ou outro tipo de fio cirúrgico. O único recurso seria manter a artéria pinçada. O caso era grave e o paciente necessitaria de uma assistência pós-operatória intensiva o que seria muito difícil na enfermaria geral, onde estava internado. Seria, nos dias de hoje, um caso para CTI, o que não existia à época. A solução foi transferi-lo para um quarto particular e como era uma pessoa muito humilde, inteiramente sem recursos, isto foi feito às expensas do doutor Juscelino que passou toda a noite – e era noite de Natal – ao seu lado. Durante os quatro dias seguintes, para evitar a possibilidade de uma hemorragia, que poderia ser fatal ao paciente, o jovem cirurgião permaneceu junto ao seu leito”.


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Por Manoel Hygino - 13/12/2017 07:32:34
Pelos caminhos de um mestre

Manoel Hygino

Comemoramos os cem anos de José Mendonça, homem de imprensa, professor, chefe do Departamento de Jornalismo da Fafich, diretor de “O Diário”, da sucursal de “O Globo” em Belo Horizonte, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. A família comemorou no dia 9 de dezembro, mas quando se trata de Mendonça deve-se empregar o verbo no presente.
Nascido no Sul de Minas, vive há 81 anos em Belo Horizonte, onde colou grau em direito. Em jornal, o começo da carreira foi em “O Diário”, em 1938, folha que dom Cabral (um pioneiro, a que se também se deve a criação da Universidade Católica, a que dom Serafim deu continuação e dimensões) fundara dois anos antes.
Não havia formação em jornalismo, em comunicação social, no Brasil, nada disso. José Mendonça assumiu a empreitada. Em 1957, convenceu a UFMG da conveniência e necessidade do curso, mesmo enfrentando oposição da Faculdade de Filosofia. Com colaboração de Adival Coelho e Anis Leão, representantes dos profissionais da área, iniciou-se a formação. Mas foi no regime militar, de que tanto se fala mal, que se fundou o Departamento de Comunicação da Federal, de que Mendonça foi primeiro diretor de 1968 a 1974. Uma glória, temos de convir. Quanta gente desde então passou pelos cursos em todo o país?
Não foram poucas as resistências vencidas pelo ex-seminarista Mendonça, em “O Diário”, fundado e mantido pela Cúria Arquidiocesana. Pela data de seu lançamento e circulação se avaliará as ideologias em debate no contexto nacional e mundial. O mesmo aconteceria quando assumiu a sucursal do jornal de Roberto Marinho, nem preciso explicar porque. Basta volta um pouco no tempo e ler, por exemplo, sua biografia, produzida em 2009 por Manoel Marcos Guimarães e Flávio Friche, seus ex-alunos na faculdade e pela historiadora Maria Auxiliadora de Faria.
Referindo-se a Mendonça, também seu ex-professor, José de Souza Castro escreveu: “Devo ter sido um dos piores alunos que ele já teve. Eu era jovem e arrogante demais. Confundia sua simplicidade e humildade com ignorância. Ele, sábio – como vim a compreender só muitos anos depois”.
Em entrevista, José Mendonça declarou: “Trabalhar em ‘O Diário’ me dava prazer porque era um jornal independente. Era também um jornal democrático, que tinha conduta democrática. Não era um jornal venal... Era um jornal ideologicamente comprometido e que tinha uma missão”. Dele disse Abgar Renault, secretário de Estado de Milton Campos: “Você trabalha em um jornal de primeiríssima categoria”.
Ao terminar este tosco registro sobre Mendonça, também homenagem à esposa e filhas, devo confessar que Mendonça encarna qualidades de varão de Plutarco, exemplar típico do homem de sociedade e de cultura grego do tempo do império romano. A ele se deve o conceito de alto valor pedagógico: “A alma da criança não é um ânfora que é preciso encher, mas uma chama que é preciso alimentar”.
Para Plutarco, condenável seria o ensino formalista, cujos conhecimentos sobrecarregam o jovem, sem exercerem influência educativa sobre sua inteligência e vontade.


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Por Manoel Hygino - 11/12/2017 06:51:14
Na sala de julgamento

Manoel Hygino

Este é um tempo de debate sobre judicialização, em que Legislativo e Judiciário como se estranham, sob natural preocupação da invasão de áreas de poder. Parlamentares ou magistrados, membros do Ministério Público e da Polícia Federal, procuram definir claramente limites de ação. Na hora presente é oportuno lembrar fatos e personagens que atuaram e atuam em campo tão minado.
Li no MontesClaros.com, do jornalista e advogado Paulo Narciso, em boletim diário, um texto produzido por Geraldo Maurício. Radicado em Brasília (DF), é filho da professora Zezé Queiroz, mestra de gerações no Colégio São José, eterna residente na avenida Afonso Pena – a de Montes Claros, ao lado da bomba de gasolina do Tito dos Anjos.
O articulista lembra Augusto José Vieira Neto, juiz de direito aposentado, autor do livro “Estórias do Bala”, em que conta episódios de sua vida. Sem ter conhecido o magistrado, recorro à descrição. Augusto sempre levou a vida intensamente. Tudo nele era superlativo: compridão, mais de 1,80 metro, sempre acima de cem quilos. Sabia comer e beber. Falava alto e ria mais alto ainda. Dono de memória e inteligência extraordinárias, exercia habilidade de convencimento admirável, daí sua competência como professor.
O apelido era Bala Doce (o que diz tudo), sempre muito sensível às artes, principalmente música e cinema. Sobretudo amava profundamente sua terra, sua gente e costumes, a vida e as mulheres. Idolatrava os pais, os familiares, os mestres que lhe ensinaram os caminhos da existência, principalmente os amigos. Que eram muitos!
Segundo Geraldo Maurício, se era fiel amigos aos que lhe eram caros, não lhes perdoava os erros e vacilos. Vaidoso, irreverente e libertário, atropelava a vida, as pessoas, as convenções, as instituições, a moral e os costumes enquanto conflitassem com suas opiniões, coerência e maneira de ver o mundo e as coisas. Tinha arroubos de grandeza, coragem e ousadia nos desafios que enfrentava.
Notável contador de casos, consagrou-se como perspicaz cronista do cotidiano, mestre no humor fino ou mordaz. Embora engraçado, sofria crises de melancolia e solidão. Foi professor de ciências políticas na Unimontes. Em sua/nossa cidade reuniram-se os amigos para festejar seus 60 anos.
O próprio magistrado aposentado relatava um júri que presidiu na cidade mineira de Jequitinhonha, lá pelo ano de 1983. Ele interrogou o réu: “O senhor bebe?”. O acusado foi sincero: “Bebo sim, dotô, igualzinho ao sinhô, umazinha todo dia, no bar da beira do rio, em frente ao fórum”.
O meritíssimo, sisudo, manteve a respeitabilidade, fechou a cara, mas, quase aos gritos, determinou ao escrivão: “Registre-se: que o réu bebe, mo-de-ra-da-mente”.
Depois, Augusto José Vieira Neto apareceu como coautor de “Éramos felizes e sabíamos”, lançado em animadas noites em Brasília, Montes Claros e na Livraria Mineiriana, na capital mineira.
Compareceu, procedente de São Paulo, Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha, que lançara com grande repercussão um volume relatando suas experiência como garota de programa. Augusto brilhou na ocasião, mas não atendeu ao convite de ir ao programa do Jô. No dia 22 de outubro de 2017, o juiz foi encontrado morto em seu apartamento na cidade natal, aos 72 anos.



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Por Manoel Hygino - 9/12/2017 07:33:25
A confiança no Judiciário

Manoel Hygino

Os amplos espaços destinados à mídia no que tange aos proventos da magistratura, de um modo geral, mantém o Judiciário em posição de destaque. Encarregou-se o Conselho Nacional de Justiça de divulgar os valores correspondentes aos contracheques. Revelou que mais da metade deles recebeu, em outubro último, acima do limite constitucional de R$ 33,7 mil, quanto ganha um ministro do STF.
Cuidou o TJMG de, imediatamente, esclarecer que os vencimentos básicos não extrapolaram o teto legal. Os valores a mais se referem a direitos legais, como férias vencidas e não gozadas. No fundo, porém, ficou o cidadão, que paga tributos e a magistratura, na dúvida sobre a remuneração.
Há uma corrente que defende a tese de se acabar com todos os penduricalhos, como auxílio-moradia, auxílio-alimentação, gratificação por substituição, acumulativo de juiz. Para os que tomaram essa posição, bastariam o subsídio mais o ATS – Adicional por Tempo de Serviço. É algo para se pensar para que o Judiciário não seja considerado como uma casta do serviço público que enriquece com remunerações e benefícios.
São fatos e questões que exigem meditação desde agora, quando entrou em pauta a sucessão presidencial e o cidadão, ciente do que ocorre nos altos escalões da República, quer conhecer mais sobre as pessoas que se candidatam. São preferenciais para o eleitorado, por motivos óbvios, os que não participam de maracutaias que envergonham a nação.
Ao empossar-se presidente da mais alta corte de Justiça do Brasil, o ministro Joaquim Barbosa defendeu um Judiciário “sem firulas, sem floreios, sem rapapés”. No entanto, é imprescindível mais do que isso: um Judiciário em que seus membros não sejam vistos com suspeitas, não sejam tidos como detentores de grandes salários e privilégios.
Lembro que o desembargador mineiro Rogério Medeiros já assinalava em seu livro “Aplicação do Código de Defesa do Consumidor”: “A magistratura deverá apressar-se, porque o Brasil clama por mudanças. Não podemos mais viver com velhas estruturas. Não podemos mais estar presos a soluções que nada têm a ver com o povo”.
O Judiciário brasileiro, respeitado, não pode envolver-se – o conselho é absolutamente dispensável – pela crise ética que desabou sobre os altos escalões da República. Há dias, aliás, disse o ministro Ives Gandra Martins Filho, presidente do Tribunal Superior do Trabalho: “O magistrado, quando toma posse, faz juramento de cumprir a Constituição e as leis da República. Não existe desobediência civil”.
As divergências entre os magistrados conduzem a desconfianças. O procurador regional da República, José Augusto Vagos, da ‘Lava Jato’ no Rio de Janeiro, criticou pelas redes sociais o habeas corpus do ministro Gilmar Mendes ao senhor Jacob Barata Filho, solto mais uma vez no último sábado. Disse o procurador: “Chega a ser constrangedor o acesso que esse acusado tem para obter decisões em último grau de jurisdição sem passar pelas demais instâncias, como se desfrutasse de um foro privilegiado exclusivo para liminares em habeas corpus, mesmo acusado de destinar dezenas de milhões de reais aos maiores políticos do Rio, como se isso constituísse crime de menos potencial ofensivo, crime de bagatela”.



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Por Manoel Hygino - 8/12/2017 07:02:35
E a guerra continua

Manoel Hygino

As pesadas chuvas que caíram sobre extensas regiões de Minas nos primeiros dias de dezembro e a ação de criminosos, grandemente vindos de outros estados, deixaram o rastro da morte em vários municípios. Com ajuda divina, implorada ardentemente pela gente na cidade ou no campo, a água caiu do céu, em determinadas regiões além do esperado. Inundações, com ênfase na Zona da Mata mineira, no Norte e no Vale do Jequitinhonha. Na Grande BH, não foi o menor problema, com graves consequências para numerosas famílias, a circulação de veículos, as habitações semidestruídas, a falta de alimentos.
Consumado o drama, novas previsões de temporais em Urucânia, Santa Cruz do Escalvado, São Pedro dos Ferros, Rio Casca, Santo Antônio do Grama e Piedade de Ponte Nova. Nem o milagroso Padre Antônio, de Urucânia, a que outrora se atribuíam feitos sobrenaturais, conseguiu atender às súplicas. Nos primeiros dias, o número de mortos chegava a seis, mas as estimativas eram piores.
No entanto, a calamidade não se restringiu ao que decorria da ação da natureza, já que a Deus não se pode culpar por males e danos, a não ser quando o homem contribua para o desastre. Por extenso território, lugares dispersos, bandos de marginais continuaram em seu afã, não mais restritos às capitais ou aos grandes centros populacionais ou econômicos. Hoje, onde há um banco, uma cooperativa, uma agência de Correios serve aos criminosos. Para isso, armaram-se suficientemente e são plenamente motivados.
Os inimigos da lei e dos homens de bem atuam incessantemente, inclusive por saberem que os destacamentos policiais do interior têm contingentes reduzidos e a população, pacata, não está preparada para reagir à agressão. Na primeira semana de dezembro, grupos fortemente preparados para uma batalha atacaram agências bancárias e explodiram caixas eletrônicos: em Pompéu e Oliveira, na região Centro-Oeste de Minas, em Tapira, no Alto Paranaíba, e em Santa Rita de Caldas, no Sul do Estado. Davam, assim, sequência a atentados em Arcos, onde há até um Campus da PUC. Em Pompéu, novos feridos e mortos, inclusive um cabo da PM, de 38 anos, vitimado por um tiro na cabeça. Dois dias depois, foi a vez de Nova Ponte e Itapagipe, no Triângulo.
O assunto já fora tema de discurso do deputado Edson Moreira, membro da Comissão Especial de Combate ao crime Organizado, em reunião da Câmara Federal. Assim se expressou: “é inconcebível o que estamos vivenciando nos últimos meses. Na semana passada, mais uma cidade mineira sofreu uma madrugada de terror por causa da ação de uma quadrilha especializada em ataques a caixas eletrônicos. Desta vez, o crime ocorreu em Buritis, na região Noroeste de Minas, e com requintes de filme policial. Uma coisa inacreditável”.
Os criminosos, que estavam fortemente armados, com fuzis e pistolas, cercaram o quartel da Polícia Militar e impediram a saída dos agentes com tiros e bombas, enquanto seus comparsas explodiram terminais de três bancos da cidade, da Caixa Econômica Federal, do Bradesco e do Banco do Brasil, “deixando um rastro de destruição e um prejuízo quase incalculável. Foram cerca de 40 minutos de terror. Depois, eles fugiram em carros roubados na cidade de Uberlândia, com o dinheiro em direção a Brasília”.
Mas a guerra está longe do fim. Mais cabeças rolarão, mais sangue de cidadãos do trabalho e da paz, de agentes da lei será derramado.


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Por Manoel Hygino - 7/12/2017 08:16:16
Frida e Diego Rivera

Manoel Hygino

Até 18 de fevereiro, na Casa da Fotografia de Minas Gerais, na avenida Afonso Pena, pode ser visitada a mostra “Diego e Frida: Um sorriso no meio da estrada”. É magnífica oportunidade de se apreciar um acervo inédito, que já percorreu os Estados Unidos, Polônia, Peru, Israel e Suécia. Segundo o cônsul do México, onde os artistas nasceram, as fotos “são testemunho da história do casal, que talvez já fosse conhecida, mas raramente tem sido revelada por meio de uma fotografia”. O cônsul Adolfo Zepeda atua no Rio de Janeiro.
Belo Horizonte tem, assim, um privilégio, embora não seja a primeira cidade, possibilitando o ensejo de recorrer à história dos dois pintores mexicanos, que tiveram um conturbado relacionamento enquanto viveram... juntos. Frida e Diego eram comunistas. Mais do que isso, rebeldes, contrários a convenções. Tiveram amantes e namorados, e entre os da artista conta-se Trotsky, líder russo exilado no México, onde foi assassinado a mando de Stalin.
Para Neruda, prêmio Nobel de Literatura, a vida intelectual do México estava dominada pela pintura. Diego Rivera foi envolvido pela fama e se tornou lendário. Grande em dimensões e em cores, tanto quanto em invencionices. Aconselhava comer carne humana como dieta higiênica e de grandes gourmets. Ensinava cozinhar gente de todas as idades, assim como teorizava sobre o amor lésbico.
Sustentava que esse tipo de relação era a única normal, segundo vestígios históricos. Revelou o Nobel: “Às vezes conversava hora comigo, movendo seus empapuçados olhos de índio, e me revelava sua origem judia. Outras vezes, esquecendo a conversa anterior, jurava que ele era o pai do general Rommel, o comandante nazista no Norte da África. Mas, que não passasse a notícia para frente para evitar consequências internacionais”.
Frida, aos 6 anos, foi diagnosticada com poliomielite. Aos 18, sofreu um acidente em choque de um ônibus com um bonde, quando quebrou a coluna em três partes e sofreu fratura da pélvis, não lhe permitindo filhos. Quereria? Era uma personalidade dual, mas também simbolizou “o conflito inerente à raça mestiça, nem totalmente europeia, nem totalmente autócne”. O nome completo era Magdalena Carmen Frida Kahlo Y Calderón, nascida em Coyacán, em 6 de julho de 1907 e falecida em 13 de julho de 1954.
Diego, nascido em Guanajauto, em dezembro de 1886, morreu em 24 de novembro de 1957, na capital mexicana. Dele se disse que, famoso tanto pela vida amorosa turbulenta quanto por suas obras, adorava as mulheres, embora também as tratasse com desprezo. Teve um caso com Cristina, irmã de Frida, e, em 1911, com a artista russa Angeline Beloff, com quem viveu dez anos.
Depois, uniu-se a Guadalupe Narin, por cinco anos, quando encontrou Frida. Com esta casou em 1929, mas a infidelidade continuou. Separaram-se em 1939. Um ano mais tarde, novamente reataram e seguiram juntos por 14 anos, até que ela findasse. Possivelmente possamos repetir o que disse Neruda: foram vulcânicos.


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Por Manoel Hygino - 6/12/2017 07:37:34
Belo Horizonte comemora

Manoel Hygino

Belo Horizonte, 120 anos que se comemorarão em mais poucos dias. No princípio, eram os engenheiros, técnicos, boa parte de gente que viera de fora para cumprir a promessa do governo: entregar, em prazo certo, a nova capital. Houve dúvidas, oposição, desconfiança, os que desejavam outro local para sede do governo, aqueles que achavam que Ouro Preto ainda servia bem, que mudar nada resolveria.
Praticamente os que aqui chegavam há cem anos vinham de trem, avião era um sonho, volátil, sem previsão. Trem não era só palavra de mineiro, era o meio mais moderno e rápido de se desembarcar, em grande número, procedentes do restante dos municípios que formam um estado territorialmente maior que a França.
Mas Belo Horizonte era ainda um tanto província. Cyro dos Anjos, escritor, da Academia Brasileira de Letras, quando chegou pelos anos 20 do século que ficou para trás, lembrou o advento: “Enfim, passou General Carneiro (era estação), e daí a pouco um silvo mais longo (da locomotiva movida à lenha), ou melhor, vários deles, em minutos nos mantiveram nos subúrbios da Capital envolta em neblina e vento”. O rapazelho tremia dentro do terninho cáqui, adequado à poeira da cidade de origem e do chão da ferrovia cujo itinerário parecia não ter fim.
O escritor recorda: Depois da estação da Central, hoje Museu, “desci do carro diante da pensão Albornoz e estaquei, indeciso, rente á mala desconjuntada que o chofer deixara sobre o passeio. Seria mesmo ali? Defendido por um gradil prateado, o casarão, de alto embasamento, sólido, solerte, intimidava. Quem sabe eu me enganara o endereço? Parecia residência de secretário de Governo, ou senador da República, senão d’algum membro da excelsa Comissão Executiva do PRM”, o poderoso Partido Republicano Mineiro.
Era o tempo das pensões, alojamento ideal, mantidas as casas por famílias do interior, que aqui recomeçavam vida, com uma nova fonte de renda. Tudo marcou definitivamente o rapazinho do interior, ansioso. Lembra-se: “Cavalheiros de fraque, egressos de Ouro Preto, destronada, caminhavam, ainda, a passo pachorrento, pelas ruas largas e vazias de Belo Horizonte de 1924, detendo-se, de quando em quando, para sorverem o adocicado aroma das magnólias em flor”.
Ouro-pretense ou não, os fraques persistiram até por volta de 1930, “nunca os tendo dispensado o Dr. Moura Costa, diretor do Diário de Minas, nem o Professor Agostinho Penido, inventor de método relâmpago para alfabetizar adultos e portador de barbas à Deodoro, muito alvas, que o vento da Serra do Curral, açoitava, rijo, nas manhãs juninas”.
Já houvera mudança. Os monóculos, os tílburis e cupês, encontráveis ainda em 1916, esses tinham sumido por completo em 1923, consigo levando a quadrilha e a valsa, também a polca e o schottish, ou mesmo os tanguinhos de Nazaré. O jazz avançava, os blues dominavam os salões, enquanto, nos cabarés, o maxixe se via suplantado pelo samba.
O escritor observou: o número de habitantes de Belo Horizonte era assunto melindroso, pois provocava ciúme em Juiz de Fora. Os belo-horizontinos afirmavam que a Manchester ficara para trás, bem para trás. “A metrópole – e diziam ‘metrópole’ para machucar – atingira os 80 mil habitantes”.


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Por Manoel Hygino - 5/12/2017 07:32:55
A seca pela televisão

Manoel Hygino

Emissoras de televisão divulgam a grave situação do Ceará, que enfrenta uma das maiores secas das décadas mais recentes. Os açudes atingem níveis baixíssimos de água e as previsões são dramáticas se São Pedro e demais apóstolos e santos de devoção dos nordestinos não ajudarem, com urgência. Sem falar no padim Padre Ciço, reabilitado pela Igreja Romana, e que pode dar um auxiliozinho abrindo alguma torneira.
As cenas mostradas nas telas são dolorosas e impressionantes. Ceará sem chuva não constitui novidade, mas se esperava que obras públicas programadas para a região tivessem arrefecido a situação. O quadro atual, contudo, responde negativamente à boa perspectiva.
O panorama remete automaticamente para um dos livros do jornalista e escritor Lustosa da Costa, que é da região e autor de “Foi na seca de 19”, descrevendo dias que tanto fizeram sofrer os irmãos dali na segunda década do século XIX. Lustosa, falecido depois de sexagenário, não brigaria comigo pela transcrição: a seca é braba. Talvez pior que a de quatro anos antes, pelo menos para o gado, porque toda a pastagem se perdeu.
Do outro lado do rio, quase inteiramente seco, multidões de retirantes esperam a morte por inanição, debaixo das árvores queimadas pelo sol, discretamente vigiados pela Polícia para que não invadam a cidade. A ajuda, que o governo estadual mandou, as esmolas recolhidas pelo bispo, os recursos arrecadados pela Liga de Proteção aos Flagelados, acabaram. Agora se esperam obras do DNOCS, que poderão alistar muitos sertanejos.
Enquanto isto, eles são vigiados para que não perturbem o sossego dos doutores e aristocratas que curtem, geralmente no ócio, as rendas de suas fazendas e gados, suas plantações de algodão e carnaúba, os aluguéis de seus prédios, em casas palacetadas e velhos sobrados.
A despeito da adversidade, o cearense resiste, espera chuvas, que a seca não passe de estiagem, que os céus iluminem os homens que detêm algum poder na Terra e possa beneficiá-lo. Não sem razão, Euclides da Cunha classificou o sertanejo como “antes de tudo, forte”. Uma fortaleza posta à prova ciclicamente.
Na linha descritiva de Lustosa da Costa, um conterrâneo seu, médico, batizado na igreja do Rosário, em Fortaleza, Rodolfo Teófilo, também se ateve ao tema. Em abril de 1980, a Universidade Federal do Ceará, publicou de sua autoria: “A Seca de 1915”, em que oferece em “painel da seca, com todo o seu cortejo de desgraças”, no dizer do reitor daquela instituição, Paulo Elpídio de Menezes Neto.
As reportagens pela televisão se casam com o propósito de Rodolfo Teófilo, que recorda Euclides da Cunha, que se horrorizou vendo a seca através de uns versos de Guerra Junqueiro, que não teve modelo e sequer a viu.
O médico escritor, um paladino na luta em favor dos atingidos pelo terrível fenômeno, pergunta com relação ao poeta português: “O que diria se visse um pai no delírio famélico matar o filho para comer, uma desgraçada mãe, só ossos e pelancas, morta e respirando no meio da estrada, no seio a criança procurando sugar algumas gotas de leite do cadáver, um retirante animalizado, metido numa gruta, alimentando-se da carniça humana que encontrava nos caminhos...”
São cenas macabras que, pelo menos, a televisão ainda não mostrou.


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Por Manoel Hygino - 2/12/2017 07:25:44
A hora em que vivemos

Manoel Hygino

É fim de ano, dezembro flui, as chuvas chegaram, as incertezas e desconfianças permanecem, avultam. Sente-se nas ruas, nas esquinas, no labor cotidiano, na troca doméstica de ideias, no que se ouve, se vê e se lê pelos meios de comunicação, nos semblantes.
Reconheço, com o poeta Emanuel Medeiros Vieira, que “tudo que não tem valor contábil parece repudiado, ou pelo menos sem significação, pela sociedade em que vivemos”. Assim com a amizade, o talento, o amor. E mais: nota-se um déficit de ternura no mundo, não só nas contas do governo.
Por falar nisso, observa-se uma generalizada descrença do brasileiro nos governantes, naqueles que receberam incumbência de gerir os negócios de Estado e da comunidade.
Embora sintomas positivos de retomada das atividades econômicas, verificamos em dados oficiais do IBGE, que o mercado de trabalho no Brasil perdeu 738 mil vagas com carteira assinada no período de um ano. O total de postos formais no setor privado encolheu 2,25% no trimestre encerrado em outubro, relativamente ao mesmo período do exercício anterior.
A indústria fechou 85 mil vagas no trimestre terminado em outubro. Também houve demissões em transporte, armazenagem e correio, com 48 mil ocupados a menos, enquanto na agricultura, 139 mil vagas foram extintas. Houve setores, porém, que contrataram, como na construção e no comércio, além de 208 mil funcionários a mais. Dá o que pensar.
Em âmbito internacional, no chove não molha (felizmente) entre Estados Unidos e Coreia do Norte, ouviu-se a embaixadora de Tio Sam na ONU, Nikiki Haley, no dia 30 do penúltimo mês do ano. No Conselho de Segurança, ela declarou que o mais recente lançamento de um míssil internacional pelos norte-coreanos deixou o mundo muito próximo da guerra.
Que guerra seria? Lembro, ainda com Emanuel Medeiros Vieira, Hiroshima: Na manhã de 6 de agosto de 1945/ a bomba de Hiroshima,/ a bomba,/ tão clara,/ cirúrgica. Bomba geométrica, certeira. A bomba vem do céu,/ mas não é ave./ A bomba vem de cima,/ mas não é Deus./ Desce fumegante,/ a bomba não negocia,/ a bomba não conversa célere, impositiva,/ acerta o alvo, cai,/ a bomba queima, a bomba dissolve,/ a bomba dilacera./ Alguém nasce no ano que ela cai,/ e pensa naquele 6 de agosto de 1945:/ segunda-feira – 8h15 da manhã:/Surpresa daqueles milhares de olhos./ Na véspera, a espera do lúdico no matinal domingo,/ parques, igrejas, passeios, visitas familiares./ Dia seguinte:/sem tempo para a reflexão – a chegada da não-ave, emissária de Tanato,/que cai, cai,/na paisagem limpa (cogumelos atômicos).
As instituições sobrevivem, a despeito de tantos. As investigações da PF ou os processos da Lava Jato não têm término. Aos mais poderosos, não interessa. Vale a pena cozinhar em banho-maria, para protelar, apela-se a todos os meios que a ciência jurídica possibilita. Há prisões e solturas, faltam cadeados eletrônicos, o transporte de réus e acusados, por terra, mar e ar, exige fortunas dos cofres públicos. O cidadão paga, a sociedade suporta.
Cícero, o grande tribuno romano, é lembrado: Até quando, Catalina, abusará de nossa paciência? Mas ninguém sabe mais quem é Catalina.


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Por Manoel Hygino - 1/12/2017 07:36:48
O visgo que há em Portugal

Manoel Hygino

Brasileiros, descendentes ou não de lusitanos, estão fazendo a viagem de volta de Pedro Álvares Cabral – uso o nome completo do nauta para evitar confusão. Portugal cresce como destino de nossos turistas. Há os que vão pela primeira vez e se encantam, até porque encontram pessoas que, na Europa, usam língua semelhante à nossa. Não digo que seja rigorosamente igual.
Desiludidos do Brasil atual, acabrunhados por perceberem que a corrupção e os escândalos decorrentes continuam sem previsão de término, há os que arrumam a mala e fazem o retorno pelo Atlântico.
Lembro, por exemplo, o escritor Ronaldo Cagiano (ele é de Cataguases) e a esposa, Eltane, de mesmo ofício, que deixaram a gloriosa São Paulo depois de anos e se instalaram na santa terrinha. Desenganaram-se aqui de vez, após um sequestro de que foram vítimas na maior cidade do país. Escolheram um pedaço de mundo em que estão agora em paz, porque mais bem protegidos da ação permanente dos marginais.
Poderia citar outros casos e personagens. Por agora, lembro Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza, professor universitário de teoria do estado e de direito constitucional, jornalista, editor-adjunto da Del Rey, membro do Instituto dos Advogados de Minas Gerais e do Instituto Histórico e Geográfico, e com outros títulos que ocupariam toda esta coluna. Entre eles, membro das academias Mineira de Letras e Mineira de Letras Jurídicas.
Ele não se transfere para Portugal, terra do avô, que era Manoel – Bento Malheiros, natural de Ponte de Lima, na região do Minho. O ascendente veio para o Brasil no século XIX, estabeleceu-se em Ouro Preto, casou-se com a professora Francisca de Paula Penido Malheiros. Ali, integrou a Mesa Administrativa da Santa Casa e da Associação Comercial.
Visitou Portugal, pela primeira vez, em 1975, e desde então a pátria avoenga se inscreveu no roteiro de suas viagens. Fez cursos na Universidade de Évora, no Alentejo, na Universidade de Lisboa, de Formação de Magistrados no Centro de Estados Judiciários de Portugal, trazendo novos conhecimentos para a Escola Judicial do TJMG. Deu-se tão bem que decidiu residir em Lisboa e lá permaneceu um ano com a família, cuja esposa, Janice, fez história da arte na Fundação Gulbenkian, enquanto os filhos frequentavam escolas públicas de Lisboa. Nada mau.
Sua ligação com Portugal se estreitou. Já Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, do Grêmio Literário de Lisboa, fundado pela rainha Dona Maria II, fez-se membro do Centro da Comunidade Luso-Brasileira, cá de Beagá. Não vou estender-me, pela razão enunciada: o espaço reduzido.
Com saudações luso-brasileiras, alegria e honra, Ricardo A. Malheiros Fiuza comunica que, desde 3 de novembro, é cidadão português de origem (jus sanguíneo), sem deixar, é claro, de ser brasileiro com esperança...”.
Português também, mas sem abandonar o Brasil, Minas, nossa cidade, Belo Horizonte, em segundo plano. É bom evocar Rosa: “Minas – atente, olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe. Sei um pouco, seu facies, a natureza física – muros montes e ultramontes, vales escorregadios, os andantes belos rios, as linhas de cumeeiras, a aeroplanície ou cimos profundamente altos, azuis, que
já estão nos sonhos – a teoria dessa paisagem... Saberei que é muito Brasil, em ponto de dentro, Brasil conteúdo, a razão do assunto”.


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Por Manoel Hygino - 30/11/2017 08:13:33
O riso que se perde

Manoel Hygino

Crescentemente me inquieto. Pelas folhas, tomo conhecimento de que Tiririca anuncia que não disputará reeleição ano que vem. “Totalmente decepcionado” com a política após dois mandatos, conquistados com votações recordes”, ele é peremptório: “Não volto”.
Acrescenta: “Esperava chegar aqui e aprovar projetos, mas a mecânica daqui é complicada”. Sem sequer um único discurso, promete só falar, no final do mandato, “despedindo-se da galera”.
Verdadeiramente, não acho qualquer graça de coisas que ora acontecem no pedaço de terra descoberto por Cabral, o Pedro Álvares, séculos depois território de que se apossou ou em que se empossou – outro Cabral, o Sérgio, ex-governador, preso em local muito próprio: Benfica.
Não é, sem embargo, para rir. No último dia 22, a humorista Cláudia Rodrigues foi internada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, às pressas. Um excelente estabelecimento, por sinal. Ela sofreu um surto de esclerose múltipla, e – segundo sua empresária – não havia previsão de alta. Seu estado de saúde não era dos melhores, tanto que recolhida a isolamento, embora lúcida e respirando sem ajuda de aparelhos.
Pelos corredores, os indefectíveis comentários. O episódio resultaria de baixa imunidade, após contato com alguém com catapora. Nestas horas, apressa-se em opinar e dar palpites, provando a tese de que todos temos de médico e louco, um pouco. Alguém lembrou que a artista também sofrera de herpes zoster, “que estourara por dentro e por fora”. Acrescentava-se que corria o risco de ficar cega, como revelara a empresária. Tudo evidentemente a esclarecer pelos médicos, que procuravam definir um diagnóstico seguro.
Os humoristas não devem achar bons o capricho e as contingências da hora. Pois aconteceu na mesma data. O humorista, cantor e compositor Moacyr Franco, há 20 anos no programa “A Praça é Nossa”, do SBT, foi demitido pela emissora de Sílvio Santos. Ele já apresentara “A mulher é um show”, em 1986, voltando no ano seguinte para o “Concurso de Paródias”.
Não parou por aí o artista de Ituiutaba, pontal do Triângulo Mineiro, maior produtor de arroz do Brasil em determinada época. Naquela televisão, atuou nos seriados “Ô... Coitado” (1997–1999), com a também mineira Gorete Milagres. Em seguida, em “Meu Cunhado” (2004–2006) e, desde 2005, no “A Praça é Nossa”, interpretando o caipira Jeca Gay, que me perdoem a cacofonia.
Carlos Alberto de Nóbrega se disse bastante abalado. “Somos amigos há 62 anos. Quando soube que ele seria cortado, foi um choque. Eu disse à direção da casa que não conseguiria dar a notícia, porque iria começar a chorar na hora. Ele é um dos artistas mais injustiçados no nosso país. Ele é um gênio, tem uma versatilidade como poucos. É um ótimo ator, humorista, escreve muito bem, é um poeta, canta muito bem... Era um absurdo ele ter somente cinco minutos de participação na Praça. Mas a empresa não é minha, e a decisão também não foi minha. Estou muito triste”.
Os fatos os demonstram que a situação é séria, mesmo entre os que ganham para fazer as pessoas rirem. Ridendo castigat mores. Fica claro que vamos perdendo os ases dos que contam anedotas e fabricantes de risos e gargalhadas. É uma constatação profundamente desagradável nesta hora em que as más notícias prosperam.


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Por Manoel Hygino - 29/11/2017 07:39:16
O submarino que não voltou

Manoel Hygino

Os jornais de sábado – 25 de novembro de 2017 – davam informações sobre o submarino argentino ARA San Juan, desaparecido então há dez dias no Atlântico Sul, com 44 tripulantes. O presidente Maurício Macri assegurou que as buscas continuavam, contando com o apoio total da comunidade internacional e avanços tecnológicos. A embarcação dera sua última mensagem no dia 15 de novembro, quando navegava em direção à sua base no porto de Mar del Plata, a 400 quilômetros ao sul de Buenos Aires.
Esse tipo de tragédia já inspirou mais de um filme. Assim, se repetem os acontecimentos de 2000, na Rússia, quando um submarino nuclear daquele país “estava afundando no Mar de Barents, levando consigo 118 tripulantes, para usar as palavras da jornalista Masha Gessen. Ela confessa: “De todas as histórias dolorosas que precisei cobrir e que o povo da Rússia teve de testemunhar, o desastre do Kursk foi provavelmente a mais devastadora.
Durante nove dias, as mães, as esposas e os filhos dos homens que estavam a bordo – e, junto com eles, a Rússia inteira – conservavam a esperança de que alguns deles ainda estivessem vivos. Todo o país se manteve em vigilância enquanto a Marinha e o governo se atarantavam em tentativas de resgate. Equipes da Noruega e da Grã-Bretanha se puseram à disposição, mas foram rejeitadas, supostamente em virtude de cuidados relativos à segurança. E o pior foi que o novo presidente (Putin) ficou calado: estava de férias no Mar Negro”.
O Kursk era uma metáfora da Rússia pós-soviética. Começara a ser construído em 1990, quando a União Soviética estava prestes a extinguir-se. Ficou pronto em 1994, “enquanto o império ruía”. O submarino nuclear era imenso, mas não passara por manutenção desde que lançado. Participara de sua primeira missão no verão de 1999, quando Putin subiu ao poder e participaria da primeira operação importante de treinamento exatamente em agosto de 2000.
Gessen conta uma história dolorosa: o submarino e a própria Frota Russa do Norte não estavam preparados para o exercício. Os navios e os homens não preenchiam as exigências técnicas e legais para um exercício militar convencional.
Eis parte do texto original: “O submarino havia sido equipado com torpedos de treinamento, alguns dos quais com a data de validade vencida e o resto sem uma verificação adequada. Alguns tinham furos de ferrugem visíveis: os anéis de conexão de borracha de outros já tinham sido usados inúmeras vezes, numa nítida violação aos regulamentos de segurança. A morte está conosco aqui a bordo”, disse um dos tripulantes à sua mãe, referindo-se aos torpedos, seis dias antes do acidente”.
Temeridade e falta de respeito à vida. Os depoimentos são dramáticos. Foi um dos projeteis que pegou fogo e explodiu. Houve duas explosões dentro do submarino e a maioria da tripulação teve morte instantânea. Vinte e seis sobreviventes correram para uma área não afetada no interior da embarcação e esperaram socorro. Dispunham de equipamento para sobrevivência por algum tempo e confiavam ser salvos porque participavam de um exercício militar.Os tremores da explosão foram captados por uma estação sísmica da Noruega, mas transcorreram nove horas para se iniciar o resgate frustrado. Era tarde, muito tarde, mesmo com os sobreviventes batendo o SOS pelo Código Morse.


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Por Manoel Hygino - 27/11/2017 07:46:36
A Rússia e suas datas antigas

Manoel Hygino

Quando se lê ou se escreve sobre a Rússia, tem-se de armar de todo cuidado quanto às datas, que podem parecer confusas. Até 1918, lá se usava o velho calendário Juliano. No século 19, estava com doze dias a menos em relação ao calendário Gregoriano, adotado praticamente em quase todos os outros países. No século 20, a folhinha russa revelava treze dias de atraso.
Quem poderia esclarecer esse problema é J.P.Lozar, mas não posso me omitir. Outro aspecto a ser lembrado: “O russo, o cidadão, tem três nomes: o primeiro é o de batismo; depois, vem o nome do pai acrescentado de vich ou vitch, ou seja, filho de; e, finalmente, o nome da família. Assim, o último czar era Nicolau Alexandrovitch Romanov. No caso de mulheres, o segundo nome é o do pai com Evna ou Ovna, no finalzinho da palavra, que quer dizer filha de”.
Tudo para contar que a Revolução de Outubro, que levou ao poder os sovietes se deu em 7 de novembro de 1917. No prefácio de “Dez dias que abalaram o mundo”, Crupscaia, mulher de Lênin, indica outubro para situar a revolução. Conta que o autor da obra, John Reed, norte-americano, “está ligado indissoluvelmente à “Revolução Russa”, e seu corpo “repousa na base do Muro Vermelho do Kremlin”. No entanto, o próprio Reed, no prefácio, adverte que “é preciso ter-se em conta que foi, não em 25 de outubro, mas em 7 de novembro de 1917, que o império dos tzares ruiu”. Em todo caso, o jornalista de Oregon, EUA, foi prudente – usou as duas datas para registrar esta observação no posfácio da edição soviética.
Realmente, a revolução de 1917 não seria factivamente de outubro ou novembro, porque começou em fevereiro–março, a partir de quando ganhou terreno e adeptos. Constituía a explosão dos sentimentos populares represados ao longo de séculos, aguçados pela ininterrupta propaganda e ação de grupos que ansiavam o poder. “Assim, muito tempo antes do socialismo marxista ter sido sequer sonhado”, escreveu Bertran Wolfe, em ‘Three Who Made a Revolution’, “o Estado russo tornara-se o maior proprietário de terras, o maior industrial, o maior empregador de mão de obra, o maior comerciante, o maior proprietário de capital, na Rússia ou no mundo... Sendo isso transformado no maior aparelhamento burocrático do mundo”.
É tema fascinante para todos os que pretendem saber sobre a história, e a história da Rússia, com proposto por Falcionelli, catedrático argentino da Universidade de Mendoza.
O mundo estava atrasado. O avô do último soberano, Nicolau II, Alexandre II, percebeu a situação e, em 1861, contra monumental oposição, libertou os escravos, mas surgiu um sistema de servidão de outra espécie, até em condições piores em vários aspectos. Allan Moorehead alerta: O que o rei soberano achava importante era apenas um princípio de coisa. Mas a escravidão não era peculiar à Rússia, pois também produziria a guerra civil nos Estados Unidos.
Sob Alexandre, começou-se a definir um plano para uma Constituição. Em 31 de março de 1881, contudo, o tzar foi vitimado por uma bomba, que o deixou mutilado e levado ao Palácio de Inverno para morrer.
Em outubro–novembro de 1917, o órgão oficial dos socialistas moderados escreveu: “O drama da revolução tem dois atos: no primeiro, destrói-se o velho regime; no segundo, cria-se o novo. O primeiro ato já durou muito tempo. Chegou o momento de passarmos, quanto antes, ao segundo”.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2017 07:41:17
O fim do caminho

Manoel Hygino

Na escola primária, ouvi o conto daquele aluno que devolvera o “dever de casa” com numerosos e graves erros. A professora, experimentada na diária lida com seus infantes, perguntou se ele fizera o trabalho sozinho ou se alguém o ajudara. Embora receoso, explicou à distinta mestra que seus pais o tinham auxiliado na missão. A professora observou, incontinenti: “Bem que eu desconfiava. Não seria possível apenas a uma pessoa cometer tantos e tão sérios erros”.
A historieta se presta ao Brasil de hoje. Não se trata de crise criada por uma única autoridade, sequer por um só grupo de pessoas, por um partido político. Os fatos equívocos, suspeitos ou flagrados, os desvios, as ilicitudes, os escândalos são tantos e tão escabrosos, que não resultam de ações solitárias, embora estes casos possam existir. É perfeitamente admissível que, aproveitando as circunstâncias favoráveis, inclusive a possível impunidade por seus atos, alguém se disponha a também enfiar a mão na cumbuca com objetivos escusos.
A impunidade produz exemplos e gera adeptos. E como tem sido perniciosa à vida nacional! O grande desencanto e a decepção resultam da falta de expectativas concretas com relação ao futuro do país, aquele previsto por Stefan Zweig, que, cônscio das grandes potencialidades nacionais e de perspectivas saudáveis, confiava em que seríamos uma grande nação. O Brasil, de fato, cresceu muito, principalmente em problemas e no número daqueles que se enriquecem com o dinheiro desviado dos cofres públicos, de obras pagas, mas não realizadas, dos superfaturamentos de empreendimentos de todas as dimensões, em todos os rincões e em todas as áreas de atuação oficial.
Mudam-se os nomes dos que assinam os atos oficiais, mas permanecem as suspeições, as investigações, as condenações e prisões, seguidas da libertação permitidas pela legislação por falhas nas respectivas disposições.
Deles se servem competentes escritórios de advocacia, que defendem causas indefensáveis, porque escusas e em detrimento do interesse superior da nação, do cidadão, das instituições.
Repito aqui trechos de artigo de Fernando Gabeira, em março do ano passado, com o título “É o fim do caminho”: Na semana passada escrevi, “O processo de morrer”. Não tenho mais saída exceto apelar para “O livro tibetano dos mortos”, que dá conselhos aos que já não estão entre nós. O conselho é seguir em frente, não se apegar, não ficar rondando o mundo que deixam.
Simplesmente não dá para continuar neste pesadelo de um país em crise, epidemia de zika, desemprego, desastres ambientais, é preciso desatar o nó, encontrar um governo provisório que nos leve a 2018.
De todas as frentes da crise, a que mais depende da vontade das pessoas é a política. Se o Congresso apoiado por um movimento popular não resolver, o TSE acabará resolvendo. Com isso que está aí o Brasil chegará a 2018 como um caco, não só pela exaustão material, mas também por não ter punido um governo que se elegeu com dinheiro da Petrobras.
É hora de o país pegar o impulso da lava-jato: carro limpo, governo derrubado, de novo na estrada. É uma estrada dura, contenções, recuperação de credibilidade, quebradeira nos estados e cidades. É pau, é pedra, é o fim do caminho”.


82902
Por Manoel Hygino - 24/11/2017 07:26:06
Morte macabra na Califórnia

Manoel Hygino

Completou 83 anos no dia 12 de novembro e, dois dias depois, no dia 14, morreu. O óbito foi às 20h13 locais, em um hospital, cujo nome não acompanhou a informação. Refiro-me a Charles Manson, um dos personagens do meu livro “Hippies, protesto ou modismo”, por sinal recebido elogiosamente por A. A. Mello Cançado, que assinava crônica no antigo “O Diário”, de Belo Horizonte. Professor de Direito Romano, o mestre sempre foi generoso comigo e meus escritos.
Na data de aniversário, Manson pediu liberdade condicional, rejeitada como em outras vezes, após condenado a prisão perpétua pela morte de várias pessoas na Califórnia, em agosto de 1969. Entre elas, a da atriz Sharon Tate, então com 26 anos, grávida de oito meses e meio. Era esposa do cineasta Roman Polanski, diretor de filmes de sucesso internacional, e ainda com relativa popularidade.
O boletim do Departamento de Correção e Reabilitação da Califórnia, CDCR, foi econômico em palavras. Esclareceu que o preso “morreu de causas naturais”, aquelas não permitidas por ele pelo menos a sete pessoas, há quase cinco décadas. Para seu macabro desiderato, Charles Manson reuniu pessoas, de que era guru, formando uma “família”, como aliás o grupo era conhecido. À guisa de curiosidade, lembro que do laudo da execução de Tiradentes constava que ele falecera também “por morte natural”, na forca.
Pela mídia, fiquei agora sabendo que o “caso” continua despertando interesse na sociedade norte-americana. Não só Tio Sam, contudo. Todo o mundo conhece a trajetória mórbido-criminosa de Manson, no decorrer dos 40 anos de cadeia, que o livraram da pena de morte a que fora inicialmente condenado. O mesmo acontecera com discípulas envolvidas na trama e no ato final. A mão fatal foi de Susan Atkins, que esfaqueou a atriz de Hollywood. Para marcar mais profundamente a cena, ainda escreveu com o sangue da vítima, na porta de entrada da casa, a palavra “pig”, porco.
Por envolver gente conhecida na sociedade, mesmo artistas de Hollywood, comentou-se enormemente o plano macabro de Manson, uma figura rara. Nascido em 12 de novembro de 1934, em Cincinnati, no norte dos Estados Unidos, filho de uma jovem de 16 anos, o menino sequer conheceu o pai e da mãe nem se fala. Adulto, começou a formar a sua grei, com mulheres ingênuas e perdidas, que viviam à margem. Então instalou o seu harém familiar, que gerou muitos bebês. Cuidou de ter ao menos um filho com cada uma de suas adeptas e, para maior enlevo de todos, a droga circulava naturalmente na vivência coletiva.
Segundo versões fidedignas, Charles Manson incentivava os assassinatos para provocar a explosão de descontentamento entre brancos e negros, batizando o programa de “Helter Skelter”, título de uma das músicas de sucesso dos Beatles. Daí, o liame de ideias na época, que incentivavam mais do que “paz e amor”, pelo que se depreende.
Entrevistado na prisão, ao ser perguntado que conselho daria aos jovens, ensinava, por detrás da sua barba grande e revolta: “deixem uma marca para que o mundo saiba que estiveram aqui”. No caso de Sharon, quando já se dizia a reencarnação de Cristo, a inscrição foi de um vocábulo único: “Pig”. Identificava-se?


82896
Por Manoel Hygino - 23/11/2017 07:49:06
Magistratura: Liturgia do cargo

Manoel Hygino

Eugênio José Guilherme de Aragão é professor-adjunto da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília e recentemente se aposentou como procurador da República. Em entrevista ao jornal “Nossa Ciência”, há poucos dias, ele fez declarações corajosas sobre o Brasil em que vivemos, inclusive no que tange à formação acadêmica jurídica, classificando-a como “distante da realidade”.
O espaço, por curto, não permite transcrever integralmente. Perguntado se o processo, pelo qual o Brasil passou, quebrou a liturgia dos cargos na Justiça e se há concerto quando se rompe a liturgia, ele esclareceu:
“A liturgia do cargo é uma garantia para os atores da Justiça de uma certa intangibilidade. Essa liturgia irradia ao ator da Justiça uma credibilidade, uma certa majestade que, automaticamente, afasta as partes do conflito da pretensão de querer incluir esse ator dentro de seu conflito. O problema é um juiz lidar anualmente com milhares de processos e sempre em cada um desses processos vai haver um frustrado. O magistrado tem a tendência de acumular com o passar do tempo, cada vez mais desafetos, que são aqueles que foram frustrados nas suas pretensões em juízo e, se o magistrado não tiver essa aura de majestade, de responsabilidade que a liturgia do cargo transmite, ele se equiparará às partes em conflito, ele descerá de seu pódio. Então é natural que ele se exponha a ser alvo de violência, porque se ele se comporta feito um moleque, feito um litigante raivoso, ele vai ser tratado como tal e aí acaba levando um tiro na testa, ele arrisca sua integridade física”.
Diante disso, a natural pergunta ao magistrado aposentado é: como deve ser a atuação do juiz? A resposta, que também se publica na íntegra, pode ser analisada: “A liturgia é algo profundamente democrático, porque é um respeito às instituições do Estado de Direito. O magistrado não deve dar opiniões polêmicas, nunca deve falar de público sobre suas causas, porque ele acirra os conflitos, não deve expor as partes, deve cultivar um baixo perfil, a discrição, a tranquilidade, a serenidade. Só assim ele será levado a sério como um juiz imparcial. Infelizmente, no Brasil, o judiciário brasileiro tem uma coisa muito curiosa. Ao mesmo tempo em que ele é, como poder, provido de enormes poderes, muito mais do que qualquer um, comparado com outros juízes, ele é um poder hierarquizado e os juízes são extremamente moderados, se tem um bicho medroso é o tal de juiz, tem medo de desagradar os superiores. Para baixo, ele pisa: para cima, ele faz o salamaleque”.
Medo por que? Não se trata de uma carreira absolutamente respeitável? Eis o que pensa o magistrado:
“É porque todo juiz, em última análise, almeja subir, e subir depende dos seus pares na instância superior; então ele tem que agradar a esses pares; eles, os juízes, acabam sendo permanentemente subalternos. Ao mesmo tempo aqueles que estão no topo da carreira, para chegarem lá, fizeram tanto salamaleque ao longo de sua vida que acabam tendo a coluna vertebral extremamente elástica. Em que eles se miram para lhes dar segurança? Na mídia. É a mídia que faz hoje a imagem do juiz, do magistrado, principalmente em sua cúpula e isso destrói completamente essa ideia de magistrado imparcial. Isso faz com que o magistrado se afaste de sua liturgia para deturpar, deformar essa liturgia em puro autoritarismo, em prepotência, arrogância”. São opiniões severas em nossa época. E são meia dúzia de laudas. Havendo novo espaço. O leitor merece conhecê-las.


82894
Por Manoel Hygino - 22/11/2017 07:42:34
Em tempo de Alphonsus

Manoel Hygino

O rompimento da barragem de Fundão, no distrito de Bento Rodrigues, há dois anos, tem inspirado os que conhecem Mariana ou lá nasceram, desfrutando inesquecíveis lembranças. A primeira vila e cidade de Minas é fonte de ricas reminiscências carinhosamente preservadas no coração de sucessivas gerações mineiras.
Há poucos dias, Aristóteles Atheniense fez publicar um belo relato da vida de um celebrado juiz-poeta, apresentado em sessão da Academia Campinense de Letras. Aparece agora em opúsculo que traz como título somente “Alphonsus de Guimarens”, nascido em Ouro Preto, no dia 24 de julho de 1870, para falecer ali bem perto, no antigo Ribeirão do Carmo, no mês também de julho, no dia 15 em 1921.
O poeta Afonso Henrique da Costa Guimarães fez estudos no Liceu Mineiro, na cidade natal, e, em 1887, dez anos antes da inauguração de Belo Horizonte como sede do Governo de Minas, já fazia versos e amava a prima Constança, filha de Bernardo Guimarães. Um grande amor, não fora tão curta a vida, já que ela morreu prematuramente, aos 17 anos, passando a tema e forte referência na poesia do namorado.
Aristóteles, ex-presidente da IAB-MG por dois períodos, do IAB- Nacional e do Instituto dos Advogados Brasileiros, dentre outros títulos, hoje preside a Academia Mineira de Letras Jurídicas e colabora na imprensa, com frequência.
Lembra a pacata vida de Alphonsus em Mariana e o sofrimento consequente da perda irreparável. “Era de tarde. O sol no poente/Baixava lento. A noite vinha/ Ela tossia, estava doente.../Meu Deus, que olhar o que ela tinha!”.
Iniciando o curso de Direito em São Paulo, colou grau na Faculdade Livre de Direito de Ouro Preto, em 15 de julho de 1894 – o mês o marca sobremaneira. Promotor de Justiça em Conceição do Serro, onde já se encontrava o primo, Antônio Augusto de Ataíde, juiz da comarca, não fez “nenhuma acusação no júri, absolutamente avesso a falar em público e ainda mais avesso a acusar...”, como observou o filho João Alphonsus.
Dias difíceis, com a esposa Zenaide dividindo a dor pela sua dificuldade no exercício da atividade ministerial, até vê-lo “empalidecer, escorregar na cadeira, abandonar o corpo sem forças, como sem vida: desfalecer”. E mais: juiz substituto da comarca, viu o cargo ser extinto, largando-o desprovido de recursos para manutenção da família. A filha, que teve o nome da amada falecida, Constança, antecedeu-lhe à morte em dois meses.
Barrado no projeto de juiz municipal por adversários políticos do dono do jornal “Conceição do Serro”, foi nomeado para Mariana, de que há um registro do filho João Alphonsus:
“Fora transportado numa viagem de doze dias, acompanhado a remoção do pai, magistrado pobre, entre duas comarcas longínquas, em dois caixotes do tamanho de leitos infantis, ao fundo colchões e travesseiros, pendurados na cangalha, de um burro lerdo e passante, um preto, a pé, puxando o cabresto de sol a sol...”.
O comentário final de Atheniense: “Numa madrugada, em 1959, então acadêmico de Direito, indo visitar meu pai, Lafayette, à época Juiz de Direito em Ponte Nova, detive-me no caminho que passava por Mariana, saltei o muro e penetrei no Cemitério Municipal. Ali estava escrito o verso que Alphonsus escolhera para o jazigo: “A mih’alma é uma cruz enterrada no céu”.


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Por Manoel Hygino - 21/11/2017 07:23:02
Uma guerra sem fim previsto

Manoel Hygino

Aconteceu no Rio de Janeiro. Bandidos ligados ao tráfico, em meados de outubro, sequestraram um médico e o levaram para socorrer um criminoso. Após tiroteio na avenida Brasil, um policial e um criminoso se feriram. Levados a uma UPA; informou-se que o caso era grave e impunha cirurgia. Para segurança do marginal- vítima, apreendeu-se ali mesmo um discípulo de Hipócrates, transferido a uma clínica clandestina na Baixada Fluminense para procedimentos.
Este apenas um fato entre tantos que enodoam ou estigmatizam a crônica da cidade e do Estado do Rio. Uma pena para os que lá moraram em dias difíceis, mas menos marcados pela violência e pela corrupção, que enfim é uma espécie de demonstração prática daquela.
Um ex-governador carioca preso desde princípio do ano. Uma vergonha. Os negócios escusos em todas as atividades oficiais, com empresas evidentemente envolvidas. Deputados à Assembleia, inclusive seu presidente, presos por ordem judicial em 16 de novembro. Horas depois, foram soltos.
Além de outras personagens, envolvidas em escândalos pelo mau uso de com recursos públicos, isto é, do povo.
Na periferia, uma guerra sem fronteiras. Funcionalismo em atraso, falta de material farmacêutico nos postos de saúde, revolta dos barnabés, sucessivos tiroteios nas comunidades – antes favelas. Balas matam os coitados, infantes, mulheres e idosos. Sangue, gritos e lágrimas, mais feridos e mortos.
Sem embargo, o Rio de Janeiro é a única cidade brasileira incluída entre as 100 mais visitadas do mundo, embora em 85ª colocação. Em primeiro lugar e pelo oitavo ano consecutivo, Hong Kong. Nas Américas, só Nova York aparece entre as dez mais.
O Rio reflete o Brasil, infelizmente. Tivemos 61.619 mortes violentas no país, no ano passado, o maior índice de aumento da história, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só homicídios foram sete a cada dia e, no total, se matou em 2016 mais do que a bomba atômica de Nagasaki, em 1945. Mas era época de guerra mundial.
A violência não é terrível privilégio carioca, quando se sabe, por exemplo, que ela praticamente se comprovou em dobro nos registros da dengue e zika. Esta apresentou 719 casos possíveis, com 86 confirmados pelo critério laboratorial.
Em Minas, há violência, como não poderia deixar de ser. Nó dia 6 de novembro, trinta homens armados invadiram Uberaba. Roubaram empresa de valores. Usando explosivos, atiraram uma bomba perto do quartel da PM, amarraram correntes em postes, metralhadoras foram expostas pelos bandidos, com população em pânico.
No dia 8, sertão adentro, três agências dos Correios assaltadas em ação com bananas de dinamite, provocando danos à estrutura de prédios, em Padre Carvalho, Varzelândia e Manga. Em Almenara e Rubim, no Jequitinhonha, um bando especializado em assaltos quis cumprir mais um projeto, mas quatro marginais foram mortos pela polícia. Pelo menos, estes darão sossego à população. Sabemos perfeitamente, todavia, que esta guerra não terminou, estamos apenas dando sequência, como se lerá nos jornais de hoje.


82887
Por Manoel Hygino - 20/11/2017 08:22:31

O ano de 1968 e o AI-5

Manoel Hygino

Zé Torres, ou melhor José Antônio Breyner Torres, lançou em 2013 seu livro “Mineiríades – Cantos de Minas”, com versos muito irônicos sobre a gente de Belo Horizonte ou que aqui viveu. Eis o sexteto inicial: “Quando eu nasci, aquele anjo me olhou de soslaio e disse: – Seja o que Deus quiser! Amém”.
O registro vale para Márcio Moreira Alves, de ilustre família de minha cidade natal, com forte atividade política e social. À porta da casa de um deles, do médico João Alves e D. Tiburtina – se deu o famoso tiroteio de 6 de fevereiro de 1930, com mortos e feridos.
Pois bem. Márcio Moreira Alves se tornou o principal protagonista da batalha que resultou no Ato Institucional nº 5, em 1968. O ano que já bate à porta do calendário, o 2018, assinala o cinquentenário do AI-5, de temida lembrança, e de tantos outros fatos de repercussão internacional. Sobre o tema, Márcio escreveu “68 mudou o mundo”, lançado pela Nova Fronteira em 1993, com prefácio de Gilberto Dimenstein. O volume conduz um subtítulo: “A explosão dos sonhos libertários e a guinada conservadora num ano que valeu por décadas”.
Efetivamente assim é. Pode-se, assim, evocar Marx que, ao ensejo da Comuna de Paris, escreveu: “Há dias que valem por séculos na história dos povos”. A propósito, John Reed também lembrará a revolução russa de 1917 em “Dez dias que abalaram o mundo”.
Neste tempo em que se recorda com ênfase a Jornada contra a Fome, liderada pelo mineiro Betinho, Herbert José de Souza, gente do Norte de Minas, sociólogo e hemofílico, nada mais próprio do que advertir sobre 1968, quando se deram fatos dignos de menção. Há meio século, um discurso do deputado Márcio foi considerado
ofensivo às Forças Armadas, contestadas veementemente, inclusive porque renovava denúncia de torturas.
Os estudantes ficaram ao lado do Márcio Alves, até porque ainda estava muito vívido o assassinato de Martin Luther King, líder da luta dos negros norte-americanos por seus plenos direitos civis. Executado em um hotel de Memphis, no Tennessee, sua morte foi um rastilho de pólvora pelos bairros pobres das grandes cidades de Tio Sam, com extensão pelo mundo. No Brasil, os grupos radicais defendiam a luta armada, embora Márcio sustentasse que os jovens não se moviam pelo sonho socialista, mas pelo sonho “pequeno burguês”. Queriam entrar na faculdade (como até hoje), conseguir uma vaga de trabalho, aumentar a competitividade no mercado, algo muito pragmático.
Enfim, um sonho de mudança, com a lei acima dos homens. O deputado se defendeu na Câmara, com o país tenso. Resultado: o AI-5 foi assinado em 13 de dezembro de 1968, embora se afirmasse que a decisão fora tomada em 27 de junho, quando um atentado a bomba matou um sentinela do QG do III Exército, em São Paulo. Com a invasão da Universidade de Brasília pelas forças de segurança, os ministros militares exigiram do Parlamento licença para processar Márcio, abrindo uma grave crise institucional.
Márcio foi cassado. Depois, veio o que se sabe e que o autor do livro, o próprio Márcio, conta em minúcias muito valiosas para visão mais aprofundada da questão.
Em resumo, estamos ingressando no cinquentenário de um ciclo da história que até hoje nos influencia.


82884
Por Manoel Hygino - 18/11/2017 07:35:14
Risco na caixa d’água

Manoel Hygino

Haja espaço nos meios de comunicação, porque assuntos não faltam. Felizmente, existem boas notícias a divulgar e comentar, mas não se nega que as letras graúdas das manchetes ficam por conta das más, que não são poucas neste país abençoado por Deus. Imagine-se se não fosse.
O preponderante agora, quando as chuvas chegaram, é com relação às barragens construídas nas montanhas e possivelmente transformadas em risco para a população. É tema muito sério, muito grave, a que as autoridades não podem ficar alheias e, certamente, não estão, como se depreende das informações pela imprensa.
Depois do catastrófico rompimento da Barragem do Fundão, no município de Mariana, causando 19 vítimas fatais e destruindo localidades a jusante, até a avalanche fatal alcançar o Atlântico, novas denúncias são feitas: outras poderão ter a mesma sorte – ou falta de sorte –, ameaçando extensas regiões. Muitos milhares de mineiros estão aterrorizados. E não é para menos.
O ex-governador José Francisco Bias Fortes, do poderoso clã de Barbacena, com sua voz grave, sentenciava que Minas Gerais é a caixa d’água do Brasil. Bela síntese, que reflete a destinação de grandes extensões de nosso território para formação de represas, algumas com usinas produtoras de energia elétrica. Aí estão, por exemplo, Três Marias, no São Francisco, e Furnas, dentre várias outras no Rio Grande. Servem ao Brasil depois de perdermos ricas áreas agricultáveis.
O rompimento da Barragem de Fundão, há exatamente dois anos, com danos que se sentirão ao longo de décadas, talvez séculos, se tornou símbolo dramático. A partir de agora se dirá – antes e depois do Fundão –, e presentemente todos que vivem à margem ou abaixo de barragens sofrem os intermináveis pesadelos de situação semelhante.
Mais se comenta e se discute, em termos técnicos e políticos, o caso da Barragem Casa de Pedra, localizada na cidade histórica de Congonhas. Por aqui, se atinge a história de Minas e do Brasil. Outro dia foi Mariana, primeira vila, cidade e capital. Agora é Congonhas, do santuário de Bom Jesus do Matozinhos, em que o Aleijadinho deixou belíssimos exemplares de sua estatuária. Poderia até recordar José Arigó, que ali viveu e a quem recorreram personalidades brasileiras em momentos de doença e sofrimento.
Mas a dor e sofrimento agora é dos moradores de Congonhas, em cujo município a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) construiu mencionada represa “propensa a rompimento”, segundo um oficial do Corpo de Bombeiros. Nova calamidade?
A estrutura da obra se eleva em um maciço de 80 metros de altura, 9,2 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, e a apenas 250 metros da vizinhança. Desde o ano passado, a CSN luta para estabilizá-la, mediante obras emergenciais contra infiltrações na base do Dique de Sela. É o que leio e me assusta, embora mais tangidos pelo medo sejam os habitantes dali.
Mal redigira o texto acima, fico sabendo que também há ameaça de rompimento em dois outros empreendimentos: as barragens de Vigia e Auxiliar de Vigia, ambas num recanto histórico que preferiria ser apenas bucólico.


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Por Manoel Hygino - 17/11/2017 07:05:52
Para mudar a bandeira

Manoel Hygino

O assunto não foi explorado como pareceria legítimo. Um alemão naturalizado brasileiro, responsável pelas aberturas de novelas da TV Globo, apresentou um projeto para modificar a Bandeira do Brasil. Hans Donner propõe, além do uso de tons de verde e amarelo em degradê, a modificação da faixa, que hoje forma um arco com pontas direcionadas para baixo e cuja direção seria invertida.
Mais do que isso: antes do lema, “Ordem e Progresso”, do positivismo, se acrescentaria a palavra “amor”, um sentimento não praticado em plenitude nos dias de hoje, nos costumes do país.
O proponente se explica e se justifica: “quando comecei a fazer design em Viena, uma das primeiras coisas que aprendi foi que uma frase que sobe para o alto (aliás, só poderia subir para cima, digo-o eu) tem poder. Queremos sinalizar esse poder, essa mudança que é necessária. Como está, a frase indica inferioridade, e isso acaba passando para o povo”.
O assunto vem a propósito. O Dia da Bandeira é comemorado em 19 de novembro, quando foi adotada como símbolo, atualizado mais recentemente em 11 de maio de 1992 com as atuais 27 estrelas representativas das unidades da federação.
Significa dizer que a bandeira não corresponderia mais à conveniência nacional, por não estar em consonância com as ideias do filósofo e matemático que a inspirou Raimundo Teixeira Mendes (1855–1927) e Miguel Lemos (1854–1917), com orientação do astrônomo do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, Manuel Pereira Reis (1837–1922).
O positivismo foi forte no Brasil e não está esquecido. No entanto, o lema no auriverde pendão “Ordem e Progresso” não seria tão importante, ou pelo menos não conteria o essencial, como discutido na época da confecção. Críticas não faltaram e muitas mudanças foram sugeridas, sem êxito. A mais significativa foi a do senador Carlos Rodrigues, em 1896, quando a República já fazia seus sete aninhos e ele pretendia o dístico “lei e liberdade”.
Naqueles ermos dias, o lema positivista refletia a inclinação política de que a ciência era a única forma de conhecimento verdadeiro. O tempo flui, transformaram-se as cabeças e os anseios. Não mais os ramos de café e tabaco, colocados como suporte da bandeira, que representavam as duas culturas que se destacavam na produção brasileira. Hoje, tabaco desperta o cuidado contra os riscos do fumo na vida das pessoas, causador de milhões de mortes anualmente.
Li, nas folhas, que a proposta apresentada no Fórum do Amanhã, em Tiradentes no último dia 9, tem inspirado memes (aprendi que a palavra, não encontrada nos dicionários, significa chiste, anedota, piada), mas o assunto é de relevância. Não se brinca com a história e com os símbolos.
A inclusão de “amor” é algo a se considerar nesta época em que o número de homicídios no Brasil supera o dos mortos na guerra civil da Síria.
Pretende-se amor e paz para viver, meditar, trabalhar, ajudar o Brasil a alcançar ordem visando o progresso. Admito, contudo, que se faça um plebiscito, com outras propostas: chega de corrupção, segurança e educação, menos promessa e mais ação.


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Por Manoel Hygino - 17/11/2017 07:03:06
Um dia como outro qualquer

Manoel Hygino

Quinze de novembro, Proclamação da República, todo mundo sabe, principalmente porque é feriado em meio de semana, propício para feriazinha, antes do Natal. No Brasil, são imperdíveis as interrupções mais longas no trabalho diário. Quem tiver oportunidade, porém, de encontrar e recorrer aos jornais de 1889, encontrará notícias muito especiais.
Sabe-se que, logo após as primeiras horas da manhã, no velho Rio de Janeiro, os empregados que se dirigiram para a jornada não deixaram de estranhar o tropel dos soldados de cavalaria. Devidamente armados, cruzavam as ruas do centro, enquanto se ouvia o som de clarins, o rufar dos tambores e o rodar das carretas do Batalhão Naval, que – por ordem do governo – havia desembarcado.
Ninguém sabia exatamente do que se tratava, mas os transeuntes se mostravam espantados e temerosos. O que acontecia? Perguntas por todos os lados, respostas imprecisas, não muito confiáveis. O Exército se revoltou? Por quê? Os militares querem depor o governo. Os caixeiros espalhavam a notícia de que o comércio fechava as portas, com receio de quebradeira.
Mas haveria também um 14 de novembro, em 1921. Telegrama enviado de Paris pelo Conde D’Eu informava à baronesa de Loreto, no Rio, que a princesa Isabel morrera aos 75 anos, com fraqueza cardíaca agravada por congestão pulmonar. No Brasil, pouco se comentou a respeito e assim continua.
A princesa Isabel, herdeira do imperador Pedro II, ficara conhecida como a Redentora, por ter assinado a Lei Áurea, que pôs fim a três séculos de escravidão. Ela sabia que, ao sancionar a lei, corria o risco de perder o trono, já que os republicanos planejavam um golpe, apoiados pelos escravocratas. Ela, contudo, não se intimidou, inclusive comparecendo a todas as festas pela libertação dos servos realizadas pelo povo. O centro carioca foi enfeitado com flores e a população saiu às ruas para comemorar.
A princesa, é bom lembrar, foi a primeira chefe de Estado das Américas e uma das nove mulheres a governar uma nação na região durante boa parte do século 19. Isabel substituiu o pai, o imperador, nas três vezes em que se ausentou do país. A primeira de 1871 a 1872; a segunda, de 1876 a 1877; e a última, de 1887 a 1888.
Em 1871, em 28 de setembro, ela exarou a Lei do Ventre Livre, estabelecendo que todos os filhos de escravos que nascessem a partir de então estariam libertos. Em 1888, foi a Lei Áurea, que liquidou com a escravidão, embora tardiamente, e também com a monarquia.
Registremos: em 1889, com a deposição do imperador e o banimento da família real, ela partiu ara exílio na França, montando ali uma espécie de embaixada informal, no castelo em que morava, na Normandia. De lá, procurava ajudar os patrícios e, lá também, recebeu Santos Dumont.
Foi ainda a primeira senadora do Brasil, cargo a que tinha direito como herdeira do trono a partir dos 25 anos de idade nos termos da Constituição do Império, de 1824. Por ter acabado com a escravidão, (a palavra tem surgido no noticiário político recentemente), libertando 12 milhões de escravos, o papa Leão XIII lhe ofereceu a comenda da Rosa de Ouro – título que parece servir agora a uma escola de samba.
Afora isso, quem dela se recordará no 14 de novembro?


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Por Manoel Hygino - 14/11/2017 07:56:19
Posse em Brasília: de um príncipe

Manoel Hygino

Em 16 de julho, consagrado à Virgem do Carmo, em 1696, o bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça e sua gente fundaram o arraial de Nossa Senhora, a primeira vila de Minas, a Leal Vila do Ribeirão Do Carmo. À tarde, no Mata-Cavalos, o padre Francisco Gonçalves Lopes ergueu o primeiro altar fixando a era cristã de Minas Gerais”, como disse o Cônego Trindade. Lá foi residir Antônio de Albuquerque, governador da Capitania das Minas do Ouro, formada por Minas e São Paulo. Em 1745, Dom João V elevou a Vila do Carmo à cidade, para tornar-se sede do primeiro bispado de Minas e acolher dom Frei Manuel da Cruz, o titular.
Com todo o parágrafo inicial, queria simplesmente lembrar as origens de Danilo Carlos Gomes, mineiro de Mariana, no último dia 13 empossado na Academia Brasiliense de Letras, presidida pelo escritor Carlos Fernando Martins de Souza, presentes o vice, ministro Roberto Rosa, o presidente da ANE, Fábio de Souza Coutinho, e Fábio René Kothe, presidente da Academia de Letras do Brasil.
Casa cheia, família indispensavelmente no auditório da ANE, que tem o nome de Cyro do Anjos, escritor de Montes Claros. Ao saudar o novo acadêmico, Napoleão Valadares, mineiro de Arinos, brilhante autor, um dos fundadores da Associação e seu ex-presidente, lembrou que Danilo nasceu na terra natal de Cláudio Manuel da Costa, encontrado morto na Casa dos Contos, em Ouro Preto.
Valadares lembra o menino Danilo pelas fazendas, como aluno do tradicional Colégio Dom Bosco, em Cachoeira do Carmo, distrito de Ouro Preto, depois em Belo horizonte, no Arnaldo e no Padre Machado, o curso e a formatura em direito na UFMG.
Depois, Rio de Janeiro e a Brasília de JK e Israel Pinheiro, onde fez jornalismo. Redator e assessor do secretário de imprensa e divulgação da Presidência da República, cronista consagrado, ensaísta, pesquisador literário, grande leitor de história e colaborador de numerosos periódicos, do “Jornal da ANE” e do “Jornal de Letras”, membro da Academia Mineira de Letras, do IHG do DF, da Academia de Letras do Brasil e, agora, da Brasiliense.
Sua produção literária circula por aí, prestigiada e elogiada. Ao chegar à cadeira fundada pelo poeta Domingos Carvalho da Silva, lembrou-o e a Romeu Jobim, que nascido em Campo Esperança, município de Rio Branco, no Acre. Em Brasília pois, uma festa com sabor mineiro, pois os conterrâneos foram dar seu abraço a Danilo Gomes, inclusive o poeta, ensaísta e crítico literário Anderson Braga Horta (de Carangola), vencedor do Prêmio Jabuti.
Autor de muitos livros, o novo acadêmico publicou, em 2017, “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens”. Considerado por Edmilson Caminha “Príncipe da Crônica”, dele afirmou: “A despretensão e o frescor do texto de Danilo Gomes, que o inscrevem na mais relevante linhagem da crônica brasileira, junte-se o interesse histórico com que se diferencia da maioria dos colegas, não fosse ele natural de Mariana, a primeira cidade de Minas, cheia de tradições e de memória, onde o passado é de tal maneira vivo que se faz um eterno presente”.
Merecedor de versos amigos do itabirano Drummond, Danilo Gomes frequenta a Toca do Chope, em Brasília, cujo proprietário, Claude Capdeville, oferece pastel de angu, procedente de sua terra natal, Viçosa, produzido com o melhor fubá de milho das alterosas.


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Por Manoel Hygino - 13/11/2017 07:19:29
A saga dos Klabin-Lafer

Manoel Hygino

Ronaldo Costa Couto não para. Depois de escrever biografias de personalidades da vida brasileira contemporânea, como de Matarazzo, Juscelino e Tancredo, apresenta agora “A saga da família Klabin-Lafer” (Charmon Editora), muito mais do que sugeriria o título. Se bem que o autor define a sua narrativa como uma saga, deixa bem claro que se trata de algo além do convencional.
Ronaldo, cuja experiência com a pesquisa e a história já se tornou amplamente reconhecida, consegue vencer, mais lima vez, o desafio identificado por Rosa: “Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas passadas”. Confirma-se, ademais, o conceito de Leso Lafer na apresentação: “é um historiador que no exercício de seu ofício combina a seriedade da esquina aos dotes de escritor com estilo próprio”. Para seu projeto, Ronaldo mergulhou no mundo da família Klabin-Lafer, com a ousadia do primeiro do clã a imigrar para o Brasil, o judeu lituano Maurício Freeman Klabin, num tempo de certa insegurança, mas também de boas perspectivas, quando se instalara a República viera sozinho de Londres, sofrendo e arriscando a saúde e a vida na terceira classe de precário e assustador navio de imigrantes.
Com 29 anos, solteiro, possuía pouco de roupa e vinte quilos de bom tabaco. Não falava o português nem os dialetos italianos dominantes. Não conhecia pessoa alguma. Ao final, fizera outra personagem central da história: chegou, viu e venceu. Não foi fácil, contudo, e a missão de Ronaldo foi exatamente contar tudo, sem bajulação a uma família que é um dos esteios da economia brasileira. Desde o lançamento da pedra fundamental da fábrica do futuro conglomerado industrial, no lugar denominado Harmonia, na Fazenda Monte Alegre, no Paraná, durante o Estado Novo, até agora, há mais um tempo
muito extenso, mas para construir um império, que constitui neste segundo decênio, quase no ocaso, do século XXI.
O próprio autor descreve: uma das cinco empresas familiares brasileiras de expressão nacional criadas no século 19 e que chegaram a nossos dias. Opera 19 importantes unidades industriais em oito estados e uma na Argentina, é a maior produtora e exportadora de papéis do Brasil, outra em setenta países. É referência internacional em práticas ambientais e desenvolvimento sustentável, possuindo quase meio milhão de hectares de floresta nativa e plantações de alta produtividade, a ambientalmente certificadas, formando maior mancha verde do Sul do Brasil, observável do espaço, por satélite.
Obra de Ronaldo, da Academia Mineira de Letras, não é um relatório administrativo ou um simples conto de uma epopeia de judeus da Lituânia que se transferiu à maior nação do hemisfério em momento de incertezas. Há entrevistas e a descrição de episódios muito preciosos. Ele inclui o caso daquele judeu bilionário, líder de poderoso conglomerado empresarial familiar, que – caminhando num oásis – tropeçou numa lâmpada maravilhosa. Pegou-a, esfregou-a, saiu uma fumaça azul se ouviu o gênio: “Obrigado por me libertar. Faça um pedido e será atendido”. A pergunta: “Como preservar minhas empresas e fortuna”. A resposta foi imediata: “Fuja de negócios ruins e de brigas de família”.


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Por Manoel Hygino - 11/11/2017 07:36:34
Atentado em Nova York

Manoel Hygino

De uma hora para outra, um indivíduo aluga uma caminhonete na parte baixa de Manhattan, invade uma ciclovia na contramão, mata oito pessoas e deixa mais de uma dezena de feridos, que aproveitavam o tempo bom no dia do Halloween, tão caro aos americanos. Vai gente de toda a ilha, mesmo de longe, para assistir ao alegre festejo.
O autor da cruel façanha foi Syfullo Habibullaevic Saipov, de 28 anos, que se programou para o maior atentado terrorista em Nova York desde as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Dele, disse o governador do Estado, Andrew Cuomo: “é um depravado, covarde e estava associado ao Estado Islâmico”.
Curioso como acontecem os fatos: ele chegou aos Estados Unidos, em 2001, num sorteio para quem deseja ali ingressar, morou em Ohio, é casado e tem três filhos. Possuía dois endereços – na Flórida e em Nova Jersey, pegadinha a Nova York. Conseguiu visto para residência, trabalhava como motorista de Uber, nunca fora objeto de investigação ou suspeita.
Imediatamente detido, com um tiro na perna ou algo assim, levado a hospital, o terrorista confessou que faria tudo de novo se oportunidade surgisse. Teria, imediatamente após o gesto criminoso, gritado em árabe “Alá é Deus”, como se ouve em velhos filmes de Hollywood rodados no deserto.
John J. Miller, vice-comissário de Polícia de Nova York, observou: “Ele parece ter seguido quase exatamente, de forma precisa, as instruções que o Estado Islâmico colocou em seus canais de mídias sociais sobre como realizar tal ataque”. Isto é: procedeu de acordo com o figurino do Estado Islâmico, que sequer é propriamente estado, nem muito rigorosamente obediente aos ensinamentos de Maomé, o profeta.
Entre os objetos resgatados no local da tragédia, um bilhete em árabe em que Saipov exortava os simpatizantes a manterem acesas as chamas dos objetivos do EI.
O que foi feito não está por fazer, diz-se lá em minha terra, de gente batuta, que conhece a vida, percalços e alegrias. Outro aspecto que desperta a atenção é que, depois de radicar-se no grande país do Norte, bem instalado, o emigrado se tornou adepto do Estado Islâmico, em nome do qual teria agido.
Trump, em sequência à tragédia, decidiu que o “Programa de Loteria de Vistos da Diversidade” deve ter fim, visando proteger “nossos cidadãos” e propôs pena de morte para o ubesque. Aliás, concedem-se 50 mil destas solicitações de todo o mundo, a cada ano, podendo o admitido levar a família, depois.
A pátria do Saipov é o Uzbequistão, uma das repúblicas componentes da ex-URSS, instalada em 1924, em terras anteriormente inclusas do Turquistão, Bocara e Corezim, com partes de outras regiões. A capital é Tahkent, de que tampouco eu ouvira falar. Mas sai gente de lá para matar em outros países.
Entretanto, ignoraram-se, com o atentado, muitos apelos, inclusive o da prece árabe que assim começa: “Meu Deus, não consintas que eu seja um carrasco que degola ovelhas, nem uma ovelha nas mãos de carrascos. Meu Deus, faze-me sentir que o perdão é manifestação de força, e a vingança, uma prova de fraqueza”.
O conselho, contudo, foi ignorado também por Davin P. Kelley, um texano das proximidades de San Antonio, cidade mais populosa do Estado. No dia 5, ele matou a tiros 27 pessoas e deixou outras 24 feridas, durante culto num templo batista! E não era um fanático do EI?


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Por Manoel Hygino - 10/11/2017 11:06:05
Cinco séculos de Lutero

Manoel Hygino

As televisões concederam amplos espaços em sua programação em todo o mundo, no mês passado, aos 500 anos de Martinho Lutero, nascido numa aldeia da saxônia em 1483, e a sua tremenda campanha contra a pregação de indulgências. Ordenada esta pelo papa Leão X, visava o pontífice o levantamento de fundos para concluir a Basílica de São Pedro, em Roma. O pensamento de Lutero, com 95 teses, foi afixado à porta da igreja do Castelo de Wittenberg.
Não era só a questão das indulgências, vendidas a bom preço, porque outros motivos levaram Lutero à tomada de posições, que lhe valeram a excomunhão. Esta se fazia acompanhar da acusação de heresia perante os tribunais da Santa Sé, gerando uma imensa polêmica.
Atravessava-se um momento extremamente delicado para a Igreja Católica, quando o sacerdote agostiniano ainda encontrou tempo para iniciar a tradução da Bíblia para o alemão, a primeira feita diretamente dos originais. Completou-se o trabalho com a publicação dos apócrifos do Velho Testamento em 1534, resultando num monumento literário com o qual se fixou o próprio idioma germânico.
Lutero entrara na luta disposto, em 1524 despiu definitivamente o hábito e, no ano seguinte, casou com a ex-freira Catarina de Bora, devotando-se a suas ideias e com o pouco dinheiro, muitas vezes chegando à inteira pobreza.
Referimo-nos a Leão X, que esteve na cadeira de Pedro de 1513 a 1521. Eamon Duffy, em “Santos e Pecadores”, amplamente elogiada a obra em todos os continentes, conta quem foi este pontífice. “Filho de Lorenzo, o Magnífico de Florença, foi ordenado clérigo aos 7 anos e nomeado cardeal aos 13”. Ao morrer, deixou a Igreja dividida e o papado à beira da bancarrota, sendo os pastores universais da igreja rebaixados a meros políticos italianos. É o lado sombrio dos papas do Renascimento, obrigando a tarefa grandiosa de reconstrução que o papado se viu obrigado a empreender. Os pontífices do fim do século tiveram de reinventar Roma. Missão gigantesca que a igreja cumpriu religiosamente.
Lutero foi o homem do povo, franco e violento, esquecido de si pela contemplação de um ideal. Preocupava-se e esquadrinhou a Bíblia inteira. Era, enfim, diferente de Erasmo, de Roterdã. Na época, apareceu um chiste atribuído ao próprio Erasmo. Este esclareceu: “Erasmo pôs o ovo, mas Lutero chocou-o”, observando: “Sim, mas o ovo era de galinha, e afinal saiu um galo de combate”.
Geoffrey Blainey, em “Uma breve história do Cristianismo” escreve: “Lutero sentia falta de alguma coisa em sua vida religiosa, e buscou ansiosamente uma resposta na Bíblia. Tornou-se quase obcecado por questões ligadas a pecado e penitência – também em relação a si quanto a outros religiosos”.
Destaca o historiador: “O tratamento dispensado pela igreja aos pecadores seguia uma fórmula: o pecador em busca do perdão confessava o pecado a um padre, que prometia absolvição, desde que cumprida a pena apropriada. Talvez o padre recomendasse orações, a prática de uma boa ação ou o pagamento em dinheiro. Esperava-se que o pecador, humilde e arrependido, cumprisse o recomendado, mas isso era difícil de constatar, e muitas vezes caía no esquecimento”.Chegou, assim, à confortadora conclusão de que a chave da salvação não estava nas boas ações, em uma vida virtuosa, nem na prática, mas no relacionamento do indivíduo com Deus”.


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Por Manoel Hygino - 8/11/2017 12:00:19
Mariana está incólume

Manoel Hygino

Quem recorre aos jornais para atualizar-se ou ouve rádio e vê televisão, sabe da interminável tragédia que desabou sobre o subdistrito de Bento Rodrigues, no município de Mariana, há exatamente dois anos. Foi muito além dos dezenove mortos, do caos na localidade e tudo o que aconteceu e ainda acontece de ruim até a foz do rio Doce, quando suas águas se encontram com o Atlântico.
O rompimento da barragem do Fundão, o maior desastre ecológico do Brasil em mais de 500 anos, passará à história tragicamente, pois haverá sempre dor e sofrimento entre os sobreviventes de novembro de 2015. “Isto é uma coisa que não vai sair nunca da memória”, disse um deles.
Mas, quem não conhece o Brasil, quem vier do exterior e se programar para uma visita de passeio ou de estudos pelo circuito histórico poderá cortar Mariana de seu roteiro, ao saber da catástrofe. Entanto, mais do que nunca, a primeira vila, cidade e capital de Minas, precisa do visitante, de sua presença, de seu apoio.
Com o tsunami de lama sobre Bento Rodrigues, a sede do município se esvaziou, seu movimento comercial decaiu, os bares, restaurantes, hotéis e hospedarias estagnaram. Os artesãos se viram na contingência de reduzir a produção, as próprias cerimônias religiosas foram prejudicadas pela diminuição de fiéis procedentes de todo o Brasil, até para deleitar-se com o som prodigioso de seu histórico órgão.
É imprescindível, todavia, que se proclame que Mariana está incólume, resiste e existe, espera. Sua tradição, sua cultura, a cidade e sua gente estão além do tempo e das desastrosas consequências das construções humanas. Ali, em cada canto, há algo valiosíssimo a apreciar, contos que vêm da época de Luís Vieira da Silva, presbítero secular, lente de filosofia e grande orador, ou de Cláudio Manoel da Costa, morto pelos colonizadores na Casa dos Contos, em Ouro Preto, nos dias da Inconfidência.
Indo lá, poder-se-á evocar as mais dadivosas lavras, que se povoaram rapidamente com os milhares de aventureiros que acorriam de todas as partes do Brasil e do Reino, movidos – como registra Frièiro – pela ânsia de enriquecer depressa e regressar às terras de origem. Ouro Preto e o Ribeirão do Carmo ostentam as riquezas arquitetônicas de seus templos, de belíssimos museus. De Mariana foi arcebispo dom Oscar de Oliveira, que instalou uma série de empreendimentos para preservar o passado, como os mausoléus dos cemitérios, que guardam corpos daqueles que a nação conhece pelo nome e reverencia.
A antiga Vila Rica fica bem perto, mas é outra e tem identidade própria. Contudo, Mariana é Mariana e merece respeito quando se lembra que foi confirmada como Vila do Carmo ou Ribeirão do Carmo, em 1712, com jurisdição sobre todo o território a Sudeste da Capitania. Tornou-se diocese dos “padres da Inconfidência”, como anota J. D. Vital.
Ali se abrigavam no movimento libertador, além do cônego Luís Vieira da Silva, os padres Manuel Rodrigues da Costa, José da Silva de Oliveira Rolim, José Lopes de Oliveira e Carlos Correia de Toledo e Melo, todos denunciados por Joaquim Silvério dos Reis e degredados para prisão em Portugal.


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Por Manoel Hygino - 7/11/2017 06:27:42
O envelhecimento, em qualquer lugar

Manoel Hygino

Suficientemente anunciado pela mídia de Belo Horizonte, ocorre hoje o lançamento do livro “Sou 60”, pela Libretteria Editora, durante o bem recebido “Sempre um Papo”. Roberta Zampetti comparece ao auditório da Cemig, na Alvarenga Peixoto, para o ato, concomitante com debate sobre a matéria.
Tudo no melhor dos conformes, em consonância com a popularidade da autora, o prestígio do programa e a expectativa. Sintetizando, a capa diz: “Diário de uma jornalista em busca de repostas sobre o envelhecimento e a vida”. E tudo, realmente, deu certo.
O assunto, tão importante em um país no qual a população aumenta incessantemente de idade, foi longa e agradavelmente exposto na publicação. A autora não quis falar de cátedra, simplesmente dissertar, e o fez bem, sobre um problema que muito nos afeta e tanto exige dos governantes, mas igualmente desta gente, que diminui em número de filhos mas não em número de anos vividos.
Vê-se, pelo dito e pelo que faltará dizer, que é tema de interesse geral, complexo talvez, mas do qual se desvencilha com naturalidade e facilidade a estreante escritora. No prefácio, o médico Alexandre Kalache adverte: “Acho que o mundo, daqui para frente, vai ser muito melhor exatamente porque teremos muito mais pessoas longevas (....). Estamos todos envelhecendo: quem tem 5, 15,40 anos também está envelhecendo. (...) Está demorando um pouco para nos conscientizarmos disso porque temos quase uma obsessão pela juventude, de nos mantermos jovens, de fazer cirurgia plástica, de esticar, de malhar, mas acho que daqui a pouco vamos cair na real de que envelhecer é bom para a sociedade”.
Roberta desperta o leitor para essa realidade, recorrendo a personagens e fatos que marcam sua carreira como jornalista de televisão, em contato diário com os que sofrem com as vicissitudes ou se contentam com as alegrias de viver. Não se restringe, porém, a referir-se a numerosos casos para referendar pontos de vista e experiências.
Recorda-se, por exemplo, uma creche existente em Seattle, nos Estados Unidos, que funciona em um asilo. Juntam-se as duas coisas: a energia das crianças e a vivência dos idosos. Estes recebem carinho e são estimulados, intelectual e fisicamente, pelos exercícios dos pequenos. Algo que tem dado certo e que não sei se existe no Brasil.
A autora observa que projetos assim (e cita vários outros) vêm ganhando corpo de várias formas, de modo que o horizonte é de propiciar o surgimento de novas relações afetivas e histórias para contar.
O livro merece mais do que um lugar em biblioteca, porque será companheiro nas inseguras horas cotidianas. Não esqueceria outro comentário, este do nosso Hélio Pellegrino: “A coisa mais importante do mundo é a possibilidade ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor”. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para mim a graça de existir.
Observação pessoal e final: talvez o título mais adequado fosse: “Estou 60”, como disse alhures o ex-ministro da Educação, membro da ABL, Eduardo Portella. Porque a vida continua.


82860
Por Manoel Hygino - 7/11/2017 06:26:23
A hora da Previdência

Manoel Hygino

Depois de vencer a guerra da segunda denúncia da Procuradoria–Geral da República contra o presidente Temer e de se superar o episódio da doença na próstata, concentram-se os esforços na aprovação de medidas de especial significado para a economia. Entre elas, a reforma da Previdência, que avulta de interesse para todos os brasileiros, por motivos óbvios.
Para a área econômica, sem aprovação da PEC da Previdência, há longos meses em exame pelo Legislativo, o Brasil, que já vive em extremas dificuldades, será o caos. Ou se aprova a Emenda Constitucional nº 287, de 2016, ou a nação se afunda de vez.
Se há fumaça, há fogo e o incêndio tem de ser debelado antes que as chamas consumam o que resta. Para o ministro Henrique Meireles, que enfrenta respeitosa oposição, urge resolver a questão antes que tarde.
No entanto, não é esta exatamente a posição do senador Hélio José (PROS-DF), integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito da Previdência que investiga as contas da Seguridade Social. Em relatório de 253 páginas, ele declara peremptoriamente: É possível afirmar com convicção, que inexiste déficit da Previdência Social ou da Seguridade Social”.
Ora, eis o momento de se pôr os pingos nos ‘is’. Onde está a verdade? Quem tem razão e quais os argumentos em favor a PEC que devem prevalecer? O parlamentar do Distrito Federal é muito objetivo: “O grande argumento do governo em sua empreitada de mudança da Previdência se fundamenta na existência de um déficit perene e explosivo. Trata-se de uma afirmativa, que – apesar de repisada pelo governo – não é respaldada por grande parte dos estudiosos”.
Segundo o parlamentar, o orçamento da Previdência foi deturpado à época de FHC, que teria ferido de morte a visão sistêmica e integrada da Seguridade Social, retirando a possibilidade de “compensação financeira” entre os três pilares principais: a Saúde, a Previdência e a Assistência Social.
A acusação: “Houve efetiva desintegração das três áreas. Saúde, Previdência e Assistência Social ganharam uma perversa autonomia tanto financeira quanto de gestão. Entendemos perversa porquanto tal autonomia provocou desmantelamento das áreas, em detrimento de uma ação coordenada e sistêmica”.
Mais grave: “O chamado Orçamento da Seguridade Social, previsto na Carta Maior, passou a ser apenas uma peça demonstrativa sem qualquer utilidade estratégica”.
No entanto, bem mais incisivo e direto é o relatório. Afirma que a dívida ativa das empresas brasileiras de grande porte e que deixaram de contribuir com a Previdência Social é precisa. Elas continuam beneficiadas pelas políticas governamentais. Cita a notória JBS, com uma dívida de R$ 2,4 bilhões com a Seguridade.
Conclui: “Está faltando cobrar dos devedores e não querer prejudicar trabalhadores e aposentados, mais uma vez”. Diante do relatório em questão e da versão do Executivo, o que pensarão o cidadão e o contribuinte? Ou a CPI do Legislativo é um papo furado e inválida?


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Por Manoel Hygino - 3/11/2017 08:47:41
A Constituição não tem culpa

Manoel Hygino

Pesquisa em 18 países da América Latina revelou que os brasileiros são os mais insatisfeitos com a democracia. Somente 13% estão “muito satisfeitos” e “satisfeitos”, pelo levantamento anual da Latinobarômetro. Significa que o índice ficou abaixo da média da região, que é de 30%. Os mais contentes com sua democracia são Uruguai, Nicarágua, Equador, Costa Rica e Argentina. Segundo a socióloga chilena Marta Lagos, diretora da ONG que fez o levantamento, “o desencanto dos brasileiros com a democracia é antigo, mas a avaliação está especialmente pior agora”.
O brasileiro está atento mais do que nunca ao que acontece, atualizado, em termos gerais, aos fatos, com ouvidos ligados às rádios e os assistentes de televisão com olhos grudados nas telas. Mesmo não entendendo tudo, nem poderia ser de outra maneira, o cidadão forma opinião e discute, curioso de saber porque a Constituição é tão objeto das discussões.
Patrus Ananias, deputado federal, ex-ministro, mineiro de Bocaiúva, professor da PUC-MG, descreve: “a Constituição de 1988 abre perspectivas ao processo de emancipação econômica e social do Brasil. Suas boas diretrizes encontraram guarida na política externa articulada com as políticas sociais”.
Almir Pazzianotto Pinto, advogado, ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho, a respeito se posicionou, em 2014, em artigo no “Correio Brasiliense”: “estamos na oitava Constituição – a sétima do período republicano. O número elevado de emendas revela que a redação original deixou a desejar. Somam 83 as alterações introduzidas desde 1993. Os membros da Assembleia Nacional Constituinte se decidiram por texto analítico, minucioso, prolixo, recheado de dispositivos dependentes de regulamentação. Recusaram o sucinto modelo americano, cuja lei fundamental data da declaração da Independência, em 1787”.
Observa Pazzianoto ainda que, submetida duramente à prova, a Constituição Coragem, como a denominou Ulysses Guimarães, encontrou forças para resistir e se consolidar, o que não conseguiram as antecessoras de 1891, 1934, 1946 e 1967, “abatidas após acidentada existência”.
Para Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu, ex-presidente do Supremo Tribunal federal, “somos o único caso de democracia no mundo em que condenados por corrupção legislam contra os juízes que os condenaram. Somos o único caso de democracia no mundo em que as decisões do STF podem ser modificadas por condenados. Somos a única democracia do mundo em que os deputados, após condenados, assumem cargos e enfrentam o Judiciário”.
Para o advogado paulista, porém, a situação não é tão grave: “A imprensa é livre, os Três Poderes operam em harmonia e com independência, não há preso político, inexistem restrições ao direito de ir e vir, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer senão em virtude da lei, respeita-se o exercício da greve, os sindicatos estão a salvo de intervenção governamental. Em resumo, o Brasil se encontra sob o estado Democrático de Direito”. Recorda que Norberto Bobbio, durante uma das habituais crises políticas na Itália, escreveu artigo com o título: “A Constituição não tem culpa”. O mesmo, ou quase, se poderia dizer aqui.


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Por Manoel Hygino - 2/11/2017 07:57:02
A casa lá de cima

Manoel Hygino

Dois de novembro, Dia de Finados, que a Igreja Católica destina à oração pelas almas dos mortos. Nem tudo é absolutamente triste e São Francisco de Assis chamava o desenlace último de “irmão”, como ao fogo e ao lobo.

Em dia de ir aos cemitérios e levar flores aos túmulos dos que nos precederam, nasceu Abílio Machado Filho, homem de bem, um cavalheiro, culto e dedicado às melhores causas e merece toda homenagem. Um dos mais próximos colaboradores de Milton Campos no Palácio da Liberdade, desempenhou papel semelhante ao do pai, esteio do presidente Antônio Carlos.

Ivan Lins, da Academia Brasileira de Letras, autor de obras fundamentais às letras e história, filho do ministro Edmundo Lins, presidente do Supremo Tribunal Federal na ditadura Vargas, registra que, em vez do preto ou escuro, como entre os romanos e os modernos, o luto na Idade Média era branco, símbolo da pureza, segundo São Clemente de Alexandria. Só a partir do século XIV, começou o preto nos trajos para as manifestações de dó, palavra masculina comumente em bons autores antigos.

Acrescenta na lição: “Almáfega”, ensina Viterbo, era o burel branco e grosseiro de que os nossos maiores faziam o seu dó. Não só os parentes e amigos do finado vestiam dele por todo o tempo que durava o luto, mas ainda outros quaisquer que o queriam vestir por honra do defunto, o podiam fazer. Acabado o tempo da tristeza, os testamenteiros lhes recompensavam a fineza com um estilo de Valenciana (estilo de moda francesa), ou com outro pano alegre e festival”.

Para este tempo de oração e veneração, guardei um texto de Andreia Donadon Leal. A autora, nascida em Itabira e residente em Mariana, juntou sua força poética num opúsculo, ilustrado por Bruno Grossi Begê.

“Eu e meus pais vivíamos numa casa aqui embaixo. O primeiro quarto era meu, o segundo de papai e mamãe. A casa tinha um banheiro, uma sala comprida, outro cômodo que servia de copa e cozinha, um quintal com vasos, flores coloridas e dois pés de pitanga. Mamãe me levava para a escola todas as manhãs, enquanto o sol espalhava luzes no céu. Um dia, mamãe foi levada à noite por um carro branco grandão com letras vermelhas e uma sirene que apitava sem parar. A casa ficou grande e triste. Os vasos murcharam, a grama do quintal virou mato, os pés de pitanga pararam de florescer. As duas únicas pitangas vermelhas eram os olhos do meu pai: os meus se encheram de lágrimas e no meu coração só batia saudades... Vovó, mãe do papai, veio morar aqui em casa. Agora é ela que me veste para a escola, que me dá banho, que me ensina a lição. Papai chega em casa depois do trabalho, me coloca para dormir contando estórias sobre o sol, a lua e as estrelas que precisam iluminar todos os dias aqui embaixo! Um dia papai me disse que mamãe foi morar na casa lá de cima para acender e apagar as luzes do céu e que lá em cima é tão grande, que eles precisam mais da mamãe lá do que a gente aqui embaixo... A casa lá de cima vai funcionar muito bem com a ajuda da mamãe, que sabe fazer de tudo! Então eu comecei a ajudar a vovó a cuidar da casa, do jardim, das árvores, dos vasos e dos pés de pitanga, que começaram a brotar de novo! Os olhos de papai ficaram claros, os meus pararam de chorar... Vovó me contou um dia desses que toda vez que a gente sentir saudade é para olhar para o céu, que mamãe sempre estará em casa lá de cima soprando o sol pela manhã e acendendo as estrelas à noite...”.


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Por Manoel Hygino - 1/11/2017 07:48:37
A Catalunha e seu entrevero

Manoel Hygino

O problema da Espanha com a Catalunha está longe de terminar. Vamos falar dele até porque de nossos desafios estamos cansados de escrever sem resultado prático. Tampouco representam perspectivas promissoras as longas conversas, os discursos inflamados, as acusações recíprocas, os intensos debates e os incontáveis conciliábulos em Brasília. O clima, altamente contaminado, prejudica e impede chegar-se a conclusões de maior duração beneficiando o país. E o povo sofre.
Na Europa, a declaração de independência da Catalunha, proclamada pelo seu Parlamento, acirrou os ânimos diante da atenção cuidadosa de toda a Europa, que também já enfrenta problemas demais, por todos os lados. No último sábado, 28 de outubro, o Executivo central espanhol destituiu o governo e convocou eleições para 21 de dezembro.
Como não poderia deixar de ser, Madri tratou imediatamente de nomear alguém para substituir o separatista presidente Carles Puigdemont.
Assumiu o cargo a simpática vice-presidente Soraya Siena de Santamaria, já exercendo as funções de presidência e vice-presidência da Catalunha.
Em contrapartida, o destituído presidente apelou aos cidadãos para que se oponham à intervenção de Madri, mas em todo caso foi prudente: “Nossa vontade é continuar trabalhando para cumprir os mandatos democráticos, e, ao mesmo tempo, buscar maior estabilidade e tranquilidade”.
O primeiro-ministro espanhol Rajoy, a seu turno, também foi precavido: Garantiu que as eleições do último mês do ano serão “limpas, livres e legais”. A Procuradoria da República, porém, não deixou de mexer seus pauzinhos. Anunciou uma queixa-crime contra o cinquentão Puigdemont, por “rebelião”, pela qual pode ser condenado a até 30 anos de prisão.
A situação, como se depreende e se observa pelas manifestações de rua em Barcelona e outras cidades catalãs, não é tão pacífica como se desejaria. A independência é um grande sonho da Catalunha, e a última tentativa, liderada pelo presidente Luis Companys, resultou em fracasso, em 1934.
A Catalunha, no canto Nordeste da Península Ibérica, mais do que uma região, de fato é um conjunto de regiões bem delimitado. Se a costa é de difícil acesso, tem portos importantes, em especial Barcelona e Tarragona. Quem estuda o que há por ali, percebe caracteres linguísticos e folclóricos, que revelam o sentimento autonomista.
Ao longo da história, passou dos sarracenos expulsos pelos espanhóis, para o governo de condes franceses, que se tornaram independentes da França. Trava-se, no decorrer de séculos, uma luta pela autonomia, sem êxitos mais significativos. É uma crônica complexa, que registrou inclusive o domínio do reino de Aragão. Quando o soberano espanhol Felipe IV tentou privar a Catalunha de seus direitos e privilégios, ela se revoltou sob a proteção de Luís XIII, da França. Assim a Catalunha tem sido teatro de expectativa de rebeldia. De grande significação para a vida política e econômica espanhola, é estratégica para a Europa, que dali não tira os olhos. Tem muitos motivos.


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Por Manoel Hygino - 31/10/2017 07:17:48

Trótski vira novela

Manoel Hygino

Jornais de todo o mundo publicaram, na semana passada, que a vida de Leon Trótski, controvertido personagem da Revolução Russa de 1917, foi incluída na programação da rede pública de televisão – a Pevry Kanal –, neste novembro, na Rússia. São oito episódios, tendo como título o nome de um dos líderes do movimento.
É a primeira série sobre a história da Rússia, segundo Konstantin Erns, diretor-geral do Kanal, que já negocia a veiculação internacionalmente. Brilhante orador e teórico marxista, Leon (ou Lev) Trótski atuou no mesmo nível de Lênin no período pré e revolucionário. Foi fundador do Exército Vermelho e um dos autores do primeiro plano da vitória dos bolcheviques na guerra civil russa 1918-1921. Terminou preso, exilado e assassinado no México a mando de Moscou, marcado para morrer por Stálin.
Geneton Moraes Neto, em visita a Rússia, há poucos anos, esmiuçou o homicídio, detalhes até então pouco conhecidos. Trótski projetava espalhar o comunismo por todo o planeta, mas um aventureiro, Ramón Mercader, recrutado pela polícia soviética, se armou de uma picareta e, em 30 de agosto de 1940, na casa da rua Coyacan, na Cidade do México, pôs fim ao sonho.
O assassino contou à polícia: “Fechei os olhos. Desfechei um golpe terrível na cabeça de Trótski. O grito que ele deu jamais esquecerei. Um ‘ah’ longo e sem-fim, um som que ainda ecoa em meu cérebro. Trótski ainda se levantou, correu em minha direção e mordeu minha mão. Consegui empurrá-lo. Caiu, mas se levantou de novo”.
Em Moscou, Pavel Sudoplatov, dirigente da KGB que recebera diretamente de Stálin a ordem para a Operação Trótski, ouviu por mensagem cifrada de rádio, a confirmação do sucesso. Cinquenta e seis anos depois, Sudoplatov narra com frieza o episódio, “sem arrependimentos tardios ou sentimentos vãos”. Era missão de Estado. Pavel ganhou distinções e uma casa de campo, uma dacha, mas voltou a cair em desgraça, sendo preso na Penitenciária de Vladimir, a 200 quilômetros de Moscou.
Anatóli, o filho, lutou por reabilitar o pai, acusado não pela morte de Trótski, mas por “traição ao partido”. Quando o jornalista brasileiro o ouviu, não lhe percebeu alteração no tom de voz, ao responder sem pensar duas vezes:
"É bom lembrar que, na Rússia, a tradição de assassinatos políticos sempre foi forte. Revolucionários recorrem a assassinatos políticos. Não é nada anormal. Eu diria que é uma prática típica de uma revolução”.
Indagado se não se chocara com a participação do pai no projeto, não tergiversou: “Você insiste no lado abstrato dos assassinatos políticos. Você deve saber que esse tipo de ato é preparado por gente envolvida numa guerra secreta. É a tradição de todo serviço secreto. Imagine que existe um estado de guerra entre grupos. Não há lugar para sentimentos...”
“Tomei conhecimento do assassinato de Trótski como m ato heroico, pelo qual meu pai foi condecorado, assim como Mercader. Vejo meu pai como herói. O assassinato de Trótski foi parte do processo de estabelecimento do grande papel da URSS no mundo. É o lado trágico da história da criação de uma superpotência. O ponto central era garantir o domínio de Stálin sobre o movimento comunista internacional, importante para fortalecimento da URSS”.


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Por Manoel Hygino - 30/10/2017 07:15:33
O caroço do abacate

Manoel Hygino

E ainda se diria que não há razão para pessimismo. Refiro-me ao Brasil e à minha cidade natal, que não poderia esquecer. Na principal cidade norte-mineira, o prefeito Humberto Souto declarou situação de calamidade pública, diante da longa estiagem e da redução no abastecimento de água potável. O calor continua.
A meteorologia prevê os termômetros se aproximando dos 40 graus. As altas temperaturas não desanimam os bandidos. Numa avenida central, em plena tarde, movimentado o trânsito e intensa a circulação de pedestres, dois assaltantes – evidentemente de moto – arrebanharam de seu portador um malote com cerca de 1,5 milhão em cheques e dinheiro para depósito bancário. Os revólveres são convincentes.
Nos jornais, lê-se que o Brasil tem 13 milhões de analfabetos, não reduzido o número há três anos, segundo a Unesco. Os demais dados do relatório são constrangedores.
O reservatório de hidrelétricas do país se mostram mais vazios do que em 2001, quando houve racionamento de energia. Um caminho: importar eletricidade da Argentina e Uruguai. Ainda: antecipar o início de operação da polêmica usina de Belo Monte, no distante norte brasileiro. Por que não se pensou isto antes? Confiava-se em São Pedro, que tem, todavia mais problemas a resolver. Fixar prioridades, eis a questão. O Sistema Nacional Elétrico afirma inexistir risco de desabastecimento no Brasil, mas a previsão é de que neste novembro o nível nas represas do Sudeste deve chegar a apenas 15%.
A médica Mara Narciso comenta: “soube que o leito do rio São Lamberto está seco e poeirento feito uma estrada. Lamentável! Que as novas gerações tenham interesse, dinheiro e competência para fazê-lo correr de novo. Para nossa sobrevivência. Vou publicar minha visão poética do rio da minha infância. Quem sabe sensibiliza as autoridades?”.
Mas as autoridades não se encontram. Há interesses múltiplos e díspares, os puros e os escusos. A nação se transformou em imenso salão de julgamentos, onde todos falam, argumentam e não se chega a uma conclusão digna e que interesse a sociedade.
O cidadão comum, pagador ou não de tributos, contudo, sabe que há algo de podre no reino, não o do príncipe dinamarquês Hamlet, cujo pai, o soberano, foi afastado pelo tio, que desejava o trono e a viúva.
Ele, o cidadão, sabe o que acontece, por mais que se tente tapar o sol com a peneira, como dizia Aureliano Chaves. Todos sabem, enfim, que ovo de galinha não é caroço de abacate. Quase impossível, porém, é provar.
De longe, o papa Francisco vê os acontecimentos daqui bem de perto. No último dia 21, ele advertiu sobre a necessidade da união do clero do Brasil diante da “escandalosa corrupção”. “Nesse momento difícil de sua história nacional, quando tantas pessoas parecem ter perdido a esperança em um futuro pelos enormes problemas sociais e por uma escandalosa corrupção, o Brasil precisa que haja sinais de esperança”, disse o papa.
Para Francisco, os brasileiros necessitam de um “clero unido, fraterno e solidário” diante da situação do país. “Os sacerdotes precisam enfrentar lado a lado os obstáculos, sem cair nas tentações do protagonismo ou de fazer carreira”, afirmou o pontífice. “Tenho certeza de que o Brasil superará sua crise e confio que vocês atuarão nisso como protagonista”, disse o pontífice.


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Por Manoel Hygino - 28/10/2017 08:22:43
1917–2017: Um século de experiência

Manoel Hygino

Sem praticamente ocupar maiores espaços nos meios de comunicação, transcorre o centenário da Revolução Russa em 2017, cantada em verso e prosa durante décadas. Os tempos dos comunistas mais acesos ou dos sonhadores arrefeceram.
John Reed, o jornalista norte-americano de Oregon, que fez a cobertura dos acontecimentos, transformou-a em livro – “10 dias que abalaram o mundo”. Escreveu: “Este livro é um pedaço da História, da História tal como eu a vi. Não pretendo ser senão um relato detalhado da Revolução de Outubro, isto é, daqueles dias em que os bolcheviques, à frente dos operários e soldados da Rússia, apoderaram-se do poder e o puseram nas mãos dos soviets”.
Em 29 de novembro, na Escola Imperial de Direito, na rua Fontanka, nº 6, reuniu-se, em São Petersburgo, o Comitê Executivo dos Soviets de Camponeses. Chegavam várias adesões e, finalmente, delegações procedentes do Palácio Smolni, sede do Parlamento. À noite, com estrelas, luz dos postes refletida na neve, ouviu-se a banda do Regimento Paulo, em uniforme de campanha, tocando a Marselhesa. Formou-se uma grande passeata a percorrer a cidade, festiva e estrepitosamente.
No Smolni, reuniam-se o Comitê Central Executivo dos Soviets e todo o Soviete da capital. Na sala, camponeses entravam sob aplausos. Tudo descrito pormenorizadamente por Reed. Maria Spiridonova subiu à tribuna, ela a mulher mais poderosa e amada da Rússia. Discursou: “Os operários da Rússia têm diante de si perspectivas históricas, até agora desconhecidas. Todos os movimentos revolucionários do proletariado, até o presente, foram derrotados. O movimento atual é internacional, eis porque é invencível. No mundo inteiro, não há força capaz de extinguir este incêndio revolucionário. O velho mundo desmorona-se e um novo mundo nasce”.
Um século depois, em meio ao silêncio dos defensores de ideias envelhecidas e da pragmática, a União Soviética não mais existe. Pôde, assim, lançar-se “O fim do homem soviético”, de Svetlana Aleksievith, Nobel de Literatura de 2015, publicado pela Companhia das Letras. É um retrato do povo soviético, “do povo russo e dos outros que compunham a União Soviética, herdeiro do grande império dos tzares”, segundo Mauro de Albuquerque Maia. Registra ele que a autora enfatiza que “a história analisa fatos e não emoções”. Cabe ao escritor, ao artista, perscrutar o ser humano e a sua liberdade.
A propósito lembro Masha Gessen, autora de “Putin: A face oculta do novo czar”. “Como a maioria dos cidadãos soviéticos de sua geração, Putin nunca foi um idealista político. Os seus pais podem ter acreditado ou não num futuro comunista para todo o mundo, no triunfo final da justiça ou para o proletariado ou qualquer outro desses clichês ideológicos que já estavam destacados enquanto ele crescia. A sua relação com esses ideais foi algo que nunca lhe passou pela cabeça”.
Putin substituiu a crença no comunismo, que já não parecia mais plausível ou sequer possível pela fé nas instituições. A sua lealdade era para com a KGB e o império a que ela servia e que devia proteger: a Rússia.


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Por Manoel Hygino - 27/10/2017 07:30:36
ONU: Algodão entre cristais

Manoel Hygino

Pareceu-me que não se deu a devida atenção à notícia sobre a situação que enfrenta a ONU neste final de ano. Fazem-se críticas à Organização, o que é natural, porque nada é perfeito e a entidade poderia evidentemente ser mais atuante na consumação de seus objetivos.
Na semana passada, Antonio Guterres, seu secretário-geral, se reuniu com o presidente americano, Donald Trump, na Casa Branca, para discutir a reforma das Nações Unidas e outros temas “de preocupação mútua”. Foi o primeiro encontro formal entre o secretário-geral da ONU e o titular da Casa Branca. É um momento delicado, quando eclodem focos de guerra e atritos graves em várias regiões. Entre os problemas examinados, a recusa de Trump em certificar o acordo nuclear de 2015 com o Irã. O que se acertou, porém, depende do Congresso dos Estados Unidos.
Mas não é só isso. Trump – que fala pelos cotovelos – ameaça cortar a contribuição dos EUA à Organização. E, apenas para registrar, lembro que Tio Sam é o maior contribuinte financeiro da ONU, com 22% de seu orçamento básico de U$ 5,4 bilhões, além de oferecer mais US$ 7 bilhões para manutenção da paz. Paz custa caro portanto, e nunca é completa. Ademais, os Estados Unidos já estão retirando seu apoio financeiro à Unesco, o que constitui mais do que uma terrível frustração às áreas em que ela atua.
A grande e inquietante pergunta: vamos repetir a Liga das Nações? Por mais frágil que seja a atuação da ONU desde sua criação, no pós-II Grande Guerra, ela tem prestado inestimáveis e altíssimos serviços ao mundo e à humanidade. Evoco as observações do ex-ministro Vasco Leitão da Cruz, um dos mais credenciados diplomatas do Itamaraty: “O papel da Liga das Nações era o mesmo da ONU – de algodão entre cristais”.
Vasco criticou a Liga: “Pretendia resolver tudo na falação, mas fracassou, porque faltou o que falta sempre: a vontade dos países fortes”. Quando a Liga das Nações agonizava, perguntava-se se o ocaso não seria o fracasso do idealismo da diplomacia, em especial da diplomacia multilateral. Para o ex-chanceler brasileiro, a posição da Liga era de paz a qualquer preço. Mas há preços que não se pode pagar. A não ser que se queira fazer como Bertrand Russel, que dizia que é melhor ficar vermelho do que morto”.
Esta é uma hora propicia à análise e debate do problema, que afeta o mundo quando pairam preocupações até sobre um conflito nuclear. A ONU não correspondeu inteiramente à expectativa que em torno dela se formulara, depois da Liga das Nações, mas é fundamental.
Há muito a discutir ainda. Para o diplomata brasileiro, a ONU, por exemplo, tem no seu Conselho de Segurança o Conselho de Assistência Militar, que jamais funcionou a contento. “Era para ser feito um exército, formar uma armada internacional e diminuir as forças nacionais. Há também o problema da aceitação do princípio do que é agressão. Cada país pensa que tem o direito de trazer sua interpretação do que é agressão”.
A Liga das Nações não pôde, enfim, atender plenamente os seus propósitos originais. Tampouco a Organização das Nações Unidas. Mas, mais do que sempre, a entidade precisa é de apoio e dinheiro. Não se lhe pode faltar.


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Por Manoel Hygino - 26/10/2017 07:30:59
Redescoberta da América

Manoel Hygino

Esforcei-me por encontrar alguma referência sobre o descobrimento da América em outubro, já faz tempo. Em vão. Ou o continente não foi descoberto ou pecamos neste décimo mês de 2017 por omissão. Comentou-se muito, imensidão de laudas de papel foi consumida, horas e horas de veiculação eletrônica, mas se ficou mesmo no Outubro Rosa para conscientizar sobre o combate ao câncer, às festividades, no Brasil, em louvor e veneração a Nossa Senhora Aparecida, padroeira da nação e realmente venerada.
De América, nada. No entanto, este grande pedaço do mundo existe, é o segundo continente em extensão, com 42 milhões de quilômetros quadrados, e forma duas massas de terra: Américas do Sul e do Norte – unidas por uma estreita faixa, a América Central. Li, não sei onde ou quando, que, na época das grandes navegações, os europeus deram à região o nome de Novo Mundo e que o continente foi registrado cartograficamente pela primeira vez em 1518, quando Gerardus Mercador publicou sua versão do mapa-múndi.
A palavra América é usada para classificar as terras à Oeste da Europa, encontradas em 1492 pelo navegador genovês, a serviço da Espanha, Cristóvão Colombo. Mas o nome homenageia outro navegador, o italiano Américo Vespúcio, cujas primeiras expedições à região datam de 1507.
Observa-se como varia a História ao registrar os fatos, datas e nomes, seguindo a vocação humana de julgamentos. Quando desembarcou nestas bandas, Colombo conseguira convencer o monarca espanhol de que chegaria às Índias pelo Oceano Atlântico. Assim, em 12 de outubro, aportou na ilha de San Salvador, descobrindo o novo continente, em região chamada de Quisqueya pelos índios nativos. Começou-se a estabelecer a colônia.
Sei que Colombo por ali esteve e, ao chegar, em 1492, chamou a ilha encontrada de Hispaniola, que abriga o Haiti – que tristeza – e San Domingos, hoje a República Dominicana, separadas pelo rio Ozama, que nada tem a ver com Bin Laden.
Santo Domingo de Gusmán, capital nacional da República Dominicana, denominada Ciudad Tujillo, na ditadura do general Rafael Trujillo, em 1936, é uma cidade bonita, de gente amável, que fui conhecer, quando o Hotel La Jaragua era o fino: hoje só se fala em Punta Cana.
A Catedral de Santo Domingo, no mais puro estilo do Renascimento espanhol, teve construção iniciada em 1512 e é uma joia, nela estando depositados (?) os restos mortais de Colombo, mas não se esquecerá que há a sua universidade, fundada em 1558, a mais antiga da América. Tem-se o que se conhecer como a Cidade Universitária, belos parques, avenidas amplas como a do passeio Presidente Bellini, na orla marítima, numerosos templos e velhos conventos, como o das Mercês. Nem tenho ouvido falar mais na praia Boca Chica, centro turístico antes muito frequentado.
A despeito da omissão nas comemorações do calendário do presente exercício (não é assim que consta de relatórios financeiros?), a América foi descoberta, com tudo de bom e mau que ela possa conter. Mario Vargas Llosa também encontrou o continente com atraso: “descobri a América Latina em Paris em 1960”. Seu personagem Urania, de “A festa do bode”, redescobre Santo Domingo de Gusmán, em habitado por um belo povo. “Povo invejável, pois, apesar dos séculos de cataclismos políticos, sociais e econômicos, nunca perdeu a vontade de viver”. Sim, a América há.


82824
Por Manoel Hygino - 25/10/2017 07:32:12
A tragédia nos colégios

Manoel Hygino

As notícias percorreram o mundo, depois de causar temor entre populações das pequenas cidades do país. Repete-se a morte coletiva de crianças e adolescentes no Brasil, a maior nação católica do planeta. A tradição de cordialidade brasileira vai-se perdendo, a cada hora e minuto, com informações de crimes bárbaros, agora os coletivos contra os de tenra idade.
Houve o episódio num bairro carioca. Um adolescente, ex-aluno do educandário, armou-se, de regresso à casa de ensino eliminou a tiros e feriu vários estudantes. Mais recentemente, um indivíduo, vigia em creche no interiorzão mineiro, ateia-se fogo e causa a morte de mais de dez pessoas, entre as quais nove crianças. No fim de semana, na mesma localidade, nova ameaça, felizmente frustrada.
Enquanto as reportagens põem a nu os maus-tratos, agressões, até a morte de crianças, em Goiânia, um menino de 14 anos, filho de policiais militares, usando suas armas tirou a vida de dois colegas e feriu quatro outros. O cenário, tornado lúgubre, foi em uma sala do oitavo ano de ensino fundamental particular.
A explicação: o matador sofria troça de colegas e se preparou cuidadosamente para a vingança cruel, inspirada possivelmente no massacre de Columbine, nos Estados Unidos, e na de Realengo, no Rio de Janeiro, que fez uma dúzia de vítimas fatais.
Agora, fazer o quê? O mais triste é a convicção de que a sucessão de tragédias entre aqueles que se preparam para ingressar na vida poderá não estar no fim. Estamos cercados pela incompreensão e por toda espécie de armas, disponíveis entre os que enfrentam os primeiros tempos de existência?
O governo goiano decretou luto oficial de três dias, em solidariedade aos envolvidos no “lamentável acontecimento”. No entanto, o âmbito do fenômeno, pelo que se constata, não é restrito, e – paradoxalmente – o episódio tenebroso de Goiânia se deu exatamente no Dia Mundial de Combate ao Bullying.
Segundo a Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, um em cada três adolescentes de 13 a 15 anos é vítima de tratamento indevido nos colégios. Os registros valem como uma advertência à consciência dos povos, dos governos, das famílias, dos religiosos, dos educadores, pais e filhos. Enfim, somos todos um tanto responsáveis pela dor que se amplia.
Aliás, a megaoperação contra a pedofilia da última sexta-feira, em 24 estados do país, e no Distrito Federal, revela – de modo inequívoco – que há também uma rede supranacional, envolvida em abusos de crianças e adolescentes, alimentada pela divulgação fácil de imagens dos crimes pela internet.
Prova-se que crianças e famílias são ou serão vítimas. Há muitos jeitos e maneiras de fazer o mal aos que recém-ingressaram na vida ou dão passos na infância e adolescência. Os criminosos presos agora foram 108, mas centenas permanecem soltos certamente, neste país grande até em crueldade.
Em Nazaré, a que voltara, há muitíssimos anos, Jesus recomendou: “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, porque delas é o Reino de Deus. Em verdade, vos digo que qualquer que não receber o Reino de Deus como criança, de maneira nenhuma, nele entrará”.


82813
Por Manoel Hygino - 23/10/2017 07:32:36
Vozes de Minas

Manoel Hygino

Na sala ampla do provedor presidente da Santa Casa de Belo Horizonte, Saulo Coelho, contemplo quadros a óleo e fotos de lugares e personagens da história de Minas. O ex-deputado federal é apaixonado por política. Nem poderia ser de outro modo, se não se soubesse que nasceu em uma família de prestigiosas personalidades do Estado. Entre eles (e são muitos), seu pai deputado federal e governador, Ozanam Coelho; e o avô, secretário de Estado e senador, Levindo Coelho. Citar nomes e cargos exigiria muito espaço.
O que desejo focalizar é o rico acervo da sala, em que se destacam fotos de gente como Benedito Valadares, Alkmim e Juscelino, enfim pessoas que todos conheceram e já nas páginas da história. Num belo quadro, cujo autor não identifiquei, a casa, hoje de Saulo, a Fazenda das Palmeiras, em que nasceu no presidente Raul Soares, natural de Ubá, um predestinado à política, que faleceu aos 48 anos, colhido prematuramente pelas parcas, como João Pinheiro, que viveu apenas 48 anos e nos deixou quando no Palácio da Liberdade, em 1908.
Permito-me voltar ao passado, para referir-me à participação dos políticos mineiros na vida imperial, que foi intensa, do primeiro ao último instante, como enfatizou João Camillo de Oliveira Torres, e que não menos valiosa se provou com a implantação da República.
O que pareceria mais importante é que, da influência mineira na política do Brasil, nunca resultou uma linha rígida e única. Tanto que o próprio historiador de Itabira pergunta: “Seria uma influência conservadora, vivamente preocupada com a preservação da ordem, ou seria uma influência liberal, procurando incendiar os espíritos nos ardores de um liberalismo inflamado?”.
Nesta hora candente da política brasileira, em que exercem funções de relevo muitos mineiros nos três Poderes, conviria considerar que sólidos baluartes da Ordem nasceram em Minas. Os homens das montanhas de sempre estiveram atentos e acesos em torno do Estado e da nação. Nos dias difíceis do nascimento do Brasil como país independente – independência pela qual lutamos até hoje – tiveram papel importante mineiros, como José Joaquim da Rocha, marianense, um dos inspiradores e organizadores do Dia do Fico; João Severiano Maciel da Costa, futuro marquês de Queluz (focalizado em obra excelente de Miguel Gonçalves, que integrou a Academia Mineira de Letras), Manuel Jacinto Nogueira da Gama (quem não conhece o nome?), marquês de Baependi; João Gomes da Silveira Mendonça, marquês de Sabará e Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira e Horta, marquês de Barbacena, general e diplomata, ministro e senador, lembrado pelo seu conterrâneo Sóter Couto. A grande voz liberal, que se contrapunha a Pedro I, era o mineiro Bernardo de Vasconcelos, sem citar os que atuavam de batina, com eficiência e coragem.
No belo quadro da sala da Fazenda, sinto o reflexo de uma época, de uma geração de políticos da Mata Mineira, que contribuíram para mostrar a grandeza do Estado, sem esquecer evidentemente Artur Bernardes, de Viçosa, polêmico, que teve o mérito de bater-se em defesa de nossas reservas minerais e, também, construiu o pioneiro centro de pesquisa de câncer nas Américas, o honrável Instituto do Radium, que a Nobel Marie Curie veio conhecer pessoalmente.


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Por Manoel Hygino - 21/10/2017 08:21:39
Penalizando ou punindo

Manoel Hygino

O problema é apenas da falta de um mínimo de conhecimento da língua portuguesa que falamos – porque há as outras, usadas em Portugal, em Luanda e em Moçambique, por exemplo. Assemelham-se à nossa, mas não é absolutamente igual. Para conferir, basta ler os textos com cuidado ou ouvir, também cuidadosamente, as palavras e pronúncias em programas transmarinos ou em gravações que de lá procedem. E a gente só tem a aprender, claro.
Gente há que abusa na errônea utilização da língua, o que é uma traição ao passado e ameaça ao futuro em termos de convicção. Aliás, em outras palavras, é o que diz o sempre consultado, porque jamais esquecido, Aires da Mata Machado Filho: “Deixar a cada um a faculdade de inventar para si uma boa linguagem, seria erigir em lei a balbúrdia generalizada”. E de bagunça, chega. Fazê-lo, seria engendrar o mais funesto amoralismo gramatical, pois há uma ética linguística, como reconheceu Ferdinand Brunot.
Não se permitirá despautério em país como o nosso, onde grassam veleidades de autonomia linguística, e onde sobram os que, em linguagem falada e em linguagem escrita, “dão por paus e por pedras”, como anota o culto diamantinense. Ele ensinou pelo rádio, nas salas de aula, pelas páginas dos jornais, foi professor de língua portuguesa no nosso Instituto São Rafael, destinado à educação de cegos.
Faço extensa exposição inicial para alertar sobre o uso indevido, errado, fraudulento possivelmente, do verbo penalizar, na acepção de punir.
O próprio ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que –segundo notícias constantes – não é flor que se cheire, sobre a inoportuna portaria de trabalho em regime de escravidão, declarou: “Ninguém quer ou deve ser favorável ao trabalho escravo, mas ser penalizado por questões ideológicas ou porque o fiscal está de mau humor não é justo”.
O ilustre auxiliar do governo da República deve entender muito de agricultura, pecuária, etc. Porque ele empregou, em verdade o verbo da primeira conjugação em sentido equivocado, ou mais claramente: está enganado. Bastaria recorrer aos dicionários para certificar-se.
O veterano e conspícuo Domingos Paschoal Cegalla já informava, na segunda década do século passado (e caminhamos para um século). Penalizar: causa pena, afligir. A ideia de que se trata de impor penalidade, punir, parece coisa morta. O próprio professor já dizia que usar o verbo como sinônimo de punir e prejudicar era neologismo dispensável.
Talvez, por força do erro, confundimos alhos com bugalhos na aplicação das leis. Penalizar não é apenar, aplicar punição. Quem deve pagar por alguma ilicitude merece castigo.
Não tão longe fica Houaiss ao observar: “tem havido rejeição desta palavra no sentido de punir, apenar, entre por profissionais ligados ao direito”. Com propriedade significa ter dó ou piedade, apiedar-se, compadecer, consignar-se, compungir-se. Autores de delinquências têm sim de ser punidos na forma da lei.


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Por Manoel Hygino - 20/10/2017 07:24:07
O medo do futuro

Manoel Hygino

Não se negam lampejos na economia brasileira, com trovoadas não muito correspondidas por belas pancadas de chuva. Na capital, uma pesada chuva, de curta duração, e foi-se. O Brasil não quer tempestades. Mas o FMI aumentou a expectativa do PIB para 2018, o que poderá nutrir a campanha política que já se aproxima.
Enquanto o cidadão penará para pagar a conta de energia que o Correios trará, já é válido e alto o reajuste de combustíveis e o novo preço do gás de cozinha. Neste interim, o jornal que o leitor tem à mão noticiou a existência de muitas ambulâncias do Samu abandonadas na Região Metropolitana. E o povão, aflito, pede assistência.
Não sofre solução de continuidade, contudo, o ofício árduo dos bandidos atuantes em todo o país, subtraindo ou deixando estragos em bens dos cidadãos que pagam tributos. Tem também sequência a morte dos brasileiros (ou não) que ousam possuir alguma propriedade, qualquer que seja, ou espairecer-se pelas ruas nas tardes cálidas. Os criminosos sabem o que fazem, como aconteceu na pacata cidade de Capitão Enéas, acordada pela madrugada com tiros por todos os lados. Virou rotina na região. Em 29 de setembro, a PM mostrou as armas pesadas e explosivos, bem como parte do dinheiro roubado do Banco do Brasil num matagal. Eram pistolas 9mm, duas submetralhadoras, fuzil, pistolas. Essa gente anda prevenida. Os agentes da alei têm de entrar em ação a qualquer hora e circunstâncias, precisando de arsenal condizente para enfrentar a bandidagem.
Coisinhas
Observe-se: levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro revela que o roubo de cargas já causou prejuízo de mais de R$ 250 milhões nos últimos 6 meses em Minas Gerais. O Estado ocupa o terceiro lugar em ocorrências no gênero, atrás de São Paulo e Rio. A pesquisa indica também que entre 57 países, o Brasil é o oitavo com maior risco para roubo de carga, à frente de países em guerra e conflitos civis, como Paquistão, Eritreia e Sudão do Sul. Ainda bem que estamos em paz: Estamos? Quantos são mortos a tiros e facadas ou nas rodovias? O mais grave é que temos um lampejo, somente um lampejo, em meio à escuridão da noite no pântano. O homem deste país vê a televisão para saber as notícias e, sem mais assombro sequer, ouve, o relato dos desatinos e tragédias de todos os dias. Não há gente sensata e honrada que não perca o sono após desligar o vídeo, já antecipando os efeitos ainda piores (?) do que terá à frente.
O farto noticiário sobre a programação artística dá ideia de que a maioria possa ir às casas de espetáculos, contando com o salário diminuto, mas até isso é repetidamente inviável. É inegável que nos tornamos pessimistas e descrentes. Evidentemente me refiro aos que ganham ínfimas diárias, sem esquecer os milhões sem trabalho, nem salário.
A criminalidade, avassaladora, anda solta e invencível, porque está em todos os ambientes e tempo. Dentro dessas perspectivas, caminhamos inexoravelmente a enfrentar a ameaça de agravamento da situação neste acampamento em que nos transformamos, assunto imenso e permanente para a imprensa, que não pode ser responsabilizada pela situação de medo e vergonha de agora.
Como se pouco fora, eis que surge inesperada portaria sobre fiscalização do trabalho escravo nestes 5 milhões e 500 quilômetros de extensão. O problema, como inúmeros outros, irá para os gabinetes do Judiciário, se não revogados os novos dispositivos com urgência.
Tem razão Galba Velloso, ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho. “Os meios que o presidente usa para se defender constituem novas irregularidades...”.


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Por Manoel Hygino - 19/10/2017 07:28:35
Os soldos do marechal

Manoel Hygino

No próximo ano, registra-se o sexagésimo aniversário de morte de Rondon, militar e sertanista brasileiro, nascido em 1865, em Mimoso, nas proximidades de Cuiabá, Mato Grosso. O pai era de origem luso-espanhola, com mistura de índios guanás, enquanto a mãe, indígena, descendia de terenos e bororos.
Órfão dos pais aos 2 anos, foi educado por um tio, estudou no Liceu Cuiabano, de que seria professor, mas sonhava com o Exército. Sentou praça no Regimento de Cavalaria, logo se transferindo para a Escola Militar do Rio de Janeiro e incluindo-se entre os cadetes abolicionistas e republicanos.
Nomeado para a Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, começou a exploração dos sertões mato-grossenses, assumindo o compromisso de não hostilizar os índios. Ligou por telégrafo imensas regiões do Brasil, penetrou o Paraguai e a Bolívia. Depois, o presidente Afonso Pena quis estender as linhas, ao Amazonas e Acre e Rondon estava à frente.
Além da integração geográfica realizava trabalhos linguísticos, etnográficos, botânicos e sociológicos. Sem se afastar da Comissão de Linhas Telegráficas, foi o primeiro presidente do Serviço de Proteção aos Índios. No Congresso das Raças, em Londres em 1913, foi aplaudido por sua atuação “para honra da civilização universal”. Em 1914, foi lhe atribuído o Prêmio Livingstone, pela Sociedade de Geografia de Nova York, após a Expedição Científica Rossendet-Rondon.
Sob Vargas, 1934, Rondon viu-se nomeado para presidir a Comissão Mista Internacional Peru-Colômbia, visando à pacificação dos países em dissídio pela posse da região de Letícia. Por quatro anos, de 1967 a 1972, sofrendo grave doença na vista, lá esteve até a confraternização.
Mas, quero focalizar outro aspecto de Rondon. Na presidência de Hermes da Fonseca, um ministro se empenhou por extinguir a Comissão Rondon, por o país estar em crise financeira. Sabedor da proposta, Rondon estabeleceu que as gratificações aos membros do grupo fossem reduzidas: dos soldados em 25%, dos oficiais em 50% e do chefe, que era ele, em 100%. Em expedição de grande repercussão, comunicou aos seus superiores que não aceitaria as gratificações, ficando com os salários do posto.
Quando chefiou o 16º Distrito Telegráfico de Mato Grosso, foi rebaixado do posto de major para capitão de engenheiros. Aceitou a condição. E não só: ao voltar da missão em Letícia, foi informado que por trata-se de estado de guerra, que lhe corresponderia a quatro vezes o soldo. Questionou o Ministério, que confirmou a vantagem, por função oficial no estrangeiro. Negou-se a receber a subvenção e determinou que os proventos ficassem para construção de uma escola em Mimoso, sua cidade natal.
Sua maneira de ser virou anedota. Na expedição ao rio São Miguel, inventou-se o conselho: “preparem o rancho para as praças... e um chá para o Estado Maior”. Um bom exemplo para os atuais, não é?


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Por Manoel Hygino - 18/10/2017 08:18:08
O Supremo sob crítica

Manoel Hygino

Já eu o dissera: mais do que os numerosos suspeitos de tropelias no exercício de cargos públicos, de beneficiários ou supostos beneficiários – de bondades para conhecidíssimas figuras da vida brasileira – está presentemente em julgamento a própria magistratura. Pode-se aferi-lo após a extensa reunião da mais alta Corte de Justiça do país, na quarta-feira, 11 de outubro.
Enquanto o calor ofendia os dias do mês, com altas temperaturas e se ingressava no Horário de Verão, bom para alguns, horrível para inúmeros outros, o Brasil manteve-se nas gravações às treze horas de reunião do Supremo Tribunal Federal. Tema polêmico, com complexos interesses em jogo, sintomas ou revelações de crise flagrante, mediante discussões acirradas.
Amaury Ferreira Brandão, da Academia Pouso-alegrense de Letras, é incisivo em seus pontos de vistas, lembrando que Ruy Barbosa já se referia aos “primeiros eclipses constitucionais”. A certa altura de um seu comentário, AFB repete a pergunta de Calmon de Passos: “O que é o Poder Judiciário? Uma divindade, já que o povo não participa de escolha na sua composição, cujos ministros são vitalícios e não respondem perante o povo como os outros poderes?”.
Amaury lembra ainda Paulo Saboia, que sustenta a necessidade de se colocar a Justiça sob controle do povo. Aduz ser inaceitável que juízes não tenham mandato, eternizando-se nas funções, mesmo não correspondendo às necessidades daquelas a quem deveriam servir.O Supremo não teria assumido no Brasil o papel idealizado por Ruy, vinculando-se a razões e interesses políticos. Cita AFB o caso de Ricardo Lewandowski, que “rasgou a Constituição para beneficiar cidadã cujo mandato jogou o Brasil na mais funda das cavernas”. Assim por diante.
Não repito os adjetivos mais fortes usados pelo acadêmico de Pouso Alegre, ao analisar a situação de alguns membros do Supremo, a que imensamente deve a nação, sobretudo em períodos de grave crise. Cada ministro é criticado, sem se esquecer os patrocinadores de suas candidaturas, desde o presidente José Sarney, que indicou Celso Mello, o decano da Casa, que dividiu apartamento com José Dirceu, em São Paulo, quando universitário; e Marco Aurélio, primo e indicado pro Fernando Collor, defensor do PT – é o que diz Amaury, “após sua filha ser indicada desembargadora federal por Dilma”.
Amaury cita Gilmar Mendes, apontado por FHC, cuja esposa trabalha no escritório do lobista Sérgio Bermudes, advogado de Eike Batista; Lewandowski, cujo filho serve ao escritório de Raul Chequer, envolvido na compra da Refinaria de Passadena: Dias Toffoli, ex-advogado do PT, e reprovado duas vezes em concurso para o TJ de São Paulo; Luiz Fux também indicado por Lula, que prometera “matar” o Mensalão no peito; Rosa Weber, protegida por Dilma, amiga do ex-marido de Dilma, Carlos Araújo, ex- assaltante de bancos; Luiz Roberto Barroso, também da safra da ex-presidente, cuja filha, advogada de Itaipu, condenada pelo próprio STF; além de Cármen Lúcia, iniciada por Lula da Silva. Finalmente, Alexandre Morais, novato, indicado por Temer, depois de ser secretário de Kassab e Alckmim.


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Por Manoel Hygino - 17/10/2017 08:21:10
Ainda chuvas e trovoadas

Manoel Hygino

No dia 11, véspera das comemorações dos 300 anos da padroeira do Brasil, um extenso julgamento no Supremo Tribunal Federal decidiu que medidas cautelares judiciais contra parlamentares têm de ser confirmadas pelo Legislativo, se significarem comprometimento ao exercício do mandato. O resultado apertado, 5 a 5, com desempate pela presidente Cármen Lúcia, não constituiu certamente uma surpresa. Os ministros se esforçaram para demonstrar que os poderes são independentes, mas harmônicos, o que constituía, no fundo, quase o cerne da questão.
Foi uma sessão com posições expressas veementemente. Não se aprovou o argumento da ministra Rosa Weber e de outros ministros, segundo os quais submeter atos próprios do Judiciário a outro poder compromete o equilíbrio de harmonia. De todo modo, só aparentemente o importante capítulo do presente ciclo de arestas foi vencido, com o “finale” marcado para o dia 17, quando o caso Aécio será especificamente definido pelo Senado Federal, do qual se acha afastado. O panorama se me apresenta extremamente delicado, porque os ilustres membros da mais alta Corte do país não chegaram a bom termo nos entendimentos, a despeito da decisão de quinta-feira, prevendo-se proximamente chuvas e trovoadas.
Como nos encontramos evidentemente já pensando nas eleições do ano que vem, percebe-se a necessidade de medir os problemas e posicionamentos a partir desta perspectiva. Aqui e em qualquer outro lugar, cabe o direito de defesa aos acusados ou apontados em investigações incessantes, porque tampouco cessam os fatos delituosos. Mas não se pode admitir que só há inocentes não se sustenta, parece mais um jardim de infância em que todos querem benevolência da “tia” para suas traquinices”. Não é o que ora ocorre?
Acrescenta: “Admiro quem se dispõe a cuidar de tantos (cidadãos), disputando eleições e ocupando posições na estrutura de poder. São potencialmente capazes de fazer a diferença para muitos. Mas ninguém é obrigado a ocupar estas posições se não se sente preparado ou se teme se dobrar às tentações do caminho. Diferentemente da vida pessoal, onde se nos mantemos inocentes, sobrecarregamos poucos, incluindo aqueles que nos amam e que não suportam nos ver em dificuldade. O caminho do poder é um caminho árduo, de muitos testes e que não pode era trilhado com olhos inocentes simplesmente porque as consequências podem atingir milhões de outros”.
O articulista, por sinal, se espanta – como milhões de outros brasileiros – ao ler o noticiário e conhecer as investigações sobre este sistema de governo, com o qual aquiescemos, a partir de nossa própria inocência. O debate gira unicamente em torno da falta de provas, do desconhecimento de práticas tão antigas, inerentes ao próprio sistema. “Somos levados a criar torcidas como no futebol: escolher o lado e defendê-lo nas redes sociais”. Em resumo: “Me parece secundária a discussão sobrea qual o partido ou político deveria vir ocupar o posto de presidente. O essencial é que estamos sendo governados sob uma estrutura ineficiente para apoiar ações que precisaríamos implementar como seres humanos”. E defende: “Na minha visão, mais do que governos de esquerda ou direita, precisamos que o poder seja ocupado por quem possa sustentar a perspectiva do amor e do olhar para o bem-estar coletivo. Estou cansado desta discussão polarizada que apenas nos divide, opõe, mas não toca no essencial. Me recuso a compartilhar da inocência de qualquer sigla e de doar meu tempo para fomentar o ódio a qualquer das partes que se deixaram partir”.


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Por Manoel Hygino - 16/10/2017 07:28:03
Pela vida em outro planeta

Manoel Hygino

Pelo menos uma ameaça se desfez. No passado dia 12, o de Nossa Senhora Aparecida, uma rocha do tamanho de uma casa passou perto da Terra dentro da órbita da Lua, mas a milhares de quilômetros deste planeta que ainda habitamos. A informação foi dos astrônomos ligados à NASA e à Agência Espacial Europeia.
O asteróide em questão, batizado de TC4, passou pela primeira vez perto de nós em outubro de 2012, aproximadamente com o dobro de distância da atual, e seu retorno já era esperado. A rocha agora estará a 35 mil quilômetros, mas “não vai atingir-nos”, como previsto por um dos astrônomos. “Essa a coisa mais importante a se dizer”.
De qualquer modo, suponho que devamos ter o máximo cuidado. Assim como balas perdidas têm matado muita gente inocente na Rocinha ou na Baixada Fluminense, um asteróide desses pode alcançar-nos em algum momento. Aliás, cumpre lembrar o que declarou, há mais de um ano, Stephen Hawking, célebre físico britânico. Para ele, a exploração espacial deve continuar, pois o futuro da humanidade depende disso, já que os homens não conseguirão sobreviver mais de mil anos sem ir “além de nosso frágil planeta”.
O cientista, que participou de festival em sua homenagem nas Ilhas Canárias, da Espanha, ressaltou que há muitos experimentos ambiciosos para o futuro, como mapear a posição de bilhões de galáxias, além de utilizar os supercomputadores para compreender melhor “nossa posição” no universo.
“Talvez, algum dia, seja possível utilizar as ondas gravitacionais para olhar para trás, em direção à origem do próprio Big Bang”, afirmou. O físico está convencido de que a humanidade tem de seguir explorando o espaço pensando em seu futuro”. Para ele, nós humanos não somos mais do que conjuntos de partículas, que – no entanto- estão próximas de compreender as leis que nos governam, “e isso já constitui uma grande vitória”.
Ninguém quer ser ave de mau agouro. Mas o mundo científico está consciente de que, em algum instante da história, a humanidade terá de procurar abrigo e habitação em algum outro planeta.
As grandes potências mundiais não investem milhões e milhões em pesquisas de outros astros, senão pensando no que o futuro imporá aos terráqueos de agora. Pode ser por uma colisão com algum asteróide ou por imposições endógenas. Uma guerra entre as potências nucleares poderá obrigar o homo sapiens, nem sempre muito sapiens, a procurar outro lugar no espaço. É nisso que se pensa, e incontestavelmente não estamos sendo trágicos. Será o fenômeno da Rocinha, transportado a nível planetário.
Mais grave e inquietante é saber que sequer temos conseguido resolver os “probleminhas” de nação em crescimento, como os que ora enfrentamos. Há de perguntar-se se o porvir, que não vislumbramos tão promissor como se desejaria, será menos sofrível em outro planeta e galáxia. Por enquanto, só resta nos mantermos como possíveis vítimas de balas perdidas entre agentes da lei e traficantes, ou entre quadrilhas, nas periferias das grandes cidades ou até nos centros urbanos.


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Por Manoel Hygino - 13/10/2017 08:39:27
Mais brasileiros viram santos

Manoel Hygino

A cada dia, descobrimos fatos até então guardados na história de um Brasil com mais de quinhentos anos, além de novas interpretações sobre registros antigos, até recentemente vistos sob outros ângulos. Faz parte. Apesar de seus cinco séculos, somos uma nação nova, se comparada a outros pedaços e povos estabelecidos no planeta.
Neste outubro, o papa Francisco anunciou que, no dia 15, canonizaria, na Basílica de São Pedro, os primeiros mártires brasileiros. São os sacerdotes André de Soveral e Antônio Francisco Ferrero, e o laico Mateus Moreira, camponês, além de outras 27 pessoas.
Por mencionados beatos, a população cristã católica brasileira não esperava, porque havia outros importantes candidatos na fila de canonização. Os ora relacionados trouxeram surpresa, principalmente porque do Rio Grande Norte tem-se falado predominantemente em presídios, fugas e mortes, em tempos mais recentes.
Em todo caso, porém, há fatos novos a registrar. Haverá santos e, agora, em três dezenas. Serão canonizados sem terem realizado os milagres, tão profundamente pesquisados antes de comprovados pela Congregação para as Causas dos Santos.
Primeiros mártires e santos brasileiros, foram assassinados entre os dias 16 de julho e 3 de outubro de 1645, pelos protestantes calvinistas holandeses no Brasil naquela época. A execução foi em Cunhaú e Uruaçu, durante uma missa dominical celebrada por André de Soveral. Eles tinham sido beatificados pelo papa João Paulo II em março de 2000, na Basílica de São Pedro.
Emissários holandeses enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que, em Uruaçu, a crueldade foi terrível. Os índios tapuias e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os detidos. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segund documentos, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.
Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, mercenário alemão, a serviço dos holandeses, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o próprio padre André de Soveral, foi massacrado. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.
Os mártires brasileiros serão canonizados em cerimônia ao lado de dois meninos mexicanos conhecidos com Mártires de Tlxcala: o espanhol Faustino Miguez, fundador do Instituto Calasancio, Filhas da Divina Pastora, e o sacerdote franciscano italiano Luca Antonio Falcone.


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Por Manoel Hygino - 12/10/2017 08:36:34
O ciclo democrático

Manoel Hygino

Somos um país de contradições, embora a verificação não resulte em solução de nada e para nada. Leio, assim, as dolorosas notícias da falta de água principalmente no norte-mineiro, pedaço do sertão que nas fraldas da serrania nasce. Quem quiser saber mais e melhor encontrará excelentes autores, o mais conhecido dos quais o de Cordisburgo, João Guimarães Rosa, não aceito até hoje por todos.

Pois nesta época de seca, represas em baixo nível (como expressões verbais usadas no Parlamento) ameaçam o racionamento de energia e a elevação de tarifas. Mas localizo uma pequena nota, curiosa mas absolutamente verdadeira. O sentimento dos moradores no entorno da expandida penitenciária de Montes Claros, assentada em área residencial, é de perplexidade, espanto. Não passam pela mesma severa falta de água de outros bairros, há meses. A razão foi dada por fonte da Copasa: como são vizinhos da penitenciária, escapam do rodízio no racionamento de água, pois o presídio não é afetado, passando incólume pelo aperto da população.

Enquanto assim acontece, acirra-se a disputa, já em âmbito judiciário, pela água consumida pela população das cidades de Coração de Jesus e Montes Claros. A magistratura acatou pedido do Ministério Público de Minas Gerais, suspendendo a construção de adutora de 56 km para levar a água captada no primeiro município, visando atendimento do segundo, em que já há rodízio na distribuição. A obra custará R$ 135 milhões, mas a multa, se não obedecida a decisão judicial, será de R$ 100 milhões, acrescida de R$ 100 mil em caso de descumprimento. Adota-se o refrão: em lugar onde falta água, todos gritam e ninguém tem razão. Ou todos a têm.

A estação das chuvas, que tanta expectativa despertou em extensas regiões, depois do Dia de São Miguel, foi interrompida. O sol voltou, forte, enquanto milhões de brasileiros aguardavam o lenitivo que viria do céu, mas falhou.

No campo político-administrativo nacional, entramos em uma semana e dela saímos sem solução de problemas que nos afligem, o que não constitui novidade. Acumulamos desacertos por longo tempo e não seria em sete dias, contundentes os mais recentes, que nos ofereceriam propostas mais duradouras.

Nem tudo, todavia, está perdido e a fisionomia da economia melhora, já com resultado apreciável, embora pobre. De fato, a verdade verdadeira é que teremos de aguardar a eleição de 2018, pelo menos esperando que o eleitorado escolha os melhores candidatos, inclusive para a chefia da nação. Praticamente, ter-se-ia de refundar a nação, depois do descalabro dos intermináveis escândalos.

Conseguiu-se vencer um período dificílimo, ao custo de muito sacrifício a um povo cansado de manter incompetentes ou até disfarçados meliantes no exercício de importantes cargos públicos. Se vencermos este período, já nos podemos dar por satisfeitos. Evitamos pelo menos o pior, que seria a ruptura do ciclo democrático. No mais, repetiria Shakespeare: “que horas são, senhor? São horas de ser honesto”. O vate de Stratford-on-Avon com quatro séculos de sepultamento ainda pode fazer aconselhamento.


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Por Manoel Hygino - 11/10/2017 11:18:51
Brasília em tempo da padroeira

Manoel Hygino

No último dia 4, de São Francisco de Assis, tão querido pelo povo brasileiro, houve festa em muitas cidades como todos os anos. Nos Estados Unidos, uma unanimidade, porém, em termos de perplexidade diante do morticínio que resultou em cerca de 60 vítimas fatais e de 600 feridos, em Las Vegas, no dia anterior. Difícil assimilar a tragédia na cidade dos jogos e do prazer que Tio Sam instalou no estado de Nevada, não tão distante de Pasadena, de triste lembrança.
Cá na terra descoberta por Cabral, de que não descende o Sérgio, ex-governador do Estado do Rio, o clima era de gravidade, densa ou tensa expectativa, na capital nacional. O Senado teria de deliberar se suspendia ou não o afastamento de Aécio Neves, decidido pelo STF. A Casa Alta do Congresso esboçou reagir, mas foi cuidadosa. Deixou para depois, até porque a presidente do Supremo Cármen (agora, a imprensa resolveu adotar o acento agudo no ‘a’ da sílaba inicial) transferiu ao STF definir se o Congresso deve ou não dar aval a medidas cautelares contra parlamentares, como a imposta ao senador mineiro.
Eunício Oliveira, presidente do SF, foi suficientemente claro: “não adianta os poderes fazerem enfrentamento. Os poderes são independentes, mas têm que ser harmônicos, têm de dialogar”. Quando se quis tirar de Fachin uma prerrogativa, a presidente (com e), Cármen, objetou que “jurisprudência do Tribunal não admite que terceiros questionem relatoria de processos”.
Como não poderia deixar de ser, Gilmar Mendes abriu o bico: os ministros da corte correm risco de acabar nos Trapalhões, por
praticar o “direito constitucional de malandragem”. Argumentou: “Nós temos já vários senadores e deputados com denúncias recebidas, nesse caso, também nós deveríamos afastá-los? E aí, nós podemos afastar a Câmara? A Câmara fica com composição não de 513, mas de 512, de 510 (parlamentares?) Quer dizer: o direito achado na rua, o reconstitucionalismo, o direito constitucional da malandragem, permitem esse tipo de coisa?”.
Acrescentou: “A gente precisa ter muito cuidado com essas questões. Se queremos reescrever a Constituição, vamos lá para o Congresso e assumamos a função de legisladores”. Uma observação que tem sua razão de ser. Os poderes se mistura m e seus componentes parecem querer tomar o lugar alheio? Tudo crescentemente confuso. O diretor de Relações Internacionais da J&F, Ricardo Saud, comemorou a decisão de Gilmar Mendes de conceder liberdade, em maio, a José Dirceu: “Acho que Gilmar começou a ajudar a gente”, publicou a Veja.
De todo modo, o fundamental é ter-se votado o adiantamento sobre afastamento do senador de Minas para 17 de outubro, ou, em outros termos – para depois de 12 de outubro, o feriado.
Feriado é o de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Repito Rodrigo Alvarez: “Quando outubro chegar por ser véspera de comemorar o Dia da Padroeira, parece que o país inteiro peregrina para o santuário. Resta esperar que ela se manifeste na cabeça dos que detêm poder no país. Que os dias que antecedem à festa produzam efeitos benéficos! A situação não anda nada boa e a Santa se vê na contingência de dar uma mãozinha. O feriadão seguinte é de Finados”.


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Por Manoel Hygino - 10/10/2017 07:02:34
Os meninos do Brasil

Manoel Hygino

O Dia da Criança, o Mês da Criança não serão mais iguais este ano, depois da tragédia que se abateu sobre Janaúba, na Creche Gente Inocente, com um elevado cômputo de vítimas fatais ainda não definido. Por um capricho, o autor do crime coletivo foi um cidadão, Damião Soares dos Santos, nome do mártir, cuja data se festeja em 27 de setembro, com o irmão Cosme. Sofreram tormentos inexcedíveis e a degola em Egeia, na época do imperador Diocleciano, pelo ano 287. Dedicados à medicina, são patronos dos cirurgiões e seus corpos descansam numa igreja com seus nomes em Roma.
Há anos, bem anos, Rubem Braga, o grande cronista capixaba que viveu parte da vida em Belo Horizonte, publicou uma “Oração aos Santos Cosme e Damião”, em que começa rogando: “Protegei os meninos do Brasil, todos os meninos e meninas do Brasil”. È um texto de rara beleza, em que há também apelo à proteção dos “meninos ricos, pois a riqueza não impede que eles possam ficar doentes ou tristes, ou viver coisas tristes, ou ouvir ou ver coisas ruins”.
Mas a proteção é também para os meninos dos casais que se separam e sofrem com isso, os filhos dos bêbados e estúpidos e também os meninos das mães histéricas e ruins; mas ainda para o menino mimado a quem os mimos podem fazer mal e para os órfãos, os filhos sem pai, e os enjeitados: ao menino que estuda e o moleque de rua, que só sabe pedir esmola e furtar.
“Não só: a proteção é ainda para os meninos protegidos pelos asilos e orfanatos, que aprendem a rezar, a obedecer e andar na fila, a ser humildes”. Oh, São Cosme e São Damião, protegei muito os pobres meninos protegidos!”.
Um parágrafo vai por inteiro: “Protegei, sobretudo os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra e seus olhos que podem pegar tracoma, afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e abandonado menino triste e que é o nosso Brasil, ó glorioso São Cosme, glorioso São Damião”.
E protegei também, digo-o eu, as denodadas e heroicas professoras, que ganham pouco mas são capazes de atos de solidariedade que lhes rouba a vida com chamas, como Heley Abreu Batista, mulher e mãe. Mas ainda recorro a Baudelaire, que faleceu há 130 anos, e pediu em sua “Oração pelos loucos e pelas loucas”.
O pedido é dirigido a Deus, que fez a Lei e a Liberdade, o juiz que perdoa: “Senhor, tem piedade, tem piedade dos loucos e das loucas! Ó Criador! poderá acaso existir monstros aos olhos d’Aquele que é o único que sabe porque é que eles existem, como se tornam tais, e como poderiam não ter sido monstros?”.
Esta nação está em dor, pelos túmulos que confrangem coração, famílias esmagadas por tragédias que a mídia relaciona e amplia a cada hora e dia, mulheres que choram, crianças que morrem ou sofrem.
Mas há os que se vangloriam porque o Dia da Criança geraria quase R$ 9 bilhões ao comércio em 2017.


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Por Manoel Hygino - 9/10/2017 08:32:08
Holofotes sobre a Rocinha

Manoel Hygino

Reportagens e noticiários sobre a turbulência na Rocinha, na zona Sul do Rio de Janeiro, exigem hoje espaços enormes nas redes de televisão, que – se fossem matéria paga – demandariam milhões dos patrocinadores. Enquanto as Forças Armadas lá se mantiveram, serenaram os ânimos; com o retorno da tropa à caserna, voltou a preocupação, depois se repetiram os tiroteios, extensivos ao Vidigal, que é próximo. Na UPP da Cidade de Deus, policiais foram recebidos a tiros. Os agentes da lei não revidaram, evitando talvez uma batalha campal.
Entanto, o problema é antigo, complexo, de dificílima solução, tanto que as tentativas de pacificação das antigas favelas (o nome passou para comunidades) foram frustrantes, para não dizer que fracassaram. Nos dias passados, a imagem de Nem, considerado chefe do tráfico da Rocinha, maior favela da América Latina, apareceu um sem número de vezes.
É sobre ele que comentamos, principalmente depois de o site brasil.elpais publicar matéria de Gil Alessi, focalizando-o. Conta-se ali que Antônio Bonfim Lopes, em dezembro de 1999, enfrentou com a esposa um grave problema de saúde da filha, Eduarda, de nove meses. Iniciou-se uma peregrinação por clínicas e hospitais, mas os diagnósticos eram desencontrados e não sobrou um fio de esperança. Mãe e pai, diz a notícia, se viram na contingência de abandonar seus empregos para tratar do bebê, afundando em uma dívida de R$ 20 mil.
Antônio, até então trabalhador responsável por uma equipe de distribuição de revista, se tornou o Nem, chefe do tráfico da Rocinha, o maior ajuntamento no gênero do hemisfério. O drama é relatado no livro “O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio”
(Companhia das Letras), do jornalista inglês Mischa Glenny. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, ano passado, o escritor se encontrou com Nem, que responde a oito processos e está condenado a 16 anos e oito meses de prisão por tráfico de drogas e formação de quadrilha.
Para contar a história, o autor ouviu amigos e inimigos do traficante, policiais, políticos e o próprio ex-secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Mas, para salvar a vida da filha, recorreu a Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, chefe do negócio ilegal na Rocinha e uma das lideranças do CV – Comando Vermelho.
Jovem e inteligente, Nem se tornou importante, um “ditador esclarecido”, segundo o autor inglês: “ele entendia que o dono do morro deveria criar um círculo virtuoso que assegurasse o sustento da favela, devolvendo parte dos lucros à comunidade e produzindo um clima de crescimento econômico”. Estabeleceu-se um clima de paz, mas a “alta direção” do negócio sujo se dividiu, houve troca de comando. Nem, em circunstâncias misteriosas, acabou preso e levado a presídio de segurança máxima.
Não tenho notícia da filha que se enfermara. Misha Glenny, o escritor inglês, anotou: “Os grandes traficantes brasileiros não moram nas favelas”; “a Rocinha não precisa de teleférico, mas sim de saneamento básico”; “Rio desidrata UPPs para transferir parte do efetivo das favelas para o asfalto”. Nem desabafa: “Mandar polícia não adianta. Tem quatro ou cinco pra tomar meu lugar se me prenderem ou matarem”.


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Por Manoel Hygino - 6/10/2017 07:51:44
Uma indesejada notícia

Manoel Hygino

Janaúba não é um lugar qualquer perdido no norte-mineiro. Pelo contrário, com 68 anos de emancipação política, dedica-se à agricultura, à pecuária, ao comércio e serviços, com seus dedicam mais de 71 mil habitantes, a 52ª população do Estado. O burgo nasceu a partir do final do século XVIII, quando bandeirantes voltavam do Nordeste, conduzindo índios preados para a região, como relata Dário Teixeira Cotrim. A temperatura, como em toda região, é de semiárido brasileiro e da microrregião, de que Janaúba é polo.
Terra de gente trabalhadora, conta com infraestrutura de cidade de porte médio, com hospital regional e dispõe de pontos turísticos, ostentando o título de principal centro comercial da Serra Geral. Note-se: desde 1984, possui um campus da Universidade Estadual de Minas Gerais, estando em implantação uma unidade da primeira universidade federal da Serra Geral e a segunda do Norte de Minas.
No entanto, nesta primeira semana de outubro, Janaúba se tornou dramático assunto da imprensa internacional. O vigia, de 50 anos, de uma creche, o Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, afastado das funções por motivo de saúde, ateou fogo pela manhã no acolhimento, em que se encontravam dezenas de crianças entre quatro e seis anos. Quatro delas morreram, além de uma professora.
O teto da escolinha era de material plástico e ajudou a propagar as chamas. Os feridos foram levados para a Santa Casa de Montes Claros e para o Hospital João XXIII, em helicópteros.
Um oficial da PM declarou que o homem entrara em um tambor de gasolina ou álcool e, tomados o corpo e as roupas pelo fogo, abraçava as pessoas que deparava no caminho fatal.
O governador Fernando Pimentel determinou mobilização de todas as forças de saúde pública e de segurança para resgate e salvamento. O presidente Temer, de Belém, PA, expressou sua dor como pai e solidariedade às famílias. Jornais de vários continentes imediatamente divulgaram. Uma notícia, que eu, que sou de Montes Claros, e a jornalista Mônica Miranda, da Itatiaia, nascida naquela cidade, no mesmo dia que eu, 13 de março, não gostaríamos de dar.
Neste momento em que o Brasil enfrenta vicissitudes de toda natureza, um fato como este acrescenta dor e lágrimas à sociedade, ainda que a jovem cidade esteja a centenas de quilômetros dos grandes centros urbanos. A adversidade não se mede pela distância e pelo conhecimento pessoal.
Ademais, são crianças, algumas das quais estigmatizadas fisicamente a partir de agora pelos ferimentos. Nem se fala dos pais e demais membros das famílias.


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Por Manoel Hygino - 4/10/2017 07:17:30
Chuva de pedras em Brasília

Manoel Hygino

As chuvas chegaram ou estão chegando, dependendo da região deste país continental. Por enquanto, não houve elevação do nível das águas nas represas expressivas no fornecimento de água e energia às regiões mais populosas. Espera-se que melhore, embora a situação não mude muito com a velocidade esperada.
As tarifas, porém, já foram aumentadas e as contas de luz em outubro já serão acrescidas. No Dia de São Miguel, em que a crença popular indica como a primeira na temporada das águas do Norte de Minas, choveu no dia emblemático. Também em Belo Horizonte e outros pedaços do Brasil. Só há esperança, embora os preços do consumo energético já estejam definidos. Como também já o foi o horário de verão, que agrada e desagrada.
Em Brasília, o tempo permanece instável, alta temperatura política, o “affair” Aécio na boca das pessoas e dos parlamentares nas duas casas do Congresso Nacional. Enquanto isso, corre o tempo para votação da segunda denúncia contra Michel Temer, de que será relator o deputado Bonifácio Andrada, o mais longevo da Câmara. Os jornais comentam que – desde antes da Independência – num 1822 remoto, a família influencia a vida nacional. Não sem razão, há uma estátua de José Bonifácio, em Manhattan, em “Downtown” , perto de onde se toma a barca para a ilha em que se encontra a estátua da Liberdade.
A pauta é eminentemente política, mas o Judiciário se encontra na berlinda e o Executivo sob inusitada vigilância. O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, primo do ex-presidente Fernando Collor,
manteve-se em evidência durante a semana finda, ao passo que o notório companheiro na mais alta corte do país, Gilmar Mendes, reduziu a exposição à imprensa. Do primeiro, ficou a frase: “estamos diante de uma crise institucional”, cujo conteúdo é amainado com o competente, “mas será suplantada porque a nossa democracia veio pra ficar”. Para servir a quem, eis a questão.
Antônio Machado, em festejada coluna, opina: “a crise real que nos consome é política, não econômica. A dúvida é se saberemos reinventá-la”. E, se não conseguimos? Pergunta o advogado do diabo. O jornalista explica: “a desordem política é a sequela de uma degeneração social ampla e irrestrita e disso poucos falam. Exemplos de um país sem rumo estão em toda parte”. Há casos terrivelmente cabeludos aguardando decisões no Supremo, enquanto ponderável parte do tributo arrecadado pela União, que passa de R$ 1,3 trilhão, é gasta sem critério.
Há inclinações à ingovernabilidade e isso tem de ser contido. Precisamos suportar pelo menos até o final do presente quatriênio. No ano que vem, a palavra final será do eleitorado, que se espera e se confia saber votar. Em meio a todo o pandemônio, o novo Refis, contendo o programa de refinanciamento de dívidas com a União, evolui à base de interesses espúrios. Aprovado com modificações, incluirá até acordo que beneficia empresas flagradas em esquema de desvio de dinheiro público.
Dentro de pouco mais de sessenta dias, alcançamos o ano eleitoral. O professor Sacha Calmon pergunta: “temos um projeto nacional?”. Sem resposta, a chuva fez cair pedras geladas sobre Brasília e redondezas. A advertência vem dos céus.


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Por Manoel Hygino - 3/10/2017 07:32:52
A farda longe da turbulência

Manoel Hygino

Situação delicada vive a nação. Mexeu-se numa caixa de maribondos – alguns preferem – num ninho de cobras, e os bichos estranharam e se estranharam. Os membros dos três Poderes assumem posições diferentes sobre problemas que avultam em nosso meio e época, o que em princípio é natural. As divergências afloram entre seus componentes e as dificuldades no de relacionamento tresdobram.
Repercutiu uma declaração do general Antônio Hamilton Martins Mourão, quatro estrelas, durante reunião da Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, na sexta-feira, 15 de setembro. O mestre de cerimônias, ou coisa que o valha, perguntou ao oficial, fardado: “A Constituição Federal de 88 admite uma intervenção constitucional com o emprego das Forças Armadas. Os poderes Executivos (sic) e os Legislativos estão podres, cheio de corruptos. Não seria o momento dessa interrupção, dessa intervenção, quando o presidente da República está sendo denunciado pela segunda vez e só escapou da primeira denúncia por ter “comprado”, entre aspas, membros da Câmara Federal? Observação: fechamento do Congresso, com convocações gerais em 90 dias, sem a participação dos parlamentares envolvidos em qualquer investigação. Gente nova”.
A incisiva, talvez imprudente, inquirição teve resposta imediata, mas com observações cuidadosas de Mourão. Resumo o que chamou a atenção: “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos ou então nós teremos que impor isso”.
A imposição é expurgar dos cargos públicos relevantes os autores de ilicitudes amplamente divulgadas por todos os meios de comunicação e pelos quatro cantos do mundo. O que não será fácil,” pois “trará problemas”. O general evoca o passado, o período revolucionário e a ditadura, enfatizando os “sucessivos ataques que nossa Instituição (as Forças Armadas) recebeu, de forma covarde, de forma não coerente com os fatos que ocorreram no período de 64 a 85. E isso marcou a geração”, a sua.
Ressalta que companheiros até hoje dizem assim: “poxa, nós buscamos fazer o melhor e levamos pedradas de todas as formas”. Observa: “Mas, por outro lado, quando a gente olha o juramento que nós fizemos, o nosso compromisso é com a nação, é com a pátria, independente de sermos aplaudidos ou não. O que interessa é termos a consciência tranquila de que fizemos o melhor e de que buscamos de qualquer maneira atingir esse objetivo”.
Já o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, diante do eco das palavras do general Mourão (que nada tem a ver com o general Olímpio, da Revolução), conceituou: “Desde 1985 não somos responsáveis por turbulência na vida nacional e assim vai prosseguir”. Além disso, “o emprego (da força do Exército) será sempre por iniciativa de um dos Poderes. A Força “defende a manutenção da democracia, a preservação da Constituição, além da proteção das instituições”.
As declarações são suficientemente claras, pelo que depreendo. As iniciativas supervenientes serão, portanto, de um dos três Poderes em hora propícia. O ministro Marco Aurélio, do STF, reconhece: “Estamos diante de uma crise institucional. É muito grave”. Os dias e noites são de expectativa, de até dorida inquietação para um povo que já pagou R$ 1,5 trilhão em impostos neste dificultoso 2017.


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Por Manoel Hygino - 2/10/2017 07:17:01
Um gigante na Afonso Pena

Manoel Hygino

Neste ano, Belo Horizonte comemora 120 anos como sede do governo estadual. É data para se comemorar, evidentemente. Mas também vale enfatizar que, em 2018, se registrará o 70º aniversário de conclusão das obras do Edifício Acaiaca, o mais significativo empreendimento imobiliário particular e da indústria da construção civil na avenida Afonso Pena, no coração da cidade de Aarão Reis.
Dos velhos tempos, pouco resta e o que resta não tem a grandeza e a importância do Acaiaca, cuja história Antônio Rocha Miranda descreve em “Edifício Acaiaca – O colosso humano e o concreto”. Sua primeira edição é contemplada com trechos extraídos de reportagens de nossa imprensa diária e dos novos meios de comunicação.
Bom que se diga: O autor da publicação integra a dinâmica administração do grande centro de negócios e convivência na principal via pública de Belo Horizonte. Assim, está em permanente contato com sua vida, seus problemas, seus desafios, que certamente não faltariam em um complexo pelo qual passam diariamente mais de dez mil pessoas.
Tudo ali é portentoso, gigantesco, desde a ideia inicial da construção pelo empresário Redelvim Andrade, um cidadão nascido em Mendanha, distrito de Diamantina. Ele estudou farmácia como Carlos Drummond de Andrade, mas, na segunda grande guerra, já era conhecido como exportador de 1/3 da produção brasileira de cristal, essencial matéria-prima para a guerra contra o Eixo.
Fez bem Antônio da Rocha Miranda ao pesquisar sobre o Acaiaca e elaborar o seu minucioso estudo. Não simplesmente, por se tratar de um símbolo da Art Déco, tão representada na terceira capital dos mineiros. De fato, Belo Horizonte foi concebida para ser moderna, portanto cumpria renovar sua linguagem em sintonia com os novos ventos que vinham das cortes europeias, como sublinhou Flávio Carsalade, que entende profundamente do assunto.
Com JK e após ele, Belo Horizonte não era, óbvio, mais a mesma da época da construção. O moderno preconizado pelo déco, precisava ser atualizado com a abolição de ornamentos. Sua direção seria para uma arquitetura mais racional, consoante o pragmatismo da era industrial. O modernismo não poderia faltar em uma cidade que se gabava de moderna. Assim, foi o projeto do edifício, que se deveu à competência do arquiteto Luiz Pinto Coelho, genro do empresário Redelvim.
Mineiro de Peçanha, empreendedor nato como o próprio coestaduano, este filho de Mendanha, Antônio Rocha Miranda nos revela a grandeza do edifício, a ousadia de seu construtor, o “rei dos cristais”, evocando a significação do complexo em frente à Igreja São José, local que abrigara a antiga Igreja Metodista, em cujo terreno foi erguido.
Há muita história. No Acaiaca, em seus 29 andares, estabeleceram-se importantes empresas mineiras, a primeira televisão do Estado, uma decantada boate, a sede de várias entidades, como a Fundação Mendes Pimentel, as Faculdades de Filosofia e Letras da UFMG. Lá se reuniram mineiros de prestígio para se contraporem ao governo de João Goulart, lá os revolucionários de 1964 se manifestaram publicamente. Lá se encontra a sede da Fundação Logosófica – Um Portal da Superação Humana e o antigo cinema que recebeu o nome do edifício, que dispunha dos mais velozes elevadores de toda a capital, excitando as crianças que o visitavam.
Para conhecer-se mais, tem-se de recorrer mesmo ao livro, que exibe que a escultura do frontispício e que de longe se admira, modificada pelo próprio escultor, Luiz Pinto Coelho. Ele vira na versão original apenas uma figura de gangster americano furioso.


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Por Manoel Hygino - 30/9/2017 08:20:32
Os caminhos para a Saúde

Manoel Hygino

Em dias recentes, tenho realçado atividades que não os embates políticos, as discussões no Legislativo ou as decisões do Judiciário, que tanto atraem a atenção dos brasileiros que querem viver em uma nação sem crise. E sem corrupção, certamente.
O leitor atento verificará uma transformação nas notícias da área de saúde, sobretudo quando se trata da mais antiga instituição no gênero da capital. Até tempo relativamente recente, a Santa Casa tornava públicas as suas dificuldades e angústias para bem atender à enorme clientela. Obrigou-se até a reduzir o número de internações para não faltar com a assistência imprescindível e tradicional.
Parecia-se voltar aos primórdios. No princípio do século passado, quando Belo Horizonte tinha 15 mil habitantes, as despesas da instituição somavam dez contos mensais com aquisição de medicamentos, gêneros, rouparia e pagamento de empregados. Sem crédito, viveu momentos de terrível apertura. Seus dirigentes tiveram de apelar a empréstimos pessoais para superar a situação, enquanto as barracas de lona que abrigavam os enfermos ameaçavam desabar.
A propósito, recordo que, em 19 de maio de 2018, completam-se os 400 anos do Compromisso de Lisboa, que organizou a gestão das Santas Casas, criadas pela rainha Leonor de Lancastre. Com isso, assegurava-se a manutenção dessas entidades embora a duras penas, através de esmolas, contribuições dos irmãos e de setores da comunidade. Quatro séculos após, em Belo Horizonte, a mesma inquietação e o temor do pior.
No entanto, graças a medidas emergenciais, intenso labor junto a quem pudesse ajudar, os governos e o cidadão comum, aos nossos
parlamentares e à sensibilidade do empresariado, foi-se mudando o quadro.
Os resultados chegam. Os desafios não foram inteiramente ultrapassados, até porque hospitais, médicos e funcionários, precisam atualizar-se, sem cessar; a tecnologia e a indústria farmacêutica produzem algo sempre de mais avançado e útil. A ciência não para. As dores humanas estão aí para serem amenizadas ou curadas, vidas precisam ser salvas.
Quando festejou seu aniversário, no dia de São Miguel, o provedor da Santa Casa de BH, Saulo Coelho, sente-se, como todos os da instituição, recompensado com informações que alentam e incentivam. Comissão do MEC, que visitou as instalações visando a instalação da Faculdade de Medicina SC, conferiu-lhe conceito 5, o máximo. Contribuíram para o resultado ser a instituição uma das 300 melhores empresas do país, de acordo com o Guia Época Negócios, 360º 2017, ser hospital classificado como o maior filantrópico de Minas no âmbito do SUS e tido entre as cem melhores ONGs do Brasil, no ranking da revista Época e Instituto Doar.
O provedor com mais longa gestão na Santa Casa foi José Maria Alkmim, com 36 anos, dois meses e alguns dias. Sua maior obra é o Hospital Emídio Germano, que acolhe mais de 1.100 pacientes. Saulo quer continuar o seu trabalho, que já totaliza 17 anos. Depois de instalar o Centro de Especialidades Médicas, com o maior atendimento no Estado, contabiliza outros números altamente favoráveis. Instalou o equipamento neuronavegador, duplicou a capacidade para cirurgias de epilepsia, criou o ambulatório de oncologia pediátrica e sua clínica de transplantes (já referência para o Estado) bate recordes de procedimentos. Com autorização para transplantes cardíacos e cirurgias para cardiopatas infantis de todo o país, é tempo de festejar. E levantar mais recursos para bem servir
ao povo, porque a consciência é de sempre fazer muito ainda para quem precisa.


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Por Manoel Hygino - 26/9/2017 06:40:43
Mariana sempre nas letras

Manoel Hygino

Mariana, sempre viva. Primeira vila, primeira capital da capitania de São Paulo e Minas do Ouro, primeira cidade; primeiro bispado e arcebispado; resistiu no correr do tempo a toda espécie de desastres, entre os quais o mais doloroso e recente: a destruição do subdistrito de Bento Rodrigues, atingido pelo rompimento da barragem do Fundão.
Em comemoração aos 305 anos de vila e capitania lançou-se, ano passado, na Academia Mineira de Letras, em Belo Horizonte, o livro “Mariana: assim nasceram as Minas Gerais”. De autoria de Roque Camêllo, saudoso advogado marianense, ex-prefeito, apaixonado pela terra que o viu nascer, teve edição e coordenação editorial do também escritor Gustavo Nolasco, da Academia Marianense de Letras.
A repentina morte do autor da excelente obra não interrompeu, contudo, nem poderia, a tradição de cultura e de riqueza na produção literária e histórica da cidade de Cláudio Manuel da Costa. Em 2016 mesmo editou-se “Crônicas e Contos de Escritores Marianenses”, reunindo três figuras femininas importantes nas letras do velho burgo. Assim, Andreia Donadon Leal, Hebe Rôla e Magna Campos, que nos oferecem do bom e do belo de sua criatividade.
Andreia, nascida na natal Itabira de Drummond, encontrou pouso sereno em Mariana, onde instalou sua incessante oficina de trabalho, inclusive com iniciativas e campanhas que ultrapassam os limites locais e estaduais, como se constata de uma biografia, curta cronologicamente, mas extensa em labor. Formada em letras pela UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), também especialista em artes visuais, cultura e criação e mestre em literatura, já conquistou seu lugar. No volume em questão, ela comparece em cronicurtas e na exposição franca de pensamentos e sentimentos diante do cotidiano. “Tanto sono perdido, tanta enciclopédia consultada, tanto tratado científico, tanto, tanto, tanto é TANTO... pra quê? Se eu necessito tanto, tanto e tanto e do calor da vida”. Em “Lacripoemas”, poesia (2017), Dea fotografa estes dias: “depois da estiagem/deste inverno seco/chegam chuvas/derramando das nuvens/ gotas de esperança”.
No trio, está Hebe Rôla, escritora, pesquisadora e contadora de histórias, dedicada caprichosamente à linguagem dos sinos, filiada a várias entidades culturais e literárias, dentro e fora do Estado, inclusive a Academia Marianense de Letras, Ciências e Artes. A autora lembra a figura de Ritota e sua expressão linguística, num rosto que jamais estampou sofrimento, dificuldades que a vida lhe trazia. Despertava os bêbados na calçada e aconselhava: “meu fio, larga de bebê, a manguança é coisa do Sujo, do Caramunhão!”.
Nascida em Ouro Preto, Magna Campos é também mestre em letras, professora de ensino universitário, escritora, e integra a Academia de Letras, Ciências e Artes do Brasil, cuja sede é na cidade de Roque Camêllo. Ela relata a vida e a maneira de ser de seu Euclides, morador na zona rural, esvaziador de fornos de lenha para carvão, folclórico negociador de um cavalo e de uma égua, que viveram pouco após a morte do dono.


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Por Manoel Hygino - 23/9/2017 06:37:21
Cães que apenas ladram

Manoel Hygino

Paradoxo. No último dia 19, um terremoto alcançou 7,1 graus na escala Richter, sacudindo a cidade do México e até provocando cenas de pânico, 32 anos após o terrível tremor que deixou um saldo superior a 20 mil mortos. Jamais saíram da memória dos sobreviventes aqueles trágicos momentos de 1985. Pensando exatamente em nova catástrofe, as autoridades tinham promovido simulações de um novo cismo, na véspera.
Mais acima do mapa, como se o homem fosse dono do destino alheio, o presidente dos Estados Unidos, de temperamento instável e impulsivo, como admitem seus próprios auxiliares, ameaçou na mesma data iniciar um ataque nuclear contra a Coreia do Norte. Uma alta autoridade de Tio Sam considerou “assustadora e preocupante” a situação e alertou que só o Congresso pode declarar guerra. Entretanto, um ataque nuclear exigiria apenas minutos para ser decidido: doze, sim – 12 minutos – para o míssil atômico sair de submarino e atingir o alvo.
Os técnicos são minuciosos: para chegar a isso, Trump terá sua identidade checada pelo chefe-adjunto do Comando Militar Nacional, através de uma contrassenha. Se confirmada, a ordem será inserida no sistema, que gerará mensagem criptografada de 150 caracteres, que alcançará os centros militares, com suas 1.800 ogivas prontas para ataque.
Enquanto sobre os japoneses pesa ainda o terrível trauma pelas explosões atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima, que resultaram em muitos milhares de pessoas mortas e semidestruídas ao fim da II Grande Guerra, a Coreia do Norte anuncia poder afundar o Japão com armas nucleares e reduzir os Estados Unidos a “cinzas e escuridão”.
Assim, temos um presidente temperamental à frente da maior potência mundial e um aloprado no outro extremo, contrapondo-se por enquanto em termos verbais. Ainda bem. Se se passar das palavras aos fatos, o mundo tremerá mais do que no século passado em Nagasaki e Hiroshima, muito além do ocorrido no México, neste setembro de tão cruéis lembranças. (Explico: não existe em língua portuguesa a palavra “aloprado”, referida por ex- presidente da República. O vocábulo é alorpado, significando apatetado, apalermado).
Para Trump, porém, o regime de Kim Jong-un é de um “depravado”, que preconiza uma “missão suicida”. No caso da Venezuela, o presidente atribui a culpa pelos graves problemas atuais e o sofrimento dos venezuelanos a Nicolás Maduro, que destruiu a nação através de uma ideologia fracassada que só trouxe pobreza a todos os lugares onde foi implementada”.
Resta a certeza de que, além dos integrantes do Estado Islâmico e de movimentos e grupos sem compromisso com a paz e a vida, há pessoas, com condição de mando, que se articulam contra o bem do homem e da humanidade. A própria natureza protesta contra a ação destruidora dos habitantes do planeta, e se vive permanente inquietação em face das ameaças de toda espécie e procedência. Como evitá-las?
As declarações de Ri Yong-ho, chanceler da Coreia do Norte, são significativas. Para ele, Donald Trump faz graves prenúncios, mas somente late, talvez considerando o adágio de que cão que ladra não morde. Assim, esperam os homens de boa vontade de nosso tempo, que apenas sonham com um mínimo de tranquilidade para cumprir o destino de sua passagem.


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Por Manoel Hygino - 22/9/2017 07:26:07
No sertão, o acidente na via pública

Manoel Hygino

No dia 8 aconteceu. O menino de 11 anos, que ia com o pai, de 50, em carroça carregada de madeira e entulho, foi vítima de acidente. O veículo foi colhido por um coletivo, tombou e uma porretada atingiu a criança. O pai, ao voltar de desmaio, comentou: “ele estava mole sobre mim”.
O depoimento, cruel, se estendeu. “Eu já sabia que tinha morrido. Ele sempre me acompanhava. Era meu companheiro. Não sei o que vou fazer”. O rapazinho acordava diariamente antes do pai e cuidava de alimentar o cavalo que puxava a carroça, sustento da família. Ajudava o pai e, à tarde, frequentava a escola.
Havia dois irmãos: de 16 e 4 anos, e uma irmã, de 13. Estudava no sexto ano. A mãe, que chegou em seguida ao local do episódio, resignou-se: “pelo menos, agora está num lugar melhor”.
Naquele dia, registrava-se o maior terremoto dos últimos cem anos, com 8,2 graus, no México. Um alerta de tsunami levou o medo a milhões de pessoas, enquanto mais de sessenta perderam a vida e centenas se feriram. As regiões mais afetadas se localizavam nos estados de Oaxaca e Chiapas, os dois mais pobres do país.
No Sudeste brasileiro, as temperaturas subiram nos termômetros, as camisas se encharcaram de suor, a umidade do ar alcançou altos índices. A meteorologia não previa chuvas nos dias seguintes, como lamentavelmente ocorreu.
Nos gabinetes com ar-refrigerado de Brasília, discutiam-se as mazelas e crimes no cotidiano da administração pública e nos corredores parlamentares, buscando meios e jeitos de os já acusados, ou ainda não, se safarem da conjuntura adversa. Todos tão inocentes, as pistas são falhas, tendenciosas e falaciosas, tudo
invenção dos adversários e da imprensa, que parece cuidar apenas da maledicência e da divulgação de notícias inconsistentes.
Desengonçadas carroças do interior brasileiro não transportam fortunas sob sol forte e castigante. Milhões em cédulas não circulam pelas ruas aos cuidados de pais paupérrimos e crianças que acordam em horas ermas. Para os proprietários de riquezas, há meios especiais de transporte e locais adequados para depósito seguro.
Há mais de dois mil anos, um cidadão, cuja existência é ainda posta em dúvida, advertia: “Ai de vós, que carregais os homens com fardos difíceis de suportar”. Estes registros e considerações impelem-nos, quase automaticamente, a um pastor batista em Montgomery, Alabama.
Depois de Martin Luther King assumir o posto de pastor da Igreja Ebnézer, na Geórgia, pronunciou um discurso que se multiplicou pelos quatro cantos do mundo. Do alto dos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, declarou: “Eu tenho um sonho... Eu sonho que, um dia, todo o vale se elevará e todas as colinas e montanhas abrandarão. Os lugares acidentados serão nivelados, os caminhos tortuosos se endireitarão, a glória do Senhor se revelará”.


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Por Manoel Hygino - 20/9/2017 07:18:11

O legado da Rua de Baixo

Manoel Hygino

Dele se poderá dizer, sem medo de errar: é uma joia. Refiro-me a “Rua de Baixo”, livro que tem subtítulo “o passado reencontrado. ”Seus organizadores foram Fabiano Lopes de Paula, Adriana Lopes de Paula Andrade, Bernadete Versiani Santos e Virgínia de Paula.
Os textos, incluindo a poesia, são de mencionados autores, além de João Soares da Silva, Nair Maria Machado Souto, Maria Lúcia Oliveira Teixeira, Wagner Gomes, Magda Caribé, Walda Ataíde, Waldoniza Maria de Souza, Palmira Oliveira Teles, João Caetano Canela, Beatriz Sarmento Veloso, Cláudia Veloso Colen, Dulcivânia Ferreira Leite, Iolanda Xavier Souto, Diomar Alves de Souza, Maria do Carmo Batista, Maira Eny Lopes dos Santos, Lúcia M. Oliveira, Ruth Tupinambá Graça, Luiz Ortiga, Wilson Castro Brito, Maria Aparecida Soledade Brito, Maria da Glória Xavier (Dudu), Adriana Lopes de Paula, Maria Marcolina Teixeira Figueiredo (Naná), Fábio Guerra Maurício, Maria Aparecida de Paula (Lota), Vera Lúcia Andrade, Maria de Lourdes Souza Vieira, Maria José Freitas (Zezé), Luciano Lopes de Paula, Raimundo Nonato de Freitas Júnior, Sueli Teixeira de Freitas, Francisco Lopes (Tico Lopes), Maria das Graças Queiroz Maurício, Murilo Maciel, Haroldo Lívio, Geraldo Prates e Augusto Vieira.
Vê-se que o parágrafo ficou extenso, para um comentário com o espaço restrito que lhe é destinado. Mas não deixaria de relacionar os nomes dos colaboradores de volume tão precioso a Montes Claros e tão caro aos que ali nasceram e a amam. Tampouco ignoraria a arte de José Augusto Ramos, as fotografias do acervo dos autores citados, do “Álbum Moc Antiga” e Facebook de Maria das Dores Guimarães Gomes e Wagner Gomes. Da cuidadosa revisão, se encarregaram Cristina Lopes Oliveira, Bernadete Versiani dos Santos e Júlia Leocádia das Graças.
A edição não é nova, mas a valia da obra é permanente, pela sucessão de depoimentos, pelo material que enriquece a iconografia, pelo prefácio de Antônio Roberto. Este não esquece o padre Dudu, pároco da matriz, tampouco Anália, amiga da família – “eterna e principal dama da noite e a mais ilustre cafetina do Norte de Minas. Era ali em seu recanto de sonhos e mulheres dadivosas, na rua proibida para filhas virtuosas, que os mais conceituados homens da Rua de Cima deitavam seus corpos e entregavam suas almas”.
Entre os que comparecem a estas páginas, em textos e imagens, alguns não estão mais fisicamente entre nós, como Haroldo Lívio. Sua presença, porém, neste verdadeiro álbum, constitui sincera homenagem e atestado de perenidade que a “Rua de Baixo” conquista. Trata-se mais do que uma peça literária. É uma obra de reconstrução histórica extremamente rica, que transporá os limites do tempo, com fatos e imagens de comovente beleza.
Como Geraldo Prates, de uma família de gente querida da parte de baixo da cidade, os que viveram na parte de cima, lembrarão a exibição da Euterpe no terraço do edifício do semanário “Gazeta do Norte, executando velhos dobrados de bandas. Na Gazeta, publiquei meu primeiro artigo. O jornal, de propriedade de Jair Oliveira, fundado pelo pai, José Tomás, me abriu as portas.




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Por Manoel Hygino - 18/9/2017 07:21:16
As malas e os males

Manoel Hygino

Objeto de crítica dos apaixonados pelas velhas formas de poesia, os modernistas ganharam principalmente espaço e prestígio a partir de 1922, quando da Semana de Arte, em São Paulo. Drummond, em seu laboratório literário, não escapou à exacerbada sanha de veementes adeptos dos antigos.
Havia muitas pedras no meio do caminho do poeta de Itabira, mas foram ultrapassadas. Sua criação se tornou popular e celebrada, tanto que Flávio Perri, ex-embaixador do Brasil que serviu ao Itamaraty em Genebra e Nova York – ONU, em Paris e Roma, escolheu para título de seu livro de estreia “Nel Mezzo del Camim”, há mais de quinze anos.
Drummond encontrou uma pedra no meio do caminho. Há mais de um século, também, quando vinha da Mumbuca para Montes Claros, conduzindo um carro de bois e, ao passar pela Vargem do Barreiro, a légua e meia da cidade, o carreiro Rozendo tropeçou em um objeto de peso enorme.
Apanhou a pedra esquisita e, levando-a na cidade até a casa de Augusto Dias de Abreu, que entendia da coisa, verificou tratar-se de uma pepita de ouro, pesando 728 gramas e meia. A pedra foi vendida a Sérgio Guedes, por intermédio de Neco Lopes, por 400$000 e daí pra frente nada mais se soube dos referidos personagens, sequer do destino da pepita.
Há gente com e sem sorte nos caminhos da vida e nos muitos andares da sociedade. Os ventos de setembro viravam redemoinhos, suscitando na memória a lenda do diabinho, o operador do fenômeno descrito por Guimarães Rosa, lembrado por Paulo Narciso: “Redemoinho; o senhor sabe – a briga de Ventos. Quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, o estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando... (redemunho era d’ele- diabo). O demônio se vertia ali, outro viajava. Estive dando risadas. O demo!”.
Decorreu o tempo, incessante e inexorável. A Polícia Federal - aplaudida no desfile de 7 de Setembro, em Brasília – já filmara um homem de confiança do presidente transportando à mão uma assás competente mala carregada de dinheiro, que alcançaria a expressiva quantia de R$ 500 mil. A Federal prejudicou a sorte alheia, em pleno cotidiano paulistano.
Em outro estado e capital, dias depois, a referida PF, que parece não ter outros afazeres, identificou em um apartamento, em Salvador, em área nobre, o bunker em que se escondiam várias malas e caixas cheias de cédulas nacionais e estrangeiras. Que trabalho para as máquinas especializadas em contar dinheiro! Mais de R$ 50 milhões e dólares formavam o Tesouro Perdido, não mais disfarçado em ouro para incomodar carroceiros de sertões inóspitos.
No tempo presente, não se perde tempo e oportunidade em carregar o minério, precioso e bruto, para avaliação de ourives. A tramoia, aparentemente generalizada, circula em cédulas ou em diversidade de contas do sistema financeiro.
Quanto às explicações de possíveis suspeitos ou culpáveis, são sempre as mesmas e os apresentadores de televisão já as sabem de cor. São todos inocentes, embora – só no caso da Petrobras – o prejuízo aos cofres públicos seja da ordem de R$ 29 bilhões. Quem o diz é o Tribunal de Contas da União.


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Por Manoel Hygino - 15/9/2017 06:39:11
O encantamento dos rios

Manoel Hygino

Fim de semana preocupante em setembro. Bombas lá e cá. O presidente Putin, da Rússia, adverte que o mundo está “à beira de um conflito de larga escala”. Para ele, é um erro os EUA “pressionarem Pyongyang com sanções sobre seu programa de míssil nuclear”. Reação militar à Coreia provocaria “uma catástrofe planetária”. Com o alerta, Moscou e Washington se contrapõem. Do lado de cá, a manchete é outra: “Nova bomba de Janot atinge STF e Procuradoria-Geral da República”, referindo-se a “crimes gravíssimos da JBS, cuja delação poderia ser anulada”.
Véspera de feriadão do dia 7, Dia de São Zacarias e do Alfaiate, de inquietação pela tensa situação na Ásia e das devastadoras notícias sobre os escândalos que assolam o país. Uma pletora de informações sobre a ousadia dos assaltantes em todas as regiões, ocupando espaços ponderáveis na mídia. O fato se repete, em todos os mesmos estados, no Sudeste com ênfase no Rio de Janeiro e São Paulo. Assusta. Não resta dúvida de que os bandidos de todas as facções criminosas não dão sossego a Minas, cujas cidades menores são atacadas várias vezes por semana.
Li nos jornais e vi pela televisão a ação de toda essa cambada. No dia 5, pela manhã, em torno de 10h40, dez assaltantes em quatro carros e uma moto interceptaram um carro-forte e o explodiram. Houve intensa troca de tiros, numa rodovia perto de Jaboticabal, dinâmica cidade em que é professora a historiadora Zina Bellodi, de prestigiada família de imigrantes italianos. Houve um cerco na região de Sertãozinho, Barrinha e Jaboticabal, onde há grande produção de cana. A empresa proprietária do veículo assaltado “não comentou sobre os valores transportados”. Adiantaria?
Na minha região natal, o dia começou com o aviso da 98 FM, de Montes Claros. Observatório Sismológico de Brasília confirmou o registro de tremor de terra, quando já se abriam as portas do comércio: intensidade de 2,1 graus. A população obviamente se assustou e quis saber mais. A cidade norte-mineira tivera até então oito tremores em 2017, dos quais cinco só no dia 27 de abril. Um jornalista resumiu: “Uma pancada surda. Solitária. Rasa, rápida. Como se alguma coisa pesada caísse no centro da Terra. Exatamente às 6h10. A terra tremeu”.
Como se fora pouco, outra informação preocupante: o rio Congonhas, em Itacambira, está morrendo, podendo inviabilizar seu aproveitamento até para consumo humano. O técnico no assunto, José Ponciano Neto, acrescentou: destaca-se na bacia do rio a silvicultura do eucalipto e do pinos, enquanto no passado derrubaram-se as matas nativas para produzir carvão. Várias nascentes já secaram e outras agonizam.
No dia 6, nova medição de vazão. Conclusão: “a situação é das piores. Como no ano passado, a corrente vai secar. Sua salvação depende dos homens e estes não são como os descritos por Guimarães Rosa que “ficam encantados”. Eles morrem de fato e podem levar consigo gerações, virando notícias nos veículos de comunicação. As futuras gerações se limitarão a comentar...


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Por Manoel Hygino - 14/9/2017 07:39:29
A inocência dos suspeitos

Manoel Hygino

As acusações são gravíssimas e envolvem pessoas dos mais altos escalões da República; pairam suspeitas sobre a conduta de membros do Judiciário, do Executivo e do Legislativo. A honestidade e a dignidade daqueles a que se atribui a elevada distinção de representar o cidadão nas grandes decisões nacionais, envolvendo o presente e o futuro, estão no plano das dúvidas. E mais do que isso.
Não tratamos sequer da participação de grupos empresariais de reconhecido conceito até aqui dentro e fora do país; tampouco de outras organizações de pessoas que, no decorrer das investigações, surgem no âmago dos escândalos. A notícia dos mais vis atentados contra a honra não mais surpreende ou causa indignação.
O quadro é de estarrecimento, se adequado o substantivo, como espanto e assombro. No entanto, só se tomou conhecimento da extensão e profundidade da tragédia quando ela já envolvia segmentos importantíssimos de nossa vida como país, nação e povo. Como se permitiu?
Sem embargo, diante de declarações, testemunhos, informações, denúncias, a alegação é de que não há provas. Ao contrário do título do velho filme francês “Somos todos assassinos”. Todos se afirmam inocentes. Candidamente injustiçados.
Há de se concordar com Ricardo Mendes, autor de “Os 8 Portais do Caminho” e “Andando em Círculos”, considerando certa benevolência com relação a muitos dos ora arrolados por suspeita de delinquência. Não me parece que “a inocência, como o para-brisa de um automóvel, é um item que trazemos de fábrica. Ela nos dá o álibi de que precisamos para desembarcar no mundo imaculado, sem que ninguém possa de antemão dizer que estamos implicados em qualquer assunto”.
A grande maioria dos envolvidos na delinquência certamente sabia de seus atos, dos riscos que corria, distante da perspectiva infantil, “perpetuando a fantasia de que é possível crescer neste mundo protegido pelo blindex da inocência”.
Em verdade, “ninguém é obrigado a ocupar posições se não se sente preparado ou se dobrar as tentações do caminho,.... o do poder é árduo, com muitos testes cujas “consequências podem atingir milhões de outros”.
O articulista se espanta por a discussão girar “unicamente em torno da falta de provas, do desconhecimento de práticas tão antigas inerentes a esse mesmo sistema. Somos levados a criar torcidas como no futebol, que se enfrentam nas ruas e expressam de maneira irrefletida o papel ordinário que nos coube a todos: escolher o lado de defendê-lo nas redes sociais”.
Neste sentido, parece secundária a discussão sobre qual partido ou político deveria ocupar o posto de presidente. Uma estrutura à mercê de interesses corporativos não é a conveniente.
Verdade: “mais do que governos de esquerda ou direita, precisamos que o poder seja ocupado por quem possa sustentar a perspectiva do Amor no olhar para o bem-est5ar coletivo. Estou cansado desta discussão polarizada que apenas nos divide, opõe, mas não toca no essencial. Me recuso a compartilhar da inocência de qualquer sigla e de doar meu tempo para fomentar o ódio de qualquer das partes que se deixaram partir”.


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Por Manoel Hygino - 13/9/2017 07:11:46
O legado do dignatário

Manoel Hygino

Lembramos os vinte anos de falecimento de dom Oscar de Oliveira, aos 85 anos, arcebispo de Mariana, quando Belo Horizonte, festejava seu centenário. J.D. Vital, culto homem de imprensa, o reverenciou, em 10 de agosto, com uma palestra objetiva e lúcida na Academia Mineira de Letras, a que o alto dignitário pertenceu ocupando a cadeira de nº 27, na vaga de dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta.
Muitas perdas, no circuito internacional, registrou o palestrista, mas dom Oscar foi dos menos recordados. Naquele ano, partiram: Deng Xiaoping, o criador do capitalismo de Estado na China; Diana, “a princesa do povo”, da Inglaterra, num túnel em Paris; Herbert de Souza, Betinho, da campanha contra a fome; Vicente Matheus, presidente do Corinthians; Darcy Ribeiro e Paulo Freire; o jornalista Paulo Francis; Walter Clark, diretor da TV Globo; e a recém-canonizada Madre Tereza de Calcutá, criadora das missionárias da caridade na Índia.
Sucessor de dom Silvério Gomes Pimenta e de dom Helvécio Gomes de Oliveira, dom Oscar morreu na madrugada de 23 de fevereiro, em Entre Rios de Minas, onde nasceu e foi coroinha. Praticamente esquecido, a despeito de sua grande importância cultural.
A explicação é de Vital: razões ideológicas e armadilhas da história. “Parte da esquerda católica tomou nota, parágrafo por parágrafo, palavra por palavra, da carta-pastoral que o arcebispo escreveu em 9 de fevereiro de 1964, intitulada “Comunismo, Religião e Pátria”.
Em 1966, “outro acontecimento deu versão a novos comentários e posicionamentos dos devotos do esquerdismo denunciante na Igreja. Em 8 de setembro, após uma série de desavenças, mal-entendidos e incompreensões, foi fechado o Seminário Maior de Mariana, conforme relato em meu livro A revolta dos anjos de Minas ou da diáspora de Mariana”, afirma Vital.
Resultado: “O episódio feriu e amargou a alma católica de Minas. E ganhou o furor nacional de muitos esquerdistas católicos que, às vezes, para estribar suas convicções ideológicas, costumam lançar ao geena da história quem pensa ou age de forma diferente da deles. Dizia-se, em visão simplista, que o seminário fechara porque o arcebispo, alinhado ao governo militar, batia-se contra os avanços do Concílio Vaticano II”.
A questão era mais ampla e profunda, gerando “a má vontade dos que pouco o consideram (ao prelado), seja no campo pastoral, seja no cultural ou na literatura”. Tem-se omitido que dom Oscar criou o jornal “O Arquidiocesano”, que circulou 36 anos, e instalou uma gráfica para editá-lo, não se lhe reconhecendo o legado, inovador e patriótico, ao patrimônio histórico, artístico e cultural de Minas Gerais”. Seus vanguardismo inspirou a criação de museus de arte em Minas, a exemplo dos de Arte Sacra e o de Música, em Mariana reconhecidos pelos organismos culturais do mundo ocidental.
Uma palestra, esta do J.D. Vital, que precisa ser conhecida pelo expressivo número de informações. E ele fala de cátedra, inclusive por ter sido chefe da assessoria de imprensa de Tancredo Neves, que saudou dom Oscar em sua posse na Academia Mineira de Letras.


82689
Por Manoel Hygino - 12/9/2017 07:27:14
Pelo menos, esperança

Manoel Hygino

Uma semana em plena turbulência. Sabotada por numerosos agentes, sobretudo pelos que atuam insensatamente no campo político e são responsáveis pelos sucessivos escândalos, que avultam e aviltam a vida nacional, a aeronave balança estrepitosamente no espaço. Só não se destrói porque forças divinas a mantêm a despeito de todos e de tudo, diante da vulta da tempestade.
Não é necessário descrever o quadro, o ambiente em que atores e autores se envolvem em embates e debates que a nenhum lugar seguro encaminham.
Não há base sólida suficiente para uma tomada de voo. Um jornalista considerou a reforma política incompleta e inconclusa, e é apenas um item.
O governo, na tentativa de representar-se como salvador em tão grave situação, apresentou ideias múltiplas para solução (?) dos problemas mais asfixiantes. Mas o tempo é curto para as grandes transformações, indispensáveis, mas que não encontram respaldo em altos escalões da República.
Os que decidem e decidirão tampouco gozam da confiança da população, que conhece, no embalo interminável da troca de acusações, pormenores da banca de negociatas em que se transformou a administração pública. Que me perdoem os bons, justos e sábios que remanescem. Sequer estaríamos mais no ar, no espaço, mas no lamaçal, e até os motoristas de automóveis sabem como é difícil e sacrificante tirar o veículo do atoleiro.
O cidadão pouco ou nada se interessa pelas propostas apresentadas para resolver (?) os intricados desafios com que nos deparamos. O que interessa é trabalho, remuneração adequada tanto quanto possível, sustento para a família, segurança em casa, nas ruas e no campo, educação e saúde de boa qualidade, embora mais se preocupem os gestores com o divertimento, mantendo em pauta a antiga lição de pão e circo, mesmo crescentes as dificuldades para amansar os apelos da fome.
Não assistimos ao fim da tragédia, apesar do anseio dos mais de duzentos milhões de brasileiros que pensam e vivem em situação de permanente inquietação. Mas o governo e a classe política, como um todo e de um modo geral, enfrentam também a desconfiança e o descrédito, sem cujo sepultamento não haverá vitória definitiva.
Envergonha-se o cidadão quando ouve o noticiário de rádios e tevês ou o lê nos jornais e revistas. A que ponto chegamos! Comenta-se, e a preocupação com o futuro se agiganta. Se estamos no ponto em que nos encontramos, cabe agora perguntar para onde vamos e até quando suportaremos.
De volta do Oriente, a que se deslocou movido pela necessidade de medidas efetivas à reconquista da confiança nacional e à tentativa de reversão do tristíssimo ambiente de agora, se conseguiu resultado econômico animador, caberia imbuir o brasileiro da probabilidade de melhores tempos e oportunidades. Não se poderá perder a esperança, a última que morre – segundo a convicção geral.
Pelo menos que venha a bênção dos céus, não nos faltando chuva.


82680
Por Manoel Hygino - 8/9/2017 07:09:47
Boschi chega à Academia

Manoel Hygino

Em 17 de agosto último, a Academia Mineira de Letras inaugurou o retrato de seu ex-presidente Olavo Romano. Ato simples, como acontece comumente na Casa de Alphonsus. Na mesma tarde, elegeu-se acadêmico o historiador Caio Boschi, que ocupará a cadeira de número 30, vaga do também historiador Oiliam José, falecido este ano. Um digno sucessor para um nobre homem de letras, devotado à história, respeitado como secretário perpétuo da Academia, título justíssimo por quem tanto se interessou pela casa e por preservar-lhe a memória.
Com o ingresso de Caio César Boschi, Belo Horizonte ganha mais uma vaga no centenário sodalício, idealizado por mineiros de todos os quadrantes, fundado e instalado em Juiz de Fora, a proclamada Manchester pelo dinamismo de sua gente, por sua capacidade de realização no campo industrial mas também intelectual, cultural e artístico. Consolidou-se pela dedicação e pertinácia de seus diretores e hoje é reconhecida nacionalmente pela dimensão dos nomes que a formam, no campo das letras, e por que não dizer da política? Transferida para Belo Horizonte no final da primeira década do século passado, a Academia sempre acolheu com carinho brasileiros de toda procedência, não só mineiros.
Quando se aproxima o 110º aniversário de sua fundação (já em1919), com longa e bela história, a Academia recebe agora um belo-horizontino amplamente reconhecido e altamente conceituado, não só no Brasil. Doutor em história social pela USP, professor titular de história do Brasil na UFMG (aposentado agora) e também do Departamento da História da PUC Minas, ali exerce a diretoria do Centro de Memória e de Pesquisa Histórica, após desempenhar as funções de pró-Reitor de Pesquisa a Pós-Graduação, além de decano da Reitoria.
É bem-vindo, por todos os títulos à casa-sede da rua da Bahia, o austero palacete Borges da Costa. Quando tomou a decisão de disputar uma vaga, o mestre declarou que jamais cobiçara habilitar-se à honraria, mas se curvou aos convites dos futuros pares. Aceitou a deferência, por sua formação acadêmica e trajetória intelectual se situarem na área da História, “território no qual Oiliam José, dentre outros espaços, transitou com desenvoltura, autoridade e competência”.
Com dezenas de livros publicados, centenas de artigos e ensaios em revistas especializadas do Brasil e do estrangeiro, atuou na Universidade de Lisboa e do Porto, foi professor convidado da École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, e da Universidade de Salamanca. Membro do Conselho Editorial de revistas especializadas no Brasil e em Portugal, e sócio “brasileiro de número” da Academia Portuguesa de História e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, elogiado por intelectuais de Moçambique.
Não disponho de espaço para citar tantos prêmios e dignidades recebidas, mas não me omito quanto ao “Diogo de Vasconcellos”, que lhe foi atribuído pelo Governo de Minas por seu texto “Estado e Irmandades de Minas Gerais no Século XVIII”, o melhor trabalho de pesquisa sobre história mineira e o fato de seu agraciado pela República Portuguesa com a “Ordem do Infante D. Henrique”, no grau de comendador.
A eleição do professor Boschi à Academia Mineira de Letras é bem-vinda, numa hora em que a Academia desenclausura-se intramuros, passando a interagir com a sociedade, objetivando o estímulo ao conhecimento, o culto do idioma e a preservação da língua.


82676
Por Manoel Hygino - 7/9/2017 09:19:25
O referendo ao 7 de setembro

Manoel Hygino

Por fins didáticos, o episódio de 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, ficou preservado na memória da maioria dos brasileiros apenas pela imagem do quadro do pintor Pedro Américo, pintado bem anos após, e ao celebrado grito “Independência ou Morte”. Mas os fatos não são tão simples assim, e quem quiser saber mais poderá recorrer aos bons livros de história.

A declaração de Independência foi antecipada por entendimentos e desentendimentos, em que a Maçonaria teve destacada atuação. Já em 1821, fundara-se no Brasil uma loja maçônica, que se desdobrou em mais duas, constituindo as três um Corpo Maçônico, denominado Grande Oriente do Brasil.

A fundação do Grande Oriente visou fundamentalmente à permanência do príncipe Pedro no Brasil, enquanto a Coroa portuguesa exigia que ele voltasse a Portugal “para concluir e aprimorar seus estudos”. A decisão tomada no Dia do Fico foi a primeira atitude pública relevante do jovem filho de D. João VI. Para José Maurício Guimarães, autor de “Grande Loja Maçônica de Minas Gerais – História, Fundamentos e Formação”, especialmente no ano de 1822, a história do Grande Oriente se confunde com a História do Brasil; tanto que, em 2 de agosto, D. Pedro foi iniciado na Loja “Comércio e Artes”, recebendo o nome histórico de Guatimozim e, somente em 35 dias, viu-se exaltado, elevado e conduzido ao grau Rosa-Cruz.

Em depoimento atribuído ao padre Belchior, “mal D. Pedro apeara da besta, ordenara ao seu ajudante de ordens que fosse às pressas ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro, com as palavras “Independência ou Morte”, para ser colocado no braço por um laço de fita verde e amarela”.

Como são as coisas! O belo corcel do quadro de Pedro Américo não era cavalo, mas uma besta, como aliás conta Assis Cintra. Mas havia mais como observa José Maurício. O verde “das matas”, o amarelo “do ouro”, o azul “do céu” são apenas interpretações poéticas: o verde é a cor da Casa de Bragança, herdeira de Avis, a que pertencia Pedro, enquanto o amarelo correspondia à Casa dos Habsburgos, a de origem da princesa Leopoldina, esposa do príncipe regente.

Somente em 4 de outubro Pedro foi instalado – isto é, tomou posse – como Grão-Mestre do Grande Oriente. No dia 12, foi aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, uma espécie de referendo maçom ao 7 de setembro. Disse, entretanto, que se orgulhava do título conferido por um “povo leal e generoso”, mas não podia aceitá-lo como lhe fora oferecido. Escreveu ao pai: “O Brasil não precisa de proteção de ninguém, protege-se a si mesmo. Aceito, porém, o título de Defensor Perpétuo e juro mostrar-me digno dele enquanto uma gota de sangue correr nas minhas veias”.

Era um momento decisivo, porque a maçonaria estava dividida entre o grupo maçônico monarquista de José Bonifácio e o grupo maçônico republicano de Gonçalves Ledo. Constituía o ponto nevrálgico da história maçônica brasileira a grande encruzilhada: a maçonaria republicana levantando-se contra a maçonaria monarquista, disputando espaços nos vindouros tempos da nação nascente.


82671
Por Manoel Hygino - 6/9/2017 08:13:38
Setembro: Perspectivas e lembranças

Manoel Hygino

Tão esperado, finalmente setembro chegou, com o anúncio da Primavera, que aqui sai impresso com maiúscula inicial para demonstrar a confiança em dias melhores para o Brasil e os brasileiros. Apesar disso, as perspectivas ainda são sombrias, no mínimo duvidosas. Os horizontes políticos não são animadores e com os sintomas, tênues, de despertar da economia.
José Ponciano, técnico em meio ambiente e recursos hídricos, estudioso do tempo e dos homens, reflete: “os recursos da Natureza são vitais para a sobrevivência. O solo e a água pertencem à mãe Natureza, um bem precioso que nos é emprestado por momentos, aliado às nossas necessidades”. O homem, vê-se, tem grave responsabilidade na gestão da água, bem que não lhe pode faltar para saciar a sede, a preparação de alimentos, a higiene doméstica.
Duas notícias chamam a atenção no boletim diário que recebo e leio pela manhã. Pela primeira vez, a Marinha do Brasil participará dos desfiles de 7 de Setembro, em Montes Claros, no nosso sertão, e tem início a primeira etapa do Projeto Captação do Rio São Francisco, em Ibiaí. Com os dois fatos, verifica-se que a grande corrente nascida em Minas Geais, pelos lados de São Roque, se integra mais ao Estado, para servir à extensa e muitas vezes esquecida região norte-mineira.
Nem tudo, entretanto, gera otimismo neste nono mês, tão rico em história, e que foi o sétimo dos romanos, quando o ano começava em março. O primeiro mês do ano civil dos hebreus, sempre teve 30 dias. Tentou-se, sem êxito, mudar-lhe o nome, na velha Roma, para Tiberius, Germanicus, Antonius e Hércules. Então, rendia-se homenagem a Júpiter no seu templo do Capitólio, para que o Inverno fosse benigno e as sementes germinassem.
Para 2017, entre nós, constato que as previsões não são benévolas. Não há esperança de chuva e o mês será muito seco no interior do Brasil, de que as repetidas queimadas em várias regiões dão um panorama até assustador. Na primeira quinzena, bastante chuva no Rio Grande do Sul, dos bravos gaúchos Ruy Nedel e Nelson Hoffmann, talvez por isso impedidos de suas atividades costumeiras pela passagem de frentes frias.
O anúncio prevê boas chuvas apenas em outubro, expulsando – como esperamos – o ar seco que incomoda e causa doenças às crianças de zero a oitenta anos. Mas nem tudo deverá ser – também confio – como outros setembros da história mais recente, com a tragédia das Torres Gêmeas, em Nova York, testemunhada por bilhões de pessoas em todo o mundo pela televisão, no inesquecível e terrível 11 de setembro de 2001. Três mil vidas foram cruelmente destruídas e por elas ainda se vertem lágrimas.
No Japão, junto ao qual cruzam os céus agora os poderosos aviões do ditador norte-coreano, no primeiro dia de setembro de 1923, um terremoto de altíssimas proporções arrasou o país, resultando em mais de 3 milhões o número dos mortos, sendo Tóquio atingida por um grande incêndio, de que não escapou o próprio palácio imperial.
Há um rol de tragédias a registrar. Em 3 de setembro de 1939, a Alemanha de Hitler invadiu a Polônia. Inglaterra e França reagem e começa a 2ª Grande Guerra. No dia 3, em 1941, foram perpetradas as primeiras mortes em Auschwitz. Não se pode esquecer, mas não é hora de se lembrar, porque desejamos vislumbrar dias mais auspiciosos.


82650
Por Manoel Hygino - 5/9/2017 07:27:15
Da existência dos Mestres

Manoel Hygino

Uma verdadeira corrente: Maria Lúcia enviou o conteúdo para Ives Melo, que o repassou a Fernando Guedes de Mello e, através deste, tomei conhecimento. Algo muito interessante numa época em que geralmente se dá pouca atenção a coisas sérias.
É o caso da existência ou não de Jesus, Cristo, comparável a outros personagens, possivelmente míticos, como Krisma, hindu, e Hórus, egípcio. De todo modo, o que se sabe é que eles trouxeram grandes transformações à humanidade, ao homem e à vida.
Há indagações preciosas e indesviáveis. Assim, conviria repetir a pergunta de Maria Lúcia: “Se muitos vieram provar que o Jesus dos cristãos não existiu, como poderão provar a real existência de Buda e Chrisna? Há certidões em papel ou pedra comprovando?”. Explica: “Entendo que estes seres chamados de Mestres não deixaram provas materiais para que a humanidade não os adorasse em matéria, mas sim em espírito”.
O que está fora de dúvida é que Jesus e sua doutrina tiveram um grande poder de transcendentais mudanças. Na sua época (na hipótese de sua existência), a população era extremamente cruel. Tanto que os judeus como os romanos apedrejavam, sacrificavam sem piedade. Idosos, inválidos e doentes eram jogados fora das cidades para morrer à míngua. Mas, depois do advento do Cristianismo puro (não o Catolicismo), houve modificações entre os homens. Nas chamadas Casas do Caminho havia amparo para todos os excluídos”.
A pergunta é insistente: Pode-se provar que Jesus não existiu? Pode-se provar que existiu? Em verdade, há o Jesus histórico e, pessoalmente, não tenho dúvidas a respeito, tanto já li a respeito. Há, ademais, provas ou evidências claras, embora em tempo de Lava Jato ainda se ponha dúvida em ambas por motivos inconfessáveis:
Jesus não existiu, mas... Ensinou a humildade, dizendo que a mão esquerda não precisa saber o que faz a direita. Não existiu, mas ensinou que a caridade ou amor é superior ao conhecimento e à hierarquia, e que, fora da verdade, não há salvação. Não existiu, mas trouxe seres iluminados como Francisco de Assis, Teresa de Calcutá, Antônio de Pádua, o Cura d’Ars e muitos outros como seguidores bondosos de suas lições.
É interessante convir com Fernando Guedes de que é sábio observar que se dá muito mais importância a fatos ligados a Jesus do que à prática dos seus ensinamentos, que, por sinal, estão muito próximos aos de outros Mestres.
Compare-se a “Parábola do Filho Pródigo” (Lucas 15:11) com o descrito, bem mais antigo e hindu, presente no “Oravitti Marga” e “Nibritti Marga”. Ou, ainda, com a “Parábola das Três Carroças” e a “Parábola do homem rico e seu filho (Sutra, do Lotus, da tradição budista)”.
Para Maria Lúcia: Jesus foi “um mito que curava, ensinava, exemplificava, fazia prodígios e era humilde. Valorizava o Senhor de Todo Universo e não a si mesmo. Nunca dizia ser um Deus e que seu reino não era deste mundo. Não criou religião, não criou templos, altares, dogmas, imagens e nem sacerdotes. Não cobrava dízimos e não se enriqueceu. Aliás, não veio criar uma religião”.


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Por Manoel Hygino - 2/9/2017 07:25:22
A leitura libertadora

Manoel Hygino

Uma reunião diferente na Academia Mineira de Letras, com a presença de sua presidente Elisabeth Rennó, de Marlene Guzella, da Arcádia de Minas Gerais, Helena Paulinyi, da Academia Feminina Mineira de Letras, e das professoras doutoras da PUC Ivete Walty, pesquisadora das relações entre a literatura e o encarceramento, e Daniela Lopes, que desenvolve trabalho ligado às letras na Apac de Santa Luzia, na Grande BH. Também os acadêmicos Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, secretário de Estado da Cultura, Olavo Romano, Márcio Sampaio, Rogério Faria Tavares, Yeda Prates Bernis e Carmen Schneider Guimarães.
Compareceu a senhora Carolina de Oliveira Pimentel, presidente do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), entidade que presta valiosos serviços no campo em que se propôs atuar. Ela expôs que o projeto, para o qual pediu apoio da Academia, é o Roda de Leitura, que visa estimular o hábito de ler e abrir janelas a pessoas detidas, para que reflitam sobre um futuro melhor, um futuro para o qual não tiveram oportunidade talvez e que se quer conquistar. O propósito, aliás, é consentâneo com o pensamento e o propósito do escritor e jornalista José Eduardo Gonçalves, curador do Festival Livro na Rua, um outro belo projeto, por sinal. Diz ele: “Entendemos que a leitura tem um papel civilizatório na construção de uma sociedade, na construção de uma cidade e de um mundo melhores”.
A Academia vai contribuir com o programa do Servas, a ser ampliado a mais oito unidades de Minas a partir de agora: os presídios José Maria Alkmim, Antônio Dutra Ladeira, Inspetor José Martinho Drumond e José Abranches Gonçalves, em Ribeirão das Neves; Professor Jason Soares Albergaria – Bicas 1 e 2, em São Joaquim de Bicas, além do Complexo Penitenciário Feminino Estêvão Pinto, no Horto, em Belo Horizonte.
O pensamento vai além de oferecer as Rodas de Leitura, durante quatro meses, com os escritores ou com voluntários. Cuida ainda de deixar uma coleção de trezentos livros nas unidades, para o que deverão colaborar também os acadêmicos. Segundo Patrícia Velloso, gestora do projeto, ele “tem sido muito significativo para os detidos, e o entusiasmo dos detentos, por exemplo, da ala LGBT, em Vespasiano, surpreendeu pelo sucesso”. Um dos detentos, além do livro que portava, levou um outro de poesia e quis ler, em voz alta, para todos os que lá estavam. Eles pedem mais obras para leitura e acredito que sentirão muita falta se a ideia não tiver continuação”.
Para a presidente do Servas, “esta é uma atividade que, além de prazerosa faz descortinar horizontes, ampliando a capacidade de reflexão de todos os que dela se ocupam. Num presídio, ler é muito importante já que o conhecimento, nesse caso, é literalmente libertador”.
No período extremamente difícil por que passa o sistema prisional do país, muito grande e complexo, merece atenção o trabalho do Servas, que procura – antes e acima de tudo – enxergar que há um outro, um ser humano, possivelmente recuperável, no detento de hoje.
O livro não é apenas instrumento de informação para quem está restrito ou carente de liberdade. Mais dia, menos dia, o detido estará de volta à sociedade. Temos de contribuir para que volte, melhorado em conduta de vida e ser bem acolhido pela comunidade que o afastou.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2017 07:12:01

Na hora do naufrágio

Manoel Hygino

Há dias, publicou-se aqui comentário sobre a data de 91º aniversário de Fidel Castro, no último dia 13 de agosto. Ele não estava mais em vida, tampouco apareceu na mídia, como em anos anteriores. A memória humana é curta.
Ainda no oitavo mês, encontrei um depoimento de Augusto Frederico Schmidt sobre Vargas, que me enviara anos atrás o confrade Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras. Antológica, assim se referiu o acadêmico da velha Mariana àquela página. Relatava a audiência final do presidente, exatamente na tarde de 23 de agosto de 1954, véspera do trágico suicídio. Causara estranheza aquele encontro, num momento tão decisivo de sua vida, “quando restavam poucas esperanças, quase nenhuma, de que se mantivesse ele no poder”. O gaúcho confessou que queria ver e conhecer um relatório da missão de técnicos norte-americanos da Klein & Saks sobre alimentação no Brasil.
O texto do grande poeta é longo, mas mereceria leitura atenta de quantos viveram aquele instante grave da vida brasileira e pelos que apreciariam conhecê-lo melhor. Schmidt conta: “Lembro-me de que encontrei o Palácio quase vazio, nessa tarde triste e incerta de agosto. Medidas de defesa tinham sido tomadas, e o ambiente era de nervosismo contido. Havia pouca gente no Catete”.
Eis a cena seguinte: “Quando chegou a minha ocasião de entrar para a audiência, pouco depois das 17h, e a porta se abriu, ao olhar o espaçoso salão, não atinei imediatamente com Getúlio Vargas. Esperava-me ele de pé, num canto, de maneira que a própria porta o escondia. Ao saudá-lo, observei o seu abatimento físico. Estava quase magro, a fisionomia cansada, mas serena. Nenhum sinal que indicasse sentir-se o presidente assustado ou nervoso. Nenhuma impaciência, nenhuma demonstração de fuga de atenção”.
O poeta, um dos autores dos discursos de Juscelino, considerava tudo estranho diante das circunstâncias que Vargas vivia e, com ele, a nação, com sérios riscos à paz pública, ao destino do governo. Veio naturalmente a pergunta: “Como vai a situação? Que está acontecendo?”. O presidente esboçou um sorriso e afirmou que estava tranquilo: “Não faço ilusões sobre o momento. Conheço a gravidade de tudo, mas estou assim mesmo tranquilo. Não são os acontecimentos de fora que nos perturbam, mas o que está em nós mesmos. O difícil, o que provoca ainda indecisão, é a necessidade de tomarmos um rumo. Uma resolução. Mas quando, enfim, decidimos e sabemos para onde vamos e o que devemos fazer, isso nos tranquiliza. Eu sei o que devo fazer e para onde vou e é por isso que lhe digo que estou tranquilo. Vou numa só direção e para frente”. E fez um gesto que procurava exprimir certeza e convicção. Com as duas mãos abertas, em forma de asas, indicava um rumo no ar, uma espécie de voo.
No dia seguinte, Vargas deixou a vida e entrou para a história. Seu interlecutor escreveu: “Quero lembrar-me apenas do presidente Vargas como o encontrei no seu posto, na hora do naufrágio, e do aceno que me fez quando, na hora de ir-me, já eu na porta do Salão de Despacho, voltei-me para vê-lo ainda uma vez. Sorriu-me então de longe. Parecia um capitão de navio a desaparecer nas águas revoltas”.


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Por Manoel Hygino - 30/8/2017 07:08:29
Um Instituto Histórico no Sertão

Manoel Hygino

A exemplo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMC), fundado pelo grande governador João Pinheiro, Montes Claros tem o seu congênere. O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros foi fundado em 27 de dezembro de 2006, presidido hoje por Lázaro Francisco Sena, e objetiva “pesquisar, interpretar e divulgar fatos históricos, geográficos, etnográficos, arqueológicos, genealógicos e suas ciências e técnicas auxiliares, assim como fomentar a cultura, a defesa e a conservação do patrimônio histórico, artístico, cultural e ambiental do município de Montes Claros e região Norte de Minas”.
Integrado por figuras da mais alta expressão nos meios intelectuais, culturais e literários de um vasto espaço geográfico do estado, o IHGMC mantém uma revista, semestral, editada religiosamente, se adequado o advérbio, o que é raro no país com relação a seus órgãos oficiais.
O volume mais recente, o XVIII, correspondente ao segundo semestre deste ano, é rico em colaboração preciosa, de que participa excelentemente o elenco feminino, no que a cidade é rica. Talento não falta. Na edição, estão Clarice Sarmento, Dário Teixeira Cotrim, Dóris Araújo, Felicidade Patrocínio, Ivana Ferrante Rabello, Juvenal Caldeira Durães, Leonardo Álvares da Silva Campos, Manoel Messias de Oliveira, Mara Yanmar Narciso, Maria Inês Silveira Campos, Marilene Veloso Tófolo, Roberto Carlos Morais Santiago, Téo Azevedo, Virgínia de Abreu e Paula, Wanderlino Arruda, Daniel Oliva T. de Lélis e Zoráide Guerra David, além de Honorato Ribeiro dos Santos, Maria das Graças Patrocínio Oliveira e José Prates.
O temário, atraente, é desenvolvido com competência pelos articulistas, que se dedicam efetivamente à cultura dos valores de um privilegiado espaço do Brasil sertanejo, tão bem focalizado, aliás, pela professora Ivana Ferrante Rabello, ao discorrer sobre “Cordéis, Cordelistas e Mineiridades”.
“Conhecer a própria história cultural, investigando os seus processos de construção, a sua origem e o seu desenvolvimento é pressuposto essencial para se entender e aceitar a identidade e a cultura do outro. Conhecer-se é o primeiro passo rumo à valorização das tradições de um povo e de sua preservação”. Cumpre-se assim, a rigor, a finalidade do Instituto e da Revista.
Assinalo, esperando não ser cansativo, que o presente número da publicação rende homenagem justa a personalidade da vida montes-clarense e norte-mineira, não mais entre nós, fisicamente: João Botelho Neto, cônego Aderbal Murta, Reivaldo Silva, Olynto da Silveira, Necésio de Morais, Reginauro Silva, Fernanda Ramos, Ajax Tolentino, Marta Sayago, Luiz Carlos Novaes, Ruth Tupinambá Graça, Haroldo Lívio, Yvonne de Oliveira Silveira, José Carlos Valle de Lima e José Geraldo de Freitas Drummond, médico, professor ex-reitor da Unimontes e ex-presidente da Fapemig, a que serviu com desvelo e entusiasmo.
A bela edição é, portanto, motivo de alegria, mas não deixa de identificar entre os articulistas Felicidade Patrocínio, que focaliza o modesto labor deste escrevinhador.


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Por Manoel Hygino - 29/8/2017 07:49:12

Os ventos maus da furdunça

Manoel Hygino

Ouvi dizer e gravei para investigar a palavra furdunço, não encontrada na obra de nosso Guimarães Rosa até onde pude pesquisar. Segundo Francisco Fernandes, um dos bons dicionaristas brasileiros e por sinal mineiro, significa pândega ruidosa, desordenada; festança de baixo povo; barulho, desordem. Há a variação “forduncio”, isto é, mexerico, falatório, e o correspondente verbo furdunçar, ou seja, pândegar, divertir-se ruidosamente. E furdunceiro é aquela pessoa que faz furdunço.
Quanto ao conspícuo Antenor Nascentes, sequer registra o vocábulo, que aparentemente muito enquadra o período difícil da vida brasileira que ora se atravessa. O termo e respectivos sinônimos dão uma ideia geral da presente hora da história brasileira, em que costumes antigos, bons, foram extintos, enquanto outros se introduziram no cotidiano, sem serem os mais indicados e saudáveis. Sinal dos tempos, sem dúvida.
No campo político, nunca antes houve tamanha balbúrdia, ninguém confia em ninguém, o que se hoje se diz amanhã se desdiz, membros do Ministério Público contestam os magistrados; os juízes – mesmo os do mais alto tribunal de Justiça do país – não falam apenas nos autos, como era de tradição. Em verdade, exige-se hoje atualização permanente, sem o que se sujeita o cidadão a equívoco.
As cidades e os campos estão infestados de bandidos de toda natureza e procedência, motivados pelos mais sórdidos projetos, enquanto o cidadão, que paga tributo pesado e vota, se vê prisioneiro dentro de sua habitação, seja um casebre ou palacete. Perdemos a confiança nos organismos de segurança, eles mesmos infiltrados por foras da lei, como se verifica incessantemente pelos meios de comunicação.
Enquanto os usuários reclamam da qualidade do transporte urbano, ajuntamentos de vândalos ateiam fogo aos coletivos, reduzindo a frota disponível e, consequentemente, causando prejuízo à maioria da população. Não fora suficiente, em Belo Horizonte outros grupos, não ainda devidamente identificados, mas de provável composição, interrompem a limpeza urbana e incendeiam os caminhões, na cidade que tanto reclama dessa prestação de serviços.
Não muito diferentemente é o que se constata frequentemente quando manifestações populares, pacíficas, são utilizadas para desencadear os instintos destruidores de chusmas de desordeiros, que jamais pagam devidamente pelo mal que a todos atingem, ao quebrar portas de vidros de comércios e tudo o que neles deparam.
Refiro-me, às vezes, à triste situação a que chegou a Cidade Maravilhosa, em que o crime organizado enfrenta, frequentemente com vantagem, as forças policiais. Mas se, de um lado, uma centena de PMs já perdeu a vida diante dos delinquentes, não se pode deixar de anotar que, por uma única medida, quase outros cem soldados fluminenses, por sua atuação ao lado ou a favor do crime, mais bem preparado para embates e possibilitando maior rentabilidade.
O mundo da droga se instalou, forte e cruelmente, em todos os rincões do país, na mansão ou na favela, arruinando conceitos pessoais e familiares, algo semelhante com o descrédito em que desabaram escalões superiores do poder público. Tudo isso, ao que me parece, é concernente à furdunça, que quer tomar conta do restante da pátria, salve-salve!


82629
Por Manoel Hygino - 28/8/2017 07:17:40
A independência em xeque

Manoel Hygino

Sete de setembro, dia de comemoração. Pedro, o príncipe, vinha de viagem ao Rio Grande do Sul e São Paulo, aonde fora a harmonizar situações. Às margens do ribeirão Ipiranga, parou para ler cartas com notícias de Portugal, embora existam outras versões. Soube, assim, que os brasileiros que em Lisboa representavam os cá da terra, tinham sido até insultados. De estopim curto e diante do ultimato da Corte para voltar a Europa, exaltou-se e pronunciou o “Independência ou Morte”.
É mais ou menos o que se aprende na escola primária e tem foros de verdade, com nuances. Mas é fato. No entanto, a sequência dos acontecimentos não foi das mais tranquilas. D. João VI havia construído um sistema para preservação da colônia. A terra era muito extensa, as comunicações horríveis: não havia telefone, telégrafo, internet, satélite etc.
Surgiram focos de resistência ao projeto libertário do jovem príncipe. Foi, assim, que gente humilde, mas não submissa, decidiu associar-se a ideias emancipacionistas, já expressas em movimentos no território. Entre as lutas pós-Ipiranga, está a “história da sangrenta batalha de Jenipapo”, na região de Campo Maior, no Piauí, cuja capital era Oieiras. O exército português, comandado pelo oficial João José da Cunha Fedié, nomeado por D. João VI governador das Forças Armadas da Província do Piauí, entrou em ação.
O objetivo era manter o Norte, com as províncias do Grão Pará e Maranhão, em contraposição ao 7 de setembro de 1822. Os oponentes ao colonizador enfrentaram os soldados do reino com instrumentos de trabalho: enxadas, facões e foices, transformadas em armas de guerra, com os roceiros e vaqueiros envergando vestimentas de couro, como até hoje.
Francelino Pereira dos Santos, que foi governador de Minas, membro da Academia Mineira de Letras, dentre outros títulos, e Francisco das Chagas Lima e Silva, médico, coordenador do Núcleo de Pós Graduação em nível de Mestrado e Doutorado da Santa Casa de Belo Horizonte, vieram do Piauí, instalaram-se aqui e formaram família, não me contaram estes episódios, mas são fatos.
Adrião Neto, escritor piauiense prestigioso e querido em sua terra, escreveu e fez publicar “O reconhecimento que faltava”, divulgando o embate pouco conhecido e exaltando a coragem daqueles homens simples, agora homenageados com um monumento às margens da BR-342, Km 262, “um espaço de devoção, haja vista as pessoas atribuírem milagres aos mortos na batalha”.
“A notícia do grito da independência” só chegou à região em 19 de outubro de 1822, transcorridos mais de um mês. O governador das Armas, Fidié, não aceitou a decisão de Pedro I. Demorou para agir e encontrou resistência a partir do final de fevereiro de 1823, na vila de Campo Maior. Dois mil homens rústicos – vaqueiros, roceiros e gente do povo – enfrentaram a tropa lusa, em 13 de março, deixando 400 mortos, com apenas 19 baixas portuguesas.
Este o resumo da Batalha do Jenipapo, às margens do rio de mesmo nome, onde se ergueu o monumento, saudado com respeito e reverência no Piauí. Como devem sê-lo pela nação como um todo, inclusive porque de lá é a nova Miss Brasil Monalysa Alcântara.


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Por Manoel Hygino - 25/8/2017 08:18:52
A multiplicação dos pães

Manoel Hygino

Em minha conversa com uma religiosa de prestigiosa congregação, comentamos que todos os dias há notícias de pessoas que encontram Jesus. Não se trata de mera troca de ideias sobre o contato ou a aproximação daqueles que, nestes tempos e em seu percurso diário, se deparam com o homem da Galileia.
Jesus, o Cristo, está no meio do caminho de quem o busca, e isso é, no mínimo, algo de rara beleza, mesmo a quem não professa o cristianismo. A observação foi feita ao ensejo, no último 8, de agosto é claro, da notícia de que se achara o local onde Jesus multiplicara pães.
Vou ao texto do jornal: Arqueólogos israelenses acharam, nos arredores do Mar da Galileia, os restos de Betsaida, o povoado, no qual, de acordo com a tradição, os apóstolos Pedro, André e Felipe moravam e em que aconteceu o milagre.
O arqueólogo Mordejai Aviam, do Kinneret College, de Israel, que trabalha há três anos no projeto, afirmou: “Encontramos o que parece ser a cidade dos três apóstolos, onde Jesus multiplicou pães e peixes”. Na margem nordeste do Mar da Galileia, a equipe vasculhava o lugar, onde, conforme o Novo Testamento, estiveram três dos apóstolos e é a hoje conhecida Reserva Natural do Vale do Betsaida.
De acordo com a Bíblia, Jesus teria ido àquele lugar para descansar, sozinho, mergulhado na tristeza pela notícia da morte de João Batista, ordenada por Herodes Antipas, mas foi seguido pela multidão. Aconteceu.
Quando anoitecia, os discípulos sugeriram que os seguidores se dispersassem a fim de que pudessem comer alguma coisa. Jesus respondeu que não era necessário se irem, pois as pessoas podiam alimentar-se com o que ali mesmo encontrassem. Os discípulos, todavia, esclareceram que só havia cinco pães e dois peixes.
Jesus, então, retirou-se dali num barco para Betsaida, do outro lado do mar. Inúmeros o reconheceram e correram, a pé, chegando primeiro. O mestre deparou a multidão, subiu a um monte e os apóstolos aconselharam: “O lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede a multidão, para que, indo aos campos e aldeias ao redor, se hospedem e comprem comida”. Jesus não estava de acordo: “Não precisam ir embora. Dai-lhes vós de comer”, ao que seus seguidores objetaram: não existia alimento suficiente.
Verificando o que havia disponível, tão poucos pães de cevada e peixes, Jesus pediu que os grupos, de cerca de cinquenta pessoas, se assentassem. Havia muita relva e homens e mulheres, idosos e crianças, em torno de cinco mil, dispuseram-se em torno. Jesus tomou, em mãos, o que havia na ínfima reserva, mirou os céus, e abençoou.
Partiu os pães e os peixes, distribuídos aos que se achavam por ali, conseguindo saciar a todos. Assim se fez e, depois, orientou: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que não se perca”. Encheram-se doze cestos de pedaços dos pães, para atender aos que viessem depois. Está escrito. E não é invenção, segundo H. G. Welles, tinha-se ali “o retrato de uma personalidade muito bem definida, obrigando-nos a dizer: este homem existe. Isso não pode ser inventado”.
Precisamos aqui de alguém assim, agora.


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Por Manoel Hygino - 24/8/2017 07:00:16
Excessos e extravagâncias

Manoel Hygino

Os debates assistidos pela televisão ou transmitidos pelas rádios sobre a Lei Orçamentária da União e a Reforma da Previdência são, ou foram, aviso de chumbo grosso à frente. Isto é, o brasileiro que ama a folgança terá de conviver com arrocho por muito tempo. É claro que, em âmbito de poder público, o assunto seguirá em pauta, porque há múltiplos interesses em jogo e muito a discutir.
Os consumidores de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo já têm dificuldades em pagar as contas de água e luz, que aumentaram 13,65% nos últimos doze meses. Novos reajustes virão, principalmente com a ligação das usinas térmicas. Ninguém escapará dos dias duros do porvir próximo. São para compensar os de falsa felicidade e prosperidade de anos atrás. As despesas na área de comunicação e no comercio já caíram. Um economista explicou: “No aperto, é possível o consumidor suspender a internet ou deixar de usar cartão de crédito. Mas água e luz são compromissos que ninguém tira do orçamento”.
Num esforço raro, mas incompleto, o Executivo procura diminuir privilégios e exageradas bondades no serviço público, já havendo chiadeira e ameaça de greves. O funcionalismo, com o devido respeito, não pode ser privilegiado (daí, existirem concurseiros) em meio à crise generalizada.
O Legislativo e o Judiciário têm de fazer o mesmo e algumas medidas são preconizadas. Há de agir assim, se quiser efetivamente igualdade, afinal uma fantasia. Pelo menos, fazemos de conta. Mas a Câmara dos Deputados, por exemplo, abriu licitação para aquisição
de 28.170 caixas de chá, cada uma com dez sachês, por um período de um ano. São de erva-doce, camomila, hortelã, capim-cidreira, frutas, boldo e chá preto. São os chás para parlamentares como de milhares de conterrâneos, mas estes pagam pelo que compram e ingerem.
Embora todos saibam ser imprescindível economizar, nem todos o fazem. Eis os dados: Levantamento do site Contas Abertas mostra que, no ano passado, os custos da administração pública com serviços relacionados a carros oficiais foi de mais de R$ 1,6 bilhão. O valor é superior ao destinado a diversos ministérios, como o do Meio Ambiente, cuja verba é de R$ 440 milhões este ano. O governo também pagou quase R$ 700 mil em 2016 por excesso de bagagem em viagem de autoridades e funcionários, além de R$ 33 milhões com material de cama, mesa e banho. Para homenagens e festividades, R$ 55 milhões. Com material e serviço de copa e cozinha, R$ 349 milhões.
O Judiciário, enfim, parece despertar para a realidade. Evidentemente, os magistrados merecem e têm todo respeito. No entanto, os membros deste poder percebem valores enormes para pagamento de salários e benefícios de múltipla espécie, o que precisa ser esclarecido para que não se tenha ideia negativa das autoridades que praticam a Justiça – num país de injustiçados.
A ministra Carmem Lúcia tomou iniciativas para esclarecer. A presidente do Supremo tem grave responsabilidade neste período da vida brasileira. Até porque o Judiciário é permanentemente objeto de ressalvas, a cada hora e instante, pela lentidão e, mais recentemente, pela troca de farpas e acusações com o mundo político e Ministério Público.
Não basta apurar os fatos.
Imprescindível que, havendo irregularidades configuradas, distorções e desvios, que sejam punidos os responsáveis. O próprio Judiciário tem o maior interesse, certamente.


82616
Por Manoel Hygino - 23/8/2017 07:12:27
A ameaça que não para

Manoel Hygino

A troca de ameaças e a guerra de palavras entre os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte foram inseridas na pauta diária da mídia. Até onde o conflito verbal se ampara na realidade, eis a questão. Há uma diferença – Trump diz e desdiz, o coreano fica mudo e é irredutível. “Mas, o jornal de sua capital – o “Rodong Sinnum” – informou: “O caminho do grupo de Trump em continuar deste atoleiro só terá como consequência motivar mais nosso Exército e dar mais razões à República Popular Democrática da Coreia para possuir armas nucleares”. Confirma-se, portanto: o país ainda não tem domínio atômico.
Enquanto isso, ansiosamente se admite uma tragédia de dimensões insabidas (?). O ministro de Defesa do Japão informou que seu país poderia derrubar mísseis da Coreia do Norte, se o regime de Kim-Jong-Un disparar contra Guam, território americano no Pacífico. Mas seria uma emergência nacional, porque ameaçaria a própria existência do Japão como nação. No ano passado, lei estabeleceu que o país pode disparar armas em defesa dos EUA e de outros aliados sob ataque inimigo. As circunstâncias mudaram.
Os fatos não estão distantes. O governo militarista japonês, durante a II Grande Guerra, aliou-se à Alemanha e Itália em 1940 e ocupou a Indochina francesa no ano seguinte. Em dezembro de 1941, a esquadra norte-americana em Pearl Harbour, no Havaí, foi destruída pelo Japão, sem declaração de guerra, que tomou o Sudeste da Ásia e a maior parte do Pacífico Ocidental. Logo, seria derrotado pelos aliados. Houve a reconquista de Guam pelos EUA, após permanecer sob domínio nipônico, desde alguns dias antes do ataque a Pearl Harbour. O Japão perdeu, então, mais de dez mil soldados.
Em 9 de agosto de 1945, Nagasaki foi alvo do ataque nuclear de Tio Sam, com muitos milhares de mortes. O poeta Emanuel Medeiros Vieira lembrou que, em 6 de agosto, segunda-feira, 8h15 da manhã, a bomba já explodira em Hiroshima: a bomba, tão clara, exata, cirúrgica, bomba geométrica, certeira. A bomba vem do céu, mas não é ave. “A bomba vem de cima, mas não é Deus”. Em 2017, o prefeito de Nagasaki, Taue, em pedido emocionado, implorou a Tóquio que assine o tratado da ONU que proíbe as armas nucleares.
Para Taue, a posição do governo japonês: “é algo difícil de entender para os que vivem nas regiões afetadas pelos bombardeios nucleares, há 72 anos”. Tem razão. Em princípio de julho, foi celebrado o acordo e assinado o compromisso por 122 estados-membros da Organização das Nações Unidas. No momento, as potências nucleares – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China, França, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel – boicotaram as discussões, assim como o próprio Japão e a maioria dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. O que se há de pensar?
O sociólogo Paulo Delgado comentou: “O completo despreparo, a imprudência e os impulsos bélicos do ditador norte-coreano são bem espionados e documentados. Deixa à parte a triste sina dos que se encontram sob seu jugo; o realismo do xadrez internacional encontrou na dívida existencial que Pyongyang tem com Pequim o meio para impor limites aos devaneios que movem a espalhafatosa ditadura”. E as demais nações? E o mundo fica, mais uma vez, em suspense.


82613
Por Manoel Hygino - 22/8/2017 07:08:28

Um eclipse sem Alkmim

Manoel Hygino

Construída a partir de 1927, a mando do então presidente da República Washington Luís, a primeira penitenciária de Minas, na zona rural de Contagem, na Fazenda das Neves, com 925 hectares, só foi inaugurada em 1938, porque o sucessor, Getúlio Vargas, não conseguira antes agendar o ato.
No governo de Benedito Valadares em Minas, o autor da façanha e primeiro diretor da Penitenciária Agrícola de Neves foi José Maria Alkmim, nascido em Bocaiúva, provedor da Santa Casa de Belo Horizonte por 37 anos, secretário de Estado, deputado federal (ousou debater com Lacerda na tribuna da Câmara na antiga capital), ministro da Fazenda de Juscelino (seu antigo colega de trabalho na Imprensa Oficial), e um dos mais hábeis políticos da velha escola mineira.
Murilo Badaró, deputado, membro da Academia Mineira de Letras, que a presidiu, advertiu para os casos pitorescos e o anedotário, objeto de crônicas e publicações envolvendo Alkmim, homem de espírito aberto e de inteligência privilegiada. No Rio, capital da República, Tenório Cavalcanti, da antiga UDN, criticou em aparte o bocaiuvense, do PSD: “A política mineira está com urticária, quanto, mais se mexe, mais coça”. O orador, de imediato, respondeu. “Ainda bem que temos o bom antialérgico do civismo de nossa causa”.
Quando se anunciou um eclipse total do sol, em 20 de maio de 1947, a ser visto, especialmente, em Bocaiúva, correligionários e opositores disseram que se tratava certamente de alguma artimanha de Alkmim, que procurava dar evidência a seu próprio nome e de sua cidade natal.
Foi, indiscutivelmente, um acontecimento. Diversas expedições científicas se dirigiram para lá, para coleta de dados e estudos posteriores sobre o fenômeno, que poderia fornecer elementos ligados à desintegração atômica. Mais ganhava expressão, porque se vivia o vazio imediato ao pós-Segunda Guerra Mundial. A imprensa internacional se deslocou para a cidade norte-mineira e Bocaiúva passou à mídia, recebendo a maioria das delegações científicas. Os russos preferiram Araxá, mas o mau tempo não permitiu estudos.
Anunciara-se que o próprio Albert Einstein viria para analisar o fenômeno, mas o cientista desistiu da viagem no último momento. No entanto, o engenheiro e físico dos EUA, Lyman James Briggs, diretor do Nactional Geographic Society, e o astrônomo belgo-americano George Van Brisbroeck, estiveram em Bocaiúva e confirmaram a Teoria da Relatividade, em 1952.
Este último declarou: “Viajamos 10 mil quilômetros por ar, dos Estados Unidos da América e, em seguida, ocupadíssimos com os preparativos para observação do eclipse. Tivemos pouca oportunidade de sentir a vida em vosso grande país! Podeis ser testemunhas oculares do grande espetáculo que nos trouxe aqui”.
Neste agosto de tanto desgosto para os cidadãos brasileiros, houve outro eclipse, o do dia 21, desta vez sem Alkmim. A Nasa foi peremptória no comunicado: “O céu escurecerá por completo, a temperatura irá cair e será possível contemplar tanto as estrelas quanto a atmosfera do Sul...”
Tudo foi documentado com a máxima tecnologia. A lua ficou entre a Terra e o Sol, tapando-o por completo, acompanhado o fenômeno por onze satélites e cinquenta balões meteorológicos. Recolocou-se uma nave espacial que orbita a Lua, enquanto um Boeing 747 se
deslocava com cientistas a bordo. Na América do Sul, o eclipse foi parcial. Mesmo em Bocaiúva. Se Alkmim vivesse, talvez fosse total e visível.


82607
Por Manoel Hygino - 19/8/2017 07:06:43
O aniversário de Fidel

Manoel Hygino

Percorri todos os meios de comunicação disponíveis. Não encontrei a mínima referência a que, no dia 13 de agosto de 2017, Fidel Castro completaria 91 anos. O líder da Revolução Cubana confessara, em 2011, que nunca pensara “viver tanto”. Na ocasião, também disse: “Em breve, serei como os outros. A vez chega para todos”. E chegou.

Daqui dois anos, completam-se seis décadas de sua entrada triunfal em Havana, barbudo e à frente de doze mil outros barbudos, que tinham derrotado um exército de 80 mil homens. Em meio ao silêncio de agora, não se negará seu impressionante papel no século passado. Vitorioso em sua pátria, apoiou guerrilhas na Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Uruguai e Venezuela, além da África. Exerceu influência no Brasil e não poucos seguiram seu catecismo.

A revolução de Fidel “provocou (...) vontade de lutar, de ir para a montanha, empunhar um fuzil para tentar mudar as coisas”, disse Iván Marquez, outrora o número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farcs. Mas também no vizinho país, os rebeldes depuseram, bem recentemente, as armas após décadas de luta.

Li, não sei onde, que – em um país no qual o cristianismo se mistura aos cultos africanos – os cubanos atribuíam a Fidel a proteção do orixá/Obalalá, o deus todo poderoso. Tudo mudou, contudo. Muitos planos do período mais aceso da revolução falharam, como a criação de búfalos e a produção de queijos de qualidade, quando faltavam vacas na Ilha. Guantánamo segue território de Tio Sam, embora a prisão, quase vazia, lá permanece. ‘O que virá depois?’, mantém-se a pergunta, principalmente por se saber que Raúl, que sucedeu ao irmão no comando nacional, também deixará o governo em 2018. Esta a promessa.

Alina Fernández, a filha rebelde de Fidel, contou em livro que ele nasceu pela madrugada, sob o signo de Leão. Após consulta às estrelas, a mãe se ajoelhou, beijou a terra e disse: “Este é o único dos filhos que vai ser alguma coisa na vida”. Não foi batizado porque “era filho natural e nasceu bastardo”. O menino Fidel, junto com os irmãos mais velhos, viveu suas primeiras noites no barraco de palha ao Norte da fazenda em que sua avó Dominga e a mãe invocavam os espíritos protetores com uma vela em uma mão e um copo de água na outra, entoando ladainhas intermináveis.

Ao terminar, em 1998, o prefácio de seu livro, Alina registrou: “O que será de Cuba? Esta é a pergunta que me faço diariamente e para a qual ainda não há resposta”. Tanto tempo decorrido, morto Fidel, com novo e duvidoso presidente nos Estados Unidos, alonga-se a dúvida, mais cruel talvez porque Raúl deixará a liderança proximamente. O historiador inglês Richard Gott, mais tranquilo, opina: “Quando (Fidel) morrer, haverá pouca mudança em Cuba. Enquanto pouca gente via, a mudança já ocorreu”. Aqui, Stefan Salej observou: “Fidel fez história e não há como não se reconhecer isso. O que não quer dizer que ela é tão bonita e charmosa ou tão boa para o povo cubano, como foram os sonhos, o charme e esperança de tempos melhores que emanavam em 1959, quando tudo começou em Sierra Maestra”.


82605
Por Manoel Hygino - 18/8/2017 07:35:02
Acidente na São Paulo-Rio

Manoel Hygino

Serafim Jardim, incondicional amigo de Juscelino, guarda consigo depoimentos sobre o trágico dia 22 de agosto de 1976, em que o ex-presidente perdeu a vida ao voltar de São Paulo para o Rio de Janeiro, pela Fernão Dias.
As várias folhas com depoimentos foram passadas ao ex-deputado federal, filho do governador Ozanan Coelho e hoje provedor da Santa Casa de Belo Horizonte, Saulo Levindo Coelho. Os mais minuciosos processos sobre a morte de grandes líderes até hoje não são definitivos em resultados. Assim como o fuzilamento de John Kennedy, em Kansas, como a morte de Stalin; sequer o que envolve os últimos dias de Napoleão, em Santa Helena, com JK não é diferente.
O que se propalara era que o carro em que viajava Juscelino, dirigido pelo seu motorista Geraldo Ribeiro, teria colidido com um ônibus da Viação Cometa que fazia o percurso Rio-São Paulo. Na época, determinou-se: “Fica estabelecido o mais completo sigilo sobre o que destes autos conste ou vier a constar, a fim de que não venham a ser prejudicadas as investigações”.
O depoimento do guarda rodoviário Lafaiete Costa Bacelar nada afirma. Pelo contrário, diz: “Não notou a presença de nenhum coletivo, não tendo avistado nenhum deles quando lá chegou”, mas identificou o motorista do ônibus, Ladislau Sales. Segundo o declarante, “o auto de passeio havia atravessado o canteiro divisório da pista, indo colidir com o auto de carga”.
Leia-se o parágrafo: “Ouviram-se nestes autos nada menos de nove pessoas que se encontravam no ônibus como passageiros, sendo quatro (4) arrolados como testemunhas de acusação. Para eles, sem exceção, de forma uníssona e uniforme ao que há de essencial, afastam inteiramente a possibilidade de qualquer choque entre o ônibus e o Opala, fato que teriam fatalmente ouvido ou percebido, se na verdade tivesse acontecido”.
Depoimentos de passageiros do coletivo são contraditórios e contam que o veículo trafegava em velocidade normal de estrada. Mas Carlos Koehle declarou que “o motorista do coletivo não se conduzia como a maneira dos demais daquela empresa, eis que imprimia excessiva velocidade e seu modo de dirigir era “terrível”, fazendo ultrapassagens com incrível imprudência”.
Outro passageiro, Danilo Martins de Lima, afirmou não ter sentido nenhuma batida e nem ouviu de qualquer passageiro comentários a respeito. A perícia trabalhou longamente no caso, mas não conseguiu elucidar, ao que se informa, plenamente o acidente e suas causas.
O jornal “Estado de São Paulo”, em 24 de agosto de 1976, publicou: “Dois fatores aparecem como os mais prováveis entre a causa do acidente em que morreu o ex-presidente Juscelino Kubitschek e seu motorista. O seu motorista teria sofrido um mal súbito ou o veículo teria sido abalroado por um ônibus da Viação Cometa. Esta segunda hipótese é negada enfaticamente pelo chefe do tráfego da Cometa”.
A tradicional folha da capital paulista diz o suficiente em sua manchete: “Causa do acidente ainda é um mistério”. Pelo visto, permanece o enigma, 41 anos após.


82603
Por Manoel Hygino - 17/8/2017 08:13:32
Maradona, soldado em Caracas

Manoel Hygino

Os noticiários são amplos: a Venezuela ferve, o cidadão passa necessidade até na alimentação, milhares escapam pelas fronteiras. Pelas imagens da televisão, parece sentirmos cheiro de pólvora, ardem os olhos com os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.
De longe, não sei exatamente de onde, Maradona envia mensagem de apoio ao presidente Nicolás Maduro. Oferece-se como “soldado” da revolução bolivariana e “para combater o imperialismo. Nós somos chavistas até a morte. E quando Maduro ordenar, estarei vestido de soldado para libertar a Venezuela, para lutar contra aqueles que querem apoderar-se de nossas bandeiras, que é o mais sagrado que temos”, afirmou em página pessoal no Facebook. Maradona repete as bravatas de seu feitio e natureza. Apoiou a candidatura presidencial de Maduro em 2013, na Venezuela, ostenta no braço direito uma tatuagem com o rosto de Che Guevara. Para ele, Fidel era “como um pai”.
Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960, no modesto bairro de Villa Fiorito, em Lenús, na Grande Buenos Aires. Começou no futebol aos 9 anos no infantil de Los Cebollitos, com 15 foi contratado pelo Argentinos Juniors, da primeira divisão e, um ano após, estava na seleção nacional. Já começava a ser chamado de “El pibe de oro”, “o garoto de ouro”. Aos 17 anos, incluía-se entre os 25 melhores jogadores da Argentina e, em 1979, foi capitão da equipe que ganhou o Mundial Sub-20 no Japão. Em 1980, ingressou no Boca Juniors, um dos maiores clubes do país. Em 1984, no Nápoli, da Itália, brilhou ao conquistar dois campeonatos Italianos, uma Copa Itália, uma Copa UEFA e uma Supercopa, em 1990.
O seu auge como jogador foi na Copa do Mundo: conduziu à vitória da seleção argentina contra a Alemanha (3 a 2). No mesmo mundial, marcou contra a Inglaterra, nas quartas de final, dois de seus tentos mais memoráveis: o gol de mão que passou à posteridade como “a mão de deus”, e a jogada eleita como “o gol do século”: partindo do círculo central, driblou cinco rivais e também o goleiro antes de meter a bola na rede. O placar de 2 a 1 garantiu a eliminação da Inglaterra e representou, no plano simbólico, uma espécie de redenção para os argentinos, que tinham sido derrotados na Guerra das Malvinas quatro anos antes.
A relação de Maradona com as drogas se tornou pública em 1991, quando expulso do Nápoli após um teste antidoping por uso de cocaína. Voltou então à Espanha, jogando pelo Sevilla, e logo à Argentina para jogar pelo Newell’s Old Boys. O problema com as drogas voltaria a ser pesadelo na Copa de 1994 nos Estados Unidos; o antidoping detectou que ele havia utilizado efedrina e a FIFA o proibiu de jogar por um ano. A seleção argentina, que dependia muito de seu capitão, acabou sendo eliminada precocemente nas oitavas de final.
Para tratar-se contra as drogas foi recebido em Havana, daí a afeição por Fidel. De volta à pátria, desempenhou-se por poucos meses como técnico do pequeno Desportivo Mandiyú e, depois, do tradicional Racing Club. Em 1995, voltou ao Boca Juniors como jogador e esteve no clube até se aposentar definitivamente em outubro de 1997, dia do seu 37º aniversário. Em 2003, terminou seu casamento com Claudia Villafane, mãe de suas filhas Dalma e Giannina, embora ele tenha outros três filhos, hoje reconhecidos: Diego Júnior (1986), Jana (1996) e Diego Fernando (2013).
A esta altura do campeonato da vida, resta saber se o controverso Dom Diego vai deixar de ser treinador do Al Fujairah SC, dos
Emirados Árabes, onde evidentemente tem alto salário, para ser “soldado” ao lado de Nicolás Maduro, que não consegue alimentar sequer seus cidadãos. Além do mais, está com 57 anos e, com essa díade, meu pai faleceu.


82596
Por Manoel Hygino - 14/8/2017 07:08:34

Os alfarrábios de Lola

Manoel Hygino

O convite está à mão. Para lançamento do livro “Meus Alfarrábios”, de Lola Chaves, em 18 de agosto. Quem expediu: o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que, em parceria com a Secretaria de Municipal de Cultura, organizou o ato. Não poderiam faltar o Grupo de Serestas Amo-te Muito e o Grupo de Choro do Cerrado do Conservatório Lorenzo Fernandez, e direção musical de Luciano e Rachel Uchôa.
As informações possivelmente se prestassem mais à editoria de arte. Perfeitamente. Até porque o local da festiva reunião será o Centro Cultural Hermes de Paula, na Praça Dr. Chaves, em Montes Claros. A propósito, o desembargador Hélio Costa, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Estado, homem culto, poeta parnasiano, sentado ao meu lado, gostava de enfatizar a significação da cidade no âmbito da modinha e da seresta. Nem só Diamantina é seresteira. E o dr. Hélio, nascido em Sabará, excelente autor de discursos solenes, sabia das coisas.
Lola Chaves é filha de João Chaves, nascido em 1885, também poeta e compositor, que só não recebeu diploma na Escola Normal Oficial, porque o estabelecimento foi suprimido. Fundou um semanário “A Palavra”, onde publicou elogiados artigos e crônicas e seus primeiros versos. Tomou novos rumos no mapa, mas atuando como advogado e jornalista. Ao regressar, lançou “O Sol”, no mês de agosto, em 1914. Abriu um curso de música digno e dirigiu a primeira orquestra da cidade- não era banda. Isso há quase um século, época em que se elegeu vereador à Câmara Municipal.
Poesia e música impregnavam a individualidade do advogado-jornalista, que transmitiu como herança à descendência. Suas criações são ouvidas nas noites de serestas ou incluídas no repertório de grandes corais, como o Madrigal Renascentista. A modinha “Amo-te Muito”, um clássico no gênero, foi cantado no filme “Revolução em Vila Rica” e ele é autor de um livro de poesias, que não sei se editado. O grupo de serestas que ganhou seu nome tem percorrido terras daqui e do velho continente, apresentando-se com encantamento a exigentes plateias.
Lola Chaves é uma das filhas do querido bardo e exerce a curadoria de sua produção musical e literária, verdadeiras relíquias. Em junho, transferiu-se de vez a outro plano Lígia Chaves, a irmã, grande letrista e intérprete, autora de “Senhora de Guadalupe”, primorosa criação de fé. Foi uma tarde triste, mas serviu para receber demonstrações de carinho e amor. Junto à lousa simples que já abrigava o poeta, a esposa e três filhos, ouviu-se “Amo-te Muito” e “Tão longe, de mim distante”, esta de Bitencourt Sampaio. Em gravação, a própria Lígia se despediu com a música de sua autoria, diante de dezenas de pessoas consternadas.
João Chaves, o cidadão a que me refiro, pai de Lola, pertence à família que exerceu enorme influência intelectual, política e cultural na região. O patriarca Antônio Gonçalves Chaves foi governador de Santa Catarina, Espírito Santo e Minas, redator do capítulo do Direito de Família no Código Civil, elaborado por Clovis Bevilacqua. O próprio autor o classificava como “meu mestre”.
O que estará revelando a escritora Lola em seus “Alfarrábios?”


82592
Por Manoel Hygino - 12/8/2017 06:47:27
O segredo das Esmeraldas

Manoel Hygino

Até hoje paramos para pensar sobre este tempo que a nação atravessa como um grande barco num mar sob tempestade. Os mais variados adjetivos são arrolados para classificá-lo. Estarrecedor, foi a palavra encontrada nem sei mais por quem.
Luis Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal, opina que há grupos que não querem ser honestos “nem daqui para a frente” e defende mudanças para conter a corrupção. Há, assim, ainda quem entenda achar caminhos que evitem o caos total, do qual nos temos aproximado, à medida que se toma conhecimento de fatos novos extraídos do “imbróglio” cotidiano.
Grande parte da população do país não se interessa pelo que acontece, supondo que nada mais o cidadão comum pode fazer para conjurar o perigo. Nesta hora grave, é o que leio, o Congresso Nacional por nossos representantes discute, até com certa veemência, se a lei que criminaliza o funk merece aprovação.
Em Minas, o modo de se fazer pijama em Borda da Mata, no Sul de Minas, pode ser declarado Patrimônio Cultural do Estado, nos termos de projeto em tramitação na Assembleia. Embora se reconheça o município como capital nacional desta peça do vestuário, com ampla produção e venda, seria extemporânea a preocupação, com a devida vênia da boa gente da cidade. Como se julgará talvez inconveniente a providência adotada por Cajuri, na Zona da Mata, ao fazer empenho de verba para contratar uma banda de forró e duas duplas sertanejas para festejar nem sei o quê.
É inacreditável o que ocorre. Durante a votação da denúncia contra o presidente da República, um deputado, do SD-PA, foi flagrado escrevendo a uma mulher e pedindo que lhe enviasse fotos íntimas.
Os jornais publicaram o texto: “Mostra tua bunda, mostra, afinal não são suas profissões que a destacam como mulher”. O parlamentar tentou justificar-se, dizendo que uma pessoa lhe solicitara mais de 20 vezes para que tirasse a camisa e mostrasse a tatuagem no ombro direito. Sua Excelência explicou: “Como é que vou tirar a camisa? Tenho que respeitar as famílias brasileiras. Nós temos decoro parlamentar”.
Enquanto o Planalto se prepara para enfrentar a nova denúncia a ser apresentada pelo procurador-geral, a ex-presidente da República considera que Renan tem razão quando afirma que “Eduardo Cunha governa desde a prisão em Curitiba”. Como se toda troca de opiniões fosse exígua, Joesley Batista, da JBS, a que assistira à sessão da Câmara em São Paulo, julgava o episódio “trágico” para ao país.
O personagem, nascido em Goiás e um dos homens mais ricos do Brasil presentemente, acha que “2 de agosto ficou marcado como dia da vergonha”, embora sem se manifestar sobre sua própria situação nos fatos. Mas o Brasil já sabe quem ele é e o que seu grupo representa.
O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se surpreende com nova ação da Lava Jato, que investiga propina na Secretaria de Obras durante sua gestão. “A notícia me incomoda, decepciona e envergonha”, disse o ex-alcaide. No escritório da advogada Vanuza Sampaio, que forjava contratos fictícios, ela foi presa. Encontrara-se – dentre outros bens de valor e dinheiro – uma porção de esmeraldas. Tem, assim, mais sorte que o bandeirante Fernão Dias, que terminou morrendo sem localizar as pedras preciosas.
Sorte é sorte e a Sena não dá para todos.


82590
Por Manoel Hygino - 11/8/2017 07:40:06
Depois do petróleo

Manoel Hygino

Como será o Brasil depois do petróleo? Porque, em verdade, chegará o dia em que ele será dispensável. A época heroica do “petróleo é nosso”, que empolgou a juventude brasileira há poucas décadas, já virou pretérito. Lembra-se do tempo de Monteiro Lobato, buscando recursos para explorar o ouro negro fosse na Bahia ou em São Paulo. Escreveu um livro que se tornou famoso e passou uma temporada detrás das grades.
Chegará um tempo em que ter petróleo não é o que hoje ainda representa. A população da Venezuela vive em drama, mesmo com o potencial fantástico de petróleo de que dispõe. A Arábia Saudita e a Rússia não são felizes porque o têm. O Reino Unido continua às turras com a Argentina por se supor ali existirem reservas petrolíferas fantásticas.
Mas o carro elétrico para os táxis já está em teste em Belo Horizonte e, em vários países da Europa, já constitui uma realidade. Enquanto eclodia o maior escândalo do Brasil nos negócios públicos, envolvendo a Petrobras, cuidavam os países desenvolvidos de produzir sucedâneos para os derivados de petróleo. Há um longo caminho ainda a transpor, mas há perspectivas seguras de outras fontes energéticas disponíveis.
Há a teoria de que, a partir de 2013, a capacidade produtiva de petróleo não mais conseguiria acompanhar a demanda, pois – com a extração em declínio – se causariam sérios transtornos à civilização. Esta perspectiva foi defendida por Kuell Alekle, sueco, professor de física, astronomia e sistemas globais na Universidade de Uppsala.
Mas esse horizonte não foi considerado pelos países produtores e consumidores, que não podiam – nem podem – parar.
Os presidentes americanos George Bush e Barack Obama admitiram o momento em que a economia do mundo teria de ajustar-se à escassez de energia extraída das entranhas da Terra. O escritor Célio Pezza tratou do assunto e concluiu: “Nenhum governante quer ser chamado de profeta da desgraça por divulgar situação tão grave, de forma clara. Ela é uma sentença de morte para um estilo de vida comunista e capitalista, totalmente dependente do petróleo”. Daí, iniciativas múltiplas para dar solução ao problema, não tão distante quanto se imagina.
O Brasil está metido no “imbróglio” e não tem como escapar. Tanto é verdade que energia amplia o espectro de atenção das autoridades. A produção de hidráulica não estagnou os estudos para a fonte eólica ou térmica. As frotas de veículos não deixam de aumentar, seja de caminhões ou de automóveis.
E brasileiro não abre mão de celular, praia, futebol e um carro.
Na Arábia já se ensina aos mais jovens: “O meu pai andava de camelo, eu ando de carro. O meu filho anda de avião, o filho dele andará de camelo”. É o que não se quer na terra descoberta por Pedro Álvares, muito maior em extensão que a dos sauditas.
Quanto a escândalos, chega o da Petrobras, que tanto arruinou o nosso prestígio em níveis interno e internacional.


82577
Por Manoel Hygino - 9/8/2017 07:10:34
Brasil: problemas e atrações

Manoel Hygino

A União, nas vozes de Temer e do ministro Raul Jungmann, da Defesa, garantiu que as Forças Armadas manterão seus dispositivos no Rio de Janeiro para enfrentar a insegurança pública. São 8.500 homens da Marinha, Aeronáutica e Exército, além de 600 homens da Força Nacional, 380 da Polícia Rodoviária e outros. Decreto autoriza expressamente ações em todo o Estado do Rio, embora o foco seja a região metropolitana.
Estamos plenamente de acordo. A cidade e o Estado do Rio de Janeiro precisam oferecer segurança aos que lá residem, trabalham ou visitam. A cidade, para ser efetivamente maravilhosa, exige tranquilidade. Nos tempos mais recentes, os brasileiros têm até receio de ir ao Rio de Janeiro, e o amplo e minucioso noticiário da mídia o justifica suficientemente.
Ouvi pela televisão: A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio deflagraram ‘Operação Calabar’, que investiga o envolvimento de PMs com traficantes em São Gonçalo, a segunda maior cidade do Estado. O objetivo foi cumprir mandados de prisão contra 96 PMs e 70 acusados de envolvimento com o tráfico de drogas, “inclusive sequestrando bandidos para receber resgate”. Os militares eram lotados no Batalhão de São Gonçalo entre 2014 e 2016 e suspeitos de receberem propina, chamada de “meta”, além da venda de armas para 41 comunidades.
A propina seria paga semanalmente. O inquérito começou com a prisão de um traficante que delatou o esquema. Gravações telefônicas e imagens de vídeos com os policiais recebendo dinheiro
foram incluídos no processo. O nome da operação faz referência a Calabar, considerado traidor na história brasileira.
A esta altura, como deve sentir-se o vencedor da Mega-Sena de R$ 107 milhões, no último sábado de julho? O sortudo investiu R$ 3,50 num jogo em uma lotérica de favela e foi o vencedor sozinho do prêmio. Seria um padeiro que tem prazo certo para receber a bolada: 90 dias.
É triste constatar, como o advogado Petrônio Braz, que “a violência deixou de ser um fato localizado nos grandes centros. Não existe mais cidade ou campo, vida urbana ou rural imune às suas consequências. A falta de segurança transformou a população ordeira e laboriosa em refém dos criminosos, em todo o território nacional...”.
O Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde informa, a propósito divulgou, que os atentados terroristas registrados nos cinco primeiros meses de 2017 não superam a quantidade de homicídios registrados no Brasil em três semanas de 2015. Os cálculos mostraram que, em 498 ataques, 3.314 pessoas morreram. A comparação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, após divulgar o Atlas da Violência 2017.
Mesmo assim, ainda há quem queira visitar o país.
Nossa população foi considerada “a mais legal” do mundo pela CNN Travel. Sem os brasileiros, o planeta não teria oportunidade de conhecer o samba e o Carnaval do Rio, e nas praias os corpos malhados, desfilando com pequenos trajes de banho.
Outro motivo é o futebol, mas o tempo de Pelé, Garrincha e Ronaldo, ficou para trás.


82575
Por Manoel Hygino - 8/8/2017 07:12:50
Venezuela: o perigo está perto

Manoel Hygino

O ininterrupto noticiário dos meios de comunicação em todo o mundo leva a uma indesviável pergunta: a Venezuela está em pé de guerra? As sucessivas manifestações, de que informa em cores e até ao vivo a televisão, oferece um panorama do drama que se vive mais ao Norte.
Detentor da quinta maior reserva petrolífera do planeta, nos últimos tempos a Venezuela vive sob ameaça de ruptura institucional, embora se possa afirmar que é já neste clima que se passaram os anos mais recentes. O ápice está em 2017, quando militares e grupos paramilitares tentam conter pela força a população.
Apesar de tudo, a oposição é forte e ousa enfrentar o governo de Nicolás Maduro, que sucedeu a Hugo Chávez, depois de sua morte por câncer, em Cuba, em que fora tratar-se. Com as garantias constitucionais interrompidas, com multidões nas ruas em protesto por tudo que lhe foi subtraído, desde a liberdade de imprensa ao papel higiênico, o presidente em exercício procurou uma saída com convocação de uma Assembleia Constituinte. Caberia a esta elaborar uma nova Carta Magna, mas o cidadão quer algo mais prático, viável e urgente, a começar pela alimentação que já falta. Pesquisas demonstram que cada homem e mulher do país perdeu oito quilos de peso pelas dificuldades ora experimentadas.
Sem respaldo da maioria dos países democráticos, com imensas dívidas acumuladas, sem apoio agora do Mercosul, cujos membros exigem anulação da Constituinte aprovada há poucos dias, Caracas verdadeiramente está em um beco sem saída. Domingo, dia 6, houve uma tentativa sem sucesso, de levante militar no Forte de Paramacay, no estado de Carabobo.
O chanceler uruguaio, Rodolfo Novoa, enfatiza que o Mercosul quer pressionar o governo venezuelano a que mude os seus rumos, considerados não democráticos. O Palácio de Miraflores, pois, não conta mais com apoio continental, restrito apenas a Cuba e Guatemala, a que oferece petróleo em condições especialíssimas.
Sem apoio Legislativo, contando com um arsenal poderosíssimo comprado à Rússia, em época de vacas gordas, e com a disposição governamental de contrapor-se às oposições e aos reclamos de um povo, Caracas reconhece que milhares de cidadãos escaparam pelas fronteiras para sobreviver. As perspectivas são sombrias.
Sem embargo, Maduro, buscando consolidação no poder e o socialismo do século 21, insiste em seu projeto. Novas eleições para governador foram convocadas para 10 de dezembro, enquanto o pleito presidencial está agendado para o fim de 2018, embora a futura Constituição possa mudar o calendário.
Não haverá, sabe-se, tranquilidade. Maduro garante que “irá pôr ordem” no país, mas 500 opositores estão presos. A procuradora Luísa Ortega foi destituída do cargo e substituída, enquanto os mortos nos enfrentamentos populares contra a polícia e paramilitares chegam a além de uma centena.
Mais de mil são os feridos, alguns ainda internados.
Nós estamos na proximidade do fogo. O brasileiro Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, dá um conselho: “O Brasil precisa se preparar para a chegada de um número cada vez maior de refugiados”, embora também tenhamos nossos problemas.



82572
Por Manoel Hygino - 5/8/2017 07:35:11
Por um mundo mais justo

Manoel Hygino

Enquanto no Brasil se engalfinha na complicada refrega para sair do pântano em que se afundou, volto os olhos para tempos antigos. Há cerca de dois mil anos, viveu um judeu, cujo nascimento e vida até hoje são motivos de dúvidas e discussões, mas também de fé e de esperança para milhões.
Socorro-me com Allen Secher, conselheiro de um grupo de diálogo judeu-cristão, em Chicago, que trabalha em apoio e educação a 550 casais inter-religiosos. Aliás, ele é produtor de televisão e já ganhou sete Emmys, o mais recente um especial sobre a resistência em Auschwitz, apresentado por Ellen Burstyn, ganhadora do Oscar.
Comparo o Brasil de hoje às primeiras décadas do século I. Assim como nosso país não é o que nossos dirigentes prometeram, o mundo dos judeus não era o que Deus tinha prometido; estava ainda mais longe de ser o “reino” perfeito, objeto de tantos anúncios e anseios. Em ensaio, Secher alinha argumentos: os judeus sofriam sob severa dominação romana, seu mundo estava marcado por uma amarga desolação. “Um por cento da população – os dirigentes e a aristocracia – controlava a maioria das propriedades. Parte da terra estava nas mãos da pequena classe alta, dos sacerdotes e dos mercadores”.
Havia mais: “... o pouco que restava era submetido a pesados impostos por Roma e por déspotas locais, em sobreposição aos dízimos tradicionais necessários à manutenção do templo.” Não há alguma semelhança? “As pessoas viam suas terras ancestrais passar às mãos de estrangeiros devido às dívidas que contraíram para pagar tributos. Seu mundo se caracterizava pela pobreza, pela opressão e pela injustiça”.
Daí, as perguntas que se faziam: “Onde estava Deus? Por que ele não aparecia para resgatá-los?” O ensaísta comenta: “Não admira que Jesus tenha sido inspirado a compor uma oração que pedia pão e o cancelamento das dívidas!’.’
Mas Jesus, nascido num local distante e em meio a gente comum da região, tinha ideias próprias e avançadas sobre o momento crítico, nesse cenário de devastação e de desespero. Ele ouvira os sonhos dos profetas por um mundo melhor.
Secher escreve: “Nos ensinamentos de seus precursores naTorá, ele vê as instruções para criar tal mundo. De pé no alto da montanha, ele exclama que o reino de Deus está próximo, que chegou o tempo da redenção: que os deprimidos conhecerão dias melhores; que os enlutados serão consolados; que os famintos podem esperar ter a barriga cheia; que os ricos terão seu merecido castigo; e que os pacificadores terão a primazia. Em consequência, ele conclama: não percais as esperanças, porque todos haveremos de participar do mundo mais justo que Deus prometeu. Mas diz ele, há coisas a fazer para que isso aconteça, e ele começa a esboçar essas ações”.
Não se pode apenas criticar ou omitir-se. Cada um terá de dar a sua parte, a sua contribuição, por menor que seja para a construção geral. A injustiça flagrante não é apenas individual ou pessoal, mas sistêmica e estrutural.
O Dalai Lana completaria por mim o raciocínio:
“Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro se chama amanhã.
Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”.


82570
Por Manoel Hygino - 4/8/2017 07:05:27
Em favor da cultura

Manoel Hygino

A despeito da crise, que serve de argumento a mazelas causadas pela omissão de determinadas áreas do poder público, é dever registrar a permanência do Suplemento, criado por Murilo Rubião e cujos números 1.370 e 1.371 (vou escrever a respeito em outro comentário) acabam de sair pela Imprensa Oficial (IO) de Minas Gerais. Podem deles se orgulhar o secretário de Estado da Cultura, Angelo Oswaldo, seu ex-diretor, o subsecretário da IO, Tancredo Antônio Naves. É uma publicação que honra nossos foros de cultura e de letras, cujo prestígio se aferirá pelo rol de colaboradores de outros estados.
Mas não me omito com relação a Memória Cult, revista que circula graças à dedicação de Eugênio Ferraz, diretor-executivo e editor-geral, que lançou recentemente seu número 21, também acessado eletronicamente. Responsável pela publicação, membro do IHGB e do IHGMG, ele foi superintendente em Minas da Receita Federal e diretor-geral da Imprensa Oficial, prestando expressivos serviços nas áreas de cultura, história e artes.
Confirma-se, deste modo, que nem tudo se perdeu e que mais de útil está a caminho. No novo número da Revista, comparece o desembargador Herbert Carneiro, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ex-presidente da Amagis, que tanto colaborou para a consecução de importantes projetos culturais. Entre eles, a própria Memória do Judiciário e a bela revista da entidade.
Anuncia-se o lançamento de “Ortografia Amorosa”, de Bruno Terra Dias, juiz de direito, que percorreu Minas Gerais como promotor, delegado de polícia e bancário. Tem muito o que contar, portanto.
O jornalista Mauro Werkema presta homenagem a Roque Camello, ex-prefeito de Mariana, advogado, idealizador do Dia de Minas, presidente da Academia Marianense de Letras. A morte prematura de Roque surpreendeu e entristeceu. Silvestre Gorgulho evoca Lúcio Costa, autor do projeto de construção de Brasília, e José Aparecido é lembrado mais uma vez por sua presença e atuação nos círculos culturais brasileiros.
Zenoni Neves escreve sobre a paixão de sua vida, o rio São Francisco, para enfatizar que hoje há em Belo Horizonte o Museu Antropológico, com um projeto pedagógico de relevo, que precisa ser conhecido pelos mineiros e por quantos nos visitam. José Renato de Castro César publica artigo sobre o Museu do Índio, que dispõe de equipe do mais alto nível visando preservar um belo acervo para a cultura brasileira.
Geraldo Veloso inclui bela matéria sobre “A Memória Telegráfica”, que focaliza Abelardo Carvalho, garoto de Iguatama que fez um filme. E Veloso, escritor, produtor e diretor de cinema, coordenador do Consórcio Mineiro de Audiovisual, fala de cátedra.
Finalmente, mais dois preciosos textos: de Yvone de Souza Grossi, sobre escravos libertos das Minas Gerais do século XIX, e Marcos Paulo de Souza Miranda, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande, sobre pedras e símbolos em Minas Gerais. São, de fato, documentos que merecem leitura e rigorosa guarda.


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Por Manoel Hygino - 2/8/2017 07:41:37
O sonho com Portugal

Manoel Hygino

Assim como Pedro, o Álvares Cabral, descobriu o Brasil há mais de cinco séculos, os brasileiros estão descobrindo Portugal desde a virada do centênio passado. Sonha-se e planeja-se ir a Portugal, para passeio, para estudos, para congressos, para viver. Não sem razão o ex-presidente Sarney tem mansão lá, e outros aqui nascidos e os chineses estão investindo no mercado imobiliário luso.
Quanto a mim, sonhei com o “The Literary Man” – que pretensão! – um hotel literário localizado em Óbidos, cidade medieval do interior de Portugal, que tem livros em vários ambientes. Um castelo no alto de um morro abriga 30 quartos, restaurantes, biblioterapia e relax, com uma coleção de 45 mil obras e livrarias.
Ao que ouvi dizer, há ainda um cardápio com comida tradicional portuguesa, Tapas da Terra e do Mar, menus literários, pratos vegetarianos e carta de vinhos raros. Há, também, um Gin bar, que oferece coquetéis literários, uma coleção de gins priores com tônica e cubos de gelo originais, feitos com aromas bios da horta. Vê-se que se trata de um lugar para cultor das letras de país algum botar defeito.
Mas, o escritor Ronaldo Cagiano, nascido em Cataguases, após dez anos em São Paulo e 28 em Brasília, aposentado na Caixa Federal, em 2016, após 35 anos de trabalho e 37 de contribuição previdenciária, decidiu mudar-se com Eltânia, também escritora, para buscar a tranquilidade que por aqui se tornou rara. Confessa-se, agora, em porto seguro.
O primeiro mês foi em Lisboa, até conseguir um imóvel em São Pedro do Estoril, a dez quilômetros do centro da capital. “O apartamento fica a 50 metros da estação e a natureza em redor tem sido nossa aliada nessa busca de qualidade de vida e tudo que contribui para nosso processo de leitura e criação”.
A mudança foi resultado de longa meditação. Nos últimos três anos em São Paulo, o casal foi vítima de dois assaltos à mão armada, além de, em julho de 2016, um sequestro relâmpago.
A descrição diz muito.
“Nosso carro foi tomado por três bandidos armados na saída da loja Leroy Merlin, na marginal Pinheiros. Eles nos levaram a um cativeiro numa favela e por quase três horas, sob mira de armas, fomos obrigados a entregar todos os nossos 4 cartões bancários (conta corrente, poupança e cartões de crédito e respectivas senhas) e, enquanto nos mantinham sob pavor, sacaram de nossas contas, além de roubarem o que tínhamos no carro e nos bolsos...”
“Essa experiência derradeira (fomos soltos e com vida por milagre, porque os bandidos conseguiram o intento) foi a pá de cal de nossa permanência no país”... Não só: a derrocada do sistema político-administrativo-social também influenciou a transferência. “Por isso vai alargando mais o fosso entre classes, gerador da miséria e da violência crescente”. Mas há uma deixa: “que a literatura continue a ser a ponte para saltarmos por cima desses escombros e realizar o verdadeiro salto dialético, porque é o único território, como dizia Hortrop Frye”.
Muitos pensarão como Ronaldo e Eltane. Já estão inventando meios para percurso de volta de Cabral (falo de Pedro Álvares) há quinhentos anos. Só posso, contudo, lamentar que a viagem do nosso conspício e apreciado Artur Almeida, da TV Globo Minas, não tenha colhido os objetivos da alma. Ele encantou, e volta agora ao seu torrão para último abrigo.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2017 07:31:13
Os caminhos de José Américo

Manoel Hygino

O desembargador Rogério Medeiros lembrou, há dias, José Américo de Almeida, que poucos saberão exatamente, hoje, quem seja ou o que representou. Nascido em Umbuzeiro, na Paraíba, há 130 anos, foi um dos maiores vultos da história brasileira no século que ficou para trás.
Segundo o magistrado, José Américo era padrinho de casamento de seus avós maternos, João Maurício e Neusa. Pelos anos 1970, a vovó o levava, ainda menino, durante as férias em João Pessoa, a visitar o já velho político. Conta: “Viúvo, solitário, reflexivo, modesto e aposentado, morava na famosa casa da Praia de Tambaú. Ele achava aquilo enfadonho”.
Depois de viver no Rio de Janeiro, José Américo, que em 1937, concorreria à presidência da República, apoiado por Getúlio Vargas, candidatou-se, em 1950, ao governo do Estado. E se elegeu. Os adversários e inimigos políticos não perderam oportunidade de alfinetá-lo: “Depois de ficar no Rio de Janeiro, no bem-bom, José Américo quer voltar por cima!”. Política é assim, principalmente no Nordeste em que as rivalidades são intensas, de longa duração e, até, transmitidas geração a geração.
José Américo, escritor, pioneiro da literatura regional nordestina, com a “A Bagaceira”, não esquecia seus desafetos e decepções, quando se sentia melindrado. No caso específico de suas ligações com Vargas, achava que este o fizera candidato à sucessão presidencial, mas já urdira o golpe que instituiu o Estado Novo. Em resumo, o paraibano fora passado para trás.
Mesmo assim, ambos venceram à sua maneira os “curtos quinze anos”, que antecederam ao fim da Segunda Grande Guerra e a restauração aqui do regime democrático. Deste modo, viu-se nomeado ministro de Viação e Obras Públicas e ministro do Tribunal de Contas da União.
Sobre o primeiro cargo, fez publicar dois trabalhos: “O Ministério da Viação no Governo Provisório”, 1933, e “O Ciclo Revolucionário no Ministério da Viação”, no ano seguinte.
Nas cidades brasileiras, no final dos anos 30, quando se anunciou a candidatura de José Américo, foguetes espocaram nas praças públicas, mas o projeto de chegar ao Catete gorou.
Deu uma longa entrevista à imprensa escrita do Rio de Janeiro (naquela época, não existia televisão) no ocaso da ditadura, em 1945. Ela soou como o “fim de uma época”. Somadas suas declarações à repercussão do Manifesto dos Mineiros, em 1943, ampliavam-se as ideias de um tempo novo para a nação, até porque José Américo defendia a liberdade de imprensa, o que era impossível de se admitir até então. Os dois documentos causaram comoção nos arraiais políticos.
O paraibano se revelava um homem corajoso, defendendo pontos de vista e posições.
Em 1954, diante da crise pós-Toneleros, foi favorável à renúncia de Getúlio, mas não esperava o suicídio em 24 de agosto. Ouvido sobre a reforma agrária, até hoje um projeto aparentemente quimérico, José Américo foi peremptório. Era contra, assim como com referência à distribuição das terras junto aos açudes, sustentando que essas construções só beneficiavam os grandes proprietários nordestinos.
De José Américo, Medeiros guardou dois conceitos básicos: “O mau juiz é o pior dos homens” e “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde no caminho de volta”.


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Por Manoel Hygino - 29/7/2017 08:27:43
Em termos de prioridade

Manoel Hygino

Recebo a mensagem com a lição de Pitágoras: “Educai as crianças para evitardes punir os adultos”. O ensinamento atravessou séculos, muitos, mas chefes de Estado e de governos não aprenderam. Não lhes era conveniente.
Não tão longe no tempo, o antropólogo Darcy Ribeiro advertiu, em 1982, quando visitou nossa terra natal, Montes Claros, após exílio: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.
Assim, é; assim tem sido; assim será, se não houver mudança na definição de rumos na administração pública. O premier Ben Gurion, de Israel, há décadas, ensinava: “Governar é definir prioridades”. No caso do Brasil, em todas as camadas da população, há um consenso: educação, saúde e segurança pública, primeiramente. Sem elas, não se conseguirá uma sociedade tranquila, saudável e produtiva.
Sem embargo, o dinheiro é curto como o cobertor dos pobres. É incapaz de proteger os pés e a cabeça, a um só tempo. Tudo leva ao sofrimento, sobretudo nas noites de frio, como as de julho deste ano, em que, mais uma vez, moradores de rua perderam a vida por força da hipotermia.
Mas unidades escolares, em cidades brasileiras, estão sendo depredadas por vândalos, que no fundo são criminosos. Faltam recursos para proteção dos prédios, seus móveis, seus equipamentos, os próprios professores e funcionários são agredidos. Um quadro doloroso sob todos os aspectos, mas a que não se dá a imprescindível atenção, dadas a extensão e complexidade dos problemas, e à falta de recursos, pelos menos para estes itens.
No Rio de Janeiro, em que a população enfrenta a criminalidade permanente, os problemas serão resolvidos. Não arrefece o interesse do turista diante da sucessão de assaltos nas matas da Tijuca ou nas belas praias de Copacabana. Se o estrangeiro perde a vida, como o argentino assassinado por um grupo de rapazes, são percalços da sorte. Ou de sua falta.
Escolas não faltarão. Tanto é verdade que prefeito do Rio assinou acordo com a Liga Independente das Escolas... de Samba. Graças a isso, assegurou-se, desde já repasse de R$ 13 milhões para as agremiações cariocas. Cada uma das treze escolas receberá R$ 1 milhão em cinco parcelas até novembro. É metade do que receberam neste ano, mas enfim... escola não pode parar. Agora se apela ao governo federal e ao patrocínio do empresariado, que patrioticamente darão sua contribuição, espera-se.
Diante da inabalável convicção, o presidente da Liga mencionada, Jorge Luiz, foi ao presidente Temer, para apresentar-lhe a solicitação de mais R$ 13 milhões, necessários às escolas no ano que vem. Conforme disse, o chefe do Executivo nacional teria garantido a participação, o que indignou aqueles que se contrapuseram ao aumento dos impostos sobre combustíveis para fechamento das contas públicas. Sá Leitão, novo ministro da Cultura, confirmou que o presidente lhe pediu deferir a demanda. Educação em primeiro lugar. E ela começa na escola.


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Por Manoel Hygino - 28/7/2017 07:32:58
A sofrida América do Sul

Manoel Hygino

Custa imensamente em suor, lágrimas, e talvez sangue, manter uma nação igualitária, democrática. É assim mesmo. Os jornais têm divulgado com frequência o preço de manutenção dos três poderes, sem que os objetivos do Estado sejam alcançados. Mas, o povão inclusive é lembrado indesviavelmente no momento das eleições e já se pensa em 2018. Como será? Como seria? Como se desejaria que fosse?
Mas, estamos em momento especialmente difícil na América do Sul e, por extensão, à América Central, porque se assiste ao desenrolar perigoso de uma situação que pode resultar em guerra civil na Venezuela. Evidentemente esta não interessa àquele povo vizinho, tampouco às demais nações latino-americanas. Enquanto isso, o jornalista Clovis Rossi, da Folha de S. Paulo, comenta que a “diplomacia brasileira já se prepara para um cenário de guerra”. Não é o que parece.
Diz Rossi: “Toca, ele (Maduro, o presidente) os tambores de guerra”. É profundamente lastimável que não se consiga viver em paz e se evolua para um conflito, que ceifará inúmeras vidas e levará a nação ao Norte a piores dias. Cerca de uma centena de venezuelanos já perderam a vida e milhares se refugiaram do lado de cá da fronteira, na Colômbia e na Guiana, suponho. Já temos problemas demais, e sérios, no Brasil.
O panorama atual é sintomático e altamente preocupante, não apenas para os responsáveis pela gestão dos negócios públicos. O cidadão está incomodado, inquieto. Carlos Alberto Sardenberg, examinando a outra face da moeda, adverte: cada deputado federal custa R$ 6,5 milhões por ano à nação. Um senador, sobe para R$ 33 milhões, e são 81 membros na Câmara Alta do Parlamento.
Para tudo, há solução. A propósito, revista de circulação nacional informa que “as 60 camas, do tipo box, que a Câmara está comprando para a Câmara dos Deputados, custarão R$ 80 mil, 48 no modelo queen size e 12 king size”. Explica-se: “a aquisição é necessária para se assegurar a habitabilidade das residências funcionais dos deputados”.
Ora, o número de camas é muito inferior ao de parlamentares. Só alguns terão o benefício? Há falta de igualdade no fornecimento do móvel a suas excelências? Ou gozam de preferências os laboriosos, os diligentes e os atentos ao seu papel na sociedade?
Indispensável propiciar condições adequadas aos nobres parlamentares. No último dia 25, aliás, o site da mesma revista Época destacou que o Senado “fechou contrato para alugar 85 carros zero-quilômetro” para os senadores, secretário-geral da Mesa, diretor-geral e segurança do presidente Eunício Oliveira.
O contrato durará 30 meses e os custos com manutenção, combustível e seguro dos automóveis se incluem no preço. Dois veículos são especiais, com 250 cavalos de potência, ar-condicionado com duas poltronas, película antivandalismo, central multimídia com tela touch e rádio integrado, leitor de CD, MP3, GPS, DVD, Bluetooth e USB. Há também câmera de ré e comando no volante. O aluguel é de R$ 9.300,00 por mês. Enfim, eles nos representam, devem merecer! Quanto à Venezuela, é outro problema.


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Por Manoel Hygino - 26/7/2017 07:23:14
O futuro em jogo

Manoel Hygino

Os altos salários em escalões superiores dos três poderes no país chamam a atenção do contribuinte, alertado na imprensa pelo pouco que sobra para os funcionários de nível inferior. Não só os salários, mas os privilégios que se acumulam na folha de rendimentos mediante vantagens e benesses.
A desigualdade é flagrante e grave, não podendo servir, contudo, de estímulo àqueles que só pretendem as bondades da viúva, isto é, da nação, que já anda mal das pernas. Basta conferir o furo já elevadíssimo no orçamento do presente exercício. Não sem motivo, a União elevou os tributos sobre combustíveis e outros mais poderão vir.
Estamos num beco com pouca iluminação, enquanto todos procuram luz. Tempo para a violência, que termina por ferir os bons e os maus, os certos e os errados. Nesta hora difícil são indispensáveis bom senso, discernimento e espírito público sem os quais não encontramos o melhor caminho. Quem acompanha os tempos de agora sabe que não há exagero nestas considerações. Matamo-nos, uns aos outros, em todas as horas, por motivos de somenos importância ou sem qualquer razão. As estatísticas não mais surpreendem, porque assustam. Estamos em guerra, que abre vias ao hediondo e ao horrendo, estampados interminavelmente pela mídia.
Marcelo Eduardo Freitas, delegado da Polícia Federal e professor da Academia Nacional de Polícia, citou números de arrepiar. Nos cinco anos da gestão anterior a Temer, foram assassinados quase 300 mil brasileiros, metade deles jovens e pobres. Outros 250 mil foram esmagados na impunidade do trânsito.
Mencionada autoridade reitera o aconselhamento: “Uma sociedade se corrige com educação, gênero do qual a instrução é espécie (educação religiosa, educação escolar, educação familiar, etc.) e, precipuamente, com a eliminação da desigualdade entre as pessoas. Não sem razão, assim, sociedades prósperas, quando desiguais, também são extremamente violentas. O remédio, por conseguinte, não virá a curto prazo. É preciso persistência”.
Percebe-se a complexidade e gravidade do período em que há notória e compreensível instabilidade na gestão dos negócios de Estado. Não é alentador o faz de conta de que tudo vai bem, que ora enfrentamos.
Como me referi a uma autoridade, concluo o raciocínio com ideias suas: “portanto, nos aprece que, enquanto não corrigidos os rumos de nossa república, alternativa não nos resta senão o encarceramento de criminosos contumazes, incluídos, por óbvio, aqueles que desviam recursos públicos, lesam o erário, ocasionando, por consequência, um estridente genocídio à brasileira, não perceptível aos olhos dos menos atentos”.
Não sem razão, desta maneira, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, afirmou em recente entrevista: “Os assaltantes do erário são os meliantes mais prejudiciais à ideia de vida civilizada. O dinheiro que desce pelo ralo da corrupção – sistemicamente, enquadrilhadamente –, é o que falta para o Estado desempenhar bem o seu papel no plano da infraestrutura econômica, social, prestação de serviços públicos, educação de qualidade, saúde. O assaltante do erário, no fundo, é um genocida. É o bandido número um”.
Mas há inúmeros outros por todo o território. São mais de 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados.


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Por Manoel Hygino - 25/7/2017 07:02:53
O Brasil em dois tempos

Manoel Hygino

Um poeta amigo escreveu, há dias: “Em meus 72 anos de vida – mesmo sofrendo na carne a crueldade de uma ditadura de 21 anos – poucas vezes enxerguei um mundo tão violento, cruel, cínico e sem esperança”.
Outro amigo, lembrando época passada, observou em mensagem: “nada melhor do que achar que a felicidade era poder cantar uma canção censurada de Geraldo Vandré, comprar um disco do burguês Chico Buarque, ou Caetano Veloso – pelado na capa, fatos que me pesaram na contestação do regime militar”.
De nada valia a vida tranquila, que nos permitia atravessar a cidade a qualquer hora da noite, em bandos adolescentes, sem nenhum perigo, a não ser de algum cachorro bravo solto na rua, sem riscos de assalto ou de perda da vida por alguma bala perdida.
Ninguém, em nosso grupo de adolescentes, usava drogas ou mesmo conhecia algo estupefaciente além de Bacardi com Coca-Cola, limão e gelo, ou o danoso “rabo-de-galo”, mistura de cachaça, Cortezano e licor de pequi. Outros jovens eram mais liberais, afinal vínhamos da contracultura, que teve seu auge nos anos 60, mas eles se limitavam a um visual diferente, cabeludos, de roupas coloridas, à espera da Era de Aquarius, na base da “paz e amor” e “faça amor, não faça a guerra”.
O tempo não parou e surgiu um outro quadro. “Não há mais censura, usar drogas não dá mais cadeia, bolsas diversas sustentam mais de 36 milhões de famílias e as faculdades formam milhares de doutores,
especialmente advogados. A gente pode cantar qualquer canção, acabou-se a indústria da música de protesto e ficar pelado não escandaliza mais. Gays se beijam em público e até se casam; virgindade é só na oração Mariana; existe a Lei da Palmada, as leis de cotas, e outras tantas em defesa da igualdade formal, que um desavisado acharia que esta nação caminha para ser o melhor dos mundos.
Há mais: “da casa murada, com alarmes, concertinas e cercas elétricas, ouvem-se as sirenes do Corpo de Bombeiros e do SAMU, em socorro às vítimas de uma guerra civil não declarada, nas cidades e campos, que mata mais de 60.000 brasileiros por ano, oficialmente. Mais que isso, só no trânsito. Antes, temíamos o guarda da esquina. Hoje, o medo está em toda parte”.
Ele, o medo, é “dos encapuzados que depredam lojas e o patrimônio público, de índios que interrompem as estradas e cobram pedágios, dos sem-terra que não respeitam a propriedade privada, do grampeamento sem controle por agentes do Estado, da bandidagem que nada teme e se organiza em facções, formando seus exércitos”.
E conclui o missivista em questão: “Há certo desalento, um desgosto com o rumo das coisas. Todos queremos democracia, que não se confunde com baderna. Queremos segurança e saúde. Melhorias na educação. Bandidos na cadeia. O império da lei e governantes honestos. Não é muito, mas o suficiente para garantia da liberdade, banindo para sempre os fantasmas totalitários, da esquerda ou direita”.
Leio e medito com os dois brasileiros que me escreveram.


82552
Por Manoel Hygino - 24/7/2017 08:15:57

Mais um Vargas que cai

Manoel Hygino

Os jornais do país divulgaram que, no dia 17 de julho último, encontrou-se em Porto Alegre, no apartamento em que residia, o corpo de Getúlio Dornelles Vargas Neto, 61 anos. Matou-se com um tiro na cabeça, quase 63 anos após o suicídio do avô, no Palácio do Catete, naquela manhã jamais esquecida de 24 de agosto, em 1954. O ato final e trágico poderia, talvez, ter produzido uma revolução, consideradas as motivações. A nação estremeceu.
O Neto, um dos fundadores do PDT, deixou um bilhete, de texto ainda não revelado. Ele administrava os negócios da família e lhe sobreviveu a mulher, servidora pública aposentada, Denise Carneiro, além de quatro filhos de dois casamentos anteriores, um dos quais morava com ele, mas estava em viagem.
Juntam-se os pormenores. O presidente Getúlio se matou aos 72 anos (no dia do aniversário de outro filho – Getulinho), com um tiro no peito, versão contestada por Virgínia Lane. Manoel Vargas, Maneco, filho do ex-presidente e pai do novo Getúlio, deu um tiro também no peito, aos 79 anos, em 15 de janeiro de 1997, em Itaqui, RS.
O personagem que sai de cena neste sétimo mês de 2017 é lembrado por Juremir Machado da Silva, historiador e romancista, nascido em Santana do Livramento, do outro lado da praça está, Rivera, já Uruguai.
O autor gaúcho lembra que Getúlio era o primeiro neto do líder da Revolução de 1930. Admirador loquaz do pai e do avô, na medida em que um Vargas possa ser loquaz, era fazendeiro em Itaqui, palmilhando a cada dia as terras dos Vargas. Namorou a política, mas desistiu: sonhava com uma plataforma comum aos partidos sem donos, a ser exercida por quem, graças ao prestígio ou ao carisma, vencesse as eleições”. Carregava consigo no rosto, na testa, no corpo inteiro, o jeito dos Vargas.
Há muito mistério em toda a saga dos Vargas, que se ampliou pela descendência. Maneco, o suicida 2, deixou um texto sobre as mulheres fortes da família, a começar por Dona Candoca, a esposa do general Manuel do Nascimento Vargas, a mãe de Gegê, a matriarca.
“Tudo se bifurca, novas gerações espalham seus ramos e recomeça o que nunca cessou, a forja da vida, a arte do esquecimento pelo trabalho da reconstrução, com suas lembranças, distorções e novas velhas histórias. Getúlio permanece como um velho urubu a dar sombra e guarida a umas e outras, conciliando o inconciliável e tramando os pontos de um laço cada vez mais esgarçado e comprido”.
Por detrás ou sob tudo, talvez “os rastros discretos ou não de algumas mulheres, unidas aos Vargas por sangue, amor, paixão ou ódio”, como registrou Juremir, referindo-se a um antigo texto de Maneco. A mensagem final do mais novo da família que tão tragicamente deixou a vida pode trazer – ou não – alguma revelação nesse emaranhado de autoextermínios nunca suficientemente esclarecidos, até por motivos compreensíveis.
Virgínia Lane (eu escrevo a respeito em livro sobre o tema) é peremptória no caso de Getúlio Dornelles Vargas, o que foi presidente do Brasil: “Vou levar para o túmulo o que sei. Eu estava no Catete no dia da morte. Eu sei tudo. Não teve suicídio nenhum. Eu ouvi o primeiro tiro. Entrei no quarto. Getúlio estava de bruços. Morreu com
um tiro na nuca. Ninguém se mata com um tiro na nuca. Sei quem foi e não posso dizer”.


82549
Por Manoel Hygino - 22/7/2017 07:34:38
O Rio que não virou pesadelo

Manoel Hygino

O Rio de Janeiro se vai transformando, se já não se transformou, em um grande pesadelo para seus administradores e sua própria população. A gente do Estado e a Cidade Maravilhosa, além dos visitantes desejosos de conhecer a beleza do patrimônio que a Natureza esculpiu em montanhas e mar, sentem a falta de segurança nos bairros elegantes ou na Baixada Fluminense.
Os guias turísticos impressos ou os roteiros divulgados pelos meios eletrônicos de comunicação são valiosos. Mas haja cuidado para não se tomar caminho errado e entrar em terreno dominado pelo crime organizado, com ênfase pela traficância.
Rio não é só praia, não só Copacabana, os badalos das exibições artísticas, sequer o Carnaval e o Baile dos Enxutos, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, o desfile do Cordão do Bola Preta, as óperas no Municipal, a vista ao Hipódromo da Gávea, o Porto das Barcas, a Lagoa Rodrigo de Freitas...
Tudo depende de cada um, de seus gostos, de sua formação, projetos e inclinações. O jornalista Paulo Narciso, mineiro de Montes Claros, duas vezes Prêmio Esso, descreveu dias na Cidade Maravilhosa, de Vinícius de Morais e Noel Rosa.
“Fui ao Rio cumprir alguns deveres: fazer preces no Mosteiro de São Bento, conhecer, ainda que de fora, os estúdios gloriosos da Rádio Nacional, que atingiu, em 2016, a cumeeira dos 80 anos. E, rever, o Forte de Copacabana, agora museu, o Paço Imperial (com nenhuma lembrança do que lá se passou), a Quinta da Boa Vista, que abrigou a única Coroa europeia nas Américas, o Jardim Botânico e, de novo, meditar nos aposentos do autocídio de Getúlio. Tudo muito abandonado, do ponto de vista da história”.
“Os aposentos de Getúlio, onde se imolou, estão a poucos metros de uma pipoqueira fixa, na entrada de um cinema térreo. Creio que Getúlio a custo se esquiva dos piruás que descuidadosamente miram a sua, e nossa, memória, num dos lances mais pungentes. O paroxismo, afrontado por pipocas e piruás. No Paço Imperial, diminuta placa recorda, aos procuradores mais diligentes, a Janela do Fico e a Janela da Lei Áurea, na antessala do Trono, também esquecida. Sugere que nada aconteceu ali, que somos não um povo, mas um acampamento descuidado”.
Há muito, pois, a ver no Rio de Janeiro, não simplesmente no que tange à pauta alegre, aos jogos no Maracanã, às promoções de toda natureza, exposições, apresentações de cantores e grupos artísticos de renome internacional. A história do Brasil habita o Rio de Janeiro.
Nas proximidades da Praça Paris e da qual lhe é próxima a que recebeu o nome de Gandhi ou na rua do Ouvidor, ou junto ao Hotel Serrador, outrora ponto de referência de hóspedes ilustres, há um mundo que merece respeito e revela belezas de uma época que não morreu; por ali, nas vizinhanças, havia o antigo prédio do Senado Federal, casa parlamentar em que Machado de Assis assistia às reuniões e fazia a notícia para as folhas. Mudou o cenário imponente.
O tempo, sim, não parou, mas o que ficou do passado não é pretérito, a não ser para os que não querem conhecer a história. Est mestra da vida, permanece. Os discípulos, todos nós, deveríamos extrair lições que nos guiarão no decorrer da existência, embora se lhe dê tão pouco significado presentemente.


82547
Por Manoel Hygino - 21/7/2017 07:15:12
O esperado Brasil Grande

Manoel Hygino

Três nomes: Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek, Odilon Behrens. Com eles, Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Associação Nacional de Escritores, dentre outras entidades de prestígio nos círculos literários do Brasil, nos brinda com as quase cem páginas de seu novo livro.
Sim: três nomes, uma centena de páginas, através das quais o escritor e jornalista mineiro, nascido em Mariana e ex-redator da Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República desde o tempo do Catete, evoca três personalidades da história brasileira no século passado. Um carioca – Augusto, dois mineiros – Juscelino e Odilon –, respectivamente de Diamantina e Muriaé, são lembrados com afeição e admiração quando o menino da primeira capital das Minas Gerais, estudava no Ginásio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto.
Não se trata de um mero volume laudatório sobre três brasileiros, dos quais se guardam amáveis e até belas reminiscências, mas também restrições com que era recebido o escritor da Cidade Maravilhosa.
Danilo Gomes, com a verve peculiar e com a facilidade verbal dos bons cronistas, os evoca, em um volume que oferece “a olho nu, a força e a beleza da escrita como arte de poucos para muitos”.
Danilo também nos traz episódios que o emocionaram, personagens inimitáveis, como o poeta Alphonsus de Guimaraens, nascido em Ouro Preto, em 1870, e falecido em Mariana, em 1921, onde foi sepultado, inicialmente no modesto cemitério da igreja de Nossa Senhora do Rosário. Juscelino, governador, tomou a iniciativa de erguer-lhe um mausoléu de mármore no Cemitério de Santana, para o qual foram transferidos os restos mortais do excelente Alphonsus. Na inauguração, presidente JK, o orador oficial foi Schmidt. Uma peça inesquecível, de um poeta, até hoje não compreendido como devia.
As cem páginas do novo livro de Danilo (a quem se devem trabalhos como “Mineiridade que sobrevive ao tempo”, exatamente pelos 80 anos de Alphonsus Filho, em 1998), são prova da missão que ele cumpre na crônica, com linguagem coloquial, refinamentos e sutilezas. Um pormenor deve ser ressaltado. O cuidado do autor no que tange a Schmidt, alvo em sua época de críticas e constrangimentos no ambiente político, pelo contingente que formava a “esquerda tupiniquim”. Uma bela publicação que há de ser lida com sentimento de gratidão ao trio focalizado.
Danilo não perde o ensejo para também homenagear os escritores brasileiros que, no passado, se dedicaram à crônica, e aqueles outros que, presentemente, ocupam preciosos espaços nos jornais. Entre eles, Anderson Braga Horta, de pai e mãe também poetas, nascido em Carangola, que teve a sorte de conhecer Schmidt em um programa da Universidade de Cultura Popular, de Gilson Amado, na TV Continental, no Rio de Janeiro. Anderson registrou a promessa do vate carioca, homem também de empreendimentos: “Vamos criar o Brasil Grande. Grande mesmo”.


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Por Manoel Hygino - 19/7/2017 07:06:05
A hora da Justiça concisa

Manoel Hygino

Há algum tempo, o professor Antônio Álvares da Silva comentou a lentidão com que se fazem as investigações sobre homicídios no Brasil. Quem tem tempo de assistir aos programas de televisão, ouvirá as severas críticas dos apresentadores ao que acontece entre nós. Sem estabelecimentos penitenciários suficientes e para recuperação de menores infratores, trata-se de liberar rapidamente o preso, ou suspeito, que retorna à rua para delinquência.
São fatos verdadeiros, que não alcançam apenas os criminosos comuns. Estamos assistindo, em âmbito político a semelhante ou igual espetáculo, a que a mídia dá especial atenção por motivos óbvios. Faltam até as tornozeleiras. O professor Álvares lembrou que, até 2007, foram abertas 20 mil investigações sobre homicídios, embora mais da metade não se concluísse.
Em Minas e Rio, 52% dos casos estavam sem autoria apurada. Evidentemente, o número terá crescido expressivamente, porque a onda de violência ampliou-se no país do Norte a Sul. Não há exceção. A penetração dos bandos de criminosos, procedentes de São Paulo principalmente, nos ataques a postos bancários, se tornou notícia permanente em todas as folhas, nos vídeos e nas rádios.
Para Antônio Álvares, “não é hora de buscar culpados. A omissão provém de uma sequência de governos, que não souberam, na hora certa, enfrentar o problema, que se acumulou. Agora, o resultado aí está. Mata-se como se estivéssemos numa guerra civil”.
Creio que jamais os brasileiros se ligaram à comunicação quanto agora. As pessoas saem apressadamente de suas repartições e escritórios para assistir aos debates nas casas do Congresso ou nas sessões dos tribunais. O cidadão quer pelo menos saber o que ocorre e como se julga, já que não pode influir nas sentenças.
De uma hora para outra, os juízes de um modo geral, os magistrados, se tornaram singularmente importantes para o cidadão comum. Eles são julgados por suas sentenças ou pelas declarações à imprensa de um modo geral.
Sem embargo, chama atenção a extensão das audiências e dos votos dos juízes. No TSE, no processo da chapa Dilma-Temer, somava 8 mil as páginas com o voto do relator. Segundo o jornalista Ruy Castro, da Folha de S. Paulo, isto representava mais que... “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, do “Ulisses”, de James Joyce, e do “Grande Serão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e sem o prazer de leitura que estas obras-primas propiciam.
Quem perde é a Justiça, em termos de reconhecimento público, e a nação, que acompanha a morosidade na aplicação da lei. As tentativas de mudar o quadro não evoluem. O desembargador Rogério Medeiros, lembrou Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu, ministro do Supremo e seu presidente. Ele defendeu um Poder Judiciário, “sem firulas”, sem floreios, sem rapapés”. Mas há julgadores, que se inclinam à “cultura da prolixidade”.
Ruy insinuou: “A ciência das leis nos ensina a resolver problemas de Direito, não a decifrar charada. Esta é para os ladinos. Ou antes, é das tais que só os autores deslindam”. Para êxito da Justiça, o magistrado há de ser claro, preciso, direto, objetivo e conciso. Nada de enrolação, diria o cidadão comum.


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Por Manoel Hygino - 17/7/2017 07:40:15
A Coreia e a dupla sertaneja

Manoel Hygino

Na reunião do G-20, na Alemanha, os presidentes Putin e Trump, da Rússia e dos Estados Unidos, mantiveram um encontro à parte com duração de mais de duas horas. Embora tratassem da suposta interferência de hackers russos nas eleições de Tio Sam, é evidente que outros temas relevantes foram discutidos. Deve ter sido um diálogo muito interessante, sobre o qual não sabemos, o que desejaríamos.
Entre os assuntos, evidentemente, as atitudes e posicionamento bélico da Coreia do Norte, cujo maluquete presidente insiste em produzir um supermíssil capaz de atingir a Califórnia. São dois líderes mundiais, e segundo Wittgenstein, “o mundo é a totalidade dos fatos”. E nele estamos todos incluídos.
Não se pode, contudo, falar sobre Coreia do Norte, sem nos lembrarmos da vizinha do Sul, inimiga daquela há longos anos. É que, entre outros aspectos, aquela cuja capital é Seul, vive horas difíceis e semelhantes às nossas. Lá, como cá, altas autoridades se viram envolvidas em problemas de corrupção, que enormemente têm dado assunto pesado para os jornais.
No dia 30 de março, a presidente sul-coreana, Park Geun-hye, foi presa após impeachment no dia 10. Ela era suspeita de atuar com uma amiga, uma espécie de Rasputin feminino, para subornar grandes conglomerados industriais. Transformou-se em um Deus nos acuda no país, como não poderia deixar de ser, com multidões percorrendo as ruas exigindo seu afastamento.
Aconteceu

A Corte Distrital Central de Seul, em comunicado, usou linguagem muito semelhante às imagens que emanam de Brasília: “É reconhecido que existe uma razão e necessidade para prisão, já que as principais acusações foram constatadas, e há risco de que evidências sejam destruídas”.
Na Coreia do Sul, altas autoridades vão a julgamento com menos entraves ou dificuldades jurídicas do que aqui. A sessão da Corte, que analisou o pedido de prisão formalizado pelo Ministério Público, durou oito horas e 40 minutos, a mais longa na história do país. Como era de se esperar, a presidente negou atuar para suborno de empresas, e que ela não representava risco à investigação, pois não tentaria fugir ou destruir provas.
Pelo sim, pelo não, Park foi levada para penitenciária de Gyeonggi, a 24 quilômetros da capital. Por sinal, já ali se encontrava Choi Soon sil, a amiga acusada de extorquir doações de grandes conglomerados empresariais como Samsung e LG, além de interferir em decisões do governo, em que jamais ocupou cargos.
A investigação concluiu que Park obtivera quase US$70 milhões de empresas para duas fundações controladas por Choi em troca de favores políticos. Ali e lá, más pessoas há, nas altas esferas da administração pública.
Temos de convir com o escritor Emanuel Medeiros Vieira, de Santa Catarina, que presentemente habita Salvador, BA: “Por aqui, já não basta a dupla sertaneja Joesley e Wesley, patrocinada pelo BNDES, Caixa Econômica e outras instituições dominadas pelo gangstarismo e pelo banditismo, que estão ou estavam no topo da República” Emanuel não mede palavras, pelo que se observa. E tem razões suficientes.


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Por Manoel Hygino - 15/7/2017 13:31:18
O novo ano da fumaça

Manoel Hygino

Os dias excessivamente frígidos de julho não foram os primeiros na crônica mineira. As noites se estenderam pelas horas das manhãs seguintes. Apanharam-se os agasalhos nos guarda-roupas e os cobertores nos armários para mitigar o desconforto das baixas temperaturas e o vento às vezes uivantes das longas madrugadas.

O espetáculo do dia assaz preguiçoso em luz e calor solares lembraria o Ano da Fumaça, cuja notícia nem sempre é encontrada em compêndios escolares. A espessa neblina que, então, tomou conta de grandes regiões e atingiu o sertão além das veredas, adoeceu muitos e assustou os supersticiosos. A ameaça vinha da natureza, esse tempo escuro, até de tremura, prenúncio de amarguras.

Na capital federal, impenitentes debates, agressividade às vezes, igualmente lembrariam o Ano da Fumaça, que desceu sobre as Minas e as Gerais em 1833, a partir de março. Naquele dia, mês e ano, um grupo político da província, alcunhado de caramuru ou restaurador, tomou o poder em Ouro Preto, a capital, destituindo o presidente Melo e Sousa, e seu vice Bernardo Pereira de Vasconcelos e baixando medidas drásticas.

A revolta do Ano da Fumaça se alongou até 23 de maio, com o governo intruso instalado em Vila Rica. Admitia-se que o grupo pretendesse a volta de Pedro I à Coroa, após a abdicação de 7 de abril de 1831. Podia... São João del-Rei se tornou a capital de Minas, por dois meses, sob Vasconcelos e Melo e Sousa.

Naquela primeira metade do século XIX, diz Marcos Ferreira de Andrade, “o império brasileiro atravessava um período de instabilidade política, de mudanças e aprovações de novas leis e códigos que interferiam na relação das províncias com o poder central, além das disputas entre os grupamentos políticos com seus respectivos projetos de nação, ainda em debate e construção”.

Mutatis mutandis, os fatos se repetem 184 anos após. Não mais o “império brasileiro”, sim a república proclamada em 1889, mas também o Brasil de 2017, que atravessa “um período de instabilidade política, de mudanças e aprovação de novas leis e códigos...”.

Eis aí apenas minguada parte do problema que a nação atravessa, com o cidadão não entendendo exatamente o que acontece e o pior – o que tem pela frente. Não há dúvida de que se trata do “maior escândalo de corrupção de todos os tempos”, como divulgou, em junho passado, o “The Guardian”, em Londres.

Perdemos o senso crítico, a ética anda rasteira, lá no pântano, confundindo os brasileiros, que sonham com dias honestos e mais felizes, amando com fé e orgulho a terra em que nascemos. Por agora, vivemos o novo ano da fumaça até no caráter. Para o periódico da capital britânica, quer-se “políticos mais limpos e respeitadores da lei”, mas não só os políticos, evidentemente.

Dos dias atuais no Brasil, poder-se-ia dizer que se assemelham à Síria, atormentada pela guerra que soma anos e já deixou cerca de 500 mil mortos. Aqui, não há perspectiva de paz, sequer de trégua, tamanho o caos no qual desembarcamos. Os grandes culpados se dizem inocentes, nos muitos partidos ou fora deles. Não há pessimismo, mas o futuro, a pequeno e médio prazos é incerto e desfavorável. Quem viver, confirmará.


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Por Manoel Hygino - 14/7/2017 07:39:59
Em um dia, três presidentes

Manoel Hygino

Os fatos são vertiginosos. A imprensa escrita, isto é, os jornais, sai em desvantagem com os meios de comunicação eletrônicos, cujos repórteres fazem o que podem para não falharem e levarem furo. Brasília se tornou o centro dos acontecimentos políticos mais do que nunca e para lá se volta a atenção do país. Não poderia deixar de ser assim.
O presidente da República, com cabelos mais brancos do que quando assumiu o governo, segura o andor – de um lado e de outro – porque o santo é de barro. Como, aliás, a própria chefia do Executivo nacional, com um ministério extremamente vulnerável a delações, acusações, suspeições.
Durante dias, o pêndulo que segura o tempo no Planalto pendia para um lado ou outro: sai Temer, não sai Temer; assume Maia, não assume Maia; qual o parecer do relator sobre a denúncia a ser investigada a pedido de Janot? Qual o escore? Difícil país, o nosso, cuja governabilidade se põe em dúvida, a cada dia. Como será o Brasil das próximas horas? O que nos está reservado?
O “Financial Times” previa, no sexto mês deste ano, que – “após apresentar uma leve recuperação em seus indicadores econômicos, indicando uma saída da maior crise da história do país, o Brasil deve voltar à recessão”.
Lamentável expectativa, quando não incômoda ou inquietante. “O Brasil é o problema (do continente), diz Ed Jones, autor do referido estudo no “Financial”. “Até março, o país se recuperava um pouco, mas nos últimos meses voltamos a vê-lo se afundando novamente”. Para outro analista, o que acontece “está associado ao aprofundamento da crise política”.
Que pode o cidadão fazer diante da dúvida e do infortúnio? Não nos incluímos, por exemplo, entre os países mais felizes do mundo, pois perdemos cinco posições. “Venturosos, pela ordem, são Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça e Finlândia”.
A nação mais poderosa do mundo – EUA – está em 14ª posição. Curiosamente, não há referência à China, mas na América Latina o primeiro lugar em felicidade coube a Costa Rica (11ª em todo o ranking natal), seguida por Chile (20º), Brasil (22º), Argentina (24º) e México (25º). Paraguai ficou na lanterninha.
De todo modo, não falta quem possa exercer a chefia do Executivo nacional. Em julho, sábado, tivemos 3 presidentes da República, lembrando os três de novembro de 1955: Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos. Em 2017, até o fim da manhã, Eunício Oliveira, presidente do Senado, era também o da República, porque o titular – Temer – estava na Alemanha, para a reunião do G20.
De volta da Argentina, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, primeiro na linha sucessória, regressou da Argentina, cerca de 11 horas. Temer, às duas da tarde, volta da Europa e entra no espaço aéreo brasileiro, passando automaticamente ao exercício do cargo.
O mais engraçado, porém, me é enviado pelo acadêmico Danilo Gomes, que encontrou a frase não sei onde: “O Brasil é feito por nós. Só falta agora, desatá-los”. A outra poderia ser de Guimarães Rosa: “Junto dos bãos é que a gente fica mió”. É uma questão de escolha e a hora é chegada. E tenho certeza de que o cidadão honesto deste país que ficar quer ficar ao lado dos bons.


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Por Manoel Hygino - 12/7/2017 07:23:24
O frio de nossa época... no Brasil

Manoel Hygino

Frio como não se sentia há décadas, não só em Belo Horizonte como em toda Minas, incluindo o nosso sertão. Os dados fornecidos pela meteorologia e transmitidos pela mídia, com ênfase pela montesclaros.com, causam espanto no Norte do Estado, quase assombro.
Frio até abaixo de zero no Sul do Estado, como em Monte Verde e Maria da Fé, temperatura própria às geadas, embora a capital alterosa não ficasse muito distante: no dia 4, terça-feira, a massa polar fez registrar 6.1 graus, a menor temperatura desde 1975. Com sensação térmica de 9 graus negativos, Belo Horizonte foi a mais gelada do Brasil, fazendo-nos lembrar Montevidéu em que vivi anos atrás, na praça em que se instalou o mausoléu de homenagem a Artigas, o herói nacional.
Em meio à frigidez, uma pesquisa mostrava que a expectativa de vida do brasileiro pode chegar a 83 anos, levando-se em conta as estatísticas de óbito entre 2014 e 2016. Evidentemente, se não se contarem as vítimas de balas perdidas no Estado do Rio e os que falecerem subitamente com as incessantes e patéticas novidades no ambiente político. Os sobreviventes brasileiros, se aposentados, talvez recebam a primeira metade do abono de Natal na folha de agosto, como prometeu o presidente Temer.
Quanto a mim, temo pelo oitavo mês, em que se matou Vargas no Catete, em 24, ou renunciou ao cargo Jânio Quadros, no 25º dia de agosto de 1961, Dia do Soldado, oito meses após a posse e a condecoração a Che Guevara. Muitas pedras, pois, no meio do caminho do Brasil, enquanto o presidente da República fazia de conta que tudo ia bem, durante a reunião do G20, na Alemanha.
O frígido tempo que atravessamos na primeira quinzena de julho nos evoca a saudade do sol, como tão bem manifestou Ibsen, em sua obra. Em “Espectros”, que João Cheschiatti apresentou aos belo-horizontinos em época de grande interesse pelo teatro do dramaturgo norueguês, o personagem Oswaldo morre, como Goethe, “pedindo luz”.
Minha única irmã, que sentia grande inclinação pela construção teatral do autor norueguês, impressionava-se com os personagens de Ibsen, apelando ao sol, à luz, e ao calor ,que nos faltaram com força tropical nos dias recentes.
Do notável autor nórdico – e em sua pátria, esteve, há pouco, o presidente Michel Temer – o conjunto de claro e escuro é como um espetáculo mágico dos mundos escandinavos: um paradoxo de sol, nas trevas da meia-noite. É algo que nos encanta, mesmo quando se assiste pela televisão.
Há um pouco de Brasil no pensamento de Ibsen, em sua obra, tão pouco conhecida entre nós, pois sequer “Casa de Bonecas” vem sendo reapresentada por aqui. De todo modo, como escreveu Raul Machado, há tempos atrás, o autor, nos domínios da arte, acredita na possibilidade de melhoria da sociedade, pela simples redenção intelectual e moral do indivíduo. A melhoria parece, falecendo no Brasil, porque se crê que a redenção do indivíduo só se faz mediante uma reforma da organização social. No entanto, a finalidade é a mesma; só a fórmula diverge.


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Por Manoel Hygino - 11/7/2017 07:17:43
O impeachment de Getúlio

Manoel Hygino

No dia 29 de junho, a Academia Mineira de Letras recebeu o jornalista, professor e escritor Edmilson Caminha. Ele veio para a conferência “O mergulho de Pedro Nava na condição humana”. Nascido em Fortaleza, CE, membro do PEN Club do Brasil, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil, diretor de Cursos da ANE – Associação Nacional de Escritores sabe a respeito dos escritores e políticos mineiros mais do que muitos de nós, que temos berço nas alterosas.
Pelo próprio tema da conferência, isto é, Pedro Nava, se perceberá seu interesse pelos autores das montanhas, dos quais se aproximou e muito conhece, dedicando-lhes muitas de suas crônicas e livros. Aliás, como redator do Congresso Nacional, onde se aposentou, Edmilson muito aprendeu sobre a gente mineira.
Em seu mais recente livro, “O poeta Carlos & outros Drummonds”, ele mergulha sobre e na vida do vale e cronista itabirano, com a leveza de texto que é uma das virtudes de seu sempre agradável texto. Revela, por exemplo, que, na certidão de nascimento do poeta, faltou o sobrenome “Drummond”, com que se perenizou.
No volume, que acaba de ser editado pela Thesaurus, de Brasília, Edmilson lembra que, em 16 de junho de 1954, encerrou-se na Câmara dos Deputados, o processo de impeachment de Vargas, por sinal o primeiro no Brasil a que se submeteu um chefe de Estado.
Curiosamente, o autor da iniciativa não foi um parlamentar, mas Wilson Leite Passos, jovem jornalista de 28 anos, um dos fundadores da UDN-União Democrática Nacional. Na apuração, 136 votos contra 35 a favor e abstenções. Motivo: Getúlio fora acusado de favorecer a empresa jornalística “Última Hora”, atuando, no Palácio do catete, por uma “república sindicalista”.
Drummond, cronista do “Correio da Manhã”, comentou o fato político com o cuidado típico de sua personalidade, não simplesmente por ter servido ao governo como chefe de gabinete do Gustavo Capanema, ministro da Educação.
Para o itabirano, o impeachment era uma “admirável arma do cidadão”, por alertar aos que, no exercício do alto cargo público, incorresse em erro grave. Mas, o redator, que escrevera numerosas crônicas para o “Minas Gerais”, não perde o ensejo para advertir que a palavra não significa impedimento, como até hoje se traduz.
De fato, o vocábulo quer dizer “denúncia, acusação levada ao corpo legislativo, ou, segundo a Enciclopédia Britânica, forma judicial do processo parlamentar contra criminosos”. Faz a defesa das democracias, da liberdade de pensamento e da opinião, sem o que se cai no “parlamento unânime, este sim, perfeitamente inútil por não ser mis parlamento”.
Em seu comentário, formula a pergunta: por que não se traduz impeachment, inclusive para que o povo participe mais ativamente do seu desenvolvimento? Com esse termo pedante, será difícil explicar o instituto ao homem simples que apenas lê jornal ou ouve rádio, e que dirá com seus botões: “isso é coisa de americano”.
Para Drummond, o processo “intimida a autoridade em seus maus desígnios ou na sua tendência ao abuso”. Em todo caso, ficou também a lição: o termo impeachment, segundo a Constituição, é acusação e julgamento, como aliás disposto na Lei 1.079, que regula a matéria.
Para finalizar, sugestão: a leitura do novo livro de Edmilson, que ensina muito sobre o poeta maior, nosso conterrâneo de, na cidade que não pode ser um retrato na parede.


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Por Manoel Hygino - 10/7/2017 07:17:58
As lições de um grande ditador

Manoel Hygino

Já é julho, começamos a segunda metade de 2017. Pelo visto e admitido, será um semestre novamente de grandes turbulências, como preconizam os ares do viver humano. Os graves problemas não foram resolvidos, por motivos vários, inclusive os de natureza moral e ética. Jornalista amigo meu me enviou algumas linhas que muito dizem: “Não só na esfera política que o Brasil se pôs de cócoras; no setor privado, naquilo que é cotidiano e privado, como dizia o Manifesto dos mineiros, a nação também está agachada, corrompida: já não há palavra sendo cumprida, nem gente que trabalhe com a consciência de que servir, honradamente, é elevado privilégio, estágio superior da consciência moral. Vamos ter de recomeçar do zero. Porém, nossa fé – como na música,- não deve se cansar... Deus... tenha pena de nós, nesse tempo de políticos tão ilimitadamente desonestos, em todos os sentidos”.
O pensamento nos obriga meditar e extrair lições – para o segundo semestre e para o futuro, a curto e médio prazos nada encantadores. A geração de hoje tem grave responsabilidade e há de assumi-la, se quiser que não seja execrada pelas que virão.
Não me sai da memória a mensagem de Charles Chaplin, a mensagem do genial vulto do cinema, nascido em Londres no ano da proclamação da República no Brasil. Filho de artistas de vaudeville, tinha cinco anos quando estreou no palco. Em turnê pelos Estados Unidos em 1913, um ano antes do início da 1ª Guerra Mundial, foi controlado por Mack Sennett. Só em 1914 fez 35 filmes, dirigindo a maior parte deles. Plateias de todo o mundo consagraram-no a partir de então. De regresso à Europa, depois de tornar-se difícil sua permanência nos EUA por suas posições políticas, dirigiu grandes filmes, entre os quais “O Grande Ditador”.
Para se ter uma ideia mais precisa do ali contido, seria interessante uma releitura dos textos com o posicionamento do personagem central da história narrada. Ali, diz:
“O caminho da vida pode ser de liberdade e de beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.
É uma peça, pois, do mais alto sentido social e humano, de abrangência universal. Mais adiante, nossa linha de raciocínio, faz uma pelo à tropa preparada par aos embates bélicos:
“Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem –não de um só homem ou de um grupo de homem, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice”.



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Por Manoel Hygino - 8/7/2017 08:11:57
Um ditador a menos

Manoel Hygino

A notícia, em duas colunas, saiu em jornais do Brasil (nem todos): Noriega morreu. O nome não significa nada para a maioria dos seres humanos do mundo. No entanto, o indivíduo foi presidente da República do Panamá, país situado no ponto mais estreito da parte continental da América Central, dividida exatamente pelo canal que liga o Atlântico ao Pacífico.
Cerca de 14 mil embarcações, correspondendo a 5% do comércio marítimo mundial, cruzam os 82 quilômetros do canal, que passou do controle dos Estados Unidos para o Panamá em 2000. O país tem 75.040 quilômetros quadrados e 3,5 milhões de habitantes, uma espécie de Grande BH, cuja economia se baseia nas atividades financeiras e nas rendas obtidas com a zona do livre comércio de Colón, a exploração do canal e o registro de navios mercantes.
A região foi alcançada pelo espanhol Rodrigo de Bastidos em 1.501 e, no ano seguinte, lá aparece Colombo, iniciando-se o povoamento em 1503 por Nunes de Balboa. Mas não é isso que me traz ao comentário de hoje. Quero falar de Noriega, que entrou em cena quando o Panamá e a Colômbia deixavam de ser uma unidade administrativa e já se concluiu a ferrovia transcontinental Panamá Railway, financiada e inaugurada pelos EUA em 1885.
Cinco anos antes, Ferdinand Lesseps, que construíra o canal de Suez, iniciara as obras do canal, mas o empreendimento foi à falência. Inaugurado somente em 1914, os Estados Unidos ficaram com o controle perpétuo da Zona do Canal, mediante pagamento de uma anuidade.
Com a presença norte-americana ali, nada se fazia sem seu conhecimento, mas a turbulência era notória. Um golpe contra o civil Arnulfo Arias, em 1968, elimina garantias constitucionais e fecha a Assembleia Nacional, subindo ao poder o general Omar Torrijos, falecido em um acidente aéreo muito suspeito. O ex-chefe do serviço secreto e colaborador da CIA, general Manuel Antonio Noriega assume o comando militar do país, enquanto o presidente eleito Burletta, denunciado por fraude, renuncia em 1985.
Noriega é acusado de envolvimento no assassinato do oposicionista Hugo Spadalafora, um médico de prestígio, torturado até o último suspiro. Torrijos, que nunca se declarou presidente, mas Líder Máximo da Revolução panamenha, assumiu a direção do país de 1968 a 1981. Após Torrijos chefia o governo Florêncio Flores Aguilar, logo substituído por Rubén Dario Paredes, mas quem mandava mesmo era Noriega, que se promoveu a general, e controlou o país até 1989.
Em 1984, permitiu a realização das primeiras eleições presidenciais em 16 anos. Quando os primeiros resultados nas urnas indicavam a vitória do ex-presidente Arnulfo Árias por grande vantagem, Noriega mandou parar a contagem de votos. Quando reiniciada, Nicolas Barletta, o preferido do governo, estava à frente e venceu por 1.700 votos. Tiranetes”.
Noriega se enriqueceu com o tráfico de drogas para os Estados Unidos, que mandaram capturá-lo em 1989, mas ele se asilou na Nunciatura Apostólica.
Os marines de Tio Sam fizeram uma balbúrdia mas o asilado não se rendia. Por intervenção do Vaticano, ele decidiu entregar-se aos fuzileiros e foi levado para Miami. Foi julgado e condenado, em 1992, a 40 anos de prisão por tráfico de cocaína, chantagem e lavagem de dinheiro. A França entrou no problema, porque ele depositara cerca de 5,2 milhões de dólares em 2010, fruto de tráfico de drogas, e bancos franceses. Este o Noriega, resumidíssimo, que deixou de existir este ano.


82509
Por Manoel Hygino - 5/7/2017 07:23:04
João e outros Batistas

Manoel Hygino

No mês sexto, das passadas festas juninas, alguém perguntou: o São João reverenciado é o Batista ou o Evangelista? Muitos não souberam responder, porque não se tinham preocupado em identificar o fato na história ou nos livros sagrados do cristianismo. O mais indicado era comemorar o 24 de junho, e assim se fazia no Brasil por tradição, desde a colonização.
Dúvida, contudo, não há. João, que recebera o apelido de Batista, foi quem preparou o caminho de Jesus e o batizou no rio Jordão e seu nome significa “Deus é propício”. Naquele dia, há dois milênios, João disse: “eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo”, e sobre o autor do batismo, Jesus declarou: “jamais surgiu entre os nascidos de mulher alguém maior do que João Batista”.
O nascimento de João, aliás, foi saudado com uma fogueira em família, como combinado entre Maria, mãe de Jesus, e Isabel, sua prima e mãe de João Batista, ampliado o costume a todo o mundo cristão e a nossa época. Batista é, assim, quem prega e batiza, mas no Brasil atual o nome serve também a pessoas não santas. Basta conferir- se na mídia.
Entre os novos Batistas está, por exemplo, Eike, que no dizer de Élio Gaspari, “exercitava a superioridade dos poderosos”. Emprestou o seu jatinho Legacy a Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de janeiro, para que ele chegasse a tempo a um resort na Bahia para a festa de aniversário de seu amigo Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, explicando: “sou livre para selecionar minhas amizades... contribuir para campanhas políticas...”.
Eike Batista se entregou à Polícia Federal, esteve preso e declarou: “é hora de passar as coisas a limpo”. Quanto a Joesley, esteve ou está internado em hospital de São Paulo. Problema de coluna?
O surgimento em cena do personagem Joesley Batista – outro com o sobrenome – e Wesley, irmão e igualmente Batista, foi uma surpresa para os brasileiros que não sabiam das fabulosas façanhas do grupo, formado a partir de Goiás.
O assunto ganhou dimensão nacional quando se publicou que o presidente Temer usara um avião da JBS, presidida por Joesley, para levar a família para alguns dias de férias na Bahia. Revelou-se que as ligações das empresas do grupo dos Batistas com figurões da República eram de arrepiar.
Até o Aécio solicitou empréstimo e deu no bolo que aí está... e queimou no forno de Brasília. O Joesley relatou que pagou propina para beneficiar-se de operações e operação junto ao BNDES nos governos dos antecessores de Temer. Os três presidentes declaram que as acusações não têm provas e tudo negam, como não poderia deixar de ser.
No meio do imbróglio, surge um coronel em São Paulo, pertencente ao grupo mais ligado a Temer, que receberia, segundo denúncia, dinheiro para obras em propriedades de familiares do ex-vice-presidente. É um Cel. Batista, sobre o qual também pouco se conhece, por enquanto.
Aí, voltamos ao Imersor, o João Batista, dos primórdios do cristianismo. Ele considerava de especial valia perante Deus se tornar público o arrependimento e a mudança de atitudes das pessoas.
No Brasil, contudo, parece prevalecer fenômeno registrado por Stanislaw Ponte Preta: “a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do subdesenvolvimento”.


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Por Manoel Hygino - 1/7/2017 08:17:26
Pela rota mortal do Norte

Manoel Hygino

Propus na Revista Cult, de Eugênio Ferraz, focalizar municípios de Minas Gerais não tão frequentemente lembrados e homenageados pelos meios de comunicação, como o são Ouro Preto, Mariana e Tiradentes, por exemplo, que muito merecem. O objetivo era mostrar o que há de interessante e precioso em outros numerosos burgos. Comecei por Grão Mogol e continuei com Salinas, numa região histórica da velha província.
Este ano, Grão Mogol foi alvo de bandidos, que assaltaram a agência do Banco do Brasil, como aqui também relatei. Mas, obedecendo à sina das localidades mineiras, qualquer a sua dimensão, Salinas igualmente entrou no rol da violência que marca esta época sertão afora. No dia 21 do mês, que deveria ser de festas religiosas e populares, Salinas, a 218 quilômetros de Montes Claros, a maior cidade da região, viveu madrugada de medo. Cerca de dez homens, armados de fuzis (as velhas garruchas não existem mais ou estão fora de moda) atacaram prédios da Caixa Econômica e do Banco do Nordeste, fugindo pela Rio–Bahia.
Fecharam-se estrategicamente, com carros, as principais ruas das proximidades da Caixa e explodiram os respectivos depósitos eletrônicos. Hoje, o Brasil todo sabe como funciona o esquema.
Em seguida, os bandoleiros tentaram destruir os vidros da agência do Banco do Nordeste, que eram blindados. Houve troca de tiros com a polícia, o prédio foi danificado, cédulas de dinheiro voaram pelos ares. Os passos seguintes foram os mesmos da primeira quadrilha. Os marginais fugiram pela Rio-Bahia usando três veículos, e nada mais se sabe.
Toda a região se tornou alvo e vítima dos criminosos. Em uma terceira cidade, que por sinal tem nome de santo, São João do Paraíso, outro registro triste, ou repugnante, exatamente em junho da devoção de milhares de brasileiros.
No dia 20, em torno das 20h20, a PM foi chamada. Na fazenda Santa Maria (a mãe de Jesus), na zona rural, uma senhora de 63 anos, em sua residência, ouviu o latido de cachorro e, em seguida, alguém bater à porta. Ao abri-la para ver de quem se tratava, ingressaram na humilde habitação dois indivíduos, encapuzados e armados de revólveres, que se diziam policiais. Perguntaram onde estavam as armas e um dos marginais prendeu a moradora, de 81 anos, na sala.
Não só isso: uma terceira personagem do drama, de 79 anos, acamada, implorava para não ser incomodada. Entrou em cena um ancião, 70 anos, que repetiu o apelo, mas foi atingido por um tiro. Aconteceu como sempre: os invasores simplesmente sumiram, não sendo localizados. A vítima, baleada, foi socorrida no hospital da cidade pelo plantão.
No dia 20 ainda, um ônibus não habilitado, que fazia o itinerário São Paulo-Bahia, após usar rotas alternativas para escapar às barreiras policiais, capotou perto de Salinas, matando onze pessoas e ferindo vinte ou mais. O motorista fugiu.
O Norte de Minas, de gente trabalhadora e humilde, torna-se roteiro da criminalidade. Se faltam meios para ação mais enérgica da autoridade, inexiste qualquer senso de humanidade entre os que fazem da violência e do crime seu meio de vida.


82501
Por Manoel Hygino - 1/7/2017 08:13:53
EI quer atacar a Europa

Manoel Hygino

Abre-se o jornal e liga-se a televisão, o rádio, a Internet para as informações mais recentes. Entre as manchetes internacionais, as ações do Estado Islâmico no front asiático ou de seus adeptos mundo afora, principalmente a Europa. Os extremistas destruíram o minarete inclinado da parte velha de Mossul, com mais de 800 anos. A importante cidade do Iraque, sofre, e assim seguirá, pois não há previsão do final do conflito.
No aeroporto de Michigan, Estados Unidos é claro, um policial foi esfaqueado. Autoridades americanas admitem a autoria do crime a um terrorista que gritou “Allahu Akbar”, Deus é grande. Em Bruxelas, continuam investigações da penúltima semana de junho sobre um homem com uma mala de pregos e cilindros de gás, que seria explodida e causaria a morte de um sem número de pessoas na Estação Central da capital belga, pela qual circulam 60 mil pessoas por dia. Em Fátima, Portugal, terrorista foi preso, como um dos possíveis envolvidos no atentado em Brescia, Itália, em 1974, que deixou 102 feridos e 8 mortos.
O site do Exército da Argentina foi invadido, no dia 19 de junho, por hackers. Veiculou-se a ameaça: “O Estado Islâmico está na Argelina e muito em breve vocês vão saber de nós”. “Allahu Akbar”. Em seguida, fotos de membros do grupo terrorista. O mundo não tem pausa para beneficiar-se de sua vulnerável e incompleta paz, simplesmente porque os “soldados” do Estado Islâmico também não o permitem. Onde e como adquirem meios para sua pertinaz e selvagem matança na Ásia e, há tempo, em outros países do mundo? Como conter o fluxo de recursos e armamentos?
A grande maioria dos povos das Américas não quer tomar conhecimento, mas há ameaça no ar. Jeffrey Felman, da ONU, comenta que – apesar da pressão militar - o EI continua resistindo particularmente em Mossul e Raqa, no Iraque, do que se vêem diariamente cenas alarmantes pelas televisões. Uma fábrica, em plena operação, de mortos, mutilados e refugiados. As cenas perversas estão também no cinema e nas fotos dos jornais, para alegria dos criminosos.
Um alto funcionário da ONU observa que, apesar de seus fracassos parciais, o grupo está mais focado do que nunca “em atacar a Europa e/outras áreas fora dessa zona de conflito”. Os atos aqui relacionados foram referidos pelo alto funcionário da ONU. Felman citou ataques na Bélgica, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Suécia e Turquia e já mereceram comentários nossos.
Adiante, revelou a autoridade da ONU: “A ameaça persiste.” Conforme militantes fora da Síria e do Iraque, os chefes se reúnem e distribuem propaganda de seus planos e ações. A França propôs ao Conselho de Segurança da ONU a implantação de uma força militar africana de oito países para lutar contra os extremistas violentos e traficantes de drogas (veja bem). Entretanto apenas um plano. Enquanto se esperam medidas concretas e práticas, o Estado Islâmico segue seu macabro itinerário de ódio, sangue e morte. Em pleno século XXI!


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Por Manoel Hygino - 30/6/2017 08:40:26
Uma lição permanente

Manoel Hygino

Esperei até o Corpus Christi, bem a propósito, para registrar o livro de Nelson Hoffmann, “Companheira”. Uma única palavra de título, para menos de cem páginas e um imenso conteúdo. O autor, lá da fronteira com a Argentina, residindo a 150 metros do caudaloso rio Uruguai, na jovem cidade de Roque Gonzales, produz boa literatura, com apoio da família: Inês R. Hoffmann, zela pela revisão, e Tony cuida das fotos e da arte da capa, em edição da Cultuarte.
Sabemos pouquíssimo do que existe da região missioneira, a não ser pelos cartões postais e pela infrequente divulgação das televisões. Terra de embates, do empreendimento colonizador jesuíta, de sangue derramado nas contendas entre portugueses, espanhóis e índios, muito heroísmo. Disso se gabam, com justa razão, os que lá se instalaram e continuam a missão que lhes incumbiram as gerações anteriores.
Hoffmann, advogado, contabilista e professor, ocupante de altos cargos públicos, foi o primeiro executivo do município, integra academias e entidades culturais, correspondente de jornais e revistas, conselheiro editorial, verbete de dicionários e enciclopédias. Autor de numerosos livros, deveria pelo menos ser mais divulgado no Brasil imenso que fica ao Norte.
A partir de uma experiência pessoal, dolorosa, inquietadora, comovente, elaborou seu novo livro. Confessa: “foram poucos dias, horas, minutos, segundos, em termos físicos, carnais, de mundo. Em termos materiais, espirituais, transcendentais, são o início de uma jornada de busca que não sossega”.
O tema me leva à recente e belíssima crônica de Ronaldo Werneck, ensaísta, tradutor e crítico de literatura, cinema e artes plásticas, mineiro de Cataguases. Ele pergunta: “meu Deus, o que é a morte? Subir, subir e, esplendidamente, ganhar o azul, pratear-me da lua e chegar lá, de onde vim e para onde devo voltar?”
Nélson Hoffmann relata belamente, fortemente, a experiência de sentir-se morrendo, pelos corredores de hospital, pelas enfermarias, sob cuidados médicos, sabendo-se nos últimos momentos, consegue descrever as angústias com emoção, com a grandeza de quem conhece o que lhe passa e o que o espera.
É algo raro. Sem lamúrias, afirma: “a morte define a vida. A vida é o caminho da morte. Ambas incorporaram em mim quando eu fui gerado. Juntas, são faces de minha unidade. Vêm de antes, seguirão depois. Surgi passageiro, estou em viagem. Quando surgi, a festiva recepção fez-me berrar de alegria. Acolhido e paparicado, quedei-me pela vida, ignorei a morte. Fui-me às conquistas. Que a vida proporciona e o mundo oferece. Estudei, trabalhei, passei pela infância, superei a adolescência, concluí a juventude. Adulto, assim classificado pelas etapas do tempo, eu estava preparado e pronto para o grande desafio: vencer na vida”. Mas, “a morte é minha companheira, ensina-me a viver”.
Eis sem embargo, a grande pergunta: “vitória na vida é o sucesso, a glória? Sucesso, glória de quê?”. “Meta: dinheiro, poder, fama. É a glória do mundo”?


82492
Por Manoel Hygino - 28/6/2017 07:37:48
O papagaio de Cajazeiras

Manoel Hygino

Negar que há algo de errado por aqui é pretender tapar o sol com peneira, ocultar o que todos sentem e veem, em nível interno e externo – para tristeza e vergonha. O Brasil, como nação, vive uma crise notória, e que se procura classificar como econômica ou política, esta mais grave porque influi naquela.
Pior é que se ampliou tanto o problema que sequer se sabe mais sua real natureza. Em âmbito estritamente político, tenta-se explicar, argumentando que a corrupção sempre existiu, embora não se evidenciem novas e eficazes formas e métodos adotados para combatê-la com sucesso. Acompanhar o noticiário cotidiano, e o que resta ao cidadão.
Encontrar saída, eis a questão. Como? Quando? Com quem? A verdade indiscutível é que, a esta altura do drama ou da tragédia, não são envolvidos apenas políticos ou a classe política, os gestores da economia, os membros dos três poderes, porque toda a sociedade está sendo julgada. Mesmo o Judiciário, com alguns de seus representantes se expondo ostensivamente, inclusive pela discussão, divulgada pela mídia, de temas doridos da vida brasileira. Não deveria ser assim: não somos apenas um país, mas uma nação.
Os casos não são simples. Mesmo os corriqueiros vão aos tribunais, como o de uma senhora de Cajazeiras, no sertão paraibano, que – há 17 anos – acionou a Justiça para ficar com seu papagaio de estimação. O Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão do TRF da 5ª Região, assegurando à idosa, de 77 anos, o direito de posse da ave. O Tribunal, em segunda instância, considerou que o papagaio está acostumado ao ambiente doméstico e não há indícios de maus-tratos.
Logo... Do papagaio ao bípede implume, que somos todos nós, há uma longa distância, mas não tanto. Não nos podemos acomodar. Se a prisão do psitacídeo demorou tanto, há de admitir-se muitos anos para encerrar a desastrada novela dos erros e vícios mais recentes, já que os mais antigos não cabe levar a julgamento.
Precisamos de punir os culpados e responsáveis, levá-los às sanções pertinentes, garantidos evidentemente, os direitos de cada um e de todos. O jurista e professor Sacha Calmon resumiu a missão em três palavras: “Refundar a República”. Não basta conformar-se com a ideia de que todo governo sangra, como declarou o ministro Moreira Franco. Não se trata apenas de um governo, mas de toda a nação, seu passado e seu futuro, comprometida com o presente.
No dificílimo jogo de xadrez desta hora, as peças estão na mesa. Cabe à geração atual a dificílima tarefa de movê-las e levar a pátria ao melhor destino. Punir seja quem for, em que ambiente estiver, em que cargo encontrar-se; não somente os que se dedicam às atividades oficiais, mas também a possíveis delinquentes que operam nas empresas.
A Lava Jato é simplesmente um capítulo de uma história longe de terminar, mas imprescindível à restauração da dignidade nacional. “Numa crise que joga o país às cordas e ameaça não só a ordem econômica, pois dilacera vidas e expõe cenas recorrentes de selvageria social; mais importante que denunciar a política que apodreceu é corrigir o que a fez apodrecer”, como escreveu há dias, Antônio Machado.


82489
Por Manoel Hygino - 27/6/2017 08:10:59
Nem tudo se perdeu: a poesia sobrevive

Manoel Hygino

Ângela Vaz Leão publicou, este ano, “Relendo a poesia de Yeda Prates Bernis”. O simples fato de merecer um estudo da professora vale como atestado da importância da criação da poetisa, que acaba de ingressar numa idade – 90 anos – que muitos desejariam alcançar, principalmente em plena capacidade de produção.

Mineira de Belo Horizonte, diplomada em Letras Neolatinas pela PUC-MG, cursou canto e piano no Conservatório Mineiro de Música da UFMG (foi, aliás, uma das integrantes do Madrigal Renascentista em suas primícias). Distinguida numerosas vezes com condecorações e prêmios, inclusive da AML, da Ordem do Cedro, do Líbano, e mais recentemente com o Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, Yeda é membro da Academia Mineira de Letas, infatigável e presente a todos os atos a que é convidada, dentre outras entidades na União Brasileira de Escritores.

Merecer 60 páginas de análise e crítica de sua criação poética da professora Ângela Vaz Leão, emérita da UFMG e titular aposentada do Programa de Pós-Graduação em Letras pela PUC-Minas, vale como premiação adicional. A querida mestra permanece atuante e brilhante, inclusive coordenando na Católica uma pesquisa sobre “Cantigas de Santa Maria, de Afonso X”, na pós-graduação em Letras.

De 1967, quando Yeda publicou sua primeira coletânea até agora, foi uma dúzia de livros. A leitura dos doze “despertou em mim – diz a professora –, além da admiração pela beleza de seus versos, o desejo de escrever um trabalho que desse aos possíveis leitores não familiarizados com a poesia de Yeda uma ideia, ainda que superficial, do conjunto de sua obra”.

Ângela faz uma excelente exposição do que é a produção de Yeda “sua bela voz poética”, nas 60 páginas do volume recém-editado. E é altamente precioso medir a relevância da obra da poetisa através de cuidadoso e competente trabalho de análise e comentário.

Segundo declara a professora Ângela, o “propósito seria despertar naqueles possíveis leitores amantes de poesia um certo gosto, ou pelo menos uma certa curiosidade em torno da obra dessa grande poetisa mineira”. Verifique-se o adjetivo: “grande”, juízo que resulta da leitura e releitura de toda a obra poética, até o mais recente, “Cercanias”, de 2016.

A mestra acompanha a poetisa em sua vida através de sua criação, sendo oportuno lembrar seus versos em francês, numa prova de amor pela língua de Racine e Baudelaire, e em homenagem a Jean Sablon. É uma volta à infância e a Paris, o Rio Sena e ao ar da capital francesa.

Um encontro feliz entre a poetisa e a crítica, um regalo de bom gosto ao leitor a quem apraz o belo. Mas há ainda lições como em Sabedoria, em “Entresomobras”: “O sol a lua as estrelas/as montanhas as colinas/ a orquídea a rosa a camélia/o jardim a gota d’água/ – quietude zen – /aprenderam desde sempre/ e mais que os homens/ a eloquência do silêncio”. E eu me calo.


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Por Manoel Hygino - 23/6/2017 08:28:03
Trump e os latinos

Manoel Hygino

As controvertidas ou polêmicas posições assumidas – e prometidas em campanha eleitoral – pelo presidente Trump suscitam naturais discussões em todo o mundo, especialmente nas Américas, porque, afinal, os Estados Unidos nelas se localizam. Ademais, o chamado Colosso do Norte tem passado por transformações expressivas com relação aos países do Sul – não é o mesmo de décadas atrás.

Sônia Torres, estudiosa do tema, autora de “America Ibrida”, publicada na Itália, dentre outros trabalhos de interesse no gênero, foi aqui comentada, há poucos anos. “Qual o significado e as implicações da crescente “hispanização” de um país tradicionalmente associado à cultura branca, anglo- saxônica e protestante, e à língua inglesa? Pergunta Liana Strozenberg?

Evidentemente, a “hispanização” não se cingirá aos aspectos culturais e a realidade já o prova, de maneira inequívoca. No entanto, o presidente republicano não se intimidou ou se intimida, mantendo posições inabaláveis, a despeito da oposição que já enfrenta internamente.

Torres lembra que, pela primeira vez na história dos EUA, um ocupante da Casa Branca deveu, em grande medida, sua vitória, no século XX, ao voto hispânico, quando 3,5 milhões de latinos ou hispânicos, votaram na chapa Bill Clinton/Al Gore, em novembro de 1996. Essa presença deverá ser maior no século XXI, quer queria ou não Trump, com toda sua jactância ou arrogância.

Verdadeiramente muito se esquece. Raciocino com Sônia Torres em uma dissertação, quando registra que vasta parte do território hoje norte-americano foi povoada por hispânicos, muito antes de ocupada pelos colonizadores franceses e ingleses.

O que hoje se denomina Sudoeste dos EUA foi, originalmente, território colonizado pelos espanhóis, tornando-se México depois da independência, em 1821. Em 1846, os EUA, com sua ideologia expansionista, “inventaram” uma guerra com o México, que se encontrava bastante enfraquecido depois de sua independência, ainda em fase de reconstrução nacional. Em 1848, com o controverso Tratado de Guadalupe-Hidalgo, esse grande quinhão passou a ser “americano”, correspondente presentemente ao Novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah, metade do Colorado e parte do Texas.

O hispanismo é forte no Sudeste dos Estados Unidos. Prova é que um “anglo” dificilmente sobreviverá ali, se não souber falar ao menos o espanhol básico, nem que seja para comunicar-se com as classes “subalternas”.

Contrariamente à ideia de fronteira, como limite entre dois países. Admite-se, uma possível parcela de americanos e mexicanos, que ela é um local de intersecção de realidades múltiplas, um espaço de solo comum compartilhado pela América do Norte e América Latina.

Não só. Em inúmeras cidades não fronteiriças, como Los Angeles, Phoenix, Albuquerque, Santa Fé, Pueblo, Santo Antonio, Austin e Houston, a presença mexicana é notória. Em San Antonio, décima cidade mais populosa dos Estados Unidos, há mais tejanos do que anglos, como se autodenominam. Mexer nisso é como mexer em caixa de marimbondos.


82481
Por Manoel Hygino - 21/6/2017 14:33:53
Festas de junho, inverno

Manoel Hygino

Jornalista, amigo, tem notória e notável preocupação com o tempo, suas previsões e suas transformações. Assim, inteiro-me de que, no dia 21 de junho de 2017, exatamente às 0h24 (sem o horário de verão), chega oficialmente ao Brasil o inverno. Então, as noites começam a diminuir e, consequentemente, os dias voltam a crescer. No interior brasileiro, ainda há a festejar São João e São Pedro, tão queridos e saudados com fogueiras – onde ainda existe lenha – foguetório, biscoitos, broas e quentão. Sem contar a parte musical com animados bailes. Santo Antônio já é passado.

Segundo Leonardo Dantas Silva, a festa do Senhor São João é a festa mais antiga do Brasil, já registrada por Frei Vicente do Salvador em sua “História do Brasil 1500-1627”. Havia alegria entre as gentes da terra, que “acudiam com muito boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”. Estes eram os grupos de músicos que tocavam ou cantavam junto aos templos.

Pois estamos terminando o ciclo das festas do sexto mês do ano, trazidas pelos colonizadores portugueses, que eles cultivavam milenarmente, como na festa de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais.

No que se refere às fogueiras, por aqui se crê se deverem à conveniência e necessidade de amenizar o frio das noites juninas. No entanto, a tradição cristã divulgada pelos jesuítas a explicam como um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer uma grande figueira para anunciar o nascimento de seu filho João Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz” (João 1:7-8).

As festas de junho variam entre nós de acordo com as regiões, mas não deixam de entusiasmar a gente sempre simples das áreas rurais, dos povoados, assinalados por alegria, que entram nas lembranças de cada pessoa e de todos.

Por aqui, as festividades acontecem, assim, no início do inverno, época de colheita de milho e de feijão no Nordeste. É um período especial em que se reza por boas invernadas de modo a afugentar o espectro das estiagens. Em nossos dias, seria muito próprio também que se espantasse o estigma da bandidagem por todos os lados e da corrupção nos negócios públicos.

Aliás, o papa Francisco, há poucos dias, advertiu: “A corrupção, na sua raiz etimológica, define uma dilaceração, uma ruptura, decomposição e desintegração. Revela uma conduta antissocial tão forte que dissolve as relações e os pilares sobre os que se fundam uma sociedade: a coexistência entre as pessoas e a vocação a desenvolvê-la”.

“A corrupção quebra tudo isso, substituindo o bem comum com o interesse pessoal que contamina toda perspectiva geral. Nasce de um coração corrupto. É a pior praga social, pois cria problemas graves e crimes que envolvem todas as pessoas”.

As festas de junho não combinam com corrupção.


82478
Por Manoel Hygino - 20/6/2017 08:20:29
Juscelino fala aos estudantes

Manoel Hygino

Dando continuidade a um projeto de 118 anos, a Santa Casa de Belo Horizonte irá implantar a sua faculdade de medicina, depois de inspirar a criação das duas outras da capital, a começar pela hoje integrada à UFMG, antes à Universidade de Minas Gerais, ao tempo do presidente Antônio Carlos, em 1927. É iniciativa digna de atenção e respeito pela fidelidade às origens e à evolução da primeira instituição de assistência à saúde em nossa metrópole.
A propósito, recordo Juscelino Kubitschek, universitário e médico na Santa Casa, a que dedicou alguns dos melhores anos de sua profícua existência. O registro aqui me parece importante num momento de desventura para a história política do país, mas quando os bons e antigos exemplos merecem reverência.
O escritor Edmilson Caminha, tão apreciado pelo Brasil que lê, lembrou um fato envolvendo JK, da década de 1970. Em 13 de setembro de 1974, ele respondeu ao convite do jovem Amadeu Guimarães, que o convidava a paraninfar a turma que se formaria em medicina na Federal de Juiz de fora. JK explicou, em carta, que – em virtude de compromisso fora do Brasil – não poderia comparecer. Não se deu, contudo, por satisfeito. No dia 30, redige nova mensagem aos formandos:
“Uma festa de estudantes sempre me cala ao coração, e em se tratando de doutorandos de medicina, o meu interesse se redobra, porque equivaleria a debruçar-me numa janela e rever o passado: viver com meus amigos os momentos imorredouros de emoção que também eu, há tanto tempo, experimentei”.
Repito trecho do artigo de Edmilson, referindo-se à perspectiva de que a carta seria lida pelos que colariam grau: “Gostaria, mais, de manifestar de público e de viva voz, na calorosa atmosfera juiz-de-forana, a minha gratidão àqueles que vieram buscar (-me) no refúgio de minhas atividades para participar dessa gala coletiva, que é o momento culminante em que sonhos e visões de tantos anos se concretizam, numa cerimônia permanente e inolvidável. Nesse momento, porém, defiram-me um conselho: sejam bons, e que suas atitudes se inspirem na grandeza dos corações e na pureza dos gestos”.
O filho de D. Júlia, professora de Diamantina, não considerou ainda suficiente a justificativa aos futuros colegas e evoca sua própria formatura, transcorrida 47 anos antes: “Imagino a majestade do espetáculo – além da pompa e alegria, jorrando de semblantes que se extasiam na significação desse ato: a colação do grau de médico”.
“Tão logo, no entanto, regresse do exterior, vou visitar a Escola de Medicina de Juiz de Fora, rever a cidade – e estou certo de que, na faculdade que ora deixam, encontrarei a marca dos que a cursaram com amor e proveito, tão alto a souberam elevar”. “Deus os cubra a todos de bênção”.
De Juscelino se poderia dizer o que Oscar Versiani Caldeira dissera em louvor de Alfredo Balena. Era 1950: “Como médico, nunca lhe assomou aos lábios um palavra que não fosse de conforto, que não inspirasse confiança. Sob a cúpula agasalhadora de sua excelsa bondade, deslizava uma legião de clientes”.
E mais: “Servido por um caráter adamantino e inspirado por uma bondade sem limites soube caminhar, através da senda enobrecedora do trabalho “até o sereno domínio da floria, subindo como estrelas para a altura e elas destinada” e encaminhado por este triunfo, há de permanecer como nome tutelar desta Casa, (a Faculdade), certo estamos de que “os mortos ainda e cada vez mais governam os vivos”.
São palavras válidas agora e sempre.


82468
Por Manoel Hygino - 16/6/2017 12:57:25

A grandeza de pequenas coisas

Manoel Hygino

Vivemos em meio a tantas trapalhadas, que perdemos a noção da virtude e do mérito. Compram-se e vendem-se títulos no mercado sujo da ilegalidade e das conquistas n ao preço de dinheiro de facilidades. Perdemos o verdadeiro senso da grandeza dos homens e de sua atuação na sociedade.
Lembro disso, em mês tão rato aos brasílios do interior, quando sinto a obrigação de render homenagem, sem suas localidades para fazê-la maior e mais igual, somando a fatos com os quais construíram sua identidade e sua própria biografia. Felizmente este ser humano não é raro e, no anonimato ou quase, ajudam a manter confiança no futuro da pátria e de mais afortunados dias para o homem deste país.
Ao completar cem anos em 27 de junho, Luiz de Paula Ferreira pode ser festejado com a alegria pela família e pelos conterrâneos, que lhe acompanharam a longa jornada. É um cidadão que ama seu povo e escreveu: “Conheci pessoas e situações. Vivenciei costumes. Escutei e contei histórias. Nada, porém, de grande monta, que o lugar não ostentava coisas de assombrar. Mas havia algo que me seduzia e me impôs, mais tarde, este registro. Eram as pessoas em seu cotidiano. Gente simples, no pelejar da vida, com as singularidades do viver de cada um. Sem eu trabalho, no seu lazer, em suas alegrias e decepções. Tudo acontecendo em parceria com a natureza, pois ali se vivia rente à terra. Era a grandeza das pequenas coisas. Presente todo dia, em todas as horas”.
Sobre o centenário, escrevi recentemente: Tudo o que se construiu por aquela região contou com sua presença, atuação e colaboração. Autêntico sertanejo, antes de tudo um forte, como b classificou essa gente Euclides da Cunha, fez tudo, modestamente para vencer na vida. Empresário, líder empresarial, escritor, apreciado contador de causos, amante da música e trovador, foi apaixonado pela região. Começou a descrevê-la muito antes de Guimarães Rosa, que produziu uma epopeia sobre o Grande Sertão e Veredas.
Autor de “Na venda de meu pai”, rega-se com uma série excelente de narrações do melhor agrado, em que às vezes é o próprio personagem. Wanderlino Arruda, da Academia Montes-clarense de Letras, acha que a leitura do livro é como “sugar o sumo doce de uma jabuticaba bem madurinha”, enquanto o jornalista César Vanucci, da Academia do Triângulo Mineiro, aconselha como Santo Agostinho: Tolle, lege, “Pega e lê”.
É conhecido seu interesse pela literatura de um modo geral especialmente por seus excelentes poemas. No seu caderno de escritos, encontram-se páginas em versos, às quais, ultimamente, com extrema relutância, acedeu em dar publicação.
É notório seu amor às letras, mas evitava mostrar os originais aos interessados, principalmente quando a noite da idade começou a crescer: “Com o cair do crepúsculo, vãos e calando, pouco a pouco, todos os rumores; um quase silêncio envolve a natureza quando sobre o horizonte longínquo o papa-ceia anuncia que vai nascer a noite estival”.


82466
Por Manoel Hygino - 16/6/2017 07:48:11
Perguntas sem respostas

Manoel Hygino

O que pretendem determinadas personagens que têm os destinos de um país em suas mãos? Afinal, o poder é essencial à tranquilidade de um povo, para assegurar a cada cidadão seus direitos mínimos. Medito sobre o que iria pela cabeça do presidente da Coreia do Norte, ao lançar todo o planeta em ansiosa expectativa.
A Coreia do Norte, parte da antiga nação dividida após a II Guerra Mundial, é um dos regimes mais fechados do planeta, todo mundo sabe. Permanece tecnicamente em guerra com a vizinha do Sul desde 1950. O desenvolvimento de seu programa nuclear provoca tensão incessante, não apenas para as duas nações, mas para toda a região.
Localizada em área montanhosa, grande parte de seu território não é habitável. Seguidas safras, pequenas e de má qualidade, tornam crônica a escassez de alimentos. Originalmente, apoiada pela União Soviética, com o fim do apoio do grande império, a sua economia, alicerçada na indústria pesada e na mecanização da agricultura, parou de crescer. Não há algo que parece com a atual Venezuela?
No entanto, a Coreia não cessa de preparar-se para um grande conflito. Mísseis cortam ares e mares. Lançamento de mísseis antinavio, na primeira semana de junho, mostrou que o presidente Kim Jon-un não está disposto a dar atenção à advertência do Conselho de Segurança da ONU, que aprovou novas sanções contra a atitude extremada de Pyongyang. O ditador fez mais do que ouvido de mercador: respondeu que continuaria o programa nuclear e de armas.
O lançamento de mísseis no princípio do mês, a partir da cidade coreana de Wonsan, foi o décimo do tipo realizado pelo regime em 2017. Trata-se de testes visando um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os Estados Unidos.
O que ganha o mundo com a postura norte-coreana? No torvelinho em que já se debatem as nações deste princípio de século, nada de bom se aguardará. O que pode esperar a comunidade internacional com essa insistente ideia de submissão – ou de destruição – da maior e mais poderosa nação do Ocidente pelos coreanos do Norte?
Pelos desfiles assistidos pela televisão, tem-se ideia de quanto a Coreia do Norte investe com seu belicismo. E o povo? E a alimentação? Como vive o povo norte-coreano? Quais as suas perspectivas? É isso exatamente o que quer?
Estamos em momento dificílimo, naquele remoto pedaço da Ásia, mas as vítimas poderemos ser todos nós. Não basta o Estado Islâmico, que segue agitando cruelmente o Oriente Médio e, por atentados, qualquer país de outro continente.
Muito perigoso tomar decisões no emaranhado de perversos interesses do EI, agora interferindo em países antes inatacados no contexto árabe. O que tem o mundo ocidental a ver com a histórica disputa entre sunitas e xiitas e de outros grupos religiosos da região? Pela primeira vez, o Estado Islâmico, de inspiração sunita, reivindica um ataque no Irã, que é de maioria xiita.
Estamos caminhando para onde e para o quê?


82460
Por Manoel Hygino - 14/6/2017 07:20:06

Grão Mogol enfrenta a violência

Manoel Hygino

Impressiona e traumatiza, às vezes. Os bandoleiros estão soltos e agindo em todo o território. Não há exatamente maior risco aqui e ali, porque a violência se disseminou por todos os estados e regiões. A criminalidade atua, poderosa, nas grandes cidades e nas pequenas, nas áreas rurais.

Em tempo passado, um pequeno grupo de marginais agia em algum lugar para eventuais furtos e assaltos. Tudo ganhou dimensão atemorizadora. O poder público não tem condições de manter uma força armada pronta em todos os recantos, todos os dias e horas, para enfrentar a marginalidade. Esta evoluiu, aprimorou-se, adquiriu novos conhecimentos, dispõe de armas modernas e eficientes e meios de comunicação adequados a suas ações.

A polícia fica em delegacias, desprovidas de maiores e mais eficazes recursos, esperando que os criminosos apareçam. Os resultados são os já sabidos. Em Grão Mogol, como pude ler, logo que os ponteiros dos relógios passaram das 12 da noite, no dia 6, indivíduos encapuzados e com armas longas atacaram um comércio. A PM, ao aproximar-se do local, ouviu explosões e disparos. O telefone 190, muito útil, sem dúvida, recebeu notícia de que explosivos eram utilizados para abrir cofres de uma agência bancária. Os delinquentes destruíram parte das instalações e fizeram reféns.

Cerca de dez malotes foram levados por dez autores, enquanto alguns intimidavam moradores das vizinhanças. Em seguida, percorreram as ruas fazendo disparos, usando munição calibre 556, ou seja, de fuzil. A polícia agiu, ouviu populares e recorreu a câmeras de segurança.

O jornalista Alberto Sena, que deixou a capital para residir na aprazível cidade, bela e histórica, acha que a população precisaria ser mais enfática em sua autodefesa. Diz ele: “Grão Mogol já não pode ser mais considerada um lugar onde a tranquilidade era marcante”. As portas e as janelas das casas antigamente ficavam abertas, as chaves dos carros na ignição.

“Adeus, criminalidade zero na sede do município, porque, na zona rural, fazendeiros e sitiantes estão vindo para os centros urbanos acalentados pela ilusão de ‘mais segurança’. Ali, também a violência campeia”.

Curioso, mas convém destacar: a agência dos Correios em Grão Mogol só tem um funcionário e atende também à demanda do Banco do Brasil, cujas instalações foram pelo espaço. A cidade, pela qual tantos se apaixonam, entre os quais o empresário Lúcio Bemquerer e o escritor Haroldo Lívio, não merece o deus dará.

Foi a primeira cidadela da civilização mineira em ampla zona geopolítica, quando do apogeu da mineração diamantífera, como ponderou o próprio Haroldo. Lá, se encontra o maior presépio do mundo, magnífica atração turística ainda não suficientemente explorada. Todo esse patrimônio requer, precisa de proteção.

O sertão está sendo invadido como nunca. O fato mencionado se deu exatamente dois dias depois de um assalto a banco em Buritizeiro, do outro lado de Pirapora, às margens do São Francisco. Ninguém está mais imune. Em Santa Maria do Suaçuí, no Leste mineiro, a única agência dos Correios foi assaltada cinco vezes nos últimos tempos. Na semana passada, aconteceu mais um assalto e a população ficou sem os serviços temporariamente.

É um quadro sucinto do Brasil, hoje.


82457
Por Manoel Hygino - 13/6/2017 07:16:01
O julgamento da decisão do TSE

Manoel Hygino

Milhões de brasileiros terão permanecido diante das câmeras por muitas horas para acompanhar, em vivo e em cores, como dizem os irmãos lusos, o extenso, acalorado e, às vezes, até cansativo julgamento no Tribunal Superior Eleitoral sobre a anulação da chapa Dilma-Temer.

Enfim, tratava-se de problema de dimensões nacionais e os motoristas de táxis e carros particulares mantiveram-se ligados no que chegava de Brasília pelo rádio.

O brasileiro, de todas as condições sociais, que sabe ler, ouvir e julgar, sentiu-se no dever de conhecer os detalhes. Investiu-se realmente no papel de cidadão, aquele que assume grave responsabilidade na fiscalização do exercício da função pública.

O ventilador poderoso atirou detritos por todos os lados no país, anos, teve trabalho, mas cumpriu o que dele se esperava. O cidadão perfeitamente percebeu que havia muito mais de podre no Brasil do que no reino da Dinamarca, como se referiu Shakespeare, no “Hamlet”.

O brasileiro queria, e quer, desvendar o que havia, e há, no âmbito dos males causados à nação por organizações criminosas, até mesmo partidos (se o caso), que resultaram na calamidade que chegou às contas e bens públicos e a todos os lares. Se muito já se esclarecera, se muitos fatos se revelaram, – mesmo que não sobrevindo a indispensável sanção – é imprescindível que dúvidas não pairem.

Ao cidadão, que mantém a nação, pouco ou nada interessa distinguir se o problema fora de natureza econômica, jurídica ou política; o importante é punir a gatunagem, condenando seus autores com provas materiais ou testemunhais.

O julgamento do TSE foi válido, não se discute, mas não correspondeu integralmente ao esperado. As lições de ciência jurídica, fartas e profundas, serviram para argumentar. O voto de desempate do ministro Gilmar Mendes encontrou claras motivações, alegada a necessidade de estabilidade política em hora ainda lúgubre da vida nacional.

Melhor seria deixar como estava? O ministro-presidente do TSE admitiu como o Américo Pisca- Pisca “: deixemo-nos de reforma. Fique tudo como está, que está muito bem”, da fábula de Monteiro Lobato, autor que possivelmente não referendasse o voto.

O presidente do Tribunal foi peremptório, em sua declaração final: “Não me venham dar lição de moral. Combate à corrupção eu também quero”.

A decisão do Tribunal pode não ser a que prevalecerá, em última análise. Há dentre outros fatos, contundentes suspeitas sobre a conduta de auxiliares do presidente da República. Esta é uma semana de ansiedade.

Cabe, todavia, continuar a luta, sabedor o país da posição de Gilmar: a corte eleitoral não é espaço para solucionar crise política. Tanto que as quase 30 horas de reunião do TSE apenas cumpriram o rito. Era como dizia o professor Afonso Lamounier, que trabalhou a CEMIG: “tudo combinado, nada resolvido”.

No entanto, as águas, com toda sua sujeira, continuarão rolando. O mau cheiro se sente até pelo rádio, jornais e televisão. O Brasil seguirá acompanhando a sujeira, maior que a do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, tão dolorosamente marcando ainda a vida do país.


82453
Por Manoel Hygino - 10/6/2017 08:16:26
Um dia para não esquecer

Manoel Hygino

Esta segunda-feira é muito especial no Brasil, porque é Dia dos Namorados, véspera de festejos religiosos de Santo Antônio e de muitos fatos mais que interessam a cada um em especial e a todos em geral. Neste ano, temos, em Belo Horizonte, um registro a fazer: a Academia Mineira de Letras, por sua Universidade Livre, coordenada por Rogério Faria Tavares, recebe o escritor Fábio de Sousa Coutinho, para lançamento, às 19h30, do seu livro ”Lúcia – uma biografia de Lúcia Miguel Pereira”.
Escrevi especial e explico: Fábio, presidente da Associação Nacional dos Escritores, é sobrinho da biografada, nascida em Barbacena, em 12 de dezembro, em 1901, quatro anos depois da inauguração oficial da capital. Crítica literária renomada, ensaísta e tradutora brasileira da primeira metade do século 20, era casada com o também escritor Octávio Tarquinio de Sousa.
Biógrafa de Machado de Assis, referência no ensaísmo feminino de 1920/1930, teve um fim trágico: recomendava à família que, em caso de morte, todos os seus escritos inéditos só poderiam ser publicados com autorização do marido, e, na falta deste, deveriam ser incinerados. Como morreram juntos em desastre aéreo, em 1959, a família seguiu à risca as instruções e queimou todos os textos ainda não publicados e cartas pessoais encontradas. Que material precioso perdemos!
Seus textos de crítica literária – reveladores de sua erudição e aguda capacidade de percepção da arte e da vida, que circularam em jornais e publicações avulsas, foram reunidos na década de 1990, em dois volumes: “A Leitora e seus Personagens” e “Escritos da Maturidade”, que resgatam suas colaborações, entre 1931 e 1959, para o Boletim de Ariel, Revista do Brasil, Gazeta de Notícias, Correio da Manhã e O Estado de São Paulo, entre outros periódicos.
Muitos motivos, portanto, para marcar este dia e quem desejar conhecer mais sobre Lúcia Miguel Pereira poderá ir ao Auditório Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras na Rua da Bahia, para a conferência do autor. Fábio, aliás, não estará sozinho, pois virá com os aplaudidos colegas de atividades literárias, Napoleão Valadares, José Anchieta Oliveira e Danilo Gomes, este nosso companheiro da Academia Mineira.
Fábio distribuirá seu livro aos presentes. Danilo Gomes, a seu turno, regalará os demais acadêmicos e pessoas com o seu novo trabalho “Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens”, que saiu da impressora exatamente na última sexta-feira.
Pelo que se depreende, há de despertar curiosidade e interesse o conteúdo da nova obra de Fábio, sempre tão bem recebido pela crítica. Não só por sua exposição sobre a vida dedicada às letras pela querida tia e apreciada autora, numa época em que as mulheres não tinham muito acesso à publicação de sua produção, mas fundamentalmente por representar a opção um novo caminho ao futuro.
Vê-se, ademais, que se trata de uma família com liames no campo das artes. Estes vínculos evidentemente serão identificados e poderão ser avaliados na leitura que se aguarda com pessoal desejo.


82451
Por Manoel Hygino - 9/6/2017 08:40:44
O sexo dos anjos

Manoel Hygino

As expressões “quem pensa não casa” ou “quem casa não pensa”, encontradiças por todo o território deste país, não seriam antagônicas, nem sinônimas, como inicialmente se julgaria. Mas a análise das duas curtas frases pode ser considerada sob um espectro mais amplo.
É o que se concluirá possivelmente de fatos, coisas e personagens que existem entre nós. Se o leitor se der ao trabalho de ler o ensaio “Yeshua, o Hasid”, de Daniel Matt, ficará encabulado com situações históricas enfrentadas pelo cristianismo e o judaísmo.
Matt começa por perguntar: “Por que desejariam os judeus ter alguma coisa a ver com Jesus? Em seu nome, os judeus foram perseguidos e assassinados. O cristianismo afirmou ter suplantado o judaísmo”. Daí, a pergunta resultante: Séculos de antissemitismo cristão assentaram as bases para o extermínio que Hitler perpetrou contra um terço do povo judeu, logo, por que deveria algum judeu se interessar pela vida de Jesus e por aquilo que ele ensinou?
Verdade que a história do relacionamento judaico-cristão maculou e tornou impura a imagem de Jesus. Mas ambos têm de reavaliar a tradição uns dos outros, não bastando a absolvição dos judeus pelo Vaticano diante da culpa coletiva pela morte do filho de Maria. E os judeus deveriam reivindicar Jesus: por ter ele adquirido por sua visão do judaísmo, por ter-se tornado apaixonado por Deus, pelo divino, anticonvencional e extremo em sua devoção a Deus e seu semelhante”.
Interessante a posição de Jesus com relação aos judeus, sua própria gente. Ele reafirmava que fora enviado para os judeus, estando os doze apóstolos proibidos de proclamar o Evangelho a gentios e samaritanos. Mais tarde, os seguidores de Paulo (que sequer conheceu Jesus em carne e osso), desconfiaram do próprio líder. Este sustentava que o nazareno tinha como fulcro Israel, enquanto o seu discípulo teria ensinado o comprometimento com a Torá.
De acordo com Mateus, Jesus declarou: “Não penseis que vim abolir a Torá e os profetas, não vim para aboli-los, mas para dar-lhes cumprimento. Pois em verdade, em verdade vos digo que, antes que o céu e a terra deixem de existir, nenhuma letra nem uma vírgula haverão de ser tiradas deles até que tudo se cumpra”.
Ora, o assunto é inesgotável. Em Mateus, 7.12, Jesus ensina o essencial: “Ama o teu próximo”. “Tudo o que desejais que os outros façam a ti, fazei também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas”.
No entanto, na geração anterior à de Jesus, Hillel disse algo semelhante, mas não igual, pois usou a negativa: “O que é odioso para ti, não o façais ao próximo”.
Para Matt, Hillel era um típico rabino de seu tempo: mais terra a terra; mais prático. Jesus era mais exigente, mais extremo, mais hassídico.
Estas dúvidas e interpretações parecem repetir-se nas intermináveis e já cansativas discussões sobre detalhes políticos e jurídicos em discussão na capital federal.
Tribunais e comissões do Parlamento debatem em minudências problemas tipo sexo dos anjos, para justificarem interesses e argumentos os mais diversos, inclusive o cargo de presidente da República, enquanto o povo, pobre povo! Somente pensa em arranjar algum dinheirinho para alimentação e outras despesas. O que se quer é simplesmente sobreviver, e isso não está nada fácil.


82447
Por Manoel Hygino - 7/6/2017 08:36:58
A voz do São Francisco

Manoel Hygino

As obras foram orçadas em R$ 4,5 bilhões, o que se admitia em termos de custo de um empreendimento do vulto da transposição do São Francisco. O valor fora previsto em 2007, quando iniciada a obra, para terminar em 2012. Passados anos, contudo, não foi integralmente concluída.
O presidente Temer esteve em cidades de Pernambuco e da Paraíba, há dois meses, para inaugurar a primeira transmissão das águas beneficiando uma pequena população, quando se estipulara o atendimento a 390 municípios. Realmente um plano ousado, mas de elevado sentido social e humano. Só que no Brasil os planos não se cumprem, mesmo quando cuidadosamente elaborados.
É preciso confiança e esperança e, lamentavelmente, estas o povo perde à medida que falham ou atrasam os empreendimentos. Nem com a bênção do milagroso São Francisco efetivamente aconteceu a duplicação do orçamento. A estimativa era de R$ 4,5 bilhões. Já foram empregados mais de R$ 9 bilhões e muito mais terá de sair das burras do Tesouro.
Enquanto flui o tempo, ele mesmo nos decepciona. Falta água no Brasil, na bacia do Velho Chico, as populações se inquietam com a possibilidade de longas estiagens e, o pior, com a firme certeza de que não se fez o dever de casa com mister.
A água não alcançou inteiramente o Nordeste esperado, mas já inquieta a falta de chuvas na medida necessária. E, consequentemente, com o provável racionamento de energia. Num país que se pretende maior produção, eletricidade é essencial, não é só para as torneiras.
A Cemig pensou em fazer testes para suprir o Jaíba, mas por enquanto resta aguardar. Atender o Jaíba e região exige águas, e estas viriam do São Francisco, sempre ele.
Em obra pública, de engenharia, não bastam fé e esperança. Daí a preocupação. No tempo de Israel Pinheiro governador, elaborou-se o Planoroeste, um corajoso projeto para irrigar o vale do rio Jaíba. Com financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) fez-se a obra, que produz bastante e hoje representa 27 mil hectares de área plantada em região de seca. A Imprensa diz: é uma potência nacional na produção de frutas, inclusive para exportação. Mas irrigar exige água. E esta já falta no volume imprescindível para a barragem do rio Juramento, que atende a região de Montes Claros.
O frei Luiz Flávio Cappio, que tem no São Francisco sua área de atuação e foi até perseguido, faz – neste 2017- seu diagnóstico:
“A cada ano o rio se apresenta mais fraco, raso, com coroas imensas de areia em seu leito. Além disso, os peixes estão desaparecendo. Esse quadro só poderá se reverter quando um projeto sério de revitalização for levado a contento. “Anêmico não doa sangue”. Se quisermos que o rio gere vida, é preciso que ele possua vida”.


82446
Por Manoel Hygino - 6/6/2017 07:31:29
O calor asfixiante de Brasília

Manoel Hygino

Houve antes crime da mala, inclusive levado ao cinema brasileiro. O excelente repórter Edmar Morel, que trabalhou na imprensa carioca por muitos anos, quando morava em Fortaleza, ainda criança viu dois filmes sobre o tema que o impressionaram. Um deles, ‘O crime da mala’, mostrando como Maria Fea foi esquartejada pelo marido José Pistone, em São Paulo. No caso, o assassino andou carregando a mala, de que gotejava sangue, ao andar de coletivo.
Outro homicídio envolveu Maria da Conceição, em São Luís (MA), 16 anos, filha de Luzia, mulher de pobres condições. Pela jovem se apaixonou o desembargador Pontes Visgueiro, que – sabedor de que a moça mantinha amante – matou-a, colocou-a num baú, enterrou no fundo da casa, mas finalmente foi encontrado o corpo. O réu foi transferido do Maranhão ao Rio de Janeiro para evitar reações populares. Em 16 de maio de 1874, a sentença: prisão perpétua com trabalho. Durou pouco a prisão, pois o magistrado faleceu em meados do ano seguinte.
Mas eis que surge, em pleno século XXI, uma outra mala e um outro crime que ora incomoda o país, evidentemente, pela natureza e origem do conteúdo, altos escalões políticos do Brasil. Não precisaria dizer, mas se trata de mala, que continha (ou deveria conter) R$ 500 mil, carregada por um suplente de deputado federal pelo Paraná, Rodrigo Rocha Loures. O simples transporte da mala virou acontecimento de repercussão nacional.
Explica-se: a fortuna em questão teria origem espúria, pois resultaria de propina doada por um poderoso conglomerado agropecuário brasileiro, o maior do mundo no gênero. A situação se tornou dramática, quando se soube que o presidente da República tivera uma reunião na calada da noite, no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, ora chefe do governo, com o responsável maior pelo grandioso empreendimento industrial.
Simultaneamente, todos os brasileiros interessados tomaram conhecimento das relações de amizade entre o presidente e o deputado, que intermediara, a bom preço, a reunião noturna no Jaburu, cujo teor foi inteiramente gravado pelo esperto empresário Joesley Batista.
O dinheiro foi entregue a menos, mas a diferença faltante foi coberta pelo parlamentar paranaense, tudo já necessariamente acertado com Temer, e filmado pela Polícia Federal, que não está dando folga. Sabido, Joesley precisou de uma segunda entrevista com Temer, recorrendo mais uma vez aos bons préstimos do parlamentar, “político com influência no cenário nacional, até pouco tempo assessor do presidente Michel Temer, pessoa de sua mais estrita confiança”, segundo palavras do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal e relator ali da Operação Lava Jato.
Diante dos fatos, Fachin, afiado facão em suas medidas, determinou a prisão do deputado Loures, atendendo a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Aliás, a dupla Fachin-Janot está bem sintonizada. O ministro considera que Loures usa de “métodos nefastos” para seus propósitos e que, em liberdade, constitui “um risco para a investigação”.
Para Janot, o deputado é “homem de total confiança, verdadeiro longa manus do presidente, expressão explorada pelos jornais, significando “executor de crime premeditado por outro”.
Loures está preso desde o último sábado e a capital trepida.


82440
Por Manoel Hygino - 3/6/2017 09:31:37
As duas faces da moeda

Manoel Hygino

Médica de minha amizade me declarou: Desde que informada pela televisão do desvio de R$ 1 bilhão na reforma do Estádio Mário Filho, a Arena Maracanã, entendo porque, de cada R$ 100 brutos que recebo, entrego R$ 27,50 ao governo. Faz todo sentido. Caso não fosse feita essa extorsão de quem trabalha, como seriam as rapinas maiores? A lógica é cristalina e inequívoca.
A moça observa:
“Lamúria surrada esta de reclamar para pagar o imposto de renda. Caso não ganhasse, não pagaria. A garganta profunda do governo é mais poderosa do que um buraco negro, insaciável, que puxa luz, tempo e vida. O que entra ali não são apenas numerários, são dores, suores, força, lutas pela sobrevivência. Todos pagam para a máquina girar. É lúcido, válido e inserido no contexto” (Paulo Diniz).
Prevê: “Entrego o meu sangue ao governo que aí está, e caio morta. Como médica, estou assim. E as demais profissões? Vitimização, a palavra anda na moda. Que seja! Quem custeará meu funeral? Pelos menos não verei nada”.
Agora, o outro lado da moeda através de um release:
A Operação Bullish pela Polícia Federal, seis dias antes de estourar o escândalo provocado pelas acusações dos empresários Wesley e Joesley Batista envolvendo políticos de praticamente todos os partidos, expôs a relação do Grupo JBS com o BNDES. Entre 2012 e 2003, o banco teria liberado um total de R$ 2, 8 bilhões para as empresas controladas pela J&F Participações.
As empresas favorecidas com os recursos foram a JBS S/A (R$ 6,6 bilhões), Bertin S/A (R$ 27 bilhões), Bracal Holding Ltda (R$ 425,9 milhões), Vigor (R$ 250,2 milhões) e Eldorado (R$ 2,8 bilhões). No período consultado, não foram encontradas operações para outras empresas do grupo.
Com crédito fácil do BNDES, o grupo elevou seu faturamento de R$ 4 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões no ano passado, um crescimento de mais de 4.000%. A multiplicação de riqueza levou Joesley a entrar na lista dos dez brasileiros mais ricos da revista Forbes. Com atuação em mais de 150 países, 300 unidades industriais e mais de 200 mil empregados, o grupo é o maior processador de proteína animal do mundo. Das fábricas, 56 estão nos Estados Unidos, controladas pela JBS USA Holding, que detém cerca de 70% dos negócios dos irmãos Batista, que atuam na área de carnes, alimentos, laticínios, calçados, celulose e higiene pessoal, entre outros. O grupo tem ainda um banco, o Banco Original.
Em sua delação premiada, o empresário Joesley Batista, controlador do grupo, admitiu ter pago R$ 200 milhões em propinas ao ex-ministro Guido Mantega e a outras lideranças do Partido do s Trabalhadores (PT) para facilitar a liberação de recursos do BNDES para suas empresas. “Minha relação sempre foi com o Guido (Mantega). Primeiro, até 2009 ela passava pelo Vic (Victor Sandri) – amigo de Mantega). Até lá, toda vez que eu precisava falar com o Mantega, acionava o Vic. Não sei como funcionava com o Guido e o banco. Acho que ele (Guido) pressionava o Luciano Coutinho, presidente do BNDES, que sempre foi muito formal comigo”.


82436
Por Manoel Hygino - 2/6/2017 08:51:10
A hora do pronto socorro

Manoel Hygino

No meio do caminho ou ao longo do itinerário, há pedras que o poeta de Itabira, farmacêutico por diploma, amanuense por ofício e poeta por vocação, não percebeu. Ele seria altamente beneficiado pelo poder público, pelos próprios meios e solidariedade dos companheiros de jornada, caso houvesse necessidade de algum tipo de amparo.
Há caminhantes nesta jornada doída todas as horas; eles, os infelizes e todavia, até sem esperanças, aqueles que carecem de assistência médica e hospitalar, de família e social.
Mas antes de Drummond, já existiam as Santas Casas, fundadas a partir da rainha portuguesa, que cuidou de zelar pelos viajores de muitos lugares do mundo, desde o século XV. D. Leonor, após mortos o soberano e o único filho, ainda jovem, avocou a missão de amparar esses deserdados da sorte. O projeto cristão, social e humano desembarcou no Brasil, em 1538, e humildemente ganhou terreno, contando com a nobreza dos que têm bondade no coração.
Transcorridos séculos, viu-se que os governos se mostravam incapazes de, sozinhos, oferecer assistência à saúde, principalmente nos países pobres ou em desenvolvimento. As beneméritas Santas Casas continuaram o labor, extraindo recursos de lugares em que supostamente sequer existissem. O Brasil, do tamanho que é, inclusive de problemas, constitui mostra límpida de como extrair água no deserto para saciar os sequiosos de calor humano, de atendimento à saúde, de alimentação adequada, apoio espiritual e psíquica.
Fazer o bem, trabalhar com integridade, seriedade e responsabilidade são atributos indispensáveis aos que se dedicam às Santas Casas no Brasil. Encarregaram-se voluntariamente, de ponderável parcela da assistência à população. Os números, valores e estatísticas são divulgados amplamente pela mídia.
Não é preciso ir longe. A Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, com 118 anos completados no mês passado, passa por perversos momentos.
Há espertos e experts que levantam rapidamente recursos para projetos, frequentemente perversos. Contudo, os de interesse social demandam longo tempo, discussões intermináveis, lentidão na tramitação. Agravam-se os casos das enfermidades, que parecem inúmeros.
As Santas Casas pedem socorro – às vezes pronto-socorro – para sobreviver. Emendas parlamentares ajudam-nas a funcionar, mas exigem celeridade. O projeto de número 7.606 aguarda na Câmara dos Deputados a criação do Programa de Financiamento Preferencial para a área complementar do Sistema Único de Saúde. Aguardar mais quanto tempo? Eis a questão.
Há vidas em jogo, que exigem atenção e carinho. Casos assim precisam de tratamento especial. Não podemos deixar que as Santas Casas, como a de Belo Horizonte, faltem à assistência necessária. Seria crime. Os deputados Laudívio Carvalho e Domingos Sávio requereram urgência na apreciação da matéria. É assunto essencial para muitos seres humanos. Os demais parlamentares têm agora de cumprir seu dever.


82421
Por Manoel Hygino - 26/5/2017 08:19:30
Observatório do Caos

Manoel Hygino

O beco sem saída em que se encontra o Brasil, o maior país do mundo de língua portuguesa, os aqui nascidos se perguntam, parafraseando Drummond: ”E agora, José?” Resposta extremamente difícil, se se considerar a confusão a que fomos jogados no embrulho sem destinação em que nos achamos enrolados e amarrados, sem perspectivas de nos desenrolarmos e nos libertarmos no curto prazo.
Renúncia do presidente Temer? Eleição indireta via Congresso Nacional? Diretas por vacância no cargo, após dois anos do início do mandato? Anulação do resultado da chapa Dilma-Temer, de 2014. No caso de sair Temer, o presidente do Congresso tem 30 dias no cargo para realizar a eleição indireta. Quem seria o candidato?
O quadro é extremamente preocupante, fazendo-nos retroagir a anos atrás. Todos os que sabem um mínimo de história, conhecem o que aconteceu. Derrubado Getúlio Vargas no ápice de uma grande turbulência político-militar, em 29 de outubro de 1945, José Linhares foi convocado pelas Forças Armadas a assumir a Presidência da República, cargo somado à presidência do Supremo Tribunal Federal, que já ocupava, e do Tribunal Superior Eleitoral.
Aliás, é bom que se diga que Linhares, cearense nascido na fazenda Sinimbu, distrito de Guaramiranga, município de Baturité, foi o primeiro brasileiro daquele estado a alcançar a chefia do Executivo Nacional. No bojo da revolução de 1964, outro presidente da terra de José de Alencar, seria o general Humberto Castelo Branco – parente da escritora Raquel de Queiroz, e casado com mineira da ilustre família dos Viana.

Linhares, nascido em 28 de janeiro de 1886, subiu a escada do Palácio do Catete, em 29 de outubro de 1945, aos 59 anos. Nomeado para o Supremo em 16 de dezembro de 1937, pelo próprio Vargas, na vaga do ministro Ataulfo de Paiva, só assumiu o cargo em 24 de dezembro e a presidência do Superior Tribunal Federal em 26 de maio de 1946. Foram, assim, apenas três meses e cinco dias, no cargo.
Em tão pouco tempo não pôde, nem podia fazer muito. Em todo caso, notabilizou-se pela defesa da autonomia do Judiciário, embora muito ainda se exija até hoje. Em sua gestão, fortaleceu o Poder, corrigiu medidas autoritárias do Estado Novo e reformou órgãos da administração pública, defendendo a Justiça e o cidadão.
Apesar da restrita gestão, conta-se que fez nomeações polêmicas de parentes para cargos públicos, ganhando o apelido de José Milhares. Não ficou apenas nisso. Em seu trimestre governamental, criou o Fundo Rodoviário Nacional, que existiu até 1948, financiando a implantação de rodovias estaduais.
O mais importante: assegurou a realização de eleições, as mais livres até então, disputadas pelo general Dutra e pelo brigadeiro Eduardo Gomes, consagrando-se vencedor o primeiro. E houve ainda um candidato apoiado pelo Partido Comunista. Pois, no conturbado momento que atravessamos, recebo a notícia de Ronaldo Cagiano, o excelente escritor de Cataguases, informando que está arrumando as malas para mudar-se para Portugal. Antes da transferência, sem a tradicional noite de autógrafos, lança seu livro de poemas “Observatório do caos”. Um título bastante sintomático.


82418
Por Manoel Hygino - 24/5/2017 07:24:49
Os dólares maduros da Venezuela

Manoel Hygino

Pode parecer que uso muito esse espaço com a Venezuela e seus desmantelos. Não se trata de um país extenso, privilegiado por Deus, sem algumas belezas do Brasil, mas com riquezas imensas, a começar pelo petróleo, encontrado na região do lago Maracaíbo e transformado na principal atividade econômica do país.
Habitada pelos índios anaruaques e caraíbas, a região foi visitada por Cristovão Colombo, em 1498. A América estava, assim, descoberta. Como sabido, no ano seguinte, os espanhóis a batizaram como Venezuela – Pequena Veneza, porque as casinhas existentes eram lacustres.
Mas os europeus não lhe deram maior importância desde que se tornou Capitania Geral do Vice-Reino de Nova Granada. Alguma valia só apareceu quando, a partir do século XIII, se iniciaram as plantações de café e cacau, utilizando a mão de obra africana. Parecia destinada a um grande futuro, sob comando de Simón Bolívar, no século XVIII.Obeve a independência em 1819, com ajuda – de quem? – do Haiti. A ideia da Grã-Colôbia apareceu também com Bolívar, com a adesão da Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador, sob liderança de Bolívar, mas que não deu certo.
De lá pra cá, bastante se sabe. A indústria automobilística, o poder do petróleo, os tiranos e tiranetes, como em grande parte da América Latina. De Chávez para cá se sabe o suficiente, mas não tudo. Depois da eclosão dos terríveis escândalos recentes no Brasil e ampla divulgação dos acontecimentos, novos fatos vieram à tona. Em declaração à PF brasileira, a marqueteira Mônica Moura afirmou que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pagou “por fora” US$ 11 milhões pela campanha do então presidente Hugo Chávez à reeleição, em 2012. Ela apresentou provas e detalhes sobre os repasses, revelando que Maduro ainda teria de pagar a ela outros US$ 15 milhões pela campanha, valor nunca quitado.
A marqueteira afirmou que, além desse valor, recebeu outros US$ 9 milhões de empreiteiras para realizar a campanha de Chávez. Além do pagamento em espécie, Maduro, que à época era chanceler, exigiu que a empresa dela recebesse “quase todo os valores” pagos via caixa 2.
Em um dos trechos, a mulher de Santana informou que “parte desse valor não contabilizado foi pago em espécie, entregue em Caracas diretamente a ela, pelo então chanceler Maduro, na própria sede da chancelaria”. “Maduro recebia Mônica em seu próprio gabinete, entregava-lhe pastas com dinheiro e providenciava escolta para lhe dar segurança no percurso da chancelaria à produtora”. A marqueteira afirmou ainda que a maior parte dos pagamentos foi paga pelas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez.
A verdade verdadeira é a situação extremamente tênue e perigosa que atravessamos. Não podemos adivinhar sequer para onde estamos indo, porque falta confiança agora em tudo e todos.
Disse Luis Cláudio Chaves, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)– MG e hoje vice-presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, que raciocina como nós dias atrás: “Esperávamos que, após o impeachment e a Lava Jato, os políticos repensassem seu papel na sociedade. Mas vemos que os atos de corrupção continuam acontecendo mesmo diante de tantas denúncias e processos movidos”.
E irão continuar, pelo visto.


82410
Por Manoel Hygino - 23/5/2017 09:06:40
Pesadelo de um país em crise

Manoel Hygino

Conservei a notícia para ulterior aproveitamento. Mártires brasileiros serão canonizados em 15 de outubro na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Eles foram mortos por calvinistas holandeses no século XVIII. Sequer se necessitou de provas para o parecer positivo junto à Consagração de Causas dos Santos.
São os primeiros santos e mártires brasileiros reconhecidos pela Igreja. Os prováveis seguintes, que habitam hoje o Brasil, serão reverenciados oportunamente em tempo e lugar ainda não sabidos. Pelo decorrer dos acontecimentos serão inúmeros, mas não demorará a canonização, se considerados os sofrimentos por que ora passam os cidadãos deste país, a começar pela inquietação causada pela incerteza política e ameaça às instituições.
O que nos espera nas próximas 24 horas? Quem estará à frente dos destinos nacionais? Que resultará da situação a que foi levado o presidente da República com as delações de um grande empresário? Como será a repercussão dos fatos mais recentes, envolvendo nomes expressivos da vida política brasileira?
Tudo ainda é extremamente confuso, principalmente pela velocidade com que se deu sua divulgação. Há mais do que surpresa, porque estupefação. Será que no âmago das conversações houve um mínimo, ao menos, de espírito patriótico? Ou tudo faz parte de um doloroso e perigoso conluio de interesses perniciosos à nação?
O empresário Joesley Batista divulgou carta aberta com uma confissão: ”Erramos e pedimos desculpas. Não honramos nossos valores quando tivemos que interagir, em diversos momentos, com o poder público brasileiro. E não nos orgulhamos disso”.
Evidentemente, o mea culpa é incompleto e o empresário mesmo o diz: “Não temos justificativas”. Repetiu: “pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos”. Não é suficiente a declaração.
Disse mais: “Em outros países fora do Brasil, fomos capazes de expandir nossos negócios sem transgredir valores éticos. O Brasil mudou, e nós mudamos com ele. Por isso, estamos indo além do pedido de desculpas. Assumimos aqui um compromisso público de sermos intolerantes e intransigentes com a corrupção. Assinamos acordo com o Ministério Público. Concordamos em participar de alguns dos mais incisivos mecanismos de investigação existentes e nos colocamos à disposição da Justiça para expor, com clareza, a corrupção das estruturas do Estado brasileiro. Pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos, que acreditam e torcem por nós. Enfrentaremos esse difícil momento com humildade e o superaremos acordando cedo e trabalhando muito”.
O Brasil acompanhará rigorosamente, o que virá. Não agrada o conceito de mártires, mesmo em meio à celeuma da nossa vida agora. As nações civilizadas com razão não podem confiar. O quadro é sintomático e as possíveis melhoras, fugazes. Dependem dos homens que têm o poder nas mãos. Tudo se afigura frágil e sem consistência. Esse quadro tem de mudar urgentemente. Permanecemos no pesadelo de um país em crise.


82404
Por Manoel Hygino - 19/5/2017 08:26:28
Fachin evoca Ibsen

Manoel Hygino

Os acontecimetos mais recentes no âmago do governo brasileiro causaram estupefação a um povo já desencantado com seus dirigentes. Por tanto tempo, estávamos à beira do precipício, mas caímos no vácuo. Nunca, jamais em tempo algum, pensar-se-ia que chegássemos a este ponto.

Aconselha-se meditar olhando em redor. A sugestão resulta da posição do ministro Edson Fachin, após participar de reunião no Supremo Tribunal Federal sobre o “volta ou não volta” de José Dirceu na prisão em Curitiba.

Naquela ocasião, Fachin, relator e voto vencido na matéria, lembrou um escritor que já foi mais conhecido no Brasil: o dramaturgo Henrik Ibsen, cuja peça “Casa de Bonecas” se tornou, tempos atrás, até popular entre nós.

Fachin disse: “Saí daqui, ontem, com vontade de reler o Ibsen, em Um inimigo do povo e A história do doutor Stockmann”. O magistrado parece bom em literatura europeia. Evoque-se o autor norueguês, o tema, o personagem, segundo o resumo de Hélio Gurovitz: “Na peça de 1882, Thomas Stockmann é médico numa aldeia cuja economia impulsiona uma estação balneária. Descobre que as águas são contaminadas pelo esgoto de um curtume e tenta levar a notícia à imprensa, com base num laudo técnico. Seu irmão, prefeito, consegue evitar a publicação e lança um desmentido, para evitar que a cidade fosse prejudicada pela fuga dos turistas.

Stockmann convoca, então, uma reunião para apresentar os fatos, mas é impedido de falar por uma aliança entre o prefeito, jornalistas e representantes dos pequenos empresários. Passa a vituperar contra a “massa amorfa” de cidadãos. “A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse!”, protesta aos brados.

“Quem constitui a maioria dosa habitantes de um país? Pessoas inteligentes ou imbecis? (...) Os imbecis formam maioria esmagadora. É motivo suficiente para que mandem nos demais”.

A revolta popular é tão grande que Stockmann é declarado “inimigo do povo”. Perde o emprego, sua casa é apedrejada, é despejado, seus filhos são expulsos da aula, sua filha mais velha é também demitida da escola onde lecionava. Nem sair do país consegue, pois o capitão que lhe garantira lugar num navio também é demitido.

Hélio Gurovitz prossegue: Ao longo dos anos, Stockmann se tornou um símbolo. Contra tudo e contra todos, mantém suas convicções na defesa da verdade. É um herói que alerta sozinho para o desastre iminente e, embora certo desde o início, é rejeitado e enxovalhado, como a Cassandra da mitologia grega. Quem será nos dias presentes, o nosso dr. Stockmann?

A Noruega, como o Brasil, é plena de paradoxos geográficos, de contrastes telúricos, de asperezas e de encantos físicos. A alma do povo é bela e forte, mas vulnerável aos mais sabidos, oportunistas e desonestos. Estes devem ser identificados e descartados, e sobretudo no momento das dificuldades mais impressivas e das crises.

Então se permite revelar e debater preconceitos e ideias errôneas e as realidades dramáticas do país, pondo em foco, simultaneamente, os graves problemas da sociedade contemporânea.


82396
Por Manoel Hygino - 17/5/2017 07:35:17
Os líderes, segundo Gamaliel

Manoel Hygino

Enquanto acompanhávamos com todo o Brasil as audiências em Curitiba, vinculadas à Lava Jato, mantivemo-nos ligados ao julgamento de Jesus, em Jerusalém, como lembrou a Semana Santa. Assim, lemos a extensa carta do rabino Gamaliel ben Gamaliel a Filo de Alexandria. É um documento valioso, mas pouco conhecido, necessário para se ter uma ideia do clima na Judeia, em torno de 2000 anos atrás.
Gamaliel ben Gamaliel é tido como filho mais novo do rabino Gamaliel, o Antigo ou o Ancião, citado por várias fontes rabínicas. No documento aqui referido, o Gamaliel Júnior abre-se a Filon, ou Filo de Alexandria, filósofo judeu helenista. Sente-se pelas suas palavras a preocupação com o aparecimento de Joshua, isto é, Jesus, em meio àquele território de difícil governo, em que espocavam, aqui e ali, ontem e hoje, disputas de natureza material e religiosa.
Joshua procedia do Norte e, assim, não merecia muita confiança dos habitantes de outras regiões. Embora a crucifixão tivesse transcorrido há alguns anos, Gamaliel temia repercussões entre o povo. Mas admite: “Esse Joshua era, como João, um pregador do reino de Deus que muitos agora desejam. Não ter Joshua ambições políticas pode, porém, ter sido seu erro”.
Continua o raciocínio: Ele tinha discípulos entre os zelotas, que devem ter atribuído segundas intenções ao seu dito “Não vos trago a paz, mas a espada (Mt 10,34)”. Todos iludidos! Joshua aconselhava não resistir ao mal, porém a “dar” a outra face (Mt 5.39). Conselho bem prudente, eu diria. “Há rumores de que um dos seguidores zelotas o traiu perante os romanos, irritado porque Joshua não convocava para um levante popular, sequer a esperança de que sua morte provocasse um”.
Gamaliel lamenta que os romanos não faziam distinção entre movimentos religiosos e políticos, nem sabiam a diferença entre judeus, samaritanos e galileus. De todo modo, “com tantos judeus esperando um ungido, o messias que nos liberte, o atual temor dos romanos, não me parece de todo infundado”. Na crucificação de Joshua, porém, zombaram dele, mas ele contestava para dizer que “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17.21), significava o versículo que diz “a Lei não está no Céu; mas ao nosso alcance para que a coloquemos em prática”.
Gamaliel observa que “um líder martirizado tem vantagens sobre um líder vivo: não se pode matá-lo outra vez. A questão é: pode um líder martirizado continuar a liderar?” A pergunta se me afigura adequada ao agora. Jerusalém virou Curitiba? O texto lembra ainda que, “em nossos dias, a maioria sustenta, com Ezequiel (Ez 18), que ninguém morre pelo pecado de outrem, mas pelos que comete”.
Aqui se pergunta ainda: Por que Pôncio Pilatos entrou no Credo? O personagem não foi querido entre os judeus, como se sabe e, de volta a Roma, morreu envenenado. Gamaliel se confessava feliz por assistir ao fim do potentado romano. “Velhaco assassino não merecia destino melhor que o que ele reservou com tanta presteza para os outros. Pelo que se sabe, apoiou um candidato para apossar-se do Império, mas perdeu”.


82391
Por Manoel Hygino - 16/5/2017 06:10:48
Os honorários advocatícios

Manoel Hygino

Os recentes acontecimentos no Brasil nos lançam de volta aos anos finais do século XVIII. A comparação dos fatos se torna mais fácil se examinarmos o texto recentemente lançado de “Pela Liberdade ainda que Tardia”, de Agildo Monteiro Cavalcanti, pela Editora Café, de Belém (PA). O subtítulo “O trágico e o humor se unem nas páginas da Inconfidência Mineira”, até certo ponto, confirmado pela leitura.
Agildo propõe, corajosamente, responder alguns quesitos-chaves: “Tiradentes e o poeta Tomás Antônio Gonzaga tiveram advogados? Qual era o nome? Quem pagou os honorários ao causídico que fez a defesa dos conjurados? Qual o valor que o advogado recebeu para fazer a defesa dos conjurados? O que dava para comprar,à época, como os referidos honorários? Quantos padres foram presos e processados? A Inconfidência Mineira aconteceu pelo ouro do Brasil. Em que data o ouro brasileiro, pela primeira vez, foi para Portugal? Qual a participação dos paraenses e dos cariocas na Inconfidência Mineira?”.
O autor acredita que, com essas e outras perguntas e respectivas respostas, o leitor se surpreenderá ao concluir a leitura do livro, com menos de trezentas páginas, editado na Coleção Conhecer, da casa editora mencionada. A publicação é dedicada ao causídico José de Oliveira Fagundes, advogado de Tiradentes e do poeta Gonzaga.
O livro tem prefácio do professor e jurista Zeno Veloso, que ressalta o fato de Agildo chamar de Conjuração Nacional, a Inconfidência, nutrindo-se em fontes reveladoras de que “o movimento revolucionário não ficou limitado às comarcas mineiras”. Para Agildo, “é entendimento lamentável dizer que a Conjuração Nacional é inexpressiva, porque não houve efetiva revolução libertária. Se de um lado não houve derramamento de sangue, primeiro com Tiradentes, enforcado e esquartejado, figuras eminentes foram presas e desterradas de suas bases, enquanto outros morreram dentro do cárcere”.
“O prefaciador ressalta que Joaquim José (que acaba, mais uma vez, de chegar ao cinema) por sua trajetória heróica, honesta, idealista e corajosa”, fez sua figura humana invulgar em toda a dimensão”. Enforcado em 21 de abril de 1792, aos 44 anos de idade, faltavam poucos dias para completar três anos de prisão, sem tomar sol, em ambiente úmido, ignorando se era dia ou noite.
Caberia ainda especular quanto receberão, no século atual, os defensores dos denunciados ou acusados nos processos da ‘Lava Jato’. São profissionais da mais alta expressão no campo jurídico e no fórum.
E os réus de 1792? Tiradentes e demais conjurados poderiam pagar os honorários. Mas seus bens estavam confiscados, e eles tinham perdido ganhos e empregados. Então, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro assumiu o encargo e contratou Fagundes por 200 mil réis. Bom preço, justo? A vida em Vila Rica era muito cara. Uma galinha que custava 100 réis em São Paulo, chegava a 4 mil na antiga capital de Minas. Com o dinheiro dos honorários, o defensor dos conjurados poderia comprar cinquenta galinhas ou, se carne vermelha, adquiriria apena um boi de corte e metade de um outro.
Advirta-se: a Santa Casa do Rio de Janeiro só pagou o advogado um ano depois do enforcamento de Tiradentes: em 21 de abril de 1793, portanto.


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Por Manoel Hygino - 15/5/2017 07:50:28
Por quem os sinos dobram

Manoel Hygino

A frase se celebrizou e Hemingway a transformou em título para um dos seus mais belos – e densos – romances. “Por quem os sinos dobram”, levado ao cinema com sucesso. Mas, o escritor Emanuel Medeiros Vieira, nascido em Santa Catarina e residente em Salvador, explica: a frase teve berço em versos de John Donne.
Ouvindo sempre “Hallelujah”, de Leonardo Cohen, ele dedica os três versos às crianças da Síria: “nenhum homem é uma ilha isolada(...)/ por isso não perguntes por quem os /sinos dobram: eles dobram por ti”.
A afirmação não se perdeu no tempo, como uma infinidade de outras. Antigório, John Donne nasceu em1572 e faleceu em 1631, séculos decorreram, mas os homens continuam matando homens, não bastam aves e pássaros.
Para o autor catarinense, “é a lógica da guerra, é a essência do poder: é justo matar os inimigos. É injusto matar os nossos. É claro: não há mais tempo pra ingenuidades. A estrutura que domina o mundo é poder, dinheiro, tráfico de armas etc. E com a ascensão de grupos fundamentalistas, da extrema-direita, do terrorismo em todo o mundo, essa perversa lógica mercadológica vai prevalecer”.
Emanuel pergunta e nós fazemos coro: “Como continuar? Apenas palavras. Eu sei somente palavras. Ma é o que me resta”. E elas não são senão o que o dicionário registra. “O velho Shakespeare, que faleceu há quatrocentos anos e quase mais um, reclamava da sua desimportância no meio de uma sociedade que quer apenas e quase sempre o poder: palavras, palavras, palavras, repetia Hamlet”.
No raciocínio de Medeiros Viana, a barbárie e a crueldade extrema, que são o uso de armas químicas, não são fatos novos na história do mundo. Eu sei, é a institucionalização da barbárie.
Sem concordar inteiramente com o escritor, que julga “a ONU um fantoche dos interesses imperialistas – de que lado for”, inclino-me à evidência: a organização não consegue vencer a crueldade que existe. Esta parece intrínseca ao homem, que não aprendeu a sentir os males horríveis que dissemina em torno de si e para sempre.
É profundamente triste tecer estas considerações em maio, mês das noivas, do Dia das Mães, das celebrações cristãs nas igrejas e capelinhas do interior brasileiro, em que as meninas, vestidas de belos trajes brancos, cantam à Virgem que gerou Jesus.
Enquanto acontecem aqui cerimônias tão simples e belas, o mundo se engalfinha em graves embates que deixam milhões de mortos, estigmatizados, órfãos, deserdados, multidões que buscavam salvar-se em outros pedaços do planeta, perdendo a vida nas fronteiras oceânicas, ou cercadas de arame farpado ou muros.
Não se permite que o homem procure o caminho do bem-viver, da felicidade. As nações que detêm poder não medem a sua própria indiferença em causas de males irremediáveis. Os americanos foram perversos em muitas partes do mundo, inclusive com uso do napalm no Vietnã para destruir aldeias, eliminado civis inocentes, embora outros povos o fizeram antes e ainda fazem.
Repito Emanuel: “Por quem os sinos dobram?” Dobram pelos refugiados – que a extrema-direita mundial coloca como o primeiro inimigo. Só falta os fascistas proclamarem: “mate os seus vizinhos”.
Por quem os sinos dobram? Dobram por todas as crianças do mundo, abandonadas, órfãs, perdidas nos oceanos, ignoradas pelo mundo. Dobram pelos humanistas “o uso de armas químicas é proibido pela
Convenção de Genebra desde 1925. Mas qual nação liga para dar convenções?”.


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Por Manoel Hygino - 13/5/2017 07:47:20
Logo, em nível internacional

Manoel Hygino

Estamos no fundo do poço, se é que alguém mediu sua profundidade? Eis a questão. Quem toma conhecimento dos fatos divulgados pelos meios de comunicação se assusta – não mais se surpreende – com o que aconteceu nos tempos mais recentes de nossa pobre/rica República. Ninguém, em sã consciência, admitiria que chegássemos ao ponto da vulnerabilidade que atingimos, acompanhados com preocupação pelas nações de todo o mundo, com as quais convivemos.
O que perdemos em credibilidade é inimaginável, embora haja muito a percorrer nesta quase incrível descida pelo plano inclinado em que nos achamos. Não se permitirá mais ignorar que se trata de fatos reais, não de um pesadelo em inquietante noite. A partir de agora serão investigadas as denúncias já formalizadas judicialmente, ou que venham a sê-lo, sendo imprescindível que elas se façam de maneira clara e lúcida, com espírito público e patriotismo.
Não se trata apenas do que aconteceu em âmbito estritamente interno, se é que, no conserto das nações globalizadas, há algo que foge à atenção do mundo civilizado. Dentro em pouco, e já há prenúncios, as manchetes alcançarão o âmago dos noticiários internacionais, de maneira crua e cristalina.
Estamos ingressando rapidamente no rol dos acontecimentos em escala extra-nacional. Lembro que houve numerosas negociações, como não poderia deixar de ser, com outros países, ainda não de inteiro conhecimento do cidadão. Há dúvidas e inquirições. Em Angola, por exemplo, o presidente José Eduardo dos Santos, é acusado de banditismo, com ajuda de grandes empresas, inclusive a brasileira Odebrecht. O chefe do Executivo do país africano, há 37 anos no poder, é criticado reiteradamente. Ponderável parcela das obras de infraestrutura ali executadas ou em execução poderá ser investigada.
Angola é apenas um no extenso rol das nações que exigem apuração de negociações, executadas por Luanda com apoio de Brasília.
Um blog angolano, um dos principais críticos às práticas políticas do presidente daquele país, considera que devem ser investigadas nossas construtoras. Rafael Marques, fundador do blog, é peremptório: “O Brasil sempre foi visto entre nós como um poder legitimador da corrupção em Angola, isto é, do regime totalitário de José Eduardo dos Santos”.
Disse mais: “O comportamento da diplomacia brasileira sempre foi o mesmo nos diferentes governos no Brasil, da ditadura até agora. Houve certamente um crescimento das linhas de crédito desde o governo Lula, mas foi o período de maior crescimento econômico no Brasil e do aumento da riqueza em Angola por causa do petróleo”.
A ONG se achou no dever de justificar-se: “Temos que criar uma relação melhor, que não seja monopólio da Odebrecht e de um poder ditatorial. Há muito que o Brasil pode contribuir com Angola e vice-versa. Esses laços devem ser reforçados com benefícios mútuos, deixando de ser apenas uma relação de saque dos recursos angolanos por parte das empresas brasileiras que servem apenas para legitimar os crimes de um governo autoritário”.


82381
Por Manoel Hygino - 11/5/2017 18:41:38
Uma tragédia centenária

Manoel Hygino

Na sessão da última quinta-feira de abril da Academia Mineira de Letras, o secretário de Estado da Cultura, Ângelo Oswaldo, de privilegiada e invejável memória, comentou comigo aproximar-se o centenário da morte da família real russa. Pouco, aliás, se tem ouvido sobre a própria Revolução de 1917, mas falta menos de um ano para o fim dos Românov. Transportada através do imenso país até os Urais, ela se instalou na cidade de Ekatarinburgo, na casa Ipatiev, de dois andares, confortável e ampla.

A revolução durou de 1917 a 1920, encerrando a monarquia absoluta de Nicolau II e deixando 6 milhões de mortos, vítimas de massacres, fome e epidemia. Entre as vítimas, aliás, a própria família real – o soberano, a czarina Alexandra e os cinco filhos (quatro mulheres e o caçula, herdeiro do trono), assassinados na madrugada de 17 de julho de 1918, após confinados 78 dias.

Robert K. Massie, que estudou a fundo o tema, descreve os derradeiros momentos: “era meia-noite quando Yakov Yurovsky, líder dos executores, subiu as escadas para acordar a família. Justificou a invasão, afirmando que era preciso remover todos para o porão, por causa do risco de serem atingidos por tiros disparados da rua. Em 40 minutos, Nicolau, 50 anos; Alexandra, 46; o filho Alex, 13 e as filhas – Olga, 22; Tatiana, 21; Marie, 19; e Anastasia, 17; arrumaram-se. Aléxis, que era hemofílico, estava debilitado e precisou ser carregado pelo pai. Um médico, amigo do czar, que estava retido na casa, e mais dois empregados, também foram obrigados a acompanhá-los”.

O grupo desce ao porão. O líder determina que todos fiquem lado a lado para uma foto. Com isso, provaria em Moscou que os reféns não tinham fugido. Em vez de um fotógrafo, onze homens armados entram no local. Faz-se a sentença de morte e o pelotão começa a atirar.

Depois do fuzilamento, só fumaça, o cheiro de pólvora e um rio de sangue. Um pequeno gemido e um movimento. O rapazola, herdeiro do trono, ainda nos braços do pai, moveu fracamente a mão para segurar-lhe o casaco. Um dos atiradores deu um pontapé na cabeça de czarevevith. Yurovsky avança e dispara dois tiros no ouvido do menino. Anastasia,que apenas desmaiara, recupera a consciência e grita. Todo o grupo se volta para ela com baionetas e coronhas de espingardas. Estava terminado.

Nicolau levara um tiro de revólver na cabeça e morrera instantaneamente. Alexandra só teve tempo de erguer a mão e benzer-se. O médico Botkin cai, morto. A criada Demidova resistiu à primeira descarga, mas foi trespassada por baionetas. O corpo de Trupp, empregado da família, estava também lá. Não havia dó ou piedade. O cãozinho Jimmy, um spaniel levou uma coronhada, que lhe esmigalhou o crânio.

Os corpos foram embrulhados em lençóis e colocados num caminhão. Antes da madrugada, o veículo chegou ao local previamente escolhido, o bosque “Quatro Irmãos”. Começa o desmembramento dos corpos. O que restava era dissolvido em ácido sulfúrico, alguns ossos queimados.

O Inquérito Judiciário sobre o assassinato foi realizado por Nicolas Sokoloff, juiz de Instrução do Tribunal de Omsk, publicado em Paris, em 1924 documento sobre a tragédia de Ekaterinburgo, com plantas e 83 fotografias inéditas. Tenho um exemplar da época. Em menos de um ano, será o primeiro centenário da tragédia.


82375
Por Manoel Hygino - 9/5/2017 07:34:19
Esta semana de maio

Manoel Hygino

A semana é uma das mais delicadas deste ano. Transcorrido um quadrimestre, somente sinais muito tênues de recuperação econômica tingem os horizontes. Verdadeiramente, o Brasil terá de enfrentar dias ainda dificultosos para sair da tremenda enrascada em se meteu e que, para dela sair, terá de submeter o cidadão a grande sacrifício.
No decorrer destes textos se pensou que o autor fosse um pessimista, incrédulo talvez por motivos pessoais, após o período de singulares bondades concedidas pelo poder público. Lembro que já o velho Ruy escrevera sobre o tema, referindo-se ao desenvolvimento do bem, pois funesto é o otimismo com as suas miragens falaciosas.
Ainda não foi aberto e examinado todo o espólio recebido pela atual geração de brasileiros, que transmitirá pesados encargos às próximas. Não se trata, como se pensaria, simplesmente dos escândalos envolvendo a maior empresa do país. O caso Petrobrás foi apenas um espectro na série de imensuráveis desvios que pareciam conduzir à perda da própria democracia tão duramente reconquistada.
De escândalo em escândalo, atingimos esta hora dramática. O caos se aproximou em passos rápidos, de que o povo se foi conscientizando, à medida que os fatos eram, como têm sido, divulgados em nível amplo.
O descrédito chegou ao ápice. Os bandidos comuns, os que fazem de sua atividade meio de enriquecimento ilícito, até violento, desafiam os agentes da lei, ganharam foros para expandir ordens de dentro dos presídios, mesmo mediante ações em nível internacional.
Os antigos donos da terra, os índios, se insurgem contra o Estado (e razões devem ter). Os que não possuem habitação, sequer de um quinhão de terra para ali erguê-la, incentivados por grupos e pessoas identificáveis, põem-se em campo contra a população, ordeira e trabalhadora, impedindo- a de locomover-se nas ruas e outras vias de trânsito. Por trás, a má fé, a desonestidade, às vezes a insensatez.
Esta semana de maio é extremamente delicada. Forças políticas – e não políticas – antagônicas terão talvez oportunidade de assistir a um espetáculo raro na história dos povos. Ao cidadão caberá conhecer novos fatos e a versão de pessoas investigadas. Deve-se admitir que há interesses subalternos e antipatrióticos para mobilização dos incautos e ingênuos contra medidas legais imprescindíveis e não adiáveis. Mas, não é um julgamento.
Por mais que se queira esquecer, não se ignorará a lição de Ruy, mais uma vez: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
O jurista, que a Bahia legou ao Brasil, advertiu ademais: “As catástrofes mais atrozes, mais sinistras, mais desesperadas são as que entorpecem o caráter das nações e, depois de afundi-las no coma da indiferença, as sepultam no sono do aniquilamento”.
Não é o caso. A sociedade brasileira, a nação, está atenta, e usa do direito dos indivíduos que a formam, para vê-la extirpada dos deslizes e crimes que a aviltam e a comprometem em nível internacional. Se a hora é grave, cabe enfrentá-la conscientemente.


82373
Por Manoel Hygino - 8/5/2017 07:21:43
Desfile ameaçador na Coreia

Manoel Hygino

Diz a lenda que a atual península coreana foi dividida em três reinos no século anterior à Era Cristã. Vê-se que se teria de ocupar muito espaço para chegar a nosso tempo. O território, nos séculos seguintes, foi disputado por chineses, mongóis, japoneses e russos. Em 1910, o Japão anexou a região e tentou eliminar a língua e cultura coreanas. Durante a II Grande Guerra, milhares de cidadãos foram obrigados a trabalhos forçados.
A partir da rendição japonesa, após a explosão das bombas atômicas de Tio Sam, a península coreana foi dividida em duas zonas: a de ocupação norte-americana e a soviética. Criaram-se a Coreia do Sul e a do Norte, ambas reivindicando direito sobre todo o território. Oficializa-se o comunismo na Coreia do Norte, sob Kim II-Sung.
Em 1950, norte-americanos invadem o lado não comunista. A ONU envia tropas, com predominância de contingentes dos EUA e ocupa a Coreia do Norte. A China adere à luta e conquista Seul, capital sul-coreana. Tio Sam enfrenta a situação e expulsa os chineses, de volta ao Paralelo 38, que separa as Coreias. Mais de 5 milhões de pessoas morrem em três anos de conflito, dos quais 2 milhões de civis. Em 1953, há uma trégua com definição de uma zona desmilitarizada entre os litigantes.
Paz? Muito longe. A Coreia do Norte é reerguida com apoio da União Soviética e da China, caracterizando-se o regime pelo culto ao ditador Kim-II-Sung. Em 1990, a Agência Internacional de Energia Atômica vigia a situação: os norte-coreanos estariam desenvolvendo um programa nuclear militar.
Assim tem sido, desde então. E já somam quase 30 anos de beligerância entre as Coreias e de intranquilidade para o mundo, que não deseja mais um país no ameaçador clube nuclear. Com a permanente demonstração de forças em Pyongyang, capital do país do Norte, o atual líder, Kim Jong-Un, neto do fundador da dinastia, o mencionado Kim-II-Sung, deu uma altíssima demonstração de poder militar, neste abril, em resposta ao presidente Trump.
Quem vê as fotos e as reportagens televisivas, em que aparece II- Sung, desconfia de sua saúde mental. Não parece um cidadão em pleno uso de suas faculdades. Assim apareceu nos desfiles pelas ruas de Pyongyang, no Dia do Sol, o de nascimento do criador da dinastia.
Após salva de tiros de 21 canhões, dezenas de milhares de soldados de Infantaria, Marinha e Aviação, desfilaram com o passo de ganso, virando a cabeça na direção do balcão onde o líder se achava, em terno preto. Destacamentos carregavam rifles ou lança-granadas, alguns com óculos de visão noturna e rosto pintado. Em seguida, vieram tanques e armas muito especiais: 56 mísseis de 10 tipos distintos, transportados por reboques e caminhões. Para o ditador e seu regime, um dia de festas. Para o resto do mundo, de preocupação.
O país asiático já realizou cinco testes nucelares recentemente e pretende desenvolver um míssil internacional, capaz de atingir e destruir os Estados Unidos. O presidente dos EUA, Donald Trump, pela primeira vez, manifesta sua disposição de conversar com o líder norte-vietnamita, num encontro inédito. A iniciativa se resume a palavras – e não mais que palavras.


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Por Manoel Hygino - 6/5/2017 09:19:34
O espectro bolivariano

Manoel Hygino

Há sempre renovado esforço de determinadas pessoas e grupos para piorar a situação do Brasil e dos brasileiros, embora o propósito se mantenha difícil, dado o quadro em que já nos encontramos. A despeito disso, dos protestos dos que querem a baderna por todos os meios, os heróis dessa empreitada antipatriótica insistem. Foi o que se viu, no último dia 28, quando se quis paralisar o que funciona.
Suponho, todavia, que não conseguiam fazer com que atinjamos o caos a que chegou a Venezuela, de onde procedem diariamente dramáticas notícias (não evidentemente comparáveis as do Oriente Médio, como as da terrível tragédia síria).
Há anos, a Venezuela vive à beira da ruptura institucional. Assumiu o novo nome de República Bolivariana da Venezuela e mexeu com as instituições do Estado, após aprovação da nova Constituição, promulgada em dezembro de 1999. Eliminou-se o Senado Nacional e se instituiu o Parlamento unicameral, ampliaram-se os poderes do presidente, admitiu-se a reeleição, consagrou-se o monopólio do petróleo e reduziu-se a jornada de trabalho. Nada melhorou. Antes pelo contrário.
Ao invés de beneficiar o povo, apertou-se o cerco e o cinto. Com a venda externa de petróleo, montou-se um arsenal de guerra contra o inimigo do Norte, os Estados Unidos, seu maior consumidor. De 2005 a 2010, adquiriram-se da Rússia 4 bilhões de dólares em armamento, enquanto se dava ênfase ao envio do seu principal produto para a China.
Paulatinamente, o perfil de Chávez se foi deteriorando, aproximando de outros caudilhos venezuelanos. A situação econômica se agravava, silenciava a imprensa, crescia a inflação, diminuía a popularidade, começava a faltar tudo: medicamentos, alimentos, produtos de necessidade, até papel higiênico. Os protestos nas ruas foram, e são, combatidos pela força (29 pessoas já morreram), com os militares protegidos por altos salários e cargos.
A morte de Chávez, vítima de câncer que não quis ter sido tratado no Brasil, correspondeu à ascensão de Nicolás Maduro, sem competência para dirigir o país.
No ano passado, a Semana Santa foi considerada feriado, a fim de se economizar água e energia elétrica. A população foi “chamada” a seguir o amável convite. Ao sexo feminino, sugeriu-se redução no uso de secador de cabelo ou sua utilização apenas em casos especiais. O racionamento elétrico em hotéis e shoppings subiu para nove horas diárias.
Na semana passada, Maduro anunciou aumento de 60% no salário mínimo do trabalhador, que também recebe um bônus de alimentação. O salário se elevou a 65.021 bolívares, o adicional a 135 mil bolívares, não influindo nas férias ou gratificação natalina.
Observe-se: é o terceiro aumento salarial em 2017, este último no Dia do Trabalho ou do Trabalhador. O que parece bondade não o é tanto, se se considerar a inflação prevista de 720%, a mais alta do mundo.
Não adianta reajuste, pois não existem produtos básicos. Maduro assegura: “Vamos ganhar esta guerra contra a oligarquia”. E milhares de hermanos escapam à fome e ao desemprego pela fronteira em Roraima.


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Por Manoel Hygino - 3/5/2017 08:31:41
As causas da rebelião

Manoel Hygino

Período de descanso para inúmeros. Assim foi o feriadão da Inconfidência Mineira, que assinalou mais um ano da execução de Tiradentes em 1792, no Rio de Janeiro. Pareceu-me que, em data tão solene para as gerações deste princípio de século XXI, os brasileiros não perceberam exatamente quem foi Joaquim José, nem o que há de grandioso e simbólico no movimento de que participou.
Bem verdade que, este ano, foi lançado o filme “Joaquim” para contar a história do herói que a República consagrou e que a monarquia portuguesa, por motivos óbvios, execrou. De todo modo, ele nutria ideais e enxergou na colônia, cujas terras foram descobertas por Cabral, uma grande e pujante nação.
“Joaquim”, o filme que comentarei oportunamente, espelha uma época e o domínio português. Manoel e Joaquim são denominações típicas em um povo que, percebendo as reduzidas dimensões de seu território, decidiu ampliá-lo. Venceu os mistérios de mares nunca antes navegados e chegou à África, à Índia e vizinhança e, finalmente, à terra de Santa Cruz.
Minas Gerais, longe da península ibérica e da Coroa portuguesa, sabia que algo acontecia. Um velho conselheiro régio, Antônio Rodrigues da Costa, lembrado pelo historiador Jaime Cortezão, advertia, em 1732, sobre o perigo que representava o Brasil para os desígnios do rei e sugeria medidas mais humanas, capazes de diminuir as tensões entre a nação dominadora e o país dominado.
Exatamente sessenta anos antes do sacrifício de Joaquim José numa praça carioca, o sábio conselheiro alertava que o enriquecimento produzido pelo ouro conduziria inevitavelmente à rebelião. Defendia mudança de postura do colonizador, um governo justo e ponderado. Advertia de modo enfático: “riquezas extraordinárias e excessivas fazem muito duvidosa e arriscada a conservação daquele Estado”, isto é, do Brasil.
Rodrigues da Costa tinha razões de sobra e não era um indivíduo qualquer. Tratava-se, como lembra João Camillo, de homem culto, viajado, conhecedor da história e das cortes europeias, antigo aluno do celebrado Colégio Santo Antão, bom latinista, possivelmente adepto da teoria jesuítica do consensus. Rodrigues da Costa não expunha um pensamento relativo apenas ao Brasil. Partia do princípio de que maus governos levam seus súditos à rebelião. No caso específico de Minas Gerais, sua enorme produção de riquezas fazia crescer a vexação.
O ilustre português é peremptório: “o perigo interno, que tem os Estados e nasce dos mesmos vassalos, consiste na desafeição e ódio que concebem contra os dominantes, o qual ordinariamente procede das injúrias e violências com que são tratados pelos governadores, da iniquidade com que são julgadas as suas causas pelos ministros da Justiça e da dificuldade de trabalho, despesa e demora de que necessitam recorrer à corte...”.
E, ainda, “também nasce muito principalmente do encargo dos tributos quando sentem que são exorbitantes e se lhes fazem intoleráveis”.


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Por Manoel Hygino - 2/5/2017 08:18:44
Além da esfera financeira

Manoel Hygino / 02/05/2017 - 06h00

Incontestavelmente, nosso país atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. Os responsáveis pelos destinos nacionais, pela condução do barco no mar encapelado, não encontram os imprescindíveis meios para levá-lo ao bom porto. A situação econômica não é grave, porque já se fez gravíssima, e Meireles faz propostas, defendidas pelo presidente, para amenizar a situação.
Encontra, porém, uma oposição severa. O brasileiro não gosta de aperturas, não é capaz de suportar a adversidade, como a enfrentam povos de outras nações. Continua vendo só bondade na afirmação de Pero Vaz de Caminha, de que aqui, em se plantando, tudo se dará. Mas não apreciamos muito o difícil plantar para colher frutos lá à frente. Talvez influência do clima, que convida à preguiça.
A ninguém escapa a dura hora que vivemos, em que faltam alimentos à mesa e remédios nos hospitais públicos. Reclama-se, procura-se culpados e protesta-se contra os altos níveis dos impostos, só pagos porque são impostos. Não se abre mão das coisas que nos deleitam, ignorando-se que o consumido no prazer nos faltará em casa.
O mundo inteirinho conhece nossas deficiências e enormes dificuldades, embora a colheita de grãos atenue drama em nossa balança comercial e responde a Saint-Hilaire, ao afirmar que ou o Brasil acabava com a saúva, poderosa, ou a saúva com o Brasil. A nossa agricultura demonstra pujança, a despeito da inclemência do tempo e da penosa empreitada em que se transformou o transporte de safras por estradas horríveis. Aliás, a televisão tem mostrado a odisseia das carretas e caminhões para levar a bela produção aos portos, mesmo ao consumidor interno.
Não escapa ao escriba a notícia, requentada, da manifestação de Francisco, o pontífice romano, sobre o convite que lhe foi feito pelo presidente Michel Temer para voltar ao país para conhecer de perto a situação da população carente. A correspondência respondia à mensagem que lhe enviaria para as celebrações aqui dos 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, neste 2017.
Argentino, torcedor do San Lorenzo, o papa, como de costume, não enrolou, nem tergiversou. Foi logo avisando:
“Sei bem que a crise que o país enfrenta não é de simples solução, uma vez que tem raízes sócio-político-econômicas, e não corresponde à Igreja nem ao papa dar uma receita concreta para resolver algo tão complexo”.
Tem plena razão o sucessor de Pedro. Nós é que temos de dar solução aos nossos problemas, em sua maioria criados ou praticados por nossos administradores nestes oito milhões e 500 mil quilômetros quadrados de território.
Não significa dizer que o papa ignorou ou vai ignorar o nosso grande desafio, justamente ele que tanto se preocupa com a situação que se atravessa. Mas, não se vê em condições de propor caminhos:
“Não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis, as superficiais, para uma crise que vai muito além da esfera meramente financeira”.
Da Praça de São Pedro, Francisco define: “crise que vai muito além da esfera meramente financeira”.


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Por Manoel Hygino - 28/4/2017 08:09:49
Francisco vai aos coptas

Manoel Hygino

Novos atentados contra cristãos coptas no Egito em abril, o mês da Páscoa. Enquanto a comunidade orava a Jesus por sua paixão e morte, em Jerusalém, dois séculos antes, o país norte – africano sentia os efeitos da intolerância e fanatismo.
Até o século V, a Igreja de Alexandria, a que pertencem os coptas, representou no mundo cristão um papel pouco inferior à de Roma, o que se pode medir pela importância de nomes como Orígenes, Anastácio e Cirilo.
A história copta é um belo campo para estudo, até porque sua língua, falada pelos antigos egípcios, é utilizada até hoje na sua Igreja, nos cantos religiosos e nas orações.
Sedentários, econômicos e muito prolíficos, monogâmicos, os coptas habitam aldeias inteiras do baixo Egito e sobretudo no Alto Egito. Recusando submeter-se ao concílio de Calcedônia, em 451, sobre o problema da união da natureza divina e humana em Cristo, separou-se da Igreja de Roma, mas continuou de mãos dadas.
No primeiro atentado, neste abril, em uma igreja em Tawta, a 120 quilômetros do Cairo, 27 pessoas morreram e 78 ficaram feridas. A explosão foi nas primeiras filas, perto dos altares, durante a missa. Imagens divulgadas por rede privada de televisão mostraram o chão e as paredes brancas do templo cobertas de sangue, assim como os bancos de madeira destruídos.
O ato criminoso do grupo terrorista Estado Islâmico se dá meses após seu braço sírio convocar o ataque aos “infiéis, ou apóstatas, no Egito e em toda parte”, forma de referir-se à comunidade copta.
Antes, outro atentado na igreja de Alexandria, deixou o saldo de 17 mortes e 49 feridos. Um indivíduo com um cinturão de explosivos detonou a carga, ao ser impedido de permanecer no templo de São Marcos. O líder copta, Papa Teodoro II, que participara das celebrações de Domingo de Ramos, abandonara a Igreja pouco antes da detonação.
O duplo crime adverte para o que poderia acontecer, considerando que Francisco prometeu visitar os coptas do Egito, hoje e amanhã. Ao conhecer a tragédia, o pontífice enviou ao líder religioso do outro lado do Mediterrâneo, uma mensagem: “Ao meu querido irmão, sua Santidade, o Papa Teodoro II, à Igreja copta e a toda a nação egípcia, expresso meu profundo pesar”.
Enquanto o Oriente Médio crepita diante da troca de ameaças, desencadeada principalmente a partir do ataque dos mísseis de Trump à Síria, Francisco não se intimida. Da sacada do Palácio Pontifical na Praça São Pedro, manteve a decisão de, no final deste mês, visitar Teodoro, no Egito. Participará certamente das mais antigas cerimônias e ritos primitivos do cristianismo.
O velho idioma copta não é mais falado como nos velhos tempos, desaparecido há mais de duzentos anos, suplantado pelo árabe. Que mundo novo aparecerá naquele pedaço do planeta, se eclodirem novas guerras no conturbado território? O EI não perdoa, nem admite derrota. Enquanto isso, os cristãos são simplesmente liquidados.


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Por Manoel Hygino - 22/4/2017 14:30:36
Um passeio por Belterra

Manoel Hygino

Há muito, buscava inteirar-me, ou pelo menos me aproximar, da história da aventura amazônica de Henry Ford, na América do Sul, mais exatamente no Brasil. Antes da Segunda Grande Guerra, ele decidiu estabelecer por aqui um grande centro de produção de borracha, para atender à demanda prevista fundamental aos Estados Unidos caso houvesse, como houve, o grande conflito que convulsionou o mundo.

A Clevelândia, território e iniciativa de Ford no norte do país, tem sido pouco focalizada pelos estudiosos do tema Segunda Grande Guerra. E, ainda, por quantos se dedicaram até agora a focalizar o império de um dos mais poderosos empreendedores da indústria automobilística.

Sabia-se que, no Pará, se realizou a experiência do magnata norte-americano, que completaria 70 anos de falecimento em 2017. Não se dedicou ainda, todavia, mais longa e profundamente ao tema, até porque a Fordlândia, que inspirou um estudo publicado por Alexandre Samis (que não localizei em livrarias), perdeu-se no vendaval do tempo.

“Choro por ti, Belterra”, de Nicodemos Sena, autor que já considero referência por esplêndidos livros, vem preencher esse vazio. Nascido em Santarém, do Pará, ele resgata a história de Clevelândia, ou Belterra, cidadezinha daquele estado, que guarda resquícios do que Ford construiu no norte brasileiro.

Lançado neste princípio de ano, pela Letra Selvagem, que o próprio Nicodemos criou e dirige em Taubaté, SP, “Choro por ti, Belterra”, não é romance, livro de memórias, nem reportagem. Em todo caso, pode situar-se nas três divisões. Para Adelto Gonçalves, é “um texto híbrido que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das vicissitudes vivida pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que ainda assolam seus pensamentos”.

A narrativa sintetiza a viagem que o autor fez a Belterra, o que sobrou de Fordlândia. Descreve os sentimentos do pai, ao rever a época e o local da infância e da adolescência; algo muito especial para quem se interessa pelo singular experimento no Brasil e com brasileiros.

A viagem de reencontro com a terra que Ford sonhara é sentimental, podendo ser contada em cada seringueira remanescente, em cada casinha que resistiu ao tempo e às circunstâncias. Pai e filho se perdem naquelas remotas regiões, procurando localizar o passado, marcas e marcos de um tempo pouquissimamente reconhecível. Bernardino Sena, pai do escritor e peça importante na descrição, observou: “Os norte-americanos não eram bonzinhos, como querem se mostrar, mas trouxeram cosias boas que o nosso povo não soube aproveitar como educação e disciplina no trabalho”.

Os locais e personagens da curta peregrinação por Belterra tocaram os dois Senas e tocam aos leitores, que aprendem sobre aquele Brasil mais do que em livros didáticos. Um dos humildes residentes da terra observa: “Faz anos que Belterra virou cidade, mas esgoto e água encanada ainda não chegaram para estas bandas. Os senhores me perdoem, mas não estou reclamando e até sou feliz aqui. Ninguém se importa com a gente, mas também ninguém tem coragem de nos arrancar daqui, se bem que quisessem”.


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Por Manoel Hygino - 19/4/2017 08:53:43
As lições da hora presente

Manoel Hygino

Parece assim nos cassinos: o jogo está feito. Acontece agora o desenrolar das medidas judiciais da Operação Lava Jato, de que o capítulo Odebrecht é o mais grave e calamitoso, se me permitem o adjetivo. Evidentemente, os seguintes serão fundamentais ao desenlace de um drama que se abateu sobre o Brasil e alcançou dimensões internacionais.
Os veículos eletrônicos de comunicação, que exploram o tema à suficiência, mesmo à exaustão, se incumbirão de divulgar o que virá pela frente, antecipando as minúcias que os jornais publicarão. Não há como fugir às normas, mesmo com as sôfregas tentativas da defesa dos indiciados nos delitos.
Em verdade, os acusados insistirão na tese de que nada fizeram de errado, de que as informações e delações são falsas, de que há uma imensurável rede de mentiras para incriminá-los. Faz parte. Enquanto isso, advogados prestigiosos e bem pagos procurarão honrar o compromisso de defendê-los até o último argumento. Também faz parte.
Ao redator e ao respeitável e desrespeitado público – composto pelos cidadãos deste país – cumpre simplesmente acompanhar o andor, de barro e frágil. O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, ao aprovar 76 inquéritos para investigar políticos e autoridades com base nas delações de ex-executivos da Odebrecht, abriu o jogo, para ser disputado nas sisudas câmaras da Justiça.
É algo que vai demorar, sendo oportuno lembrar que, até aqui, foram apenas de setenta inquéritos e mais meia dúzia. Falta muito mais e a nação poderá estarrecer-se, mais uma vez, do que com ela fizeram e do muito mais que pode vir à frente para comprometê-la e degradá-la.
O Brasil não parou, nem vai parar, e não simplesmente porque o presidente Temer o quer. Uma nação como a nossa não se desmonta pela ação delituosa de centenas de pessoas, numerosas já denunciadas, e outras das vindouras listas.
Estamos apenas no começo de um grande esforço para lançar luzes sobre uma fase muito obscura na existência deste país, que quer e precisa conhecer melhor quem está na liderança de seus desígnios, pessoas, grupos. Partidos?
Ruy já dizia que “os fatos de grandeza histórica, que enchem uma época, e imprimem expressão típica a um tempo, não pertencem ao cabedal doméstico dos partidos, que à sombra deles se formam, e lhes encarnam as ideias”.
Vivemos um período dolorosamente dramático e não podemos perder o ensejo de extrair lições para o futuro. Este o momento da decisão sobre quantos estigmatizaram a honra nacional. Deveriam sabê-lo antes de perpetrarem o que perpetraram.
Em todo lugar e tempo, há maus e malévolos, porque em toda parte existem as sementes da maldade, que precisam ser eliminadas antes que germinem ou que sejam afastadas de vez quando identificadas.
Temos, novamente, de citar o grande jurista: “As catástrofes mais atrozes, mais sinistras, mais desesperadas são as que entorpecem o caráter das nações e, depois de as difundir no coma da indiferença, as sepultam no sono do aniquilamento”. Ao coma da indiferença, acrescentaria eu, o da impunidade.


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Por Manoel Hygino - 14/4/2017 08:17:01
Os reveses de uma nobre missão

Manoel Hygino

É uma história muito antiga que precisaria ser melhor conhecida. Teve princípio no final do século XV, em Portugal, quando a rainha D. Leonor de Lancastre iniciou uma grande obra pia que se estendeu ao longo do tempo e dos continentes.
À época, peregrinos e flagelados, açoitados pela fome, peste e guerras, se viram na contingência de buscar assistência nos seus deslocamentos por ínvias estradas da península ibérica. Pessoas sentiram-se, contudo, na obrigação de amparar quantos percorriam os velhos caminhos dos romanos e careciam de abrigo material e ajuda espiritual.
Para assistir os errantes cristãos, construíram-se toscos hospitais, mantidos por confrarias. Ao perder o marido e, em seguida, o único filho, ainda muito jovem, Leonor decidiu dar proteção a gente com tantas carências.
Em 15 de agosto de 1498, criou a primeira irmandade da Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia, numa capela anexa à Sé de Lisboa, onde desenvolveu um generoso trabalho. Quando faleceu, em 1524, encontravam-se já instaladas e funcionando 61 Casas de Misericórdia pelo país afora, regidas pelo fraterno compromisso de Lisboa.
Por mares nunca navegados, como diria Camões, a missão preconizada pela rainha chegou às terras descobertas pelos navegadores portugueses. Em 1539, quinze após sua morte, plantou-se a primeira dessas instituições no hemisfério sul das Américas- a Santa Casa da Vila de Olinda. Em 1540, já existia a igreja de Nossa Senhora da Luz, ou da Misericórdia, e o respectivo Hospital. Em 1630, ambos foram destruídos pelos holandeses e, no ano seguinte, por um pavoroso incêndio que devastou a região. Em 1654, com a expulsão dos invasores, restaurou-se a Capitania enquanto a benemérita obra se estendia às demais regiões do território.
A humanitária causa chegou aqui no ocaso do século XIX. Em Belo Horizonte, a Santa Casa nasceu logo após a inauguração da capital e um grupo de pioneiros sentiu a inadiável obrigação de oferecer assistência à saúde da população. Em 21 de maio de 1899, fundou-se uma entidade civil, que permanece até hoje, prestando os mais relevantes serviços à cidade e à sua gente. E a Minas Gerais também.
Pois, faltando pouco para completar 120 anos de idade, a Santa Casa de Belo Horizonte, segundo maior hospital em número de leitos SUS no Brasil (há placa informando que são 1.000 leitos SUS, mas são disponibilizados 1.086) está sofrendo os males de ter-se inclinado aos que padecem os males do corpo e da doença.
Líder e referência em diversos campos das ciências médicas, com 170 leitos de UTI em um único edifício exclusivamente para o SUS, segundo maior hospital em transplante em Minas, líder nas cirurgias do sistema nervoso de aparelhos circulatório e digestivo e nas cirurgias de mama, maior prestador de serviço de urgência oftalmológica, atendendo a 570 municípios mineiros, realiza 12.207 procedimentos/média por mês.
Situa-se entre os quinze maiores prestadores de cirurgia oncológica pediátrica e adulto no Brasil e 1º e 2º lugares respectivamente, em Minas, embora a Santa Casa esteja operando aquém de suas possibilidades. Padece de dramática falta de recursos públicos para manter sua cristã atividade. Há leitos parados. Nem se pergunte a quem cabe a responsabilidade ou a culpa. A falta de solidariedade e soluções se sobrepõe à misericórdia de seu nome.


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Por Manoel Hygino - 12/4/2017 09:35:58
A Veneza do Norte

Manoel Hygino

Os últimos acontecimentos na Europa e no Oriente Médio atraem a atenção para a Rússia, país de maior extensão do mundo. Mais de 10 mil quilômetros separam São Petersburgo, no Oeste, de Petropavlosk, no extremo Leste. Soma acima de 17 milhões de quilômetros quadrados, em dois continentes – Europa e Ásia.
Mas ali, além de cenário da maior experiência política do planeta no século passado, o é também de obras literárias de grandes escritores dos séculos XVIII e XIX. Bastaria lembrar Dostoievski, Tolstoi e Gogol. Em criações geniais, seus personagens aparecem em antigas ruas e casas de Moscou e São Petersburgo, cujo metrô foi palco de atentado terrorista, com mortos e muitos feridos, há poucos dias.
Meu pensamento casa com o do historiador Morehead. Ele afirma, em um de seus livros, que talvez tenha sido o brilho dos romancistas russos do século XIX que fixou a Rússia czarista tão vivamente em nosso espírito. Pode ser também pela maneira repentina e completa com que aquele mundo desapareceu, fazendo desabar toda a vasta e complexa superestrutura de vida feudal criada pela monarquia russa durante mil anos. E desapareceu para sempre, há exatamente um século, num colapso até agora pouco rememorado e analisado.
Muito mudou. Até agosto de 1014, quando a Rússia entrou em guerra com a Alemanha, a cidade era São Petersburgo. Passou a Petrogrado, menos germânico.
Em 1924, os bolchevistas transformaram–na em Leningrado. Recentemente, voltou ao original. Mas a cidade se mantém como um dos pontos de maior interesse para turistas e pesquisadores do planeta. A cidade de Pedro merece por tudo que é e contém: o Teatro Mariinski, no qual bailarinas famosas dançavam – e dançam, o Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Chaliapin se apresentava no Narodny Dom. Em Semenovski, sucediam as corridas de cavalos no campo de desfiles. Sem falar nas pinturas do Hermitage, além das lojas e restaurantes chiques. Frequentemente comparava-se São Petersburgo a Veneza.
Pedro, o Grande, realizou a metamorfose, antecipando-se a JK, entre nós. Decidiu remover a nação da herança eslava e lançá-la para a cultura da Europa Ocidental, construindo uma nova cidade nos pântanos do rio Neva. O soberano queria que São Petersburgo fosse uma janela para a Europa Ocidental. Milhões de toneladas de granito vermelho foram transportadas para a região. Duzentos mil trabalhadores pereceram de febre e desnutrição, mas Pedro já governou a partir daquela cidade artificial no cimo do Mar Báltico.
Robert K. Massie recorda-a erguida sobre água. Estendia-se através de nove ilhas, ligadas por pontes arqueadas, rodeadas por canais sinuosos. O rio Neva enfeitava e enfeita. Do lado Norte, a Fortaleza de Pedro e Paulo, encimada por um agudo pináculo dourado, 150 metros acima da catedral fortificada.
Por quatro quilômetros e meio, na margem Sul, estavam o palácio de Inverno, o Almirantado, as embaixadas estrangeiras e os palacetes da nobreza. No tempo de Pedro, ali estava tudo o que era elegante. A sociedade falava francês, não em russo, e os melhores vestuários e mobílias eram encomendadas de Paris.
Chamada a Veneza do Norte, São Petersburgo revelava-se europeia. E guarda muito da velha tradição.


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Por Manoel Hygino - 10/4/2017 08:37:49
Nuvens negras nos céus

Manoel Hygino

A foto que circulou pelo mundo na última terça-feira, 4 de abril, comoveu e consternou. Nela, o comerciante Abdel Hameed al-Youssef, de 29 anos, apareceu, abraçado aos filhos gêmeos, de nove meses, a mulher e outros parentes. Todos foram vítimas do ataque químico que resultou na morte de 86 pessoas inicialmente, e ferindo mais de 550, no noroeste da Síria.
As crianças, do sexo masculino, são mostradas com cabelos penteados, como se dormissem. Na frente dos presentes, o pai repetia: “Diga tchau, bebê, diga tchau”. Ele se achava com os filhos quando ocorreu o ataque das forças governamentais. Para obter socorro, procurou os demais parentes – dois irmãos, sobrinhos, amigos e vizinhos. Ao voltar, encontrou os gêmeos mortos, em consequência da brutalidade da guerra e da desumanidade das autoridades.
O ataque utilizou gás sarin, como confirmado por especialistas. Autoridades turcas acusam o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, pelo bombardeio com a substância tóxica, o que mais revoltou o mundo tido por civilizado ou como tal classificado. A crueldade da ação bélica foi ignomínia, que – como suficientemente sabido – é apenas uma das marcas das ações do ditador Assad.
Seis anos de guerra e muitos milhares de vítimas, inclusive civis, crianças, mulheres e idosos, e de componentes de equipes médicas e de assistência aos feridos, demonstram que o regime sírio, apoiado por Moscou, é uma insânia, configurada como verdadeiro genocídio.
A tirania de Assad lança mais lenha à fogueira interminável do Oriente Médio, em que o apoio da Rússia a Bagdá até certo ponto assusta o Ocidente. Ainda mais quando Moscou se vê em apuros para conter movimentos internos contra Putin e para tentar explicar o atentado em São Petersburgo, há poucos dias.
O homem-bomba, acusado do ataque à velha capital que Pedro, o Grande, construiu sobre os lagos nórdicos, seria um russo nascido no Quirguistão, fronteiriço ao Cazaquistão. De seu ato, restaram inicialmente 14 mortos e 49 feridos, numa estação do metrô da histórica cidade. Simplesmente um atentado terrorista ou parte de um movimento de sublevação contra Wladimir Putin?
Simultaneamente, a inesperada decisão do presidente Donald Trump de bombardear território sírio com mísseis disparados de navios americanos no Mediterrâneo provoca interrogações. O que significa efetivamente? De Washington, sob Trump, nada pode surpreender. Mudanças de posição do sucessor de Barack Obama podem acontecer inopinadamente e assim tem sido nos escassos meses de gestão.
Uma nuvem negra e ameaçadora cobre extensas regiões do mundo, principalmente naquelas nações que mais precisariam de paz para cumprir seus projetos de progresso. Uma das primeiras consequências foi a elevação vertiginosa dos preços de petróleo. Beneficiará a quem? Quais as consequências que sobrevirão para o mundo globalizado? Mais uma vez, os pobres pagarão pelos pecadores?


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Por Manoel Hygino - 7/4/2017 08:40:45
Ficando para as calendas

Manoel Hygino

O Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, desde 1822. Na República, o período é dos mais delicados, se não grave, e os esforços ora desenvolvidos para resolver os problemas que enfrenta não demonstram ainda força suficiente para vencê-los.
O panorama político, administrativo, jurídico, econômico e social já deve deixar insones os que têm a responsabilidade de gerir os destinos nacionais, depois dos desacertos, desvios, desmandos e falcatruas que resultaram na hora presente. Não há pressão, em termo de tempo, para a correção de rumos e atitudes.
O pior é que não se trata de soluções para questões rigorosamente da nação, porque todos elas se encontram e formam uma bola de fios, unidos uns aos outros, que precisam ser desenovelados a partir de um ponto único. Em resumo e linguagem comum, estamos todos enrolados em torno de temas, que envolvem e acolhem personalidades, gente de realce e poder de mando e decisão nos altos negócios.
Em última análise, os problemas só serão resolvidos de fato quando forem dadas soluções adequadas a cada caso de per si. No caso dos processos em andamento, abrangem extenso elenco de nomes prestigiosos da cena política e ocultam interesses múltiplos, enormes, que precisam ser identificados e investigados, para que culpa não pesem sobre inocentes e incautos.
Os acusados de agora simplesmente negam participação nos delitos, o que constitui uma maneira fácil de safar-se. Em outra fase
apontam-se pessoas que poderiam esclarecer os fatos e aí começa uma nova, longa e demorada inquirição, por testemunhas dos acontecimentos ou efetivo conhecimento e cuja conclusão se perde nas calendas.
Ora, são inúmeros os brasileiros que poderão ser convocados a depor na série imensa de escândalos que têm tumultuado a vida deste país em anos recentes. Se cada réu ou futuro réu indicar dois, três ou mais nomes de pessoas para serem ouvidas como testemunhas ou suspeitos, cairemos indesviavelmente no âmbito da conclusão impossível.
Há de levar-se em consideração também que poderão ser convidados a manifestar-se todos os cidadãos-eleitores, responsáveis originais e maiores pela escolha dos que nos representam, de um modo ou outro, nos três poderes.
Está-se ganhando tempo, procrastinando, para enfim os crimes serem prescritos e os criminosos ficarem imunes à ação da lei, um péssimo exemplo que ficará para as futuras gerações. Ficaremos, assim, sob o risco de pecar por omissão e, em consequência, por conivência. Será o peso que desabará, irreversivelmente, sobre todos nós, desta geração sofrida que pena, passa dificuldades, mata e morre nas ruas, sob o olhar desinteressado dos potentados. Eis a triste realidade que não podemos ignorar.
Não podemos perder de vista, enfim, que somos os autores do futuro. Não seremos perdoados em nossa falha.



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Por Manoel Hygino - 5/4/2017 08:03:06
O país em que estamos

Manoel Hygino

A bandidagem está solta país afora. O tema ficou frequente nos noticiários de televisão. No último dia 29, a montesclaros.com informou que dois homens assaltaram uma fazenda, no povoado de Laginha, zona rural de Montes Claros, perto da casa onde nasceu e viveu na infância a primeira mulher do ex-presidente Lula. Era meio da tarde. Os indivíduos pediram informações e água aos dois moradores – ele, com 72 anos, ela com 69. Armados de revólveres, renderam o casal. Prenderam os moradores, roubaram o possível e fugiram em moto. Com ajuda, até de helicóptero, a PM localizou a moto, que no cangaço moderno – faz o papel de cavalo.
Na capital e no interior, as tropelias continuam. A despeito da ação policial, os meliantes não cessam sua atividade. Invadem-se propriedades nas regiões rurais, agridem-se os trabalhadores rurais e seus familiares, furtam ou roubam (atente-se para a diferença). Assalta-se nas vias públicas das capitais, mata-se covardemente brasileiro ou estrangeiro, que ainda tem a coragem de aventurar-se por aqui, mesmo com GPS.
Os atentados contra as burras do tesouro se repetem, por todos os meios e condições, o Judiciário e o Ministério Público, a Polícia Federal e outros organismos de defesa do cidadão e dos bens do patrimônio comum, são incapazes de conter a ação delituosa. Chegamos à dura convicção de que os criminosos são mais poderosos que os honestos trabalhadores.
As cidades foram tomadas por delinquentes de toda idade e procedência. A periferia, ocupada por gente que veio de longe sonhando uma casinha para morar, estudo para os filhos e assistência à saúde, se tornou um lastimável depósito de famílias enganadas, desenganadas e revoltadas, em que se formam (?) as próximas gerações. Que gerações são estas, pode-se adivinhar.
As campanhas para amenizar a tragédia não resultam proveitosas. Até porque faltam estrutura e dinheiro, eis que dilapidadores do erário entraram em ação, há muito tempo. O Brasil acordou tarde na busca de soluções adequadas, efetivas e rápidas.
Minas, por suas dimensões nacionais, por sua privilegiada situação no mapa, por sua enorme malha viária (a maior do Brasil), sofre os efeitos. Há poucos dias, a Operação Alfin, deflagrada pela Polícia Federal de Mato Grosso do Sul, mostrou a delicada e grave participação do estado no tráfico internacional de drogas. Revelou o que, de antemão e até certo ponto, se sabia.
Agentes da lei prendem automóveis, caminhonetes, até aviões, com cargas de entorpecentes, vindos de nações próximas, mesmo não limitando o estado com outros países. O coordenador da operação e chefe da Delegacia da PF naquele estado explica que Minas Gerais tem sido constantemente rota do tráfico internacional em virtude de sua posição geográfica.
O mal não é apenas para estrangeiro sentir. Cidades grandes e pequenas se transformaram em pontos de consumo de drogas. Nossas crianças e adolescentes começam cedo no vício. Não diria que se ignora para onde estamos indo porque, em verdade, já estamos no reino deletério a que fomos atirados por incompetência, ignorância e interesses malsãos. Sair dele, eis o problema.


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Por Manoel Hygino - 4/4/2017 09:29:52
A sobrevivência da democracia

Manoel Hygino

Quando terminará a crise em que nos encontramos imersos? A pergunta não tem resposta, e aí está um dos pontos dramáticos da hora que nos aflige. Poder-se-ia perguntar como o fez Cícero da tribuna: “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”.
Resultado de décadas, mais do que isso, de inclemência com o povo deste país, pela insânia e despudorado uso do poder para manter privilégios criminosos mediante corrupção, atingimos um ponto crucial. Estão em debate e julgamento crimes hediondos cometidos contra a nação. O chamado mensalão é apenas uma referência, embora fizesse crer que os desmandos e desrespeito ao cidadão e a honra pátria estivessem a termo. Puro engano.
O crime se enraizou terrivelmente na máquina administrativa e vencê-lo não seria apenas questão de tempo. Tornara-se imprescindível transformar a mentalidade, a cultura, que se estabelecera. Dura e demorada missão.
O prestigioso advogado e professor de direito Antônio Álvares, em artigo de bem tempo atrás, comentou o tema, ao manifestar-se sobre as lições do mensalão. “Qual a utilidade desse processo para o país e para o povo?”, perguntava e ele mesmo respondia: “O lado mais positivo foi que um processo penal de importância chegou ao final e pessoas importantes foram condenadas, fato raro no país. O princípio de que todos são iguais perante a lei, em direitos e deveres, deixou de ser um mandamento no papel para ser uma realidade na prática”.
Incomoda, contudo, e muito, o problema dos recursos no Judiciário. O próprio advogado advertiu: “Outro aspecto positivo: no Brasil, endeusam-se recursos. Quanto mais, melhor. Os juízes de cima corrigem os juízes de baixo. No entanto, o mensalão só chegou ao fim exatamente porque a instância de julgamento era única, ou seja, começou e acabou no STF. Caso contrário, estaria se arrastando até hoje na primeira instância, com milhares de requerimentos, pedidos, provas, perícias e tudo mais que se pode fazer para amarrar os processos”.
Eis o momento que vivemos, quando o cidadão honesto, sofrido com as injustiças praticadas enquanto não se concluem os processos, começa a acreditar que os envolvidos nos crimes não pagarão por eles. Esta a maior desdita que poderia recair sobre o homem e as empresas dignas, que ainda insistem no caminho da lei, da ordem jurídica, da validade moral para vencer as circunstâncias. O Brasil não pode perder a confiança em si mesmo, mas esta é a hora da decisão.
Rubens Ricúpero observou, há exatamente sete anos, que “a cumplicidade interna com a corrupção sob pretexto de governabilidade (além da complacência externa com tiranos e violadores de direitos humanos em nome do realismo) são as manchas principais da situação que se vive no Brasil”.
A observação de sete anos é válida mais do nunca. Ricúpero acrescentou que os valores morais e o aperfeiçoamento da democracia são sacrificados a ganhos imediatistas. É a miopia moral que se concentra nos lucros perto e não enxerga os prejuízos a maior distância.
A possibilidade da democracia, como ensinava Bobbio, advém da confiança recíproca entre os cidadãos e destes nas instituições. A corrupção generalizada aniquila a confiança e provoca a degeneração, nelas, incapazes de funcionar bem.


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Por Manoel Hygino - 1/4/2017 07:57:35
O futuro ameaçado

Manoel Hygino

Em face dos ingentes, delicados e complexos problemas que afligem o mundo e, especificamente, o Brasil, neste quase fim de segundo decênio, do século XXI, medito. E há muito a meditar, diante do nível de insensibilidade humana, da degradação de costumes de modo geral, entre os quais os vigentes nos anais políticos.
O Brasil se tornou nação-problema, embora sempre ostentasse adequadas condições para fazer o seu povo feliz e próspero. No entanto, o que se vê, acompanha-se e se sente é uma débâcle que corrói grande parte do que ainda há de honesto e digno.
Era comum a nossas lideranças falar em pátria, honestidade e futuro, o que se transforma em lembrança cada vez mais distante. As palavras aparentemente foram riscadas dos discursos, até parecem ter perdido muito de seu sentido na atual fase de corrupção.
Faço o raciocínio, ao lembrar Francisco, o papa, ao apresentar à comunidade cristã a sua encíclica Laudato si: que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? A indagação é grave: “para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos?”.
Mais adiante, o pontífice propõe empreender em todos os níveis da vida social, econômica e política, um diálogo honesto, que estruture processos de decisão transparentes, enfatizando que nenhum projeto pode ser eficaz se não for animado por uma consciência formada e responsável.
Sublinha o moderno excesso de antropocentrismo: o ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder.
Daí a lógica do descartável, tratando o homem como um simples objeto de dominação. É a lógica que leva a explorar meninos e meninas, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em extinção e de “diamantes ensanguentados”. É a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos e de drogas, do descarte de crianças por não corresponderem ao desejo dos pais.
Neste começo do segundo trimestre de 2017, o quadro é dramático no Brasil, mas não somente aqui. Evidentemente têm os brasileiros de cuidar-se, em meio à tempestade e ao desvario de uma sociedade vergastada pela degradação.
As previsões são terríveis. A Organização Mundial do Trabalho advertiu, há poucos dias, que o mundo necessita de 40 bilhões de novos postos de trabalho. Isso tem consequências funestas, porque trabalhando é que se dá sentido à experiência humana.
Mas deve doer à consciência deste país notícias como a do menino de 6 anos, na Grande São Paulo, que ofereceu aos bandidos armados seu cofrinho de moedas para tentar salvar a vida do pai. Os criminosos queriam saber onde estava o cofre.
O marceneiro levou um tiro fatal no peito, diante da criança e de sua mãe após a humilde habitação ser invadida. Os malfeitores não sabem perdoar.


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Por Manoel Hygino - 30/3/2017 08:43:08
Com a alma engarranchada

Manoel Hygino

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), esteve mais uma vez em Belo Horizonte, a mais recente para pronunciar conferência na aula inaugural da Faculdade de Direito da PUC-MG. Lá estudou e se formou, lecionou, ganhando caminho para a carreira que o Brasil acompanha de perto.
De perto: primeiro, porque é mulher, e contra elas ainda há, por mais que se negue, certo preconceito pelo acesso do sexo feminino aos mais altos cargos dos três poderes. Mas também era um convite que não poderia deixar de atender, pois a PUC é a sua casa. E, como se diz em nossa terra, Montes Claros, seu e meu berço, não podia fazer feio.
Ademais, há uma tradição naquele rincão. É o respeito pela mulher, simbolizada entre outras por Dona Tiburtina, que teria influenciado fortemente a política local. No ano 30, deu-se o grave incidente de 6 de fevereiro, que resultou na morte e ferimentos graves de muitas pessoas, até altas autoridades no país. O jornalista Assis Chateaubriand denominou o episódio de “Emboscada de Bugres”, título de livro indispensável ao conhecimento dos fatos, de autoria de Milene Coutinho Maurício. Em verdade, mulher do sertão é séria, joga duro por suas convicções e exige respeito.
Ao chegar à PUC, dias atrás, a ministra recebeu apupo de duas dúzias de pessoas. Ela não se ofendeu, argumentou: “vaia é da democracia, faz parte do jogo”. Na manhã seguinte, aparecia sorridente em foto de jornal de Belo Horizonte, e ela não é de fácil sorriso.
A presidente da Suprema Corte afirmou o que o povo deste país precisava ouvir: “Nós, do Poder Judiciário, temos plena consciência de que o tempo da Justiça não pode levar décadas, porque o cidadão não pode morrer, sem saber o resultado. Mas o juiz é o menos interessado nessa demora”.
A crítica mais acerba (?) que se faz ao sistema é que a Justiça falha, ao delongar o andamento dos processos, acoimada de responsável maior pela impunidade. Carmen Lúcia foi clara: “Tenho que dizer que é chato você dar uma primeira decisão”... .
Continuou: “... recorrem, depois se dá uma segunda decisão, depois se leva para a turma do STF, aparecem os embargos declaratórios e os agravos. Semanas atrás, tivemos uma ação com decisão só no Supremo pela oitava vez. Há uma hora em que o processo não acaba nunca”.
A ministra enfatizou que o Brasil tem hoje 16 mil juízes para 80 milhões de processos. O volume excessivo impossibilita uma análise rápida sobre temas complexos que exigem ouvir todos os lados e assegurar o direito das defesas.
Declarou ainda: “sabemos que as demandas não satisfazem às exigências que a sociedade quer. Nós, do Poder Judiciário, temos plena consciência de nosso papel”, reconhecendo modificações e transformações que o próprio Judiciário quer e exige.
Carmen Lúcia esclareceu à suficiência: “O que vem para o Judiciário são os pedidos de autorização para investigar. É isso o que o procurador-geral da República vem fazendo nesta fase. As denúncias oferecidas são pouquíssimas”.
Carmen Lúcia pensa em voltar às montanhas, à cátedra, após aposentar-se no STF, no princípio de 2018. Planeja retomar às aulas na PUC-BH: “Estou com saudades dos meus meninos”, declarou.
E concluiu: “Acho que tenho a alma engarranchada em alguma árvore do norte de Minas”.


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Por Manoel Hygino - 20/3/2017 08:12:02
A Enchente das Goiabas

Manoel Hygino

No final de março, a grande expectativa e esperança residiam em chuvas. Aguardava-se ansiosamente as águas de março, que tradicionalmente caem no Dia de São José, 19, na interlândia identificada como Enchente das Goiabas. Para Belo Horizonte, o dia 18 seria de muito calor, quando os termômetros marcariam 31 graus. De modo geral, as previsões da Meteorologia não eram muito animadoras: sol com algumas nuvens, não chove. Ventos brandos nas serras.
Tempo de camisas molhadas pelo suor, de paletós apenas para aqueles que se acostumaram aos gabinetes, que contam com ar refrigerado. O ambiente político tampouco ajudava, extremamente candente. O brasileiro comum tentava entender o que acontece, com os veículos de comunicação divulgando o que é caixa 2, no palavrório dos ases do campo jurídico.
Ficara registrada a afirmação clara e peremptória da ministra Carmen Lúcia: “Caixa Dois é crime”. Mas como no Brasil, a lei é dura, mas estica, surgem emendas de várias fontes- explicações e argumentos que fundem cucas dos que querem saber exatamente o que ocorrerá.
Um pormenor foi observado: 15 de março é Dia do Circo e os cidadãos mais malévolos se julgam palhaços em meio ao tumulto político e às discussões jurídicas. Até o fantasma das febres, chikungunya, causada por vírus do mosquito, arrefeceu e, a febre amarela perdeu ressonância, porque estávamos em concentração na busca de respostas para nossas mais íntimas indagações. E desditas.
Para onde estamos indo?
A avalanche,parece, apenas começa a descer da montanha, e ganhou força com a lista de Janot, (e tivemos em Minas um Janot, que, em épocas passadas, fazia chover.Faz falta a esta altura). Se falhasse a Enchente de São José, outras poderiam sobreviver proximamente. Quem acompanha a mídia, sabe do que se trata.

O ministro da Fazenda, que fala grosso e forte, assegura decisão no dia 22. Será anunciado se haverá necessidade de aumento de impostos, bem como a possibilidade de correção do Imposto de Renda.
Não só: